sexta-feira, 30 de abril de 2010

Castelo de Vide: A Biblioteca Municipal Laranjo Coelho e a Associação dos Amigos do Estudo (1866)

A História da Leitura Pública em Castelo de Vide está, nas suas origens intimamente associada à fundação há mais de cento e quarenta anos (1866), da Associação dos Amigos do Estudo, por Alexandre Sequeira, Frederico Laranjo, António Farinha Pereira e César Videira. Constituiu a primeira concretização da «ideia» de uma «livraria» (ou biblioteca) pública. Quatro anos depois (1870) a Associação toma a designação de Grémio de Ilustração Popular, sob o impulso de Frederico Laranjo, de José António Serrano e de César Videira.
A biblioteca cresce e passa a dispor de leitura domiciliária. Dissolvido o Grémio, em 1903 foi o espólio existente entregue à Câmara Municipal. A partir de então, passou a competir à autarquia a continuação do trabalho iniciado pelo associativismo local. A biblioteca associativa transformou-se em Municipal e começam, então, as suas vicissitudes.
Instalada nos Paços do Concelho durante alguma tempo, foi votada ao abandono. Mais tarde (1908) reforçada com um legado de 3 147 volumes feito pelo prof. Dr. José António Serrano foi posta a funcionar. Pouco tempo depois, mais uma vez a Biblioteca Municipal é esquecida, até que Raposo Repenicado é incumbido da sua reorganização ( 1938 ), numa altura em que regista cerca de 11 000 volumes. Pela primeira vez se elabora um ficheiro, um catálogo e um regulamento. Funcionava então nas duas salas do rés-do-chão, viradas para a Carreira de Cima no edifício dos Paços do Concelho. A morte do responsável, Adolfo Marmelo, e um ataque de parasitas, levou de novo ao seu encerramento e os livros foram colocados em depósito numa sala voltada para a Praça D. Pedro V. Várias comissões, vários projectos, nos anos setenta, a nada de prático conduziram. A lacuna foi preenchida em parte, pela Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian.
Em 1982, a Câmara Municipal retirou de novo os livros das «trevas». A Biblioteca Municipal ocupa as duas salas do rés-do-chão dos Paços do Concelho, viradas para a Praça D. Pedro V. Mas menos de dez anos volvidos volta à situação precária e é instalada provisoriamente e sem condições, mais uma vez, na Rua Almeida Sarzedas.
A actual Biblioteca Municipal, à qual foi atribuído o nome de P.M. Laranjo Coelho, está instalada em edifício próprio, legado por este ilustre castelovidense para esse fim à Câmara Municipal.
A Biblioteca Municipal Laranjo Coelho está distribuída por cinco pisos, sendo constituída por um conjunto articulado de espaços funcionais. O Átrio/Recepção - É o Ponto de partida para a descoberta da Biblioteca, um espaço de acolhimento e orientação dos utilizadores. Nele se situa o balcão de atendimento central onde o utilizador pode ser esclarecido sobre o funcionamento da Biblioteca, fazer a sua inscrição e entrega das obras requisitadas para leitura domiciliária.
O átrio é também o espaço onde poderá informar-se sobre as actividades culturais desenvolvidas pela autarquia em geral, e pela Biblioteca, em particular. Aí estarão disponíveis ainda pequenas exposições e painéis informativos de acontecimentos, temas, personalidades e/ou temas bibliográficos que funcionarão como propostas ou sugestões para os utilizadores da Biblioteca.
No átrio estarão expostas e poderão ser adquiridas todas as publicações municipais.
Cortesia CMCastelo de Vide

Luís de Camões: Líricas, parte IV

Camões em pintura de José Malhoa
Quem pode livre ser, gentil Senhora

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.
Luís de Camões
Cortesia users.isr.ist.utl/JDACT

Fernão Lopes: O maior cronista de língua portuguesa. A preocupação pela busca da verdade

(1378?-1459?)
Fernão Lopes foi funcionário do paço e notário, nomeado cronista pelo rei D. Duarte, escreveu as crónicas dos reis D. Pedro I, D. Fernando e D. João I (1.ª e 2.ª partes). Do ponto de vista da forma, o seu estilo representa uma literatura de expressão oral e de raiz popular. Ele próprio diz que nas suas páginas não se encontra a formosura das palavras, mas a nudez da verdade. Era um autodidacta. Foi um dos legítimos representantes do saber popular, mas já no seu tempo um novo tipo de saber começava a surgir: de cunho erudito-académico e humanista.
Ocupa, entre a série dos cronistas gerais do Reino, um lugar de destaque, quer como artista quer pela sua maneira de interpretar os factos sociais. Fernão Lopes deve ter nascido entre 1378 e 1390, visto que em 1418 já ocupava funções públicas de responsabilidade (era Guardião-mor das escrituras da Torre do Tombo). Pertencia portanto à geração seguinte à que viveu o cerco de Lisboa e na batalha de Aljubarrota. A guerra com Castela acabou em 1411, pelo que Fernão Lopes pôde ainda acompanhar a sua fase, e conhecer pessoalmente alguns dos seus protagonistas, como D. João I, Nuno Álvares Pereira, os cidadãos de Lisboa que se rebeliaram contra D. Leonor Teles e elegeram o Mestre de Avis seu defensor em comício popular, alguns dos procuradores às Cortes de Coimbra de 1385 que, apoiando o dr. João das Regras declararam o trono vago e, chamando a si a soberania, elegeram um novo rei e fundaram uma nova dinastia.

Profissionalmente, Fernão Lopes era um tabelião, provavelmente de origem mesteiral, porque contava um sapateiro na família de sua mulher. Foi empregado da família real e da corte, escrivão de D. Duarte, ainda infante, do rei D. João I, e do infante D. Fernando, em cuja casa ocupou o importante posto de «escrivão da puridade», que correspondia ao cargo de maior confiança pessoal concedido pela alta nobreza. A partir de 1418, como disse anteriormente, aparece a desempenhar as funções de Guarda-mor da Torre do Tombo, encarregado de guardar e conservar os arquivos do Estado, lugar de confiança da Corte. Como prémio dos seus serviços, recebeu o título de «vassalo de El-rei», carta de nobreza atribuída então com certa liberalidade a membros das classes não nobres. Ainda vivia em 1459, segundo atesta um documento de transmissão de sua herança.

Cortesia de alfarrabio.di.uminho
Durante este longo período de actividade, Fernão Lopes atravessou os reinados de D. João I, D. Duarte, o governo de D. Pedro, e parte do reinado de D. Afonso V. Conheceu muitas alterações políticas e sociais. Ao rei eleito e popular, D. João I, viu suceder um rei mais dominado pela aristocracia, D. Duarte. Viu crescer o poder feudal dos filhos de D. João I, e com ele o predomínio da nobreza, que saíra gravemente abalada da crise da Independência. Assistiu à guerra civil subsequente à morte de D. Duarte, à insurreição de Lisboa contra a rainha viúva D. Leonor, e à eleição do infante D. Pedro por esta cidade, e em seguida pelas cortes, para o cargo de Defensor e Regedor do Reino, em circunstâncias muito parecidas com as que tinham levado o mestre de Avis ao mesmo cargo e seguidamente ao trono em 1383-1385. Assistiu depois à reacção do partido da nobreza, à queda do infante D. Pedro, à sua morte na sangrenta batalha de Alfarrobeira, à perseguição e dispersão dos seus partidários, ao triunfo definitivo da nobreza, no reinado. Foi testemunha do início da expansão ultramarina e teve a sua quota parte no desastre militar de Tânger, por causa da morte de seu filho médico do infante D. Fernando, que veio a morrer em cativeiro, em Marrocos.

Assinatura de Fernão Lopes (Fernandus Lopi). Consta de uma certidão de 14 de Dezembro de 1436, extraída a pedido do concelho e julgado de Riba de Lima, do Livro das Inquirições Régias, na parte aplicável à região, vistoriada em 26 de Abril de 1228.
«Esta preciosidade diplomática foi publicada em 1934, por Rocha Madahil. Elevam-se, assim, a vinte o número de certidões passadas pelo nosso primeiro historiador, no seu oficio de Guardador das escrepturas do tombo e chaves dela». In www.geira


Fernão Lopes viveu uma das épocas mais perturbadas da história de Portugal, cheia de ensinamentos para o historiador. A carreira de Fernão Lopes como historiador é provavelmente a mais longa do que há pouco se supôs, pois é provável que já em 1419 realizasse por encargo do então infante D. Duarte a compilação e redacção de uma crónica geral do reino de Portugal. Só em 1434, porém, aparece oficialmente encarregado pelo rei D. Duarte de relatar as histórias dos reis anteriores e os feitos do rei D. João I, pelo qual seria remunerado com uma pagamento anual. Após a morte deste rei o Regente D. Pedro, em nome de D. Afonso V, confirma Fernão Lopes na mesma incumbência, mantendo-lhe o salário. Em 1449, pouco antes da batalha de Alfarrobeira, ainda recebe um pagamento de D. Afonso V pelos seus trabalhos historiográficos, mas já nessa época entrara em actividade um outro cronista, Gomes Eanes de Zurara. A última obra em que Fernão Lopes trabalhou, a Crónica de D. João I, embora monumental, ficou incompleta e foi continuada por Zurara (a Crónica estava dividida em 3 partes das quais Fernão Lopes só pode escrever as duas primeiras).
As suas Obras:
  • Crónica de el-rei D. Pedro I;
  • Crónica de el-rei D. Fernando;
  • Crónica de el-rei D. João I, 1.ª e 2.ª partes.
A Crónica de el-rei D. Pedro é uma das crónicas de Fernão Lopes, escrita no século XVI, relatando a vida e feitos do rei D. Pedro I de Portugal, assim com o que de importante aconteceu em Portugal durante o seu reinado.
A Crónica d’El Rei D. João I, foi escrita pelo cronista Fernão Lopes, por incumbência do Rei D. Duarte.
A crónica é composta por duas partes:
  • 1ª parte – descreve o que se passou entre a morte de D. Fernando e a subida ao trono de D. João I;
  • 2ª parte – descreve os acontecimentos ocorridos durante o reinado de D. João I até 1411, altura em que foi assinada a paz com Castela.
Cortesia de cercarte
Cortesia Biblioteca Nacional de Lisboa/Rocha Madahil/Wikipédia/Ebooks/História de Portugal/JDACT

A Giesta (Maia): Nativa de Portugal. No Norte do país é tradição exibir, na porta, um ramo de giesta no dia 1º de Maio

Cortesia da Wikipédia

A giesta (Cytisus striatus) é uma planta arbustiva com 1 a 3 metros de altura, com ramos abundantes, estriados e flexíveis. Folhas constituídas por três folículos que aparecem na base dos ramos e caiem rapidamente. Flores solitárias nas axilas das folhas, com cálice em forma de campânula, cinco pétalas, amarelas, de grande tamanho. O fruto é uma vagem completamente coberta de pelos acinzentados e arredondada, com até 3,5 cm de comprimento.

Cortesia de L. Lopes
É nativa de Portugal e considerada daninha ou invasiva em muitas regiões. Os ramos são tradicionalmente utilizados para a manufactura de vassouras. Na língua inglesa as plantas do género Cytisus têm o nome comum «broom» que significa também vassoura. A Cytisus striatus é chamada de Portuguese broom, em referência à sua proveniência.
É comum encontrar quem use giesta para designar o que, talvez mais correctamente, se deveria designar por retama, ou seja, as espécies da mesma família (Fabaceae), mas do género Retama. Na região Norte, é tradição exibir um ramo de giesta no dia 1º de Maio, alegadamente como protecção contra o carrapato (identificado com o demónio ou com o mau-olhado). Por essa razão a planta é também conhecida como maia.
Classificação científica:
  • Nome Científico: Spartium junceum;
  • Sinonímia: Genista juncea;
  • Nome Popular: Giesta, vassoura-espanhola, retama;
  • Família: Fabaceae;
  • Divisão: Angiospermae;
  • Origem: Península Ibérica e Ilhas Canárias;
  • Ciclo de Vida: Perene
A giesta é um arbusto gracioso, para ser cultivado em jardins de inspiração campestre, contemporâneos ou mediterrâneos. A sua beleza destaca-se com opulência. Apresenta boa capacidade de conter a erosão e melhorar a fertilidade do solo, pois é uma leguminosa. No entanto, uma planta tóxica, que contém poderosos alcalóides (esparteína e citisina), e deve ser mantida fora do alcance de crianças ou animais domésticos. Devido à rusticidade da espécie e facilidade de multiplicação, a giesta pode ser considerada planta invasora em algumas situações. Deve ser cultivada sob sol pleno em solos férteis, bem drenados e irrigados periodicamente. Aprecia solos arenosos e o frio mediterrâneo a subtropical. Adubações anuais na Primavera estimulam um intensa floração. Não tolera o calor excessivo, mas é tolerante a solos salinos e pobres, assim como curtos períodos de seca. Multiplica-se por sementes.
É uma planta xerófita, com folhas adaptadas para reduzir a perda de água por transpiração. Para compensar a redução nas folhas, os ramos também apresentam função fotossintética. As inflorescências terminais são do tipo rácemo, com numerosas flores grandes e perfumadas. As flores amarelas são hermafroditas, pentâmeras, com cálice membranoso e unilabiado e corola papilionácea com estandarte arredondado e apiculado, com alas curvadas. A floração ocorre na primavera e verão. Ocorre ainda uma variedade de flores brancas, rara em cultivo. Os frutos são vagens finas, achatadas, pubescentes e deiscentes, negras quando maduras.
Cortesia Wikipédia
LLopes/Wikipédia/olhares/JDACT

Derrame de petróleo: A mancha atinge a costa dos EUA

Cortesia BBC
O derramamento de petróleo no Golfo do México atingiu a costa do estado americano da Louisiana, na noite passada (29), informam as agências internacionais de notícias. A France Presse e Associated Press dizem, com base na apuração com autoridades locais, que a mancha de óleo alcançou uma ilha perto do delta do Rio Mississippi, ameaçando a flora e a fauna da região. A Guarda Costeira confirmou a informação à BBC.
Vários estados norte americanos estão em alerta por causa do derrame de petróleo. As autoridade temem  que praias e refúgios de vida selvagem sejam «atingidos« em quatro estados. Além da Louisiana, que entrou em situação de emergência, estão ameaçados os estados do Mississipi, Alabama e Flórida. Cinco mil barris de petróleo jorram diariamente no mar do Golfo do México depois da explosão de uma plataforma, na semana passada. O derramamento é cinco vezes maior que o previsto e foi considerado catástrofe nacional pelo governo dos USA.

Os ventos ajudam à propagação do óleo para o continente, a poucos quilômetros da área de pântanos no delta do Rio Mississipi. Até agora os esforços para conter o avanço da mancha, que incluem até uma barreira de lona, foram insuficientes. O governo americano reforça a ajuda à região para tentar evitar um desastre ambiental ainda maior.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José Fraústo Basso: O concelho de Nisa na doação da Açafa (Fins do século XII)

Cortesia A Cidade
Nº 1 (Nova Série)/Janeiro a Junho de 1988

Com a devida vénia para a revista A Cidade (Jan-Jun de 1988). Homenagem a José Fraústo Basso.
«Este artigo foi-nos confiado por Fernando Portugal, através do Dr. Brás de Oliveira, Director da Área de Espólios da Biblioteca Nacional, algumas semanas antes do falecimento do autor. A sua inserção nas páginas desta revista é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao Dr. José Fraústo Basso, que foi um amigo e colaborador de A Cidade na sua 1." série.
José Augusto Fraústo Basso nasceu em Nisa a 22 de Agosto de 1901, e ali morreu a 7 de Setembro de 1987. Era filho de Júlìo da Graça Marques Basso e de Maria Augusta Fraústo Basso. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia na sua terra natal onde foi também notário. Ocupou diversos cargos públicos de relevo, com destaque para o de Procurador à Câmara Corporativa (1934), Presidente da câmara Municipal de Nisa (de 1932 a 1942, e novamente a partir de 1948), e Presidente do Grémio da Lavoura da mesma vila. Grande amigo das misericórdias, foi, durante 50 anos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Nisa. Desempenhou ainda os cargos de Presidente da União Geral das Misericórdias Portuguesas e Vice-secretário da Confederação Internacional das Santas Casas da Misericórdia (Portugal e Brasil). Era Comendador da Ordem de Benemerência. Estudioso da história e da arqueologia local, trabalhou com José Leite de Vasconcelos, Rui de Azevedo, Manuel Heleno, D. Fernando de Almeida, Vera e George Leìsner, publicando alguns trabalhos sobre temática regional em diversos jornais e revistas como O Distrito de Portalegre e A Cidade». In A Revista

Ao ler o livro de Carlos Tomás Cebola «Nisa, A outra História», edições Colibri/CM de Nisa, (2005, Julho) fiquei desejoso de conhecer todo o trabalho realizado pelo Dr. Basso. Apoiado pelas conversas amenas de JCM de Alpalhão e MP (exerceu medicina em Nisa) aqui apresento a minha singela homenagem ao notável nisense. Em breve, falarei sobre o Prof. Carlos Cebola e a investigação que desenvolveu sobre a Outra História de Nisa, que considero muito relevante. Estamos a falar de cidadãos nascidos numa vila que é Mui Notável desde o tempo de D. João I.
   
Em trabalho que, sob o pseudónimo de Zé Nisorro, publicámos em Agosto de 1981, abordámos ligeiramente os problemas da fundação de Nisa e da doação da Herdade de Açafa, efectuada em 1198, segundo uns, ou em 1199 segundo outros, pelo nosso rei D. Sancho I, em favor dos Templários e em troca das igrejas de Mogadouro e de Pedras Rubras. E nesse mesmo trabalho manifestámos o desejo e o propósito de tratar, com maior e com o devido desenvolvimento, em futura oportunidade, o magno e polémico problema dos limites da referida doação da Açafa.
É isso que, volvidos mais de cinco anos, vamos agora tentar realizar, no propósito, porventura imodesto, de contribuir com o resultado do nosso estudo e das nossas investigações, para o esclarecimento e rectificação de um problema sobre o qual se têm debruçado eminentes mestres e historiadores. É que, na realidade, «não basta dizer uma coisa, nem que muitos a digam: é necessário ver os fundamentos com que escrevem», como disse Frei António Brandão na Crónica de D, Sancho I e de D. Afonso II.

Em boa verdade, vamos tentar remar contra a maré dos tempos e contra conclusões, historicamente consideradas incontroversas e irreversíveis, perfilhadas ou admitidas por gentes de muito saber. De resto, já no nosso anterior e aludido trabalho anunciámos, muito claramente, as conclusões que sobre a matéria perfilhamos e que, aliás, já são aceites por diversas entidades que, ultimamente, se têm debruçado sobre o mesmo problema. E para que, logo de início, fique bem expresso o nosso pensamento, repetiremos o que, naquele trabalho, dissemos; julgamos servir a verdade, sem deixar de admitir, evidentemente, que possamos estar errados e de, consequentemente, submeter à apreciação alheia a rectificação dos nossos pontos de vista.
Assim, em 1981., escrevemos:

«É que, segundo nos parece agora, em desacordo frontal com a hipótese que Alexandre Herculano admite e que a generalidade dos autores tem seguido, o tão falado castelo de Terrom (e não Ferron), em tais limites referido (alusão aos limites da doação da Açafa) não se situava nas cercanias da vila de Nisa, nem tampouco o mosteiro de Alpalante, a que na doação também se alude, se situava nas proximidades da actual povoação de Alpalhão, nem ainda Moha de Salor tem qualquer ligação com a ribeira de Nisa».

Não vamos aqui repetir tudo o que escrevemos em 1981,mas é certo que, para bem se compreender o assunto, convém relembrar alguns pontos essenciais já focados. E assim, recordamos o que o grande historiador Alexandre Herculano nos ensina: «Não é possível, apenas à luz dos documentos escritos, atribuir às modernas vilas do Alto Alentejo, uma origem anterior à fundação da Monarquia Portuguesa. No século XII eram contínuas, nessa região, as lutas entre cristãos e Sarracenos e eram constantes as incursões cristãs da Beira nas zonas situadas a sul do Tejo, como também o eram as penetrações dos mouros a norte desse rio. É, por isso, de concluir que, nesses tempos remotos, o Alto Alentejo se encontrava, em geral, despovoaclo e a ninguém, de facto pertencia o respectivo território».
Cortesia A Revista, 1988, nº 1 (Nova Série)/Carlos T. Cebola/José Fraústo Basso/JDACT

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cidade de Estremoz: O FIAPE 2010 (28 de Abril a 2 de Maio)

«Entre 28 de Abril e 2 de Maio, o Parque de Feiras e Exposições recebe a XXIV edição da FIAPE, em paralelo com a realização da XXVIII edição da Feira de Artesanato de Estremoz. Ambos os certames constituem um dos principais eventos de promoção económica do Concelho de Estremoz e do Alentejo, tendo vindo, ao longo dos anos, a conquistar o seu espaço no calendário regional e nacional das feiras de actividades económicas.Este lugar de referência foi atingido tanto pela qualidade, como pela quantidade das exposições presentes e ainda pela excelência da diversificada oferta em termos de animação cultural e espectáculos. Com efeito, os milhares de visitantes que habitualmente nos honram com a sua presença, já sabem que aqui encontrarão uma série de produtos de qualidade, que correspondem àquilo que de melhor se produz na nossa região». In Câmara Municipal.
Lago do Gadanha
Cortesia CMEstremoz
 Estremoz é uma cidade portuguesa no Distrito de Évora, região Alentejo, subregião Alentejo Central, sendo um município subdividido em 13 freguesias. O município é limitado a norte pelos municípios de Sousel e Fronteira, a nordeste por Monforte, a sueste por Borba, a sul pelo Redondo e a oeste por Évora e por Arraiolos.
Estremoz é uma cidade conhecida internacionalmente pelas suas jazidas de mármore branco. A exploração do mármore de Estremoz tem uma origem muito antiga, como comprova o Templo romano de Évora, que contém mármore originário de Estremoz. Está também presente no altar-mor da Catedral de Évora.

Em 1336, a Rainha Santa Isabel, então com 65 anos, deslocou-se a Estremoz desde o convento franciscano em Coimbra, onde se tinha recolhido após a morte de D. Dinis, seu marido, de modo a evitar uma guerra entre o seu filho Afonso IV e o rei de Castela Afonso XI. Afonso IV declarou guerra a Afonso XI pelos maus tratos que este infligia à sua esposa D. Maria (filha do rei português). A Rainha Santa Isabel colocou-se entre os dois exércitos desavindos, e de novo evitou a guerra tal como tinha acontecido em 1323 na batalha de Alvalade, entre as tropas de D. Dinis e as de D. Afonso IV. Estremoz foi o local de falecimento do rei D. Pedro I, em 1367, no convento dos franciscanos.

Na crise de 1383-1385, foi uma das cidades conquistadas no Alentejo por João Mestre de Aviz e Nuno Álvares Pereira, logo a seguir ao início das hostilidades desta crise dado com o assassíno do Conde de Andeiro em Lisboa. Foi nas proximidades de Estremoz que se deu a primeira batalha entre as duas facções da crise, a batalha dos Atoleiros. Em 1659, foi em Estremoz que o exército português se reuniu às ordens de D. António Luís de Meneses, conde de Cantanhede, para socorrer Elvas, que se encontrava cercada por um exército espanhol, comandado por D. Luís de Haro. De ali partiram para derrotar os espanhóis na Batalha das Linhas de Elvas, tendo causado enormes baixas aos seus adversários.
Convento das Maltezas
O Centro Ciência Viva de Estremoz está instalado no antigo Convento das Maltezas e constitui-se num espaço de cariz museológico, integrante da rede de Centros Ciência Viva. Este espaço privilegia a interactividade entre os visitantes e a exposição permanente, a qual é dedicada ao planeta Terra e à sua evolução geológica. O projecto é uma parceria entre a Câmara Municipal de Estremoz, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a Universidade de Évora, a Direcção Regional de Educação do Alentejo e o Ciência Viva / Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica.
Quem coordena as actividades quotidianas do Centro é o Laboratório de Investigação de Rochas Industriais e Ornamentais, uma unidade de investigação da Universidade de Évora, com sede no Pólo de Estremoz.
Inaugurado em Maio de 2005, o Centro está integrado na Rede de Museus do Concelho de Estremoz desde 2006, sendo um membro fundador da mesma.
Porta de Évora

Porta de S. António

Porta de Santa Catarina

Porta de Santarém

Porta dos Currais
«Não existem dados concretos acerca das origens do castelo de Estremoz. É de crer que a fortificação só tenha começado a ser erguida na viragem dinástica que impôs D. Afonso III no poder, o que lhe confere um estatuto de fortaleza-símbolo do novo quadro político saído da primeira guerra civil do jovem reino de Portugal. No tempo de D. Dinis, já o castelo deveria estar definido, sendo o projecto um dos mais importantes da altura, a ponto de a cerca ser defendida por 22 torres e a população intra-muros poder ser abastecida por cerca de 20 cisternas. A importância de Estremoz na primeira metade do século XIV é inquestionável, datando desse período um importante conjunto patrimonial que tem o castelo como denominador comum, mas que se estende a outras obras, como o Paço da Audiência ou secções consideráveis do paço real, hoje transformado em pousada. Na posse da rainha Santa Isabel, que aqui faleceu em 1336, Estremoz transformou-se num dos principais centros políticos do reino, acolhendo figuras importantes e sendo palco privilegiado da política régia durante todo o final da primeira dinastia. O castelo segue uma planta genericamente pentagonal, adaptada ao maciço rochoso em que se implanta. A secção principal localiza-se do lado Sul, onde avulta a imponente torre de menagem. De planta quadrangular, tem cerca de 27 metros de altura e deve ter sido concluída pela década de 70 do século XIV, quando D. Fernando procedeu às derradeiras obras no conjunto. Interiormente, organiza-se em três andares: o primeiro, escassamente iluminado, terá servido de prisão; o segundo corresponderá a uma sala de audiência real, onde se encontra o brasão nacional: é uma sala de planta octogonal, coberta por abóbada polinervada estrelada, assente sobre capitéis de decoração vegetalista plenamente naturalistas; o terceiro possui balcões de matacães que desempenham uma função exclusivamente militar. Finalmente, o terraço é protegido por ameias (a quase totalidade incorporada na torre aquando do restauro de 1940). Conhece-se um mestre que trabalhou neste projecto e que assinou, mesmo, uma chave de abóbada: ANTON, certamente o mesmo que consta dos Paços da Audiência de D. Dinis, estrutura arquitectónica anexa ao castelo, aberta por galilé de cinco tramos, cuja galeria foi inicialmente coberta por tecto de madeira, entretanto substituído pela actual abóbada de cruzaria de ogivas no reinado de D. Manuel I. Ao centro, um portal apontado, sobrepujado por moldura escultórica com as insígnias do rei D. Afonso IV (monarca que terá terminado o conjunto) permite o ingresso no salão de audiências, espaço de planta trapezoidal coberto por abóbada octogonal manuelina.
Do conjunto fortificado medieval faz ainda parte a cerca de tendência poligonal que terá sido iniciada em tempo do rei D. Afonso III. Esta era aberta por duas portas principais (a do Sol, também designada por Frandina, e a de Santarém, mais tarde conhecida como Porta de Santa Ana) que rasgavam o recinto fortificado de nascente a poente. Para além disso, existiam outros postigos e portas secundárias que permitiam uma constante mobilidade entre o interior e o exterior das muralhas. De todas elas, a que melhor se conserva é o Arco de Santarém, vão ogival protegido por alta torre quadrada e acompanhada por legenda epigráfica que testemunha o início da edificação, no reinado de D. Afonso III. Apesar desta aparente permeabilidade, o conjunto apresenta um notável sistema defensivo, enriquecido nos séculos finais da Idade Média com novos dispositivos e uma poderosa cisterna junto à actual capela da Rainha Santa. Nos séculos seguintes, a relevância de Estremoz no quadro militar do país acentuou-se, o que determinou o total amuralhamento da cidade durante as grandes obras de meados do século XVII, comandadas por João Pascásio Cosmander». In IPPAR
Alcáçova, Castelo

Porta da Frandina
http://www.cm-estremoz.pt/
Cortesia da CMEstremoz/JDACT

A «Bela» cidade de Portalegre: «Nem a infante, nem a homem rico, nem a rica-dona, mas ser d’ el-Rei e de seu filho primeiro herdeiro»

Câmara Municipal de Portalegre
Antigo convento e colégio da Companhia de Jesus
Cortesia Wikipédia.
Portalegre é uma cidade portuguesa, capital do Distrito de Portalegre, situada na região do Alentejo, sub-região do Alto Alentejo. É sede de um município subdividido em 10 freguesias, limitado a norte pelo município de Castelo de Vide, a nordeste por Marvão, a leste pela Espanha, a sul por Arronches e Monforte e a oeste pelo Crato.
Embora a paisagem dos municípios a norte de Portalegre ainda seja tipicamente alentejana, com zonas relativamente planas alternando com colinas na maior parte dos casos relativamente médias/altas, Portalegre é frequentemente descrita como uma zona de transição entre o Alentejo mais seco e plano, e as Beiras, mais húmidas e montanhosas. A orografia é mais variada do que na generalidade do resto do Alentejo, o que contribui para que a paisagem tenha características peculiares.
A cidade, como é vulgarmente conhecida, encontra-se a uma altitude entre os 450 e 600 metros, na zona de transição entre a paisagem relativamente plana, mas com muitas colinas pouco elevadas a sul e oeste, e o sistema montanhoso da Serra de S. Mamede, que a rodeia a norte, leste e sueste.

A geologia é variada, o que se traduz na variedade dos solos, existindo zonas de xistos, grauvaques, calcários e quartzitos. As características únicas da paisagem, flora e fauna, estão na base da criação do Parque Natural da Serra de São Mamede, que integra uma parte considerável da área do concelho.
Muralha junto à Rua da Figueira
Cortesia Wikipédia 

Muralha junto à Rua dos Muros de Baixo; ao fundo situava-se a Porta do Postigo
Cortesia Wikipédia
O nome de Portalegre terá origem em Portus Alacer (porto, ponto de passagem, e alacer, alegre), ou mais simplesmente Porto Alegre. É provável que no século XII existisse um povoado no vale a leste da Serra da Penha. O nome de Portalegre, onde uma das actividades importantes seria a de dar abrigo e mantimentos aos viajantes (daí o nome de porto, ponto de passagem ou abastecimento). Sendo o local aprazível (alegre), nomeadamente pelo contraste das suas encostas e vales verdejantes com a paisagem mais árida e monótona a sul e norte. A povoação prosperou e sabe-se que em 1129 era uma vila do concelho de Marvão, passando a sede de concelho em 1253, tendo-lhe sido atribuído o primeiro foral em 1259 por D. Afonso III, que mandou construir as primeiras fortificações, as quais não chegaram a ser completadas. Juntamente com Marvão, Castelo de Vide e Arronches, a cidade de Portalegre foi doada por D. Afonso III ao seu segundo filho, Afonso.
O rei seguinte, D.Dinis, mandou edificar as primeiras muralhas em 1290, as quais ele próprio viria a cercar durante 5 meses em 1299, na sequência da guerra civil que o opôs ao seu imrão, que reclamava o trono alegando que D. Dinis era filho ilegítimo. Nesse mesmo ano, D. Dinis concederia a Portalegre o privilégio de não ser atribuído o senhorio da vila «nem a infante, nem a homem rico, nem a rica-dona, mas ser d’ el-Rei e de seu filho primeiro herdeiro».
Após D. Fernando ter morrido em 1383 sem deixar herdeiros masculinos, D. Leonor Teles assumiu a regência do Reino ao mesmo tempo que se amantizava com o Conde Andeiro, um fidalgo galego. Esta situação inquietou grande parte do povo, burguesia e uma parte da nobreza, pois temia-se que esta situação reforçasse as pretensões ao trono português de D. João I de Castela, o qual era casado com D. Beatriz, a filha de D. Fernando e D. Leonor. Esta crise dinástica, que envolveu uma guerra civil com contornos de guerra entre Portugal e Castela, viria a ficar conhecida como a Crise de 1383—1385. O partido mais forte de entre os que se opunham às pretensões ao trono de D. João de Castela e D. Beatriz apoiava a coroação do Mestre de Avis. Entre os nobres que apoiaram o Mestre de Avis contava-se Nuno Álvares Pereira, irmão do então alcaide de Portalegre, Pedro Álvares Pereira, Prior do Crato (líder da Ordem dos Hospitalários em Portugal), o qual era acérrimo partidário de D. Leonor. Esta posição do alcaide provocou a revolta do povo de Portalegre, que cercou o castelo e obrigou D. Pedro a fugir para o Crato. O ex-alcaide viria a morrer em 1385 na Batalha de Aljubarrota, onde combateu do lado contrário do seu irmão Nuno. A mãe dos irmãos Álvares Pereira, Fria Gonçalves, vivia nesse tempo no «Corro» (actual Praça da República).
A vila foi crescendo em importância e em 21 de Agosto de 1549 foi criada a Diocese de Portalegre, por bula do papa Paulo III, na sequência de diligências nesse sentido por parte do rei D. João III, que elevaria Portalegre a cidade a 23 de Maio de 1550. A importância da cidade nessa época traduzia-se, por exemplo, no volume das receitas do imposto sobre as judiarias, o qual era semelhante ao do Porto, e só era ultrapassado pelo de Lisboa, Santarém e Setúbal. Era também um dos centros de indústria de tecidos mais importantes do país, juntamente com Estremoz e Covilhã.

Sé Catedral de Portalegre
Portalegre torna-se capital do distrito com o seu nome, aquando da formação dos distritos a 18 de Julho de 1835. As famosas portas de Portalegre, estão assinaladas na planta em baixo. 


1 - Porta de Elvas; 2 - Porta de Évora; 3 - Porta do Crato; 4 - Porta Falsa; 5 - Porta da Devesa; 6 - Porta do Postigo;
7 - Porta de Alegrete
No passado existiam 7 portas (alguns estudiosos falam em 8), das quais só subsistem 5. As mais emblemáticas são a Porta do Crato, mais conhecida por Arco do Bispo, a Porta da Devesa ou do Espírito Santo, no cimo da Rua 5 de Outubro e a Porta de Alegrete, do século XIII ( ou de São Francisco, conhecida hoje por arco de Santo António, no extremo ocidental da Praça da República (antigo «Corro»).
Alguns edifícios históricos:
  • Antigo Seminário (século XVI/XVIII), actual Museu Municipal;
  • Antigos Paços do Concelho (sede da câmara municipal) (século XVII);
  • Palácio dos Condes de Vilar Real ou de D. Nuno de Sousa (século XVI), onde se destacam as janelas manuelinas;
  • Casa dos Condes de Melo;
  • Palácio Achioli (século XVI e XVIII), actual Escola Superior de Educação de Portalegre;
  • Palácio Amarelo;
  • Palácio Avillez (século XVIII), actual Governo Civil;
  • Palácio Barahona (século XVIII), aloja actualmente o Arquivo Distrital de Portalegre;
  • Palácio dos Condes de Castelo Branco (século XVIII), actualmente aloja o Museu da Tapeçaria de Portalegre;
  • Palácio dos Andrade e Sousa (século XVII), actualmente sede do Instituto Politécnico de Portalegre.
A cidade de Portalegre e os seus arredores contam com mais de 30 fontes históricas. Até finais do século XIX, a água canalizada estava praticamente circunscrita às fontes, e só a partir dos anos 40 do século XX se pode falar de água canalizada ao domicílio. As fontes de Portalegre começam, por isso, por constituir um mobiliário urbano de características utilitárias.

Outros pontos com interesse histórico:
  • Portal Gótico da Rua do Castelo;
  • Rua dos Besteiros;
  • Rua do Arco;
  • Plátano do Rossio;
  • Praça da República (antigo Corro);
  • Miradouro de Santa Luzia – Situado na Serra de Portalegre (679 m), na estrada para o Salão Frio, a norte da cidade;
  • Miradouro da Penha – Situado no adro de um capela do século XVII na encosta da Serra da Penha, a oeste da cidade;
  • Miradouro das Carreiras – Situado na povoação do mesmo nome, é um local panorâmico de grande beleza paisagística natural. Na freguesia das Carreiras existem também troços de calçada medieval que merecem ser visitados;
  • Miradouro da Igreja de Nossa Senhora da Lapa – Outro local de panorâmico de grande beleza paisagística natural, à beira de uma pequena Igreja cavada na rocha, a 1 km da povoação de Besteiros;
  • Pico da Serra de São Mamede – Situado a 1025 m de altitude, é o ponto mais elevado de Portugal continental a sul do Tejo. Dali se avista a barragem da Apartadura, a vila de Marvão, a Serra da Estrela e parte da Extremadura espanhola.
Muito fica por dizer sobre a «Bela» cidade de Portalegre. Uma Parte II surgirá.
Cortesia Wikipédia/CMPortalegre/JDACT

terça-feira, 27 de abril de 2010

Papa João XXI: Pedro Julião Rebelo, o Papa português do Séc. XIII, o «completo cientista físico e naturalista»

 Papa João XXI
188.º Papa
Cortesia Wikipédia
João XXI nascido Pedro Julião Rebelo, também conhecido como Pedro Hispano, ou Petrus Hispanus, assim cognominado em razão de, no século XIII, Hispania designar toda a Península Ibérica e Pedro Hispano Portugalense, é uma das figuras exponenciais da Escolástica do século XIII.
Foi Papa entre 20 de Setembro de 1276, até à data da sua morte, 20 de Maio de 1277. Além deste cargo nobilíssimo, foi um famoso médico, professor e matemático português do século XIII.
Pedro Julião Rebelo, ou Pedro Hispano, nasceu em Lisboa, no então Reino de Portugal, provavelmente na que é a actual freguesia de São Julião, em data não conhecida, seguramente antes de 1226 (quase todos os investigadores apontam entre 1205 e 1210), filho de Julião Rebelo, médico, e de Teresa Gil (embora Ribeiro Soares defenda que possa ter sido filho do chanceler de D. Sancho I, Mestre Julião Pais).
Começou os seus estudos na escola episcopal da catedral de Lisboa, tendo mais tarde estudado na Universidade de Paris (alguns historiadores afirmam que terá sido na Universidade de Montpellier) com mestres notáveis, como São Alberto Magno, e tendo por condiscípulos São Tomás de Aquino e São Boaventura, grandes nomes do cristianismo. Em Paris estuda medicina e teologia, dedicando especial atenção a palestras de dialética, lógica e sobretudo a física e metafísica de Aristóteles. Entre 1246 e 1252 ensinou medicina na Universidade de Siena, onde escreveu algumas obras, de entre as quais se destaca o Tratado Summulæ Logicales que foi o manual de referência sobre lógica aristotélica durante mais de 300 anos, nas universidades europeias. Este Tratado foi traduzido para grego e hebraico.

Prova da sua vastíssima cultura científica encontra-se na obra «De oculo», um Tratado de Oftalmologia, que conhece ampla difusão nas universidades europeias. Como exemplo, quando Miguel Ângelo adoece gravemente dos olhos devido ao árduo labor consumido na decoração da Capela Sistina, encontra remédio numa receita de Pedro Julião. De sua autoria, o «Thesaurus Pauperum», o Tesouro dos pobres, em que trata de várias doenças e suas curas, traduzido para 12 línguas.

O Tesouro dos pobres
Cortesia de viadeiportoghesi
Já no domínio da Teologia, é autor de Comentários ao pseudo-Dionísio e Scientia libri de anima. Segundo os historiadores, encontra-se por publicar a obra De tuenda valetudine, manuscrita em Paris e dedicada a Branca de Castela, esposa do rei Luís VIII de França, filha de Afonso IX de Castela.
Antes de 1261, ano em que é eleito decano da Sé de Lisboa, Pedro Julião ingressa na vida religiosa. O rei Afonso III de Portugal confia-lhe o priorado da Igreja de Santo André (Mafra) em 1263, posto o que é elevado a cónego e deão da Sé de Lisboa, Tesoureiro-mor na Sé do Porto e D. Prior na Colegiada Real de Santa Maria de Guimarães.

Após a morte de D. Martinho Geraldes, Pedro Julião é nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X, em 1273. Um ano depois, participa no XIV Concílio Ecuménico de Lião, altura em que Gregório X o eleva a Cardeal-bispo com o título de Tusculum-Frascati, da Diocese suburbicária de Frascati, o que permite ao pontífice poder contar com os serviços médicos do sábio português. Regressa ao Arcebispado de Braga, até ser nomeado o sucessor, D. Sancho. De volta á corte pontifícia, Gregório X nomeia-o seu médico principal (arquiatro) em 1275.
A eleição de Pedro Julião, em conclave realizado em Viterbo, após a morte do Papa Adriano V, a 18 de Agosto de 1276, decorre num período muito perturbado por tensões políticas e religiosas e com alguns cardeais a sofrer violências físicas. É eleito Papa a 13 de Setembro e coroado a 20 de Setembro de 1276, e adopta o nome de João XXI.
João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressa-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera. Embora sem grande sucesso, leva por diante a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente. Esforça-se por libertar a Terra Santa em poder dos turcos. Tenta reconciliar grandes nações europeias, como França, Alemanha e Castela, dentro do espírito da unidade cristã. Neste sentido, envia legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou, sem sucesso.

Pontífice dotado de rara simplicidade, recebe em audiência tanto os ricos como os pobres. Dante Alighieri, poeta italiano (1265-1321), na sua famosa «Divina Comédia», coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a alma de São Boaventura, apelidando-o de «aquele que brilha em doze livros», menção clara a doze tratados escritos pelo erudito pontífice português. O rei aragonês Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de D. Dinis de Portugal, elogia-o em forma de canção no «Paraíso», canto XII. Mecenas de artistas e estudantes, é tido na sua época por «egrégio varão de letras», «grande filósofo», «clérigo universal» e «completo cientista físico e naturalista».
Mais dado ao estudo que às tarefas pontifícias, João XXI delega no Cardeal Orsini, o futuro Papa Nicolau III, os assuntos correntes da Sé Apostólica. Ao sentir-se doente, retira-se para a cidade de Viterbo, onde morre a 20 de Maio de 1277, com 51 anos de idade. É sepultado junto do altar-mor da Catedral de São Lourenço, naquela cidade. No século XVI, durante os trabalhos de reconstrução do templo, os seus restos mortais são trasladados para modesto e ignorado túmulo, mas nem aqui encontraram repouso definitivo. Através do contributo da Câmara Municipal de Lisboa, por João Soares então seu presidente, o mausoléu é colocado, a título definitivo, ao lado do Evangelho de Catedral de Viterbo, a 28 de Março de 2000.

Catedral de São Lourenço, de Viterbo, onde está sepultado o Papa João XXI
Cortesia de distoequeeugosto
(A obra filosófica e médica de Pedro Hispano (Papa João XXI)
Cortesia de Sebastião Gusmão/JDACT

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Flor da Esteva: Uma flor lindíssima que domina os campos

Flor de esteva
Ao andar pelos campo deparamo-nos com a Flor da Esteva (Cistus ladanifer). Uma flor lindíssima que domina os terrenos, quer junto às estradas nacionais, quer nos carreiros das encostas. Uma planta com flores da família Cistaceae. O nome comum é Esteva, Estêva, Ládano, Lábdano, Roselha ou Xara).


A Flor
Cortesia Wikipédia
A Flor de Esteva é nativa da parte ocidental da região mediterrânica, crescendo espontaneamente desde o sul de França a Portugal e no noroeste de África. O nome do género da esteva - Cistus - tem a ver com o facto de os frutos serem cápsulas globosas com 7 a 10 compartimentos. Etimologicamente vem do grego «ciste» que significa caixa ou cesto. Trata-se de um arbusto que atinge 1-2,5 m de altura,  as folhas são persistentes, lanceoladas, com 3–10 cm de comprimento e 1–2 cm de largura, verde escuro na face superior e mais claro na inferior. As flores têm 5–8 cm de diâmetro, com 5 pétalas brancas finas, normalmente com um ponto vermelho a castanho na base de cada uma, rodeando os estames e pistilos amarelos. Toda a planta apresenta-se recoberta com um exsudado (em forma de suor ou gotas) de resina aromática.
É uma planta ornamental popular, cultivada devido à sua folhagem aromática e belas flores.
As folhas libertam uma resina aromática, o ládano ou lábdano, usado em perfumaria, especialmente como fixador dos perfumes. O epíteto específico da esteva «ladanifer» vem do facto de ela produzir a resina denominada ládano cuja abundância lhe permite competir com outras espécies visto que parece inibir o crescimento destas - esta estratégia é denominada alelopatia. A resina serve também para proteger a planta contra a dissecação.
Segundo a literatura, existe um método de colheita de esteva muito curioso. Utiliza-se rebanhos de cabras que se colocam a pastar em zonas de grande densidade de esteva; de seguida, penteia-se o pêlo dos animais para recolher a resina.
 Classificação Científica
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Malvales
Família: Cistaceae
Género: Cistus
Espécie: C. ladanifer
Cortesia de olhares
JDACT

Egas Moniz o «Aio»: Na sua «astúcia» está a Independência de Portugal

(1080-1146)
Cortesia de trabalhoegasmoniz
Egas Moniz, dito «o Aio» foi um rico-homem portucalense, da linhagem dos Riba Douro uma das cinco grandes famílias do Entre-Douro-e-Minho condal do século XII, a quem Henrique de Borgonha, conde de Portucale confiou a educação do filho, Afonso Henriques, tarefa essa que lhe deu o cognome pelo qual é conhecido.

A batalha de Valdevez entre os exércitos de D. Afonso Henriques e Afonso VII de Castela não teve um resultado decisivo para nenhuma das hostes envolvidas. D. Afonso Henriques retirou-se para Guimarães com o seu aio Egas Moniz e com os outros chefes das cinco famílias mais importantes do Condado Portucalense, interessadas na Independência.
O monarca castelhano pôs cerco ao castelo de Guimarães mas o futuro rei de Portugal preferia morrer a render-se ao primo. Egas Moniz, fundamentado na autoridade que a posição e a idade lhe conferiam, decidiu negociar a paz com Afonso VII a troco da vassalagem de D. Afonso Henriques e dos nobres que o apoiavam.
O rei castelhano aceitou a palavra de Egas Moniz de que D. Afonso Henriques cumpriria o voto de vassalagem. Mas um ano depois, D. Afonso Henriques quebrou o prometido e resolveu invadir a Galiza, dando origem a um dos momentos mais heróicos da nossa História.
«Como Afonso Henriques não cumpriu o acordado por seu aio, Egas Moniz, segundo a lenda, ao saber do sucedido, deslocou-se a Toledo, a capital imperial, descalço e com uma corda ao pescoço. Acompanhado da sua esposa e filhos, colocou ao dispor do imperador a sua vida e a dos seus, como penhor pela manutenção do juramento de fidelidade de nove anos antes. Diz-se que o imperador, comovido com tanta honra, o perdoou e mandou em paz de volta a Portucale». In História de Portugal.

Este acto heróico impressionou também D. Afonso Henriques, que concedeu ao seu velho aio extensos domínios.
Segundo os historiadores, esta terá sido uma estratégia inteligente por parte de Egas Moniz para que o primeiro rei de Portugal pudesse ganhar tempo. Ao entregar-se, Egas Moniz ressalvava a sua honra e também a de Afonso Henriques, assegurando através da sua astúcia a futura Independência de Portugal.

Egas Moniz - Painel de Azulejo na Estação de São Bento (Porto)
Cortesia de trabalhoegasmoniz 
OS LUSÍADAS
Canto III
40
«Qual diante do algoz o condenado,
Que já na vida a morte tem bebido,
Põe no cepo a garganta e já entregado
Espera pelo golpe tão temido:
Tal diante do Príncipe indinado
Egas estava, a tudo oferecido.
Mas o Rei vendo a estranha lealdade,
Mais pôde, enfim, que a ira, a piedade.
 41
«Ó grão fidelidade Portuguesa
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que mil vezes dizendo suspirava
Que mais o seu Zopiro são prezara
Que vinte Babilónias que tomara.
42
«Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno,
43
«Em nenhũa outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo bautizado,
Que, pera um só, cem Mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que pera um cavaleiro houvesse cento.

História de Portugal/Cortesia Instituto Camões/JDACT

Egas Moniz: O Nobel de Fisiologia/Medicina de 1949

(1874-1955)
Cortesia de sol.sapo
António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português. Foi galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com Walter Rudolf Hess.


Exame em Raios X dos vasos sanguíneos do cérebro, utilizando o método – angiografia cerebral – introduzido por Egas Moniz. Um contraste opaco aos raios foi introduzido num dos quatro vasos do pescoço (artéria carótida) que o conduzem ao cérebro. Estado normal (primeira imagem). Um caso de malformação situado na parte parietal do cérebro e provocado por uma artéria dilatada (segunda imagem)
In Nobel e-Museum, Instituto Camões

Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 ocupou a cátedra de neurologia como professor catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. No serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, Lisboa, existe o  Museu Egas Moniz, onde se pode vislumbrar uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais e vários manuscritos de sua autoria.
«Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral».
Como investigador, Egas Moniz, contando com a preciosa colaboração de Pedro Almeida Lima, utilizou duas técnicas:

  • a leucotomia pré-frontal;

  • a angiografia cerebral.
Egas Moniz foi proposto cinco vezes (1928, 1933, 1937, 1944 e 1949) ao Nobel de Fisiologia ou Medicina, obtendo o galardão em 1949. A técnica desenvolvida por Egas Moniz, a operação ao cérebro chamada lobotomia, deixou de ser praticada pelos médicos.

A sua actividade política iniciou-se ainda em estudante.Foi defensor activo da liberdade de expressão e pensamento e, em 1908, foi preso por estar envolvido na tentativa de golpe de estado de 28 de Janeiro contra a ditadura de João Franco. Foi eleito deputado em várias legislaturas, fundou de o Partido Centrista, que pretendia unir antigos monárquicos de corrente progressista e republicanos que se afastavam do Partido Evolucionista. Defensor das liberdades públicas e dos direitos individuais, liderou a corrente parlamentar do Partido Nacional Republicano.  Em 1918 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Sidónio Pais. Após o assassinato de Sidónio Pais, decidiu abandonar a política activa. Publicou a obra «Um Ano de Política», onde expôs os sentimentos e opiniões sobre o seu percurso político.
Passou então a dedicar-se à sua carreira científica.
Morre aos 81 anos em Lisboa.
Cortesia Instituto Camões/Ciências em Portugal
JDACT

domingo, 25 de abril de 2010

Eduardo Prado Coelho: O «intelectual público». Uma mente criativa

(1944-2007)
Cortesia de biblioipp
Eduardo Prado Coelho foi um escritor e professor universitário português. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde também se doutorou em 1983, com uma tese intitulada «A Noção de Paradigma nos Estudos Literários».
Em 1975 e 1976 foi Director-Geral de Acção Cultural no Ministério da Cultura, criado com a Revolução de Abril. Em 1988 foi para Paris ensinar no departamento de Estudos Ibéricos da Universidade de Sorbonne. Entre 1989 e 1998 foi conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Paris, Comissário para a Literatura e o Teatro da Europália Portuguesa. Em 1997 tornou-se director da delegação de Paris do Instituto Camões. Regressando a Portugal, foi  membro do Conselho Directivo do Centro Cultural de Belém, membro do Conselho Superior do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), membro do Conselho de Opinião da Radiodifusão Portuguesa e da Radiotelevisão Portuguesa.

Teve ampla colaboração em jornais e revistas e publicou uma crónica semanal no jornal Público até à data da sua morte. Tem diversa bibliografia ensaística, em que se destacam um longo estudo de teoria literária «Os Universos da Crítica»  e dois volumes de um diário «Tudo o que não escrevi». Publicou em 2006 «Nacional e Transmissível», o seu último livro editado, onde escreveu sobre objectos, comportamentos, locais emblemáticos ou características que formam o que poderíamos chamar a idiossincrasia portuguesa.
Recebeu o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica da Associação Portuguesa de Escritores em 1992 com a obra «Tudo o que não escrevi» e em 2004, com as suas crónicas no PÚBLICO, o Grande Prémio de Crónica João Carreira Bom.
Crítico literário, era presença assídua no espaço público onde se envolvia de forma activa nos debates culturais e políticos. «Intelectual público» como era muitas vezes designado.


Algumas das sua frases mais emblemáticas:
  • Nunca se trata de levar a arte ao povo, mas de levar o povo à arte. Por outras palavras, não vamos pôr os poemas de Pessoa em banda desenhada para serem mais acessíveis, mas devemos desenvolver as estruturas pedagógicas para que as pessoas entendam os poemas tais como eles são. Isto é o ABC de uma política cultural: promover a qualidade e criar dispositivos de ensino que permitam a inteligência adequada dessa qualidade.
  • A cultura é da ordem do ser, a civilização é a da ordem do ter. Temos o sentido da etiqueta, mas somos bem ou mal educados. Temos o hábito do jogo, mas há algo que nos inscreve mais metafisicamente no jogo do mundo.
  • O teatro é uma dimensão da poesia, isto é, a mais alta tentativa de conseguir que cada um de nós se envolva na verdade que não existe, e que é a razão de ser daquilo que dá sentido à existência e a essa coisa (...) que é o tempo.
JDACT 

Lendas: A «Lady Godiva» na Idade Média

«Lady Godiva» é uma lenda inspirada numa personagem real. Godiva foi esposa do Conde Leofric, que em 1043 fundou a ordem de São Bento, em Coventry. Godiva é a única mulher a ter o seu nome registado num livro da época como dona de terras. Viúva de Leofric, teria morrido em 10 de Setembro de 1067. A lenda marca o ideal medieval, o ascetismo a vencer o luxo, o sacrifício do corpo e da moral em nome do bem dos cristãos. Ao caminhar nua em cima de um cavalo, a lenda de Lady Godiva mescla o pudor religioso da Idade Média com as lendas profanas dos gregos antigos, fazendo dela uma narrativa sublime.

Cortesia de commons.wikimedia
Em Coventry vivia-se um tempo difícil. O Sol não aquecera os pomares, fazendo com que as azeitonas e as vinhas não produzissem o suficiente para que se fizesse com fartura o azeite e o vinho. A miséria do povo era tão latente quanto à modéstia de jóias que as mulheres da nobreza traziam sobre o corpo, ou as vestes modestas que faziam dos seus habitantes os menos abastados de toda a Inglaterra.
Como se não bastasse a penúria vivida, a insatisfação assolava os habitantes, cada vez mais empobrecidos pelos altos impostos cobrados pelo conde Leofric, senhor absoluto daquele feudo. Grande parte do alimento colhido naquela estação ingrata, saía da boca do povo para o pagamento dos impostos ao nobre senhor. A fome pairava afoita pelas casas, pelos campos, por Coventry.

O conde Leofric era casado com uma das mulheres mais belas de toda a Inglaterra. Lady Godiva era serena, cabelos sedosos, longos e dourados como os raios do sol. Os olhos eram azuis como o mar, traziam uma expressão de infinito que seduzia ao marido e todos os súbditos em volta. Lady Godiva era de uma bondade imensa. Servos e escravos eram tratados por ela com dignidade. Não se furtava da caridade e de ajudar aos desvalidos e desprovidos da grandiosidade da vida e da sua opulência secular.
Um dia, os servos trouxeram diante do conde um camponês que fora apanhado a roubar nabos da horta de Leofric. Levado diante do conde, o infeliz declarou que cometera aquela imprudência extrema por não ter nada para comer, que os últimos grãos que colhera foram usados para pagar os impostos devidos. Os cinco filhos pequenos choravam de fome, atormentando-o toda a noite. Ao ouvir os relatos do infeliz, Lady Godiva comoveu-se, convenceu o marido a não punir o infeliz, fornecendo ainda, alimentos para os seus filhos. Mesmo irritado, o conde acedeu com a bondade infinita da mulher.

Cortesia de troglopundit.wordpress
Depois dos acontecimentos, Lady Godiva andou por todos os cantos de Coventry. Montada no seu cavalo atravessou as muralhas, rondando por toda a parte. Descobriu que a fome assolava o lugar. Que grande parte dos alimentos colhidos iriam para os impostos do conde. Compadecida com o sofrimento daquele povo, Lady Godiva prometeu a si mesma intervir e a ajudá-lo.
Quando regressou ao castelo, encontrou o marido no estábulo, a supervisionar a alimentação das bestas. Lady Godiva desceu do seu cavalo. A respiração arfava de cansaço. Mesmo assim, encontrou forças para contar ao marido da tristeza e miséria que se abatia sobre Coventry. Falou com tanta ênfase que as lágrimas afloraram-lhe os olhos, derramando-se sobre as faces. O conde ouviu a mulher, que lhe implorava para que diminuisse os impostos. Não se deixou comover, mas as lágrimas da esposa, a sua veemência em defender os oprimidos, fizeram com que Leofric tentasse um ardil. Usando da sua inteligência sarcástica, esboçou um sorriso irônico e disse à mulher:

«Muito bem, já que insistes tanto na defesa deste povo, comovendo-me com as lágrimas que destroem a cor do céu dos teus olhos, concedo-te o pedido. Mas para que se realize, imponho-te uma condição, que a próxima vez que fores cavalgar, tu o faças sem roupas, completamente nua pelas ruas de Coventry». Perguntou ela, «Tenho a tua palavra de que se o fizer, irás cumprir a promessa?». Ele replicou, «Minha amada, se cavalgares nua pelas ruas de Coventry, não só abaixarei os impostos, como perdoarei a dívida aos mais necessitados». Finalmente, ela exclamou, «Que assim seja feito».
Leofric sorriu para a mulher. A promessa fora-lhe fácil fazer, difícil seria Lady Godiva cumprir a condição que impusera. Estava confiante de que ela desistiria e, ao sentir-se culpada, deixar-lhe-ia em paz com aquelas lamúrias.
Lady Godiva tinha no coração uma bondade maior do que qualquer moral estabelecida pela mesquinhez dos homens. Lady Godiva mandou que os seus servos avisassem ao povo do seu sacrifício para salvá-los dos impostos e da fome. Pediu que durante a sua cavalgada penitente, todos os moradores deixassem as ruas e que se fechassem nas suas casas. Comovido com a grandiosidade de Godiva, o povo de Coventry aceitou atender-lhe o pedido.
Deste modo, Lady Godiva desafiou a ironia e mesquinhez do marido. Despiu as vestes no estábulo, montou, completamente nua o seu belo cavalo. Cavalgou por todas as ruas de Coventry de cabeça erguida, sem que ninguém ousasse observá-la. Somente Jack, o moleiro, não resistiu de contemplar tamanha beleza helénica. Contrariando a todos os moradores, abriu uma fresta da janela da sua casa. Ao olhar tamanha beleza nua a desfilar pelas ruas, viu uma grande luz sobre os seus olhos. Tinha ficado cego para sempre.

Ao regressar da cavalgada, Lady Godiva encontrou o conde à espera. Comovido, ele vestiu as roupas à mulher, depois ajoelhou-se aos seus pés, reafirmando a palavra dada. Levantou-se e beijou a mulher. Leofric retirou os impostos altos dos ombros do seu povo. Naquele ano as colheitas foram abundantes em Coventry. O azeite jorrou nos lagares, o trigo transformou-se em pães quentes sobre as mesas e o vinho abençoou as refeições. Lady Godiva passou a ser amada pelo seu povo, até mesmo por Jack, o moleiro, que depois da luz da nudez da mulher sobre o cavalo, não viu mais nada na vida.

Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry
Wikipédia
Godiva foi imortalizada num poema de Alfred, Lord Tennyson. Os Queen cantaram a Lady Godiva na música «Don´t Stop me Now».
Cortesia da Wikipédia, contoselendasmedievais, Grande Livro das Lendas Medievais e algumas pinceladas de Jeocaz/JDACT