quarta-feira, 30 de junho de 2010

Oliveira Marques: Um «Notável» em História. Considerado um dos grandes historiadores portugueses contemporâneos. As suas obras, que se destacam em diversos domínios, são instrumentos de grande importância para os estudiosos da História de Portugal

(1933-2007)
S. Pedro do Estoril
Cortesia de publico
António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, foi um destacado Professor universitário e historiador português. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentando uma dissertação intitulada A Sociedade em Portugal nos séculos XII a XIV. Depois de ter estagiado na Universidade de Würzburg (Alemanha) iniciou funções docentes na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou em História com a dissertação, Hansa e Portugal na Idade Média.
Em 1962 participou na greve académica, ao lado dos estudantes, o que esteve na base do seu afastamento da Universidade.
Em 1965, partiu para os Estados Unidos da América, leccionando como professor associado e catedrático nas universidades de Auburn, Flórida, Columbia, Minnesota e Chicago, e percorrendo grande parte daquele país como conferencista.
Em 1970 regressou definitivamente a Portugal, embora só depois do 25 de Abril de 1974 se lhe voltassem a abrir as portas da Universidade. De Outubro de 1974 a Abril de 1976 foi Director da Biblioteca Nacional de Lisboa. Em 1980 fundou o Centro de Estudos Históricos da UNL.
Em 1997 recebeu o doutoramento honoris causa pela Universidade de La Trobe, Melbourne, Austrália. Em 1998 foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Cortesia de leiloes.net
O número total das suas obras de tomo ultrapassa 60 volumes. A colaboração, com artigos, em revistas, dicionário e enciclopédias ultrapassa o milhar. Proferiu numerosas conferências em universidades da Europa, Estados Unidos, Brasil e Argentina. É hoje considerado um dos grandes especialistas em história da Idade Média portuguesa, como mostra a sua notável produção na área, onde se salientam, entre outras, as seguintes obras:
  • Hansa e Portugal na Idade Média;
  • Introdução História da Agricultura em Portugal;
  • A Sociedade Medieval Portuguesa (também traduzida para inglês);
  • Guia do Estudante de História Medieval Portuguesa;
  • Ensaios de História Medieval Portuguesa;
  • Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa;
  • Portugal na Crise dos séculos XIV e XV;
  • O «Portugal» Islâmico;
  • Colaboração abundante no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.
O seu labor de historiador fez com que Oliveira Marques se debruçasse sobre outros aspectos e épocas da história, nomeadamente sobre a história contemporânea:
  • A Primeira República Portuguesa;
  • Afonso Costa (diversas obras sobre este político);
  • História da República Portuguesa;
  • Guia de História da 1ª República Portuguesa;
  • Portugal, da Monarquia para a República;
  • História da Maçonaria em Portugal, 3 vol. publicados;
  • A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo; Dicionário de Maçonaria Portuguesa.
Porém, o seu livro mais famoso é a História de Portugal, inicialmente em dois volumes e refundida depois em três tomos (l981) e que foi traduzido para inglês, francês, japonês, castelhano e polaco; uma versão abreviada saíu também em português, francês, inglês, chinês, romeno e alemão.
Cortesia de porterrasdoreiwamba
A 25 de Junho de 1982, aquando dos 25 anos sobre a data da publicação do seu primeiro estudo histórico, e do início da sua carreira docente, foi alvo de uma sessão solene de homenagem, presidida pelo Presidente da República, sendo publicados em sua honra dois volumes com a colaboração de categorizados historiadores nacionais e estrangeiros:
  • Estudos de História de Portugal : Homenagem a A. H. de Oliveira Marques.
Em 2003, aquando dos seus 70 anos de idade, a comunidade universitária (Universidade do Porto, Universidade de Coimbra e Universidade Nova de Lisboa) dedicou-se diferentes homenagens, tendo sido publicada a obra Na Jubilação Universitária de A. H. de Oliveira Marques, coordenação de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena Cruz Coelho, Coimbra, MinervaCoimbra, 2003, com a seguinte colaboração:

  • A. H. de Oliveira Marques: Percurso Biográfico (A. L. de Carvalho Homem);

  • A Medievalidade na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Maria Helena Cruz Coelho);

  • Paleografia e Diplomática na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Saul António Gomes);

  • A Expansão Portuguesa na Obra de A. H. de Oliveira Marques (João Marinho dos Santos);

  • As Relações Luso-Alemãs na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Thomas Denk);

  • Oliveira Marques y la Historia de I República Portuguesa (Hipólito de la Torre Gómez);

  • A. H. de Oliveira Marques Investigador e Historiador de la Masoneria (José A. Ferrer Benimeli);

  • Oliveira Marques Historiador da Franquia Postal (João Alves Dias);

  • História de Portugal e Historiografia na Obra de Oliveira Marques (Luís Miguel Duarte);

  • Bibliografia do Prof. Doutor António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques / continuação 1982-2003 (Maria Fernanda Macedo Nogueira de Andrade e João J. Alves Dias.
De parceria com Joel Serrão, dirigiu duas colecções de História Portuguesa, intituladas Nova História de Portugal, e Nova História da Expansão Portuguesa.
Devem-se-lhe a introdução ou a difusão em Portugal de temas históricos, alguns deles em franco desenvolvimento hoje:
  • História da vida quotidiana;
  • História urbana medieval;
  • História das técnicas;
  • História do clima;
  • História dos animais;
  • História da 1ª República Portuguesa;
  • História da Maçonaria Portuguesa.
Entrando para a Maçonaria ainda durante o período da clandestinidade (1973), desempenhou acção de relevo naquela instituição, sendo eleito seu Grão-Mestre Adjunto (1984-86) e seu Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-94).
Cortesia de guitarradecoimbra
Em 1998 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.
Morre aos 73 anos de idade.
(Oliveira Marques_Maria Helena Coelho)
Cortesia de wikipédia/Guitarras de Coimbra/JDACT

Carlos Queirós: O poeta lúcido, rigoroso e límpido. Toda a sua poesia assinala certas formas criadoras de contradição vital que nela encontraram uma voz muito original e pura

(1907-1949)
Lisboa
Cortesia de wikipédia
José Carlos Queirós Nunes Ribeiro foi um poeta convivente de alguns dos fundadores de «Orfeu», mas seria, no entanto, a estética presencista que marcaria os seus primeiros poemas. Apesar das nítidas influências da revista conimbrense, sobretudo de José Régio, libertar-se-ia delas ao longo de um percurso de autor que, em vida foi exíguo do ponto de vista da publicação em volumes.
«Desaparecido» confirmou o poeta lúcido, rigoroso e límpido, que em revistas literárias se revelara, Revista de Portugal, Atlântico, Litoral, entre outras e que logrou um discreto mas seguro prestígio entre a geração e a que imediatamente se lhe seguiu. Após a sua morte, em Paris, surgiu «Poesia Completa», com inéditos extremamente significativos não só das constantes interiores da sua poesia, mas também da evolução e depuração dos seus processos literários em que se associavam ao classicismo um sentido intelectual de modernidade e ao pendor lírico a exigente temperança de uma vocação analítica. Com isto, uma nostálgica e desencantada visão do amor, do mundo e dos homens que, no entanto, não excluía, neste citadino de raíz e hábitos, uma instintiva intelecção, anímica e sensual, da natureza, da terra e do mar. Toda a sua poesia assinala, assim, na sua geração e para além dela, certas formas criadoras de contradição vital que nela encontraram uma voz muito original e pura. In Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura, 20 vols., secretariado por MAGALHÃES, António Pereira Dias; OLIVEIRA, Manuel Alves, 1ª ed., Lisboa, editorial Verbo, vol.15, 1973, pp.1506-1507.

O poeta Carlos Queirós define o segundo modernismo português e identificado como um dos grandes nomes da Revista Presença.
Desempenhou um importante papel na ligação entre o primeiro modernismo português identificado pela geração da revista Orpheu e o segundo modernismo da Presença. É Carlos Queirós, que por volta de 1927 estabelece a ligação ente Pessoa e a revista Coimbrã – Presença, dirigida por Gaspar Simões, Régio e Branquinho da Fonseca, no qual Pessoa veio a publicar diversos textos. É no número 5 da Presença (1927), que Carlos Queirós, juntamente com Fernando Pessoa e Almada Negreiros, inicia a sua participação neste periódico.
David Morão Ferreira no Prefácio do primeiro volume da Obra Poética de Carlos Queirós, refere que entre 1927 e 1937, ano em que Carlos Queirós, deixa de colaborar com a Presença, terá publicado nas edições que vão do n.º 5 ao n.º 49 cerca de 49 poemas e dois textos em prosa. Constituindo-se como um dos nomes de referência e de continuidade desta publicação.

Carlos Queirós, num número especial da Presença de homenagem a Fernando Pessoa, dá a conhecer os amores de Fernando Pessoa por Ofélia Queirós, sua tia. Publicando nesse número diversas cartas de amor de Pessoa escritas a Ofélia.
A participação literária de Carlos Queirós não se circunscreve somente à celebre revista Presença. Publica em diversas revistas e folhas literárias, tendo uma obra poética espalha por diversos periódicos literários:
  • revista Ocidente;
  • revista Atlântico;
  • revista de Portugal;
  • revista Momento;
  • revista Aventura;
  • revista Vamos Ler;
  • revista Litoral (dirigida pelo próprio).
Carlos Queirós publicou dois livros em vida,  o primeiro intitulado o «Desaparecido» em 1935, tendo o poeta 28 anos de idade. Foi «alvo» dos maiores elogios. Destaca-se a critica publicada por Pessoa na Revista Portugal. Pessoa escreve no primeiro parágrafo do seu texto crítico:

«A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora. Os poemas são admiráveis. Mas à frente no seu texto Pessoa prossegue,  não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: - que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queirós não é uma promessa, porque é uma realização». In Revista. Portugal, n.º2 Coimbra, Janeiro de 1938.
O segundo livro publicado em vida, foi «Breve Tratado de Não Versificação», editado em 1948.
A obra poética de Carlos Queirós, pouco divulgada, está editada em dois livros pela Editora Ática. O primeiro livro tem como data de publicação 1984, intitula-se Desaparecido – Breve Tratado de Não Versificação, sendo a compilação dos dois livros publicados em vida por Carlos Queirós. O segundo livro tem como data de publicação 1989, intitula-se Épistola aos Vindouros e Outros Poemas, sendo constituído por uma colectânea de poemas dispersos, por diversas publicações da época e alguns inéditos, recolhidos por David Morão Ferreira, com a ajuda de uma das filhas do poeta.

Cortesia de wikipédia/JDACT

Torre de Belém: Trata-se de um dos monumentos mais expressivos da cidade de Lisboa. Ao longo dos séculos foi utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Parte da sua beleza reside na decoração exterior, adornada com cordas e nós esculpidas em pedra, galerias abertas, torres de vigia no estilo mourisco e ameias em forma de escudos decoradas com esferas armilares

Cortesia de IGESPAR
A Torre de Belém é um dos monumentos mais expressivos da cidade de Lisboa. Localiza-se na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém. Inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar hoje à terra firme.
O monumento destaca-se pelo nacionalismo implícito, visto que é todo rodeado por decorações do Brasão de armas de Portugal, incluindo inscrições de cruzes da Ordem de Cristo nas janelas de baluarte; tais características remetem principalmente à arquitetura típica de uma época em que o país era uma potência global (a do início da Idade Moderna).
Classificada como Património Mundial pela UNESCO, em 7 de Julho de 2007 foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal.
Cortesia de IGESPAR
Originalmente sob a invocação de São Vicente de Saragoça, padroeiro da cidade de Lisboa, designada no século XVI pelo nome de Baluarte de São Vicente a par de Belém e por Baluarte do Restelo, esta fortificação integrava o plano defensivo da barra do rio Tejo projectado à época de João II, integrado na margem direita do rio pelo Baluarte de Cascais e, na esquerda, pelo Baluarte da Caparica.
Cortesia de IGESPAR
O cronista Garcia de Resende foi o autor do seu risco inicial, tendo registrado: «E assim mandou fazer então a (...) torre e baluarte de Caparica, defronte de Belém, em que estava muita e grande artilharia; e tinha ordenado de fazer uma forte fortaleza onde ora está a formosa torre de Belém, que el-Rei D. Manuel, que santa glória haja, mandou fazer; para que a fortaleza de uma parte e a torre da outra tolhessem a entrada do rio. A qual fortaleza eu por seu mandado debuxei, e com ele ordenei a sua vontade; e tinha já dada a capitania dela [a] Álvaro da Cunha, seu estribeiro-mor, e pessoa de que muito confiava; e porque el-Rei João faleceu, não houve tempo para se fazer». In RESENDE, Garcia de. Crónica de D. João II, 1545.
Cortesia de IGESPAR
A estrutura só viria a ser iniciada em 1514, sob o reinado de Manuel I, tendo como arquitecto Francisco de Arruda. Localizava-se sobre um afloramento rochoso nas águas do rio, fronteiro à antiga praia de Belém, e destinava-se a substituir a antiga nau artilhada, ancorada naquele trecho, de onde partiam as frotas para as Índias. As suas obras ficaram a cargo de Diogo Boitaca, que, à época, também dirigia as já adiantadas obras do vizinho Mosteiro dos Jerónimos. Concluída em 1520, foi primeiro alcaide Gaspar de Paiva, nomeado para a função no ano seguinte.
Cortesia de IGESPAR
Com a evolução dos meios de ataque e defesa, a estrutura foi gradualmente perdendo a sua função defensiva original. Ao longo dos séculos foi utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Os seus paióis foram utilizados como masmorras para presos políticos durante o reinado de Filipe II, e mais tarde, por João IV. O Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, D. Sebastião de Matos de Noronha (1586-1641), por coligação à Espanha e fazendo frente a D. João IV, foi preso e mandado recluso para a Torre de Belém.
Sofreu várias reformas ao longo dos séculos, principalmente a do século XVIII que privilegiou as ameias, o varandim do baluarte, o nicho da Virgem, voltado para o rio, e o claustrim. Classificada como Monumento Nacional por Decreto de 10 de Janeiro de 1907, é considerada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983. Naquele mesmo ano integrou a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura.
Cortesia de IGESPAR
O monumento reflecte influências islâmicas e orientais, que caracterizam o estilo manuelino e marca o fim da tradição medieval das torres de menagem, ensaiando um dos primeiros baluartes para artilharia no país. Parte da sua beleza reside na decoração exterior, adornada com cordas e nós esculpidas em pedra, galerias abertas, torres de vigia no estilo mourisco e ameias em forma de escudos decoradas com esferas armilares, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas, como um rinoceronte, alusivos às navegações. O interior gótico, por baixo do terraço, que serviu como armaria e prisão, é muito austero.
Cortesia de IGESPAR
A sua estrutura compõe-se de dois elementos principais:
  • a torre;
  • o baluarte.
  • Nos ângulos do terraço da torre e do baluarte, sobressaem guaritas cilíndricas coroadas por cúpulas de gomos, ricamente decorada em cantaria de pedra.
A torre quadrangular, de tradição medieval, eleva-se em cinco pavimentos acima do baluarte, a saber:
  • Primeiro pavimento - Sala do Governador;
  • Segundo pavimento - Sala dos Reis, com teto elíptico e fogão ornamentado com meias-esferas;
  • Terceiro pavimento - Sala de Audiências;
  • Quarto pavimento - Capela;
  • Quinto pavimento - Terraço da torre.
A nave do baluarte poligonal, ventilada por um claustrim, abre 16 canhoneiras para tiro rasante de artilharia. O terrapleno, guarnecido por ameias, constitui uma segunda linha de fogo, nele se localizando o santuário de Nossa Senhora do Bom Sucesso com o Menino, também conhecida como a Virgem do Restelo.

Cortesia de IGESPAR/JDACT

terça-feira, 29 de junho de 2010

Jane Monheit: O «lançamento» do primeiro álbum ocorreu em 2000 com «Never Never Land». Foi acompanhada pelo pianista Kenny Barron, o baixista Ron Carter e o saxofonista David Newman

Cortesia de marsh-system
Aos 20 anos ganhou o 2º lugar no Thelonius Monk International Jazz Competition, de cujo juri faziam parte Dee Dee Bridgewater, Dianne Reeves e Diana Krall. Uma voz timbrada do jazz.




JDACT

Luís Zagalo: Um «bom homem» e um «bom actor» que tão cedo fez a «Viagem»

(1940-2010)
Cortesia de caras
Luís Zagalo foi um actor e encenador com uma carreira no teatro, na televisão e no cinema. Era um rosto habitual das novelas da TVI. Participou na «Jóia de África», em «Olhos de Água» e mais recentemente em «Morangos com Açúcar». 
Cortesia de cm-bombarral
Luís Zagalo era uma presença assídua em Salvaterra de Magos, em visita a amigos. Sempre com amabilidade e conversador para com as gentes ribatejanas. Recordo alguns momentos de boa disposição que Luís Zagalo proporcionava na temporária estada em terras de Salvaterra de Magos.
Um «bom homem» e um «bom actor» que tão cedo fez a «Viagem». Um encenador que apreciava o convívio e o diálogo.
Luís Zagalo, D. Eunice Muñoz e o «bom Evaristo»
Cortesia do solardospresuntos
Luís Zagalo morre aos 68 anos de idade.
JDACT

Tempestade Tropical ALEX: ACTUALIZAÇÃO. Centrada a 22,7N e 93,1W às 15UTC de hoje (29JUN2010)

Cortesia de Unisys Weather
Tropical Storm ALEX (25-29 JUN)
Storm - Max Winds: 60 Kt (nós); Min Pres: 982 hPa Category: Tropical Storm.
Current - Max Winds: 60 Kt; Min Pres: 982 hPa; Category: TS
TROPICAL STORM ALEX FORECAST/ADVISORY NUMBER 16

Comunicado das 1500 UTC,  TUE JUN 29, 2010

Avisos de Hurricane (Furacão) para as zonas:
  • A costa do Sul do Texas desde a Baía de BAFFIN até ao rio GRANDE;
  • A costa do México desde o rio GRANDE até LA CRUZ.
Aviso de Tempestade Tropical  para as zonas:
  • A costa do Texas desde a Baía BAFFIN até Porto OCONNOR
TROPICAL STORM CENTER LOCATED NEAR 22.7N 93.1W AT 29/1500Z

A Tempestade Tropical ALEX apresenta um movimento para Noroeste, aproximadamente 325º,  com uma velocidade de 10 Kt (nós). A pressão mínima estimada é de 982 hPa ou mb. Os ventos máximos são de 60 Kt com rajadas de 75 Kt.
50 KT....... 60NE 30SE 15SW 20NW.
34 KT.......120NE 100SE 40SW 100NW.
12 FT SEAS..150NE 90SE 60SW 120NW.
WINDS AND SEAS VARY GREATLY IN EACH QUADRANT. RADII IN NAUTICAL MILES ARE THE LARGEST RADII EXPECTED ANYWHERE IN THAT QUADRANT.

A previsão da sua localização e os ventos máximos prováveis:
INITIAL 29/1500Z 22.7N 93.1W 60 KT
12HR VT 30/0000Z 23.7N 94.0W 65 KT
24HR VT 30/1200Z 24.7N 95.5W 75 KT
36HR VT 01/0000Z 25.2N 97.0W 80 KT
48HR VT 01/1200Z 25.7N 98.7W 50 KT
72HR VT 02/1200Z 26.0N 101.5W 25 KT...DISSIPATING INLAND
96HR VT 03/1200Z...DISSIPATED

Cortesia de Unisys Weather

Cortesia de UNISYS/NWS TPC/NATIONAL HURRICANE CENTER MIAMI/JDACT

Panteão Nacional: Igreja de Santa Engrácia de Lisboa e Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Acolhe os túmulos de grandes vultos da História Portuguesa

Cortesia de IGESPAR
O Panteão Nacional, situado na zona histórica de Santa Clara, ocupa o edifício originalmente destinado para igreja de Santa Engrácia, acolhendo os túmulos de grandes vultos da história portuguesa. Fundado na 2ª metade do século XVI, o edifício foi totalmente reconstruído em finais de Seiscentos pelo arquitecto João Antunes; embora nunca chegasse a abrir ao culto, conserva, sob a cúpula moderna, o espaço majestoso da nave, animada pela decoração de mármores coloridos, característica da arquitectura barroca portuguesa. Elemento referencial no perfil da cidade e oferecendo pontos de vista privilegiados sobre a zona histórica da cidade e sobre o rio Tejo, está classificado como Monumento Nacional.

A designação de Panteão Nacional em Portugal é partilhada por dois monumentos:
  • a Igreja de Santa Engrácia;
  • o Mosteiro de Santa Cruz.
A Igreja de Santa Engrácia localiza-se na freguesia de São Vicente de Fora, em Lisboa. Passou a ter a função de Panteão Nacional a partir de 1916. O estatuto de Panteão Nacional foi reconhecido ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em Agosto de 2003.

Cortesia de IGESPAR
O actual templo situa-se no local de uma primitiva igreja, erguida em 1568 por determinação da Infanta D. Maria, filha de Manuel I, por ocasião da criação da antiga freguesia de Santa Engrácia. Essa antiga igreja, severamente danificada por um temporal em 1681, foi alvo de constantes modificações e alterações, de tal modo que hoje nada resta dela. A primeira pedra do actual edifício, o primeiro em estilo barroco no país, foi lançada em 1682. As obras perduraram tanto tempo que deram azo à expressão popular «obras de Santa Engrácia» para designar algo que nunca mais acaba. A igreja só foi concluída em 1966, 284 anos após o seu início. O edifício é coroado por um zimbório gigante. O seu interior está pavimentado com mármore colorido.
Cortesia de IGESPAR
Feito concurso em 1683 para estudo do melhor projecto, foi este ganho pelo arquitecto João Antunes (1642-1712), que dirigirá a primeira fase da construção. O risco de Antunes, tira partido da desafogada situação paisagística do sítio, a meio da encosta defronte do Tejo, e constitui a primeira obra de claro figurino barroco no panorama arquitectónico nacional. O modelo é centralizado, de vastas proporções, definindo uma cruz grega de flancos sinuosos, com associação de quatro torreões-bloco, numa longínqua evocação de San Pietro in Montorio e San Satiro em Milão, de Donato Bramante, e com influências de Guarini (fachada do palazzo Cornaro), acrescido de riquíssimo ornamento mosaicista.
O templo, mostra um desenho encurvado dos braços da cruz grega, formando ábsides que se articulam com o pano murário rectilíneo dos torreões e criam um efeito espacial único, tirando partido da parede-ondulante, tal como as igrejas e palácios romanos e parisienses do século XVII. O portal mostra quatro colunas espiraladas de pedra rósea, com capitéis compósitos e remate de baixo-relevo com a padroeira (talvez de Laprade).
Cortesia de IGESPAR
À morte de João Antunes a igreja estava longe de acabada, sendo as obras dirigidas por Manuel do Couto (que cerra a abóbada central) e Santos Pacheco, com intervenções do cônsul-arquitecto Antoine Duverger, até sofrer os efeitos do terramoto. Tais vicissitudes levaram a que as obras só fossem acabadas em meado do século XX (já como Panteão Nacional, criado em 1916), pelos arquitectos da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (Raul Lino, Lyster Franco), sem término das torres e com adjacência de uma abóbada com lanternim, demasiado desproporcionada para a sólida estrutura espacial definida no projecto barroco de Antunes. Mesmo com tais adições, que os atrasos impuseram, houve respeito pela traça aprovada no concurso de 1683, deixando incólume a novidade estrutural daquela que é a primeira igreja portuguesa verdadeiramente barroca.
Cortesia de IGESPAR
Embora nunca chegasse a abrir ao culto, conserva, sob a cúpula moderna, o espaço majestoso da nave, animada pela decoração de mármores coloridos, característica da arquitectura barroca portuguesa.
Elemento referencial no perfil da cidade e oferecendo pontos e vista privilegiados sobre a zona histórica da cidade e sobre o rio Tejo, está classificado como Monumento Nacional.
Como curiosidade, na sua proximidade realiza-se semanalmente, às 3ªas feiras e Sábados, a tradicional Feira da Ladra.

Cortesia de IGESPAR
Entre as personagens ilustres que ali estão sepultadas, encontramos sobretudo Presidentes da República e escritores. As excepções são designadamente a fadista Amália Rodrigues, cujos restos mortais foram transladados depois de se alterarem as disposições legais que apenas permitiam a trasladação para o Panteão Nacional quatro anos após a morte, e Humberto Delgado. As personalidades sepultadas são:
  • Almeida Garrett, escritor (1799-1854);
  • Amália Rodrigues, fadista (1920-1999);
  • Aquilino Ribeiro, escritor (1885-1963);
  • Guerra Junqueiro, escritor (1850-1923);
  • Humberto Delgado, opositor ao Estado Novo (1906-1965);
  • João de Deus, escritor (1830-1896);
  • Manuel de Arriaga, presidente da República (1840-1917);
  • Óscar Carmona, presidente da República (1869-1951);
  • Sidónio Pais, presidente da República (1872-1918);
  • Teófilo Braga, presidente da República (1843-1924).
Como Panteão Nacional abriga os cenotáfios de heróis da História de Portugal, tais como Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral Afonso de Albuquerque.
Nota: Em 19 de Setembro de 2007 o escritor Aquilino Ribeiro foi a décima pessoa a ser sepultada no Panteão, apesar da contestação de alguns grupos que acusam o escritor de terrorista por alegado envolvimento no regicídio.

 Cortesia de IGESPAR
O estatuto de Panteão Nacional foi reconhecido ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em Agosto de 2003, pela presença tumular dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e Sancho I de Portugal. Esse estatuto, agora repartido, aplica-se aos dois monumentos, sendo que a designação de Panteão Nacional referente à Igreja de Santa Engrácia não deverá aplicar-se de forma absoluta.

O Mosteiro de Santa Cruz é um mosteiro da ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho localizado em Coimbra. Fundado em 1131, nele se encontram enterrados os dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I. A qualidade das intervenções artísticas no Mosteiro de Santa Cruz, particularmente na época manuelina, fazem deste um dos principais monumentos históricos e artísticos de Portugal.

Cortesia de IGESPAR
A Igreja de Santa Cruz de Coimbra foi fundada em 1131 por D. Telo (São Teotónio) e 11 outros religiosos, que adoptaram a regra dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. A nova Igreja recebeu muitos privilégios papais e doações dos primeiros reis de Portugal, tornando-se a mais importante casa monástica do reino. A sua escola foi uma das melhores instituições de ensino do Portugal medieval, tendo uma grande biblioteca (agora na Biblioteca Pública Municipal do Porto) e um activo scriptorium. Nos tempos de D. Afonso Henriques, primeiro monarca português, o scriptorium de Santa Cruz foi usado como máquina de consolidação do poder real. A importância da Igreja é evidenciada pelo facto de que D. Afonso Henriques e seu sucessor, D. Sancho I, foram sepultados lá.

Cortesia de IGESPAR
Na Idade Média, o mais famoso estudante da Igreja de Santa Cruz foi Fernando Martins de Bulhões, o futuro Santo António de Lisboa (ou Santo António de Pádua). Em 1220, o religioso assiste à chegada à Igreja dos restos mortais de cinco frades franciscanos martirizados em Marrocos (os Mártires de Marrocos), e decide fazer-se missionário e partir de Portugal. No início do século XVI, o rei D. Manuel I ordena uma grande reforma, reconstruindo e redecorando a igreja e o mosteiro. Nessa época são transladados os restos de Afonso Henriques e Sancho I dos seus sarcófagos originais para novos túmulos decorados em estilo manuelino.
Entre 1530 e 1577 funcionou uma imprensa no claustro. É possível que o poeta Luís de Camões tenha estudado em Santa Cruz, uma vez que um parente seu (D. Bento de Camões) era prior do mosteiro na época, e há evidências na sua poesia de uma estada em Coimbra.
O primitivo edifício da igreja e mosteiro de Santa Cruz foi construído entre 1132 e 1223, mas quase nada resta desta fase românica da obra. A fachada da igreja tem  parecenças com a Sé Velha de Coimbra, com uma torre central avançada dotada de um portal e encimado por um janelão. Esses aspectos da fachada românica ainda são visíveis hoje, detrás da decoração posterior. A partir de 1507, o rei D. Manuel I ordenou a modificação total da arquitectura e decoração interior do mosteiro, seguindo o estilo mesclado de gótico e renascimento que depois seria chamado manuelino. Entre 1507 e 1513 a fachada ganhou duas torres laterais com pináculos e uma platibanda decorativa. Mais tarde, entre 1522 e 1526, foi criado o portal cenográfico manuelino por Diogo de Castilho e o francês Nicolau de Chanterenne. Cerca de 1530 foi adicionado junto à entrada um coro-alto por Diogo de Castilho, no qual se instalou um magnífico cadeiral de madeira esculpida e dourada. Este cadeiral é um dos pouquíssimos elementos da época manuelina ainda existentes em Portugal, e deve-se ao entalhador flamengo Machim, que o havia esculpido para a capela-mor cerca de 1512. A nave contém ainda um belo púlpito renascentista, obra de Nicolau de Chanterenne e datado de 1521. No século XVIII instalou-se un novo órgão, em estilo barroco, obra do espanhol Gómez Herrera, e as paredes da nave estão revestidas com azulejos brancos-azuis lisboetas que narram histórias bíblicas.
Cortesia de IGESPAR
Na capela-mor encontram-se os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I. Os túmulos originais estavam no nartex da igreja, junto à torre central da fachada românica, mas D. Manuel I não achou condignas as antigas arcas tumulares e ordenou a realização de novos túmulos. Estes, terminados por volta de 1520, são das mais belas realizações da tumulária portuguesa. Nicolau Chanterene realizou as esculturas jacentes representando os reis, enquanto outras esculturas e elementos decorativos se devem a vários outros ajudantes (Diogo Francisco, Pêro Anes, Diogo Fernandes, João Fernandes e outros). Os túmulos estão decorados com muitas estátuas e elementos gótico-renascentistas, além dos símbolos do rei D. Manuel I, a esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo.

Cortesia de IGESPAR/wikipédia/CMCoimbra/JDACT

Alentejo de minha alma: Terra nascida de esperanças, que não viveu os sonhos. Terra de gentes gigantes, que a imensidão dos campos curva



Cortesia de mladeiro

Cortesia de mladeiro
Algumas palavras de voarsemhasas/JDACT

Luís Piçarra: Um tenor que, segundo Luís de Freitas Branco, teria encantado Rossini por possuir uma voz modelada e maleável

(1918-1999)
Pizões, Moura
Cortesia de usersskynet








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segunda-feira, 28 de junho de 2010

António Nobre: Uma obra marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia

(1867-1900)
Porto
Cortesia de anibaljosematos
Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês. A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho.

Certa Velhinha
1
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes...
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?

Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem...

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar...

Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez...

Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor...
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor...

A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha...
Que noite de inverno que parece verão!

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!

Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar,
Que pela tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite destas, eu vejo passar...

Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é...
- Jezus! Jezus!
2
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Já não é a velhinha que vae a passar:
Um grande cortejo cheiinho de luzes,
Anninhas da Eira que vae a enterrar.

Falla d'um pastor:

«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
Cantae, raparigas, cantae e chorae!
Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
Como um passarinho, sem soltar um ai.

Quando era pequeno, levava-me á escola,
E quando, mais tarde, cresci e medrei,
Oh danças nas eiras, ao som da viola!
Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

Os annos vieram, os annos passaram,
Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
Perdi-a de todo, nunca mais a vi...

E além, na tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite d'estas com vento a ventar,
Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

Olá! bons senhores, vestidos de preto,
Deixae a defunta, que a levarei eu!
O suor alagava-vos, eu levo o carreto...
O caixão de Anninhas é tambem o meu!

Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
A rezar por ella, sob o temporal!
Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

Mas os bons senhores, de preto vestidos,
Cigarros accezos, e velas na mão,
Lá passam ao vento, com sete sentidos,
Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão...

«Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
Com suas mãosinhas, agora tão frias,
Irá na viagem a dizer-me adeus...

Ó vento que passas! corcel de rajada!
Assenta-nos ambos no mesmo selim:
Quero ir mais ella na longa jornada...
Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
Quero ir como ella, assim de mãos postas...
Quero ir com Anninhas para onde ella for!

Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas...
Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»
3
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes...
Aonde irá ella? Quem irá buscar?
António Nobre, in «Só»

Quando Chegar a Hora
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas...
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato,
No dia em que nasci.
António Nobre, in «Só»

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Évora: Orago, São Pedro. Feriado Municipal, 29 de Junho. As Feiras de Évora

Cortesia da CMÉvora
A tradição da Feira de S. João na cidade de Évora, com o seu Centro Histórico - Património Comum da Humanidade -, a primitiva Eburobrittium, a Ebora Cerealis ou  Liberalitas Julia,  continua a dar alegria e a proporcionar eventos até ao pf dia 4 de Julho. São festejos que sempre recordarei.

«Ano após ano, a cidade "veste o seu melhor traje" e celebra as festas populares, englobando neste período a consagração de S. João e do padroeiro local: S. Pedro. É assim este ano, bem como, há mais de cem anos. "A Feira de Évora era na altura a ocasião de prestar aos forasteiros as amabilidades, "finezas" e atenções que os velhos "foros e costumes" da hospitalidade característica do "povo" desta vasta "planície heróica que é o Alentejo. A Feira era também, naquela altura, local de arreigadas tradições como as imprescindíveis touradas, sobretudo as dos dias de S. João e S. Pedro. Estas traziam à cidade muito pessoal da loura, mas também muitos feirantes, negociantes e aficionados dos touros que davam uma alegria extraordinária. Lendo o estudo de Carvalho Moniz, e respeitando naturalmente as distâncias temporais, chegamos à conclusão que a nossa Feira mantém a sua traça original e é isso que faz dela a maior e mais importante ao Sul do rio Tejo. Como acima escrevi: volta-se a cumprir a tradição. O Rossio de S. Brás, que em meados do século XVI já era referência, por exemplo, de local de feira não franqueada, continua a manter a sua importância, sendo a partir de agora, e durante os próximos dias, a "sala de visitas" da cidade. Aqui virão, não só os eborenses, mas também uma importante franja da diáspora alentejana que encontram nestas datas, a melhor altura para reencontrarem o passado e, nalguns casos, os familiares e os amigos de longa data. Aqui também se continuam a fazer negócios e aqui também se continua a promover o melhor que a cidade tem, através da presença, cada vez mais significativa, dos agentes e instituições locais. Diversões infanto-juvenis, mostra de artesanato, actividades desportivas e culturais, para além de um sem número de propostas, fazem das Festas Populares da Cidade - Feira de S. João, o grande certame da região, e que durante estes dias procura também assinalar o Ano da Biodiversidade. Por tudo isto, acredito que a alegria de visitar e usufruir da Feira de S. João, que este ano decorrerá de 23 Junho a 4 de Julho, será renovada, apesar das vicissitudes sociais e económicas que afectam o País e o Mundo». In CMÉvora

(1910-2000)
Cabeção 
Carvalho Moniz
Cortesia de CMÉvora
A origem genérica das feiras e mercados e as principais feiras e mercados de Évora, desde a ocupação muçulmana da cidade, no século XII, à posterior Feira de S. João, são a substância desta obra. O seu autor, Manuel Carvalho Moniz, começa por introduzir o tema fazendo a apologia das feiras e mercados como elo de ligação entre o mundo rural e o mundo urbano, passando depois para os seus aspectos comerciais, sociais e religiosos, e sublinhando, no caso de Évora, o seu papel no desenvolvimento económico e social e no prestígio da cidade, ao longo dos séculos.
  • A Feira de Santiago (1275);
  • A Feira Franqueada de D. Dinis (1286);
  • A Feira dos Ramos (1839);
  • A Feira dos Estudantes (1540 a 1759);
  • A Feira dos Pucarinhos (1516 a 1932);
  • A Feira de São João (século XVI).
Numa exposição que o autor documenta com fotografias centenárias, com regimentos, alvarás e editais do século XVI ao Século XX, com uma antologia literária e com elementos do cancioneiro do S. João de Évora.
Cortesia da CMÉvora
Um bom S. Pedro. Um bom Feriado Municipal.
JDACT

António Gedeão (Rómulo de Carvalho): O Professor de Química e Física. O poeta. O investigador. O historiador. O escritor. O fotógrafo. O pintor. O ilustrador. A Arte em Rómulo

(1906-1997)
Lisboa
António Gedeão
Cortesia de Rómulo de Carvalho

Amador sem coisa amada
Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
António Gedeão in «Máquina de Fogo»
Cortesia de Rómulo de Carvalho

Amor sem tréguas
É necessário amar,
qualquer coisa ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
não importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá o que for.
Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.
Amar como um homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até à morte,
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor. "
António Gedeão, in «Máquina de Fogo»
Cortesia de Rómulo de Carvalho

Cortesia de Rómulo de Carvalho/JDACT

Rosalia de Castro: «...Delirante, y nublada la vista, dijo a su hija Alejandra, Abre esa ventana, que quiero ver el mar, y cerrando sus ojos para siempre, expiró»

(1837-1885)
Rosalía de Castro, por Sofia Gandarias
Cortesia de vidaslusofonas
Nació Rosalía de Castro en Santiago de Compostela. En su partida de nacimiento figura como «hija de padres incógnitos», puntualizándose, sin embargo, que «va sin número por no haber pasado a la Inclusa».
Durante mucho tiempo la irregularidad de su nacimiento originó cierto desconcierto en la crítica, quizá porque se juzgaba impertinente o poco respetuoso con tal excelsa figura de las letras gallegas indagar en lo que parecían «trapos sucios» de la familia. Afortunadamente esos tiempos han pasado y hoy existen estudios rigurosos que permiten conocer perfectamente los antecedentes familiares de Rosalía. Su madre, doña María Teresa de la Cruz de Castro y Abadía, de familia hidalga venida a menos , nació el 24 de noviembre de 1804. Doña Teresa tenía treinta y dos años y tres meses cuando nació Rosalía. Su padre, don José Martínez Viojo, nacido el 7 de febrero de 1798 acababa de cumplir treinta y nueve, y era sacerdote; no pudo, por tanto, reconocer, ni legitimar a su hija, aunque sí parece que se interesó por ella y encargó de su cuidado a sus hermanas.
Fueron las tías paternas de Rosalía, doña Teresa y doña María Josefa, quienes se hicieron cargo de la chiquilla en los primeros tiempos, llevándola a vivir con ellas, primero en Ortoño en la casa familiar llamada «Casa do Castro», y después en Padrón.
Un detalle que queda sin aclarar es la personalidad de la madrina de Rosalía, la mujer que la llevó a bautizar y que, según la partida de nacimiento, se llamaba Francisca Martínez y era «natural de San Juan del Campo». Según los datos de Caamaño Bournacell, no era hermana del padre (pese a la similitud de su primer apellido, por otra parte muy corriente) ¿Podría ser alguien enviado por doña Teresa de Castro? No se sabe. Parece, a la luz de los hechos conocidos, que la madre no se atrevió a afrontar sola el nacimiento de su hija en los primeros momentos , ya que en la partida de bautismo Rosalía parece como hija de «padres incógnitos». Es una actitud disculpable y explicable por la presión social e incluso por la vergüenza que debió de producir aquel nacimiento «sacrílego» en la familia materna.
Aunque no sabemos con exactitud en qué momento doña Teresa se hizo cargo de su hija, se van encontrando testimonios que indican que lo hizo cuando Rosalía era aun una niña. En un registo del Ayuntamiento de Padrón del 17 de septiembre de 1842, dado a conocer por Manuel Pérez Grueiro (Véase Andrés Pociña / Aurora López, Rosalía de Castro Estudios sobre su vida y su obra, p. 24 ), consta que reside en aquella localidad doña Teresa de Castro, con su hija Rosalía y una criada llamada María Martínez. En ese registro se dice que el estado civil de doña Teresa es el de soltera y que tiene treinta seis años (dato erróneo, ya que, partiendo de la fecha de nacimiento del Libro de Bautizados de Iria Flavia, había nacido el 24 de noviembre de 1804; estaba, pues, a punto de cumplir treinta y ocho años ) Rosalía tiene en ese momento cinco años y siete meses. ¿Fue entonces cuando su madre se la llevó a vivir con ella ? Mientras no aparezcan otros documentos, se puede considerar que probablemente esa es la fecha en la que madre e hija comenzaron a vivir juntas. Un capítulo interesante desde el punto de vista psicológico lo constituyen las relaciones de Rosalía con su madre. No sabemos si doña Teresa vio con frecuencia a su hija mientras ésta vivió con la familia paterna; quizá sí. Y el hecho de vivir con ella desde los cinco años explica el profundo cariño que llegó a inspirar a su hija. Rosalía se casa en el año 1858, interrumpiéndose la convivencia entre las dos mujeres. Doña Teresa muere repentinamente cuatro años más tarde, en 1862. Rosalía escribe entonces un tomito de poesías, A mi madre, donde da muestras de un gran dolor y sobre todo de un sentimiento de soledad que ya no la abandonará nunca. Nada pudo llenar el hueco que había dejado la madre en su vida.
Rosalía debió de sentir por su madre, además de cariño, compasión y agradecimiento. Como tantas protagonistas de sus poemas, su madre era la pobre mujer enamorada y engañada por el varón. Pero era también la mujer que, finalmente, se enfrentó a la sociedad para reconocer el fruto de su desliz y reparar asi su falta. En su primera novela La hija del mar, Rosalía brinda un homenaje al valor de su madre cuando , refiriéndose a una niña expósita dice : «Hija de un momento de perdición , su madre no tuvo siquiera para santificar su yerro aquel amor con que una madre desdichada hace respetar su desgracia ante todas las miradas , desde las más púdicas hasta las más hipócritas».
No sabemos hasta qué punto estos acontecimientos de los primeros años de su vida y su nacimiento irregular influyeron en el carácter y en la obra de Rosalía.La crítica ha tendido a destacar la importancia de aquellos hechos. Rof Carballo señaló la coincidencia de ciertos rasgos de su mundo poético con la ausencia de una «imago» paterna en la formación de su personalidad.
José Luis Varela interpreta el símbolo de la negra sombra poniéndolo en estrecha relación con la «oscuridad» de sus orígenes. Xesús Alonso Montero destaca la presión social que sufrieron la niña y la madre y cómo ese ambiente condicionó la personalidad adulta de Rosalía. En cuanto a mí, no me cabe duda de que algunos caracteres de su visión del mundo -por ejemplo, la vinculación de amor, remordimiento, pecado- están íntimamente relacionados con su historia familiar.
Aunque la sociedad gallega tenga frente a los hijos naturales una actitud más abierta y comprensiva que otras sociedades, el hecho de ser «hija de cura» debió de inclinar la balanza negativamente del lado de las reticencias. No parece extraño que en una niña sensible e inteliegente la falta de padre y su condición de fruto de amores prohibidos influyeran en su carácter y en su concepción de la vida.
Un capítulo interesante desde el punto de vista psicológico lo constituyen las relaciones de Rosalía con su madre. No sabemos si doña Teresa vio con frecuencia a su hija mientras ésta vivió con la familia paterna, quizá sí, y quizá también la recogió antes de ese año de 1852 que antes citamos; de otro modo resulta sorprendente el profundo cariño que llegó a inspirar su hija. En efecto, Rosalía se casa en el año 1858, interrumpiéndose así la convivencia continua de las dos mujeres. Doña Teresa muere repentinamente cuatro años más tarde, en 1862. Rosalía escribe entonces un tomito de poesías, A mi madre, donde da muestras de un gran dolor.
Cortesia de wikipédia
¿Pudo crearse un vínculo tan fuerte entre madre e hija en sólo seis años de convivencia, teniendo ya Rosalía quince? Cuesta creerlo. Aunque no tengamos testimonios, hay que suponer que doña Teresa se hizo cargo de la niña mucho antes de esa fecha de 1852.
Rosalía debió de sentir por su madre, además de cariño, compasión y agradecimiento. Como tantas protagonistas de sus poemas, su madre era la pobre mujer enamorada y engañada por el varón. Pero era también la mujer que, finalmente, se enfrentó a la sociedad para reconocer el fruto de su desliz.
¿Qué clase de instrucción recibió Rosalía? Parece que fue escasa. No sabemos si cursó estudios, aunque los biógrafos se inclinan a pensar que no, excepto algo de Dibujo y Música en las aulas de la Sociedad Económica de Amigos del País. Un índice de su escasa escolaridad son las abundantes faltas de ortografía de los autógrafos que conservamos de ella.
Un capítulo importantísimo en su vida son sus relaciones con Manuel Murguía con quien contrae matrimonio el 10 de octubre de 1858. Las opiniones de la crítica sobre la vida en común de la pareja son tan contradictorias que pueden sumir al lector en la perplejidad.
Xesús Alonso Montero afirma «siempre he creído que la decisión de casarse con este hombre es un acto propio de quien, abrumado por las circunstancias, se ve en la necesidad de aceptar la menor oportunidad».
Por el contrario, leemos en Bouza Brey: «Daman do seu home, pois, entróu Rosalía na groria, xa que foi o primeiro ademirador das suas escelsas coalidás poéticas, con sacrificio escomasí das propias, como ben señala o escritor don Xoán Naya; e nunca xamáis lle pagará Galicia a don Manuel Murguía o desvelo que puxo en dar a conocer as vibracións de aquel esquisito esprito. O nome de Murguía ten de figurar ó frente de toda obra de Rosalía polo amoroso coido que puxo no seu brilo frente á recatada actitude da súa esposa, apartada sempre dos cenáculos onde se forxan, con razón ou sin ela, as sonas literarias».
Si en su vida íntima fueron felices o desgraciados, si hubo por parte de Murguía infidelidad, ya sólo lo sabrán ellos y algunos que no han querido decirlo. A nosotros nos toca únicamente exponer los hechos que conocemos y darles nuestra propia interpretación.
Un hecho que me parece altamente significativo y que ya comenté en otro lugar es la destrucción de las cartas de Rosalía que realizó su esposo, al final de su vida. El propio Murguía nos cuenta este episodio:
«Como ya se acercan los días de la muerte, he empezado por leer y romper las cartas de aquella que tanto amé en este mundo. Fui leyéndolas y renovándose en mi corazón alegrías, tristezas, esperanzas, desengaños, pero tan llenas de uno que en realidad, al hacerlas pedazos, como cosas inútiles y que a nadie importan, sentí renovarse las alegrías y dolores de otros tiempos.
Verdaderamente la vejez es un misterio, una cosa sin nombre, cuando he podido leer aquellas cartas que me hablaban de mis días pasados, sin que ni mi corazón ni mis ojos sangraran. ¿Para qué?, para que me decían. Si hemos de vernos pronto, ya hablaremos en el más alla».
Si es cierto que, gracias a su esposo, Rosalía se lanzó a la vida literaria y eso le hemos de agradecer, también lo es que nos privó, con la destrucción de las cartas, de un elemento importante para conocer su carácter y su obra. ¿Cuántos misterios de su poesía, cuántas alusiones que nos desconciertan por ignorar su verdadero significado, no se hubieran aclarado conociendo sus cartas? Murguía era consciente de la importancia de ellas, aunque insista repetidamente en que sólo interesan a ellos dos:
«Pero si las leí sin que mi alma se anonadase en su pena, no fue sin que el corazón que había escrito las líneas que acababa de leer, se me presentase tal como fue, tal cual nadie es capaz de presumir».
Es, pues, la imagen de Rosalía «tal como fue, tal cual nadie es capaz de presumir» lo que Murguía destruyó para la posteridad. Cabe preguntarse por qué. Quizá porque la imagen de su vida matrimonial no era tan perfecta o ejemplar como él hubiera, a posteriori, deseado.
En las escasas cartas o fragmentos conservados, encontramos reproches unidos a confesiones de cariño, exigencias o disculpas por esas exigencias, que pueden parecer excesivas. Veamos algún ejemplo:
«Mi querido Manolo: No debía escribirte hoy, pues tú me dices lo haga yo todos los días, escaseas las tuyas cuanto puedes, pues casualmente los dos días peores que he tenido, hasta me aconteció la fatalidad de no recibir carta tuya. Ya me vas acostumbrando, y como todo depende de la costumbre, ya no hace tanto efecto; sin embargo, estos días en que me encuentro enferma, como estoy más susceptible, lo siento más. Te perdono, sin embargo, aunque sé que no tendrías otro motivo para no escribirme que el de algún paseíto con Indalecio, u otra cosa parecida». Veamos otro fragmento:

«Estando lejos de ti vuelvo a recobrar fácilmente la aspereza de mi carácter que tú templas admirablemente, y eso que, a veces, me haces rabiar, como sucede cuando te da por estar fuera de casa desde que amanece hasta que te vas a la cama, lo mismo que si en tu casa te mortificasen con cilicios».
La impresión que sacamos de los escasos restos conservados es que Rosalía encontró en Murguía uno de los pocos apoyos de que difrutó en su vida, que le consideraba como «la persona a quien más se quiere en el mundo», que muchas veces no se sentía correspondida en la misma medida, y que, entonces, o rabiaba o hacía «reflexiones harto filosóficas respecto a la realidad de los maridos y la inestabilidad de los sentimientos humanos». Un punto de la biografía de Rosalía en el que hubo bastante confusión se refiere al número de sus hijos e, incluso, a su sexo. Tras los trabajos de Caamaño Bournacell -ya citado- y de Bouza Brey, la cuestión ha quedado aclarada. Tuvo los hijos siguientes:
  • Alejandra, nacida en mayo de 1859 en Santiago de Compostela, casi a los siete meses exactos del matrimonio de sus padres. Murió en 1937;
  • Aura, nacida en diciembre de 1868 (obsérvese el largo intervalo sin descendencia). Murió en 1942;
  • Gala y Ovidio, gemelos, nacidos en julio de 1871. La primera murió en 1964; Ovidio, en 1900;
  • Amara, nacida en julio de 1873. Murió en 1921;
  • Adriano Honorato Alejandro, nacido en marzo de 1875, murió en noviembre de 1876 a consecuencia de una caída;
  • Valentina, nacida muerta en febrero de 1877.
Murió Rosalía el 15 de julio de 1885. Recordemos sus últimos momentos a través del relato de González Besada:

«... recibió con fervor los Santos Sacramentos, recitando en voz baja sus predilectas oraciones. Encargó a sus hijos quemasen los trabajos literarios que, reunidos y ordenados por ella misma, dejada sin publicar, dispuso se la enterrara en el cementerio de Adina, y pidiendo un ramo de pensamientos, la flor de su predilección, no bien se lo acercó a los labios sufrió un ahogo que fue el comienzo de su agonía. Delirante, y nublada la vista, dijo a su hija Alejandra: 'Abre esa ventana, que quiero ver el mar', y cerrando sus ojos para siempre, expiró»...

Desde Padrón, en donde murió Rosalía, no puede verse el mar. Impresionan esas últimas palabras de una persona para quien el mar fue una perenne tentación de suicidio. Recordemos sus versos:

Co seu xordo e costante mormorio
atráime o oleaxen dese mar bravío,
cal atrái das serenas o cantar.
«Neste meu leito misterioso e frio
-dime-, ven brandamente a descansar».
El namorado está de min... ¡o deño!
i eu namorada del.
Pois saldremos co empeño,
que si el me chama sin parar, eu teño
unhas ansias mortáis de apousar nel.

Rosalía penetraba, por fin, en ese mar-muerte donde teanto había anhelado reposar. In Marina Mayoral.

Bem sei que non hai nada
Novo en baixo do ceo,
Que antes outros pensaron
As cousas que ora eu penso.
E bem, ¿para que escribo?
E bem, porque así semos,
Relox que repetimos
Eternamente o mesmo.

Tal como as nubes
Que impele o vento,
I agora asombran, i agora alegran
Os espazos inmensos do ceo,
Así as ideas
Loucas que eu teño,
As imaxes de múltiples formas,
De estranas feituras, de cores incertos,
Agora asombran,
Agora acraran
O fondo sin fondo do meu pensamento.
(Rosália de Castro)
 
Cortesia de O Leme/JDACT