segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Patxi Andión: «Das duas primeiras vezes que tentou cantar em Portugal foi expulso do país. Ary dos Santos traduziu algumas das suas canções que foram gravadas por Tonicha, ainda antes da Revolução de Abril»

Cortesia de hardmusica


Também frequentei o Café Central: estudante, convívio, bilhar, televisão. Foi aqui que ouvi Patxi pela primeira vez. Sala cheia. Muitos criticaram. Eu fiquei deslumbrado e radiante com este «Canto!».




Cortesia de cafedelascuatro




JDACT

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Bela Poesia: Fernando Pessoa. «Minha cota de malha, tão inútil, minhas esporas de um tinir tão fútil, deixei-as pela fria escadaria»

Cortesia de euempe

Abat-Jour
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza

Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei ... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
Fernando Pessoa
 
Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa
 
JDACT

A Bela Poesia: Natália Correia. «Que os meus outros rostos não sejam o instável pretexto da minha essência. Possam meus rios confluir para o mar duma só consciência»

Cortesia de comunidade

O Poema
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.
Natália Correia
 
Paz
Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.
Natália Correia

JDACT

Lendas Medievais: A Dama Pé de Cabra. «Formosa senhora, se casardes comigo, ofereço-vos as minhas terras e os meus castelos, além do meu coração que já vos pertence!»

Cortesia de wikipedia

Esta história é do tempo... que os cristãos lutavam com os mouros pelo domínio do oeste da Ibéria e pela formação do reino cristão de Portugal. D. Diogo era um bravo cristão que tinha como missão a expulsão dos mouros daqueles reinos. Destemido e arrojado, o fidalgo gostava de montar o seu cavalo branco e sair pelos bosques e montes a caçar veados, javalis, lobos e ursos. Fizesse sol ou chuva, fosse Inverno ou Verão, lá estava o inquieto fidalgo longe do seu castelo, em caças perigosas a animais silvestres ou aos mouros infiéis.

Cordesia de imaginacaoativa
Sendo originária de Marialva, concelho de Mêda, no distrito da Guarda. Até hoje alguns crêem que se pode ver a Dama Pé de Cabra vagar na torre de menagem do castelo que encontra-se em ruínas. Dizem mesmo que o nome de Marialva tem origem no nome desta dama muçulmana, que se chamava Marialva. Eis a versão de Alexandre Herculano em Lendas e Narrativas.

Foi a perseguir um javali num monte agreste e coberto de silvas espinhentas, que o valente fidalgo um dia se deparou com o mais belo canto que já ouvira. O canto ecoava pelo ar, fazendo que o javali ficasse manso e esperasse pela sua lança, como se encontrasse a redenção. Embriagado por tão bela e aguda voz, D. Diogo correu com os olhos em direção a um pedregulho que aparecia à frente. No cimo encontrava-se, sentada, a mais formosa das mulheres. O coração do fidalgo disparou. Aproximou-se da mulher e perguntou:
  • Quem sois vós, encantadora senhora? Quem sois vós que me cativou com o vosso belo canto?

Cortesia de imaginacaoativa
Ela riu-se. Do sorrriso saltava-lhe a mais bela feição, rimando com o olhar vindo de duas contas cristalinas, seus cabelos dourados dobravam-se ao vento, sua face gentil reluzia o dia de sol, suas mãos brancas traziam uma pele macia como a neve. Respondeu_lhe:
  • Sou uma dama tão nobre quanto sois vós.
Ao ouvir-lhe as palavras, D. Diogo não se conteve, aproximou-se com o coração a arfar-lhe cada mais, descompassado de amor. Disse-lhe:
  • Formosa senhora, se casardes comigo, ofereço-vos as minhas terras e os meus castelos, além do meu coração que já vos pertence!
Guarda as tuas terras que precisas para cavalgar a tua inquietude da alma.

Cortesia de wikipedia 
Numa malícia que se traduzia em constrangimento, a mulher baixou a cabeça, a demonstrar um fulgurante pudor. A olhar com um encanto de serpente para o homem, pronunciou as palavras com a mais doce das vozes:
  • A única coisa que me interessa, não podes dar-me, porque foi um legado da tua mãe. Tens de jurar que não tornas a fazer o sinal da cruz que ela te ensinou quando eras pequeno.
Por alguns instantes, D. Diogo hesitou ante tão estranho pedido, que lhe pareceu coisa do diabo. Olhou-a com estranheza, mas ao deparar-se com tamanha beleza, com aquele sorriso tão puro, afastou as dúvidas e os pensamentos obscuros. Já se apaixonara irreversivelmente por ela. Questionou-se para que serviam as benzeduras? Chegou à conclusão que se deixasse de benzer, continuaria a ser o mais puro dos cristãos. Para compensar esta omissão, decidiu que mataria duzentos mouros e todos os pecados ser-lhe-iam perdoados. -Que assim seja, minha amada!

Cortesia de produtovendido
Movido pela paixão, arrebatou-a nos braços, esporeou o cavalo e partiu a galope para o castelo. À noite, quando se deitaram, embriagados de amor, D. Diogo apercebeu-se que a dama tinha pés de cabra. Mas o seu coração apaixonado não deu importância àquele defeito, pois o corpo da amada era esbelto, esguio, os cabelos eram lisos e perfumados, a pele fina como a seda. Durante alguns anos o casal viveu em paz, felizes e apaixonados. Da união nasceu um menino, Inigo, e uma menina, Sol. Assim correram os anos, Diogo continuou inquieto nas suas caças, mas com a certeza que ao final delas, encontraria a paz que precisa nos braços da amada e no aconchego da família.

Numa noite, durante a ceia, Diogo reparou que o seu melhor cão de caça dormitava junto à lareira, enquanto que uma feroz cadela, pertencente à mulher, andava inquieta de um lado para o outro, com um rosnar estranho. Para afrontá-la, pegou num grande pedaço de osso, atirou-o para junto do focinho do cão que se encontrava próximo à lareira, e disse: -Toma lá tu, Silvano, valente caçador, precisas te alimentar. À cachorra não dou nada, porque não pára quieta!

Satisfeito e agradecido, abocanhou tão generoso osso, mas não teve tempo de comê-lo, pois a fúria da cadela fez com que se atirasse ao cão, abocanhando-lhe mortalmente a garganta. -Maldita cadela! Por minha fé cristã, jamais vi coisa assim! Por cá andam artes de Belzebu...

Cortesia de wikipedia 
Ao dizer tais palavras, D. Diogo esqueceu-se do juramento que fizera à mulher alguns anos antes, benzendo-se repetidas vezes. Foi quanto bastou para que a mulher emitisse urros pavorosos. Aos olhos apavorados de D. Diogo, a mulher parecia desmanchar-se em outra, a pele branca e sedosa tornou-se áspera e negra, os olhos reviraram, a boca ficou torta. A mulher tornara-se um animal horrendo, que se erguia no ar, leve como uma pena. Debaixo do braço esquerdo levava a filha,  Sol, o braço direito alongava-se para o filho.-Santo Deus! Jesus Cristo! – Bradava o fidalgo. – A minha mulher é o diabo!

Antes que o braço direito da mulher alcançasse Inigo, o fidalgo agarrou o filho e fez vários sinais da cruz. A mulher soltou um último e horripilante grunhido, desaparecendo de vez por uma fresta próxima ao tecto, levando consigo a menina. Desde àquela noite, ninguém no castelo tornou a pôr os olhos em cima da mãe, da filha e da cadela. Desapareceram entre as artes mágicas.
Mesmo a saber que a mulher talvez fosse o diabo, D. Diogo Lopes sofreu a dor da sua perda, vivendo muito tempo cabisbaixo, triste e aborrecido com a vida. Para esquecer a dor que sentia no coração, decidiu partir para a guerra. Entregou ao filho Inigo o governo dos castelos. Os servos desenferrujaram-lhe as armas, preparando-lhe o cavalo. Partiu assim, para lutar contra os mouros e ajudar na formação do reino cristão de Portugal.

Cortesia de Lendas Medievais/JDACT

Jorge Trigo e Luciano Reis: Parque Mayer, Parte I. «Local do nosso gargalhar e de liberdade de alma, na simbiose da palavra que cada um entendia dar à deixa, ao gesto, ao gosto da crítica política, ao subentendido...»

Teatro Maria Vitória
Cortesia de guiadosteatros

Inaugurado nos anos 20, o Parque Mayer rapidamente se afirmou como a «Catedral da Revista» e um espaço de boémia, que o tempo foi matando lentamente até ao presente abandono.

A 15 de Junho de 1922, o então denominado Avenida Parque abriu as portas junto à Avenida da Liberdade, em Lisboa, nos jardins do palacete construído por Adolf Mayer, onde entre 1918 e 1920 tinha funcionado um clube de jogo.
O espaço foi idealizado pelo jornalista, escritor e empresário teatral Luís Galhardo, que pretendia criar um novo local de espectáculos na cidade. Para isso, associou-se a um conjunto de homens de negócios que formaram a Sociedade Avenida Parque.

Cortesia de ummundomagico


Inicialmente, o recinto funcionou como parque de diversões, onde havia barracas de tiros e argolas, carrosséis, mas com o tempo transformou-se num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre.
A afluência do público foi tão grande no início que acabou por substituir as tradicionais Feiras de Agosto que se realizavam no Marquês de Pombal desde 1908, como contam os escritores Jorge Trigo e Luciano Reis no livro «Parque Mayer».

Cortesia de antoniojorgegoncalves
Mas o carácter provisório do parque e o facto de apenas funcionar no Verão prejudicou muito o seu futuro e em 1930 era manifestado através do Notícias Ilustrado o desejo de melhoramento, sendo utilizado como exemplo o Parque de Atracções de Sevilha. Sem deixar de se considerar o local como «esplêndido», punha-se em causa o «vergonhoso portão» e a «amálgama de gaiolas e pardieiros que se construíram», lê-se no livro (ISBN 989-602-016-7, Set 2004).
Em 1922, surgiu o primeiro teatro, Maria Vitória, seguindo-se o Variedades (1926), o Capitólio (1931) e o ABC (1956).

Cortesia de construir
Além do teatro, realizavam-se no recinto bailes, exibições dos circos Royal, El Dorado e Luftman, combates de boxe, luta greco-romana e luta livre, entre outras diversões. Na noite de Santo António em 1932, acolheu o primeiro desfile de grupos representativos de alguns bairros de Lisboa, que mais tarde foi oficializado como Marchas Populares.
Ao longo de décadas, o espaço foi considerado a Catedral da Revista à Portuguesa, por onde passaram grandes actores, como António Silva, Vasco Santana, Ivone Silva, Mariana Rey Monteiro, Beatriz Costa e Laura Alves, entre muitos outros. «O Maria Vitória» foi o primeiro teatro do recinto e é o único que se mantém em funcionamento.
Segundo alguns críticos, a revolução de Abril e as novas salas de espectáculo, a televisão e  os novos gostos, as estruturas já há muito gastas e associadas à falta de investimento e novos empresários, ditaram a morte lenta do Parque, onde a alegria de outrora deu lugar a um espaço fantasma, cheio de edifícios degradados e carros espalhados pelo local.

Cortesia de canelaehortela
A polémica permuta dos terrenos municipais da antiga Feira Popular com os terrenos privados do Parque Mayer, propriedade da Bragaparques, que conduziu a uma crise na Câmara de Lisboa que culminou com a queda dde um executivo da edilidade (Carmona Rodrigues). A maioria dos cidadãos lisboetas está preocupada com o futuro das pessoas e estabelecimentos que sobrevivem no recinto:
  • duas moradoras,
  • três restaurantes,
  • o Guarda-Roupa Paiva,
  • Teatro Maria Vitória.
«O que vai acontecer agora?
«O Parque Mayer, que faz parte da história da cidade, merecia mais respeito e consideração por parte dos políticos, principalmente dos que têm tido o seu futuro nas mãos». «Respeitem a sua memória. Não é preciso projectos megalómanos. Recuperem os teatros, criem estruturas de agora e espaços de circulação», apela Jorge Trigo, rematando: «Chega de promessas, incúrias, desleixo e passem à acção». In 1922-1952, Parque Mayer, Volume I, Lusa.

Cortesia de Sete Caminhos/JDACT

TEMÁTICA, o TANGO: Parte II. «Como dança não se limitou às zonas portuárias ou aos ambientes próximos. Estendeu-se também aos bairros proletários e passou a ser aceito nas melhores famílias, principalmente depois que a dança teve sucesso na Europa. Ressurgiu renovado por Astor Piazzolla, quem lhe deu uma nova perspectiva, rompendo com os esquemas do tango clássico»

Cortesia de wehavekaosinthegarden









Cortesia de movimentopropatria

JDACT

TEMÁTICA, o TANGO: Parte I. «Nasce no final do século XIX de uma mistura de vários ritmos provenientes dos subúrbios de Buenos Aires. Esteve associado desde o princípio com bordéis e cabarés. Ressurgiu renovado por Astor Piazzolla, quem lhe deu uma nova perspectiva, rompendo com os esquemas do tango clássico»

Cortesia de macroscopio










Cortesia de feriasetemposlivres

JDACT

sábado, 29 de janeiro de 2011

Os Teatros de Lisboa: Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Em S. Carlos não há surpresas. Sabe-se de cór as óperas ... e os camarotes»

Cortesia de Bordalo Pinheiro

Teatro de S. Carlos

Serve só de Inverno, como os capotes. Em se espalhando por todos os lados a melancolia do Inverno, aí abre ele! Já de noite não se trabalha ao ar livre, já vem cedo as horas para o serão. É ainda tempo de fruta, mas já é tempo de névoa.
Vão-se encarquilhando as folhas das árvores; já não cantam os pássaros; adormecem as borboletas; esfriam as noites, compridas como os dias; vê-se entristecer a terra por sentir o que perde, ou de avistar longe de mais a Primavera.
Ainda as flores estão bonitas, mas já não têm aroma. É a hora. Abre ele as portas, soberbo, magnifico, e ao mesmo tempo sem cerimónia. É o teatro da côrte, mas pode, quem quiser, ir vestido para ali como para o quintal. Bom edifício. Sala magnífica. Artistas que têm, entre outras, uma prenda muito agradável para quem não é empresário, serem caríssimos. Nos camarotes, nas plateias, tudo gente conhecida.

Cortesia de Bordalo Pinheiro
Sócrates, pai da filosofia, nunca saía de Atenas. Nós, que não somos menos sábios que ele,—basta sermos todos conselheiros —não saímos nunca de Lisboa, e por isso todos aqui nos conhecemos e saudamos: —Sr. conselheiro! —Caro conselheiro! —Caríssimo conselheiro, e amigo! Adeus para um lado, adeus para o outro. A família portuguesa. Toda a nossa gente; parentes, vizinhos, e amigos. População flutuante?
Dois brasileiros e um inglês.
Muitas senhoras já na plateia, caladas, — mais caladas do que nós, apesar de costumarmos armar-lhe reputação de faladoras. Enquanto os homens grulham, cavaqueiam, cantarolam, interrompem como se fossem deputados ... e estivessem na câmara, estão quietinhas as senhoras, vendo e ouvindo, sem terem de se sujeitar ao preceito estabelecido para as senhoras nos outros países ... de falarem só quatro ao mesmo tempo.


Cortesia de Bordalo Pinheiro 
Em S. Carlos não há surpresas. Sabe-se de cór as óperas ... e os camarotes. Sabe-se que hão de ver-se certas pessoas do lado direito, certas outras do lado esquerdo, o nosso amigo fulano ao fundo. Sabe-se que no segundo intervalo o sr. Sicrano faz uma visita às senhoras Tais, e que a menina Esta vai no segundo acto para o camarote das suas amigas Est'outras.
Sabe-se quem é que não vai ali aos Domingos.
Quem tem uma prima doente.
Quem está de vestido novo.
Sabe-se tudo. Nada nos apanha de surpresa, —e é muito bom assim. As surpresas não prestam. Todos nós o sabemos, e cada um à sua custa. Chegar por exemplo quando não se é esperado — mesmo sem ser marido — é mau; vai  uma pessoa gozando antecipadamente da alegria que julga causar por aparecer de súbito, e por fim o pasmo em que os outros ficam tolhe um pouco o acolhimento que lhe fazem. O prazer da surpresa não passa de ficção. Prazeres esperados, prazeres a que a gente viva habituado são os únicos de que se goza completa e agradavelmente — basta havel-os precedido a esperança e o desejo, tempêros por excelência de todos os gozos.
Nos teatros de declamação vivem sujeitas as peças à moda caprichosa e fugitiva. Tal assunto que deu no goto a toda a gente em certa época, não se suporta noutras...

Cortesia de Bordalo Pinheiro

Só é condão da música escapar a esta lei. Porquê?
Porque há nas óperas o que raras vezes se encontra nas peças declamadas — idealidade, poesia. Nos dramas e nas comédias chamam-se os personagens:
  • Moita,
  • Vasconcellos,
  • Gaudêncio,
  • Ramos...
Nas óperas chamam-se:
  • Ernâni,
  • Tancredo,
  • Genaro,
  • Polion...
Nomes de cheiro! A prosa, que invade tudo, não pôde invadir por enquanto aquele palco.
Dizem-nos as primas-donas e os tenores em descantes admiráveis de brilhantismo e de paixão o que é o amor, a ira, o ciúme, a dor. Não entra naquele tablado das lendas, nem o frack nem o paletot.
Nunca ali se viu um personagem de chapéu de chuva!
É a capa de D. João, os fatos de seda e de veludo, tudo bordado de cores; grandes espadas e grandes plumas! Os personagens são: Imperadores, Pagens, Generais romanos, Damas nobres, Príncipes, Cavalheiros, Trovadores, Reis!

Cortesia de Bordalo Pinheiro 
Nas primeiras recitas de cada época, a maior parte do público está no caso de um homem que queria ser grande figurão, mas, por não saber muito dos usos da sociedade, tomara um criado que sempre havia andado em casas grandes, e dera-lhe ordem de coçar o nariz disfarçadamente, discretamente, para o avisar logo que visse que o amo, como diz o outro, ía dar raia. Dizia por exemplo o homem, estando à mesa, à hora do café, a uma senhora que lhe ficara ao lado: 
Vai um caxarolete, minha senhora?
E o criado principiava a coçar o nariz, de forma que o sujeito ficava de braços erguidos e garrafas no ar —sem se atrever a pô-las outra vez na mesa, nem a deitnr no copo os licores vários que compõem aquela bebida não direi de guerra ... mas de bernarda». In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de Livraria Editora Mattos Moreira, 1874/Bordalo Pinheiro

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Franz Schubert: Um compositor austríaco do fim da era clássica, com um estilo mrcante, inovador e poético do romanticismo

Cortesia deallegrofilms







JDACT

D. Dinis I: Cantigas Trovadorescas. Deve-se ainda a D. Dinis um grande impulso na cultura nacional. A obra Magna Charta Priveligiorum foi escrita pelo monarca.

(1261-1325)
Lisboa
Cortesia de gentemaior

O meu amig', amiga, non quer' eu
que aja gran pesar, nen gran prazer,
e quer' eu este preit' assi trager,
ca m' atrevo tanto no feito seu:
non o quero guarir, nen o matar,
nen o quero de mi desasperar.

Ca, se lh' eu amor mostrasse, ben sei
que lhi seria end' atan gran ben
que lh' averiam d' entender poren
qual ben mi quer, e poren esto farei:
non o quero guarir, nen o matar,
nen o quero de mi desasperar.

E, se lhi mostrass' algun desamor,
non se podia guardar de morte,
tant' averia en coita forte,
mais, por eu non errar end' o melhor,
non o quero guarir, nen o matar,
nen o quero de mi desasperar.

E assi se pode seu tempo passar,
quando con prazer, quando con pesar.
D. Dinis I 


Chegou-m' or' aqui recado,
amiga, do voss' amigo
e aquel que falou migo
diz-mi que é tan cuitado
que per quanta poss' avedes
já o guarir non podedes.

Diz que oje, tercer dia,
ben lhi partirades morte,
mais ouv' el coita tan forte
e tan coitad' er jazia
que per quanta poss' avedes
ja o guarir non podedes,

Con mal que lhi vós fezestes;
jurou-mi, amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes d' el quanto quisestes,
que per quanta poss' avedes
já o guarir nom podedes.

E gran perda per fazedes,
u tal amigo perdedes.
D. Dinis I
Cortesia de Projecto Vercial/JDACT

O Bosco Deleitoso: Mosteiro de Alcobaça. «Certamente um dos textos mais ricos e expressivos da espiritualidade portuguesa sobre a experiência do amor místico»

Cortesia de institutocamoes 

O Bosco Deleitosoou Bosque Deleitoso, é uma das obras místicas escritas no Mosteiro de Alcobaça entre os finais do século XIV e o início do século XV. Cerca de 60 capítulos transcrevem a tradução da obra de Petrarca, De Vita Solitaria. Os últimos 46 capítulos são originais. O Bosco Deleitoso foi impresso em Lisboa em 1515. O Bosco Deleitoso é certamente um dos textos mais ricos e expressivos da espiritualidade portuguesa sobre a experiência do amor místico.

«O Bosco Deleitoso Solitário é uma das obras mais marcantes da espiritualidade portuguesa medieval, profundamente marcada pelo pensamento de Petrarca e sobretudo de S. Bernardo. Escrita provavelmente no final do século XIV ou no início do século XV por um autor anónimo, mas certamente um monge, revela uma grande afinidade temática com o Horto do Esposo, tendo já sido aventada a hipótese de serem de obras de um mesmo autor. Bosco é aqui assumido no sentido de ermo, lugar de recolha, de retiro, de solidão, onde o homem, voltando-se para si mesmo, intenta conhecer-se, na linha do interiorismo agostiniano e do socratismo cristão. Conhece-te a ti próprio como condição para amar a Deus e ao próximo, tal é a primeira condição do rigorismo ascético a que esta obra nos conduz, em conselho significativamente expresso pela personagem que neste diálogo representa a sabedoria, na qual ecoa idêntico preceito expresso por S. Bernardo, para quem o «conhece-te a ti próprio» é também princípio de verdadeira sabedoria, por ser essa a via que conduz o homem a reconhecer a sua miséria, crescendo em humildade perante a grandiosidade divina.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
Este livro é escrito como uma confissão autobiográfica de um pecador que é conduzido por um anjo aos caminhos da contemplação e da união com Deus, sendo nesse percurso aconselhado pela justiça, pela misericórdia, pela memória e pela sabedoria ao desprezo dos bens mundanais, que se desfazem «assi como fumo», a que se antepõe a afirmação do verdadeiro caminho do mais autêntico conhecimento, que consiste na ascese mística e na união com Deus. Torna-se pois fundamental tomar consciência de que ao homem cumpre tomar vida solitária, apartada das cidades e dos negociadores do mundo, razão por que o pecador é conduzido a um «bosco nevoso», como antecâmara de um alto monte onde o aguardarão os prazeres da contemplação. É esta a oportunidade escolhida pelo monge para nos expor o tema das relações entre a vida activa e a vida contemplativa, a que se segue o enunciado dos graus da contemplação e das três espécies de visão.
A vida activa usa bem e com justiça as coisas do mundo, mas a vida contemplativa renuncia ao mundo, voltando-se somente para Deus. Sendo «vaga de todo o negócio», é capaz de sentir o sabor do paraíso dentro da alma. No entanto, a vida activa é boa, sendo justamente considerada como degrau pelo qual se ascende, com a graça divina, à vida contemplativa.
Mas, propriamente falando, os graus da contemplação, pelos quais atingirá o homem a união mística com Deus são:
  • a obediência fundada em perfeita humildade,
  • o fazer da carne a servidora do espírito,
  • o bem obrar com descrição,
  • o conhecimento dos conteúdos da fé,
  • o guardar a limpeza da alma. 
Seguem-se os três graus finais: «o sexto é trespassares-te de juizo de razom em na afeiçom da mente, ca nom has-de julgar aquelas cousas que vires, que te forem reveladas e dadas por Deus, segundo a razom humanal. O setimo graao é sguardar e oolhar a groria de Deus com face descuberta. O oitavo é seres tresformmado de craridade em craridade».

Cortesia de dctbus
Começa aqui o interesse maior desta obra, sobretudo com os momentos em que descreve pormenorizadamente a experiência mística da visão e da união com Deus, saboreando fervorosamente o amor místico. Cabem aqui as suas inúmeras referências à «avondança de prazer» e à alegria da mente, à folgança espiritual «que me fazia todo ledo», estendendo-se essa alegria aos membros do corpo, «de tal guiza que me fazia andar assi: como bêvedo entrepeçando. E nom podia assessegar e abraçava as criaturas que achava com grandeza do amor do seu Criador», ficando a alma e a mente «esbarafida e de todo fora do seu estado e arrevatada sobre si mesma, trespassando e sobrepojando todolos razoamentos humanais».
Mais adiante, este entusiasmo atinge o erotismo, quando acentua a intensidade dessa experiência: «E depois que o taamo mais de dentro da minha alma era perfeitamente apostado e ordenado e o amado era dentro metido, crecia a fiuza aa minha alma e tomava grande atrevimento e com grande atrevimento e com grande desejo que a costrangia, nom se podia mais conter: e lançava-se subitamente aos beijos do seu amado e com os beiços apegados enele aficava-lhe beijos de devaçoom mui de dentro do coraçom». In Instituto Camões, Pedro Calafate.

Obra:
Booco Deleytoso Solitario, por Hermão de Campos, 1515 (microfilme da BNL F-7007)

Cortesia de institutocamoes 
Bibliografia
Mário Martins, «Petrarca no Bosco Deleitoso», em Estudos de Literatura Medieval, Braga, 1956, cap. XI; Aida Fernanda Dias «Boosco Deleytoso», em Antologia de Espirituais Portugueses, org. de Maria de Lurdes Belchior, José Adriano de Carvalho e Fernando Cristóvão, Lisboa, 1994, págs. 25-36.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

Alfredo Alves: D. Henrique o Infante. Memória Histórica. Parte II


Cortesia de paulocampos
( ... ) 
«Declinava o dia e com ele iam desmaiando as alegrias da festa; o Rei também tinha uma dor a alanceá-lo; Nun'Alvares, o seu Condestável, não estava ali a seu lado, como a sua amizade antiga o requeria. Nun'Alvares andava assomado de génio; repartira ele pelos seus mais leais companheiros de armas grande número de suas terras, e D. João não pudera levar isso a bem. O Condestável quisera sair do reino, e o Rei mandou chamá-lo ao Porto, por intermédio de Ruy Lourenco, deão de Coimbra, e segunda vez por Fernão Rodrigues de Sequeira e ainda terceira pelo Bispo de Évora, D. João.
Aquele donzel, que aos 16 anos, todo entregue a castidade religiosa da Cavalaria, fora obrigado a casar-se por palavras suasorias de sua mãe Iria Gonçalves, depois da morte de D. Leonor de Alvim, sua esposa,—a viúva-donzela de Vasco Gonçalves Barroso— ficara com uma sombra no coração, que o ia, aos poucos, desprendendo das glórias do mundo.

Cortesia de paulocampos 
Viera ele de Braga ao Porto, em 1387, assistir aos últimos momentos dessa esposa estremecida, cerrara-lhe piedosamente os olhos, fizera descerem-na a cripta do mosteiro das Donas de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, e voltara, tristonho, à cidade dos Arcebispos, às cortes que D. João ali tinha reunidas. Lá, para afugentar-lhe a tristeza, quiseram os reis que ele casasse com D. Beatriz de Castro, filha do Conde de Arraiolos, uma viúva também malograda, de Pedro Nunes de Lara, Conde de Maiorca. E o Condestável, como se ao de cima dele o ameaçasse uma nuvem negra, segundo frase sua, abalou de Braga e lá foi acoutar-se às suas terras do Alentejo, o seu campo de glória predilecto. E com esses acessos de tristeza e desânimo de tão egrégio cavaleiro, D. João sentia saudades dos seus tempos de Mestre de Avis; e por isso lastimava, como no dia do baptizado do Infante D. Henrique, não ter ali a seu lado o Condestável, a personificação do espírito da Cavalaria.
Baptizado o Infante, parece que a corte ainda continuou residindo no Porto; ao menos a 25 de Outubro do mesmo ano referendava D. João, nesta cidade, a carta de confirmação do Foral de Gaia.

D. João I
Cortesia de iluminura
Assim o Infante que mais tarde abriu a navegação e ao comércio, pela sua tenacidade inaudita, novos mares e novos portos, viu a luz da sua existência e passou os seus primeiros dias na cidade eminentemente trabalhadora, que melhor sintetiza o espírito enérgico das comunas medievais, burgo de comerciantes audaciosos em partirem o cristal verde das ondas do Atlântico com a recurvada proa dos seus barinéis, indo, rumo ao norte, ate aos portos de Inglaterra e de Flandres a «tresfegar suas merchandias»; e de mais a mais foi embalado o seu berço em uma casa de um «Almazem», uma Alfândega, canal por onde deriva toda a corrente das relações comerciais entre os povos.
Tal facto, para o homem que no século XV melhor simboliza o espírito fenício, é de uma coincidência notável.

Capítulo II
A Educação dos Infantes
D. Filipa era a melhor das esposas e a melhor das mães. Não era apaixonada, mas a sua bondade mostrava-se serena, inalterável. Sabia o que era o dever e cumpria-o sem esforço, naturalmente. O temperamento meridional de D. João I retraía-se ante aquela serenidade de alma da esposa, cujos olhos tinham a suave expressão dos que se perdem nas espirais vagas do sonho; naquelas pupilas azuis nunca fuzilava um raio de cólera nem relampagueava a menor centelha de paixão.

Rua Nuno Álvares
Cortesia de coisasdeabrantes 
Era boa e era casta, a rainha. Não tinha os grandes entusiasmos nem as grandes dedicações; toda a sua vida era regrada e piedosa; amava serenamente o esposo e serenamente também amava os filhos. Desde menina, lá no castelo dos Duques de Lancaster, costumava na sua capela senhorial rezar as horas canónicas, segundo o rito de Salisbury (Sarusbri, no dizer do Cronista Fernão Lopes), e isso todos os dias; as sextas-feiras, meditando na Paixão do Senhor, proferia todo o saltério; os jejuns nela eram frequentes, e no remanso das tardes passadas na solidão das grandes massas de arvoredos altos—por onde de quando em quando um ou outro veado desferia um galope, de assustado, chocando nos troncos ruidosamente a sua armação ramuda— a duquezinha Filipa, muito só e muito calma, à sua janela revestida de trepadeiras lia os velhos pergaminhos monásticos, com suas iluminuras esguias, falando cm coisas do Céu e em anseios da vida eterna.
Tal era o seu viver em donzela; depois de casada da mesma forma o continuou.

Cortesia de luzesdeesperanca
Quando D. João entrava em sua câmara, todo tremia de respeito; o guerreiro tornava-se pacifico e discreto ; e as falas da Rainha de tão doces e agradáveis faziam olvidar por algum tempo o tinir ameaçador das armas e as borrascas das rivalidades dos cortesãos.
Toda a mulher que vivesse no paço havia de ser digna do olhar sereno de D. Filipa. Nada de galanterias; posições claras e definidas, apenas. E D. João levou o escrúpulo a ponto do expediente tristemente irrisório de casar de um dia para o outro quase toda a corte! Era filho de D. Pedro, o dos legendários amores e das legendárias cruezas, havia de ter também a hereditariedade das extravagâncias do desequilibrado pai. Haja vista o trágico sucesso do galanteador Fernando Afonso, mandado queimar pelo Rei, num horroroso desvario. Mas apesar de tudo, a corte de Portugal tornou-se tão rígida em moral quanto dissoluta fora no reinado do desditoso e inteligente irmão do mestre de Avis. Era pois nesse ambiente de castidade e respeito que se criaram os infantes. A rainha deu vida a oito filhos:
  • Branca,
  • Afonso,
  • Duarte,
  • Pedro,
  • Henrique,
  • Isabel,
  • João, 
  • Fernando.
Branca e Afonso pouco viveram; a primeira extinguiu-se de oito meses apenas; o segundo falecido aos doze anos, lá dorme o seu bem prematuro sono da morte naquele esbelto e original túmulo dourado que se encontra ao lado direito da entrada da Sé de Braga. Só os restantes se tornaram adultos sob o influxo da educação austera, mas amorável, da suave filha dos duques de Lancaster.

Cortesia de hgp5
A corte portuguesa de então não tinha a estabilidade moderna; mudava-se de terra a terra a cada passo, e assim era preciso. O rei era, por assim dizer, o eixo da grande roda do maquinismo da nação, a ele convergiam todos os raios, isto e, todos os poderes; difíceis como eram as comunicações de cidade a cidade, de concelho a concelho, tornava-se necessário para conservar o equilíbrio politico ir ver de perto se o alcaide se olvidava da sua menagem ou se o concelho ultrapassava as prescrições do seu Foral. Por isso os reis desse tempo divagavam pelo país todo; e a chancelaria lá acompanhava os monarcas, pois são variadíssimas as indicações de localidades donde eram passados os diplomas da governação.
D. João I assim fazia; D. Filipa acompanhava-o muitas vezes; todavia a sua mais diuturna residência era em Lisboa, Évora e Santarém. E os infantes viviam nos paços com seus pais e toda a sua manutenção era dispensada pelo Rei. Todavia, correndo o ano de 1408 (era de 1446) reuniam-se cortes em Évora e em certa ocasião, estando na presença do monarca o Arcebispo de Lisboa, D. João, e o Condestável, os Mestres de Santiago e de Avis e o Prior do Hospital, bem como Gonçalo Vasques Coutinho, marechal, pediram alguns procuradores dos concelhos que D. João I estabelecesse casas aos Infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique.

D. Filipa
Cortesia de hirondino
O Rei acedeu. A D. Duarte, o herdeiro do trono depois da morte de D. Afonso, destinaram-se «oito contos», e aos outros dois «cinco contos», a cada um, bem como «quatro contos e meio para a logística».
Para isso o Rei tomaria o terço que «quitara» em Lisboa desde o começo das tréguas com Castela, e dos rendimentos metade seria para a manutenção dos infantes, e a outra conservada nas mãos de pessoas idóneas, serviria de comprar terras para os mesmos.
Não era demasiado para as casas dos infantes, porque a medida que iam crescendo assim agregavam a si servidores numerosos. Eles eram: confessores, pregadores, esmoleres, capelães, moços de capela, cavaleiros e escudeiros, pajens e moços de câmara, porteiros, reposteiros, moços de estribeira e da copa e do monte. E tais servidores nunca faltavam; tudo convergia para a corte a buscar engrandecimento ou protecção.
Ter moradia no paço era o sonho dourado de todo o que cingia uma espada ou se esforçava por fazer carreira de alcançar essa honra.

Cortesia de
Com a serena educação de D. Filipa enfloravam-se as almas dos Infantes; com os exemplos valorosos do pai iam-se eles ensaiando para altos cometimentos de armas.
E D. João sentia-se feliz com os filhos. Ele era um valente homem peninsular, trigueiro, forte, enérgico; se nascesse séculos em antes poderia ser, no Hermínio, um dos mais astuciosos companheiros de Viriato. Sim, era astuto; ninguém como ele foi mais prudente nos meios de alcançar o que se lhe preparava e que ele tinha em fito; mas o seu desígnio era inabalável e teimava, teimava até conseguir satisfaze-lo. No combater a sua espada era valentíssima, mas os seus golpes caíam pesados e calculados; a espada do Condestável, essa, floreava ao sol das batalhas, com um meneio largo como um voo, tentando livrar-se a um ambiente ideal de generosidade. O Condestável foi para ele a alma da sua aclamação como rei; sem o brilhantismo de acção daquele Cavaleiro modelo, a valentia prudente do bastardo de Avis seria suplantada e perdida.
E aquela lealdade e aquele valor de Nun'Alvares o Rei nunca esquecera a gratidão bem merecida.

Cortesia de nucleofilateliafaro
Não tivera mais útil servidor, não tivera mais dedicado amigo. A Rainha D. Leonor Telles dissera dele «ao Mestre de Avis todos os dentes abanam, excepto um». E tinha razão a ambiciosa mulher de D. Fernando, pois que Nun'Alvares consubstanciava em si toda a lealdade da alma popular. Por isso ele ficara sempre, na corte e no reino de Portugal, como o protótipo da honra e do valor. Aos filhos não podia o Rei dar melhor modelo. Se os primeiros monarcas da dinastia de Avis se esmeravam na educação afectuosa daqueles a quem haviam dado o ser, também estes não lhes podiam mostrar nem mais carinho nem mais gratidão. São páginas que encantam pelo doce aroma de afectuosidade, que delas se exala, as do «Leal Conselheiro» de D. Duarte, em que se refere o viver dos «Infantes de Avis» com os seus progenitores.

Encomendando todos os seus feitos a Deus, eles subordinavam todas as suas acções ao amor que dedicavam a seu pai e rei; se acaso conheciam que alguma coisa lhe desagradava eram todos esforços em afastá-la; solícitos, inquiriam a cada passo do que ele carecia; condescendentes, não tinham opinião de encontro à dele; sinceros, nunca uma só palavra de censura lhe destinaram na ausência; discretos, os seus lábios eram arca de qualquer segredo; nunca lhe mentiam; se ele se agastava com qualquer palavra inconsciente ou mal interpretada, eles eram todos, numa ânsia, concordes era pedir-lhe desculpa; tudo o que lhe causasse desgosto era dissimulado; preparavam-lhe festas e torneios para sua distracção; se ele adoecia, acorriam todos a ser seus enfermeiros; com ele trabalhavam, auxiliando-o no despacho da governação; o Rei mandava, sim, mas os requerimentos injustos tinham perante D. João calorosos adversários. Adoravam a Rainha como uma santa; e todos entre si, eram acordes nos mesmos afectos e propósitos». In G 286, H5A53, Porto, Typografia do Commercio do Porto, 1894.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

TEMÁTICA, o FADO: Edmundo Bettencourt. «Um cantor e poeta notavelmente conhecido por interpretar Fado de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical»

(1889-1973)
Funchal
Cortesia de universidadedecoimbra 










Entro na Igreja majestosa e calma,
Erro na sombra sob as arcarias
Anda no ar silêncio, e a minha alma
Toma a frieza das colunas frias
Numa capela triste aonde espalma,
Doirado ilustre, chamas fugidias,
Tocam-me o peito as setas duma palma
A evocar-me de Cristo em agonias
Começa o som do órgão, morno, errante,
E o aroma do incenso penetrante
Como as garras aduncas do tormento
E o já desejo acre de esquecer,
De o longe e o mundo eu só escutar e ver,
No coração me nasce brando e lento.

TEMÁTICA, o FADO: Lucília do Carmo. «Uma dama do fado corrido, tida como uma das melhores vozes do fado. Ary disse: Lucília do Carmo é, quanto a mim, um clássico do fado!»

(1920-1999)
Portalegre
Cortesia de oficinadofado






http://www.youtube.com/watch?v=kDD0R01qhT0




JDACT

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bernardim Ribeiro: Menina e Moça. Parte II. «Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vos comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós fostes, tudo se tomou tristeza. nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis»

Cortesia de tertuliabibliofila

Menina e Moça
Bernardim Ribeiro
Introdução
1. Monólogo da Menina
«Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda.
Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.

Cortesia de fcg
Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e cuidados há i algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a míngoa da conversação da gente fosse como já pera meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém. Estando eu assi só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e do outro ágoas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes tudo havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com rezão. Mas parece que das desaventuras há mudança para outras desaventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assi que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram diante meus olhos apresentadas em coisas alheas todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem sua parte de dor.
( ... )
Cortesia de behappyaveiro
Se em algum tempo se achar este livro de pessoas alegres, não o leam. Que, por aventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudáveis como os aqui contados, o seu prazez lhes será menos prazer. Isto, onde eu estivesse, me doeria, porque assaz abastava nacer eu pera minhas mágoas, senão ainda para as doutrem. Os tristes o poderão ler, mas aí não os houve mais homens, depois que nas mulheres houve piedade. Nas mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor. Mas para elas não o faço eu, que, pois que o seu mal é tamanho que se não pode confortar com outro nenhum, é para as mais entristecer. Sem-razão seria querer euque o lessem elas, mas antes lhes peço muito que fujam dele e de todalas cousas de tristeza.
Que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas, porque assi está ordenado pela desventura com que elas nascem. Para uma só pessoa podia ele ser. Mas desta não soube eu mais parte, depois que suas desditas e minhas o levaram para longes terras e estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem prazer nenhum.

Cortesia de emulecom
Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vos comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós fostes, tudo se tomou tristeza. nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis. E porque tudo ainda mais me magoasse, tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de saber para que parte de terra íeis, que descansaram meus olhos em levarem para lá a vista. Tudo me foi tirado, no meu mal nem remédio nem conforto houve aí. Para morrer asinha, me pudera isto aproveitar, mas para isto não me aproveitou.
Inda convosco usou desaventura algum modo de piedade em vos alongar desta terra, pois que pera não sentirdes mágoas não havia remédio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou falando e não vejo ora eu que leva o vento as minhas palavras, e que me não pode ourvir a quem falo!» In História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian 2000.

Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

Eugénio Lisboa: Feliciano Falcão. Um Homem Bom. «Foi aí que tive oportunidade de conhecer bem a personalidade generosa, aberta, inteligente e bondosa do médico alentejano»

Cortesia de edicolibri

Um Homem Bom
«Em 1954, mais precisamente, em Fevereiro de 1954, fui colocado, como oficial miliciano de infantaria, no Batalhão de Caçadores 1, em Portalegre. Não por escolha, mas porque, em Mafra, fora um cadete miliciano repetidamente rebelde e assaz irrecuperável. Como finalista de engenharia, conviera-me ficar colocado em Lisboa ou perto de. Mas a classificação mortífera, em comportamento, empurrara-me para uma unidade de quase fronteira: Portalegre, que ficava a cinco horas de Lisboa, de comboio - castigo que baste.
Castigo?
Como se enganavam! Ao fundo do túnel da contrariedade, brilhava uma luzinha entre o tímido, o provocatório e o intenso: em Portalegre, «cidade do Alto Alentejo», vivia José Régio, cuja obra se me abrira, em Lourenço Marques, actualmente Maputo, em 1945 ou 1946, quando um colega do liceu, Alberto Parente, me ofereceu, pelos meus anos, o primeiro volume de A Velha Casa, que trazia o título aliciante e aterrador de Uma gota de sangue. Era todo um mundo que se me oferecia! Foi por aí - não pela poesia - que comecei.

Hernâni Cidade
Cortesia de premioliterariohernanicidade
A poesia veio um pouco mais tarde, quando, já estudante, em Lisboa, li o Fado (sim, também não comecei pelos Poemas de Deus e do Diabo, que só vim a adquirir, numa 2.ª edição, comprada no Lobito-Angola - quando, em 1952, ali passei, de barco, a caminho de Lourenço Marques). Em suma, fazer o sexto ano de engenharia (com trabalhos práticos pelo meio), a cinco horas de distância e com os constrangimentos das obrigações e da disciplina militares, era bico-de-obra! Seria talvez compensado, se chegássemos à fala, pelo convívio com o Régio! O que não era seguro, dada a minha timidez de urso, neste caso agravada pela veneração que me inspirava a obra do grande escritor. Para quem não é atrevido, não é fácil a aproximação dos deuses - ficam longe e alto e costumam esconder-se atrás de cortinas... Pelo menos, assim o pensava ou assim me fazia pensar a reputação de inacessível que a lenda colara ao autor de As Encruzilhadas de Deus. Os próprios textos inculcavam uma solidão trágica e relatavam, com pérfida minúcia, os escolhos ao amor e à amizade. As traições espreitavam, o convívio humano era um território minado. Não era certo que o exílio em Portalegre me viesse afiazer a contrapartida com que sonhava.

Cortesia decarruagem23
Tudo foi, porém, surpreendentemente diferente e mais fácil. Um ou dois dias depois de termos chegado, o Rui Serrão, colega miliciano, extrovertido e desenvolto, aparece-me no Batalhão com boas notícias:
  • conhecera, no Café Central, um Dr. Feliciano Falcão, alentejano, analista e investigador, cortês e prestável, que se oferecera para apresentar o Régio aos oficiais acabados de chegar, que nisso tivessem interesse.
O Régio ia ao Central todos os dias e, se quiséssemos, depois do jantar... Fiquei excitado e apavorado.
Conhecer o Régio, aqueles olhos, de certeza, perscrutadores (A Velha Casa, O Jogo da Cabra Cega, a poesia toda, as Histórias de Mulheres não deixavam margem a dúvidas), afrontar o Régio, ser julgado pelo Régio... Julgo que, antes desse encontro, conheci, depois do almoço, o nosso intermediário, o Dr. Falcão, que logo me acalmou: era, visivelmente, com o seu sotaque alentejano carregado, um homem de uma grande candura e bondade, culto, interessado, passa-culpas... Não tinha dúvidas de que gostaríamos de conhecer o Régio e de que ele gostaria de conviver connosco. Pareciam-me certezas a mais, mas a urbanidade serena, tranquiltzadora e sorridente do Dr. Falcão de algum modo me confortavam. E, de facto, à noite, depois do jantar, no Café Central, o Dr. Falcão, com uma simplicidade não afectada, juntou-nos a uma mesa. Comecei mal - o nervoso era tanto, que entornei a chávena de café, agravando a tensão.

Cortesia de falcaodejade
Durante todo o ano que passei em Portalegre, reuni-me, quase  diariamente, à mesa onde pontificava José Régio e na qual participavam, frequentemente, Feliciano Falcão, Adelino Santos, Arsénio Ressurreição (pintor), Rui Serrão (meu colega e amigo) e, também, o capitão Saraiva e sua mulher (que fora aluna de Régio) - entre outros.
Foi aí que tive oportunidade de conhecer bem a personalidade generosa, aberta, inteligente e bondosa do médico alentejano.

Algumas vezes, em sua casa, ouvíamos música, porque era possuidor de uma vasta e ecléctica discoteca, que incluía desde música medieval até aos contemporâneos mais cotados. Régio, que olhava com alguma malícia para a «abertura» cândida de Feliciano Falcão, nem sempre terá sido justo para o seu amigo - chegaram mesmo a cortar relações.
A pureza do médico chegava a exasperá-lo e, com o seu feitio provocador, tentava atiçá-lo... «ensaiá-lo». Admirei Régio e tornei-me seu amigo, mas senti por Falcão um profundo e respeitoso afecto.

Feliciano Falcão era um aderente do Partido Comunista, o que quase me fazia sorrir:
  • a profunda ética e delicadeza do seu proceder (nada compatível com o moto de que os fins justificam os meios), o seu profundo amor à arte, despreocupado de saber se ela «Servia» ou «não Servia», a sua profunda e nunca desmentida admiração e empatia com a obra do autor de Mas Deus É Grande faziam dele um bem singular exemplo de comunista...
Confesso que pouco me ralava o que ele era ou julgava ser: pata mim, era úm dos mais nobres e puros exemplares de homem que até então (e até hoje!) me foi dado encontrar.

Cortesia de falcaodejade
Quando, ao fim de um ano, saí de Portalêgre, estive uns meses em Lisboa e, depois, regressei a África, onde perdi o contacto com o Dr. Feliciano Falcão e só voltei a reatá-lo, em 1978, em vésperas de partir de Lisboa para Londres. Visitei-o ainda na sua casa da Serra, em Portalegre e trocámos uma ou outra carta. Mas deu-se, pouco antes da sua morte, um facto significativo, que foi, para mim, o testemunho de fogo da espécie de amizade que nos unia (sentia por ele, como disse, um profundo, ainda que não expresso, afecto e fiquei, por essa carta, a saber - a confirmar - que o mesmo sentia ele por mim).
A sua missiva anunciava, de modo discreto, que o seu fim poderia não estar para demora. E ele admitia que pudesse não ser um fim «agradável». 

Pedia-me, portanto, que fosse seu amigo, como se deve sê-lo em tempo de crise. Fiquei uns dias a pensar no que poderia responder-lhe - quando tive notícia do seu falecimento. Hoje, gosto de acreditar que lhe teria respondido, dizendo-lhe que contasse comigo». In Memória Viva, Feliciano Falcão, Edições Colibri 2003, António Ventura, ISBN 972-772-440-X.
Cortesia de Edições Colibri/JDACT