quinta-feira, 31 de março de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXIII. Luís de Camões. «...Tu não enganas ninguém, pois a quem te desejar vemos que danas; se te querem qual te vem, se se querem enganar, ninguém enganas...»

Cortesia de prof2000 

Nunca Estamos Contentes
Já ouvistes dizer: «Ninho feito, pega morta». Que me dizeis ao contentamento do mundo, onde toda a duração dele está enquanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque, acabado de alcançar, é passado; e maior saudade deixa do que é o contentamento que deu. Esperai, por me fazer mercê, que lhe quero dar umas palavrinhas de propósito:

Mundo, se te conhecemos,
porque tanto desejamos
teus enganos?
E, se assim te queremos,
muito sem causa nos queixamos
de teus danos.

Tu não enganas ninguém,
pois a quem te desejar
vemos que danas;
se te querem qual te vem,
se se querem enganar,
ninguém enganas.

Vejam-se os bens que tiveram
os que mais em alcançar-te
se esmeraram;
que uns, vivendo, não viveram,
e os outros, só com deixar-te,
descansaram.

E se esta tão clara fé
te aclara teus enganos,
desengana ;
sobejamente mal vê
quem, com tantos desenganos,
se engana.

Mas como tu sempre morres
no engano em que andamos e que vemos,
não cremos o que tu podes,
senão o que desejamos
e queremos.

Nada te pode estimar
quem bem quiser estimar-te
e conhecer-te;
que em te perder ou ganhar,
o mais seguro ganhar-te
é perder-te.

E quem em ti determina
descanso poder achar,
saiba que erra;
que sendo a alma divina,
não a pode descansar
nada da terra.

Nascemos para morrer,
morremos para ter vida,
em ti morrendo.
O mais certo é merecer
nós a vida conhecida,
cá vivendo.

Enfim, mundo, és estalagem
em que pousam nossas vidas
de corrida;
de ti levam de passagem
ser bem ou mal recebidas
na outra vida.
Luís Vaz de Camões, in «Cartas»

Cortesia de O Citador/JDACT

A Bela Poesia: Teixeira de Pascoaes. «... Lá fóra, no terreiro onde brincavas, a noite escura chora... Ó minha alma, embebe-te na dôr das Cousas êrmas; chora tambem, consome-te, soluça...»

Cortesia de notapositiva 

Nas Trevas
Como estou só no mundo! Como tudo
É lagrima e silencio!

Ó tristêsa das Cousas, quando é noite
Na terra e em nosso espirito!... Tristêsa
Que se anuncia em vultos de arvoredos,
Em rochas diluidas na penumbra
E soluços de vento perpassando
Na tenebrosa lividez do céu...

Ó tristêsa das Cousas! Noite morta!
Pavor! Desolação! Escura noite!
Phantastica Paisagem,
Desde o soturno espaço á fria terra
Toda vestida em sombra de amargura!

Êrma noite fechada! Nem um leve
Riso vago de estrela se adivinha...
Sómente as grossas lagrimas da chuva
Escorrem pela face do Silencio...

Piedade, noite negra! Não me beijes
Com esses labios mortos de Phantasma!

Ó Sol, vem alumiar a minha dôr
Que, perdida na sombra, se dilata
E mais profundamente se enraiza
Nesta carne a sangrar que é a minha alma!

Ilumina-te, ó Noite! Ó Vento, cála-te!
Negras nuvens do sul, limpae os olhos,
Desanuviae a bronzea face morta!

Oh, mas que noite amarga, toda cheia
Do teu Phantasma angelico e divino;
Espirito que, um dia, em minha irmã,
Tomou corpo infantil, figura de Anjo...
E para que, meu Deus? Para partir,
Com seis annos apenas, no primeiro
Riso da vida, em lagrimas, levando
Toda a luz de esperança que floria
Este êrmo, este remoto em que divago...

Como estou só no mundo! Como é triste
A solidão que faz a tua Ausencia,
E o terrivel e tragico silencio
Da tua alegre Voz emudecida!

Ó noite, ó noite triste! Ó minha alma!
Tu, que o viste e beijaste tantas vezes,
Tu, que sentiste bem o que ele tinha
De angelica Creança sobrehumana,
Não vês as proprias cousas como soffrem,
E como as grandes arvores agitam
As ramagens de lagrimas e sombras?

Repára bem na lugubre tristêsa
Da nossa velha casa abandonada
Da divina Presença da Creança!

Ah, como as portas gemem e o beiraes
Têm soluços de vento...

Lá fóra, no terreiro onde brincavas,
A noite escura chora...

Ó minha alma,
Embebe-te na dôr das Cousas êrmas;
Chora tambem, consome-te, soluça,
Junto á Mãe dolorosa, de joelhos...
Teixeira de Pascoaes
 
JDACT

quarta-feira, 30 de março de 2011

Banho ou Caldas de Lafões: São Pedro do Sul. «A designação de Piscina de D. Afonso Henriques, assente em estruturas romanas preexistentes, relacionar-se-á com uma certa tradição secular, segundo a qual o monarca teria frequentado as termas pelas capacidades das suas águas. O interesse arqueológico pelo sítio teve sobretudo lugar a partir de meados dos anos cinquenta do século passado, por mão de Fernando Russell Cortez, que veio a ser director do Museu de Grão Vasco»

Fundo da piscina Afonsina
Cortesia de IGESPAR

«Mais conhecida por Banho, ou Caldas de Lafões, esta construção localiza-se no epicentro das actuais Termas de S. Pedro do Sul, cujas nascentes de água se situam na margem esquerda do rio Vouga.
Conhecido desde longa data, o sítio motivou especial interesse de estudiodos locais numa época em que tomavam maior feição e força no âmbito das análises históricas, artísticas e arqueológicas conduzidas um pouco por todo o território português, não poucas vezes patrocinadas por associações de índole local e/ou regional, à semelhança de todo um movimento registado no restante continente europeu desde, pelo menos, o dealbar do século XIX.

Não surpreende, por conseguinte, que aquele que poderá ser considerado como o primeiro grande estudo sobre o assunto viesse a lume ainda em finais da mesma centúria, por mão do escritor e periodista Joaquim Augusto de Oliveira Mascarenhas, numa época particularmente pontuada pela frequência termal, não apenas na sequência das mais recentes descobertas científicas no domínio da Medicina, como na esteira das práticas nobiliárquicas e da alta burguesia observadas além-fronteiras.


Cortesia de IGESPAR

Constituindo um dos complexos termais de origem romana mais bem conservados dos existentes no actual território nacional, as termas de S. Pedro do Sul, possivelmente correspondendo à romana Aquae Sulis, evocativa de Sulis, deusa da Cura relacionada com as fontes de água quente, ostentam uma monumentalidade compreensível à luz, tanto da qualidade das nascentes de águas sulfurosas e radioactivas (DIONÍSIO, Sant'Ana, 1984, p. 757), quanto da posição que deteria no sistema de rede viária.
  •  ... e se o sítio das termas não corresponde a um aglomerado urbano, este poderá ter sido o vizinho castro do Banho, distante escassas centenas de metros. (ALARCÃO, Jorge, 1990, p. 380).
Entretanto, a designação de Piscina de D. Afonso Henriques, assente em estruturas romanas preexistentes, relacionar-se-á com uma certa tradição secular, segundo a qual o monarca teria frequentado as termas pelas capacidades das suas águas, neste caso essenciais à cura do sofrimento que lhe causava a fractura sofrida após a retirada precipitada da malograda Batalha de Badajoz.


Cortesia de IGESPAR

A excelência termal revelou-se, em todo o caso, suficiente para que a estância fosse frequentada por outros soberanos portugueses, a exemplo de D. Manuel I, o Venturoso. Mas foi também o caso da Rainha D. Amélia, já em finais de oitocentos, razão pela qual as termas ficariam conhecidas por Caldas das Rainhas, pelo menos até 1910, ano da implantação da República (DIONÍSIO, Sant'Ana, Idem, p. 758).

O interesse arqueológico pelo sítio teve sobretudo lugar a partir de meados dos anos cinquenta do século passado, por mão de Fernando Russell Cortez, que veio a ser director do Museu de Grão Vasco, em Viseu. As escavações foram retomadas volvidas três décadas, decorrendo essencialmente ao longo da segunda metade dos anos oitenta.

As investigações então conduzidas determinaram que a piscina romana fora revestida a opus signinum, correspondendo, muito provavelmente, à zona de banhos frios, frigidarium, uma vez que parece encontrar-se destituída de vestígios da cobertura essencial no caso de se tratar da sala destinada à água tépida tepidarium, ou quente, caldarium. É possível, no entanto, que se tratasse do natatio, tanque de grandes dimensões tradicionalmente rasgado a céu aberto, cujas águas eram, neste caso, escoadas para o rio Vouga através do esgoto ainda visível na actualidade.

É um complexo termal romano composto por:
  • Tepidarium, 
  • Caldarium, 
  • Sudatorium, 
  • Laconicum (estufa seca), num conjunto de cinco piscinas.
(nota de JDACT)



Cortesia de IGESPAR

A análise dos aparelhos utilizados no levantamento dos alçados permite apontar o princípio do século I d. C. para um primeiro momento construtivo, e finais do século I/inícios do II para um segundo momento, dos quais se podem ainda observar elementos tão característicos desta tipologia arqueológica, como fustes, capitéis e lápides epigrafadas». In A Martins, IGESPAR.


Cortesia de IGESPAR/JDACT

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Japão a 11 de Março de 2011: O sismo foi destruidor, considerado o maior sismo de sempre sentido no Japão. Depois, o maremoto completou a destruição. A «Natureza» a demonstrar a «verdadeira» crueldade

Cortesia de sismosne 




O som do sismo que abalou o Japão a 11 de Março foi gravado por plataformas em profundidade no mar perto da costa do país. O Laboratório de Bioacústica Aplicada da Universidade Politécnica da Catalunha, que está a utilizar plataformas submarinas da Agência Japonesa para Ciência e Tecnologia Terra-Mar, registou o som provocado pelo sismo de 9,0 na escala de Richter e de réplicas que abalaram o Japão e provocaram um maremoto que matou milhares de pessoas.


http://static.publico.pt/docs/mundo/sismo.mp3
http://static.publico.pt/docs/mundo/sismo2.mp3
http://static.publico.pt/docs/mundo/sismo3.mp3
http://www.jn.pt/multimedia/infografia970.aspx?content_id=1506589

Cortesia de fabriziobenschreuters  
 
Movimento das placas tectónicas
Cortesia de idl
 
  
Cortesia de Expresso Online/Público/JDACT

A Bela Poesia: José Régio. «Não me peças palavras, nem baladas, nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, deixa cair as pálpebras pesadas, e entre os seios me apertes sem receio... Tendes jardins, tendes canteiros, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...»

Cortesia de livrariapodoslivros




Cântico Negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio

Desenho de José Régio
Cortesia de viladocondeportoolx

Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
José Régio



JDACT

A Fortaleza de Ouguela: «Apesar das recentes investigações arqueológicas, são ainda discutidas as origens da fortaleza, nomeadamente quanto à possibilidade de aqui se ter fixado um povoado proto-histórico, posteriormente romanizado e ainda depois transformado em fortaleza islâmica»

Foto de Jorge Reis
Cortesia de pontoblo

A fortaleza de Ouguela, no Alentejo, ergue-se na antiga vila de Ouguela, hoje parte da freguesia de São João Baptista do concelho de Campo Maior. Erguida sobre uma escarpa, o castelo domina a vila, na margem esquerda da ribeira de Abrilongo, próximo à sua confluência com o rio Xévora, vizinho à raia com a Espanha. Reconstruído por D. Dinis, recebeu linhas abaluartadas do reinado de D. João IV. De seus muros observa-se a fortificação espanhola de Alburquerque.

Em 28 de Maio de 1255, os homens-bons do concelho de Badajoz doaram Ouguela e outras localidades ao Cabido e ao Bispo de Badajoz. Pelo Tratado de Alcanices (12 de Setembro de 1297) os domínios de Ouguela e seu castelo passaram a pertencer à Coroa de Portugal. Já no ano seguinte, D. Dinis, visando o seu povoamento e defesa, outorga-lhe Carta de Foral com muitos privilégios (Lisboa, 5 de Janeiro de 1298), determinando a reedificação das suas defesas.


Fotos de Jorge Reis
Cortesia de pontoblo
No reinado de D. Fernando inicia-se a construção da nova cerca da vila, trabalhos que prosseguem sob o reinado de D. João I. Este último, também visando o seu povoamento e defesa, concedeu à vila o privilégio de couto de homiziados (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4024.pdf ), 7 de Dezembro de 1420).
Em 1475, à época da batalha de Toro, confrontaram-se nas suas vizinhanças o alcaide-mor de Ouguela, João da Silva, e o alcaide-mor da vila espanhola fronteira de Albuquerque, João Fernandes Galindo. Ambos vieram a perecer devido aos ferimentos recebidos: o espanhol imediatamente, tendo o português sobrevivido ainda vinte e oito dias. Em 1551, Diogo da Silva, neto do alcaide-mor de Ouguela, mandou colocar uma cruz no local do combate, actualmente no Museu de Elvas.
Sob o reinado de D. Manuel I, a vila e seu castelo encontram-se figurados por Duarte de Armas (Livro das Fortalezas, c. 1509). O soberano concedeu-lhe Foral Novo (Lisboa, 1 de Junho de 1512).


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«Apesar das recentes investigações arqueológicas, são ainda discutidas as origens do castelo de Ouguela, nomeadamente quanto à possibilidade de aqui se ter fixado um povoado proto-histórico, posteriormente romanizado e ainda depois transformado em fortaleza islâmica. As referidas escavações incidiram sobre momentos mais recentes da história da localidade, permanecendo por desvendar os primeiros capítulos civilizacionais do aglomerado que deu origem à actual Ouguela.
No século XIII, depois da passagem do território para a esfera cristã, o povoado fez parte do reino de Leão e Castela durante mais de meio século, até ser definitivamente integrado na coroa portuguesa em 1297, no âmbito do Tratado de Alcanices. Logo no ano seguinte, D. Dinis concedeu foral a Ouguela, mas só mais de cem anos depois é que a vila deixou de pertencer ao bispado de Badajoz.

jdact
O essencial do castelo data dessa viragem para o século XIV, se bem que existam vestígios de reformas posteriores, em particular a verificada no reinado de D. João I, monarca que transformou Ouguela num couto de homiziados. Nos inícios do século XVI, Duarte d'Armas deixou-nos o desenho da fortaleza tardo-medieval, defendida por sete torres quadrangulares, entre as quais a de menagem, adossada à cerca pelo lado ocidental.

jdact
Depois de 1640, na guerra que Portugal sustentou contra Espanha com vista à sua independência, a vila foi dotada de um sistema defensivo abaluartado, que inevitavelmente corrompeu parte do dispositivo medieval. Sob o comando de Nicolau de Langres, a nova fortaleza incluiu numerosos baluartes e revelins, um fosso, caminhos de ronda, dependências de aquartelamento e uma ampla cisterna quadrangular (com 12 metros de lado), recentemente intervencionada, localizada na praça de armas da vila». In PAF, IGESPAR.

Cortesia de IGESPAR/wikipedia/JDACT

APMG: 7.º Simpósio da Associação Portuguesa de Meteorologia e Geofísica. 28 a 30 de Março de 2011, Setúbal. Previsão e Modelação em Ciências Geofísicas

Cortesia de apmg

Irá realizar-se em Setúbal, de 28 a 30 de Março do corrente ano, o 7.º Simpósio de Meteorologia e Geofísica da Associação Portuguesa de Meteorologia e Geofísica (APMG), o 12.º Encontro Luso-Espanhol de Meteorologia, APMG 2011 e o XIV Congresso Latino-Americano e Ibérico de Meteorologia, cuja sessão de abertura contará com a presença do Presidente do Instituto de Meteorologia, IP.


Esta reunião, de carácter científico, focará a temática «Previsão e Modelação em Ciências Geofísicas», de grande actualidade e abrangência nos domínios científico, técnico e educacional, designadamente nas áreas das alterações climáticas e da sismologia, e contará com uma participação bastante alargada, incluindo os serviços meteorológicos e universidades, assim como outras instituições dos países da América Latina, Espanha e Portugal que desenvolvem actividade nas áreas da meteorologia e climatologia, geofísica, oceanografia e hidrologia.


O encontro conta com o apoio do Instituto de Meteorologia, I.P., da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e da Câmara Municipal de Setúbal.



Nota:
A APMG detém actualmente a presidência da Federação Latino-Americana e Ibérica das Sociedades de Meteorologia (FLISMET).

Cortesia da APMG/JDACT

domingo, 27 de março de 2011

Agostinho da Silva. Parte II: «O termo missão carrega um determinismo com que o próprio autor não se sentia confortável, mas que de certo modo era inescapável, pois toda a linguagem com que esse Portugal tardo-medieval, no início da expansão marítima, é marcadamente moral, ela veicula um sentido para a acção histórica...»

Cortesia de embaixadaportugalbrasil 

«Uma vez no Brasil, que percorre desde as maiores cidades às mais remotas povoações na selva, empenhado permanentemente em projectos pedagógicos (a par de Eudoro de Sousa, foi fundador de várias universidades que, em início de actividade, precisavam de catedráticos para os seus quadros, recorrendo aos seus serviços, pois estava sempre pronto a começar de novo), Agostinho da Silva desenvolve cada vez mais uma componente filosófica do seu pensamento, que parte da mitologia clássica que conhece pela sua formação académica e se prolonga pelo pensamento mítico em geral.
Assim, na década de 1950 integra o chamado Grupo de São Paulo (cf., na Bibliografia, Marcondes César), fundado por Miguel Reale, filósofo brasileiro, e ao qual pertenciam também o já referido Eudoro de Sousa e o casal Dora e Vicente Ferreira da Silva. E, sintomaticamente, logo em 1957 e 1959, surgem as grandes formulações da sua doutrina providencialista de Portugal (da sua História e do seu povo), em dois livros aparentemente dedicados a matérias literárias:
  • Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa,
  • Um Fernando Pessoa.
Como o estudo sobre «um» (note-se, não pretendia reduzir o complexo Pessoa àquele que ali era apresentado)

Cortesia de bulhosa
Pessoa pretende encontrar na especulação desenvolvida por este sobre o V Império a confirmação do pensamento do próprio Agostinho da Silva sobre o «Império do Espírito Santo», temos aqui um caso claro de como a variedade de experiências de formação de Agostinho se plasmou na sua obra de maturidade. Em rigor, há que ter em conta uma outra influência, a da visão da história de Portugal do genro de Agostinho, Jaime Cortesão, fortemente marcada por uma idealização da monarquia medieval e da expansão marítima do início da idade moderna que não resistiu aos avanços da historiografia e das ciências sociais portuguesas da segunda metade do século XX (por Orlando Ribeiro, Vitorino Magalhães Godinho, e vários outros, sobre isto cf. na Bibliografia Leone, espec. Parte II).
Ao encontrar na vida rural brasileira uma materialização dessa imagem idealizada das relações sociais de um Portugal medieval irremediavelmente perdido, Agostinho da Silva concebe a tese de uma missão universal portuguesa, a de realizar e dar a conhecer uma nova forma de vida para toda a humanidade, de que a expansão marítima fora apenas o começo, interrompido por uma adesão (aliás mal sucedida) às tendências politicamente centralizantes e cientificamente racionalizantes da Europa moderna.

Cortesia de edmardealmeida 
O termo «missão» carrega um determinismo com que o próprio autor não se sentia confortável, mas que de certo modo era inescapável, pois toda a linguagem com que Agostinho da Silva descreve esse Portugal tardo-medieval, no início da expansão marítima, é marcadamente moral, ela veicula um sentido para a acção histórica, sentido esse que, naturalmente, carece de uma conclusão ainda por se consumar. Quer em Reflexão, quer depois em textos recolhidos sob o título Dispersos ou ainda no belo, até tocante, título Ir à Índia sem sair de Portugal, essa imagem da História de Portugal compõe-se de momentos de crise, o primeiro negativo, cisão de Portugal face à Galiza, por acção de D. Afonso Henriques, os seguintes positivos:
  • expansão para sul, concretizando o ideal Templário cristão e integrando o Portugal «verdadeiro» na senda de São Bernardo de Claraval,
  • seguido da introdução em Portugal do culto do Espírito Santo pelos franciscanos, traço de clara ligação a Cortesão e que terá consequências na sua visão do futuro de Portugal,
  • a organização de um reino típico da I Dinastia, descentralizado, retomando os traços essenciais do que Cortesão havia exposto desde a década de 1930.
Ora, estas sucessivas crises, momentos de viragem, soçobram perante o emergir da modernidade (fim da primeira Dinastia), com a centralização política, a mercantilização da exploração marítima, enfim, com a sistematização própria da modernidade que retira a faceta amorosa, é o termo, que a expansão inicial de Portugal comportava e a encerra numa forma que não é sua, ao ponto de, em 1580, perder a sua independência.

Cortesia de anapaulafitas
Mas como Agostinho da Silva diz algures, Alcácer-Quibir foi a sorte do Brasil, e, como não se cansou de repetir, o Brasil é o melhor de Portugal (menos conhecido do que o célebre “o brasileiro é o português à solta”). Nesse Brasil intocado pela modernidade que foi encontrar em pleno século XX na selva amazónica, Agostinho da Silva entendeu reencontrar o Portugal primevo e valioso, aquele que, depois de ensinar ao mundo que todo o mundo é apenas um arquipélago, poderia agora, enfim, ensinar uma unidade espiritual bem diferente da segmentação da vida e da separação das esferas da cultura próprias da modernidade». In Carlos Leone, Centro Virtual Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

Mário Eloy: «Controverso, diletante, anti-mainstream, contribuiu para um segundo Modernismo em Portugal. É nele que é possível detectar as influências que o regeram e acompanhar a sua evolução, tanto psicológica artística, funcionando como pontos de viragem na sua atribulada existência, tanto pessoal como criativa»


(1900-1951)
Algés
Cortesia de museudochiadoipmuseus

Com a devida vénia a Helena Vasconcelos.

Mário Eloy, justamente considerado como um dos artistas portugueses mais marcantes do século XX. Desde muito jovem, Mário demonstrou ser irreverente e inquieto, arvorando uma atitude de contestação precoce. Em 1913, abandonou o Liceu e matriculou-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde apenas permaneceu 2 anos, insatisfeito com o ensino tradicional que aí se ministrava.

Entre 1915 e 1919, Mário levou uma vida boémia. Frequentou assiduamente os cafés lisboetas e, nas mesas do «Martinho» ou nos de «A Brasileira», aproveitava para desenhar os seus companheiros de tertúlia. Fugiu para Madrid onde, no Museu do Prado, encontrou um universo artístico que o desassossegou ao ponto de decidir o seu futuro:
  • ser artista.
Regressou a Portugal a pedido de um cenógrafo amigo da família, prometendo-lhe trabalho no atelier do Teatro D. Maria II, em Lisboa, onde se exercitou nas técnicas do desenho. O contacto com o meio teatral, que lhe era familiar e que possuía uma enorme vitalidade criativa, convinha às suas ambições artísticas, (chegou a representar com Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro na peça “A Ribeirinha” que estreou no Politeama em 1923) e demonstrou ser importante uma vez que lhe proporcionou uma boa formação. As suas primeiras experiências como pintor foram retratos de amigos, como a actriz Maria Helena Andrade, por quem se apaixonou tão perdidamente que chegou a tentar o suicídio.


Cortesia de casoualwordpress 
Em 1925, Eloy abandonou Portugal e partiu para Paris, a cidade trepidante onde se cruzavam todos os artistas e todas as modas e movimentos. Aí, sobreviveu graças aos cheques enviados pelo irmão e à venda de retratos. Acolhia-se geralmente em ateliers, como o do seu amigo Alberto Cardoso, na Cité Falguière. Em 1927 expôs em conjunto com a artista russa Hélène Puciatieka e com o austríaco Erwin Singer na galeria Au Sacre du Printemps. A exposição foi repetida na Chez Fast, a título individual. Os críticos falaram de uma «personalidade brutalmente expressa, audaciosa, até mesmo temerária mas pensada e sentida, simultaneamente moderna e clássica, tradicionalista». No final de 1927, Mário deixou Paris, rumo a Berlim.
Algumas das obras que produziu nesse tempo foram enviadas para Lisboa e expostas no Sindicato dos Profissionais de Imprensa, em 1928. Raoul Leal-Henoch, no nº16 da Presença, escreveu que «os quadros (de Mário Eloy) parecem ter sido forjados nos infernos, (são) alucinações sinistras de um Além feérico, orquestrado por Satã». Em 1930 expôs 8 obras, quatro pinturas e quatro desenhos no I Salão dos Independentes em cujo catálogo professava o seu desejo de «ter na cabeça pincéis em vez de cabelos», o que seria a situação ideal para «não desvirtuar a intenção no acto de pintar», na «procura da síntese na forma». O pintor transmitia assim a sua ansiedade quanto ao desejo de um imediatismo e de uma pureza do gesto, no acto criador.



Cortesia de imagensdomeumundo
Durante os anos trinta, Mário Eloy atingiu o seu apogeu como artista. Experimentou formas e cores, desenvolveu novas técnicas e revelou uma inclinação para temas marcados pela alegoria:
  • «Amor», 1935,
  • «A Fuga», 1938-39,
  • «O Poeta», 1938.
  • Retratou personalidades do meio artístico português como Abel Manta, António Pedro, Diogo de Macedo e João Gaspar Simões, pintou bailarinas russas e desenhou cenas do quotidiano, bailes populares, o casario de Lisboa e bordéis, lugares de eleição de artistas que aí se sentiam à vontade, longe dos constrangimentos familiares e sociais.
Data de 1934 a sua única obra abstracta conhecida, um óleo sobre tela intitulado «Komposição», natureza-morta. A partir de 1938 e agravada em 1939, a temática de Eloy evoluiu para um inclinação ferozmente crítica, catastrófica e decadente, a prenunciar tempos sombrios, marcados pela doença. A esperança pareceu, então, abandonar Eloy. Os últimos desenhos são dramáticos, cobertos de imagens de monstros, facas, suicidas, mãos e pés dependurados, corpos desmembrados. As suas obras acompanham, de uma forma tormentosa, a decadência e desregramento do mundo e da sua mente. Não chegou a conhecer a fama que procurava.
Mário Eloy foi um autodidacta como Amadeo, Cristiano Cruz, Almada, Viana, Botelho e Bernardo Marques. Controverso, diletante, «anti-mainstream», contribuiu para um «segundo Modernismo», em Portugal. É nele que é possível detectar as influências que o regeram e acompanhar a sua evolução, tanto psicológica artística, funcionando como pontos de viragem na sua atribulada existência, tanto pessoal como criativa». In Helena Vasconcelos, Instituto Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

A Bela Música: Franz Schubert e Ludwig van Beethoven. «Considerado um dos maiores compositores do século XIX, marcando a passagem do estilo clássico para o estilo romântico». «O resumo de sua obra é a liberdade. A liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, a liberdade de escolha, a liberdade individual em todos os aspectos da vida»

Cortesia de allegrofilms
http://www.youtube.com/watch?v=YAOTCtW9v0M






Cortesia de sonsfilmesafins




JDACT

sábado, 26 de março de 2011

Robert Koldewey: «Os Jardins Suspensos da Babilónia, cheios de plantas verdes e árvores que supostamente foram construídos pelo rei Nabucodonosor (governou 605 a.C. - 563 a.C.) para a sua esposa Amyitis»

(1855-1925)
Blankenburg am Harz, Alemanha
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Robert Johann Koldewey, um arquitecto e arqueólogo, famoso pela descoberta da antiga cidade de Babilónia, no actual Iraque. As escavações na Babilónia revelou as bases do zigurate (enormes estruturas construídas na antiga Mesopotâmia, tendo a forma de um terraço de uma pirâmide) de Marduk, e a Porta de Ishtar, ele também desenvolveu várias técnicas modernas arqueológicos, incluindo um método para identificar tijolos de barro usados na arquitectura. Esta técnica foi útil na escavação dos Jardins Suspensos da Babilónia (1899-1917) que foi construído, aproximadamente cerca de 580 a.C..

Koldewey estudou arquitectura e história da arte em Berlim e Viena, sendo contratado em  1882 para participar na escavação de antigos Assus na Turquia. Aqui aprendeu métodos diversos de escavação e a melhor forma de retirar restos antigos. Um arqueólogo prático. Participou em muitas escavações, por exemplo na Ásia Menor, Grécia e Itália.
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Os Jardins Suspensos da Babilónia foram uma lenda (numa bonita montanha), cheios de plantas verdes e árvores que supostamente foram construídos pelo rei Nabucodonosor (governou 605 a.C. - 563 a.C.) para a sua esposa Amyitis.

Robert Koldewey revelou muitas das suas características, incluindo as paredes exteriores, paredes interiores, fundação de Etemenanki, o original da «Torre de Babel», de Nabucodonosor. Ao escavar a Cidadela do SulKoldewey descobriu um porão com 14 quartos amplos com tectos em abóbada. Os textos antigos revelavam que apenas 2 localizações na cidade havia utilizado pedra, a parede norte da Cidadela do Norte e os Jardins Suspensos. Como a muralha norte da Cidadela do Norte já tinha sido encontrada, fez supor a Koldewey ter encontrado o subsolo dos jardins.


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A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino. Jaime Cortesão: «...o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação, num documento de 1440, seja um cartógrafo estrangeiro, dado que no século XV se apelidavam os desenhadores de cartas»

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A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino.
Jaime Cortesão

«Na extremidade sul junto da costa de África, e imediatamente abaixo das Canárias, uma legenda refere a viagem de Ferrer, em 1346, à busca do rio do Ouro. Próximo, e já no continente, junto da designação geográfica Gineua, em grandes caracteres, outra legenda elucida sobre o reino dos Mandingas, o seu imperador Mussa Mali e o comércio e grande abundância de ouro que há nas suas terras. Com efeito, o Sudão e o Saará eram nessa época o centro dum intenso tráfico do ouro, que as caravanas de muçulmanos transportavam aos portos mais importantes do Norte de África, desde Ceuta a Alexandria.

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Precisamente sobre o meridiano que passaria por aquela cidade, vê-se uma passagem na cordilheira do Atlas com esta preciosa indicação da estrada comercial de Ceuta até às regiões produtoras do ouro:
  • «Por aqui passam os mercadores que entram em terras de negros de Gineua, o qual passo se chama vale de Dahra».
Segundo Charles de la Ronciére, que estudou com particular atenção a parte do atlas relativa à África, nele figuram as mais importantes estradas comerciais do Saará e que daqui levavam ao Sudão e ao vale do Níger. Na parte oriental do continente, outra legenda refere e situa na Abissínia o famoso reino do Preste João.

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Se a isto acrescentarmos indicações práticas sobre os mares no Atlântico, o regimento para conhecer a hora pela estrela polar, as principais noções sobre o sistema de Ptolomeu, sem omitir a avaliação da circunferência terrestre segundo o geógrafo alexandrino e ainda a representação dum astrólogo medindo a altura do sol com o astrolábio, teremos dado uma ideia, ainda que incompleta, da soma dos conhecimentos e sugestões fecundíssimas que a cultura geográfica dos Cresques representava para o infante D. Henrique.

Vimos, não obstante, que o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e presumimos que o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação com a qual figura, em 1440, num documento, seja igualmente um cartógrafo estrangeiro, dado que por essa forma se apelidavam no século XV os desenhadores de cartas». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, 1965.

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Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «A Infanta usou uma sólida oposição aos exageros contra-reformistas como arma política contra o seu irmão cardeal D. Henrique, que tão bem os personificava. ...pela necessidade de D. Maria se afirmar politicamente diferente, mesmo antagónica, de seu irmão, como bem demonstra no programa arquitectónico e iconográfico...»

(1521-1577)
Lisboa
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A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma princesa renascentista.
A «imagem» da Infanta na historiografia: o estado da questão.
«A decisão de fazer da infanta D. Maria e da sua acção mecenática tema desta dissertação de mestrado começou a esboçar-se depois da realização de um trabalho para a cadeira anual de História da Arte Moderna sobre a Igreja de Nossa Senhora da Luz.

O complexo urbanístico da Luz, com a igreja, convento e hospital, era, sem dúvida, o pólo mecenático mais conhecido da infanta, apesar de nunca ter sido alvo de trabalhos monográficos. Foi a realização desses, sob o prisma arquitectónico, que nos suscitou um genuíno interesse pela personalidade da infanta D. Maria, incrivelmente descurada pela historiografia nacional.

A intenção que presidiu à análise desta personagem passava, inicialmente, por uma procura exaustiva de fontes, uma vez que existia pouca documentação identificada e analisada sobre a vida e a acção da Infanta, que permitisse fundamentar ideias que, de alguma forma, reflectissem os últimos contributos da historiografia nacional e internacional, designadamente nos domínios da biografia, da historiografia sobre as mulheres e sobre o mecenato. Todavia, a imagem da Infanta se encontrava envolta numa névoa de mistério e falsa piedade que nos conduziu a uma inevitável releitura da produção historiográfica tradicional e moderna.


Cortesia de fundacaooriente 
Esta capa quase mítica que envolve a figura de D. Maria começou a ser construída poucos anos depois da sua morte. Julgamos que a personalidade da Infanta foi sujeita a um apagamento propositado:
  • pela sociedade contra-reformista, que não podia aceitar uma mulher de acção enérgica e ambições próprias, criando o mito de uma falsa modéstia e da sua extrema beatitude, e pelas circunstâncias políticas do novo governo filipino, cuja, necessidade de legitimação passava pelo esquecimento forçado de uma personagem tão marcante da família de Avis.
As suas relações familiares sugeriam uma actuação pouco discreta no palco europeu. D. Maria era, de facto, vista como uma Habsburgo ainda que dentro dos limites da conveniência de cada proposta casamenteira, e a sua presença, essencialmente devida à sua fortuna, foi continuamente disputada por três coroas:
  • a portuguesa,
  • a francesa,
  • a castelhana.
D. Maria nasceu e formou-se sob a égide renovadora e esperançada da devotio moderna e nem o início e conclusão dos trabalhos de Trento, e as pesadas consequências que produziu na religião e sociedade portuguesas, fizeram alterar substancialmente a sua postura.

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Pelo contrário, julgamos que a Infanta usou uma sólida oposição aos exageros contra-reformistas como arma política contra o seu irmão cardeal D. Henrique, que tão bem os personificava. Esta resistência de cariz religioso passava pela necessidade de D. Maria se afirmar politicamente diferente, mesmo antagónica, de seu irmão, como bem demonstra no programa arquitectónico e iconográfico da Igreja de Nossa Senhora da Luz, que adiante veremos.

A religiosidade não estava ausente do quotidiano da Infanta, como não estava, aliás, de qualquer outra personagem do século XVI europeu. A Igreja e as cerimónias religiosas marcavam a sua presença e importância em inúmeros e distintos acontecimentos públicos e privados, acentuando o seu papel de paladina da moral, mas, também, de legitimadora política que os príncipes usavam conforme as necessidades. Por outro lado, os anos de Quinhentos assistiram a diferentes posturas sobre a forma de encarar a. religião, que encontram posições extremadas entre os momentos pré e contra reformistas». In Carla Alferes Pinto, A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998. 

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT