terça-feira, 31 de maio de 2011

Luís de Camões. Sonetos: Ciclo Idílico (1540-1547). «Nela experimentai, se sois servida, desprezos, desfavores e asperezas; que mores sofrimentos e firmezas sustentarei na guerra desta vida»

Cortesia de astropt

Se tanta pena tenho merecida
em pago de sofrer tantas durezas,
provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
que aqui tendes uma alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
desprezos, desfavores e asperezas;
que mores sofrimentos e firmezas
sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vossos olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda;
mas porei por escudo o coração.

Porque em tão dura e áspera contenda,
é bem que, pois não acho defensão,
com me meter nas lanças me defenda.
Luís de Camões 
(1540-1547) Ciclo Idílico

JDACT

Maria Ana M. Guedes: Introdução Parte I. Interferência e Integração dos Portugueses na Birmânia, ca 1580-1630. «Em Portugal, o período está por estudar, embora se tenham divulgado, numa perspectiva lusocêntrica, as conquistas territoriais na Baixa Birmânia entre 1600 e 1613. Em vários artigos, de revistas e de enciclopédias, tem-se feito corresponder a história dos Portugueses na Birmânia ao efémero domínio no sul daquele país»

Cortesia de foriente

Introdução
«Tem sido dedicada pouca atenção à história da presença portuguesa na Birmânia, apesar das muitas fontes disponíveis sobre o assunto. A minha intenção inicial ao escolher o tema da presente dissertação foi a de recolher a documentação existente nos arquivos, compará-la com o material impresso, e delinear uma história que preenchesse essa lacuna e servisse de base a futuras investigações, tendentes a enquadrá-la no âmbito, mais vasto, da história dos Portugueses na Ásia.
Delimitei o tema ao período entre 1580 e 1630 por duas razões essenciais.
  • A primeira, foi a de tratar uma época marcante na história da Birmânia, coincide com forte e rápida dinâmica de desestabilização e reconstrução de poderes, que culminou com reorganização de formações políticas relativamente estáveis.
  • A segunda, foi a de averiguar o papel dos Portugueses nesse processo.

Cortesia de foriente
Cortesia de cambetabangkokmacau

Em Portugal, o período está por estudar, embora se tenham divulgado, numa perspectiva lusocêntrica, as conquistas territoriais na Baixa Birmânia entre 1600 e 1613. Em vários artigos, de revistas e de enciclopédias, tem-se feito corresponder a história dos Portugueses na Birmânia ao efémero domínio no sul daquele país. Tais artigos têm por base um relato seiscentista, da autoria do Pe Manuel de Abreu Mouzinho, que embora constitua fonte de considerável valor, reporta-se a um espaço e a um tempo circunscritos, e é nitidamente tendencioso no que respeita à análise de personagens envolvidas nessa ocupação. É de aflitiva inexactidão o uso que tem sido feito do relato de Mouzinho. Tomando-o como informação exclusiva, os escritos que nele se baseiam restringem a presença portuguesa na Birmânia à região, ao período, e aos acontecimentos focados pelo religioso, sem qualquer carácter interpretativo. Constituem excepção a esse género de inexactidão um artigo de Socarras, e parte da «História Militar» de Botelho de Sousa, no entanto, ambos os historiadores mantiveram o tipo de perspectiva assinalado atrás. Mais recentemente foi publicado um livro do Pe Manuel Teixeira que, apesar de constituir sobretudo numa compilação de citações de algumas crónicas ou histórias de autores estrangeiros, acompanhada de relação das missões católicas, apresenta a vantagem de ser o único que não se restringe espacialmente à região vulgarmente conhecida por Pegu. Sob um ponto de vista analítico, os sólidos e fundamentados estudos de L. F. Thomaz versam essencialmente aspectos comerciais dos primeiros contactos com o litoral sul daquele país.

Cortesia de foriente
Cortesia de portugalnatailandia

As primeiras e quase únicas histórias gerais da Birmânia foram escritas por ingleses e por outros autores de escola anglo-saxónica, dada a circunstância de os britânicos ao ocuparem o país, se terem interessado pelo seu passado. As poucas páginas dedicadas nessas histórias por A. Phayre, J. G. Scott, G. E. Harvey e M. Htin Aung ao período entre 1580 e 1630 servem ainda de base aos trabalhos que, como este, se debruçam sobre a Birmânia. A mesma utilidade têm os estudos de D. G. E. Hall, sobretudo aqueles que versam a presença dos europeus. Uma nova geração de historiadores, também de escola anglo-saxónica, tem vindo a refazer a história da época em questão. Partindo de algumas ideias de Harvey e apoiando-se maioritariamente em fontes locais, V. B. Lieberman reconstituiu a história político-administrativa dos sécs. XVII e XVIII, em excelentes trabalhos, particularmente importantes para a elaboração desta dissertação. Também com base em fontes locais, historiadores entre os quais ressalto M. Aung-Thwin e Than Tun abordaram cuidadosamente aspectos culturais e políticos do período.
Um problema deixado em aberto pelos estudos referidos, é o do que se entende por Birmânia. Em Portugal, tende a estabelecer-se uma certa confusão entre Pegu e Birmânia. Na verdade, Pegu começou por ser a capital dos reinos «mons» da Baixa Birmânia. Por razões que se prendem sobretudo: com a importância adquirida pela cidade, que passou a capital de um vasto império; com o estabelecimento do comércio oficial português naquelas paragens; e com a posterior ocupação da região por dissidentes Portugueses, Pegu passou a ser usado por historiadores e cronistas como termo designativo de todo o país. Embora os autores de escola anglo-saxónica não chamem «Pegu» à Birmânia quinhentista ou de qualquer outra época, as suas histórias, tal como as dos Portugueses, são geograficamente restritas às zonas que ocuparam». In Maria Ana Masques Guedes, Interferência e Integração dos Portugueses na Birmânia, ca 1580-1630, Fundação Oriente, ISBN 972-9440-28-X.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Brahms: «Ocupou o espaço deixado por Wagner, que se dedicava à ópera, e com ele dominou a música da segunda metade do século XIX. A sua obra representa a fusão da expressividade romântica com a preocupação formal clássica»


(1833-1897)
Hamburgo
Cortesia de classicalcomposers










Cortesia de YouTube/JDACT

Anca Parghel: Jazz. Uma das cantoras mais respeitadas da Europa de Leste. Era versátil. Pianista, compositora, professora e líder de banda musical. Faleceu de crancro da mama.

(1957-2008)
Roménia
Cortesia de ancaparghel 








Cortesia de youTube/JDACT

José António Maldonado: As estações meteorológicas oceânicas. O Barco K.

Cortesia de pepemendoza

Com a devida vénia a José António Maldonado.

As estações meteorológicas oceânicas. O Barco K
Não cheguei a conhecer o meteorologista Mariano Medina, mas li muitos publicações de sua autoria. O autêntico «hombre del tiempo», atendendo que foi um dos pioneiros e assim baptizado por Bobby Deglane.

«Mariano Medina, fazia com frequência alusão ao «barco K». Pois bem, para quem não sabe do que se trata, escrevo algumas linhas sobre o assunto. Quando começaram a realizar-se os voos de transporte trans-oceânicos pôs-se em evidência a necessidade de dispor de uma informação meteorológica nas rotas. Desde o começo da década dos anos vinte, o Serviço Meteorológico francês vinha propondo estabelecer um conjunto de barcos fixos de observação do tempo no Oceano Atlântico Norte.
No ano de 1938, um avião da Pan América despenhou-se no Oceano Pacífico devido a condições meteorológicas adversas, e a partir daí a marinha dos USA começou a fazer estudos com o lançamento dos balões piloto e comprovando a sua utilidade.
Anos mais tarde, em 1946, (ano da criação do Serviço Meteorológico Nacional, nota de JDACT), celebra-se em Londres a «Conferência de Estados do Atlântico Norte para Estações Meteorológicas Atlânticas» e nela ficou acordado estabelecer uma rede de 13 estações fixas, custeadas por 19 países. Os USA ficaram responsáveis pela operacionalidade de 7 dessas estações fixas, enquanto que as restantes 6 ficaram à responsabilidade de alguns Estados europeus.
Posteriormente, em 1949 e em 1954, a rede de estações fixas foi reduzida devido aos elevados custos de manutenção, fixando-se em 9 / 10. Estas estações meteorológicas denominavam-se por letras maiúsculas (A, B, C, D, E, H, I, J, K y M) e assinalavam um ponto que era a sua posição teórica, por exemplo, o Barco K tinha as coordenadas 45ºN 16ºW, mas na realidade não eram barcos ancorados, mas «estações meteorológicas» a bordo de navios que se moviam em torno desse ponto, dentro de uma quadrícula de 10 milhas de lado.

Cortesia de 08pc10es

A missão primordial destas embarcações era realizar observações meteorológicas à superfície de 3 em 3 horas e sondagens atmosféricas mediante sondas ou balões de 6 ou 12 horas, que mediam a temperatura, a humidade, a pressão e a direcção do vento, chegando a alcançar altitudes de 18 000 metros. Eram dados de enorme relevância. Por vezes, eram obrigados a sair da sua quadrícula afim de auxiliarem embarcações em perigo, ou inclusivé, algum avião que fosse obrigado a amarrar, como foi o caso ocorrido no dia 4 de Setembro de 1960, em cuja ajuda foi preponderante o Barco A, salvando os 2 tripulantes em perigo.

Há que prestar homenagem aos técnicos que realizavam o seu trabalho naqueles navios em missões que duravam entre 20 e 25 dias, sendo substituídos por outra embarcação. A Estação Meteorológica K era coberta por dois barcos franceses. Durante a permanência tinham que suportar, por vezes, fortes temporais sem possibilidade de poder abandonar a zona de jurisdição.
Com o passar do tempo, estas «estações meteorológicas» que tão extraordinário serviço prestaram à comunidade internacional, foram perdendo a sua utilidade. Outros sistemas de medição e transmissão de dado s foram surgindo. Os satélites meteorológicos e as bóias marítimas proporcionam na actualidade a informação necessária para a navegação aérea e marítima.
Em 1977, o último barco fixo que cumpria a sua missão de «estação meteorológica» foi substituído por uma bóia.
O Barco K estava localizado a noroeste da Península Ibérica, recordo 45ºN 16ºW, e tudo o que ali ocorria era um modo indicativo do que vinha a acontecer horas depois na PI (recordo as palavras do colega mais velho Costa Reis:
  • «atenção aos dados do barco K, são importantes para nós», (nota de JDACT).
In José António Maldonado.

A amizade do colega JDACT.

A Bela Poesia. Florbela Espanca: «Que importa se mentiu? E se hoje o pranto turva o meu triste olhar, marmorizado, olhar de monja, trágico, gelado com um soturno e enorme Campo Santo!»

Cortesia de modernaeditorialvavores 

Ódio?
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca, in «Livro de Soror Saudade»

Renúncia
A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!
Florbela Espanca, in «Livro de Soror Saudade»

JDACT

Cartoons de Eça de Queirós: «O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da inteligência. Quem se quererá apresentar diante dos seus amigos com uma inteligência nua? ...Quem sem descanso apregoa a sua virtude, a si próprio se sugestiona virtuosamente e acaba por ser às vezes virtuoso»

Cortesia de ocitador

Com a devida vénia a Ricardo Campus e ao Citador.


Cortesia de O Citador.
JDACT

Antigas Caldas de Lafões. Termas de S. Pedro do Sul: A Presença de D. Afonso Henriques. Parte IV. «Não é certo que o Rei tenha mandado construir um paço para sua habitação. Pires da Sylva não o diz, antes diz que o Rei se aposentou na casa que, ao seu tempo, dele, Pires da Sylva, era designada por «casa de D. Joseph», por nela residir, em tempo de banhos, D. José de Meneses, senhor do reguengo de Calvos. Mas, de facto, ainda hoje é conhecida por calçada do paço, a rua que passa nas traseiras da Pensão Avenida e chamam "paço" a uma casa ali existente»

Cortesia de palimage

Não são «estórias». É História rigorosamente documentada!

«Também o «Roteiro Arqueológico da Região de Turismo Dão Lafões», publicado em 1994, referindo-se às Termas, na página 141, diz que ali «teria estado» D. Afonso Henriques. A forma verbal usada é imprópria, porque parece pressupor alguma dúvida. O reparo aqui fica. Possa ele servir para que, em futura edição, se substitua «teria estado» por «esteve».
Ocorre perguntar onde se terão alojado o régio visitante e a sua comitiva e que obras terão sido feitas.
Já se viu que o Rei terá mandado reconstruir a gafaria e a albergaria. Segundo a tradição, teria, ainda, mandado construir uns «estaus» e, diz Oliveira Mascarenhas, «um largo cazarão de banhos com uma piscina unica onde, na mesma água, entravam 40 e mais pessoas a um tempo, affectadas de differentes enfermidades!».

Alguns dados fornecidos por Mascarenhas deixam dúvidas ou, como já vimos, são mesmo incorrectos. Sobre a piscina, escreve Pires da Sylva:
  • «Dado que os Romanos, ou antes delles os antigos Lusitanos fossem authores da fundação primeva, não deixamos de deve ao nosso primeiro Rey o Senhor D. Affonso Henriques, a do edifício, que hoje (1696) se vê nos banhos de Alafoens, e correria com a obra D. Fernando Pedro. Assim o testificão huns letreiros de letra Gotica, que em muitas pedras se achão, e todos vem a dizer, Affonso I, e Fernando Pedro (...) e alguns signaes de Cruz; o que tudo mostra ser a obra já de christãos, e dos sobreditos; e se a obra não mostra ser real em ficar por acabar, he, porq as guerras, em que então estava o novo Reyno, não davão lugar a se aperfeiçoar».
Piscina D. Afonso Henriques
Cortesia de palimage

Na realidade, esses sinais lá estão em vários lugares. Qualquer observador atento poderá descobri-los. Mas, ainda que admitíssemos que a piscina foi construída por D. Afonso Henriques, e não foi, a hipótese de tais sinais significarem Fernando Pedro não tem consistência, porquanto este Senhor de Lafões não aparece em qualquer dos documentos de 1169, porque, nessa data, já era morto. Também nada têm a ver esses sinais com um Pedro Fernandes, mordomo de D. Sancho, que aparece em diplomas lavrados no Banho, nomeadamente na carta de couto de Oliveira de Frades.

Baptista de Sousa analisou minuciosamente esses sinais, que encontrou também noutros locais, designadamente em pedras dos arcos da ponte. Reprodu-los e considera que não se trata de monogramas. De facto, dificilmente se poderiam considerar como tal. Seriam, antes, marcas usadas pelos lavrantes e de numeração das pedras. Depois de várias considerações, conclui:
  • «Não servem pois de fundamento, para se acreditar, que foi o nosso primeiro Rei o Fundador do Hospital; nem era de crer, que El-Rei no estado de precisão, em que se achava, esperasse que se fizesse hum edifício tal, para hir nelle pousar, havendo na parte do Reino, que elle possuia, mais Caldas, posto que menos energicas».

Cortesia de palimage 

Eduardo dos Santos, a este respeito, limita-se a repetir Sousa, mas conclui, a nosso ver, menos bem, que, «embora faltem provas a favor também as não há contra a opinião de ter sido D. Afonso Henriques quem começou o velho edifício». Esta opinião está hoje ultrapassada. Há provas de que não foi. Já vimos que a Arqueologia revela que o edifício termal é obra dos romanos e que a piscina que mais tarde tomou o nome do rei foi por eles construída, em substituição de uma outra desactivada, aquando das grandes alterações introduzidas nas Termas, no século I. posteriormente e ao longo dos séculos, novas remodelações foram feitas e, sendo natural que, para receber tão importante personagem, se tenham feito obras de beneficiação, certo é que a piscina onde o 1º Rei de Portugal tomou banhos vinha dos romanos.
Não é certo que o Rei tenha mandado construir um paço para sua habitação. Pires da Sylva não o diz, antes diz que o Rei se aposentou na casa que, ao seu tempo, dele, Pires da Sylva, era designada por «casa de D. Joseph», por nela residir, em tempo de banhos, D. José de Meneses, senhor do reguengo de Calvos.

Cortesia de palimage

Segundo outros, o Rei ter-se-ia hospedado em casa de D. Fernando Pedro, que, diz o foral do Banho, «governava toda a terra de Lafões». É bem possível que o Rei tenha ficado naquela casa, mas, a ter sido assim, há que fazer uma correcção ao que se tem escrito. Deverá, então dizer-se que ficou na casa que fora de D. Fernando Pedro, porque este, como vimos, já era morto em 1169 e, nesta data, no «comando» de Lafões, aparece um tal Sancho Nunes, como pode ver-se, na já citada carta de couto de oliveira de Frades. Tinham passado 17 anos, após a concessão do foral. Pelo facto de, ao longo do tempo, continuar a chamar-se «Calçada do Paço», a uma rua das Termas, conclui Mascarenhas que o Rei mandou construir um paço. Pouco vale a razão invocada. Bastava a circunstância de ter habitado uma qualquer casa para que lhe chamassem paço. De facto, ainda hoje é conhecida por calçada do paço, a rua que passa nas traseiras da Pensão Avenida e chamam «paço» a uma casa ali existente.
Mais nos dizem que a entrada dessa casa teria gravada uma data muito antiga, que, se não desapareceu, estará coberta pela caliça. Pretendem alguns relacionar essa data com a presença de D. Afonso Henriques». In Ana Nazaré Oliveira, Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), 2002, Palimage Editores, ISBN 972.8575-38-6.


Com a amizade de MR.
Cortesia de Palimage/JDACT

domingo, 29 de maio de 2011

História da Maçonaria em Portugal: Das Origens ao Triunfo. A. H. Oliveira Marques. «A loja inglesa de Lisboa era quase exclusivamente formada por protestantes, o que lhe valeu a alcunha, por que passou à História, de «Loja dos Hereges Mercantes». É provável que, em termos étnico-culturais, fosse constituída predominantemente por ingleses e escoceses»

Cortesia de editorialpresença

Das Origens ao Triunfo
«A loja inglesa de Lisboa recebeu formalmente o nº 135. Mas, em 1740, uma nova atribuição de números trocou-o pelo nº 120. Com este se manteve até 1755, data em que foi abatida ao quadro oficial das lojas. Quer isto dizer que, ou não trabalhava já desde havia algum tempo, porque concessões e revogações de patentes costumam efectuar-se com grande prudência e estudo demorado de situações, ou passara a trabalhar de forma a não merecer a confiança da Grande Loja londrina. A primeira hipótese é a mais provável, tanto mais que raras notícias das suas actividades chegaram até nós. Não se cumprira a profecia optimista do Evening Post.
A loja inglesa de Lisboa era quase exclusivamente formada por protestantes, o que lhe valeu a alcunha, por que passou à História, de «Loja dos Hereges Mercantes». É provável que, em termos étnico-culturais, fosse constituída predominantemente por ingleses e escoceses. Isto explica que o outro grupo britânico residente e muito numeroso em Portugal, o dos católicos irlandeses, aspirasse a fundar uma loja que lhe estivesse mais afim. A Maçonaria setecentista tinha um cunho marcadamente religioso e as diferenças entre credos cristãos haviam de reflectir-se, mesmo que tenuamente, nas orações rezadas em loja. Além disso, irlandeses e ingleses não gostavam de conviver, por muito fraternos que fossem. E, por fim, começavam a exercer-se de vários lados pressões de outros estrangeiros e até de portugueses, solicitando admissão na nova e já, afamada Ordem. Ora a loja existente era ciosamente britânica e poucas aberturas ao exterior admitiria.

Cortesia de reporterdecristo

Justificava-se, assim, a instalação em Lisboa de mais lojas. E a iniciativa da primeira destas havia de sair, como saiu, da comunidade irlandesa católica. A loja irlandesa surgiu entre 1733 e 1735, provavelmente antes mesmo de ter sido regularizada a loja inglesa. Contudo, o papel de George Gordon foi também relevante na sua origem, segundo diferentes testemunhos, poucos anos passados. Como agente da Maçonaria britânica, estava interessado na multiplicação de lojas no estrangeiro que fossem, a um tempo, elementos da propagação maçónica e elementos da influência do seu país. Àssim, já algum tempo antes da chegada da poderosa frota, Gordon promovera reuniões com maçons irlandeses, ingleses e escoceses, provavelmente católicos em sua maioria, tendentes à erecção de nova oficina.
Em 1735, esta loja achava-se já em plena actividade, continuando a prosperar até à sua forçada dissolução, três anos depois, pelas razões que veremos. Chamou-se, oficialmente, «Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia». Em 1738, passado que fora o tempo de observação, Gordon recebeu da Grande Loja de Londres os necessárior poderes para instalar oficialmente esta segunda loja de Lisboa. Mas os acontecimentos desse ano puseram prematuro fim aos trabalhos da oficina, sem lhe dar tempo a que fosse regularizada.
Esta loja, que agrupou uns 24 maçons aproximadamente, era irlandesa e católica em 75% dos casos. As minorias respeitavam, quanto à religião, a protestantes (mas sendo dois destes irlandeses também) e, quanto às nacionalidades, a ingleses, escoceses e um húngaro súbdito do Império, o famoso arquitecto Carlos Mardel. Os trabalhos da loja decorreriam, pois, em inglês. Quanto às profissões, predominavam os homens de negócio (sete), seguidos pelos marítimos (quatro), os sacerdotes e os oficiais do Exército (três de cada grupo), os médicos (dois), os professores de dança (dois), um de profissão desconhecida e o matemático Gordon.

Cortesia de gataescondida

Relativamente à loja inglesa e se a supusermos de comerciantes quase somente, a loja irlandesa apresentava grandes vantagens do ponto de vista maçónico: congregava «irmãos» de profissões variadas e até, pelo peso que, ainda assim, tinham os protestantes, conseguia reunir com eficácia cristãos de mais de uma confissão. A «Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia» tinha reuniões ordinárias na primeira quarta-feira de cada mês, à tarde, podendo reunir extraordinariamente para proceder a iniciações ou para tratar de algum assunto anormal. Na boa tradição britânica, reunia nos fundos de uma casa de pasto situada a S. Paulo e pertencente a um dos «irmãos». A maior parte das sessões consistia em ágapes, acompanhados de música e canto, onde se comia e bebia com moderação. Também eram feitas palestras sobre temas científicos, especificando-se a Matemática (Mardel e Gordol seriam porventura os palestrantes), a Medicina e a Arquitectura. No espírito das constituições de Anderson, era proibido discutir política ou religião. Também se interdiziam o falar mal de alguém, o murmurar e o praguejar. Os livros rituais eram todos em inglês.

Em todo o globo, o crescimento da Maçonaria ia-se mostrando espectacular. De fenómeno circunscrito às Ilhas Britânicas e limitado a algumas lojas, a ordem Maçónica alcançara, em 1738, mais de 270 oficinas, das quais cerca de uma quinta parte espalhadas por três continentes. Havia lojas em praticamente todos os Estados da Europa». In A. H. Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, das Origens ao Triunfo, Editorial Presença, 1990, Depósito legal nº 34986/90.
Cortesia de Editorial Presença/JDACT

A Época dos Ciclones Tropicais 2011. Oceano Atlântico Norte: Usa-se uma lista de 21 nomes por cada época e são ordenados alfabeticamente. Se esta lista se esgotar antes de terminar a temporada dos ciclones tropicais, como disse no pf dia 30 de Novembro, são usadas letras do alfabeto grego, (Alfa, Beta, Gamma, Delta e assim por diante)

A época de 2010
Cortesia de nhc

A época de 2011 dos ciclones tropicais no Oceano Atlântico Norte tem início oficialmente no pf dia 1 de Junho e prolonga-se até ao dia 30 de Novembro.


Usa-se uma lista de 21 nomes por cada época e são ordenados alfabeticamente. Se esta lista se esgotar antes de terminar a temporada dos ciclones tropicais, como disse no pf dia 30 de Novembro, são usadas letras do alfabeto grego, (Alfa, Beta, Gamma, Delta e assim por diante)  facto que aconteceu no ano de 2005.
  • Arlene
  • Bret
  • Cindy
  • Don
  • Emily
  • Franklin
  • Gert
  • Harvey
  • Irene
  • Jose
  • Katia
  • Lee
  • Maria
  • Nate
  • Ophelia
  • Philippe
  • Rina
  • Sean
  • Tammy
  • Vince
  • Whitney
Desde 1953, o nome das tempestades tropicais no Atlântico Norte são criados pelo NHC, National Hurricane Center, e são mantidos pela OMM, Organização Meteorológica Mundial. Inicialmente, a lista era composta apenas por nomes de mulheres. No ano de 1979, os nomes de homens foram introduzidos e alternam com o nome das mulheres. São criadas seis (6) listas que são usadas em rotação, isto é, as listas são recicladas a cada seis anos. A lista de 2011 será usada novamente em 2017, por exemplo.
Uma excepção, os furacões particularmente destrutivos têm os seus nomes retirados das listas e são substituídos por outros.

Cortesia de nhc

A entidade responsável pelos Avisos no Atlântico Norte  é a National Hurricane Center. Os modelos físico-matemáticos utilizados nos prognósticos são:
  • NOAA-NCEP
  • ECMWF-Tropical
  • SFWMD-Model Plots
Num futuro próximo voltarei ao assunto.

JDACT

sábado, 28 de maio de 2011

Fernando Pessoa: Os Grandes Trechos. Parte X. «Convicções profundas só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida»

Cortesia de siswill

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação
«Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprìo. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Sér coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural. A coerência, a convicção, a certeza, são,além disso, demonstrações evidentes, quantas vezes escusadas, de falta de educação.
É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Cortesia de estudarabrincarmissmonteiro

Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiraçao literária. Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelho, do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e, não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisseia.

Convicções profundas só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. Quando é que despertaremos para a justa noção de que politica, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suaS sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida». In Fernando Pessoa, Ideias Políticas.

Cortesia de Casas das Letras/JDACT

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Paulo A. Loução. Os Templários na formação de Portugal: A Queda do Mundo Clássico. «A ideia de que a nossa civilização é o cume da história, baseada numa visão linear cronológica, está completamente ultrapassada. É evidente que o caminho da humanidade evolui em círculo espiralado, isto é, alternam-se momentos de maior interesse pela espiritualidade com outros de maior interesse pelos bens materiais. Porém, a história «repete-se» na sua essência e não nos factos concretos»

Ponte romana de Alcântara
Cortesia de olhares

A Queda do Mundo Clássico
«A arqueologia e outras ciências auxiliares da história, têm-nos mostrado, neste século XX, o quanto ainda desconhecemos do passado humano. Após a arrogância positiva do século passado, que «não permitia» afirmar «não sei», existem hoje, de facto, inúmeros enigmas referentes às civilizações do passado. É muito o que a ciência já aceitou não saber. Um exemplo muito conhecido é o da Grande Pirâmide, chamada de «Keops», no antigo Egipto. Não se sabe como se construiu, e mais: hoje seria praticamente impossível edificar uma igual com tanta perfeição. Está provado que não foi construída por escravos e com o auxílio de cordas, pois estas nunca poderiam puxar lajes com trezentas toneladas, peso equivalente a trezentos automóveis comprimidos. Este é apenas um exemplo, entre centenas, de enigmas ligados à Grande Pirâmide e a outras construções monumentais do antigo Egipto.
Por outro lado, a ideia de que a nossa civilização é o cume da história, baseada numa visão linear cronológica, está completamente ultrapassada. É evidente que o caminho da humanidade evolui em círculo espiralado, isto é, alternam-se momentos de maior interesse pela espiritualidade com outros de maior interesse pelos bens materiais. Porém, a história «repete-se» na sua essência e não nos factos concretos. A Humanidade vai evoluindo em ciclos e não linearmente, para melhor. O facto de evoluir em ciclos, alguns deles com muitos milhares de anos, é que nos confunde. Por exemplo, hoje estamos a viver um momento muito semelhante no essencial ao período de decadência do Império romano.

Cortesia de documentarios

As civilizações, como tudo o que é manifestado na Natureza, nascem, crescem e morrem. No início, certas elites dão vida aos arquétipos que serão a base dessa civílização. Com os séculos, esse conjunto de «ideias», segundo a concepção platónica, vai dando forma a um novo tipo de sociedade regulado pela acção política. Quando os arquétipos e valores que lhes deram origem são «esquecidos» pelos homens, a sociedade transforma-se paulatinamente num corpo sem alma. Para a maioria, para os não-filósofos, a vida deixa de ter sentido e entra no subconsciente das populações aquilo a que Mircea Eliade designa como «o terror da história».
Os monumentos grandiosos, ruínas de tantas civilizações do passado, lembram-nos esta dinâmica inteligente da Natureza que visa o aperfeiçoamento paulatino do espírito humano, ao longo dos milénios.
Na Roma de Rómulo e Remo (séc. VIII a.C.), houve um tal impulso espiritual que os primeiros romanos já acreditavam ser aquele lugar, no futuro, o centro do Mundo. Segundo a tradição, no reinado do sábio Numa Pompílio, surgiram uma série de teofanias. Mais tarde, os romanos viram-se obrigados a raptar as sabinas para crescer demograficamente. Da monarquia inicial passaram à república e desta ao império. Nove séculos depois da «loba amamentar os fundadores», começam a fazer-se sentir os sintomas da decadência.

Cortesia de dosenxidros

Voltamos a citar o seguinte texto de Juvenal (séc. I a. C.), divulgado por Louis Pauwels no «Figaro Magazine»:
  • «As pessoas moram em gaiolas para coelhos a preços exorbitantes. Já não se pode circular nas ruas. Quando penso em que é que Roma se tornou, fujo para longe. Os milhões que ganham os promotores. Vindos dos quatro cantos do Mediterrâneo, ei-los que adquirem as melhores casas para delas se apoderarem. Desprezam os nossos gostos e valores; o mau gosto torna-se sinónimo de requinte, o idiota passa por genial, cantores medíocres são vistos como estrelas. Já não há em Roma mais lugar para um bravo Romano. Na rua os estrangeiros agridem-nos. E depois, ainda por cima são eles que te acusam e levam-te a tribunal. Onde estão os ritos antigos? A religião é publicamente vilipendiada. Quem teria ousado, outrora, fazer troça do culto dos deuses? Não nos devemos surpreender que a desonestidade seja geral. Já ninguém tem palavra, porque todos perderam a fé. Mesmo os crentes já não crêem na virtude. Outrora, um desonesto era algo incrível. E agora, um tipo verdadeiramente íntegro é visto como um prodígio. Quanto aos jovens, é melhor nem falar. Onde já vai o tempo em que era visto como um sacrilégio um jovem não se levantar diante de um idoso? Em resumo, devoção, correcção, rectidão, palavra de honra, respeito, valor, civismo, património cultural, etc; Tudo isso desapareceu». Juvenal.
É, fácil de ver que estas palavras poderiam ter sido escritas nos nossos dias. A partir daquela data surgiram em Roma, de forma crescente, pseudo-astrólogos, vendedores de poções mágicas, fenómenos de especulação imobiliária, de insegurança nas cidades e de êxodo populacional dos grandes centros...». In Paulo Alexandre Loução, Os Templários na Formação de Portugal, Ésquilo, 9ª edição, 2004, ISBN 972-97760-8-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Aquilino Ribeiro: "Alcança quem não cansa", diz o ex-libris de Aquilino. Verdadeiro "homem de acção", um tipo social que o princípio do século XX muito exaltou. ... possibilidade de alimentar o seu gosto de bibliófilo pelo livro antigo, raro, um gosto que o levará produzir trabalhos de índole investigativa, publicados, por exemplo, nos Anais das Bibliotecas e Arquivos, e que transparece também na produção romanesca»

Cortesia de almocrevedaspetas


"Alcança quem não cansa", diz o ex-libris de Aquilino Ribeiro. Não poderia ter escolhido melhor este escritor, que se designava a si próprio como um "obreiro das letras" e que trabalhou incansavelmente quase até ao dia da sua morte, chegada a 27 de Maio de 1963; foi pouco depois de uma viagem ao Porto; aí ocorrera mais uma das muitas homenagens com as quais nesse ano, precisamente, o país consciente (e temerário) prestava tributo aos cinquenta anos de trabalho do "mestre", cuja arte de ficcionista, descontando alguma prosa de folhetim, começara a vir a lume em 1913, com a publicação do volume de contos Jardim das Tormentas.

(1885-1963)
Sernancelhe
Cortesia do institutocamoes

«Verdadeiro «homem de acção», um tipo social que o princípio do século XX muito exaltou, adere por completo às movimentações republicanas, quer através de um posicionamento pela escrita, quer através da participação em actividades que acabam por levá-lo à cadeia. De facto, no ano de 1907, o rebentamento de caixotes de explosivos guardados na sua casa leva à morte de dois correligionários e a que seja encarcerado na esquadra do Caminho Novo, de onde se evade em situações rocambolescas. Depois de alguns meses de clandestinidade em Lisboa, segue para Paris; aqui inscreve-se no curso de Filosofia da Sorbonne, onde tem a oportunidade de receber a lição de mestres como George Dumas, André Lalande, Levy Bruhl, Durckeim, e onde contacta com a intelectualidade portuguesa que, também por motivos políticos, se via forçada a viver fora de Portugal.
O curso, a política, os projectos editoriais que vai desenvolvendo com os companheiros de exílio (parte destas circunstâncias vêm relatadas em Leal da Câmara, uma biografia deste pintor), as crónicas que envia para Portugal, para publicação, nomeadamente na Ilustração Portuguesa e no jornal A Beira, a observação, as pesquisas de bibliófilo ainda lhe deixam tempo para escrever, na biblioteca da Sainte Geneviève, perto da Sorbonne, o volume de contos Jardim das Tormentas. Também em Paris, conhece Grete Tiedemann, sua primeira mulher e mãe do filho mais velho. No dealbar da guerra mundial, é forçado pelas circunstâncias a regressar ao seu país com a família (volta em 1914);
  • a vida parisiense dos tempos que antecedem o advento do conflito vem relatada no volume diarístico É a Guerra, no qual ganha proeminência a crítica àquele que era na altura o ministro da Legação de Portugal em Paris, João Chagas.
Fica incompleto o curso de Filosofia, que deixa para trás já depois de se ter matriculado no quarto ano, como se pode ver em registos guardados no Centre d'Accueil et de Recherche des Archives Nationales (Paris).

Cortesia de nelsonlisboa

Já em Portugal, ocupam-no, para além da escrita ficcional e da escrita cronística para a imprensa periódica (uma actividade que desenvolverá com enorme regularidade ao longo de toda a sua vida), o trabalho de professor no Liceu Camões, onde fica durante três anos, e, posteriormente, o cargo de segundo bibliotecário na Biblioteca Nacional, para onde entra a convite de Raul Proença. Este posto, entre outras vantagens, dá-lhe a possibilidade de alimentar o seu gosto de bibliófilo pelo livro antigo, raro, um gosto que o levará produzir trabalhos de índole investigativa, publicados, por exemplo, nos Anais das Bibliotecas e Arquivos, e que transparece também na produção romanesca (veja-se A Via Sinuosa, o seu primeiro romance). Além disso, com colegas de trabalho - um "grupo de intelectuais altamente representativo da mentalidade do tempo", como escreveu Manuel Mendes - continua a desenvolver uma actividade cívica que vai ter a sua expressão mais visível na revista Seara Nova, publicação preponderante quer na difusão dos ideais republicanos (sociais e educativos, nomeadamente), quer mesmo no evoluir da conturbada vida política da 1.ª República.

O tempo de exílio termina em 1932, ano em que regressa ainda clandestinamente a Portugal; tinha entretanto casado em segundas núpcias (a primeira mulher morrera no ano de 1927) com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado, o presidente da República deposto por Sidónio Pais. O único filho do casal, segundo de Aquilino, nasce em 1930, ainda fora do país. Também em 1932, é aministiado (tinha sido julgado e condenado à revelia em 1929), o que lhe permite regressar à capital (fixando-se, mais precisamente, na Cruz Quebrada); acalmados, de um lado, os génios conspirativos e, de outro lado, os génios persecutórios, tem a possibilidade de se dedicar plenamente à escrita, continuando a produção ficcional, o trabalho de tradução, o trabalho ensaístico (lato sensu) e a colaboração na imprensa periódica. Em 1933, o conjunto de novelas As Três Mulheres de Sansão recebe o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, e em 1935 é eleito sócio correspondente desta instituição, da qual se tornará sócio efectivo em 1957.

Cortesia de tecaancorensis

A este activismo político, há que juntar a tenacidade com que, durante mais de duas décadas, promoveu uma agregação formal e institucionalizada dos escritores até conseguir criar, unido a alguns contemporâneos, a Sociedade Portuguesa de Escritores, de que foi fundador e presidente, isto no ano de 1956. O tempo não lhe subtrai o prestígio de grande figura da escrita, reconhecido dentro e fora de de Portugal. Atestam esse prestígio factos como a apresentação da sua candidatura ao Nobel, proposta por Francisco Vieira de Almeida e subscrita por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Joel Serrão, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. Atestam-no também as homenagens que recebe no Brasil, país aonde se desloca, por motivos pessoais, no ano de 1952. Atesta-o sobremaneira o extraordinário movimento que se desenvolveu em sua defesa depois da publicação do romance Quando os Lobos Uivam, em 1958, considerado pelo regime como injurioso das instituições de poder e levando à instauração de um processo crime contra o escritor. Para além da defesa formal, levada a cabo pelo advogado Heliodoro Caldeira, Aquilino tem o apoio de cerca de 300 intelectuais portugueses que se juntam num abaixo-assinado pedindo o arquivamento do processo; fora de Portugal, François Mauriac redige uma petição em defesa de Aquilino, assinada, nomeadamente, por Louis Aragon e André Maurois e publicada em vários jornais e revistas franceses. O processo crime acaba por ser arquivado cerca de vinte meses depois da sua instauração, na sequência de uma amnistia.

Embora sem se fazer completamente justiça, encerrava-se uma acção injuriosa dirigida contra alguém que foi e será sempre um dos nomes maiores das nossas letras, que trouxe à língua uma plasticidade impressionante combinando o rústico com o erudito, que foi um observador atento das 'grandezas e misérias' do género humano, que criou uma galeria de personagens passando pelo campesino beirão, pelo pequeno-burguês de província, pelo cosmopolita, pelo idealista, pelo obcecado, pelo asceta e pelo sibarita, pela mulher tentadora e pela virgem solícita e generosamente disponível...alguém que, enfim, por via da reflexão, saber, trabalho, estudo, deixou para os séculos uma visão exaltante da existência, mas temperada pela melancolia de quem não esquece a inevitável efemeridade de todas as coisas. "Mais não pude", pretendeu Aquilino que fosse o seu epitáfio». In Serafina Martins, Instituto Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

A Ciência na Aula da Esfera: Segundas Jornadas. «A "Aula da Esfera" do colégio de Santo Antão foi a mais importante instituição de ensino e prática das ciências matemáticas em Portugal. Por esta aula do colégio jesuíta de Lisboa passaram eminentes homens de ciência da Europa e aí se treinaram alguns dos mais reputados especialistas técnicos do nosso país»

Cortesia de bnp

Ciência na «Aula da Esfera», Segundas Jornadas, hoje dia 27 de Maio de 2011
BNP, Entrada livre

«Entre 1590 e 1759, a «Aula da Esfera» do colégio de Santo Antão foi a mais importante instituição de ensino e prática das ciências matemáticas em Portugal. Por esta aula do colégio jesuíta de Lisboa passaram eminentes homens de ciência da Europa e aí se treinaram alguns dos mais reputados especialistas técnicos do nosso país. Foi também por esta instituição que entraram em Portugal as mais importantes novidades científicas do período, desde as descobertas telescópicas de Galileu à projecção de Mercator, passando pelos logaritmos e outras técnicas matemáticas avançadas, novos instrumentos, máquinas, novidades astronómicas, etc.
Conhecer o conteúdo e o impacto das actividades desta instituição singular na história científica portuguesa é o objectivo destas Jornadas, agora na sua segunda edição, depois de uma primeira realizada em 2008 no contexto da Exposição:
  • «Sphæra Mundi: A Ciência na Aula da Esfera», também com organização conjunta da BNP e do Centro de História da Ciência da Universidade de Lisboa.
Para conhecimento, passo a citar:
Aula da Esfera
«A Arte de Navegar em Portugal começou por se basear em regras essencialmente práticas e empíricas. A formação dos responsáveis pela condução dos navios tinha um carácter eminentemente prático, sendo os conhecimentos necessários transmitidos pelos mais experientes aos “aprendizes” dessa arte. A literatura náutica daquela época, redigida quase exclusivamente por pilotos, é uma prova evidente desse pragmatismo, nela se indicando as regras para condução dos navios, nos mares que os Portugueses mais praticavam.
As bases matemáticas necessárias para a navegação eram bastante rudimentares, não sendo exigidos nenhuns conhecimentos especiais, nem grandes capacidades de cálculo, para levar a efeito as operações aritméticas necessárias para determinar a posição dos navios. Por esse motivo não existia em Portugal, durante o século XV e pelo menos na primeira metade do XVI, qualquer organismo institucional vocacionado para a formação dos pilotos. O “apoio científico” era garantido por astrólogos, que preparavam tabelas, prontas a utilizar, com coordenadas dos astros para serem usadas na determinação da posição dos navios.
Com o passar do tempo, as exigências de precisão, no que respeita ao conhecimento da posição do navio foram aumentando. No final da primeira metade do século XVI, a Coroa decidiu criar uma aula, do Cosmógrafo-mor, que tinha, entre outras incumbências, a de ministrar formação aos futuros pilotos e a outros homens ligados às actividades náuticas, como cartógrafos e fabricantes de instrumentos. Pouco se acerca das actividades deste funcionário régio nos primeiros anos, mas as suas aulas não teriam tido grande afluência, pelo menos durante o século XVI. Situação semelhante se verificou com a cadeira de matemática criada na Universidade de Coimbra.

Cortesia de bibliofototeca
Em 1574, o rei decidiu solicitar ao Jesuítas que instituíssem uma classe, no seu colégio de Santo Antão, em Lisboa, destinada a dar a formação matemática necessária aos homens do mar. Aproveitar-se-ia assim a experiência e a vocação para ensinar que os membros daquela ordem religiosa demonstraram desde a fundação da mesma. As lições aí ministradas ficaram conhecidas pela designação de Aula da Esfera. A origem desta designação está certamente relacionada com os inúmeros “Tratados da Esfera” redigidos na Idade Média, nos quais eram expostas noções de Cosmografia, base dos conhecimentos necessários para a Arte de Navegar.
O objectivo inicial da Aula da Esfera era fornecer as ferramentas técnicas e matemáticas necessárias para os homens do mar. Por esse motivo, o seu ensino era bastante prático, e vocacionado para aquele objectivo concreto, pelo menos nos primeiros tempos do seu funcionamento. Uma característica importante desta aula é o facto de ele se afastar da prática definida para o ensino da matemática nos colégios jesuítas. Essa prática encontrava-se enunciada no Ratio Studiorum, onde se definia o plano estratégico a ser seguido pelos Jesuítas, em termos de ensino.

Cortesia de bnp
Sendo o latim a língua culta da época usada na maioria das aulas ministradas um pouco por toda a Europa, não passou despercebido a um visitante italiano o facto de em Portugal serem dadas lições, na Aula da Esfera, em vernáculo, o que se percebe pelo facto de os alunos serem geralmente pessoas que não dominariam certamente o latim.
Com o passar do tempo, e a modificação de diversos aspectos da vida nacional, a referida aula sofreu também alterações mais ou menos profundas. O programa das aulas era definido pelo professor que as ministrava, razão pela qual se notam modificações nas matérias ensinadas cada vez que o professor mudava. Analisando os diversos sumários, e nalguns casos apontamentos das próprias aulas, que chegaram até aos nossos dias, notamos uma tendência para um ensino cada vez mais teórico, afastando-se portanto do seu objectivo inicial, que era o de dar formação de índole prática.

Cortesia de icamoes
O interesse pela Arte de Navegar foi sendo cada vez menor, mantendo-se no entanto, o interesse pela cosmografia e pelo uso de globos. Nota-se por vezes, que os professores analisam os problemas que interessavam aos homens do mar, mas dum ponto de vista bastante teórico, propondo soluções sem qualquer interesse prático. Também o ensino da Geografia, que na época era conhecida como Hidrografia, foi desaparecendo, a pouco e pouco, das aulas.
Após a Restauração da Independência, em 1640, os programas da Aula da Esfera sofreram alterações significativas de forma a melhor servirem as necessidades que o país conhecia. Vivendo‑se então uma situação de confronto militar eminente com Castela era premente a construção de fortificações militares, especialmente nas regiões de fronteira.
Matérias como a Aritmética e a Geometria passaram a ser ensinadas na segunda metade do século XVII, fornecendo assim as bases essenciais para aqueles que mais tarde viriam a ser engenheiros militares. A inclusão no curso, por ordem régia, de lições de Arquitectura, é mais uma prova evidente da importância que na época se dava à formação de homens habilitados a construir e reparar fortificações.

Cortesia de bnp
Muitos dos professores que ensinaram na Aula da Esfera eram estrangeiros. A insuficiência de pessoal qualificado, em Portugal, para ministrar essas matérias é uma das explicações para esse fenómeno. Por outro lado, muitas das actividades de missionação da Companhia de Jesus ocorreram no Oriente. Na China essa missionação concretizou-se através de uma actividade científica intensa por parte dos padres jesuítas, que resolveram muitos dos problemas de ordem prática que os Chineses lhes colocaram. Sendo Lisboa a via pela qual esses cientistas chegavam ao Oriente, e pertencendo aqueles territórios à Província portuguesa da Companhia compreende-se facilmente que muitos desses estrangeiros destinados ao Oriente cá ensinassem, enquanto aguardavam a partida, ou quando de lá regressavam.
Embora possam ser apontadas inúmeras lacunas nas lições apresentadas na Aula da Esfera importa destacar o facto de esta ter sido o único local onde em Portugal se ensinou regularmente Matemática, numa época em que a cadeira universitária dessa disciplina não tinha praticamente nenhuns alunos. Além disso, devido ao facto de muitos dos seus professores serem estrangeiros, que tinham contactado com realidades diferentes da portuguesa, a Aula da Esfera foi a via de entrada de muitas das novidades científicas que iam surgindo um pouco por toda a Europa». In António Costa Canas, Instituto Camões

Cortesia da BN de Portugal/Instituto Camões/JDACT

Jazz Num Dia de Verão 2011: Estoril. «O cartaz é sempre de luxo e as propostas as mais diversificadas, mantendo a aposta no jazz "mainstream" de origem norte-americana. A 30.ª edição não é excepção

Cortesia de estoriljazz 

XXX Estoril Jazz - Jazz Num Dia de Verão 2011

O Estoril Jazz nunca engana: o cartaz é sempre de luxo e as propostas as mais diversificadas, mantendo a aposta no jazz «mainstream» de origem norte-americana. A 30.ª edição não é excepção:
  • Joe Lovano e Jack Walrath brilham no alinhamento que marca presença nos dois fins-de-semana alargados do festival: de 27 a 29 de Maio e de 3 a 5 de Junho.
O primeiro convidado é o trompetista Jack Walrath, que tocou com Charles Mingus e assinou alguns dos seus arranjos. Este concerto é dedicado à memória do mestre. Depois dos ensinamentos do veterano, o palco recebe a estreia de uma jovem clarinetista israelita (radicada nos EUA) que tem recebido muita atenção da crítica especializada: Anat Cohen, na liderança de um quarteto. O primeiro fim-de-semana do Estoril Jazz finaliza com outra presença inédita entre nós: a saxofonista-revelação Tia Fuller, também ela com um quarteto.

Cortesia de estoriljazz 

A segunda ronda do festival abre com um dos maiores expoentes do jazz português e não só): Mário Laginha. No seio do seu trio, responde ao desafio proposto pelo festival: deixar a maior parte do alinhamento por conta dos grandes "standards". Depois, entra em cena Hal Galper, pianista que, no Estoril Jazz, exerce também a função de conferencista. O caminho para o final do festival faz-se em crescendo, em direcção ao concerto de Joe Lovano. Podemos apresentá-lo como gigante ou como um dos mais conceituados saxofonistas da actualidade. Ou até como um brilhante construtor de pontes entre as velhas correntes do sax e a modernidade. Seja qual for a forma, o resultado tende a ser o mesmo: concertos memoráveis.
O Estoril Jazz tem como principal objectivo a divulgação da música Jazz através de concertos ao vivo com músicos e grupos de primeiro plano da cena internacional. Com especial incidência, como é natural, nos norte-americanos, estando atento não só às novas tendências, sem descurar a qualidade artística, mas também a formações musicais diversificadas:
  • dos grupos - voz / trios / quintetos - às grandes orquestras, blues, New Orleans, entre outras.
O festival é produzido pela Projazz, entidade fundada em 1 de Janeiro de 1989. Duarte Mendonça, sócio fundador, iniciou-se como produtor de concertos e festivais de Jazz em 1974, no então Cascais Jazz, com Luis Vilas Boas. Concebeu e implementou, em 1982, o festival Jazz Num Dia de Verão que a partir de 1990 adquiriu a designação de Estoril Jazz / Jazz Num Dia de Verão.

Cortesia de Jornal Público/Guia da Cidade, Cascais/JDACT

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte III. «A noção de risco, devo acentuar, é inseparável das ideias de probabilidade e de incerteza. O risco refere-se a perigos calculados em função de possibilidades futuras. Só tem uso corrente numa sociedade orientada para o futuro. O risco implica a existência de uma sociedade que tenta activamente desligar-se do passado - na realidade, a primeira característica da civilização industrial da era moderna...»

Cortesia de ordemnocaos

Risco.
«Serão as flutuações de temperatura (cai neve em áreas afectadas por "ondas de calor", neva em zonas onde nunca tinha ocorrido queda de neve) o resultado da interferência do homem com o clima mundial? Não podemos ter a certeza, mas temos de admitir essa possibilidade. Uma das consequências do desenvolvimento industrial global pode ter sido a alteração do clima, que também terá provocado bastantes mais estragos no nosso habitat terrestre. Não sabemos que outras mudanças teremos de suportar, ou os perigos que elas arrastarão consigo.
Podemos compreender estas questões se considerarmos que todas elas envolvem risco. Espero persuadi-los de que esta ideia, simples na aparência, põe a descoberto algumas das características fundamentais do mundo em que estamos a viver. À primeira vista, e quando comparamos a nossa situação com a que se viveu em épocas mais remotas, o conceito de risco pode parecer irrelevante. Ao cabo e ao resto, as pessoas sempre tiveram de enfrentar a sua quota-parte de riscos, não é verdade?

Cortesia de luisaleilamonteiro

Durante a Idade Média a vida da maioria dos europeus era sórdida, rude e breve, como ainda acontece em muitas das zonas mais pobres do mundo actual. Chegados a este ponto, deparamo-nos com algo verdadeiramente interessante. Postos de lado alguns contextos marginais, na Idade Média não existia o conceito de risco. E nunca existiu na maioria das culturas mais tradicionais, tanto quanto me é dado saber. A noção de risco parece ter adquirido expressão durante os séculos XVI e XVII, e começou por ser usada pelos exploradores ocidentais quando partiam para as viagens que os levaram a todas as partes do mundo. A palavra «risco» parece ter chegado ao inglês através do espanhol ou do português, línguas em que era utilizada para caracterizar a navegação em mares ainda desconhecidos, ainda não descritos nas cartas de navegação. Por outras palavras, na origem, a palavra incluía a noção de espaço. Mais tarde, quando usada pelo sistema bancário e em investimentos, passou a incluir a noção de tempo, indispensável para o cálculo das consequências prováveis de determinado investimento, tanto para os credores como para os devedores. Acabou por se referir a uma enorme diversidade de situações onde existe incerteza.

Cortesia de interpsic

A noção de risco, devo acentuar, é inseparável das ideias de probabilidade e de incerteza. Não se pode dizer que alguém enfrenta um risco quando o resultado da acção está totalmente garantido. As culturas tradicionais não dispõem do conceito de risco porque não precisam dele. Risco não é, o mesmo que acaso ou perigo. O risco refere-se a perigos calculados em função de possibilidades futuras. Só tem uso corrente numa sociedade orientada para o futuro, uma sociedade que vê o futuro precisamente como um território a ser conquistado ou colonizado. O risco implica a existência de uma sociedade que tenta activamente desligar-se do passado - na realidade, a primeira característica da civilização industrial da era moderna.
Todas as culturas antigas, incluindo as grandes civilizações da História, como as de Roma ou da China tradicional, viveram, antes de mais, com base no passado. Utilizaram as ideias de destino, ou da vontade dos deuses, em situações que nós agora tendemos a considerar casos de risco. Na cultura tradicional, se alguém sofre um acidente ou, pelo contrário, se alguém prospera, bem, são coisas que acontecem, ou fez-se a vontade de Deus. Houve culturas que negaram pura e simplesmente que o acaso pudesse existir. Os Azande, membros de uma tribo africana, acreditam que qualquer desgraça é sempre o resultado de um bruxedo. Se uma pessoa cai, por exemplo, a queda foi provocada por alguém que lhe fez magia negra». In Anthony Giddens, 1999, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 2ª edição, 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

Fundação Gukbenkian: Um percurso pela História de Arte dos jardins e da paisagem ... «À volta de uma peça da colecção do Museu Gulbenkian explora-se a relação entre a Arte e o pensamento sobre a paisagem e a sua materialização sob a forma de jardim. As noções de Natureza, de Jardim e, sobretudo, de Paisagem são construções culturais temporal e espacialmente específicas»

Cortesia da fcg

Um percurso pela História de Arte dos jardins e da paisagem ...
Através das peças do Museu Gulbenkian, pf dia 28 de Maio.

«À volta de uma peça da colecção do Museu Gulbenkian explora-se a relação entre a Arte e o pensamento sobre a paisagem e a sua materialização sob a forma de jardim.
As noções de Natureza, de Jardim e, sobretudo, de Paisagem são construções culturais temporal e espacialmente específicas. São, por isso, noções aprendidas e apreendidas, de formas e em contextos diversos ao longo da história. Partindo de algumas peças da Colecção do Museu Gulbenkian, neste último sábado de Maio, 16h 30, traça-se um percurso do aparecimento e evolução destes conceitos e da relação, íntima e biunívoca que estabeleceram com a expressão artística.

Concepção e orientação:
  • Victor Beiramar Diniz, arquitecto paisagista.
Victor Beiramar Diniz, nascido em Lisboa, 1968, licenciado em Arquitectura Paisagista e pós-graduado em Design Urbano, recebeu em 2001 o Peter Joseph Lennée Preiz atribuído pelo Senado da Cidade de Berlim. Entre 2003 e 2007 ocupou o lugar de Director do Parque de Serralves, tendo sido responsável pela implementação do Projecto de Recuperação e Valorização do Parque, tendo no mesmo período comissariado, entre outras actividades, um ciclo de Conferências Internacionais sobre Paisagem. Até 2010 colaborou, externamente, com a mesma instituição como consultor na área do Património Arquitectónico e de Paisagem de Serralves. Como autor, tem colaborado, com textos críticos de Arquitectura e Paisagem, em publicações especializadas, em Portugal e no estrangeiro.

Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

Museu do Chiado: A Arte Portuguesa do Século XIX (1850-1910). «O retrato expressa a afirmação do indivíduo e uma humanização do retratado que corresponde aos ideais propostos pela geração romântica, à preocupação pelo subjectivismo e a uma necessária referência do estatuto social e artístico, numa situação de projecção das burguesias na Lisboa do Fontismo»

Cortesia de mc

A Arte Portuguesa do Século XIX (1850-1910)
Curadoria de Maria de Aires Silveira
Até ao pf dia 12 de Junho de 2011, Piso 2A

«Arte Portuguesa do Século XIX (1850-1910) é a primeira de três grandes exposições que inauguram o ano do Centenário do Museu Nacional de Arte ContemporâneaMuseu do Chiado, criado por decreto da República em 26 de Maio de 1911.
Perante a impossibilidade de revelar a verdadeira dimensão e a diversidade do acervo numa única exposição, optou-se por apresentar os três períodos da colecção (1850-1910, 1910-1960 e 1960-2011) em três momentos expositivos sucessivos, que cobrem toda a história da arte portuguesa, de 1850 até à actualidade.
A primeira destas exposições corresponde ao núcleo fundador da colecção que, historicamente, antecede a criação do MNAC. Através de 100 obras fundamentais dos maiores artistas deste período, exploram-se as rupturas e permanências da arte portuguesa do século XIX (1850-1910), em seis núcleos temáticos que traduzem o espírito da geração romântica e as novidades das propostas naturalistas, entre a descoberta da luz e das atmosferas, a paisagem e os costumes, a afirmação da figura popular, o retrato, o intimismo e os simbolismos de finais de século. H.B.

Artistas Representados.
Simões de Almeida, Alfredo de Andrade, Tomás da Anunciação, Carlos de Bragança, José de Brito, António Carneiro, José Ferreira Chaves, Ernesto Condeixa, Luciano Freire, Adriano de Sousa Lopes, Teixeira Lopes, Alfredo Keil, Artur Loureiro, Miguel Ângelo Lupi, Duarte Faria e Maia, José Malhoa, Luís de Menezes, Francisco Metrass, Marques de Oliveira, António José Patrício, Columbano Bordalo Pinheiro, Sousa Pinto, Silva Porto, Henrique Pousão, António Ramalho, Carlos Reis, José Veloso Salgado, Francisco dos Santos, João Cristino da Silva, Aurélia de Sousa, Soares dos Reis, João Vaz.


Cortesia de mc

A Descoberta do Natural, da Luz e das Atmosferas
Praia de banhos, Marques de Oliveira
Em 1879, Marques de Oliveira e Silva Porto introduzem uma moderna captação da luz na paisagem, na sequência da sua aprendizagem em Paris como bolseiros, observadores atentos das práticas ar-livristas da Escola de Barbizon. Praia de banhos referencia vanguardas internacionais como Manet ou Boudin, e, em conjunto com Chrarneca de Belas, revela novos entendimentos naturalistas focados em atmosferas luminosas.
Já a geração romântica, tardiamente anunciada, sublinhava a importância da pintura captada “do natural”, filtrada por uma luz local, em paisagens que se assumem na sua plenitude dramática e sentimental (Cristino da Silva e Alfredo de Andrade) mas introdutórias e condicionantes dos formulários naturalistas, tendencialmente rurais.
Na viragem do século, destacam-se as esculturas de Soares dos Reis, síntese dos valores românticos, assim como de inovadoras propostas naturalistas, e, nos inícios do século XX, António Carneiro e Henrique Pousão marcam o desfasamento de cenários pitorescos pela autonomia do pictórico, construindo monocromias e composições estruturadas em mancha que traduzem ousadas propostas de modernidade. M.A.S.


A Paisagem e os Costumes, A Cidade e as Serras
Volta do mercado, Silva Porto
A “revolução tranquila” de meados do século XIX, proposta pela pintura de paisagem de Tomás da Anunciação, correspondia ao apelo de Almeida Garrett, em Viagens na minha Terra, de descoberta do país e do povo. Cinco artistas em Sintra, de Cristino da Silva, sintetiza esta ideia e apresenta nesta pintura os vectores fundamentais das preocupações românticas portuguesas, entre o retrato, a paisagem, os costumes e a importância do local, enquanto que Paisagem, vista tirada de entremuros, observa, através de um “óculo romântico”, enquadrado por ramos e folhagem, o movimento de figuras populares num termo urbano.
Silva Porto transfere as suas propostas de quadros modernos para um universo pitoresco, descobrindo permanências narrativas em processos veristas de “penetração do real”, já apontados pela geração romântica e por Alfredo Keil, em realismos incertos. São imagens de uma encantatória casticidade ensolarada da vida simples dos trabalhadores rurais que convivem com a representação dos costumes das burguesias urbanas, em encontros elegantes e à beira-mar, numa associação que expressa a relação dicotómica cidade/campo, também caracterizada no romance de Eça de Queirós, A cidade e as serras, escrito em 1892 e publicado em 1901. M. A.S.


A Afirmação da Figura Popular
Clara, José Malhoa
Tal como Garrett, também Ramalho Ortigão, em 1872, apontava para a necessidade de um pintor de costumes e intérprete da realidade humana, sugerindo a importância da representação realista de pitorescos cenários e que encontra em José Malhoa, desde finais do século XIX a meados do século XX, o representante destes sucessivos apelos, tornando-se aplaudido autor de uma “odisseia rústica nacional” (Fialho de Almeida) em tipologias figurativas consideradas caracteristicamente portuguesas.
Depois das críticas às novas propostas naturalistas de tratamento da paisagem, do sucesso e aceitação da pintura de costumes, também sugerida e observada nas temáticas literárias, a figura popular, inicialmente indefinida na paisagem, absorve o espaço da composição. Adapta-se ao sentimentalismo e dramatismo da geração romântica, ao realismo de Miguel Ângelo Lupi e a uma visibilidade e afirmação figurativa, com o retrato de uma aguadeira que a visão de Malhoa amplia e promove através de um determinante gosto narrativo e de uma comunicação imediatista das idealizadas vivências rurais. M.A.S.


O Retrato
Retrato de D. Helena Dulac Pinto de Miranda, António Ramalho
O retrato expressa a afirmação do indivíduo e uma humanização do retratado que corresponde aos ideais propostos pela geração romântica, à preocupação pelo subjectivismo e a uma necessária referência do estatuto social e artístico, numa situação de projecção das burguesias na Lisboa do Fontismo. O realismo de finais de século, a descrição pormenorizada e a fidelidade ao retratado de Miguel-Ângelo Lupi antecede uma abordagem naturalista que aposta na expressividade, nos cromatismos exuberantes de António Ramalho ou nos destacados rostos de observação psicológica de Columbano, construídos em torno da importância do poder da imagem e da emergência de uma elite intelectual.
Também uma galeria autoral de interiorizadas composições em poses narcísicas, desde a melancolia da geração romântica a uma assumida e orgulhosa representação de uma atitude artística, revela o auto-retrato dos principais artistas intervenientes nos processos de mudança, tal como os conjuntos de retratos mostram as principais alterações da sociedade portuguesa através da eleição das personalidades retratadas. M.A.S.


O Intimismo
Concerto de amadores, de Columbano Bordalo Pinheiro
O interesse suscitado pelas vivências quotidianas, ligado a conceitos de civilidade e a um desejo de afirmação das burguesias, não só através do retrato, mas também da revelação dos seus espaços, transmite, em finais de oitocentos, a importância da captação de momentos diários. Leitura de uma carta, de Alfredo Keil, estudado em atelier a partir de fotografia, precioso auxiliar mecânico para a observação realista de gestos e atitudes, regista uma cena de convívio íntimo e familiar.
Interiores de salão, ambíguos cenários de intimismo e retrato focam o acontecimento banal e projectam-no a uma escala sobredimensionada em Concerto de amadores, de Columbano, reunião musical de amigos numa temática impressiva, sensitiva e de pintura em mancha, amplamente desenvolvida por este autor. Surgem naturezas mortas, interiores de um não-lugar, indefinido pela expressão de uma realidade pressentida do interior e que combina um realismo estrutural com uma subjectividade ajustada a uma visão sensível e imaginária do real. M.A.S.


Simbolismos
Amor e psyché, Veloso Salgado
O Simbolismo anunciou-se na pintura portuguesa através da obra pioneira do portuense Joaquim Vitorino Ribeiro (1849-1928), que deixou uma notícia Pré-Rafaelita inédita, de teor literário. Num meio onde o Naturalismo se converteu em fenómeno dominante, ele desenvolveu-se narrativamente no trabalho de José de Brito, e amadureceu literariamente com Veloso Salgado.
Esta narrativa literária de signos encadeados modernizou-se com Sousa Lopes e culminou num pendor sobretudo decorativo, visível na obra de Luciano Feire, uma das raríssimas pinturas Arte Nova portuguesas.
R.A.S.



Cortesia do Museu do Chiado/Maria Aires Silveira/JDACT