terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Pessoa explicita a razão da sua perturbação ou crise pois ao considerar a “Teosofia” como um sistema ultracristão, no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus ela estaria em contradição com o seu neopaganismo essencial»


Cortesia de esquilo e masoneria

Teosofia
«Pessoa teve contacto estreito com a teosofia (movimento ocultista criado em 1875 por Blavatsky, 1831-1891, cuja característica principal é um sincretismo das tradições esotéricas orientais e ocidentais) que descobre em 1915, com 27 anos, tendo traduzido para português vários livros dessa corrente esotérica de finais do século XIX. A teosofia desempenha pois em Pessoa um papel de grande importância, pois é ela que, com a sua concepção de uma Tradição Primordial, núcleo comum a todas as tradições religiosas e iniciáticas, vem sustentar, de algum modo, o “neopaganismo” essencial de Pessoa, pois todos os deuses são iguais quanto à sua dignidade espiritual, visto que têm um tronco comum. Por outro lado, ao poder ser lida como um sistema “ultracristão”, é ela que vai permitir a Pessoa, a passagem do “estádio neopagão” para o estádio gnóstico (utilizando as denominações de António Quadros, cf. Obra de Fernando Pessoa, vol. III).
Numa carta a Mário de Sá Carneiro, datada de 6 de Dezembro de 1915, escreve o Poeta, em plena fase de fascínio pelo pensamento blavatskiano:
  • "A (crise intelectual) que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento das doutrinas teosóficas (...) conheço a essência desse sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível (...) O carácter extremamente vasto desta religião-filosofia (...) perturbaram-me muito (...). E depois de ter confessado que ‘cousa idêntica’ lhe acontecera ‘há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre «Os Ritos e os Mistérios da Rosa-Cruz», Pessoa afirma que está perturbado ou mesmo assustado pela possibilidade de que ali, na Teosofia esteja a verdade real.
Nessa mesma carta, Pessoa explicita a razão da sua perturbação ou crise pois ao considerar a Teosofia como um ‘sistema ultracristão, no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus’, ela estaria em contradição com o seu neopaganismo essencial. Mas, por outro lado, ao admitir todas as religiões, a Teosofia teria um carácter inteiramente parecido com o do paganismo que admite no seu panteão todos os deuses, o que constituiria o segundo elemento da grave crise de alma de Pessoa.


Cortesia de livrariaspirit

Helena P. Blavatsky (1831-1891), russa de nascimento, foi uma grande viajante e uma incansável estudiosa das Tradições espirituais da Humanidade. Em 1875 ela funda em Nova Iorque, juntamente com Olcott e Judge, a Sociedade Teosófica (S.T.) que, mais tarde, mudará a sua sede para Adyar (Madras), na Índia, em 1883 e cujos objectivos (traçados em 1886) são:
  • - formar o núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo ou cor;
  • - encorajar o estudo comparado das religiões, das filosofias e das ciências;
  • - estudar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes do Homem.
A doutrina de Blavatsky, após uma fase hermetista, ocidental, personificada pela sua obra "Ísis sem véu" (1877), vai dar origem a uma doutrina orientalizante, fortemente influenciada pelo Hinduísmo e depois pelo Budismo, sobretudo depois da viagem à Índia de Helena. Desta segunda e última fase da doutrina blavatskiana, a obra em seis volumes "A Doutrina Secreta", 1888, é o seu expoente máximo.
Poderemos salientar como aspectos importantes das ideias e da acção de Helena Petrovna, desde logo, a chamada de atenção, a nível de um grande público, para as espiritualidades orientais, num clima de grande tolerância e ecumenismo, por vezes sincrético, é certo, valorizando (mesmo na Índia, face à cultura e religião ocidental) as tradições do Hinduísmo e também, desenvolvendo uma luta política no campo anticolonial particularmente na Índia. No século XX, algumas correntes das novas espiritualidades "new age" foram influenciadas pela Teosofia, particularmente o tema da "Grande Fraternidade Branca", formada pelos Mestres ou Mahatmas que guiam e instruem a Humanidade.
No entanto, mais tarde e passado o fascínio inicial, Pessoa revelará algum desencanto para com a teosofia blavatskiana, ressalvando no entanto os seus aspectos positivos:
  • «É fora de dúvida que Madame Blavatsky era um espírito confuso e fraudoso; mas também e fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão dos Superiores Incógnitos»
In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «Lisboa, cujos habitantes se ufanavam da sua cidade construída sobre sete colinas como ‘Roma Eterna’, oferecia um panorama grandioso sobre o vasto oceano. Antes dos “Descobrimentos” era uma cidade sonolenta, mas agora que os portugueses tinham penetrado no segredo do além-mar, Lisboa, como o palácio real, era o espelho dum mundo em permanente expansão».

Cortesia de purl

«Após a ascensão do rei Manuel ao poder, a actividade cultural do país fez vastos progressos nas artes e nas ciências, culminando mais tarde em 1572 com a grande epopeia de Luís de Camões, “Os Lusíadas”.
Durante o reinado de Manuel I, Góis assistiu a acontecimentos importantes. O jovem ouvia narrativas de marinheiros e soldados que tinham penetrado nas profundezas de África, contos sobre as riquezas e as maravilhas da história e da cultura da Índia, histórias das antigas civilizações da China e do Japão, relatos dos costumes primitivos de tribos recentemente descobertas no Brasil. O palácio de Manuel I resplandecia com sedas, brocados, tapeçarias do gosto mais requintado, e com pedras preciosas; e essa exibição de riqueza era um reflexo da fama do rei, que se estendia por três continentes.

Lisboa, cujos habitantes se ufanavam da sua cidade construída sobre sete colinas como Roma Eterna, oferecia um panorama grandioso sobre o vasto oceano. Antes dos “Descobrimentos” era uma cidade sonolenta, mas agora que os portugueses tinham penetrado no segredo do além-mar, Lisboa, como o palácio real, era o espelho dum mundo em permanente expansão. Nas ruas da cidade apinhavam-se figuras coloridas vindas de terras distantes; uma nova população de mercadores representava quase todos os países da Europa. O porto movimentado estava cheio de navios que iam de partida, ou de caravelas que regressavam de expedições longínquas.
Numa idade facilmente impressionável, Damião de Góis integrou-se nessa cidade turbulenta, tão vitalizada pelos acontecimentos históricos. Dotado de aguda curiosidade, estava extraordinariamente atento aos acontecimentos em seu redor. Não se satisfazendo com o papel de observador passivo, Damião de Góis aproveitava todas as oportunidades para conhecer visitantes do estrangeiro e para se informar sobre terras e gentes que nunca vira.

Cortesia de wikipedia

Desde os primeiros tempos passados no palácio até aos anos de maturidade Góis sentiu-se particularmente estimulado pela conquista da Índia e pelos estranhos costumes do seu povo. Os elefantes mandados ao rei Manuel por príncipes indianos como marca de respeito deixaram nele uma funda impressão. O alvoroço com que esses animais foram recebidos deve ter sido causado em parte pela fama dos ‘elefantes de guerra’ que se tinha espalhado pelo mundo depois da entrada de Alexandre Magno na Índia. Nos escritos de maturidade Góis relembrava muitas vezes a sensação causada por um desfile desses elefantes pelas ruas de Lisboa, e relatou uma vez um episódio destinado a mostrar a capacidade de compreensão do elefante, bem como a sua habilidade para comunicar com os homens. O caso passou-se no porto de Lisboa, onde um barco estava à espera de um elefante para o transportar para Roma como presente destinado ao Papa. Dizia-se que o animal, apesar de muito instigado, se recusava a entrar no barco, mas que, por fim, depois de o rei lhe ter assegurado que a sua transferência para outra personagem 'elevada’ era da vontade do primitivo dono indiano, o elefante obedeceu ‘com lágrimas nos olhos’. Não se devem pôr de lado como ingénuas ou símplices considerações corno estas, relatadas por Góis em reacção a um tal espectáculo; o interesse que tinha por uma cena nova e por um comportamento invulgar era partilhado por muitos.

Mas Góis e grande número dos seus contemporâneos também viam nesses animais os mensageiros de um outro continente; os elefantes inspiravam-lhes orgulho no poder do homem sobre as forças selvagens da natureza. Assim como os astronautas da era espacial são considerados heróis nacionais, também os aventureiros portugueses do além-mar que tinham descoberto as terras donde vinham os maravilhosos elefantes devem ter suscitado em Góis e nos seus compatriotas uma grande impressão de orgulho.

Cortesia de wikipedia

Embora a Índia tivesse atraído sobremaneira a atenção de Góis durante muitos anos, outras civilizações estrangeiras tiveram para ele um significado pessoal. Estava presente quando foram apresentados ao rei alguns Índios do Brasil; Manuel I informou-se jovialmente do modo como viviam e desafiou-os a demonstrarem a sua famosa destreza com o arco e a flecha. Foi este o primeiro contacto de Góis com uma tribo primitiva, e dá-nos um exemplo da atitude despida de preconceitos que ele tinha para com a gente simples. Em vez de se sentir superior e condescendente, ou de conceber uma ideia romântica dos Índios, Góis, com curiosidade espontânea e calor humano, via-os tal como eles eram de facto.
A capacidade de Góis para se colocar no lugar dos outros revelou-se particularmente no seu encontro com Mateus, emissário do Negus da Etiópia a Manuel I em 1514/1515. Góis tinha apenas treze anos de idade quando Mateus chegou a Lisboa com o oferecimento de uma aliança militar da parte do Negus e com o pedido de que a Igreja etíope fosse admitida como membro da comunidade cristã do Ocidente, esperança essa que viria, infelizmente, a ruir.

Desde os tempos da Alta Idade Media que circulavam na Europa histórias descrevendo a riqueza e o poder dum soberano cristão no coração da África ou da Ásia. O Infante Henrique tinha mandado os seus marinheiros para o alto mar na esperança de o descobrir e de fazer dele um aliado contra os mouros. Agora tinha-se finalmente encontrado o fabuloso Negus mas as aspirações religiosas dos seus súbditos haviam de ficar frustradas. O rei Manuel I considerava a Etiópia um aliado militar desejável, potencialmente útil contra as arremetidas dos turcos em direcção ao Mar Vermelho, e recebeu Mateus com todas as honras devidas ao representante duma grande potência». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma Singela Demanda entre os Juízes de Fora de Marvão e Castelo de Vide e do consequente despacho régio. «Não havia corregedor em Portalegre nessa data por motivo de vaga aberta e logo se colocou o problema de saber quem é que assumiria o encargo de tal despacho. A tal “prática antiquíssima e inalterável” parecia impor uma decisão a favor do juiz de fora de Marvão…»

Cortesia de momentosroubados

«Era costume e prática antiquíssima e inalterável, segundo regras disciplinares de carácter jurídico-administrativo, substituírem-se, nos impedimentos, os corregedores das comarcas do antigo reino de Portugal pelos juízes de fora da câmara mais próxima, assim considerada legalmente apta para o efeito.
Vem esta sumaria informação a propósito de uma questão na aparência singela demanda, que se levantou entre Marvão Castelo de Vide no distante mês de Junho do ano de 1787.
Não havia corregedor em Portalegre nessa data por motivo de vaga aberta e logo se colocou o problema de saber quem é que assumiria o encargo de tal despacho. A tal “prática antiquíssima e inalterável” parecia impor uma decisão a favor do juiz de fora de Marvão, cabendo ao juiz de fora de Portalegre decidir.
Porém, o que então se passou foi tão-somente o seguinte:
  • Servindo Manuel Pedro Tavares de juiz de fora de Portalegre, resolveu este cometer as funções ao seu colega de Castelo de Vide, esquecendo a força da lei consuetudinária, “com o qual estranhável facto se ofendeu o juiz de fora de Marvão”, ofensa que este considerou atingir também o já então chamado e invocado ”consenso público”.

Cortesia de miau

Se era a câmara mais antiga, mais próxima da sede da comarca, se era já de pratica perpetuada, concordando-se que ambas as vilas se situavam à mesma distancia de duas léguas, por caminhos diferentes, naturalmente, porque razão se optou por Castelo de Vide?
Alegou-se, repare-se, que o caminho para esta última localidade era “mais fácil e serve às partes, menos áspero, fragoso e violento” do que o de Marvão e ser ainda Castelo de Vide terra mais populosa e “de maior concurso”, i. e., de maior movimento, deste modo se tentando explicar que não houvera da parte do juiz de Portalegre qualquer intenção particular de afectar a antiquíssima vila de Marvão. Isto foi concluído pelo Provedor da Comarca, chamado a intervir, conclusão levada depois, com desenvolvimento, ao conhecimento do Procurador da Real Coroa.
Daqui resultou despacho final da rainha D. Maria mandando dizer ao magistrado de Marvão que:
  • “pela comissão dada ao juiz de fora de Castello de Vide para servir o emprego de Corregedor da Comarca de Portalegre na auzencia do Proprietario e juiz de fora da mesma cidade [na altura da vaga aberta] se não vos cometeo injuria nem spolio porque – declara – se obrou o que a lei permite”.
E que assim o tenha entendido aquele juiz de Marvão, a quem, ainda por cima, em certo jeito repreensivo, a rainha recomendava que se abstivesse também de sair de fora do Reino sem sua licença, denúncia de escapadelas que teria chegado aos pés do trono…

Cortesia de Portugal rede

Não logrou, pois, o juiz de fora de Marvão alcançar o uso de um direito tão comprovadamente antigo, como fez constar, porque outros poderes mais altos se levantaram e, porque, pode depreender-se da parte final do processo, ele não estaria então gozando dos melhores favores de quem sustinha as rédeas das decisões mesmo em demandas de singela importância». Fonte: Lº do Senado Municipal de Portalegre, nº 3/fls. 72v, Ibn Maruán, CM de Marvão, 1991.

Cortesia de CM de Marvão/JDACT

domingo, 29 de janeiro de 2012

Tempo de Escrita. Os Cães. Ibn Maruán. J. Caldeira Martins. «Mas há também quem se preocupe com os grandes mistérios do Universo e pretenda ajudar à paz cósmica acasalando o cão “Sol” com uma cadela “Lua”. Pela influência de Espanha, aqui ao lado, respondem as “Lolas”, os “Pepes”, as “Sevilhas”, restos sabe-se lá de que afectos e andanças»

Cortesia de cmmarvao

«Quem quiser saber da graça e dos gostos destas gentes de Marvão, há-de vir um dia comigo vacinar-lhes os cães. Deparamos com pessoas de todas as idades mas sempre alguém com memória de décadas recordará os alvoroços dos tempos dos cães raivosos. Por isso ali está, porque “seja que não seja, desde que se começou com isso da vacina nunca mais achegou a verem-se p’raí cães derramados”. E, ou com medo do regresso aos horrores do passado ou para fugirem às coimas do presente, certo é que poucos são os relapsos à privação. Como todos os anos por mim passam cães e donos, posso dizer, glosando o lugar-comum, que quanto melhor conheço os cães, mais sei dos gostos dos homens.

Temos por exemplo os cães-de-guarda. Aparecem por caminhos mal andamosos, arrastando com as imprecações do dono, renitentes a abandonarem o “paito” de todo o ano. Estranhados, esperam pacientemente a hora do regresso, a não ser que os donos, delegando neles o ajuste de desentendimentos antigos, discretamente os açulem para lutas formidáveis que logo acodem a dissuadir. Contrastando com estes, medra a classe do cão, chamemos-lhe… urbano. Vem à vontade, a chouto, sem açamo nem corrente ao ver aquele adjunto de parentes, aproxima-se enfastiado. Um reconhecimento breve e é a fatal atracção pelas rodas do automóvel em busca de conhecidos odores. Satisfeita a curiosidade, alça a perna sem pudor e deixa também a sua mensagem. Tenho para mim que cães desta condição só têm na vida uma certeza: as malas dos carros existem porque eles as merecem. Ai de quem se descuide a abrir a porta da bagageira com tais tratantes ali por perto. Obrigatoriamente irão entrar e refastelar-se que nem uns justos, sem pruridos na consciência. E a incompreensão com que recebem toda a diligência que educadamente empreendamos com vista ao seu despejo…

 
Cortesia de gearthb

De qualquer modo, tenho por estes sujeitos uma discreta afeição. Compartilhada, aliás, com uns que só nos visitam quando vem o Verão; animais de aspecto singular, caprichosos, extravagantes. São cães artistas, os cães dos títeres. Mas a falar deles não me perderei por serem ralos e estarem de passagem.
Outros que por aqui não abundam são os alontrados de gordos. Mesmo assim, os seus donos levarão dos circunstantes rodas de mal-governados ou desabafos do estilo “e ainda que o pão está caro…” Sabendo eu que aquilo até pode ser doença. Pouca cultura cientifica, é o que é!
Que volta a manifestar-se nos conselhos aos que trazem cães inçados de carraços, encanaviados, de peles sobrados e carnes fugidias, com as arcadas das costelas a quererem romper; então não faltará quem disserte sobre os malefícios de deixar dormir os cães dentro de canastros. Convenhamos que, mesmo sendo esta terra de canastreiros, não haveria vasilhame que chegasse.

Também um gentio são, neste concelho, os cães malhados. Uns, por características de pelagem. Outros, com um pau que é para aprenderem a conhecer o dono. E alguns acumulam. Isto a fazer fé nos donos, gente que gosta tanto de caçar como de caçoar. Nós todos sabemos como os caçadores têm pouco crédito nesta sociedade. Por falar em caçadores; uma boa maneira de os conhecer é atentear nos nomes que escolhem para os cães. Porei, a começar, os pouco imaginativos, que desde os primeiros ardores cinegéticos vêm mantendo dinastias de “Catitas” e “Doninhas” com quem acende cigarros em baronas mal apagadas. Depois vêm os incapazes de resistir à atracção clubista e, mesmo em tempos de menor fulgor desportivo, mantêm uma fidelidade canina ao Glorioso da Luz. Mas nem sempre como neste caso, o nome de cão simboliza simpatia, recordação agradável, homenagem. Veja-se o que acontece com os homens públicos, os políticos, os governantes, em que a frequência com que as suas graças são aproveitadas para chamadoiros de cães, é proporcional à animosidade que a população põe eles nutre. E tenho constatado que ainda hoje, a todos o pândita ‘Nehrú? Leva a palma. Ou será só uma questão de fonética?


Cortesia de workaway

Infelizmente escassos são os literatos. Ficam-se por um ou outro “Jau”, indício de olhos que terão passado como cães por vinha vindimada pela biografia de Camões ou que, na melhor das hipóteses, espreitam os “Bichos” de Torga. Mas há também quem se preocupe com os grandes mistérios do Universo e pretenda ajudar à paz cósmica acasalando o cão “Sol” com uma cadela “Lua”. Pela influência de Espanha, aqui ao lado, respondem as “Lolas”, os “Pepes”, as “Sevilhas”, restos sabe-se lá de que afectos e andanças.
Uma última categoria de caçadores são os de desígnios insondáveis. Quem me explicará o motivo que levou aquele sujeito dos Alvarrões a apelidar o rafeiro de “Popelina-a-Trinta-e-um”? vocação de tendeiro? Vício de charadista? Não sei.
Mas os mais das vezes os cachorros ainda vêm moirinhos. Por serem novelas ou porque as alcunhas se confundem com graçolas e insultos; daí os donos preferirem omiti-los. Quando assim é, ficam ao sabor do que, no momento, a minha imaginação ditar.

Como daquela vez lá em baixo, na Portagem, no Largo das Almas. (Nome bonito este, de todas as almas; almas boas, que de outro modo seriam espíritos; que os tempos a vir não o transformem no largo de uma alma só, mesmo que estimável, alma de político ou de comendador). Dizia eu que há anos, aí me apareceu o senhor Moreno com a sua matilha e o seu inseparável neto. Que eles não são nada um ao outro. O seu cachopo, que bacharel, vive com o avô o dia-a-dia das pessoas do campo, ganhando artes e práticas que de pouco lhe aproveitarão se, chegado a homem, um dia tiver que partir. Mas até lá, também moleiro há-de ser, como o foi toda a sua geração. Naquela matilha todos os anos os cães mudam mas os nomes persistem, repetidos e vulgares: “Catita, Andorinha, Pombinha”. Daí o meu espanto naquele dia:
- Senhor Moreno, como se chama o cão?
- “Independente”!
“Independente”? Onde é que este cidadão foi desencabecinar o “Independente”? Confesso que ainda pensei tratar-se de qualquer alusão às minhas incursões cíclicas por terras da política. Mas o senhor Moreno é homem respeitador, que não ia ter para comigo tal deselegância…
- “Independente”, senhor Moreno?!
- Bô!! Querêdes ver que já se não se vão alembrar? Tão o senhor é que o crismou, no ano passado. Até tirou o nome aí do rádio.

Mas esta! Ainda por cima o padrinho era eu. E era tal a convicção com o homem o afirmava que nem pensei sequer em duvidar. Mas… “Independente”? Que o tirei do rádio!... Espera, já sei!
Era uma daquelas situações em que não havia tempo para tentar descortinar no animal um tique, um gesto, uma parecença merecedora de um rótulo que minimamente lhe assentasse. Com pouca fé liguei o rádio do automóvel. Nem de propósito: Luís Cília, cantor de incomodidades, trinava as desditas de um marginal lisboeta – o ‘Lulu do Intendente’. À falta de melhor, fica este, pensei. E escrevi-o, com letra de forma, no Boletim de Identificação do canídeo. Por onde nunca mais o senhor Moreno passou a vista, nem precisa. Porque o animal ainda hoje só responde por “Contigo-se-parece”».
In J. Caldeira Martins, Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 1, 1991.

Com a amizade do J. C. Martins, Alpalhão
Cortesia da C. M. de Marvão/JDACT

Évora. Percursos e Memórias. «O projecto foi idealizado para o programa das Comemorações dos 25 Anos de “Évora Património da Humanidade”, classificação atribuída à cidade pela UNESCO em 1986, uma organização da Câmara Municipal de Évora, e tem a colaboração de várias instituições da cidade»


Cortesia da cmevora

Évora, Percursos e Memórias
O projecto “Évora, Percursos e Memórias - 25 Anos de Património Mundial da Humanidade, 25 Monumentos, 25 Lendas, Histórias e Devoções” promoveu ontem, dia 28 de Janeiro, sábado, pelas 15 horas, mais uma visita a alguns sítios históricos da cidade de Évora.
Esta visita conduziu os participantes ao ‘Templo e ao Fórum Romanos’, pelo arqueólogo Panagiotis Sarantopoulos (CME), e à “Domus” da Rua de Burgos/Alcárcova de Cima, pelo Rafael Alfenim (Direção Regional de Cultura do Alentejo). Maria Cátedra (Departamento Antropologia Social da Universidade Complutense de Madrid) abordou nesta vista as lendas e histórias de Sertório e de Diana e a Corça. Nesta visita foi distribuída a ‘Pagela N.º 4’.

O projecto “Évora, Percursos e Memórias” foi idealizado para o programa das Comemorações dos 25 Anos de Évora Património da Humanidade, classificação atribuída à cidade pela UNESCO em 1986, é uma organização da Câmara Municipal de Évora, e tem a colaboração de várias instituições da cidade. O projecto consiste na realização de uma visita mensal, geralmente aos sábados, conduzida por especialistas, com o objectivo de dar a conhecer os principais monumentos e elementos distintivos do Centro Histórico da cidade, explorando a sua arquitectura e a sua história, bem como as lendas, devoções e tradições que guardam consigo». In C. M. de Évora.


Cortesia da C. M. de Évora/JDACT

A Estátua que não Parecia Bem. Malcolm Gladwell. «Decidir num piscar de olhos. Deram apenas uma olhadela à estátua, uma secção do seu cérebro efectuou uma série de cálculos instantâneos e, antes de que um pensamento consciente ocorresse, sentiram alguma coisa, precisamente o repentino aparecimento de suor nas palmas da mão…»

Cortesia de domquixote e businessinsider

«Em Setembro de 1983, um negociante de arte que dava pelo nome de Gianfranco Becchina entrou em contacto com o Museu J. Paul Getty da Califórnia. Disse estar na posse de uma estátua de mármore datada do século VI a.C. Era aquilo a que se chama um “kouros”, a escultura de um jovem de pé com a perna direita à frente e os braços caídos. Só se conhece a existência de cerca de 200 “kouros”, a maioria dos quais foi encontrada muito estragada ou fragmentada em túmulos e escavações arqueológicas. Porém, este estava quase perfeito e tinha uma altura de cerca de dois metros.
Apresentava um brilho claro que o distinguia das outras peças antigas. Era uma descoberta extraordinária. O preço pedido por Becchina chegava quase aos dez milhões de dólares.
Os responsáveis do museu agiram com cuidado.
Tudo indicava tratar-se de obra genuína. O estilo da escultura lembrava o “kouros” Anavyssos que se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, o que significava fazer parte de uma determinada época e localização.
Quando e onde fora a estátua encontrada? Ninguém sabia ao certo, mas Becchina deu ao departamento jurídico do Getty uma pilha de documentos relacionados com a sua história mais recente. Segundo os registos, desde a década de1930 que o “kouros” fazia parte da colecção particular de um médico suíço chamado Lauffenberger, que o teria comprado a um conhecido negociante de arte grego de nome Roussos.
Contudo, havia um problema com o “kouros”. Havia qualquer coisa nele que não parecia bem. O primeiro a reparar foi o historiador de arte italiano Federico Zeri. Quando, em Dezembro de 1983, Zeri foi levado ao estúdio de restauro do museu para ver o “kouros”, reparou nas unhas da escultura. Pareciam-lhe erradas, mas não sabia muito bem porquê.

Cortesia de flick

Evelyn Harrison foi a pessoa que se lhe seguiu.
Bem, ainda não é nosso, mas sê-lo-á dentro de poucas semanas. Evelyn respondeu-lhe: «Lamento saber isso». O que é que Evelyn Harrison viu? Ela própria não sabia…
[…]
Rápido e Frugal
Imagine que eu lhe pedia para entrar num jogo de cartas muito simples. Tem à sua frente quatro baralhos de cartas - dois encarnados e dois azuis. Cada carta nesses quatro baralhos dá-lhe a ganhar uma certa quantia, ou então fá-lo perder uma outra quantia, e o que tem a fazer é virar as caras de qualquer um dos baralhos, uma de cada vez, de tal maneira que ganhe o mais possível. No entanto, ao princípio, o leitor ainda não sabe que os baralhos encarnados são autênticos campos de minas. Com as cartas encarnadas, a recompensa é alta, mas pode perder-se muito. Na realidade, só consegue ganhar tirando cartas dos baralhos azuis, que oferecem continuamente prémios muito apetecíveis de 50 dólares e só levam a perdas modestas. A questão é saber de quanto tempo uma pessoa precisa para descobrir a diferença entre os baralhos encarnados e os azuis.
Há alguns anos, um grupo de cientistas da Universidade do Iowa fez esta experiência e concluiu que ao fim de virar 50 cartas a maioria das pessoas começava a perceber como é que a coisa funcionava. Não sabiam porque é que preferiam os baralhos azuis, mas a certa altura estavam convencidas de que era melhor apostar neles. Depois de virar cerca de 8o cartas, a maioria percebia o jogo e conseguia explicar com precisão porque é que os dois primeiros baralhos eram uma má aposta. Até aí, a coisa é muito simples:
  • fazemos algumas experiências;
  • pensamos nelas;
  • elaboramos uma teoria;
  • e depois, somamos dois mais dois.
É assim que se aprende.
Porém, os cientistas do Iowa fizeram outra coisa, e é aí que começa a parte estranha da experiência. Ligaram cada jogador a uma máquina que media a actividade das glândulas sudoríparas localizadas na palma da mão. Tal como a maioria das nossas glândulas sudoríparas, as das palmas respondem tanto à tensão como à temperatura, e é por isso que ficamos com as mãos suadas quando estamos nervosos. Os cientistas do Iowa descobriram que os jogadores começavam a dar respostas sob tensão, em relação aos baralhos vermelhos a partir das 10 cartas, 40 cartas antes de serem capazes de dizer que havia algo errado com esses dois baralhos. Mais importante ainda, na altura em que as mãos começavam a suar, o seu comportamento também mudava.
Começavam a preferir as cartas azuis e a retirar cada vez menos cartas dos baralhos encarnados. Por outras palavras, os jogadores apercebiam-se do sistema do jogo, antes de perceberem que já se tinham apercebido; começavam a fazer os ajustamentos necessários antes de estarem conscientes dos ajustamentos que supostamente deveriam ter feito.

É óbvio que a experiência do Iowa não passa disso, um simples jogo de cartas envolvendo algumas pessoas e um detector de stress. Contudo, ilustra de um modo muito claro a maneira como a nossa mente funciona. Eis uma situação em que há muito em jogo, em que as coisas acontecem depressa e em que os participantes têm de processar muita informação nova e confusa num período de tempo muito curto.

Kouros
Cortesia de ebaliceit

E o que é que a experiência do Iowa nos diz? Diz-nos que nestas alturas o nosso cérebro usa duas estratégias muito diferentes para avaliar a situação. A primeira é a que conhecemos melhor: a estratégia consciente. Pensamos no que aprendemos e acabamos por dar a resposta certa.

É uma estratégia lógica e definitiva. Porém, precisamos de 80 cartas para lá chegar. É lenta e requer muita informação. No entanto, há outra estratégia, que funciona muito mais depressa. Começa a actuar ao fim de dez cartas e é realmente uma esperteza, pois percebe o problema das cartas encarnadas quase imediatamente. Contudo, tem uma desvantagem, que é funcionar, pelo menos ao princípio, completamente abaixo do nível da consciência. Envia as suas mensagens através de canais estranhamente indirectos, tais como as glândulas sudoríparas na palma da mão. É um sistema em que o nosso cérebro chega a conclusões, sem nos dizer imediatamente que está a chegar a conclusões.
A segunda estratégia foi o percurso feito por Zeri e Evelyn. Não levaram em consideração todos os indícios possíveis. Detiveram-se apenas naquilo que podia ser apreendido numa olhadela. O pensamento deles é aquilo a que o psicólogo do conhecimento Gerd Gigerenzer chama «rápido e frugal». Deram apenas uma olhadela à estátua, uma secção do seu cérebro efectuou uma série de cálculos instantâneos e, antes de que um pensamento consciente ocorresse, sentiram alguma coisa, precisamente o repentino aparecimento de suor nas palmas da mão dos jogadores.
Será que sabiam porque é que sabiam? De maneira nenhuma. No entanto, “sabiam”».
In Malcolm Gladwell, Blink, Publicações Dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-20-4079-2.

Cortesia D. Quixote/JDACT

sábado, 28 de janeiro de 2012

Portalegre. Eugénio Lisboa. Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem. «Um percurso de viajante, descobrindo, criando, e ensinando, que nos remeteria para Erasmus não fosse o nosso homenageado preferir, “et pour cause”, Ulisses. … uma bela lição de vida a favor da internacionalização e contra o imobilismo»

Cortesia da operaomnia

«Eugénio Lisboa homenageado em Portalegre. Apresentação do Livro “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo” e inauguração da Exposição “José Régio: seus papéis e lugares” na Biblioteca Municipal. A Biblioteca Municipal de Portalegre é o local eleito para a apresentação do livro “Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo” pela Professora Doutora Otília Pires Martins, e para a inauguração da Exposição Bibliográfica “José Régio: seus papéis e lugares”, que teve lugar no dia de ontem, 6ª feira, dia 27 de Janeiro, pelas 17h00.
Eugénio Lisboa é hoje o mais consagrado estudioso da geração literária presencista, nomeadamente de José Régio, que conheceu em Portalegre e de quem foi amigo de longa data e será homenageado com a obra “Eugénio Lisboa: vário intrépido e fecundo”, que reúne 70 textos dedicados ao próprio.
A par desta homenagem, pode ainda ser visitada a Exposição Bibliográfica “José Régio: seus papéis e lugares”, que pretende mostrar um conjunto de documentos do Centro de Estudos José Régio, em Portalegre, relativos ao tempo do escritor. Os “papéis” que, testemunham o seu tempo de escola, de ensino, as suas preferências literárias, os seus gastos, as amizades, os admiradores, entre muitos outros. A Exposição estará patente até 29 de Fevereiro das 10h30 às 12h30 e das 14h00 às 19h00 de Terça-Feira a Domingo». In BM de Portalegre.

Com a devida vénia a Manuel Assunção

Eugénio Lisboa. Um Percurso Exemplar
«Eugénio Lisboa honrou a Universidade de Aveiro ao percorrer connosco, enquanto Professor Visitante, a "última etapa do (seu) percurso oficialmente activo" como uma vez afirmou. Não tanto por ter atingido o "limite de idade" mas mais por ter sido atingido por ele.
Concedeu-nos, Eugénio Lisboa, igualmente, o privilégio de o contarmos, desde 2002, como par do nosso já insigne colégio de Doutores “Honoris Causa” que ele veio enriquecer ainda mais. Visitante, de visita por que se anseia e que nos dá prazer, é aliás um termo que lhe cai bem. Visitante das ideias e dos lugares, determinado, desde sempre, por uma enorme curiosidade, Por essa vontade indómita de conhecer para além do horizonte e de se projectar para lá do conhecimento. Porém, visita que se demora, que aprende e apreende, que deixa marca. Lourenço Marques e Moçambique, Joanesburgo e Pretória, Estocolmo, Paris, Londres e muita outra Inglaterra, Lisboa e a "linha", Aveiro, são pontos decisivos no mapa do viajante. A que acrescento um outro, quiçá por fraqueza minha: o do meu distrito, Portalegre, "cidade do Alto Alentejo cercada”...(A Bela Cidade de Portalegre, acrescento eu, JDACT)
Um percurso de viajante, descobrindo, criando, e ensinando, que nos remeteria para Erasmus não fosse o nosso homenageado preferir, “et pour cause”, Ulisses. Contudo, um Ulisses de múltiplos périplos, que se não contentou com a ‘sua’ viagem e cuja itinerância representa, por si só, uma bela lição de vida a favor da internacionalização e contra o imobilismo.

Mas, principalmente, um percurso de uma grande humanidade. Mestre no manejo das ideias e na clareza de exposição, no despertar o interesse e a inspiração de tantos, assumiu-se como grande professor e pedagogo fazendo das suas aulas, certamente, o que as aulas devem ser sempre: uma festa! Crítico literário, soube ver, projectado no futuro, o valor, efectivo de muitos autores que tão só despontavam. Esta atenção aos novos autores está, aliás, presente na defesa da causa da língua portuguesa, por que sempre se bateu. Eugénio Lisboa, para além disso, afirmou-se como diplomata e engenheiro (projectou a rede de iluminação de Lourenço Marques); tem mantido uma intervenção cívica notável (em tempos mais difíceis ou menos difíceis); e é um grande comunicador, um excelente conversador e contador de histórias, exímio na prática e na vivência do humor. São desdobradas facetas de uma personalidade de grande fulgor e riqueza.
Destaco ainda, porque me diz muito a mim, a atracção igual que sentiu pelas chama das “duas culturas”:
  • fez muito bem em não ter escolhido, .- ter rejeitado a disjuntiva "ou" … “ou”;
  • em ter percebido logo o que agora sabemos bem, que a cultura é só uma.

Cortesia de arronchesonline

Apenas começou a escrever “quando teve alguma coisa para dizer”, receita que todos deviam seguir a preceito. Mesmo assim foi a tempo de fazer obra séria como ensaísta, como poeta e como dramaturgo.
A trajectória notabilíssima terá tido origem no leitor impenitente e apaixonado que o Eugénio-criança começou logo a ser. Razão maior para concordar com ele quando escreveu “não (crer) que haja desculpa para a literatura a não ser o prazer que ela dá”. E este livro, da iniciativa arrojada dos meus amigos Otília Martins e Onésimo Almeida a quem muito agradeço, pretende também, muito, testemunhar o prazer que Eugénio Lisboa nos deu a todos ao lê-lo.
A dimensão do testemunho é de mais de sete dezenas de contributos, marcante do mérito, prestígio e impacto do homenageado. Aos respectivos autores deixo uma palavra de reconhecimento e gratidão.
Quis a vida e a vontade de alguns que Eugénio Lisboa ficasse para sempre agregado à Universidade de Aveiro. Todavia, ao contrário do agregado de Machado de Assis, e felizmente, estamos perante alguém que acumula pernas longuíssimas com ideias igualmente longuíssimas». In Manuel Assunção, Eugénio Lisboa: Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem, organização de Otília P. Martins e Onésio T. Almeida, Opera Omnia, 2011, ISBN 978-989-8309-20-4.

Cortesia de CMPortalegre/Opera Omnia/JDACT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Poesia. Maria Joana Couto. Cinzas de uma Fogueira Longe. «E assim caminho sem rumo sem ter guia sem ter norte, buscando a luz que nas trevas sobre a noite traga o dia, e me ampare até à morte!»

Cortesia de opovo 

Vida
Um punhado de areia
que se escoa
pelos dedos frágeis
de mãos abertas.

Eis o que é a vida!

Uma hora incerta
sonhada, e vivida
em horas incertas!


Do Alto
Sinto a luz do alto
que ilumina
o meu sorriso alegre de menino!

Menino que fui outrora
e já não sou!

Sorriso que foi de sonho
e se apagou...


Sem Rumo
E assim caminho sem rumo
sem ter guia
sem ter norte,
buscando a luz que nas trevas
sobre a noite
traga o dia,
e me ampare até
à morte!

Poemas de Maria Joana Couto, in «Cinzas de uma Fogueira Longe»

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Aurora Boreal. «A interacção entre moléculas de oxigénio e nitrogénio, ambas gerando tonalidades na faixa do verde, cria o efeito da "linha verde auroral". Da mesma forma a interacção entre tais átomos pode produzir o efeito da "linha vermelha auroral", ainda que mais raro e presente em altitudes mais altas»

Cortesia de bioterra

«Um fenómeno óptico composto de um brilho observado nos céus nas regiões polares, em decorrência do impacto de partículas de vento solar e a poeira espacial encontrada na via láctea, com a alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético terrestre. Em latitudes do Hemisfério Norte é conhecida como “Aurora Boreal”, nome baptizado por Galileu Galilei em 1619, em referência à deusa romana do amanhecer Aurora e ao seu filho Bóreas, representante dos ventos do norte, ou “Luzes do Norte”, nome mais comum entre os escandinavos.

O efeito luminoso é dominado pela emissão de átomos de oxigénio em altas camadas atmosféricas (em torno de 200 km de altitude), o que produz a tonalidade verde. Quando a tempestade é forte, camadas mais baixas da atmosfera são atingidas pelo vento solar (em torno de 100 km de altitude), produzindo a tonalidade vermelho escura pela emissão de átomos de nitrogénio, predominante, e oxigénio. Átomos de oxigénio emitem tonalidades de cores bastante variadas, mas as predominantes são o vermelho e o verde». In NASA, Wikipédia.










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Música. Maya Solovéy. «Doce originalidade com voz suave. Maya em algumas canções como que ‘sussura’ no nosso ouvido. Uma doçura na nossa memória»

Cortesia de mayasoloveybandcamp








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Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Ai de mim! Os meus encontram-se privados da única luz que os animava e só lhes restam as lágrimas; não os tenho usado, senão para chorar incessantemente, desde que soube que estavas decidido a um afastamento que não posso, suportar e me fará morrer em pouco tempo»

Uma obra de arte ou de literatura, ainda quando muito perfeita,
não passa duma cópia da vida; as Cartas são a própria vida
Ilustração de José Ruy
Cortesia de peuropaamerica

Primeira Carta
«Considera, meu amor, até que ponto foste imprevidente! Oh!, infeliz, que foste enganado e a mim enganaste também com esperanças ilusórias. Uma paixão sobre a qual tinhas feito tantos projectos de prazeres não te causa agora mais do que um mortal desespero, só comparável à crueldade da ausência que o provoca. E esta ausência, para a qual a minha dor, por mais que se esforce, não consegue encontrar um nome assaz funesto, há-de então privar-me para sempre de fitar esses olhos onde eu via tanto amor, esses olhos que me faziam saborear emoções que me cumulavam de alegria, que eram o meu tudo, a tal ponto que deles só precisava para viver?
Ai de mim! Os meus encontram-se privados da única luz que os animava e só lhes restam as lágrimas; não os tenho usado, senão para chorar incessantemente, desde que soube que estavas decidido a um afastamento que não posso, suportar e me fará morrer em pouco tempo.
Parece-me, contudo, que chego. até a prezar as desgraças de que és a única causa: dediquei-te a minha vida assim, que te vi e sinto algum prazer sacrificando-a a ti.
Mil vezes ao dia dirijo para ti os meus suspiros: eles procuram-te em toda a parte e, como recompensa de ta4ntas inquietações, apenas me trazem o aviso demasiado sincero da minha triste sorte, que tem a crueldade de não suportar que eu me iluda e que a cada passo me diz: basta!, basta!, infeliz Mariana, basta de te consumires em vão e de procurares um amante que nunca mais voltarás a ver; um amante que atravessou o mar para fugir de ti, que está em França no meio dos prazeres e nem por um momento pensa nas tuas dores; um amante que te dispensa de todos esses transportes que nem sequer te agradece.

Mas não!, não posso resignar-me a fazer-te a injúria de pensar assim e tenho demasiado interesse em te justificar. De modo nenhum quero imaginar que me tenhas esquecido. Não sou eu já suficientemente infeliz, mesmo sem me atormentar com falsas suspeitas? E por que razão havia de me esforçar por esquecer todos os desvelos que puseste em me testemunhar amor? Tão encantada fiquei com tais desvelos que bem ingrata seria se não te amasse com o mesmo arrebatamento que a minha paixão me dava, quando me era dado gozar os testemunhos da tua.

A minha religião e a minha honra, faço-as consistir unicamente em te amar,
 já que a amar-te comecei
Ilustração de José Ruy
Cortesia de peuropaamerica

Como podem ter-se tornado tão cruéis as lembranças de momentos tão agradáveis? E será que, contra a sua natureza, não devam essas lembranças servir senão para tiranizar o meu coração? Ai de mim! A tua ultima carta deixou-o num lamentoso estado! Tão sensíveis foram as suas palpitações que até parecia fazer esforços por se separar de mim e ir ao teu encontro! Todas estas emoções tão violentas me acabrunharam a tal ponto que, por espaço de mais de três horas, fiquei desfalecida! Proibia a mim própria regressar a uma vida que devo perder por ti, já que para ti a não posso conservar. Finalmente, e mau grado meu, voltei a ver a luz, e comprazia-me ao sentir que morria de amor. Estava, aliás, bem contente por já não ter de ver o meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois destes acidentes, sofri muitas e variadas indisposições. Mas poderei eu alguma vez viver sem males, enquanto não voltar a ver-te? Suporto-os, contudo, sem murmurar, porque me vêm de ti. Será essa a recompensa que me dás por haver-te amado tão ternamente?

Mas não importa! Estou decidida a adorar-te durante toda a vida e a não ter olhos para mais ninguém. E asseguro-te que também tu farás bem em não amar mais ninguém. Poderias, acaso, contentar-te com uma paixão menos ardente do que a minha? Encontrarás, talvez, maior beleza (e, no entanto, disseste-me outrora que não me faltava beleza), mas não encontrarás jamais amor tamanho - e o resto não conta.
Deixa de encher as tuas cartas com coisas inúteis e nunca mais me escrevas a dizer que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, como também não esqueço que me deste esperanças de vir passar algum tempo comigo. Ai de mim! Porque não queres ficar comigo a vida inteira?

Pela boca de Soror Mariana falam todas as puras amantes de Portugal
Ilustração de José Ruy
Cortesia de peuropaamerica

Se me fosse possível sair deste malfadado claustro, não esperaria em Portugal que se cumprissem as tuas promessas: iria eu, sem qualquer inibição, procurar-te, seguir-te e amar-te por toda a parte. Não ouso iludir-me de que isso possa acontecer e não quero alimentar uma esperança que me daria, é certo, algum prazer. Agora já só desejo ser sensível às minhas dores.
Confesso, no entanto, que a oportunidade que o meu irmão me proporcionou de te escrever me trouxe alguns momentos de alegria e suspendeu por instantes o desespero em que me encontro.

Conjuro-te a que me digas porque é que te empenhaste em me encantar como fizeste, se já sabias que me havias de abandonar? Porque é que puseste tanto empenho em me tornar infeliz? Porque não me deixaste em paz no meu convento? Tinha-te feito algum mal? Perdoa-me! Eu não te culpo de nada! Não estou em condições de pensar na minha vingança e só acuso a dureza da minha sorte.
Parece-me que, ao separar-nos, ela nos fez todo o mal que tínhamos a temer: os nossos corações não os podia ela separar! O amor, mais poderoso do que ela, uniu-os para toda a vida!
Se tens algum interesse pela minha, escreve-me muitas vezes. Bem mereço que te dês ao cuidado de me informar sobre o estado do teu coração e da tua vida. Peço-te, sobretudo, que me venhas ver! Adeus! Não posso largar este papel! Ele cairá nas tuas mãos: bem quisera ter eu a mesma sorte! Ai de mim! Louca que sou! Bem me dou conta de que isso não é possível!

Adeus! Não posso mais! Adeus! Ama-me sempre e faze-me sofrer ainda maiores males». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/
JDACT

O Cavaleiro da Águia. Fernando Campos. «Com a sua mesnada de homens, Gonçalo Mendes cavalga em direcção a Zamora. Na ponte do Douro, à entrada da cidade, os soldados de Urraca reconhecem-no e franqueiam-lhe a passagem. Do cimo dos adarves, os homens da condessa Urraca vêem chegar as hostes do rei Sancho de Castela»

Gonçalo Mendes da Maia, o "Lidador"
Cortesia de heroismedievais

Corcéis brancos...corcéis pretos...
«Pelas abóbadas da igreja, pela claustra da abadia ressoa o cantochão dos frades, ante os restos mortais da rainha Sancha.
Seu filho Sancho não lhe sofre o ânimo, sendo primogénito, não o tenha o pai, Fernando Magno, deixado herdeiro de todos os domínios de Leão, de Castela, da Galiza, que se estende até ao Tejo, e da parte de Navarra que vai até ao Ebro. Escuta distraído o canto fúnebre, olha de invés para os irmãos ali ao lado:
  • Alfonso, muito sério;
  • García, indiferente;
  • Urraca, apertando o sentimento na comissura dos lábios;
  • Elvira, chorosa.
Atrás de si, os nobres senhores, os guerreiros. Lá mais para o fundo, a transbordar do templo, o povinho. Quando a função terminou, no dobrar dos sinos Sancho, sem uma palavra aos irmãos, montou a cavalo e abalou carrancudo, acompanhado de seus homens.
Urraca seguiu-o com os olhos: - Nossa mãe, pensou, enquanto viveu, embora viúva manteve em respeito as ambições de meus irmãos. E agora?
O chefe dos exércitos de Sancho é Rodrigo Díaz de Bivar, a quem ele, ainda príncipe, havia armado cavaleiro. - Ordenaremos as hostes – diz-lhe o rei Sancho. - No princípio do ano, mal as neves da Cantábria degelarem, atacaremos Leão.
Por Março, começaram a brilhar os córregos, a despenhar-se cascatas por encostas, pegos e vales, já se afoitavam de jornada os peregrinos pelos caminhos de Santiago.
Sancho ataca Alfonso. Os dois exércitos defrontam-se. Alfonso é vencido mas consegue lhe conceda tréguas o irmão. Três anos se passam, quebra Sancho o pacto e, em Golpejar, investe de improviso sobre Alfonso. Os leoneses saem vencedores... Quê? O Cid vencido? Pela primeira vez? admira-se o povo.
Os nossos foram os melhores, murmura-se, corre fama estava presente, a ajudar o comandante Pedro Ansúrez, o braço valoroso daquele Gonçalo Mendes que veio com seus guerreiros das terras da Maia... Não se contava era com a excessiva confiança de Alfonso, não se esperava traição. Após a batalha, enquanto em seu acampamento os soldados leoneses repousavam descuidados, Sancho, a conselho do Cid, cai de surpresa sobre eles. Grande é a matança e o rei Alfonso preso.

A morte do "Lidador"
Cortesia de purl

Quando a nova chega a Zamora, Urraca envia mensagem ao irmão Sancho: a maldição de Deus caia sobre ti, se, em nome de nosso pai Fernando e de nossa mãe Sancha, não libertares Alfonso.
Ordena então Sancho que lhe tragam Alfonso à presença:
- Vou libertar-te, mas terás de prometer-me que tomarás hábito de monge e não mais pensarás em governar.
- Assim farei.
- Terás escolta até São Facundo e aí recolherás ao mosteiro.
- Irmão, considera no que estás a fazer Despojaste-me do meu reino. Agora, adivinha-me o espírito, caminharás para a Galiza a despojar nosso irmão García... Que loucura te tomou? Sancho não replica. Dá suas ordens. Alfonso sai acompanhado de escolta. Com a sua mesnada de homens, Gonçalo Mendes cavalga em direcção a Zamora. Na ponte do Douro, à entrada da cidade, os soldados de Urraca reconhecem-no e franqueiam-lhe a passagem.
Já sobe aos paços da condessa, que o recebe rodeada da sua corte condal:
- A que vens, Gonçalo Mendes? Pareces perturbado. Fugido certamente não é, se bem te conheço.
- Senhora. Sancho a vosso pedido libertou Alfonso, mas obrigou-o a tomar hábito e mandou-o com escolta para São Facundo.
- Vejo escapaste à chacina que a traição de Sancho havia preparado aos leoneses.
- Estava com uma companhia de mercenários de Portucale. Havíamos erguido as tendas numa clareira, afastados do restante acampamento. Sentimos a traição, desaparecemos. Mas não ficámos parados. Fizemos espera à escolta que levava Alfonso a São Facundo e atacámo-la. Libertado, Alfonso dirigiu-se a Toledo a pedir asilo ao rei mouro al-Mamün, que o recebeu com a maior distinção.
- E agora - disse a condessa Urraca - Sancho deve querer submeter-me a mim também, não é?
- Caminhou para a Galiza a destronar García, que fugiu para a corte do rei de Sevilha. Depois, em Toro, submeteu vossa irmã Elvira. Agora...
- ...dirige-se para aqui.
- Não tardará a vir cercar Zamora.

Do cimo dos adarves, os homens da condessa Urraca vêem chegar as hostes do rei Sancho de Castela. Brilham ao sol da manhã os elmos doirados, faíscam espadas bem temperadas, luzem lorigas, cotas de malha, a floresta de lanças. Vêm de todos os lados, da banda da terra, da outra margem do rio. Lá cavalga o esquadrão do rei em seus corcéis brancos, com os orgulhosos pendões ao vento. Lá galopam os cavaleiros do Cid em seus corredores cor-de-amora, com os impantes gonfalões a tremular.
- Urraca - brada Sancho para o alto da barbacã -, rende-te e evitarás a chacina, a pilhagem do teu rico espólio. Jurar-me-ás preito e menagem e continuarás a ser condessa de Zamora.
- Vai-te embora, Sancho. Se não te lembras de que sou tua irmã, Deus te fulmine. Guardarei a vontade de nosso pai e a memória de nossa mãe.
- Rendição ou morte - brada do outro lado Cid, o Campeador, para o alto das muralhas.
Responde-lhe das ameias uma chuvada de setas.
- Rendê-los-emos pela fome e pela sede - disse o rei Sancho.

Cortesia de amigosdeportugal

Sete dias e sete noites ali ficam sitiando o castelo roqueiro, mas de dentro não chegam sinais de rendição. Até que, pela calada da oitava noite, um vulto se esvai furtivo e silencioso pela porta da traição e se aproxima das tropas de Sancho, a pedir asilo. Levam-no ao rei.
- Quem és tu? Trazes recado de minha irmã?
- Senhor. Chamo-me Velido Adaúlfes. Sou soldado e desertei. Não trago mensagem de vossa irmã, mas digo-vos que pela fome nunca conseguireis dominar Zamora. As tulhas estão cheias de pão, os currais de gado, as cisternas de água até os bordos.
- Porque desertaste?
- A condessa mandou-me açoutar por eu ter dito que seria melhor render-se e viver em paz convosco.
-A praça é forte?
- Muito forte, meu senhor. Sobretudo, há lá um guerreiro, com seus homens das terras da Maia, que é tão valente ou mais que o vosso Rodrigo Díaz de Bivar.
- Então achas que levante o cerco e me vá embora? Não queres ser vergastado também aqui, pois não? - Não, meu senhor. E isto vos quero dizer: há um ponto fraco, uma brecha, naquela forte muralha de granito e homens aguerridos. Ninguém a notou, senão eu.
- E onde é? - Vinde comigo, senhor, pela quietude das estrelas. Nada de levar cavalo nem companhia. Bastava um resfolegar do animal, o tilintar de aço, para alertar as sentinelas. Pode parecer um contra-senso, mas crede se vê mais nas sombras da noite que à luz do dia. Vinde. Ao romper da manhã Zamora será vossa.
O rei Sancho ergueu-se, deu suas ordens e saiu da tenda acompanhado de Velido. Meteram pela espessura de pequeno bosque que corria a par das penhas em que se erguia o cubelo norte do castelo. O traidor ia à frente e, de vez em quando, virava-se atrás a Sancho afazer sinal o seguisse em silêncio. A alguns passos da estreita senda que subia à porta da traição, volta-se súbito e enterra o punhal no coração do rei. Sancho cai por terra sem um grito, eram as Nonas de Outubro de 1110. Velido sumiu-se no castelo, tão silencioso e ratoneiro como se havia esgueirado». In Fernando Campos, O Cavaleiro da Águia, Difel, 2005, ISBN 972-29-0735-2.

Cortesia de Difel/JDACT

Diário de Viagem que fez do Reino de Portugal a Goa. Século XVIII. António José Noronha. «O ‘status’ social do Autor, o seu título de Bispo e o facto de ter tido outras experiências de navegação na mesma rota, […] condicionam a escrita do “Diário” também no que diz respeito à componente de 'diário de bordo', mais marcadamente técnico»

Plano e perspectiva do sítio da Praça do Piro, 1768
Cortesia de foriente

Linhas de leitura crítica
“Diário de bordo”
«O “Diário” de D. António José de Noronha descreve uma das numerosas viagens que ainda no século XVIII os navios portugueses, individualmente ou integrados em armadas, empreendiam entre Lisboa e Goa, na chamada «carreira da Índia». Como aventámos já, o “Diário dos sucessos da viagem que fez do Reino de Portugal para a cidade de Goa, Dom António José de Noronha, Bispo de Halicarnasse” não é um «diário de bordo» técnico mas mau grado esta característica, o Autor insere no seu texto um elevado número de elementos capazes de delinear com alguma aproximação a rota, de indicar os problemas específicos da navegação no Atlântico e no Índico, a situação do navio, as relações que marcam a mini--sociedade embarcada, a convivência que se estabelece entre equipagem e passageiros, entre equipagem e mundo mercantil terrestre, etc.

Apesar de Francisco Contente Domingues dedicar neste volume um estudo pormenorizado aos problemas mais marcadamente técnicos presentes no “Diário”, não queremos deixar de, também, nos debruçar sobre alguns aspectos de validade mais geral relacionados com a isotopia «diário de bordo» identificável no texto de D. António José.

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O “Diário” começa no dia 20 de Abril, data em que o Autor, já embarcado, recebe as visitas, nas quais se inclui a do Bispo de Beja, amigo e defensor do bispo António José durante o período passado no ergástulo do Limoeiro em Lisboa, na altura em que tentava conseguir o valimento e o reconhecimento dos direitos perdidos. A data que segue é a de 25 de Abril quando o navio faz vela para a Índia. Entre 25 de Abril e 5 de Junho, data em que o ‘Mariana Vitória’ muda a rota para a Baía de Todos-os-Santos, os dados relativos à navegação e à vida a bordo aparecem concentrados em poucas linhas, visando prevalentemente as condições do navio e os reflexos que este problema tinha quanto ao programa de navegação preestabelecido.
O facto de o Autor ter resumido os acontecimentos relativos a mais de um mês de navegação em poucas e sintéticas frases demonstra que o verdadeiro diário, que começa no dia 12 de Junho de 1773 e continua com uma frequência perfeitamente regular até 25 de Janeiro, data da entrada na barra de Goa, foi programaticamente elaborado só e partir dum determinado momento coincidente com a decisão do conselho do navio de efectuar uma escala técnica no porto da Baía de Todos-os-Santos. Esta circunstância indica bastante claramente que o Autor só decidiu proceder à redacção do seu «diário de bordo», quando teve a evidência de que uma navegação que se anunciava pesada mas de rotina normal, estava a transformar-se numa viagem cujas incógnitas se revelavam cada momento mais dramáticas.

No caso de António José Noronha estamos perante um passageiro cujo estatuto social lhe reserva um tratamento especial frente às outras pessoas embarcadas num navio que efectua uma viagem de carácter meramente comercial. O bispo António José, além de contar com uma experiência de vida mais do que variada, não enfrenta pela primeira vez a navegação na 'carreira da Índia'.

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A primeira viagem, Madrasta - Londres fora empreendida, como prisioneiro do almirante Boscawen, em princípios de 1750 numa fragata de guerra inglesa, enquanto que o regresso do porto francês de Lorient para Pondichéry foi efectuado em 1751 na fragata ‘La Colombe’, ostentando desta vez António José a ordem honorífica de «Notre Dame du Mont Carmel et St. Lazare», e o título de Bispo “in partibus infidelium de Halicarnasso”, reconhecimentos conseguidos na Corte de Luís XV de França.
A segunda viagem também não é fruto de uma escolha pessoal mas de circunstâncias adversas: preso e encarcerado em 5 de Dezembro de 1769 no Forte da Aguada em Goa, é enviado com a monção de 1770 para Lisboa. António José de Noronha, depois de ter conseguido a liberdade e o valimento, para voltar à sua cidade natal, embarca no navio “Mariana Vitória”, que efectuava uma viagem de tipo comercial por conta do armador Luís Cantofer.

O ‘status’ social do Autor, o seu título de Bispo e o facto de ter tido outras experiências de navegação na mesma rota, não só em navios portugueses mas também numa fragata inglesa e numa francesa, condicionam a escrita do “Diário” também no que diz respeito à componente de «diário de bordo», mais marcadamente técnico. A posição social coloca António José numa situação privilegiada frente a outros passageiros embarcados no mesmo navio, facilitando a criação de uma relação de amizade com o capitão e permitindo, consequentemente, o acesso a informações detalhadas quanto aos problemas da navegação, à situação do navio, ao governo da equipagem ou às questões que surgem com a administração portuária e com o poder político da Baía.

O Autor não ignorava que a viagem entre Lisboa e Goa, a chamada “carreira da Índia”, se iniciava normalmente no mês de Março ou princípios de Abril para garantir a chegada ao Índico no começo da ‘monção grande’ ou, como alternativa, durante o mês de Setembro, em coordenação com a ‘monção pequena’». In D. António José de Noronha, Diário da Viagem, Edição e Introdução de Carmen Radulet, Fundação Oriente, Biblioteca Nacional, 1995, ISBN 972-9440-51-4, ISBN 972-9440-50-6 (Col.).

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil. «Documento extraordinário, o relatório final dos primeiros contactos dos portugueses com um continente novo, uma humanidade nova. O lugar de honra em toda a obra de Caminha e nunca, nem antes nem depois, dela se falou em termos tão comoventes»


Cortesia de carreiradaindia e livroantigo

Estudo Introdutório de Maria Paula Caetano e Neves Águas
O Renascimento
«Conhecido pelo «longo século XVI» (1450-1560), o Renascimento vai confrontar clérigos e parte da alta sociedade europeia com uma nova visão do mundo [proporcionada pelos grandes descobrimentos, imprensa, (re)descobrimento da antiguidade pagã e cristã]. Neste contexto, a Itália vai desempenhar um papel de vanguarda, ao colocar-se em contacto com viários saberes conservados na heranças medievais, o que permitirá a promoção do Ocidente numa época em que a Europa se distancia decisivamente das civilizações paralelas, ultrapassando a Antiguidade e renovando as técnicas (Delumeau).
O Renascimento será assim, e antes de mais, um acontecimento cultural, uma nova visão da vida e da realidade, influenciando a arte, as letras, as ciências e os costumes. Assim, e em diferentes campos, a viagem de Colombo representa o esforço e audácia no descobrimento de novos mundos. Por outro lado, a acção de Martinho Lutero, como expoente máximo da Reforma, é um marco importante na renovação espiritual. Ambos constituem acontecimentos capitais que irão caracterizar este período da história de Humanidade.

Os Estados modernos
No século XVI vai-se assistir ao emergir dos Estados modernos. Serão estes que possuirão as características próprias que vincularão todo o sistema económico. Surgirá um sistema europeu de Estados, oposto à ideia medieval de um Estado universal, encarnada no Sacro Império Romano, cuja esfera de poder se estendia através da Europa Central e penetrava na Itália pelos Alpes. E será a ideia da «razão de Estado», defendida por Maquiavel na sua obra “O Príncipe”, que irá constituir o conceito sobre o qual os príncipes tentarão nos séculos posteriores edificar os seus sistemas políticos.
Naturalmente, seria grande a diferença entre o Estado absoluto do século XVI e os dos séculos XVII ou XVIII. No primeiro, a forma de governo dependia da capacidade da casa reinante em se opor à pressão dos grupos sociais dominantes. Havia sempre o perigo de que os assuntos que diziam respeito a todos os súbditos se transformassem em questões de prestígio e de poder. Nos Estados em que prevalecia o princípio oligárquico de governo (como as repúblicas aristocráticas de Génova e Veneza e, sobretudo, a República dos Países Baixos) tudo se passava diferentemente. Aqui, o comércio e a navegação eram essenciais para a sobrevivência do Estado, pelo que os círculos economicamente activos adquiriram grande influência e a mobilidade social teve grande importância para o desenvolvimento económico.

Cortesia de 1500brasil

O capitalismo
O período compreendido entre os finais dos séculos XV e XVIII é geralmente classificado como «capitalismo comercial», em que o capital desempenha um papel motor da expansão económica.
Este capital actuou no sector comercial, onde conseguiu os melhores resultados quando os descobrimentos ultramarinos lhe abriram novos mercados. O comércio colonial foi a base do enriquecimento geral e nele assentou o progresso económico da época. Tornou possível também a acumulação de capitais, que se iriam investir, no momento oportuno, na expansão industrial. Do mesmo modo se verifica um maior incremento na circulação de metais preciosos, paralelamente com a actuação das tropas. Todos estes factores lançaram as bases dos novos períodos, essencialmente financeiros.
A expansão ultramarina
A concentração do poder político nas mãos do monarca, apoiado na burguesia mercantil e nos exércitos, quer nacionais, quer mercenários, levou à unidade nacional e, com ela, à implantação do Estado sólido, dirigente da vida económica (nomeadamente através do fisco). Surge então, como o acontecimento mais importante do século XVI, a expansão ultramarina, em consequência dos Descobrimentos e das navegações. As rotas atlânticas pare as Índias e a passagem do Mediterrâneo para uma situação subalterna na estratégia económica europeia para com os restantes continentes marcaram grandemente esta época.
E, assim, uma ruptura e um começo o que caracteriza a Europa nos séculos XIV e XV. Uma ruptura com a economia contraída, em regressão (baixa de preços, dificuldades comerciais e agrícolas), e também com o declínio da população. Em meados do século XV verificam-se certas inovações e descobertas que irão ser aproveitadas economicamente e que projectarão uma estrutura nova, onde uma organização do espaço, à escala do globo, iria servir os fins de uma economia mercantilista (Vitorino Magalhães Godinho).
A tipografia, com diferentes condições culturais e constituindo uma nova indústria e um novo comércio; um novo processo de extracção da prata, muito mais eficiente; a utilização industrial do cobre e do bronze em larga escala, lançando algumas indústrias pesadas, como a artilharia, que será um dos grandes motores da economia moderna; a construção naval, ligada à grande expansão das florestas, que se deu na Europa durante o período da regressão demográfica dos séculos XIV e XV...; enfim, é todo um conjunto de transformações que leva, com a escassez da moeda, à busca do ouro, à captura de escravos para mão-de-obra e ao descobrimento de novas rotas, de novos mercados, de novos centros de abastecimento, e, consequentemente, a nova organização do espaço». In Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil, Estudo Introdutório de Maria Paula Caetano e Neves Águas, Publicações Europa-América, 1987.

Cortesia P. Europa-América/JDACT

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Assim, pois, são os homens, incluídos os Portugueses, pelo menos ao tempo, a avaliar por esta anedota do escudo de D. Afonso Henriques. Diogo do Couto:
  • «nenhuma coisa puxa mais por um varão de honra, que estes desejos de glória e fama, por que tantos obraram; e fizeram tantas e tão altas maravilhas, que pareciam passar os termos e limites da natureza humana».
Em suma, “mais do que prometia a força humana” (‘Lusíadas’, I-1). «Passar os termos e limites» (Couto) é próprio, aliás, dos Portugueses. Bem dissera o Adamastor à «gente ousada» que ia com o Gama:
  • «pois os vedados términos quebrantas (V-41)».
Términos do mar, do mundo conhecido, não das «forças humanas», certamente... Mas o que importa é ultrapassar. Ultrapassar-se.
Sem embargo da prontidão de D. Afonso Henriques em pintar o seu escudo, dir-se-ia que os Portugueses, desejosos de honra, capazes de maravilhas, não se importam com o canto (Camões) ou a crónica (Couto). Aos capitães portugueses, não se lhes dá de poemas, de letras, de crónicas, de ciência...

Ter-se-ia passado assim com Alexandre Magno? De maneira nenhuma. Todos sabem que Alexandre tinha sempre Homero à cabeceira.

Camões:
Lia Alexandre a Homero de maneira,
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
(V-96)

Os Portugueses nem se importam com as Décadas de Barros. Grande vergonha, porque hoje em dia todos os grandes (estrangeiros, claro) as trazem “à cabeceira”. Como quem? Como Alexandre, que sempre trazia à cabeceira a “Ilíada” de Homero. Citamos a epístola dedicatória:
  • «E foram tão estimadas [as Décadas de Barros] dele [Guilherme Gonzaga, terceiro duque de Mântua], e o são hoje de todos os grandes, “que as trazem às cabeceiras das camas, como Alexandre trazia a ‘Ilíada’ de Homero»

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Deixemos Barros, por enquanto, e voltemos a Camões:

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente...

Di-lo Camões, não sem vergonha (V-97). E Couto, na epístola dedicatória? Pinturas e esculturas não falavam. Os Atenienses passaram às escrituras. Os Romanos após eles. Enfim, “todas as mais nações do mundo” (lácia, grega ou bárbara nação). Todas excepto uma: a portuguesa tão somente. Na epístola:
  • «Esta glória das estátuas e dos escudos brancos passaram depois os Atenienses às escrituras por verem que as imagens e pinturas eram mudas e não podiam recitar seus feitos. Daqui se estenderam aos Romanos e a todas as mais nações do mundo, tão desejosas todas de uma perpétua fama, que lhe não fica cousa que não seja logo por muitos e vários modos escrita. “Só a esta nossa nação portuguesa faltou esta glória…”
Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo. Digne-se o jovem rei atentar nesse livro, que lhe é dedicado:

Os olhos da real benignidade
Ponde no chão. Vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valorosos,
Em versos divulgado numerosos.
(I-9)

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Diogo do Couto a Filipe II (ai de nós!): «este volume [...] ofereço humildemente aos pés de Vossa Majestade. E só com pordes os olhos nele, haverei por bem empregadas todas as despesas e trabalhos»... que verá Vossa Majestade em tal volume?

Camões
Vereis amor da pátria não movido
De prémio vil...
(I-10)

Olhai que ledos vão por várias vias
Quais rompentes leões e bravos touros...
(X-147)

Couto
  • Aí verá Vossa Magestade as muito grandes e admiráveis façanhas, feitas por aqueles antigos governadores [...] verá Vossa Magestade, nos raros e espantosos feitos que estes seus vassalos têm feito e cada dia fazem...
Francamente! Tais vassalos os Portugueses, pode-se perguntar: não será o mesmo, ou melhor, ser rei dos portugueses, que senhor do mundo?

Camões
E julgareis qual é mais excelente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.
(I.10)

Couto
  • com quanta mais razão pode dizer por eles [os Portugueses], o que dizia Pirro, que, se tivera os Romanos por soldados, que facilmente fora senhor do Mundo, ou eles, se o tiveram a ele por capitão.
Não é bem o mesmo decerto. Mas é uma maneira afim de preparar o incitamento onde se quer chegar. Já que são assim os Portugueses, força!

Camões
Tomai as rédeas vós do reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
- Que pelo mundo todo faça espanto -
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
(I-15)

Couto
  • Mande-os, porque eles lhe levarão suas colunas mais adiante, e pô-las-ão onde Semíramis e Alexandre não chegaram!
Felizmente, ao «invictíssimo» Filipe II «não falta a humanidade e clemência de Filipo para com os seus», diz Couto. E era o que desejava Camões que não faltasse ao rei Sebastião:

Favorecei-o logo e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalizvai-os...
(X-149)

Favorecidos pela humanidade e clemência do rei, os seus vassalos portugueses - afiança Couto - «romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida»...

Romperão. Quais «rompentes leões e bravos touros», tinha escrito Camões (X-147). Com que ânimo? Ledos, diz Camões. Com um ânimo seguro, diz Couto. «Dando os corpos [...] a perigos incógnitos do mundo», diz Camões. A todos os perigos da vida, generaliza Couto. Romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida (sic)». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


Cortesia da Fundação Oriente/JDACT