quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Construção da Casa do Ser. Manuel Nemésio. Leituras. «É maravilhoso podermos afirmar que o homem é, a cada instante, o novo homem, o homem mais, que contém em-si a pomba, cada vez mais branca e translúcida do espírito santo, ámen, da coisa-em-si»

29-07-84
«Apenas e só, sem mente, quatro horas da madrugada. Depois dum grande dia de calor, anteontem, o tempo refrescou ligeiramente e ontem, ao cair da tarde, o céu encheu-se de nuvens, o vento cresceu e a chuva ameaçou cair, caindo mesmo um pouquinho.
Regressei de Lisboa onde fui festejar os cinquenta e quatro anos civis,... Com igual número de solares e contando já com treze bissextos. É muito para uma vida, mas promissor para uma vida ainda maior, que Nosso Senhor me poderá dar se para aí estiver virado... e está... porque Nosso Senhor é um girassol perpétuo a girar, tal um farol sempre aceso raiando em todas as direcções. Obrigado meu Deus pela luz que me dás no raio que me dedicaste.
As obras continuam. Ontem, mestre Francisco Grincho deu os últimos remates no soalho do segundo andar. Há que compor a lareira. Vai ser colocada baldosa sobre rede, com fina camada de cimento, para ficar leve e consolidada. Não esqueceremos as duas boas lajes de granito, ao centro, as que já tinha, para garantir um bom lume multifacetado e colorido. A chaminé tem uma tiragem esplêndida, onde o poder mágico do Fogo nos irá oferecer longos serões de cavaco e de trabalho de criação. Que Bachelard nos ensine a desvendar o enigma do Fogo sagrado do tempo!...

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Do tempo? Sim... Dum tempo bonito e aliciante. Não apenas do tempo cronológico, fictício, do cronos, que aproxima os povos na disciplina do horário e nos compromissos dos homens, onde o tempo do lançamento do foguetão e da nave conta sempre para um devir indeciso pela incerteza do sucesso e onde a tragédia ronda tal como o Diabo à solta. Mas não há-de ser nada. O homem é dialéctico e como tal optimista. No entanto, cuidado com os micro-segundos das fatais decisões. Verdadeiramente, para o homem, é o tempo psicológico que mais conta:
  • ‘o meu tempo, o teu tempo, o nosso tempo, o tempo de cada um. Tempo e espaço convidam-se mutuamente numa caridade hospitaleira, bem necessária para a harmonia do mundo-homem’.
O espaço convida o tempo a preenchê-lo. O tempo é másculo, o espaço fêmea. O tempo pede ao espaço para que se alargue na garantia perpétua dum infinito necessário. A verdade é cada vez mais certa, na certeza dum nunca ser. Temos assim a garantia perpétua da imortalidade humana na maratona da criação dum novo mundo, sempre recriado no compasso da ressurreição. É maravilhoso podermos afirmar que o homem é, a cada instante, o novo homem, o homem mais, que contém em-si a pomba, cada vez mais branca e translúcida do espírito santo, ámen, da coisa-em-si.
O vento lá fora canta. Começo a adormecer. Boa noite Bachelard de ‘La poètique de l'éspace’. Boa noite meus irmãos». In Manuel Nemésio, Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide), Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-39-5.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

O Sonhador Pragmático. Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Ninguém diria tratar-se da casa de um dos principais homens da Revolução. Nenhuma pintura, cartaz ou qualquer outro símbolo daqueles anos de brasa. Fotografias... Só as dos filhos...»

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[…]
«O tempo corria a seu favor, a favor da tese pouco consensual de que era por dentro das FA que tudo iria mudar. No dia 5 de Fevereiro de 74, participa na sua primeira reunião do movimento. Céptico, receoso da natureza corporativa das reivindicações, mas decisivo na impressão que deixa nos companheiros: ‘Temos homem!’, exclama Vasco Lourenço, quando, curioso, pergunta para o lado a Otelo de quem se tratava. Sim, iam ter homem, não andasse ele há quinze anos à espera desse momento!, para as tarefas que o movimento lhe destinou: a produção teórica dos principais documentos programáticos dos capitães.
  • “A sua tête politique, como lhe vem a chamar Eduardo Lourenço”.
Desde há meses a esta parte, como é do conhecimento geral, tem vindo a desenvolver-se no seio das FA um movimento de oficiais cujas origens foram há muito ultrapassadas, e assume hoje características, intenções e finalidades que se entendeu oportuno clarificar e definir’. Fez-se silêncio para ouvir a voz pausada e grave daquele que Wilfred Burchett retratou assim:
  • É um homem calmo, mas não gordo, com a expressão pensativa de um intelectual e um olhar brilhante que os óculos não conseguem esconder e que seria mais fácil imaginar na cátedra de uma universidade do que no uniforme de um oficial do exército.
Soara a hora de iniciar, ou aprofundar, um caminho em que ao militar e ao intelectual se junta agora o político finalmente liberto dos pesados constrangimentos anteriores. No dizer de Natália Correia, ‘o militar foi-lhe ensejo para a acção conjugada do intelectual e do político’. Uma invulgar conciliação entre as suas maiores vocações projectou-o para primeiro plano da cena política de há trinta anos. Apesar do seu obstinado desapego ao poder, e até da sua ‘agorafobia’, apesar de ‘esperar mais que as situações venham ter com ele, e que os outros o chamem’, como lhe apontava, com alguma mágoa, o amigo César Oliveira, a força das convicções, dos ideais e dos compromissos não lhe deixava outra saída. Não foi um sacrifício. Não foi um prémio. Foi um imperativo.
Desse protagonismo discreto só no estilo, mas arrojado na intenção, muito ficaria por contar, pelo próprio e não por substitutos de ocasião, sem esta entrevista, que a marcha do tempo e os seus inexoráveis sinais converterão, estamos certos, em registo de incalculável valor histórico e humano. Preparámo-la com a exigência e rigor que nos impunha a notável figura pública, ainda insuficientemente conhecida, mas também com os receios e incertezas de enfrentar o homem com fama de temperamento difícil. Na ausência das habituais cortesias que, mesmo de circunstância, ajudam a vencer barreiras, lançámos um olhar inquiridor à sala da casa de Sintra, em busca de sinais, pretexto de conversa...
A primeira impressão foi a de um ambiente acolhedor, de discreto bom gosto, ao contrário dos fatos de corte duvidoso que lhe não perdoava o amigo Assis Pacheco, mas pouco pessoal. Ninguém diria tratar-se da casa de um dos principais homens da Revolução. Nenhuma pintura, cartaz ou qualquer outro símbolo daqueles anos de brasa. Fotografias... Só as dos filhos... Percebia-se que não fechara o 25 de Abril no álbum das recordações. Recusava as litanias da memória e ainda mais a contemplação narcísica de um tempo sem regresso. Adivinhava-se o convívio íntimo e intenso com a música e com os livros, seus companheiros de sempre, espalhados pelas mesas: desde Norberto Bobbio ou Jacques Juillar, às obras completas de Rousseau ou ao Anti-Édipo de Gilles Deleuze.
Era a casa de um intelectual solitário? Não exactamente. Tem razão o amigo Vítor Alves, quando afirma:
  • ‘Só quem o não conhece pode dizer que ele era um solitário. Amar os tempos de reflexão não é amar a solidão. O Ernesto era selectivo, não solitário’.
Razão acrescida para o orgulho de sentirmos que fora conquistado para o desafio que lhe era proposto: falar livremente sem tutelas nem restrições, de tempo ou de assuntos, do seu percurso público, o privado foi sempre ciosamente preservado, da sua acção profundamente empenhada no tempo que lhe foi dado viver. E esclarecer tantos dos equívocos, meias verdades ou falsidades que sobre ele ainda persistem. Cumprir, enfim, um dever para consigo e para com a história». In Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Maria Manuela Cruzeiro e Boaventura de Sousa Santos, Histórias da História, Editorial Notícias, 2005, ISBN 972-46-1563-4.


Cortesia de E. Notícias/JDACT

As Magias. Herberto Helder. «Tínhamo-las perdido de vista. Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar. Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim a correr sem esforço ao lado do meu corpo»



Cortesia de assirioealvim

Um poema, Iniji, que não é como os outros
(J.M.G. Le Clézio)
«A música fere a música, e as palavras de Iniji reencontram no fundo de nós a sua própria imagem, como sobrevoando um grande lago quieto.
O poema veio de longe, assim, tranquilo, com os seus gestos, a sua vida, para nos reencontrar. Insensato, móvel, penetra em nós e escruta-nos. Ou éramos nós que não tínhamos corpo, e temos agora o corpo de Iniji. Não sabíamos falar. Não possuíamos ideias, nem imagens, perdêramos o norte. Longe deste poema, a vida era surda, sussurrada, pois todas as palavras da linguagem normativa, a linguagem das teses e antíteses, a linguagem das análises, dos juízos e proclamações solenes, eram unicamente um lento nevoeiro roçando a face da matéria. Era possível que nos confundissem com os torrões e calhaus. Não havia nenhuma ciência, nenhuma lembrança. Como é possível? Onde nos encontrávamos então, antes, antes de Iniji? Claro, considerávamos importantes essas palavras da linguagem, essas palavras comuns. Excitadas como matilhas, boas para caçar, farejar, ladrar, matar. Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar, ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluidos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um yoo, eram movimento.
Tínhamo-las perdido de vista. Depois, hoje, reencontradas, são elas que me reencontraram, e me obrigam a lembrar. Língua insensata que avança, magnificamente autónoma como um corpo de delfim, a correr sem esforço ao lado do meu corpo, ultrapassando-o, iludindo-o, rápido através da massa de água que não consegue sustê-lo. Nada dizer, nada mais dizer depois de Iniji. Mas não é isso que pretende esta língua. Porque nos tornaria mudos? A música entra pelos ouvidos e deve sair pela boca, ou então pelas ancas. Iniji não existe.
Cada vez que dela nos apercebemos, a língua estala e a palavra morre. Interrompida antes de entrar no mundo. Reflexos, talvez, porquanto as suas palavras não são palavras. Se retemos um nome, felizes por saber aquilo que surgirá, ele rebenta. Não há nomes, só bolhas. Balbuceios de bébé, Iniji, Ananiá Iniji. A língua que me não quer falar enlouquece, faz turbilhonar a agulha, acelera, liberta os seus enxames de faíscas. A fascinação hipnótica agarra-nos por dentro do corpo, bem gostaríamos de afastar os olhos e regressar às vozes que falam, em baixo, que nos chamam. Mas o medo de perder uma única destas palavras voadoras, de perder a dança, a natação, a vida!
Porventura pela primeira vez fixamo-nos a alguma coisa. A língua de Iniji não é um logro. As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja necessário abandonar tudo. Abandonar tudo isso, os adornos medíocres, as máscaras, os anéis, os cintos coleccionados, tudo isso com que nos ataviaram. Desejaríamos acreditar que eram só palavras, as mais inconsistentes». In As Magias, Herberto Helder, Poemas mudados para Português, Assírio & amp, Alvim, 2010, ISBN 978-972-37-0086-2.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Leituras. Kaputt. Curzio Malaparte. «… estes três cavalos brancos seguidos por uma rapariga de vestido amarelo eram tristes e muito belos. Mergulhados na água até aos jarretes, moviam a cabeça espalhando a crina sobre o arco alongado do pescoço…»


(1898-1957)
Prato, Itália
Cortesia de wikipedia

Os cavalos
O mundo de Guermantes
«O príncipe Eugénio da Suécia deteve-se no meio da sala. – Escute, disse ele.
Através dos carvalhos do Oakhill e dos pinheiros do parque de Waldemarsudden, para lá do braço de mar que penetra na terra até ao Nybroplan, no coração de Estocolmo, o vento trazia um terno e triste queixume. Não era o melancólico apelo das sereias dos barcos que vinham do mar para o porto, nem o grito brumoso das gaivotas; era uma voz feminina, distraída e dolente. - São os cavalos do Tivoli, o luna-parque que está diante do Skansen - disse o príncipe Eugénio em voz baixa.
Aproximámo-nos das grandes janelas que davam para o parque e apoiámos os rostos contra os vidros ligeiramente embaciados pelo nevoeiro azul que subia do mar. Ao longo do caminho que segue o declive da colina, três cavalos brancos desciam a passo incerto, seguidos por uma rapariga vestida de amarelo: passaram por uma porta gradeada e desceram até uma pequena praia repleta de cuters, de canoas e de barcos de pesca vermelhos e verdes.
Era um claro dia de Setembro, de uma delicadeza quase primaveril. O Outono avermelhava já as velhas árvores do Oakhill. No braço de mar sobre o qual avança o promontório em que está construída a vila de Waldemarsudden, residência do príncipe Eugénio, irmão do rei Gustavo V da Suécia, passavam grandes barcos cinzentos levando, pintados no costado, grandes pavilhões suecos de cruz amarela sobre fundo azul. Nos seus voos, as gaivotas gritavam queixumes roucos como soluços de criança. Lá em baixo, ao longo dos cais do Nybroplan e do Strandwägen, viam-se balançar os vapores brancos, com doces nomes de aldeias e de ilhas, que andam numa roda-viva entre Estocolmo e o arquipélago. Atrás do arsenal, uma nuvem de fumarada azul silvava, cortada de tempos-a-tempos pelo relâmpago branco de um esvoaçar de gaivotas. O vento trazia o som das pequenas orquestras do Belmannsro e do Hasselbacken, os gritos de um grupo de marinheiros, de soldados, de raparigas e de crianças em redor dos acrobatas, dos malabaristas e dos músicos ambulantes que estacionavam todo o dia diante da entrada do Skansen.
O príncipe Eugénio seguia os cavalos com um olhar atento e afectuoso, os olhos semicerrados sob as pálpebras claras, estriadas de finas artérias azuis. Visto de perfil, em contraluz, na claridade lânguida do poente, o seu semblante rosado, com aqueles lábios um pouco túmidos, gulosos, aos quais o bigode branco dava uma amabilidade quase pueril, aquele nariz aquilino, a fronte alta coroada de cabelos muito brancos, frisados, despenteados como os de uma criança quando acorda, ofereciam ao meu olhar o desenho de medalha do rosto dos Bernadotte. De toda a família real da Suécia, aquele que mais se parece como marechal de Napoleão, fundador da dinastia, é o príncipe Eugénio; e este perfil nítido, cortante, quase duro, contrasta singularmente com a doçura do seu olhar, a delicada elegância da sua maneira de falar, de sorrir, de mover as suas belas mãos brancas de dedos pálidos e finos, as mãos dos Bernadotte. Eu tinha ido-ver, alguns dias antes, num estabelecimento de Estocolmo, os bordados que o rei Gustavo V, no decurso das longas noites de Inverno, no palácio real desenhado por Tessin, e nas brancas noites de Verão, no seu castelo de Drottningholm, rodeado dos seus familiares e dos dignitários da corte mais íntimos, fazia com uma graça, uma delicadeza de desenho e de execução que lembravam a antiga arte veneziana, flamenga e francesa. O príncipe Eugénio não borda: é pintor. A sua forma de vestir revela essas maneiras livres, negligentes do Montmartre de há cinquenta anos, do tempo em que o príncipe Eugénio e Montmartre eram jovens. Está vestido com uma espessa jaqueta de tweed cor de tabaco, num corte fora de moda, abotoando alto.
Sobre a camisa azul-pálida, com fios brancos um pouco fanados, uma gravata de tricot, torcida como uma trança de cabelos, punha a sombra de um azul mais escuro. - Todos os dias, a esta hora, eles descem até ao mar - disse o príncipe Eugénio em voz baixa. Na claridade rósea e azul-clara do poente, estes três cavalos brancos seguidos por uma rapariga de vestido amarelo eram tristes e muito belos. Mergulhados na água até aos jarretes, moviam a cabeça espalhando a crina sobre o arco alongado do pescoço e relinchavam. O Sol escondia-se. Havia já muitos meses que eu não via o pôr-do-sol». In Curzio Malaparte, Kaputt, Edição Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, Lisboa.

Cortesia E. Livros do Brasil/JDACT

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Obra Poética. Sophia de Mello Breyner Andresen. «Poeta do mundo exterior e da realidade metafísica, da consubstanciação profunda com o real múltiplo, verdadeiro poeta pagão, no que esta palavra possa ter de mais grave, sacral»

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«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo:
  • ‘Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça’.
Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Cofunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz:
  • 'Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres’.
Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que ele fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas. E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança. Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a “Livro Sexto”». In Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-21-0532-9.


Cortesia de E. Caminho/JDACT

Leituras. Construção da Casa do Ser. Manuel Nemésio. «… em substituição do antigo, que foi hoje tapado com tijolo e cimento pelo mestre José Parrichon para assentar a madre e os barrotes de castanho velho para suporte do soalho da lareira que será colocado e travado pela mão certeira de mestre Francisco Grincho»

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25-07-84
«É quase uma da noite. O dia que passou foi rigoroso de trabalho, de paciência e de confiança. Levantei-me cedo, cerca das seis e meia, já com a claridade fresca das primeiras horas do raiar do Sol. Tudo a postos, tudo bem. Custou-me um tanto saltar da cama, mas, de repente, aí vou eu, de botas anti-cascalho e de fato de treino como quem se está a preparar afincadamente para um decisivo combate de boxe: dez carros de entulho; parede do fundo da casa-de-banho completamente descascada, com mais um arco em ogiva à vista que terá de ser coberto a tijolo, com o carinhoso cuidado de o não danificar, com a instalação de canos de água. Fica registada a descoberta arqueológica, a terceira desde o início das obras. Não havia água desde sábado. Decidi ir tomar banho à barragem e fazer uma barrela de roupa que pus a corar no dorso das pedras paquidermes com um Sol radioso de brancura. Lembrei-me das pernas de alva, por ali acima, das lavadeiras do Mondego, fruto da adolescência, curiosidade de quem, excitado, procura o desconhecido com a marca do proibido. Por essa altura, além da roupa, coravam também as mocinhas lavadeiras pelos piropos que recebiam.
As mais velhas, às vezes as mães, já mais estragadas pela idade e pelo peso diário dos açafates de roupa lavada, a distribuir pelas freguesas, donas de casa, com quem regateavam o preço de cada peça, alegando o último aumento da barra de sabão azul, enxotavam a garotada chamando-nos de desenvergonhados. Por vezes atiravam-nos pedras e nós ríamos ao desafio indo tomar banho, nus, para a ínsua do Vale d’Azenha, ou para os bocais de passagem junto aos moinhos do pão do Mondego. Ao fim da tarde, regressava o bando, depois dum bom dia de pesca ao peixe à toca em que o Midota era o exímio, trincando-os na boca, aos dois e três, num só fôlego de mergulho. Santa vida aquela que por vezes redundava numa tareia de minha Mãe por termos chegado tarde a casa, ou então num pequeno, quase nulo, ralhete de meu Pai, que vinha preocupadíssimo ao nosso encontro pelos Malheiros adiante e que, todo contente, por nos ter finalmente encontrado, nos dava suavemente, e a compasso, com a bengala nos tacões, à laia de maestro. Quando chegávamos a casa era jantar, lavar a focinheira e os pés e toca para a cama, a sono solto; até de manhã.
Boa noite filhota. Boa noite minha gatinha do teu Manuel amoroso. Amanhã faço cinquenta e quatro anos, noves fora nada, o que é importante. E a minha netinha Inês faz o seu primeiro mês. Vou-lhe dar uma colher de prata que achei no entulho por obra de milagre de Nossa Senhora d’Alegria. - Boa noite meus filhos Gonçalo, Rui, Assunção, Kika, Nucha, Miguel e Pedro. Boa noite meu Santo António que me olhas daí, dum cestinho da pesca, enquanto aguardas que te faça o teu novo altarzinho, em substituição do antigo, que foi hoje tapado com tijolo e cimento pelo mestre José Parrichon para assentar a madre e os barrotes de castanho velho para suporte do soalho da lareira que será colocado e travado pela mão certeira de mestre Francisco Grincho. Boa noite a todos e à noite também que mansamente nos cobre com um manto de bom sonho.
Tem graça, nunca sonhei senão a preto e branco! A minha filha Nucha sonha sempre a cores, é mais moderna, mais contemporânea. E já agora, a propósito de cores, que magnífico aquele livrinho, dum astrofísico canadiano, ao alcance de todos: "um pouco mais de azul", com um extenso e infindável mundo estelar de milhões anos-luz, enquanto, cá em baixo, a meia altura, o Principezinho de Saint-Exupéry prepara cuidadosamente a recepção desses fascinantes raios de luz, limpando as crateras dos vulcões com um escovilhão. Do mundo estelar, onde o caos tende para o cosmos, ao meu pequeno mundo da casa do Terreiro da Senhora d’Alegria, a distância não é grande. O cosmos surgirá um dia. Para já, a revolução, mas a revolução pacífica dum filósofo de carapuça, deitado em cama de través com elegantes pernas de cadeiras acima do horizonte, como se estivessem no céu, ou a caminho. Uma delas, a austríaca de balanço, já voou ligeira e já brilha no firmamento como estrela de primeira grandeza. Bengalas, tachos de cobre, tapetes de trapos de Coimbra, dois lavatórios de ferro e algumas teias de aranha completam o cenário deste céu fictício donde eu sou o centro, o egocentro um tanto excêntrico, com este ar distraído de filósofo aprendiz. E os quadrinhos na parede!... Tão românticos: Pai, Mãe e Filha, sentados, com punhos de renda e vestidinhos de folhos, olhando embevecidos para o cão fiel que marca o compasso da harmonia. Entretanto, no chão, além do penico, tenho vários pares de calçado para as solenidades múltiplas dum dia em Castelo de Vide. Uma fina camada de pó chama a atenção para uma escova que faz prodígios. Limpa fatos e tudo e o pó esvoaça dumas coisas para as outras de modo idêntico à fecundação das flores. Esta desordem é simplesmente magnífica. Opera e sobreleva a ordem hierárquica do acaso sobre a causa e o efeito, programados pelos enfadonhos computadores sem vida, accionados a botão e tecla. Ora, que eu saiba, botões, só de rosas ou então de camisas e de cuecas à moda antiga, e teclas, só de piano ou de órgão onde o artista dedilha o maravilhoso número sete do diapasão de Frederico Chopin e de João Sebastião Bach.
E por hoje basta... quedemo-nos um pouco na música pura: o Silêncio Absoluto». In Manuel Nemésio, Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide), Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-39--5.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

O Cavaleira da Águia. Fernando Campos. «Gonçalo fica ao lado de Buthayna. E o coração de Gonçalo palpita mais depressa, de trote entra em galope desenfreado. Não é o diadema de fina renda de pedras preciosas, é a noite do cabelo a cair em cachos rolados sobre os ombros macios…»

A morte do Lidador. Cortesia de purl
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«Quando a nova correu da morte misteriosa do rei Sancho, logo os seus generais levantaram o cerco a Zamora. Compreenderam, com todos os senhores e povos das Espanhas, ser Alfonso o natural herdeiro dos domínios de el-rei Fernando Magno-Sancho morrera sem deixar geração e as vozes foram unânimes, desde a grande Galiza, Leão e Castela e a parte de Navarra até ao Ebro, em nomear Alfonso o seu soberano. Mas Castela, pela voz de Rodrigo Díaz de Bivar, pôs condição:
 - Alfonso deverá fazer solene juramento de que não teve parte no aleivoso assassínio do irmão. - Apoiado! - Clamaram os seus pares, as espadas erguidas.
Alfonso, mal por sua irmã Urraca teve conhecimento do que se passara, saiu de Toledo e estava em Santa Gadea, de Burgos, quando chegaram doze cavaleiros castelhanos, encabeçados pelo Cid, para lhe tomar juras tão terríveis que ao próprio rei geram espanto.  - Alfonso - adiantou-se Rodrigo Díaz, se queres te aceitemos como rei de Castela, terás de jurar sobre os santos Evangelhos que não intervieste na treda morte de teu irmão, o nosso bom rei Sancho.
 - Como poderia eu ter intervindo no assassínio de meu irmão, se me encontrava longe de Zamora, no meu exílio de Toledo? - Jura sobre o livro sagrado. E maldito sejas tu nas profundas do Inferno, se jurares falso.
Alfonso avança solene para o altar, onde, sobre alvíssima rendilhada toalha de linho pousava luxuoso volume encadernado de couro com pregueamentos de ouro e tauxias de pedras preciosas. Estende a mão sobre o livro e a sua voz clara e firme ecoa pelo templo:
 - Pela salvação da minha alma, juro solenemente sobre os santos Evangelhos não ter tido parte na triste morte de meu irmão Sancho. Ajoelhou Rodrigo e aos pés de Alfonso depôs sua espada e beijou a fímbria da veste do rei: - A teus pés, meu senhor e meu rei, o teu fiel servidor. Todos os outros castelhanos, a uma voz, lhe juraram fidelidade e o aclamaram rei de Castela.

Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador. Cortesia de heroismedievais
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Ao sul, a Sevilha, vai Gonçalo Mendes com seus cavaleiros, para acompanhar de volta à Galiza o rei García. Al-Mutâmid faz gala em dar festa de despedida ao seu hóspede real. Banquete sumptuoso, os comensais sentados em coxins, em roda, na vasta sala de colunas, no centro branda poesia ao som de cítara e alaúde, bailam balanços lentos de anca, ventres femininos, ondeiam hastes de braços, mãos, dedos, véus transluzentes mal desvendam mimos de luxúria. Rei al-Mutâmid tem à sua direita rei García, à esquerda a linda rainha Itimâd. Rodeiam-nos os filhos: Sirâj ad-Dawla, o primogénito, Ar-Rashid, Ar-Râdi Yasïd, Al-Mamún al-Fath que tem ao lado a bela esposa Zaida, Abd-al-Jabbâr, Al-Mutâd Abd Allâh, Al-Matamâd, Yahyâ, flakamât, lbn Abbâd, Abü Hashim, Zin ad-Dawla e a formosíssima Buthayna.
Segue-se Gonçalo e seus cavaleiros, o grão-vizir, os ministros. Gonçalo fica ao lado de Buthayna. E o coração de Gonçalo palpita mais depressa, de trote entra em galope desenfreado. Não é o diadema de fina renda de pedras preciosas, é a noite do cabelo a cair em cachos rolados sobre os ombros macios; não é o brilhante na testa de ouro, é o poço dos olhos; não são os brincos de diamantes, mas o recorte, o acetinado da orelha; não é o colar de pérolas, antes o torneado do colo; não o alfinete de prata a fechar o decote, mas sim o leite entrevisto do busto; e os braços roliços e as mãos esguias e a ânfora do corpo e o perfume a sândalo que dele se exala...
 - Eu te digo, rei García. Mais do que guerrearmo-nos, devíamos era tratar de povoar essas terras imensas. Mal se sai das muralhas das cidades, que é que se vê? - Tens razão, al-Mutâmid: a desolação, o enorme descampado, o brejo a perder de vista... A selva, os campos por cultivar, as minas por explorar... O mar infestado de piratas normandos que nos saem impunes pelas terras ribeirinhas e atacam e pilham e devastam as povoações indefesas...
 - Ainda há pouco tiveram o arrojo de entrar Guadalquivir adentro e chegar até aqui às portas da cidade... E al-Mutâmid, ia em seu coração secretamente pensando que se impunha reforçar e renovar a armada que herdara dos califas, os arsenais de Sevilha, de Alcácer, de Setúbal...» In Fernando Campos, O Cavaleiro da Águia, Difel, 2005, ISBN 972-29-0735-2.

Cortesia de Difel/JDACT

Poesia. Fernanda de Castro. «Saudade não é dor nem amargura, dilui-se ao longe a derradeira festa. Não me tentam as rotas da aventura, agora sei que a minha estrada é esta: difícil de subir, áspera e dura, mas branca a urze, de oiro puro a giesta»

jdact e cortesia de wikipedia

Quem pudera Cecília
Tenho fome de campo e de verdura,
de terra bem lavrada,
e sede, muita sede de água pura.

Quero pegar no cabo de uma enxada,

quero cheirar os troncos e as raízes,
pisar, descalça, a terra ainda molhada,
ver, nas noites, o rasto das perdizes.

Já Cecília Meireles o dizia,
com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”
E ria, ria,
rasgando as mãos nas silvas,
comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.

Tinhas razão, Cecília.
Em Portugal, as estações são festas,
são festas de família,
enfiadas, colares de alegrias;
na Primavera as flores;
os frutos no Verão, e as romarias;
no Outono o vinho novo e o ritual
profano das vindimas.
No Inverno,
a mística alegria do Natal,
as portas bem fechadas,
a lenha a crepitar
e as rabanadas.

Quem pudera, Cecília, quem pudera,
mandar-te para lá, para onde estás,
mm raminho da nossa Primavera.


Alma Serena
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Poemas de Fernanda de Castro, ‘in "Ronda das Horas Lentas"

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domingo, 28 de outubro de 2012

Campos Matos. Eugénio Lisboa. Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem. «Por natural apelo dos amigos, que não por imposição sua, pois é dos que sabe ouvir, é ele por via de regra o centro polarizador da conversa. Condimenta-a com o seu proverbial humor, sublinhando as suas frases através da pronta e precisa citação…»

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Alguns relances sobre Eugénio Lisboa
«Como matéria que me era afim e onde navegava em águas familiares, pude apreciar mais consideradamente a inteligência crítica, justa, despreconceituada, discordante aqui e acolá, com que ele analisou e valorizou a importância desse grande pioneiro dos estudos pessoanos.
Um outro texto viria depois, num registo que o seu autor diria de ‘frívolo’, intitulado “A senhora Renal”, que é uma outra maneira aliciante, de graça e ternura, que ele tem de nos prender a atenção e de nos ensinar a amar a literatura como um entretenimento supremo. Agora era a heroína de Sthendhal que, numa peça de puro divertimento, ele proporcionava à nossa companhia. E mais não direi da “Senhora Renal”, para não tirar o prazer que decerto terá, com a leitura desse texto, quem não o conhece ainda.
António Sérgio, Gaspar Simões, Régio (o Régio crítico de Eça), Camilo, o Eça d’Os Maias (e não só), Machado de Assis, Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço, Sthendhal, Gide, Martin du Gard, Montherland e tantas outras figuras do meu apreço, constituem matéria do culto literário de Eugénio Lisboa. Para empregar uma expressão coloquial muito queiroziana, ficamos desde então “calhados” depois daquele almoço a três. Com uma memória invejável e uma extensão de leitura sem fim, é um prazer sentarmo-nos à mesa com Eugénio Lisboa, para falar de autores, leituras, acontecimentos, episódios de literatura, e também de ‘misérias literárias’ que como Antero dizia, são as piores de todas as misérias, exercício que em recente tertúlia prandial se prolongou da 1 às 6 da tarde, quando, juntamente com outros convivas, já se hesitava se não se deveria ficar para jantar...

Por natural apelo dos amigos, que não por imposição sua, pois é dos que sabe ouvir, é ele por via de regra o centro polarizador da conversa. Condimenta-a com o seu proverbial humor, sublinhando as suas frases através da pronta e precisa citação de conhecidas eminências da cultura universal, a que ele recorre com a facilidade de quem tem na sua biblioteca, certamente, uma boa dúzia de antologias de ‘Quips & Quotes’, descobertas nas melhores livrarias de Londres. Recordo ainda o dia em que fui ao município de Aveiro, onde me desloquei para ajudar a resolver o enredado e vergonhoso caso da reabilitação do solar de Verdemilho onde Eça passou a infância. Havia que convocar também o Pedro Calheiros, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade e foi-me dado ver então o Eugénio assomar à porta de uma aula, em mangas de camisa, brandindo um papel, e fiquei a pensar nas pérolas de clarificação hábil, pensante e penetrante, que ele devia oferecer aos seus alunos de literatura, em acção pedagógica que faz parte também da sua vocação.
Mas nem sempre é de rosas e de gargalhadas o convívio com esta alma crítica tão firme, tão preparada de literatura e também de ciência. Um sector hipercrítico dos seus dotes, numa tertúlia, num colóquio, numa conversa, pode subitamente eclodir e disparar, com intransigente convicção, e fulminar-nos. Recordo Tormes, e um colóquio queiroziano, em 2007, na Fundação Eça de Queiroz, em que nos engalfinhámos, com muito ardor e muito alarido, já não sei bem por que dissídio acerca de uma crítica de José Régio à ficção queiroziana. E eis que no ruído da discussão, já esgotados todos os argumentos, me preparava para lançar ao Eugénio uma derradeira fecha, acerada e retumbante: a afirmação dele próprio, decerto muito sólida e fundamentada, de que Régio, preocupado com a sua própria obra, como grande autor, tinha pouco tempo para ler. Isto confirmava o meu sentimento de que o romancista d’A Velha Casa não lera Eça tão integralmente, tão em profundidade, como lera o “seu Camilo”. Mas o adiantado da hora e as intransigências do moderador, fizeram-me aliviar o arco e recolher o dardo à aljava...
Logo de seguida, no intervalo para o café, ao pleno ar das serras e da eira de Tormes, já o Eugénio me invocava com displicência e humor uma daquelas apropriadas quotations com que costuma brindar a nossa atenção desvelada e já eu descoroçoado esquecia o meu dardo e o meu argumento... E assim este temperamento crítico, tão convicto de razões, tão de crítica, e de paixões, temperado. O Luís Amaro, ao peso de três quartos de século de literatura, acertava deveras ao dizer-me gravemente e com voz cava: “é necessário conhecê-lo...”». In Campos Matos, Eugénio Lisboa: Vário, intrépido e fecundo. Uma homenagem, organização de Otília P. Martins e Onésio T. Almeida, Opera Omnia, 2011, ISBN 978-989-8309-20-4.

Cortesia de Opera Omnia/JDACT

Breve Panorama dum Mito Português. O Sebastianismo. «O segundo impostor, o ‘rei da Ericeira’, chamava-se Mateus Álvares. Fez-se eremita perto da Ericeira, reunindo em torno de si um grupo de fiéis. Escolheu mesmo uma rainha, que coroou com o diadema da virgem local»


Cortesia de coleccao
  
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem loucura o que é o homem
Mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?
In Fernando Pessoa

Os falsos D. Sebastião
«As trovas de Bandarra são muito lidas em manuscrito durante a ocupação espanhola (1580-1640), vindo o Encoberto a ser naturalmente identificado com o rei desaparecido em Alcáver-Quibir. Surgem então diversos pseudo-sebastiões. O primeiroD. Sebastião”, o ‘rei de Penamacor’, é um impostor que surge em Alcobaça em 1584, onde se instala como eremita contando histórias incríveis sobre a batalha de Alcácer-Quibir. Preso pelos espanhóis, é condenado às galés, partindo na ‘Armada Invencível’ de Filipe II para a invasão da Inglaterra. Nunca mais se soube dele.
O segundo impostor, o ‘rei da Ericeira’, chamava-se Mateus Álvares. Fez-se eremita perto da Ericeira, reunindo em torno de si um grupo de fiéis. Escolheu mesmo uma rainha, que coroou com o diadema da virgem local. Preso em 1585, foi decapitado em Lisboa. O terceiro era um antigo soldado espanhol que servira em Portugal; Gabriel de Espinosa, pasteleiro na cidade de Madrigal, na Castelo. Perto dali, num convento de freiras, vivia D. Ana, filha ilegítima de João de Áustria, meio-irmão de Filipe II e herói de Lepanto. Um monge patriota português, frei Miguel dos Santos, confessor de Ana, persuadiu-a de que o pasteleiro era o rei morto em Alcácer-Quibir, devendo ela casar com ele para ir para Portugal e ali fomentar uma revolução. As autoridades espanholas prenderam o trio, condenaram D. Ana a quatro anos de relegação solitária e o monge e o soldado à forca. Foram executados em 1595.
O últimoD. Sebastião” foi um calabrês, Marco Tullio Catizone. Apareceu em Veneza em 1598. Vivia então na cidade dos Doges um grupo de patriotas portugueses afecto a António, Prior do Crato.

NOTA: Pretendente ao trono de Portugal, António, Prior do Crato era filho bastardo do infante Luís e de uma cristã-nova. Licenciado em Artes em 1551, estudou Teologia no colégio dos Jesuítas, em Évora, após o que ingressou na Ordem de Malta com o benefício do grão-priorado do Crato, um dos mais ricos de Portugal. Em 1578 acompanhou o rei Sebastião a Alcácer-Quibir, onde foi ferido e feito prisioneiro. Um judeu pagou-lhe o resgate e, obtida a liberdade, regressou a Lisboa, onde se apresentou como pretendente ao trono. A invasão de Portugal por Filipe II frustrou a sua intenção de tomar Lisboa pelo que, feito rei em Santarém, por eleição popular em 1580, reuniu forças para resistir aos espanhóis. Sofreu sucessivas derrotas até que, em 1581, embarcou clandestinamente para Calais. Prosseguiu os seus esforços em Paris e Londres para arranjar apoios e tentava em França nova expedição quando faleceu. Se Sebastião foi o “Desejado” cujo corpo ficou a apodrecer no areal, ‘simplesmente coberto / pelo pranto sem fim duma Nação’, Miguel Torga, e cujo regresso miraculoso e impossível se espera, António Prior do Crato foi o “Indesejado” que só a política anticastelhana de França e de Inglaterra transformaram em causa política ‘viável’.

Do Mito à História
Com a Restauração, 1640, o ‘Encoberto’ é naturalmente identificado com o duque de Bragança, João IV.

NOTA: Joel Serrão levanta a hipótese de que a ressurgência do mito do ‘Quinto Império’ foi como que a tentativa de justificar, no plano da ideologia, a desanexação de Castela e acrescenta: … perguntamo-nos até se, no contexto social da época, a promoção do sebastianismo, crença de raiz popular, não foi, ao menos parcialmente, uma tentativa de índole política destinada a dinamizar a comparticipação do povo nos objectivos da Restauração.

O padre António Vieira (1608-1697) milita por um sebastianismo político ao qual acrescenta a visão do ‘Quinto Império’. Morto João IV, o messianismo de Vieira, de raiz sebástica, é sucessivamente transferido para Afonso VI e Pedro II». In O Sebastianismo, Breve Panorama dum Mito Português, Colecção Portugal Ontem, Portugal Hoje, Lisboa.

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Crónica Esquecida d’el rei João II. Seomara Veiga Ferreira. Leituras. «O infante Pedro amava o irmão quase ferozmente. Homem de sentimentos fortes, agarrado à família, ao lar, aos laços de sangue, educado na escola que a mãe imprimira a uma Corte vinda dos desmandos dos reis Pedro e Fernando e após uma guerra civil…»

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«Sei que Pina o repete e se limitou a repetir o que lhe mandaram dizer, mas a verdade é que El Rei era muito miúdo para requerer o que quer que fosse, a Rainha não mais viu as filhas, ficando apenas com a jovem infanta D. Joana e nunca lhe foram remetidos nem dinheiro, nem prendas de dote nem coisa alguma. Claro que D. Leonor soube também que João II de Castela, naturalmente, nem viu os embaixadores e, se os viu, o seu valido Álvaro de Luna é que os recebeu e tratou dos negócios. Era homem de confiança do Regente Pedro e inimigo natural dos Transtâmaras. A Rainha acabou a viver de esmolas, ao sobejo das sopas de viúvas e fidalgas que a ampararam até que a morte a levou talvez com a ajuda de Álvaro de Luna e a costumada ‘peçonha’.
Em Fevereiro do ano de 1441 as coisas complicavam-se em Portugal, pois quase estalou a guerra entre o conde de Barcelos e o Regente. Os ânimos acalmaram, à custa de muitas palavras e intenções dos amigos e familiares de parte a parte, mas a oposição do Barcelos ao duque de Coimbra passou a ser manifesta, sem subterfúgios. Foi o ano da chegada dos primeiros escravos negros a Sagres e da morte do homem que pintara em 1428 o retrato da filha de João I, antes do seu casamento com o duque de Borgonha.
Em Coimbra D. Isabel de Urgel certamente teria conhecimento do que se passava com a cunhada. Não sei como reagiu, se a sua alma de mulher e mãe, mais tarde também tão sacrificada, se condoeu. Talvez a mãe sim, embora D. Leonor fosse quem tivesse abandonado os filhos...
Não sei mesmo, é uma hipótese a considerar, se o Infante Pedro teria sido o grande responsável moral por essa atitude. Talvez não. Não pretendo defendê-lo, nem ninguém, nem mais tarde o farei comigo próprio, mas é bem possível que a sagaz perversidade do bastardo Afonso de Barcelos tivesse insuflado na alma da cunhada, que era uma mulher limitada e estúpida, essa hipótese. Também nunca a auxiliou depois. O que Afonso desejou nesse instante foi o escândalo, a hipótese da guerra civil, a partilha do País em duas facções, a nítida destruição dos projectos de poder do irmão. Mesmo mais tarde, para, quem sabe? – aligeirar a consciência, fez ver ao sobrinho a crueldade de Pedro para com a ‘pobre viúva e mãe d'El Rei’, não lhe explicou porque não mexeu sequer uma palha para a auxiliar. Quanto à condessa de Urgel e duquesa de Coimbra, que toda a vida se comportou com a dignidade de uma Rainha que, efectivamente, poderia ter sido, o seu contacto com o jovem sobrinho Rei não deve ter sido negativo. Depois de o destino se lhe manifestar tão avesso, como aconteceu mais tarde, este nunca a perseguiu pessoalmente nem, pelos vistos, permitiu aos Braganças um acto de crueldade gratuito. O facto de ela ser a sogra não o justifica. Portanto, D. Isabel deve ter deixado no genro boas recordações e, talvez, a memória do resquício de uma certa forma de amor maternal que tão cedo lhe fora roubado pelos azares do destino e a inexorável luta pelo poder.
Afonso de Barcelos, talvez porque o tivesse solicitado ao jovem sobrinho Rei, ou porque o Regente lhe quis acalmar a ambição (de todos os irmãos não conseguira ainda o título de duque), foi feito duque de Bragança em 1442, no mês de Maio. Em Outubro desse ano uma grande infelicidade acontece ao Regente Pedro: perde o irmão querido, seu fiel apoiante, que o adorava como se de um pai se tratasse, infante João, com quarenta e dois anos de idade, pois nascera em 13 de Janeiro de 1400 e era o mais jovem filho de D. Filipa de Lencastre e do Rei João.
O infante Pedro amava o irmão quase ferozmente. Homem de sentimentos fortes, agarrado à família, ao lar, aos laços de sangue, educado na escola que a mãe imprimira a uma Corte vinda dos desmandos dos reis Pedro e Fernando e após uma guerra civil, o Regente via naquele irmão uma espécie de filho mais velho, confidente e sucessor, a quem, inclusive, dera o lugar de condestável do Reino. Fiel, honesto, directo, de rosto limpo e olhar claro, aquele irmão iria ser o esteiro que lhe faltaria no momento próprio como, de resto, aconteceu. E interessante notar que, apesar da amizade sempre existente, é a partir da morte do irmão que Pedro se une mais ao Vaz de Almada, ao conde de Avranches.
O infante Pedro, tal como sucedera ao irmão Duarte I com a prisão e infelicidade do infante Fernando, perde um pouco da sua alma quando sabe da morte, em Alcácer do Sal, do irmão preferido. Cai doente à cama com um febrão que o ia matando. Depois praticou um erro político: transferiu para o filho do falecido, o jovem Diogo, o Mestrado de Santiago e Avis e as rendas do pai e, entre os restantes cargos, depois, o de condestável. Ora o rapaz tinha apenas catorze anos. Era demasiado jovem e inexperiente. Foi então que o conde de Ourém se opôs à nomeação. Desejava o lugar. Achava-se com direito a ele. Em Janeiro do ano seguinte à morte do infante João, o conde de Ourém entra, e tal como o pai já o fizera, em guerra com o primo. O pai, sendo duque, vinculou o título à família que era quase uma família real, rica, soberana». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.


Cortesia de Editorial Presença/JDACT

Dança. Anne Teresa de Keersmaeker. «O que é hoje grão seco levanta-se amanhã sobre as ondas do campo como a espiga mais alta e mais cheia. A opinião que se emite ou a regra que se estabelece não tem que se importar com as circunstâncias em que se encontram os homens ou mulheres nem com as possibilidades de acolhimento ou recusa que o mundo lhe oferece»

Cortesia de publico

Lisboa, Teatro Camões. Passeio do Neptuno. Parque das Nações.
Até ao pf dia 10 de Novembro de 2012. Quinta às 15h00  (dia 8 de Novembro) (escolas); Sexta e Sábado às 21h00  (dias 2, 3, 9 e 10 de Novembro); Domingo às 16h00  (dias 28 de Outubro e 4 de Novembro) (tarde família).

Orquestra: Orquestra Metropolitana de Lisboa
Companhia: Companhia Nacional de Bailado, Companhia Rosas
Coreografia: Anne Teresa De Keersmaeker

«Anne Teresa de Keersmaeker é a ‘Artista Associada’ da cidade de Lisboa em 2012. Na terceira etapa do percurso da coreógrafa pela capital será apresentado um programa composto por três obras essenciais do seu reportório: “Prelúdio à Sesta de um Fauno” de Claude Debussy, “Grosse Fuge” de Beethoven e “Noite Transfigurada” de Schoenberg. A interpretação fica a cargo da Companhia Nacional de Bailado e da Orquestra Metropolitana de Lisboa.


Prelúdio à Sesta de um Fauno [2006]
Uma composição de dez minutos, escrita em 1894 e inspirada no poema epónimo de Stéphane Mallarmé, considerado um momento-chave da música moderna. Em 1912, o jovem bailarino Vaslav Nijinski, com 23 anos, cria uma coreografia lendária sobre a obra. A evocação da natureza paradisíaca é singularmente carnal; a música, uma carícia divina. Esta leveza, este recolhimento, esta busca pela suprema precisão na expressão do que é eminentemente inatingível, são também o desafio da coreografia criada por De Keersmaker para três bailarinos. A sua entusiástica distância encarna perfeitamente a elegância do desejo na música de Debussy. A coreografia é precedida de um prelúdio dançado no silêncio, em homenagem a Nijinski. Este momento cita a versão de 1912, conservada sobre a forma de notas lançadas sobre uma partitura estudada por De Keersmaeker e pela sua companhia.


Grosse Fuge [1992]
Criado por Keersmaeker como uma das partes de "Erts", foi retomado mais tarde pela coreógrafa em "Kinok", bem como noutras noites de repertório. Coreografado sobre o último quarteto de cordas composto por Beethoven, representa uma meticulosa tradução coreográfica da composição musical. Beethoven constrói dois temas que depois transforma de maneiras diversas, sendo que os bailarinos acompanham, através dos movimentos, essas transfigurações. A escrita coreográfica é ajustada com precisão à partitura e cada nota e cada passo são coordenados com tal exactidão que produzem uma inédita e fascinante dualidade entre o que se vê e o que se ouve.


Noite Transfigurada [1995]
Uma série de duetos em que a transição entre cada um deles é concretizada por uma curta sequência em trio. A estrutura da coreografia reflecte a do poema: a primeira parte é um monólogo - a admissão - da mulher; a segunda, inclui a resposta do homem; e, na terceira parte, mulher e homem juntam-se». In Público.

 
Cortesia de Público/JDACT

Cancioneiro. D. Dinis. A Poesia Galaico-Portuguesa. «Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor. Também as cantigas constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual»

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A Poesia Galaico-Portuguesa
«Há na linguagem de D. Dinis, um retomar de muitas fórmulas e lugares-comuns da poesia medieval. Tal facto não deve surpreender, já que o conceito de originalidade é algo que não faz parte desta literatura. Não quer isto dizer que não possamos reconhecer elementos próprios e originais, nomeadamente a afirmação da sua arte poética assim como o reflexo da sua condição real no modo como desenvolve alguns aspectos das cantigas de amor: uma certa ironia no tratamento da soror, quando lhe diz érades bõa pera rei, (Amor,15); e a referência religiosa, em que se pode ver talvez uma influência de seu avô, ao pedir a protecção de Santa Maria, mas também nas referências a Nostro Senhor, a Deus e até no jogo com o terceiro dia da Ressurreição de Cristo (Amigo, 6), quando diz que a coita do amigo é um forte que a donzela já não o poderá guarir.
A sua poética encontra-se, por outro lado, no modo como se define em relação com a tradição provençal. É na Cantiga Proençaes soem bem troban, (Esdmio, l) que a sinceridade é posta acima de qualquer outra qualidade na expressão lírica. É curioso, aqui, a relação que estabelece entre o lema e o ciclo natural, ao censurar os que só escrevem poesia no tempo futuro. Para ele, pelo contrário, a poesia é algo próprio do tempo humano, que não obedece a esses ciclos naturais mas apenas ao Amor.
O facto de ser rei, por outro lado, não o inibe de entrar nos jogos de mal dizer que na maior parte dos poetas dos Cancioneiros, atinge uma violência que não hesita perante a linguagem desbragada e a denúncia de situações em que ninguém é poupado. Também aqui, as cantigas em que o monarca entra neste campo, constituem uma excepção pela ausência quer de palavras demasiado grosseiras quer de referências demasiado explícitas ao campo sexual. É certo que existe alguma ambiguidade no vocabulário relativo a Joam Bolo, que poderá ser interpretado como alusivo à sua homossexualidade (como notou Elsa Gonçalves). No entanto, os poemas podem ser lidos à letra, formando um sentido completamente lógico sem que seja necessário encontrar outras interpretações, embora elas sejam plausíveis. Admitir-se-á, neste caso, que o não ir até ao ponto da denúncia crua que encontramos na generalidade dos poetas resultará da distância que o rei deve guardar em relação aos súbditos. O que ele censura, então, são comportamentos que se afastam dos códigos cortesãos, como o de Meliom Garcia que veste mal e maltrata as duas meninas que trago, o de D. Foam que fala interminavelmente sem perceber que o rei está com sono e quer que ele parta; ou refere aspectos do quotidiano como a doença (a praga) que, como aquele que passava a vida a rogar pragas, ou o desespero de Joam Simiom que perdeu três dos seus animais porque comeram azeitonas.
Por tudo isto, Dinis I é sem dúvida um poeta com uma voz própria, e este facto terá levado a que a sua extensa produção tivesse, presumivelmente, sido recolhida em volume próprio, que terá feito parte da Biblioteca do rei Duarte, onde se encontra referenciado. Morreu em Santarém, em 1325, mas a sua fama não morreu com ele, sendo a sua qualidade de poeta referida, entre outros, por Camões e António Ferreira, no século XVI; mas já antes deles, Dante e o Marquês de Santilhana o colocam entre outros nomes de relevo na poesia medieval». In D. Dinis, Cancioneiro, colecção dirigida por Vasco Graça Moura, organização, prefácio e notas de Nuno Júdice, Editorial Teorema e Nuno Júdice, 1997, ISBN 972-747-684-8.


Cortesia de Teorema/JDACT

sábado, 27 de outubro de 2012

As Navegações Atlânticas no Século XV. Manuel Fernandes Costa. «Na ratificação, de 30 de Abril de 1423, do tratado de paz luso-castelhano, em que se prolongavam as tréguas por 29 anos, nova vitória alcançava Portugal. Conseguia-se que João II de Castela declarasse abrangida a cidade de Ceuta, e autorizasse a travessia dos portugueses, pelo seu reino, para aquela cidade»

Cortesia de wikipedia

Acção diplomática após a conquista de Ceuta
«Os embaixadores portugueses, após a conquista de Ceuta, propuseram uma aliança a Aragão e Castela, com vista à libertação da península, o que colidia com os interesses daqueles países, como se sabia em Portugal, mas os obrigaria a não elevarem demasiado o seu protesto após a conquista de Ceuta. No ‘Concílio de Constança’, que pretendia pôr termo ao ‘Cisma do Ocidente’, tentou-se de novo a aliança dos Estados cristãos peninsulares para a conquista de Granada, e, em 1416, na segunda reunião conciliar, insistiu-se de novo. Mas deparou-se a Portugal a recusa firme de Castela e de Aragão, cujos interesses se começavam a confundir. Ao Concílio assistiram dois frades da Ordem de S. Antão da Etiópia, Pedro e Bartolomeu, e decerto os contactos estabelecidos interessaram os Portugueses que, no regresso, teriam relatado aos infantes as notícias da África Oriental que puderam colher. Animados ao prosseguimento da empresa, alcançaram de João I que solicitasse às Cortes, reunidas em Santarém, os meios financeiros para um novo empreendimento: a conquista de Tânger.
Entretanto os embaixadores de Portugal conseguiam que fosse erecta a diocese de Ceuta e a concessão de outra bula: “Decens esse videtur” que dava aos cristãos que desejassem participar na defesa de Ceuta contra os mouros a possibilidade de comprar armas nas partes da Cristandade e levá-las livremente por terra e por mar, o que representava um incitamento aos fiéis de todo o mundo para prosseguirem na reconquista.
Outra bula, “In apostolice dignitatis specula”, investiu o infante Henrique no cargo de Administrador-Geral da Ordem da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Competia-lhe prover às despesas com a guarda e defesa de Ceuta e aplicar os rendimentos em benefício da expansão da Fé. Pensara-se, dando cunho religioso à conquista de Ceuta e atribuindo as responsabilidades da sua administração a uma Ordem Militar, reduzir as preocupações dos Castelhanos, se não anular a sua oposição, atendendo aos direitos a que se arrogara o rei de Castela sobre o reino de Fez, como sucessor do império visigótico.
Na ratificação, de 30 de Abril de 1423, do tratado de paz luso-castelhano, em que se prolongavam as tréguas por 29 anos, nova vitória alcançava Portugal, pois conseguia-se que João II de Castela declarasse abrangida na sua ratificação a cidade de Ceuta, e autorizasse a travessia dos portugueses, pelo seu reino, para aquela cidade. Era o reconhecimento da soberania portuguesa sobre Ceuta.

Prelúdio da conquista de Tânger
Em 1428 celebrou-se o contrato de casamento do monarca Duarte I com a infanta aragonesa D. Leonor, autêntico tratado entre os dois países, visando os seus inimigos externos. O rei de Aragão, por essa altura, recebeu na sua Corte uma embaixada etíope, e resolveu mandar àquele país Pedro de Bónia, a propor o casamento do infante Pedro com uma princesa etíope, devendo D. Joana casar com o imperador e celebrando-se uma aliança entre a Etiópia e Aragão, contra os Turcos.
Por essa época se consorciou o nosso infante Pedro, que andava viajando pela Europa, com uma filha do conde de Urgel e serviram de intermediários os embaixadores de Portugal, nas tréguas castelhano-aragonesas, de 1430». In Manuel Fernandes Costa, As Navegações Atlânticas no Século XV, Biblioteca Breve, volume 30, Instituto de Cultura Portuguesa, CCV Camões, Instituto Camões, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1979.


Cortesia de Instituto Camões/JDACT

A Historiografia Sociológica de António Sérgio. Victor Sá. «Foi essa uma forma de nos alienar, aos Portugueses, da nossa consciência nacional, e de facilitar a submissão do ensino da História pátria, afinal o inverso do que havia preconizado Cortesão às conveniências da ideologia fascista então dominante»

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«Para que a História pudesse responder esclarecedoramente aos problemas que lhe eram postos em busca do porvir, os próprios métodos de a escrever tinham de ser repensados e substituídos, em função de problemáticas novas. Este foi o grande papel de Sérgio, a sua contribuição para revolucionar a historiografia portuguesa. Disse-o em 1949:
  • ‘Os caminhos da renovação que em nossa História iniciei consistiram muito menos nas interpretações alvitradas, e nos trabalhos de análise com que pretendi aboná-las, do que na própria circunstância de querer interpretar e entender, do que na nova mentalidade com que encarava as coisas, do que na perspectiva sociológica em que colocava os factos, do que na introdução da problemática onde se encontrava relatos, onde só havia aceitação das interpretações dos cronistas. Foi assim que Aljubarrota e a conquista de Ceuta, foi assim que as navegações, foi assim que as conquistas se tornaram problemas sociais-económicos, em vez de narrativas de aventureirismo céltico’.
Neste breve trabalho sobre a historiografia sociológica de Sérgio vamos tentar apresentar a génese e os condicionalismos determinantes da sua interpretação da História de Portugal, que foi o tema predominante, no todo ou parcialmente, das suas reflexões com expressão historiográfica. Trata-se de um longo processo interpretativo iniciado em 1913, que teve o seu período mais vigoroso nos primeiros anos de 1920 e culminou em 1929, já no exílio, com a publicação em Espanha, e impedimento de circulação no nosso país, da sua História de Portugal.
Só depois da morte do Autor, 1969, é que, em 1972, passados 43 anos, uma vida!, aparece a primeira edição portuguesa, agora sob o título de Breve Interpretação da História de Portugal. Significativo é que, desde então, a obra se tenha esgotado sucessivamente, atingindo sete reedições em sete anos, o que se traduz na média de uma edição por ano. A avidez com que as novas gerações têm acolhido esta obra, que se pode considerar afinal como sendo a mensagem póstuma de Sérgio, dá-nos a medida, pelo seu significado negativo inverso, do que representou o crime cultural que privou as gerações anteriores das reflexões que aquela interpretação sugere. Foi essa uma forma de nos alienar, aos Portugueses, da nossa consciência nacional, e de facilitar a submissão do ensino da História pátria, afinal o inverso do que havia preconizado Cortesão às conveniências da ideologia fascista então dominante.
No entanto, Sérgio não foi apenas um crítico e um problematizador. Foi também, para muitos, um satírico do academismo, do dogmatismo e do especialismo infecundo. Ao discutir a tese de um professor que o impugnara no final da década de 1920, agregou o seguinte comentário:
  • ‘A tese a que aqui se responde não mereceria discussão se ela não fosse um documento típico sobre a nossa realidade universitária. De facto, o autor, graças a ela, foi admitido no corpo docente da Faculdade de Letras…’
Ou então, a propósito da importância da ‘fantasia’ na busca de hipóteses científicas, escandaliza os formalistas com estas pouco graves comparações:
  • ‘Pela leitura, acaso, de bons romances policiais, deveria começar a educação científica de toda a espécie de investigadores; nesse campo, dou mais pela análise de certo conto de Poë que por todo o ensino pedantesco e grave de certos pedantíssimos universitários’.
E aos positivistas que lhe dissessem que a demonstração de uma hipótese histórica residia no testemunho de um documento e só nele, respondia, esclarecendo:
  • ‘Isso, em primeiro lugar, é uma noção não crítica do testemunho histórico. A primeira operação do erudito crítico não é a de dar fé ao documento que lê: é a de criticar o testemunho dele. O testemunho histórico não é um Deus: quem escreveu o testemunho foi um homem falível, como outro qualquer, sobretudo o autor do testemunho directo. Não crítico, por exemplo, é o autor da tese em que sou impugnado. Em 1928, exilado já em Paris, repetia ainda; está aí, na estupidez, o escolho primário e omnipresente para uma verdadeira reforma da nossa grei. A estupidez absorve-nos, suga-nos, arruína-nos, mata-nos como clamava Gusmão da fradaria’».
In Victor Sá, A Historiografia Sociológica de António Sérgio, Instituto de Cultura Portuguesa, CV camões, Biblioteca Breve, Gráfica da Livraria Bertrand, 1979.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT