domingo, 30 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: “a China devia ser o Cataio antigo”; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo»

jdact

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik

NOTA: Corte do grão-mogol. O fundador da dinastia descendia, pelo lado materno, de Gengis Khan. Nos primeiros tempos das nossas missões reinava Acbar (1556-1605), cujos domínios se estendiam do golfo de Bengala ao oceano Índico, compreendendo todo o vale do Indo e grande parte do Afeganistão. Esta primeira missão a que nos referimos (1580-1583) era composta dos padres Rodolfo Acquaviva, italiano e superior, António Montserrat, espanhol, e Francisco Henriques.
Em 1594 foi o próprio Acbar que pediu para Goa uma nova missão de jesuítas. Foi ela constituída pelos padres Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo das Índias, o açoriano Manuel Pinheiro e o irmão Bento de Goes. Em 1600 juntava-se-lhes o padre Francisco Corsi.

«(…) Só na terceira missão (ver Nota) se procurou resolver definitivamente o problema apaixonante. As notícias chegavam de todas as partes, pelos mercadores e pelos missionários da China, havia cristãos perdidos para lá do Himalaia. Seria o Cataio? Mas este, tão recheado outrora de nestorianos, também começava a ser identificado com a China, onde se não haviam ainda encontrado os da nossa Fé. De início Ricci não conhecera cristãos na China: non ve ne esser nessuno e mai esser là arrivata la lege christiana. No entanto, mais tarde chegaram ao grande missionário, em 1602, notícias de nestorianos em Suchow, perto de Kanchow, no actual Kansu. Eram de cor branca, barbudos, tinham igrejas e capelas onde adoravam o crucifixo e a Mãe de Deus. Que tinham sacerdotes com votos de castidade. A carta onde Ricci contava estes factos aos incrédulos padres da Índia sobre a sua identificação deve ter chegado depois da partida de Bento de Goes para a sua viagem. Duas hipóteses diferentes que era preciso esclarecer.
Do lado de Goa, a grande alma do empreendimento era o visitador, padre Nicolau Pimenta (o padre Pimenta nasceu em Santarém em 6 de Dezembro de 1546, entrou na Companhia em 1562. Em 1599 era visitador em Goa, onde morreu em 1614), que incitava os seus ardorosos missionários do grão-mogol na identificação, os que procuravam cristãos para encontrar o Cataio. Do lado do Império do Meio, Matteo Ricci levantava já abertamente o problema de que a terra famosa do Veneziano não era senão a China como anteriormente já o havia dito frei Martin de Rada.

NOTA: A ideia da identificação do Cataio com a China tem sido geralmente atribuída a Matteo Ricci. No entanto, já antes dele, o frade espanhol, da Ordem de Sto. Agostinho, frei Martin de Rada, o tinha afirmado. Na sua Relacion de las cosas de china que propriamente se llama Taybin, manuscrito incorporado num códex anónimo compilado em Manila em 1590. Martin de Rada nasceu em Pamplona em 1533. Tomou o hábito de Sto. Agostinho em Salamanca aos vinte anos. Partiu depois para o México como missionário. Em 1564 ofereceu-se para acompanhar Miguel López Legazpi e frei André Urdaneta na expedição às Filipinas. Aí exerceu com verdadeiro ardor apostólico o seu mister. Eleito provincial da sua Ordem empenhou-se em convencer o vice-rei do México na conquista espanhola da China. Pediu para ir sondar o terreno. Se a ideia tinha muito de sentido espiritual, havia também a cobiça das riquezas que os portugueses por ali andavam arrecadando, como constava nas Filipinas. Finalmente, em 1575 foi enviado ao Fukien, onde permaneceu dois meses. Dessa visita e contactos resultou o relato que ele escreveu para conhecimento oficial e onde destacamos a sua ideia da identificação do Cataio com a China.

Escrevia aquele para Roma, ao geral Acquaviva, em Outubro de 1596: Ned fine, voglio scrivere una curiositá che. penso, V. P. et altri si rallegrerá intendere, et è una congettura che feci, che la città di Nanchino, dove fui l'anno passato, metropoli e sedia regale antica della Cina, per varie congetture penso essere il Cataio di Marco Polo... e cosí il Cataio, al mio parere, non è di altro regno che della Cina. Mais tarde, quando chega a Pequim, o famoso missionário rectifica a sua primeira hipótese: a China devia ser o Cataio antigo; aquela esplendorosa cidade, a de Khanbalik, que tanto impressionara o viajante Polo. Mas assim ainda não pensavam os nossos da Índia. O padre Jerónimo Xavier, sobrinho do Apóstolo, escrevia de Lahore em 1598, depois da sua viagem ao Kashmir, três cartas que excitaram os ânimos dos seus confrades e iam empurrar decididamente o problema até à sua definitiva conclusão.
Os missionários do Padroado Português, que nunca depararam com dificuldades que não vencessem, levantavam pouco a pouco o véu deste mistério. Contava Xavier, nas suas epístolas de 26 de Julho e 2 de Agosto daquele ano, que um velho mercador maometano dissera ao príncipe Salim, mais tarde imperador, que vinha de Xambalù ou Cambalù, capital do grande reino de Xatai. Logo o missionário comentava que este nome molti sembra essere lo stesso che il nostro Catai. Lá estivera 13 anos, dizendo-se embaixador de Casgar. Mais contava o mercador que os habitantes daquele país distante eram de belo parecer, brancos de cor, usando longa barba. Que praticavam várias religiões, mas a maioria eram cristãos. Tinham muitas igrejas, algumas magníficas e todas adornadas com a Cruz que especialmente veneravam. As crianças eram baptizadas, os sacerdotes celibatários e vestiam-se como aqueles missionários do mogol. Que o rei daqueles reinos era também cristão».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

O Papado e Portugal no primeiro século da História Portuguesa: Carl Erdmann. «Então, porém, dirigiu-se para Toledo com grande séquito e, em 16 de Maio de 1150, na presença de vários bispos e do infante Fernando, prestou obediência ao arcebispo Raimundo como seu primaz…»


jdact

A luta contra o primado de Toledo
«(…) Por outro lado cuidou de preparar uma boa recepção também doutra forma: fazendo transportar consigo os privilégios de ambos os mosteiros tributários que levara por sua mão à Santa Sé, Santa Cruz e Grijó, para que fossem confirmados. Também com os templários portugueses se pôs de acordo; um mensageiro enviado por estes apareceu com o bispo em Roma. Os templários já haviam tomado pé em Portugal vinte anos antes e precisamente então, por ocasião da conquista de Santarém, haviam feito um acordo com o rei, do qual resultaram relações cada vez mais íntimas entre a Ordem e o Reino português.
Também este facto era de molde a melhorar a posição de Portugal na cúria; pois os templários ocupavam já nesse tempo uma situação privilegiada no favor do papa. Assim empreendeu o arcebispo João, no verão de 1148, pela quarta vez, à longa viagem até a Cúria, que alcançou em Brescia. A viagem obteve pelo menos um êxito parcial. Eugénio III não lhe levou em conta a sua longa oposição, absolvendo-o da suspensão, e exprimiu ainda em 8 de Setembro de 1148 a reabilitação do arcebispo em novo privilégio. (Rodrigo de Toledo, sabe além disso, evidentemente por meio do extractos dos registos papais, de muitos outros privilégios e indulgências, que Afonso Henriques, segundo ele, conseguiu de Eugénio III e que devem ser datados ou de Setembro de 1148 ou de Junho de 1153. Infelizmente não os conhecemos; possível, embora absolutamente incerta, é a confirmação papal do bispado de Lisboa o do convento de S. Vicente de Fora). Mas quanto a libertar-se da dependência do primado de Toledo, também agora o não conseguiu João Peculiar; Eugénio III manteve a política do seu predecessor. Assim teve o arcebispo de prometer fazer a pesada caminhada de Toledo e submeter-se. Esperava talvez que também agora o caso ficasse em palavras. O que é certo é que não se apressou a, executar a promessa e recebeu por isso de Eugénio III, em 19 de Dezembro de 1149, a pedido do rei Afonso VII de Castela, nova e severa ordem, com renovada ameaça de suspensão. Mesmo assim, ainda hesitou o arcebispo João. Deixou passar mais uma vez o prazo fixado, recaindo pela segunda vez, pelo menos em princípio, durante seis semanas na pena de suspensão. Então, porém, dirigiu-se para Toledo com grande séquito e, em 16 de Maio de 1150, na presença de vários bispos e do infante Fernando, prestou obediência ao arcebispo Raimundo como seu primaz, o que os toletanos logo escrituraram em diploma. Que isto foi um acto de alta política, não é necessário dizê-lo. Na companhia do arcebispo bracarense, apareceu também um embaixador do rei de Portugal, para renovar a paz com Castela sete anos antes concluída por intermédio do cardeal legado Guido: a sujeição de Braga era claramente o juro que Portugal tinha de pagar pela ansiada paz.
No favor do papa havia, porém, agora, o arcebispo de Braga, sujeitando-se finalmente à sua vontade, desalojado o rival toletano. Já no ano anterior Eugénio III se havia manifestado, em termos extraordinariamente severos, a respeito do arcebispo Raimundo de Toledo, tendo-se interessado pelos direitos de Toledo só a pedido do rei Afonso VII. Quando agora João de Braga anunciou ao papa a sua submissão, e ao mesmo tempo se queixou de que o arcebispo Raimundo pelo seu proceder o tinha desnecessariamente exasperado, achou crédito e provocou nova censura do papa ao arcebispo de Toledo». In Carl Erdmann, O Papado e Portugal no primeiro século da História Portuguesa, Universidade de Coimbra, Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, Coimbra Editora, 1935.

Cortesia de Separata do Boletim do Instituto Alemão/JDACT

sábado, 29 de junho de 2013

A Bela Poesia. O Guardador de Rebanhos. Alberto Caeiro. «Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais. Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho»

jdact

O Guardador de Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
mas é como se os guardasse
minha alma é como um pastor,
conhece o vento e o sol
e anda pela mão das Estações
a seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
para a nossa imaginação
quando esfria no fundo da planície
e se sente a noite entrada
como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
e é o que deve estar na alma
quando já pensa que existe
e as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos
para além da curva da estrada,
os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
porque, se o não soubesse,
em vez de serem contentes e tristes,
seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
por imaginar, ser cordeirinho
(ou ser o rebanho todo
para andar espalhado por toda a encosta
a ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
é só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
e corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
sinto um cajado nas mãos
e vejo um recorte de mim
no cimo dum outeiro,
olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
e sorrindo vagamente como quem não compreende o que se
quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
quando me vêm à minha porta
mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol
e chuva, quando a chuva é precisa
e que as suas casas tenham
ao pé duma janela aberta
uma cadeira predilecta
onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
que sou qualquer coisa natural,
por exemplo, a árvore antiga
à sombra da qual quando crianças
se sentavam com um baque, cansados de brincar,
e limpavam o suor da testa quente
com a manga do bibe riscado.
[…]

Parte do Poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), in ‘Poesias
ISBN 978-972-617-195-9

JDACT

Dança. Olga Roriz. Teatro Garcia de Resende. Évora. «Algo ficou por fazer, tanto ficou por ser dito. Pretendo encontrar um outro estar, uma acumulação do mesmo mas sempre em renovação, jamais entendido. Ignorar os tabus, reescrever a história, acrescentar as referências e criar o momento»

Cortesia de rodrigosousa

«A Companhia de Dança Olga Roriz vem a Évora apresentar dois espectáculos no Teatro Municipal Garcia de Resende, intitulados Present in Progress e A Sagração da Primavera, sendo que o primeiro realiza-se no pf dia 3 de Julho e o segundo no dia 6 de Julho, ambos com início às 21h30. Present in Progress, com coreografia e interpretação de Olga Roriz e com duração de 20 minutos, é um encontro de dois gestos distintos, a dança e a pintura. Juntos e ao vivo, pintor e coreógrafa dialogam na sua solidão. A música é a única ligação entre eles, espacial e temporal. Ela move-se colada a uma tela branca. Ele está em pé em frente a uma mesa em branco, câmaras de vídeo, tintas, pincéis, papeis… O Movimento dela flutua entre as explosões de linhas e cores. O resultado é ora dramático, ora poético.


No segundo espectáculo, A Sagração da Primavera, Olga Roriz, após 36 anos de carreira como intérprete e 9 solos criados, lança-se pelo duplo desafio: a revisitação de uma obra maior como é A Sagração da Primavera e a insistência da sua longevidade como bailarina e intérprete. Poucos são no mundo os criadores que se propõem a coreografar esta obra, muito menos ainda os que aos 56 anos de idade dançam. Olga Roriz é a única intérprete/criadora no nosso país, e das poucas na Europa, que continua a transmitir pelo seu próprio corpo o seu legado coreográfico e artístico, continuando a construir, desenvolver e partilhar com o público a sua presença gestual e interpretativa ímpar. Em 2013 celebra-se o centenário da criação de A Sagração da Primavera por Nijinsky/Stravinsky e, após a sua primeira criação desta obra.


Olga Roriz confessa: Algo ficou por fazer, tanto ficou por ser dito. Pretendo encontrar um outro estar, uma acumulação do mesmo mas sempre em renovação, jamais entendido. Ignorar os tabus, reescrever a história, acrescentar as referências e criar o momento. Paixão, memórias e saber, manter-se-ão intactos, serão respeitados mas sem voz, sem espaço, sem presente. Corpo a corpo num confronto nunca pacífico. Estes espectáculos da Companhia de Dança Olga Roriz são uma organização do Cendrev no âmbito da Rede Culturbe, Braga, Coimbra e Évora, que conta com o apoio do Inalentejo e da Câmara Municipal de Évora». In C. M. de Évora

Cortesia da CMEvora/JDACT

Cântaro que vai à Fonte. Coisas do Tempo Presente. Cunha Leal. «Se, porém, contradiz a razão, chama-se lei iníqua e, como tal, não tem valor de lei, mas é um acto de violência. A função primordial de qualquer poder público é defender os direitos invioláveis da pessoa e tornar mais viável o cumprimento dos seus deveres»

jdact

In Memoriam do papa João XXIII
«Que, através de todas as manifestações do seu pontificado e, em especial, em sua última e luminosa Encíclica, Pacem in Terris, procurou dulcificar a amargura espiritual da infindável legião das gentes humilhadas e ofendidas, que têm fome e sede de liberdade, de justiça, de pão, de educação, de segurança e de consideração social, instilando em seus corações o conforto de uma esperança. A ele, que, para conseguir tão nobre objectivo, não hesitou em castigar a filáucia de ovantes disfrutadores de uma Autoridade e um Poder, instituídos por Deus como condição sine qua non de paz e progresso nas sociedades humanas, mas de cujo exercício esses hierarcas nem sempre são dignos, por não saberem manter-se dentro de moldes sensatos e respeitadores da pessoa humana.
A ele, que, serenamente, inseriu nesse excelso documento, entre incontáveis verdades, as que, a seguir, se transcrevem:
  • Uma convivência baseada unicamente em relações de força nada tem de humano: nela vêm as pessoas coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento;
  • A lei humana tem valor de lei enquanto está de acordo com a recta razão: derivando, portanto, da lei eterna. Se, porém, contradiz a razão, chama-se lei iníqua e, como tal, não tem valor de lei, mas é um acto de violência;
  • De modo nenhum se deve usar para vantagem de um ou de poucos a autoridade civil constituída para o bem comum de todos, verdade já enunciada pelo papa Leão XIII; 
  • A função primordial de qualquer poder público é defender os direitos invioláveis da pessoa e tornar mais viável o cumprimento dos seus deveres;
  • Exige o bem comum que os poderes públicos operem positivamente no intuito de criar condições sociais que possibilitem e favoreçam o exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres por parte de todos os cidadãos. Atesta a experiência que, em faltando por parte dos poderes públicos uma actuação apropriada com respeito à economia, à administração pública, à instrução, sobretudo nos tempos actuais, as desigualdades entre os cidadãos tendem a exasperar-se cada vez mais, os direitos da pessoa tendem a perder todo o seu conteúdo e compromete-se, ainda por cima, o cumprimento do dever; 
  • O poder judicial administre a justiça com imparcialidade humana, sem se deixar dobrar pelos interesses de uma parte; 
  • O sucederem-se os titulares nos poderes públicos impede o envelhecimento da autoridade e assegura-lhe a renovação de acordo com a evolução social;
  • Um acto de grandíssima relevância efectuado pelas Nações Unidas foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem... Contra alguns pontos particulares da Declaração foram feitas objecções e reservas fundadas. Não há dúvida, porém, de que o documento assinala um passo importante no caminho, para a organização jurídico-política da comunidade mundial. De facto, no modo mais solene, nele se reconhece a dignidade de pessoa a todos os seres humanos, proclama-se como direito fundamental da pessoa o de se mover livremente em busca da verdade, na realização do bem moral e da justiça, o direito a uma vida digna e defendem-se outros direitos conexos com estes.
A essa figura contemporânea, com palavras do tempo presente, que Portugal saiba compreender e aplicar, sem tortuosos desvirtuamentos e sem temor».

In Cunha Leal, Cântaro que vai à Fonte, Coisas do Tempo Presente, Sociedade de Língua Portuguesa, Edição do Autor, Lisboa, 1963.

Cortesia de SLPortuguesa/JDACT

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607. Eduardo Brazão. «Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans»

jdact

Os Missionários do Padroado Português no Extremo Oriente
«(…) Francisco Xavier, já triunfador na Índia e nas Molucas, sai estrategicamente do Japão, não fosse ele um soldado experimentado de Loiola, no intuito de o conquistar um dia, quando tivesse ganho a China. O Japão deveria ser o último passo naquele mundo extremo-oriental. Houvera um erro de estratégia que era preciso, quanto antes, rectificar. São do Apóstolo estas palavras, escritas em 1552: A terra da China, está perto do Japão, e, da China lhe forão levadas as seitas que tem. Depois, contava da surpresa dos japoneses perante aquele credo novo. Para eles era coisa estranha que, sendo tal doutrina verdadeira, os chinas não a conhecessem e praticassem: os japoneses se espantavão muyto todos en geral pareçendolhes que, pois n'a lenda dos seus santos nom fazião menção d'este Criador, que nom podia aver hum Criador de todas as cousas. E mais, se todas as cousas do mundo tiverão principio, que a gemte da China soubera isto, de omde lhes veyo as leys que tem. Tem eles pera sy que os chins são muyto sabedores, asy n'as cousas do outro mundo, como n'a gobernação de reepubliqua... Era necessário doutrinar primeiro o velho Império do Meio.
Voltava de novo à Índia Francisco Xavier e aí prepara uma embaixada à China. Em Agosto de 1552 chegava à pequena ilha de Sanchuão, não distante de Macau, ali mesmo em face da imensa terra chinesa cuja conquista para Deus foi o último grande sonho do Apóstolo. Morria pouco depois, em Dezembro desse ano, sem o ter realizado. Mas abria as portas da empresa gigantesca. Poucas semanas antes de S. Francisco Xavier expirar na ilha de Sanchuão, com os olhos postos naqueles distantes horizontes em que ele tanto desejou penetrar, nascia, em Macerata, Matteo Ricci, glória da Companhia de Jesus e de Portugal de cuja obra foi um dos mais ilustres obreiros. Ia ser ele que pegaria no facho luminoso que o Apóstolo das Índias deixara cair das suas mãos inertes.
Organizava-se, em terras bem portuguesas de Macau, cabeça do nosso Padroado do Extremo Oriente, o assalto espiritual à China pagã. Alexandre Valignano, um italiano dos Abruzzos, organiza o ataque há tanto combinado. Mas aquele mundo pareceu-lhe logo impenetrável, o que levava o Visitador a pronunciar a célebre frase, recolhida por Semedo, e atirada pelo famoso jesuíta às terras indomáveis que se desfrutavam do cimo das nossas colinas: O rocca! O rocca! quando finalmente ti aprirai al Vangelo? São pedidos padres para Goa, aonde, com Valignano, haviam chegado tantos na leva de 1574. Em 1579 desembarca, em Macau, Miguel Ruggieri, que se começa a preparar na aprendizagem da língua chinesa com mais quatro irmãos leigos que já ali se encontravam. Pouco tempo volvido, em 1582, chega Matteo Ricci. Era o início da obra portuguesa nas terras do Império do Meio.
Notável foi a compreensão que logo o Visitador Valignano e depois Ricci e Ruggieri tiveram da forma a adoptar para a penetração na China. Queria o primeiro, pô-lo em prática o segundo, que em vez de se pretender europeizar o Oriente fosse cada missionário, nos limites da moral evangélica, indiano na Índia, chinês na China, japonês no Japão. Os resultados de tal critério estão bem patentes no triunfo de Ricci e dos seus sucessores. O rochedo tinha-se aberto.

A China e o Cataio. Pequim e Khanbalik
Com a chegada dos missionários do Padroado Português à Índia e à China folheiam-se de novo as páginas do livro de Marco Polo. Vêm à memória o Grão-Cataio e a cidade deslumbrante dos Khans, onde se tinham encontrado heréticos. Cruzavam-se aquelas terras adustas, não parava o labor dos nossos padres. E logo na primeira missão à corte do grão-mogol chegam notícias ao padre Montserrat, então no Kashmir, que no Tibet havia quem comungasse em certo templo das mãos dum sacerdote, nas duas espécies sagradas. Pensou-se em mandar reconhecer o terreno, ainda que tão difícil de alcançar, mas o insucesso final desses primeiros mensageiros da Fé Cristã na corte de Acbar fez por de parte o intento».

In Eduardo Brazão, Em Demanda do Cataio, A Viagem de Bento de Goes à China, 1603-1607, Gráfica Imperial, 2ª edição, Lisboa 1969.

Cortesia de Gráfica Imperial/JDACT

Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela. Latino Coelho. «Quasi logo ao principiar das gloriosas guerras da India se foi a provar fortuna, levando por mestre e capitão tão exemplar soldado como Francisco de Almeida, o qual ia então a governar e adiantar as conquistas portuguezas com titulo de seu primeiro vice-rei»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Fernão de Magalhães appareceu para continuar as façanhas e as glorias marítimas de Colombo, de Solis e Vasco Nunes de Balboa. Seis annos depois que Balboa, diz Alexandre Humboldt, com a espada na mão se mettia nas ondas até ao joelho, e pensava tomar posse do mar do sul em nome de Castella, dois anos depois que a sua cabeça rolava no cepo do verdugo, quando foi a insurreição contra o despotico Pedrarias de Ávila, cruzava Magalhães o mesmo mar do sudoeste ao noroeste n'um espaço de 1850 myriametros. Fernão de Magalhães começou a cursar os exercicios de guerra n'aquelle grande e lustroso theatro onde ceifavam as suas palmas, e os seus loiros, os Almeidas e os Albuquerques. Educado na côrte dos reis, ao serviço da rainha D. Leonor, e depois na de el-rei Manuel I, não era o seu animo varonil e aventureiro para casar-se de boamente com o remansado viver dos paços, onde o ócio é apenas temperado pelas fúteis occupações da etiqueta cortezan. Sentia-se porventura enclausurado o espirito d'aquelle que de nada menos se satisfez, que de navegar extensos mares desconhecidos e legar o seu nome aos fastos mais illustres da moderna geographia.
Quasi logo ao principiar das gloriosas guerras da India se foi a provar fortuna, levando por mestre e capitão tão exemplar soldado como Francisco de Almeida, o qual ia então a governar e adiantar as conquistas portuguezas com titulo de seu primeiro vice-rei. Logo a poucos passos se illustrou por uma acção nobilissima, que arguia ao mesmo tempo a sua galhardia e brios de navegante, e a fidalga generosidade do seu grande coração. Vinha Fernão da India para o reino em certa nau. Aconteceu dar a embarcação nos baixos de Angediva. Não desamparou Fernão de Magalhães o navio, antes com sua prudência e a auctoridade de seu animo esforçado conteve a guarnição até que vieram soccorrel-a n'esse lance. O capitão da nau propunha ao brioso portuguez que n'uma canoa se salvasse. Acceitára Magalhães o alvitre, com tanto que levasse comsigo um seu companheiro, com quem, apesar de menos illustre por nascimento e condição,
tinha tracto de amizade. Oppoz-se o capitão a que na barca se salvasse também o amigo de Magalhães; e Fernão, por um acto de generosa abnegação e de fidalga humanidade, antes quiz preparar-se para morrer, salvando o que devia á obrigação, do que comprar a vida por tão baixo preço de egoismo. Achou-se Fernão de Magalhães na primeira empresa de Malaca com Diogo Lopes Sequeira, e não desmentiu n'esta façanha gloriosa das armas portuguezas, os loiros que, por outras acções, lhe cingiam a fronte juvenil. Em Azamor, saindo uma vez a saltear os moiros, recolheu-se á praça com mais de oitocentos prisioneiros e copioso despojo dos inimigos, custando-lhe a facção uma lançada de que veiu a ficar com alguma deformidade no andar.
Depois de cruzar os mares, de pelejar na Africa e na India, julgou serem bastantes os serviços que prestara, para que el-rei lhe concedesse em galardão um accrescentamento na moradia, que, como fidalgo da sua casa, recebia. Era o rei Manuel I grande remunerador de bons serviços, e mormente dos que eram praticados nas conquistas, em cujo progresso, primeiro que tudo, se empenhava. Mas Manuel era rei, e ainda que monarcha absoluto no governo, sempre havia de ter ilhargas, por cuja conta corresse o afrouxar ou cerrar a bolsa da real munificência. Desde que houve reis e côrtes, houve também logo invejosos e cortezãos, que se adiantavam ao throno para tomar o passo aos beneméritos.
Que muito é pois que o soldado que voltava da Africa e da India, com petição tão justa quão modesta, achasse, ao entrar nos paços, quem fosse segredar a el-rei umas sonhadas malversações, uns senões calumniosos, com que a intriga de aulicos e o ciume de espíritos mesquinhos intenta sempre deslustrar a maior virtude e embaciar o mais peregrino entendimento? Também Cervantes jazeu nos ferros de Castella, por lhe arguirem más contas no officio que servia, e não lhe valeu contra a inveja nem o tiro de arcabuz, com que ficára manco, desde a jornada de Lepanto, nem o ser príncipe dos engenhos hespanhoes do seu tempo e porventura dos séculos vindouros. El-rei Manuel I, em vez do despacho que Fernão de Magalhães sollicitava, ordenou que voltasse á Africa a justificar-se das accusações que lhe faziam.
Soffreu o illustre portuguez o desaire do mau despacho, e a affronta ainda maior de lhe taxarem a honra com suspeitas. E determinando de passar á Africa, d'ali volveu pouco depois trazendo as provas que testemunhavam a falsidade das imputações. Tornou a requerer, o que sem petição lhe devia attribuir a justiça da côrte, se côrte e justiça não andassem desavindas desde tempos immemoriaes. Atravessaram-se os invejosos, e el-rei, cerrando os olhos ao merecimento, dizem que foi premiar pelos feitos de Magalhães os que n'elles tiveram menor parte. Fernão de Magalhães era portuguez, mas antes de ser portuguez era homem, e homem que se sentia interiormente predestinado para altas empresas e glorias immortaes. Podia dissimular então a injuria, indo novamente á India vingar-se, morrendo pelo rei, que assim o tinha aggravado. Fernão de Magalhães, a quem davam realce os espiritos elevados com que o dotou a natureza, entendeu que pátria e rei, que de si o demittiam, negando-lhe o honesto salário de seus serviços, e trocando-lhe o premio pela indifferença, não eram rei nem pátria a quem se devesse fidelidade». In Latino Coelho, Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela, Editores Santos & Vieira, Empresa Literária Fluminense, Imprensa Portuguesa, Lisboa, 1917.

Cortesia de Imprensa Portuguesa/JDACT

Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela. Latino Coelho. «… occidente de Veragua havia um mar, ainda não frequentado de europeus, o qual, são as próprias palavras do almirante, poderia abrir caminho em menos de nove dias até á Áurea Chersonesus de Ptolomeu e á foz do rio Ganges»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Singular condição dos destinos humanos, que seja o navio o primeiro instrumento das revoluções modernas, e que sejam as proas que tracem no livro immenso do Oceano a historia mais eloquente da civilisação. Desde que o aventuroso genovez sonha a sua gloriosa expedição e pede por especial mercê aos reis catholicos, que lhe dcêem uns pobres navios, por meio dos quaes virão a ser os mais poderosos principes do mundo, o desejo das empresas maritimas chega a ser na Europa um fanatismo, uma d'estas sublimes loucuras, com que o mundo se revoluciona, se transforma, progride, melhora e espedaça as cadeias da tradição, e deixa absortos perante não sonhadas maravilhas os próprios conquistadores. O caminho mais breve entre a Europa e as regiões encantadas do Oriente é a preoccupação dos navegantes e o sonho dos cosmographos. Colombo e Amerigo Vespucci saúdam as praias desconhecidas do Novo Mundo, julgando ter tomado terra n'uma região da Ásia oriental, e haver resolvido o grande problema da cosmographia e da navegação.

NOTA: Ainda que o navegador Colombo, que por fins do século XV dirigia esta empresa grandiosa, o descobrimento da terra americana, não levava de certo o seu intento em aportar a uma nova região do mundo, se bem que seja certo haverem Colombo e Vespucci perseverado até á morte na crença de que haviam apenas reconhecido uma parte da Ásia oriental, a expedição offerece comtudo os caracteres de um plano scientificamente delineado e conduzido. Humboldt, Cosmos, tomo II.

Se não tinham ancorado junto das praias do remoto Zipangu, Japão, que se julgava o termo suspirado e o premio digno de todas as expedições transatlânticas, deixaram, em seu conceito, aberta a estrada, por onde mais felizes, mas não mais audazes navegadores, iriam rematar a empresa começada. Se a inspiração com que Martin Alonso Pinzon, o companheiro de Colombo, se dizia illuminado, alcançou que o almirante genovez desistisse de seguir a supposta derrota para o Japão, e navegando para sudoeste, tomasse terra n'uma ilha americana, sempre é certo que o Novo Mundo se patenteou aos europeus por um destes erros felizes, que valem mil vezes mais do que a verdade. Partir das costas europeias, fazer-se á vela no rumo de sudoeste, abordar ás regiões orientaes, e voltar depois pelo mar das Indias, circumnavegando o globo inteiro, era a predilecta empresa dos grandes navegadores desde a primeira expedição de Christovão Colombo.
Estando o almirante na ilha de Cuba, escrevia no seu diário, no 1° de novembro de 1492: Ficam defronte de mim, e muito próximas, Zayto e Guinsay do grão-Kan. Eram o Zaytun e o Quinsay de Marco Polo. A ser verdadeira a narração de Fernando, filho do grande descobridor, e o testemunho de André Bernaldes, cura de los Palacios, o qual tratou intimamente e em sua casa hospedou o navegador, ao voltar da sua segunda expedição, deve acreditar-se haver Colombo, sempre infatigavel no proseguimento da sua grande empresa, tentado, ao sair de Cuba, navegar para o occidente, com o propósito de voltar á Hespanha por mar, tornando por Ceylão, e costeando a peninsula africana, ou regressar por terra, fazendo-se na volta da Palestina.
Os loiros de Vasco da Gama tinham pois corrido o lance de exornarem a fronte de Colombo. A Providencia, que havia traçado em seus planos maravilhosos o engrandecimento da civilização e a propagação da verdadeira fé nas mais dilatadas regiões, deu a Colombo o que elle menos invejava, rasgando-lhe o véo mysterioso que encerrava um Novo-Mundo, a Gama a honra de descobrir, por mares nunca d'antes navegados, o novo caminho do oriente. Ambos os navegadores eram necessários aos designios da Providencia, como gloriosos operários de uma inesperada reformação. A Colombo pertence, todavia, a primitiva traça de uma longa circumnavegação. A idéa que elle buscára iniciar não ficou perdida nem esteril. Na sua esteira navegaram os mais arrojados mareantes. Ao passo que progrediam os descobrimentos na costa oriental do Novo Mundo, recrescia o mais ardente desejo de encontrar uma passagem que, pelo norte ou pelo sul, levasse ás appetecidas regiões do Cathay e do Japão.
Havia-se tornado evidente aos mais incredulos o serem todas as costas já descobertas do Novo Mundo pertencentes a um vasto continente, que ia para o sul prolongando o seu extenso littoral. Depois da empresa, que immortalisou Colombo, o facto mais notável e fecundo na historia das relações entre o antigo e o Novo Mundo é sem contestação o descobrimento do mar do sul e das costas occidentaes americanas, que tanto lustre accrescentaram ao nome de Balboa. Alguns annos antes, o espirito eminente de Colombo se havia certificado de que ao occidente de Veragua havia um mar, ainda não frequentado de europeus, o qual, são as próprias palavras do almirante, poderia abrir caminho em menos de nove dias até á Áurea Chersonesus de Ptolomeu e á foz do rio Ganges.
Lê-se numa carta de Colombo, que os littoraes oppostos de Veragua estão na mesma relativa situação em que demoram Tolosa no Mediterrâneo e Fuenterabia na Biscaya, ou como Veneza no Adriático, e Pisa na contracosta. O descobrimento realisado por Balboa era a confirmação das idéas de Colombo. O intento, sempre dominante, de buscar uma passagem directa, ao norte ou ao meio dia, para chegar no mais breve transito até ás desejadas regiões da especiaria, continuava a achar nos mais aventurosos navegadores os apóstolos praticos da grande revolução que se julgava a ponto de operar-se na geographia, e no tracto mercantil com os paizes orientaes. A civilisação esperava n'este momento um homem d'estes que a Providencia designa com o seu dedo omnipotente, quando tem determinado voltar mais uma folha no livro da sciencia e da civilização». In Latino Coelho, Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela, Editores Santos & Vieira, Empresa Literária Fluminense, Imprensa Portuguesa, Lisboa, 1917.

Cortesia de Imprensa Portuguesa/JDACT

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela. Latino Coelho. «Vasco da Gama pertence á mesma pátria que tem por cidadãos a Colombo, a Newton, a Galileu, a Raphael, a Watt, a Galvani, a todos estes espiritos illuminados, como raios de luz sobrenatural, para doirar as trevas da humanidade»

jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Se assim tivesse acontecido, porventura havia de ler-se agora na carta da península hispânica: Portugal, provinda mais Occidental da Hespanha. E lê-se: Portugal nação independente e gloriosa por seus feitos. A terra illustrada pelo mestre de Aviz e por Nuno Alvares não teria conservado o privilegio de independência com melhor fortuna do que o reino de Aragão ou a esquecida monarchia de Navarra. Podiam edificar a Batalha e o velho monumento de João I; esta epopéa cavalleirosa e christan, cinzelada em pedra, não teria assegurado a liberdade portugueza contra a lei providencial que pune pela conquista a obscuridade ou a decadência das nações.
Portugal é nação desde o dia em que saiu a cruzar os mares. Até ali era o colono humilde que lavra ignoto a estreita gleba patrimonial. Desde então foi o cavalleiro da christandade, o obreiro da civilisação. Até então era apenas Portugal. D'ali por diante começou a ser Europa, a ser mundo, a ser heroe, a ser intelligencia, a ser força, a ser luz, a ser liberdade, progresso, gloria e civilisação. A historia das nações principia e acaba onde ellas começam e terminam a sua participação nas grandes metamorfoses da humanidade. Uma nação não são quatro linhas onduladas traçadas n'um mappa geographico para a separar das outras nações; não é um povo que vive e passa sem deitar de si um brado que se escute além da pátria; não é um throno, um governo, um patriciado, uma plebe, uma sociedade que esconde o seu presente entre um passado sem memorias, e um futuro sem aspirações. Por isso a Polónia desappareceu, e as suas ressurreições são apenas a rápida tragedia do patriotismo, que lucta desesperado contra a fatalidade. Por isso a Hungria não pôde desatar os vínculos onde a estreita a monarchia austríaca. Por isso a Sicilia não pôde jamais consolidar a sua nacionalidade independente.
As nações são os órgãos d'este grande todo, que se chama humanidade. Ora não ha órgãos supérfluos, estéreis, a que não deva corresponder uma funcção. Quando a sua missão expira ou a sua inutilidade é manifesta, a Providencia sentenceia, encarnando na espada do conquistador. É assim que Veneza, a senhora dos mares, agonisa e desapparece, quando os modernos descobrimentos tornam mesquinha e obsoleta a actividade maritima e mercantil da republica do Adriático. É assim que a aventurosa Carthago, ultima representante da civilização phenicia, empallidece e cae prostrada finalmente aos pés do povo vencedor, que é chamado a dilatar por mais remotas regiões a conquista e a civiiisação. É assim que as nações americanas caem, deixando apenas a memoria dos seus nomes e o reflexo dos seus feitos. É assim que n'este portentoso turbilhão, que se chama a historia da humanidade, a cidade de hoje será a necropoles do dia seguinte, o monumento de hoje ministrará as pedras ao monumento de amanhã, a columna gentílica será o pedestal da estatua de S. Pedro, e a pyramide de Cheops dará sombra ao mameluko e ao fellah.
Está ainda por escrever a verdadeira historia nacional: ao mesmo tempo historia do povo portuguez, e capitulo eloquente e memorável da historia da civilisação. É a historia do génio portuguez, a historia da sua collaboração na grande obra do progresso pelas suas arrojadas navegações e pelas suas conquistas, se bem que ephemeras, não menos providencialmente destinadas. O que faz dos Lusíadas um poema venerado no mundo, não é a belleza dos episódios ou colorido das descripções. Não é a figura tremenda de Adamastor, ou o vulto sympathico de Ignez; não é a amenidade paradisíaca da ilha dos Amores, nem a ficção risonha das sereias, que impellem docemente as naus portuguezas na solidão do Oceano. É que o assumpto é de toda a christandade, porque é a inauguração solemne da moderna civilisação. Vasco da Gama não tem pátria. É da Europa toda, e de todo o mundo civilisado. Os homens que iniciam uma grande transformação na humanidade tiveram o berço n'uma pátria limitada, mas a posteridade agradecida inscreve-os solemnemente como proceres no livro de oiro da republica universal. Vasco da Gama pertence á mesma pátria que tem por cidadãos a Colombo, a Newton, a Galileu, a Raphael, a Watt, a Galvani, a todos estes espiritos illuminados, que Deus despede de si a espaços, como raios de luz sobrenatural, para doirar as trevas da humanidade.
É no cyclo das nossas glorias marítimas, que resplandecem os nomes mais illustres da historia nacional. É desde estes tempos, que os nomes portuguezes começaram a ser pronunciados com assombro pela Europa. Desde os primeiros navegadores que se engolfaram no Oceano em demanda das mais remotas costas africanas até aos derradeiros mareantes, que já na decadência do nosso esplendor e poderio, ainda legam um nome portuguez a uma ilha ou a um promontorio, novamente descoberto, que de appellidos illustrissimos, que de glorias venerandas, que de varões verdadeiramente beneméritos não só da pátria, que é a pátria estreito circulo para engastar uma grande gloria, mas beneméritos da civilisação e da humanidade! D'este numero é illustrissimo entre os mais illustres o nome de Fernão de Magalhães, que hoje representa a nossa estampa.

As empresas arrojadas e aventurosas de Christovão Colombo e Vasco da Gama foram o signal e o principio de uma serie ininterrupta de navegações e descobrimentos, que ainda hoje, depois de quasi quatro séculos, se proseguem com fervor no empenho de implantar a civilisação em toda a terra, e de completar a geographia.
Desde que, pelos annos 1000 da era christan, o scandinavo Leif Erik, descobriu a America do Norte, consequência dos primeiros estabelecimentos norueguezes na Islândia e na Groenlândia até á moderna circumnavegação da fragata austríaca Novara, desde os imperfeitos conhecimentos geographicos consignados no Opus majus de Roger Bacon e no Imago mundi do cardeal francez Pedro d'Ailly ou d'Alliaco, até ás exactas correctas informações que, ácerca da terra, nos offerece a moderna geographia, decorre uma successão de empresas, de aventuras e de investigações laboriosas, que é a mais alta e a mais illustre representação dos progressos da humanidade.

NOTA: Leif, filho de Erik o vermelho, aportou á America Septentrional, e reconheceu as suas praias desde o extremo norte até 41º e meio de latitude boreal. Beijarn Herjulfssen havia já descoberto as costas americanas, sem ter tomado terra no novo continente em 986.
Naddod avistou as costas da Islândia por meado do século X e Ingolf estabeleceu n'esta ilha o primeiro estabelecimento scandinavo em 875.
A Groenlândia recebeu uma colónia islandesa em 983. Till de nordislka landerna maste afven raknas Islandera, som bebyggdes af Norman. De besoekte, pasina sjoeresor, Gronland och ett land, som de kaelladde Winland, numera Norra Amerika. De hade salunda langt fóre Columbi tid upptackt Amerika. Mellin, Sveriges Historia, Stockholm. 1839.

In Latino Coelho, Fernão de Magalhães. Escritos Literários e Políticos. Coligidos e publicados sob a direcção de Arlindo Varela, Editores Santos & Vieira, Empresa Literária Fluminense, Imprensa Portuguesa, Lisboa, 1917.

Cortesia de Imprensa Portuguesa/JDACT

Fundação Oriente. Exposição. Fotografia. «… essa memória que se construiu com a eternidade das civilizações das utopias do Oriente, as suas singularidades, mas também a exuberância que transmitimos ao nosso barroco, a suavidade da fé na renovação da vida…»


Cortesia da fo

Exposição Memórias de Viagens do Olhar
Até ao pf dia 20 de Outubro de 2013. Museu do Oriente.
No pf dia 5 de Julho, pelas 18h00, visita guiada pelo autor.

Fotografia de Júlio de Matos
«Júlio de Matos desestrutura a nossa memória, essa memória que se construiu com a eternidade das civilizações das utopias do Oriente, as suas singularidades, mas também a exuberância que transmitimos ao nosso barroco, a suavidade da fé na renovação da vida, a sofisticação das formas que assombram a nossa decadência dos realismos, o mistério da permanência. Maria do Carmo Serem, coordenadora do Departamento de Formação e Comunicação do Centro Português de Fotografia do Ministério da Cultura, refere-se desta forma à fotografia de Júlio de Matos.
Natural de Braga, o fotógrafo traz ao Museu do Oriente cerca de uma centena de fotografias tiradas nas suas múltiplas viagens pela Ásia e que revelam a sua grande preocupação pela sobrevivência de culturas ancestrais, como algumas da Índia, da China ou do Cambodja.
Júlio de Matos que, desde cedo, se interessou pela fotografia e pelo trabalho de laboratório, fez aprendizagem em Design Industrial com Gerald Gulotta do Pratt Institute de Brooklin, Nova Iorque. Após concluir em 1976 o Curso Superior de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, pôde aperfeiçoar os seus conhecimentos de fotografia, ao ter-lhe sido concedida a ITT–International Fellowship, através do Fullbright- Hays Schollarship Program para estudos de pós-graduação no MFA in Photography Program no Rit-Rochester Institute of Technology, Nova Iorque.
Entre 1979 e 1981 estudou com Charles A. Arnold Jr. Owen Butler, Bea Nettles, John Pfahl, Elliot Rubinstein, Richard D. Zakia e outros.
Realizou várias exposições individuais e colectivas em Portugal, França, Itália, USA, e está presente em diversas colecções, nomeadamente nas colecções do RIT (EUA) e do Museu de arte Moderna na Fundação de Serralves». In Fundação Oriente.



Cortesia de F. Oriente/JDACT

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eleonor na Serra de Pascoaes. António Cândido Franco. «… porque o génio panteísta do Poeta dá iluminado relevo à treva e colorida carne aos esqueletos… D'este casamento entre a névoa sebastianista e o sol apolíneo nasceram o Ar Livre, o Pão e as Rosas e as Canções do Sol e do Vento...»

jdact

«(…) Ao lado das Odes Modernas de Antero é indispensável colocar as Claridades do Sul de Gomes Leal, as Heras e Violetas de Guilherme Braga, as Poesias de Cesário Verde, certos poemas de João de Deus e de Guerra Junqueiro, que são sem dúvida dos mais perenes da nossa língua. Também a poesia de Teixeira de Pascoaes não está, no apogeu de todo este ciclo, isolada; a ela se devem juntar, na primeira fase, que é a de Coimbra, as de João Lúcio, Afonso Lopes Vieira, António Corrêa d’Oliveira, e as de Augusto Gil e Fausto Guedes Teixeira, e depois, numa segunda fase, que é a da revista A Águia e a da Renascença portuguesa, as de Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, Afonso Duarte Mário Beirão, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
A João Lúcio(1880-1918) dedicou Teixeira de Pascoaes uma conferência inteira, que foi editada vinte anos depois da sua morte, pela revista Brotéria.  A conferência foi escrita, mas parece que nunca lida, em Maio de 1951. Nela diz Pascoaes de João Lúcio e da sua poesia:
  • Assim o vulto de João Lúcio se destaca na turba de estudantes. Vejo-o. Estou a vê-lo e a ouvi-lo através de 52 anos! E é como se ele estivesse ao pé de mim. Com o Augusto Gil e o Fausto Guedes! O Lúcio era o mais distinto de aparência, e o maior criador de poéticas imagens! Que fantasia sensual! Que primavera a do seu génio! (…) Lede O Meu Algarve. O Na Asa do Sonho! Que turbilhão de imagens multicolores, onde cristalizam ou se esculpem, a cada instante, as formas mais perfeitas de Poesia. O seu verbo tem todas as cores do arco-íris. As suas palavras, no papel, são pinceladas numa tela. Não esqueçamos que era tio do poeta o grande pintor Pousão. As tintas do tio enchiam-lhe o tinteiro, que as não continha.
A António Corrêa d’Oliveira (1879-1960) dedicou Teixeira de Pascoaes muitas páginas dos seus livros, quer falando no poeta quer da sua poesia. Numa dessas páginas comparou-o Pascoaes a Gil Vicente, ao mesmo tempo que comparava Raúl Brandão, outro dos diálogos fundamentais da obra de Pascoaes, com Tolstoi e Dostoievski: E há ainda Corrêa d’Oliveira, esse faminto de terra e céu, esse povo português, como Gil Vicente; e Raúl Brandão, esse genial faminto russo, como Tolstoi e Dostoievski.
Também a Afonso Lopes Vieira (1878-1946) e à sua poesia dedicou Pascoaes outras páginas, até pelas memórias que dele tinha do tempo de Coimbra, onde chegou a assinar conjuntamente com ele um livro de versos, e em muitos parágrafos da sua obra praticou
Pascoaes a exegese poética dos versos deste seu companheiro. Foi com a poesia de Lopes Vieira que ele abriu o capítulo VI de Os Poetas Lusíadas (l.ª edição, 1919), onde de resto encontramos a melhor visão que o próprio Pascoaes tem da sua contemporaneidade. Lopes Vieira veio ao mundo envolto na sombra do Encoberto. A Lembrança do Rei camoneano amanhece florescida nos seus versos, porque o génio panteísta do Poeta dá iluminado relevo à treva e colorida carne aos esqueletos… D'este casamento entre a névoa sebastianista e o sol apolíneo nasceram o Ar Livre, o Pão e as Rosas e as Canções do Sol e do Vento...»

In António Cândido Franco, Eleonor na Serra de Pascoaes, Edições Átrio, Lisboa, Colecção o Chão do Touro, 1992, ISBN-972-599-042-0.

Cortesia de Átrio/JDACT

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um Problema Religioso. Cátaros. Um Pretexto Político. Jesus Mestre Godes. «De las tres famosas damas, sin duda la más comprometida con el catarismo fue “Esclaramunda”, (…) recibiendo el ‘consolamentum’, pasó a ser ‘perfecta’. “Esclaramunda” se convirtió en un mito para los historiadores del Lenguadoc, ‘la Dama de las cortes de Amor, la inspiradora de los trovadores’, “la Bella”»

jdact

Lenguadoc. Século XIII
As Forças Políticas
«(…) Unavez más se destaca la convivencia que existía entre señor y caballeros, al mismo tiempo que se señala de forma clara la otra convivencia: la de caballeros y cátaros. Está demostrado, ya fuera por la juventud de Ramón-Roger, cuando se inicia la Cruzada tenía sólo veinticuatro años, o por el aire democrático que impregnaba el país, que Guilhem de Puylaurens, cronista de los cruzados, tiene más razón que un santo al afirmar que durante los años que precedieron a la Cruzada, nada había obstaculizado la propagación de la herejía. Muy distinto era el ambiente que reinaba en Narbona y su reducido vizcondado. El vizcondado de Narbona compartia el dominio de dos señores: el vizconde y el obispo. Pero mientras el pequeño territorio confería escasa importancia al señor civil, el representante religioso tenía gran categoría, ya que Narbona era la sede del arzobispado del Lenguadoc, con amplios poderes de jurisdicción eclesiástica sobre territorios de su entorno. En tiempos de la Cruzada, el poder civil estaba en manos de los Lara y concretamente en las de Aimeric de Lara, que lo había heredado de su tía Ermengarda de Narbona. El otro señor, el eclesiástico, era un personaje sumamente interesante. Se trata de Berenguer, hijo natural de Ramón BerenguerIV, el que cristalizó la unión de Cataluña y Aragón. Es, por lo tanto, hermanastro de Alfonso el Casto y, en cierta medida, tío de Pedro I. La carrera de los hijos naturales reales era, en muchos casos, la carrera eclesiástica, y en este caso se puede decir que a Berenguer le sonrió la fornrna en ella Después de pasar por diferentes dignidades menores accede al cargo de obispo de Lérida y de allí es catapulado a la sede territorial de Narbona, de la cual es arzobispo desde el año 1191.
Berenguer, que debió de tener muchas virtudes religiosas, se hizo notar, sin embargo, por sus inclinaciones humanas, y destacó sobremanera por su ambición de lucro. Existe una carta muy clara, como todas las de Inocencio III, en la que retrata a su representante: Pero la causa de todos los males [del Lenguadoc] reside en el arzobispo de Narbona: es un hombre que no conoce más Dios que el dinero; en el lugar del corazón tiene un portamonedas. Al cabo de diez años [...] no ha visitado ni una sola vez  su diócesis [...]. Cuando una iglesia queda vacante se abstiene de nombrar titular y así se aprovecha de las rentas. En su diócesis monjes y canónigos rechazan el hábito, conviven con mujeres, practican la usura....
Que a Berenguer le gustaba el dinero es cosa cierta. Siempre tuvo mucho interés en continuar rigiendo otras instituciones que nada tenían que ver con Narbona. De este modo, a pesar de la gran distancia a que quedaba de su arzobispado, Berenguer continuó siendo abad de Montearagón, un monasterio de monjes regulares, en Huesca. Era un monasterio muy rico, al cual Berenguer viajaba a menudo y en el que pasaba temporadas dedicado al recuento de caudales. Si bien Berenguer sucumbia al pecado de la avaricia, el tratamento que daba a los problemas de la fe era muy distinto, especialmente en lo relativo a la herejía. El vizconde Aimeric, por su parte, trataba de seguir las pautas ortodoxas de sus admirados franceses del norte. De este modo, uno y otro lograron que en la ciudad y en su territorio apenas tomara alas la herejía.
Observemos lo que sucedía en el otro extremo, pasando del pequeño vizcondado de Narbona al escasamente más extenso condado de Foix. Dado que los Foix eran originarios de Carcasona, todo quedaba en casa. En tiempos de la Cruzada reinaba aquí el conde Ramón Roger, y todo el mundo está de acuerdo en afirmar que no sólo las gentes del país, sino los mismos condes eran, más o menos, cátaros. Tanto Ramón-Roger como su hijo Roger Bernart, que lo sucedió durante la Cruzada, negaron, sin embargo, de forma absoluta y enérgica este supuesto. Al igual que los señores de Tolosa y al igual que los Tiencavel, se opusieron a las fuerzas de la Cruzada y es bien sabido que la fortuna no les fue favorable. Tãmbién es verdad que el calificativo de herejes que se dio a los condes de Foix es una cuestión de mujeres, en el buen sentido de la palabra. Es cierto y real que hay tres mujeres, como mínimo, que giran en torno de los Foix y que eran cátaras de manera declarada.
  • La primera, Felipa de Foix, esposa de Ramón Roger y madre de Roger Bernart; 
  • La segunda, Esclaramunda de Foix, hermana y tía respectivamente de los condes; 
  • y la última, Ermesenda de Castellbò, la mujer catalana de Roger Bernart.
Estas tres damas, de una importancia indiscutible en la pequefla corte pirenaica, son cátaras convencidas, y así lo admiten en sus escritos de descargo sus maridos y hermano. Ramón Roger afirma, por ejemplo, en referencia a su hermana Esclaramunda, el año 1215: si mi hermana ha estado mal aconsejada y ha sido pecadora, como es cierto, yo no debo, por sus pecados, arruinarme. Bastantes años después, concretamente en 1241, delante de los inquisidores, Roger Bernart no deja muy bien parada a Ermesenda. En el sumario inquisidor se puede leer lo siguiente: Roger Bernart dice no haber visto a la condesa, su esposa, después de que ella se volviera herética y que desde entonces él no le dio nunca nada más, fuera lo que fuese... De las tres famosas damas, sin duda la más comprometida con el catarismo fue Esclaramunda, que al enviudar de su marido, justo a finales del siglo XII, se hizo cristiana y, recibiendo el consolamentum, pasó a ser perfecta. Esclaramunda se convirtió en un mito para los historiadores del Lenguadoc, la personificación de la Dama de las cortes de Amor, la inspiradora de los trovadores, la Bella.
Ya sólo nos resta  presentar a los dos reinos externos al Lenguadoc, atentos, empero, a lo que en él sucedía. En tiempos de la Cruzada, Felipe Augusto era el rey de Francia. El año 1180 moría su padre Luis VII, llamado el Joven, que había estado casado con aquella figura novelesca, digna de Walter Scott, que fue Eleanor de Aquitania, una dama de la Occitania occidental, amiga de trovadores y poetas... y coleccionista de amantes regios. A Felipe II se le denominó el Augusto porque incrementó el magro territorio capeto, primero a costa de Normandia y después.con la conquista del ducado de Bretaña. La Batalla de Bouvines, librada en los momentos más álgidos de la Cruzada, aseguró la consolidación del Reino de Francia, a la vez que frenaba cualquier tentación que pudiera tener el Imperio Germánico, en el otro lado de Europa. Felipe Augusto es el primer rey de la nueva Francia que puede respirar con cierta tranquilidad». In Jesus Mestre Godes, Els Cátars, Problema religiós, pretext politic, Cathari, Ediciones Península, 1997, ISBN 84-8507-710-8.

Cortesia de Península/JDACT

Cátaros. Um Problema Religioso. Um Pretexto Político. Jesus Mestre Godes. «Guillermo de Tudela expresa los problemas del joven vizconde diciendo: en razón de su tierna edad se familiarízaba con todas las gentes de su país; ellos jugaban con él como si fuera uno más. También es verdad que todos sus caballeros daban asilo a los heréticos en su castillo»

jdact

Lenguadoc. Século XIII
As Forças Políticas
«(…) Ramón VI sucede a su padre el año 1194 toma las riendas de un estado que había conseguido la máxima extensión de territorio de toda su historia, con una sensación de potencia equiparable a la de sus poderosos vecinos del norte y del sur. De creer a los cronistas, Ramón VI era un príncipe inteligente, brillante, bueno, sensato, pero versátil y débil. Amigo de las artes y las letras, en su corte se reúnen los mejores trovadores de su tiempo. Realiza contratos matrimoniales, según el grado de su fantasia e interés. Se divierte viendo discutir a monjes católicos y ministros cátaros. En lo tocante a Ramón VI existen opiniones para todos los gustos. Pierre des Vaux-de-Cernay, el despiadado cronista de la Cruzada manifiesta otra, nada sorprendente:
  • Ramón VI es un miembro del Diablo, hijo de la perdición, criminal inveterado, cajón repleto de pecados... El mismo Inocencio III prescinde de la caridad cristiana cuando le escribe, en mayo de 1207, e inicia con actitud francamente afectuosa la carta. Tirano impío y cruel, hombre pestilente e insensato.
Veamos la otra cara, contemporánea, de la medalla. El cronista y poeta Guillermo de Tudela, autor de la Cansó,o Cantar, de la Cruzada, nos da a conocer la estimación del pueblo de Tolosa, al explicarnos cómo recibieron los ciudadanos a su conde en noviembre de 1217, unos meses después del sitio de Beaucaire, que constituyó la primera derrota de los cmzados desde el inicio de la Cruzada:

Y cuando el conde entra por los soportales
todo el pueblo acude, mayores y niños,
los barones y las damas, las mujeres y maridos
se arrodillan ante él, besando sus vestidos
y sus pies, piernas, brazos, manos y dedos.

A la muerte de su padre, Ramón tiene ya treinta y ocho años y es, por lo tanto, un hombre maduro, sobre todo si se toma en cuenta la época. De una indiscutible ascendencia católica, nieto de Alfonso-Jordán y biznieto de Ramón IV cuesta creer que estuviera afectado por la herejía câtara. Se casó cinco veces, actitud que le reprochan los historiadores enemigos que, naturalmente, todavía ven con malos ojos las dos ocasiones en que repudió a sus esposas, Beatrizy la hija del rey de Chipre. Ramón VI aparece como un príncipe que se mueve de forma dubitativa, confusa, en dos direcciones: por un lado quiere vivir en el seno de la Iglesia y, no romper ningun vínculo importante con ella. Cuando examinemos los acontecimientos de la Cruzada veremos las múltiples oportunidades en que acata imposiciones, afronta castigos infamantes, invocando contra viento y marea su fe católica. Por otro lado él vive entre los suyos, en medio de nobles y burgueses, cerca del pueblo llano, todos ellos muy influidos por la herejía, y es tolerante para ser coherente con la sociedad de ese Lenguadoc, el cual Ramón amaba hondamente. Esa sociedad que a decir de Vicaire, el mejor historiador de santo Domingo, es de una dulzura y de una facilidad en el vivir que resultan poco menos que únicas en la época, en toda Europa.
Esta especie de contradicción profunda entre las dos convicciones, la de sus creencias religiosas y la de sus creencias vitales, será el gran drama de Ramón VI y será a un tiempo el gran drama de su país, que comulgaba, punto por punto, con los mismos sentimientos de su conde. Esa contradicción fue, también, la causa de la irritación de Inocencio III y por lo tanto uno de los motivos de la convocatoria de la Cruzada. A Ramón VI se le reprocha que no puede ni se atreve a hacer nada en contra del abandono de la fe por parte de muchos de sus amigos y fieles. Su hijo Ramón VII será mucho más claro: dirâ que voluntariamente no quiere hacer nada. En este último, la cerrazón es fruto de la amargura y de la derrota, de íntima rebelión contra los otros, trátese de señores franceses o de la lglesia. En la actitud del padre no alcanzamos a ver, empero, razones secretas o heréticas que sostengan su conducta contradictoria, de duda y de tibieza.
La verdad es que en vísperas de La Cruzada, el Papa Inocencio III, su gran protagonista, está convencido de que no puede contar con Ramón VI. Y los obispos del Lenguadoc serán los primeros en atizar la malevolencia contra el conde de Tolosa, hasta el punto de manifestar que la Iglesia no podrá tener tranquilidad mientras este hombre infamante disponga del condado de Tolosa.
Al lado justo del condado de Tolosa y no siempre al lado de Ramón VI, encontramos la dinastía de los Trencavel. Ramones yTrencavel estaban vinculados por lazos familiares y de amistad, si bien estos resultaban excesivamente quebradizos. El mismo año en que moría Ramón V y tomaba las riendas del condado su hijo Ramón, también fallecía el vízconde Roger II, que estaba casado con la hermana de Ramón VI. Ramón-Roger, su hijo, heredó el vizcondado a los nueve años. Tres años más tarde moría su madre Adelaida de Tolosa y al adolescente se le asignó como tutor Bertrán de Saissac, de acuerdo con los deseos testamentarios de su padre, Roger II. El caso es que Saissac hedía a cátaro por todos los poros, según afirmación de los cronistas cruzados. La consecuencia es clara: si Saissac fue elegido como mentor de Ramón-Roger, los Tiencavel también están afectados.
Naturalmente, también hay quien dice que el vizconde de Albí, Carcasona y Béziers permaneció fiel a la Iglesia, al margen de quién fuera su tutor. Así 1o afirma el otro cronista, Guillermo de Tudela, haciéndose eco del testimonio de muchos clérigos y muchos canónigos que viven en los claustros. La situación de Ramón-Roger era similar a la de su tío Ramón, pero con la diferencia de que el país del vizconde estaba mucho más penetrado por el catarismo, sobre todo entre la pequeña nobleza y las clases acomodadas. El pueblo llano, sin apenas distinciones en un dominio u otro, da la impresión de haber escogido ya el catarismo como alternativa. Guillermo de Tudela expresa los problemas del joven vizconde diciendo: en razón de su tierna edad se familiarízaba con todas las gentes de su país; ellos jugaban con él como si fuera uno más. También es verdad que todos sus caballeros daban asilo a los heréticos en su castillo».

In Jesus Mestre Godes, Els Cátars, Problema religiós, pretext politic, Cathari, Ediciones Península, 1997, ISBN 84-8507-710-8.

Cortesia de Península/JDACT