sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fernando Pessoa no 31. Ricardo Reis. Lisboa. «Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, e deseja o destino que deseja; nem cumpre o que deseja, nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros o Fado nos dispõe, e ali ficamos; que a Sorte nos fez postos onde houvemos de sê-lo»

jdact e wikipedia

Amo o que Vejo
Amo o que vejo porque deixarei
qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.

No plácido intervalo em que me sinto,
do amar, mais que ser,
amo o haver tudo e a mim.

Melhor me não dariam, se voltassem,
os primitivos deuses,
que também, nada sabem.


Da Verdade não Quero Mais que a Vida
Sob a leve tutela
de deuses descuidosos,
quero gastar as concedidas horas
desta fadada vida.
Nada podendo contra
o ser que me fizeram,
desejo ao menos que me haja o Fado
dado a paz por destino.
Da verdade não quero
mais que a vida; que os deuses
dão vida e não verdade, nem talvez
saibam qual a verdade.


Não Sejamos Inteiros numa Fé talvez sem Causa
Meu gesto que destrói
a mole das formigas,
tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
para si o não sejam,
e só de serem do que nós maiores
tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
mesmo para com esses
que cremos serem deuses, não sejamos
inteiros numa fé talvez sem causa.

Poemas de Ricardo Reis, in "Odes" (Heterónimo de Fernando Pessoa)

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Ensaio no 31. Evocação de Maria Lúcia Lepecki. Beatriz Weigert. «… queixa-se de que “o raciocínio rangia fragorosamente nas dobradiças”, para sublinhar mais tarde haver larguíssimas, dezenas de páginas, a ranger novamente nas dobradiças. … desculpa-se: “assumi o risco de piorar, com a emenda, um soneto que já não seria grande coisa”»

Cortesia de wikipedia

Escritora, investigadora, ensaísta, crítica literária, professora
«(…) As escritas preambulares tanto quanto sublinham sua localização no espaço da obra, declaram cientificamente seu género: Introdução, Intróito, Prefácio. É referência discursiva, pode ser ritual-litúrgica. Componentes de carácter afectivo e científico formulam-se em estilo coloquial, dirigindo-se ao leitor. Assim, lê-se intenção e agradecimento, acrescentados de justificativas que vão da escolha do título do livro à fundamentação teórica. Na entrada dos Estudos de Literatura Portuguesa e Africana, a escritora confessa a procura de designação-síntese para o trabalho realizado. Sobreimpressões quer abranger o processo do discurso crítico, em que se sobreimprimem intertextualidades, agindo em polifonia máxima, movimentando-se em direcção a noções que se atraem até ao encaixe, aflorando o sentido. Para esse objectivo, transitam retórica e interpretação, em demanda que, sendo, sem dúvida, intelectual, é, sobretudo, uma extraordinária experiência espiritual, mesmo religiosa. Maria Lúcia completa asseverando: Nada tenho a opor: sempre achei ser Deus a metáfora do sentido. Justifica-se a relação anunciada, retórica, interpretação, espírito, ao nome de Deus. A escrita preambular, além de entregar a base da fundamentação teórica, considera o percurso de aquisição de conceitos, o trilho que a ensaísta perseguiu para encontrar aquele conhecimento. Nesse item, o traçado de uma biografia intelectual esboça-se. E Maria Lúcia tem historietas diferenciadas para ilustrar seu aprendizado e suas perquirições.
Em Autran Dourado, conta as investidas em busca da estrutura da análise, a escrita-desescrita-reescrita, em que parece difícil achar o início do fio desse bordado. Até que se revela o problema da cosmovisão mítica das vivências típicas do homo religiosus, servindo mito e rito para organização do desenvolvimento da análise com Intróito e Canon a constituírem partes do texto. No propósito da leitura mítica e análise sociológica, Maria Lúcia pretende atingir, através do texto ficcional, a vida latente no subtexto Histórico-cultural. Em Cardoso Pires, relata sua formação eclética, com trânsito da sintaxe e morfologia do Latim a teorias e teóricos da Literatura. Já docente da Universidade de Lisboa, Lepecki recebe da Faculdade de Letras a responsabilidade pela disciplina Literatura e Mito - Tematologia Literária, campo de preferência, sabe-se. No tocante ao livro, revela que, para chegar ao entendimento da obra do autor, emprega árduo esforço. Era preciso compreender o país, compreender melhor todas as escritas que na realidade profundamente se enraízam.
Em Ideologia e Imaginário, a ensaísta pretende uma perspectiva marxista para mostrar como uma opção ideológica trabalha os dados do imaginário. E, tendo a impressão de cinematografia em Cardoso Pires, Maria Lúcia investiga se o cinema teria produzido uma revolução do imaginário de tal ordem que qualquer forma do ficcional, pudesse contaminar-se do fingimento fílmico. E vai à teorização da conaturalidade entre o discurso do filme e a narrativa de Cardoso Pires. E, a confiar no julgamento do leitor, a investigadora reitera a pertinência da hipótese […] tão fascinante como lógica. Como se vê, sendo acto presente, a introdução relata o acto passado da pesquisa e da elaboração, enquanto é também acto judicativo, uma vez que avalia a matéria tratada, o leitor e mesmo a ensaísta. Maria Lúcia, referindo-se às suas tantas buscas e correcções, queixa-se de que o raciocínio rangia fragorosamente nas dobradiças, para sublinhar mais tarde haver larguíssimas, dezenas de páginas, a ranger novamente nas dobradiças. Forma de apresentação de trabalho, Maria Lúcia desculpa-se: assumi o risco de piorar, com a emenda, um soneto que já não seria grande coisa». In Beatriz Weigert, Evocação de Maria Lúcia Lepecki Revista Letras Com Vida, Literatura, Cultura e Arte,  nº 4, 2011, CLEPUL, Gradiva.

Cortesia de CLEPUL/JDACT

Filosofia no 31. Metamorfoses da Palavra. Estudos sobre o pensamento português e brasileiro. Pedro Calafate. «O mundo humano não é encarado como fechado sobre si próprio, verificando-se um movimento de abertura e de relação a tudo o que o cerca, no âmbito de um já muito vincado optimismo…»

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Filosofia e espiritualidade em S. António de Lisboa
«(…) Aliás, esta imagem do círculo é bastante fecunda no pensamento medieval, constituindo um eco do neoplatonismo. Deus é o centro de um círculo de onde tudo emana e para onde tudo se dirige, sendo nessa ordem do fim, ou seja, da finalidade do homem que se concentra toda a espiritualidade franciscana, a qual sendo de raiz agostiniana dela divergirá sobretudo no modo como encara a perspectiva da interioridade. Em contrapartida, o mundo é assim chamado por estar sempre em movimento, nenhum repouso sendo consentido aos seus elementos. Assim, quando critica a filosofia entendida como sabedoria do mundo, está-se a referir ao saber que se faz sem Deus, em orgulhosa autonomia, um saber filosófico que se não constrói no quadro daquela dócil humildade da razão, que reconhece no conteúdo da revelação a sua mais firme garantia contra o erro.
Dai a relação que propõe entre a ciência sagrada e as ciências profanas no Prólogo dos Sermões Dominicais. A plenitude da ciência está contida no Velho e no Novo Testamento. Só a sabedoria que deles emana poderá fazer os sábios, logo, como o ouro está acima de todos os metais, assim a ciência sagrada sobressai a toda a ciência. É por isso que, como diz Francisco Gama Caeiro, o pensamento medieval se constitui, em boa medida, como uma exegese, a qual possuindo uma necessária dimensão técnica, não se reduz a um mero processo técnico, pois que a Bíblia representa um verdadeiro mundo cultural, sendo perante esse mundo que o homem vive e pensa. A imagem que nos dá Santo António a propósito de ambos os testamentos e da unidade que lhes subjaz é a este respeito esclarecedora: trata-se de uma roda no meio de outra roda e do espírito da vida que está nas rodas, o qual identifica com Deus.
Os processos exegéticos dos quais emergirá o problema dos vários sentidos da Escritura, nomeadamente o sentido moral, que o Santo claramente privilegia, partem dessa possibilidade de passar da letra para o espírito, num quadro em que a palavra tende a ser encarada como um sinal visível de uma coisa ou ideia que se não vê, instaurando uma tendência ad extra, que transforma o simbolismo numa realidade constitutiva do cristianismo. O simbolismo é um caso limite do conhecimento indirecto, é um procedimento eufemístico de abertura do finito ao infinito, é, neste caso, um processo de libertação espiritual, em direcção àquele mesmo espírito da vida que informa o texto. Todavia, no franciscanismo e na obra de Santo António em particular, esse processo de libertação que se exerce pela via da interioridade não configura um recolhimento ou uma fuga à situação do homem como ser que não sendo do mundo é, no entanto, um ser no mundo. O mundo humano não é encarado como fechado sobre si próprio, verificando-se um movimento de abertura e de relação a tudo o que o cerca, no âmbito de um já muito vincado optimismo na valorização da criação como obra de Deus, ou da natureza entendida como o conjunto das coisas criadas, embora essa mesma abertura e relação não configure em caso algum uma diluição da natureza humana num nível ontologicamente inferior na escala dos seres, mas, antes, a valorização de cada nível na sua dignidade própria». In Pedro Calafate, Metamorfoses da Palavra, Estudos sobre o pensamento português e brasileiro, Temas Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1998.

Cortesia da INCM/JDACT

Jazz no 31. Dianne Reeves. «Com nove palavras ocas escrevi meu testamento, palavras que nove bocas ditaram a rir ao vento… São amor, sonho doçura, beijo, carinho e prazer, esp’rança, riso, ternura e mais que não sei dizer»

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História no 31. A Insurreição Miguelista nas Resistências a Costa Cabral (1842-1847). José Brissos. «Criado hum centro, adoptada uma pollitica, estabelecido hum sistema é mister, é forçozo segui-lo - ou perder-se - com esta conduta tudo se perde, e aniquilla, é impossivel chegar ao nosso fim, e n'esse caso o compermettimento é inútil»

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A Montagem de uma Conspiração. Debates de Comando e Direcção
«(…) O magno problema da unidade dos miguelistas não era sentido apenas no reino. Com efeito, entre os exilados ou emigrados as clivagens pessoais tinham uma presença especial que, nalguns casos, afectava o plano de Restauração em Portugal. Era o caso da desinteligência entre António Ribeiro Saraiva e Francisco Alpoim Menezes que, sendo anterior, teve especial incidência a partir de 1843. A missão de Alpoim em Londres no início de 1843, a ter em conta as sempre boas e conciliadoras intenções do visconde de Queluz, não colidiria com as funções de Ribeiro Saraiva, podendo até facilitá-las, dado que, vindo de Roma, Alpoim conhecia bem o pensamento de Miguel. O quadro de colaboração não seria tão idílico e Alpoim começou por estabelecer um conjunto de correspondências para o reino, à revelia dos canais estabelecidos por Saraiva e expressando pontos de vista diversos dos oficiais. A desinteligência entre os dois não se fez esperar. Não deixou de ter efeitos nocivos nos esforços de organização e unidade em curso na época, pois instaurava um clima de incerteza no já complexo meio miguelista.
Era mais um elemento negativo numa altura em que se procurava estabelecer um diálogo entre o grupo eleitoral (Caetano Beirão) e o de intenção conspiratória. Nestas condições a reconciliação entre Ribeiro Saraiva e Alpoim, ainda que meramente táctica, afigurava-se como indispensável para o andamento da causa. Isso foi reconhecido, mutuamente, pelos dois caudilhos miguelistas. Para consolidar esse acordo, Alpoim passa a fazer parte do Centro de Londres, enquanto permanecesse nesta cidade. O arranjo seria, apesar de tudo, precário, pois Alpoim não deixou de enviar correspondências para Lisboa, de notória acção corrosiva da influência do Centro de Londres. Todavia, o seu prestígio na capital era, ao que parece, nulo. O seu comportamento causava a maior reserva aos chefes miguelistas, pois tal presença epistolar era prejudicial à causa. Na província sentiam-se igualmente os perigos destas rivalidades e caprichos que nos perdem, procurando-se impedir a sua divulgação.
Alheio a estas preocupações Alpoim prosseguia a sua campanha contra Ribeiro Saraiva, fazendo-lhe acusações gravíssimas, como a de dissipar os fundos da subscrição a favor de Miguel, nalguns casos em proveito próprio. Era verdade que Saraiva tinha pago dívidas pessoais com dinheiro da subscrição. No entanto, não terá tido intenção dolosa. Roma não deixou de anotar a irregularidade do seu comportamento, pois não havia solicitado a devida autorização, mas reafirma-lhe, com veemência, a sua confiança. A acusação movida por Alpoim era, sem quaisquer dúvidas, politicamente inoportuna, dado que podia trazer o descrédito do Centro de Londres. Desde logo o clima de incerteza tinha provocado, nalguns casos, a suspensão dos trabalhos de organização. Foi o que fez António Taveira Pimentel Carvalho a partir de Viana do Castelo, embora logo a seguir reafirmasse a sua lealdade a Ribeiro Saraiva, reprovando o comportamento de Alpoim.
Se é certo que esta ruidosa dissidência acabou por ser esvaziada, a unidade permanecia como problema geral do campo realista e afectava, seriamenÍe, a eficácia das iniciativas tendentes a viabilizar as bases de uma estrutura de intenção conspiratória. Na opinião de Vilar de Perdizes os louváveis propósitos de harmonia e unidade reconhecidos por todos, e reclamados com insistência de Roma, só podiam ser conseguidos através da presença regulanzadora da autoridade estabelecida:

Criado hum centro, adoptada uma pollitica, estabelecido hum sistema é mister, é forçozo segui-lo - ou perder-se - com esta conduta tudo se perde, e aniquilla, é impossivel chegar ao nosso fim, e n'esse caso o compermettimento é inutil.

Desta forma, o ritmo dos trabalhos preparatórios da projectada insurreição miguelista tinha de ser lento, ainda que não uniforme. Lisboa isolava-se, de certo modo, neste processo, absorvida nas querelas e debates de liderança. A província assumia um papel absolutamente fundamental. O seu ritmo era outro. A ausência de sintonia com a capital é quase completa. Sentir-se-ão, por assim dizer, abandonados. Todavia, o seu entusiasmo tornava-se exigente. O empenhamento crescente dos notáveis das províncias do Norte do reino no plano de organização sediciosa da Restauração impunha à J.N. a urgência de promover a criação sistemática e coordenada de juntas locais. Esta pressão intensificar-se-ia a partir de Junho de 1844, dando lugar a uma proposta concreta de disseminação de Juntas Directorias, da autoria de Cândido Figueiredo Lima (Setembro de 1844). Contudo, esta pulsação das áreas regionais decorria numa altura em que o contexto peninsular, encarado como de hegemonia de Luís Filipe França, não era considerado oportuno para estabelecer uma organização regular. Era esta a indicação de Roma, datada de 3 de Janeiro de 1845». In José Brissos, A Insurreição Miguelista nas Resistências a Costa Cabral (1842-1847), Faculdades de Letras de Lisboa, Edições Colibri, 1997, ISBN 972-8288-80-8.

Cortesia de Colibri/JDACT

Poesia no 31. Maria Manuel Cid. Chamusca. «Tens a massa dos meus credos em tuas mãos, comprimida, deixa correr p’los teus dedos, mais um pedaço de vida!... Uma hora, só mais uma, feita de riso ou de dor… E que nela se resuma, toda uma vida de amor!»

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Eu quisera lavar o pensamento
«Sou feita de temor e ansiedade
em tudo vejo aquilo que não presta
uma saudade atrás doutra saudade,
porque a saudade é tudo o que me resta.

E quando me convenço que estou morta,
ela me faz viver mais outro dia,
corre no sangue ainda gota a gota
para tornar maior esta agonia...

Como a água do mar leva as areias
eu quisera lavar o pensamento,
escorrer de mim o sangue destas veias
e vazia partir atrás do vento...


Em vez de chorar eu canto
«Esta voz amargurada,
nascida dentro de mim,
embora não seja nada,
é tristeza repassada
duma amargura ruim...

Mata o desprezo qu’a vida
nos faz sentir por alguém,
torna a saudade esquecida,
dando à alma já perdida,
a crença que lhe faz bem...

E quando a alma pergunta
se o meu cantar é condão,
eu digo qu’a gente canta
porque nos saem p’la garganta
as mágoas do coração...

Por isso é triste o meu fado,
por isso lhe quero tanto...
E porque sou desgraçado,
ao sentir-me amargurado,
em vez de chorar... eu canto...

Poemas de Maria Manuel Cid, Chamusca, in ‘Poemas

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Prosa no 31. José Duro. Portalegre. «Quando a vejo, adornada co'a sua toilette cor-de-lilás que lhe põe relevo distintamente as formas divinais, fico-me a cismar horas e horas se foi mulher, anjo ou silfo aéreo, quem de modo tão sedutor impressionou a minha Fantasia de Poeta…»

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Ruínas (Paralelo)
«Ali naquelas ruínas onde predomina a plácida austeridade dum claustro a desoras; onde os silfos áugures se confundem numa mesma nota de tristeza; onde tudo infunde respeito, o sol entra quase que timidamente e os fios de luar escoam-se num religioso sorriso de monja em adoração... A madressilva em feixes mal unidos e a congossa em tapete desordenado, vegetam aqui e ali. As ervas pelas paredes em mortal decadência, onde se distinguem os vestígios das lutas com o tempo e com a seta, enroscam-se como serpentes enraivecidas, ao que resta duma passada fortaleza.
E de quando em vez uma pedra que cai, produz na queda um som triste e é nova angústia para aquele castelo que outrora se defendia defendendo a pátria, das hostes inimigas, nobremente, gloriosamente, tendo por égide a honra, por ceptro o valor. - Oh passado, passado! - Em cada uma de tuas páginas está indelevelmente traçada uma acção que a memória 1ê, um feito que a imaginação representa! Contigo repousam esses valorosos soldados em cujos seios robustos, seio d'aço e agitava a alma dum herói! E essa alma tinha por sonho constante o combate e a justiça!
E essa alma clamava com todas as suas forças: Pátria ou morte! E essa alma era forte, pura, e jamais se confessava vencida! Era o que parecia dizer aquele castelo na sua mudez, na sua materialidade. Porque ele tudo viu... E quantas lágrimas e sorrisos, e quantos gritos de prazer e dor, retumbaram em seus recantos... Mas hoje é um montão de ruínas. Como é poético ver o aspecto sombrio que as reveste, à hora em que o sol desmaia ao longe e se esconde após o último beijo de luz.

E, eu, ao vê-las surgiu-me em frente o implacável fantasma do passado, o trocista do presente, e senti a alma agitar-se pressurosamente em tétricas convulsões, como numa agonia desesperadíssima... É que a minha alma também está em ruínas...» In José Duro Júnior, Portalegre, 18-7-1894, Diário de Elvas, nº 319, 20-7-1894.


Túnica desmaiada (A minha vizinha)
«Sempre nos lábios aquele sorriso doce, muito doce duma magia infinita, feito de pedaços d'amor fugindo à ardência íntima que devora o âmago da alma: que recorda o sorriso de borboleta alequeando doidamente as asitas cetinosas, bordadas, à claridade da manhã... Sempre no olhar aquela meiguice de coração, a transparecer, a seduzir castamente em transportes de luz e poesia... Quando a vejo, adornada co'a sua toilette cor-de-lilás que lhe põe relevo distintamente as formas divinais, fico-me a cismar horas e horas se foi mulher, anjo ou silfo aéreo, quem de modo tão sedutor impressionou a minha Fantasia de Poeta... E, do deslumbramento que me invade, nascem mil devaneios, mil desejos...

Esvaiu-se o sonho no mar da Reflexão. Não for anjo que eu vi; d'há muito que eles fugiram da Terra, se é que cá os houve?! Silfo, também não; porque esses perderam com a Lenda o prestígio que embalava a antiguidade! Foi mulher sim! Mulher que deslumbra quando adornada co'a sua toilette cor-de-lilás, espécie de túnica desmaiada que lhe aperta as formas como a elegância requer e o bom tom exige... Foi mulher sim! E tanto mais que, agora me recordo, já lhe ouvi dizer: Eu alimento-me d'a dor...» In In José Duro Júnior, Portalegre, 28-7-1894, Diário de Elvas, nº 331, 3-8-1894.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Revelação dos Templários. Lynn Picknet e Clive Prince. «O personagem central, pelo suposto, é Jesus, a quem Leonardo menciona sob o nome de Redentor em sua notas de trabalho. Está em atitude contemplativa e olha para baixo e um pouco para sua esquerda, as mãos estendidas na frente sobre a mesa…»



Cortesia de wikipedia

 
Introdução
«Leonardo da Vinci colocou em marcha a busca que levou a este livro. Nosso estudo sobre o papel do fascinante e misterioso genio do Renascimento na falsificação do Sudário de Turim desembocou em uma investigação muito mais ampla e mais comprometida sobre as heresias que haviam impulsionado em segredo suas ambições. Foi preciso averiguar no que participou, o que soube e acreditou, e porque recorreu a certos códigos e símbolos na obra que deixou para a posteridade. A Leonardo temos que agradecer os descobrimentos que se condensam neste livro. A princípio nos pareceu raro vermos submersos no mundo complicado, e em muitas ocasiões algo tenebroso, das sociedades secretas e crenças heterodoxas. Por muito que Leonardo, segundo é crença comum, tenha sido um ateu e um racionalista; porque nós descobrimos que nada está mais distante da verdade. Em qualquer caso, aos poucos deixamos para trás este personagem para nos encontramos sós diante de algumas implicações profundamente inquietantes. O que havia começado como uma modesta averiguação sobre alguns cultos interessantes, porém que de modo algum fariam tremer o mundo, se converteu em uma investigação sobre as próprias raízes e crenças originárias do mesmo Cristianismo. Em essência tem sido um recaminhar através do tempo e do espaço; primeiro, de Leonardo a época actual; logo, o retorno ao Renascimento e mais atrás contudo, passando pela Idade Média até a Palestina do século I, o cenário onde se situa as palavras e as acções de nossos três protagonistas principais: João Batista, Maria Madalena e Jesus. De passagem muitas vezes temos que nos deter para examinar os numerosos grupos e organizações secretas com um olhar todo novo e objectivo: os francomaçons, os cavaleiros templários, os cátaros, o Priorado de Sião, os essênios e o culto de Isis e Osiris.
Estes temas naturalmente se tem discutido em muitos outros livros recentes, em especial The Holy Blood and the Holy Grail, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, que desde o princípio tem sido de particular inspiração para nós. The Sign and the Seal, de Graham Hancock, The Temple and the Lodge, de Baigent e Leigh, e o último, The Hiram Key, de Christopher Knight e Robert Lomas. Continuamos em dívida com todos estes autores pela luz que eles tem lançado sobre nosso terreno comum de investigação, porém cremos que todos eles fracassaram em achar a chave essencial que vá ao coração destes mistérios.
[…] 

As Sendas da Heresia. O Código Secreto de Leonardo da Vinci
É uma das obras de arte mais famosas do mundo, e das que mais tem se apoiado. O fresco De Leonardo Última Ceia é tudo quanto resta da Igreja de Santa Maria delle Grazie, perto de Milão, pois a parede onde este fresco foi pintado foi a única que permaneceu de pé ao ser bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda que outros muitos artistas admirados como Ghirlandaio e Nicolas Poussin, e inclusive um pintor tão extravagante quanto Salvador Dali, tenham dado suas próprias versões de uma cena bíblica tão significativa, é a de Leonardo que, por algum motivo, mais tem cativado as imaginações. A temos encontrado reproduzida em múltiplas versões que abarcam ambos extremos do espectro de gostos, desde o sublime até o ridículo. Algumas imagens são tão familiares que nunca são bem olhadas, ainda que se ofereçam ao olhar do espectador abertas a um exame mais detido, mas em um plano mais profundo e cheio de sentido, seguindo como livros fechados. Assim ocorre com a Última Ceia de Leonardo… ainda que pareça mentira, como quase todas as outras obras dele que tem chegado até nós. Foi a obra de Leonardo (1452-1519), esse génio atormentado do Renascimento italiano, a que nos colocou na trilha que acabou por levar-nos a uns descobrimentos tão estarrecedores quanto a suas consequências, que a princípio nos parecia impossível que eles tivessem passado desapercebidos por gerações inteiras de estudiosos, o que finalmente ressaltou diante de nosso olhar surpreendido, e incrível que uma informação tão explosiva tivesse permanecido por tanto tempo esperando pacientemente ser descoberta por uns autores como nós, alheios às escolas oficiais da investigação histórica ou religiosa.
É assim que vamos seguir a história refazendo seus passos contados e voltarmos à Última Ceia para a olhamos com outros olhos. Não é o momento agora para nos situarmos no contexto conhecido dos postulados da História da arte. Queriamos vê-la como a veria um recém chegado completamente ignorante dessa imagem tão arquiconhecida. Que as escamas dos conceitos prévios caiam de nossos olhos e que olhemos a verdade, como se fosse a primeira vez em nossa vida. O personagem central, pelo suposto, é Jesus, a quem Leonardo menciona sob o nome de Redentor em sua notas de trabalho. Está em atitude contemplativa e olha para baixo e um pouco para sua esquerda, as mãos estendidas na frente sobre a mesa, como se oferecesse algo ao espectador. Como esta é a Última Ceia em que, segundo nos ensina o Novo Testamento, Jesus instituiu o sacramento do pão e vinho, no qual convida a seus seguidores que comam e bebam dizendo que são sua carne e seu sangue, seria razoável buscar algum cálice ou taça de vinho diante dele, concluindo o oferecimento. Afinal, para os cristãos, esta cena antecede imediatamente a paixão de Jesus no horto de Getsemani, onde ele reza com fervor pedindo que afaste de mim este cálice [outra alusão ao paralelismo vinho-sangue] e também a sua crucificação, na qual morreu derramando seu sangue pela redenção da humanidade. Porque não há vinho diante de Jesus, e apenas quantidades simbólicas em toda a mesa. Acaso tem razão os artistas que dizem ser um gesto vazio este das mãos abertas? Visto que apenas há vinho, talvez não seja casualidade que tampouco se tenham partido muito poucos dos pães que vemos sobre a mesa. E já que o próprio Jesus identificou o pão com seu próprio corpo que seria partido no supremo sacrifício. Está se comunicando alguma mensagem sutil quanto a verdadeira natureza dos padecimentos de Jesus?
Ele olha contemplativamente para baixo e ligeiramente a sua esquerda, as mãos abertas na mesa diante dele como se apresentando alguma dádiva ao espectador. Como nesta Última Ceia na qual assim nos diz o Novo Testamento, Jesus iniciou o sacramento do pão e do vinho urgindo que seus seguidores partilhassem deles como sua carne e sangue; pode-se razoavelmente esperar algum cálice ou taça colocado diante dele, a ser abarcado pelo seu gesto». In Lynn Picknett e Clive Prince, A Revelação dos Templários, Guardiões Secretos da Verdadeira Identidade de Cristo, Editora Planeta, 2007. 

Cortesia de Planeta/JDACT

O Número de Ouro na Arte Arquitectura e Natureza. Joseane V. Ferrer. «Teria sido Hípaso, o principal responsável por profundas mudanças no pensamento filosófico da escola pitagórica em meados do século V a.C., de que tudo no universo podia ser reduzido somente a números comensuráveis…»

Cortesia de wikipedia 

«O homem pôde compreender a harmonia existente na natureza após séculos de observação e teorização. A descoberta do número de ouro começou com Hípaso, membro da escola pitagórica, que estudou sobre a incomensurabilidade no triângulo rectângulo isósceles. Tomando como objecto de análise o pentágono regular, a questão da incomensurabilidade foi esmiuçada uma vez mais. A investigação acerca da razão áurea ganhou sua forma mais conhecida com a seqüência de Fibonacci. E assim, descoberta e devidamente teorizada, foi usada pelo homem no intuito de conferir às suas obras a beleza e perfeição que encontrava na natureza. Podemos notar isso nas obras de mestres da arquitectura, como Phídeas e Le Corbusier, e de mestres da pintura, como Leonardo da Vinci».  

Beleza e harmonia
«Através de seu alto poder de observação, o homem indaga-se e procura explicações que justifiquem a regularidade do meio em que vive. Partindo de tal prerrogativa, podemos perceber que uma de suas muitas curiosidades diz respeito ao convívio com beleza e harmonia, seja esta física ou do universo no qual está inserido. As buscas incessantes do porquê do ser homem e da infinidade de elementos existentes na natureza e de estes serem tão harmónicos, podem ser obtidos através de ordem e relações entre números e combinações, na tentativa de explicar a perfeição existente entre os mesmos. Neste contexto, o número de ouro, indicado pela letra grega Φ em homenagem ao escultor e arquitecto grego Phídeas (470 - 425 a.C.) através da razão áurea, é factor determinante no que concerne esta questão. Portanto, este artigo tem o intuito de apresentar informações úteis pertinentes ao referido objecto de estudo, pois mostra o quanto arte, arquitectura e natureza podem estar relacionadas ao número áureo tornando agradável aos olhos de qualquer ser humano a harmonia e beleza das formas que o rodeiam, não esquecendo, porém, de todo rigor matemático utilizado. As palavras de Biembengut e Hein (2000) expressam bem o exposto acima: É dito que onde houver harmonia lá encontraremos o número de ouro. Este número Φ é indicado como a máxima expressão do equilíbrio. Quando procuramos atentamente, podemos encontrá-lo em toda a parte.  
 
Hípaso Metaponto e a descoberta da incomensurabilidade
É atribuída ao matemático grego Hipasus Metapontum ou Hípaso Metaponto (470 - 400 a.C.) nascido na cidade grega de Metaponto sul da Itália, a descoberta de grandezas incomensuráveis (não-racionais). Teria sido Hípaso, o principal responsável por profundas mudanças no pensamento filosófico da escola pitagórica em meados do século V a.C., de que tudo no universo podia ser reduzido somente a números comensuráveis (racionais) ou suas razões, pois o mesmo produziu um elemento não inteiro que negava os ensinamentos adquiridos nos cultos secretos onde era discípulo do mestre Pitágoras Samos (570 - 495 a.C.). Não se sabe ao certo como Hípaso Metaponto observou os irracionais pela primeira vez, mas, é bastante provável que os primeiros incomensuráveis conhecidos por ele, venham de demonstrações precisas sobre o valor da diagonal de um quadrado de lado unitário ou, do valor da base de um triângulo isósceles rectângulo de lado também unitário ou ainda, da razão entre diagonal e lado de um pentágono regular. Veremos como tais demonstrações ocorreram, supondo que a percepção dos não-racionais veio com a aplicação do teorema de Pitágoras, já bastante conhecido entre os membros da escola pitagórica àquela época, sendo somente válido ao quadrado e triângulo rectângulo isósceles, o que não ocorre com o pentágono regular. 

Incomensurabilidade no triângulo isósceles rectângulo
Para que fosse provada a questão da incomensurabilidade no triângulo isósceles rectângulo, Hípaso provou que não há nenhum número comensurável ao qual corresponda um ponto C da recta, no caso em que o segmento AC seja igual à base (diagonal) do referido triângulo com lados unitários. Observe:
 
Representação na recta numérica de um triângulo rectângulo isósceles de lado unitário 

Pelo teorema de Pitágoras com catetos de medida unitária e hipotenusa d (diagonal = base) do triângulo, temos:

 
Onde admitimos somente o valor positivo de d, uma vez que se trata de medida de comprimento.



A Questão da incomensurabilidade no pentágono regular
A estrela de cinco pontas inscrita em um pentágono regular, a partir dos vértices deste, era considerada o símbolo mais importante entre os membros da escola pitagórica. O numeral cinco representava o casamento, pois nele estava representada a junção do número feminino par (dois) com o número masculino ímpar (três), motivo pelo qual, para muitos historiadores, teria levado Hípaso a verificar com toda cautela as propriedades matemáticas existentes desse polígono. Admitindo-se que Pitágoras e seus discípulos já soubessem fazer a divisão entre segmentos de rectas, então, quando traçadas as cinco diagonais do primeiro pentágono regular, estas formam um segundo pentágono regular, este sendo menor que o primeiro. Repetindo-se o processo neste segundo pentágono, obteremos o mesmo resultado, e assim por diante, infinitamente, o que nos deixa claro que a divisão (razão) entre diagonal e lado em qualquer pentágono regular é um número não-comensurável.  

 
Pentágonos regulares inscritos, obtidos a partir do tracejar das suas diagonais não-consecutivas. 

Em mãos da propriedade de que as diagonais de um pentágono regular dividem umas às outras em segmentos de média e extrema razão, Hípaso concluiu que o quociente entre as medidas do segmento todo pela maior parte é igual ao quociente entre as medidas dessa parte maior com a parte menor». In Joseane Vieira Ferrer, O Número de Ouro na Arte Arquitectura e Natureza, Beleza e Harmonia, Universidade de Brasília, Brasil, Wikipédia.
 

Cortesia da UBrasília/JDACT

Espaço Poder e Memória Catedral de Lamego, séculos XII a XX. Maria do Rosário B. Morujão. « A situação das dioceses do interior beirão não mudou, porém, com as alterações políticas sofridas; pelo contrário, a sua subordinação a Coimbra foi ratificada pela bula “Apostolicae Sedis”»

Cópia da bula Apostolicae Sedis, 1101
Cortesia de wikipedia 

A reconquista da cidade e a primeira tentativa de restauração da diocese
«(…) Em Coimbra, a restauração da diocese, que fora planeada por Fernando Magno e Sesnando, só se verificou com Afonso VI, que, pelo ano de 1080, colocou na cátedra da cidade o bispo Paterno. Coimbra foi, pois, a única das três sedes episcopais portuguesas reconquistadas por Fernando Magno a conhecer uma efectiva restauração, tendo Paterno sido seguido por toda uma série de prelados, numa sucessão ininterrupta que vem até aos nossos dias. Em Lamego e Viseu, pelo contrário, foi necessário aguardar por meados do século XII para haver prelados nas suas cátedras, tendo ambas as dioceses ficado, entretanto, subordinados à autoridade da Sé de Coimbra.
 
A dependência face a Coimbra
A subordinação destes dois bispados à diocese de Coimbra prendeu-se com vários factores. Em primeiro lugar, há que ter em conta a importância primordial que esta cidade então assumia. Antiga sede de condado, mantivera essa primazia ao ser entregue a Sesnando; a sua conquista transformou-a em guarda avançada da fronteira meridional com os muçulmanos no extremo ocidente hispânico, papel que desempenhou até à passagem da linha fronteiriça do Mondego para o Tejo, em 1147. Coimbra exercia, pois, nas décadas finais do século XI, uma hegemonia incontestada no território governado por Sesnando, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista estratégico e militar. A sua hegemonia eclesiástica seria também desejada pelo conde moçárabe, que não veria qualquer vantagem em menorizar a importância da cidade com a restauração de mais dioceses no interior do condado. Importava mais, ao invés, manter o poder eclesiástico sobre toda a região concentrado nas mãos de um único prelado, Paterno, com quem Sesnando tinha uma relação de grande proximidade, e utilizar os rendimentos de Lamego e Viseu para colmatar a as necessidades de Coimbra, que tinha ainda boa parte dos seus territórios sob domínio árabe.
Depois da morte de Sesnando, em 1091, o governo do condado passou para seu genro, Martim Moniz, sendo poucos anos depois entregue pelo imperador Afonso VI a Raimundo, e, em 1096, a Henrique, passando então a integrar o recém-formado Condado Portucalense [acerca das circunstâncias da sucessão de Sesnando e da vinda para a Península Ibérica destes dois cavaleiros da Borgonha a quem veio a ser entregue o governo do ocidente peninsular, ler O condado portucalense; Portugal no reino Asturiano-Leonês; Dois séculos de vicissitudes políticas. A emergência de uma unidade política e a conquista da autonomia (1096-1139)]. A situação das dioceses do interior beirão não mudou, porém, com as alterações políticas sofridas; pelo contrário, a sua subordinação a Coimbra foi ratificada pela bula Apostolicae Sedis, outorgada pelo papa Pascoal II, a 24 de Março de 1101, a favor do bispo Maurício Burdino, bula essa que, curiosamente, foi a primeira carta pontifícia destinada a um prelado conimbricense. O governo das dioceses dependentes seria feito por intermédio de arcediagos ou priores, assim se tem dito, como se os termos fossem sinónimos. Comecemos por perceber as diferenças entre uns e outros, para depois vermos o que nos dizem as fontes a este respeito.
A designação de prior, nesta época, em Coimbra, e centramo-nos em Coimbra por ser o espaço que nos importa de momento, mas o essencial do que for dito é válido para as outras dioceses do reino, incidia sobre aquele que presidia ao cabido, e que veio mais tarde a ser chamado deão. De acordo com as mais antigas informações acerca da organização capitular da catedral de Coimbra, em finais do século XI, o prior, escolhido de entre os cónegos, tinha a seu cargo a administração patrimonial, assim como funções que vieram a ser atribuídas ao mestre-escola e ao tesoureiro. Segundo os estatutos de 1127, o prior era o encarregado dos mais diversos aspectos da vida material e litúrgica da comunidade canonical ligada à Sé. Os arcediagos, por seu turno, eram os oculi episcopi (os olhos do bispo), encarregados de o coadjuvar na administração dos territórios diocesanos, visitando-os em seu nome, julgando querelas, prolongando a sua acção pastoral. Encontram-se documentados na diocese desde cerca de 1090; mas é difícil perceber se têm ou não alguma relação com o governo de Lamego e Viseu.
Na verdade, a presença dos delegados de Coimbra na administração destas duas dioceses é muito difícil de captar. Assim nos mostra, claramente, o exemplo do mosteiro de Arouca, a instituição monástica do bispado de Lamego que maior número de documentos conservou: em 93 diplomas referentes ao período de subordinação a Coimbra, um só faz menção clara à existência de um arcediago à frente do governo de Lamego; precisamente o mesmo que, entre todos os documentos conhecidos outorgados pelos condes portucalenses e por Afonso Henriques, é o único a indicar expressamente os agentes da diocese de Coimbra naqueles dois bispados». In Maria do Rosário B. Morujão, Espaço, Poder e Memória. A Catedral de Lamego, Séculos XII a XX, Coordenação de Anísio Miguel Sousa Saraiva, Estudos de História Religiosa, Centro de Estudos de História Religiosa, Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2013, ISBN: 978-972-8361-57-0.
 
Cortesia da UCPortuguesa/JDACT

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil “escravas brancas” que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. … também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias»

Cortesia de wikipedia 

Visibilidade pública
«(…) Tudo isso veio se configurar no novo contexto político brasileiro, que havia se tornado propício à ampla mobilização social e à emergência de diversas reivindicações colectivas. E podemos dizer que a origem do movimento de prostitutas, no Brasil, foi eminentemente urbana, configurando-se em torno de denúncias contra atentados aos direitos civis e pelo direito à cidade. Em 1987, as prostitutas militantes organizam no Rio de Janeiro o I Encontro Nacional de Prostitutas, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian. Outros encontros similares são realizados, em seguida, em várias capitais do país. No I Encontro Norte-Nordeste de Prostitutas, em Recife, em 1988, elas discutiram a retirada do capítulo V do código penal e lançaram o primeiro jornal destinado à categoria, o Beijo da Rua; no I Encontro das Prostitutas Gaúchas, realizado em Porto Alegre, em 1989, foram relatados os problemas de humilhação institucionalizada, como, por exemplo, a existência de um termo de vadiagem a ser assinado na delegacia pelas prostitutas presas ilegalmente nas ruas da cidade; e o I Encontro de Prostitutas do Pará, realizado em Belém, no ano de 1991, as mulheres puderam contar com o apoio institucional do governo daquele estado. Naquele mesmo ano, uma rádio comunitária foi criada na Vila Mimosa. E no ano seguinte, o Programa Prostituição e Direitos Civis desvincula-se do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e passa a existir como a organização não-governamental Davida - Prostituição, Saúde e Direitos Civis, assessorando a fundação de novas associações em todo o Brasil e difundindo, através do jornal Beijo da Rua, os ideais da Rede.
Em 1988 a Assembleia Constituinte promulgou também a nova Constituição. Com ela, o Ministério da Saúde criou o Sistema Único de Saúde (SUS) e o seu Programa Nacional de AIDS, que viria desempenhar o papel determinante de incentivo à formação associativa das prostitutas, em todo o território nacional, e à participação da categoria nas Coordenações Estaduais e Municipais de DST/AIDS. O aparato institucional de promoção e apoio às associações passou a reflectir tanto o resultado da mobilização das militantes quanto um estímulo à participação política cada vez mais florescente. Agentes de saúde, profissionais do sexo e, mais recentemente, profissionais da sexualidade são terminologias que foram testadas e cunhadas na démarche das actividades associativas e no diálogo estabelecido entre os grupos organizados e o Estado. Para este, tais terminologias permitem melhor formular as acções multiplicadoras, com a qual se espera alcançar um determinado resultado junto aos membros da categoria do agente.
No que concerne aos interesses dos grupos, essas terminologias podem não passar de eufemismos ou, em alguns casos, representar uma nova profissão, o que gerou inúmeros e aguerridos debates entre as prostitutas militantes. Apesar desses imponderáveis, as terminologias vieram mudar, de todo modo, certos paradigmas relativos à prostituição ao considerarem os membros da categoria como profissionais do sexo ou da sexualidade. Permitiram também realçar uma série de procedimentos e capacidades desenvolvidas no aprendizado do métier. O emprego dessas terminologias possibilitaram, ainda, incluir e manter o debate sobre a prostituição nas mais diversas arenas sob a perspectiva do trabalho e, mais precisamente, à luz de determinadas competências reconhecidas para o exercício de um ofício. Ofício e custos aprendidos, por sua vez, nas interacções que ocorrem em determinados horários, situações, ruas e casas da cidade e que serão, a seguir, objecto de nossa atenção. 
A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
Durante quase todo o século XX o Rio de Janeiro comportou, em sua região central, conhecida como Cidade Nova, uma vasta área onde o baixo meretrício floresceu e perdurou. A Zona do Mangue, como era chamado aquele conjunto de ruelas e casas que se estendia às margens do canal, estava próxima das estações dos trens da Central do Brasil e da Leopoldina, e ligava-se ao cais do porto pelo bairro vizinho da Gamboa. Além disso, abrigava em seu perímetro pequenos alojamentos, cortiços, pensões e casas de zungu (data de 1877 e, em língua quimbundo, nzangu, quer dizer confusão, barulho, rixa. Casa de zungu possuía as mesmas características das casas de cómodo, ou seja, residências multi-familiares cuja ocupação ocorria sobretudo nos casarões da região central da cidade) que proporcionavam o acolhimento dos trabalhadores que por ali passavam nas suas rotinas quotidianas ou na chegada à cidade. Precisamente pela razão de sua localização e pelo grande número de pessoas que concentrava, (entre 1920 e 1930, para cada três brasileiras que trabalhavam no Mangue havia uma estrangeira. As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil escravas brancas que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. Nas fichas reunidas no 13º. Distrito de Polícia vê-se que ali também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias, pois muitos traficantes de mulheres eram israelitas), instalaram-se nos limites do Mangue duas instituições disciplinares responsáveis por destinar àquela área a função capital de um cordão sanitário. A primeira delas foi o Hospital São Francisco de Assis, em 1922, que passou a funcionar no antigo prédio do primeiro asilo de mendigos da cidade. Dois anos antes de abrirem as portas como hospital destinado ao tratamento de doenças venéreas, o governo da antiga capital da República já havia mandado retirar as prostitutas que faziam o trottoir em outros bairros centrais, obrigando-as a permanecerem nos lupanares do Mangue durante a visita do rei e da rainha da Bélgica à cidade. A segunda instituição disciplinar instalada na região foi o 13º. Distrito de Polícia, o qual mantinha nos seus arquivos um ficheiro com o nome de todas as mulheres que trabalhavam nos bordéis locais». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010. 
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jazz. Paula Oliveira e Bernardo Moreira. Poesia. «Crescera só rodeada pela dor, pela pobreza, pela fome, pelo frio, pela miséria e tristeza. Crescera ele ao contrário entre risos d’alegria entre abundância, opulência e tendo tudo o que queria»

Cortesia de wikipedia 



 

«Numa casa em que faltava
a luz o ar e pão
entrara ela na vida
tendo ao seu lado um caixão;
pois no dia em que nascera
morrera seu pai também!
Vira assim a luz do mundo
sozinha com sua mãe!
 
Num rico, claro aposento
entre veludos e rendas
onde as mais pequenas fendas
para não entrar o frio,
embora fosse no estio
se tinham calafetado,
onde tudo era alegria,
onde tudo era cuidado
tinha no mundo ele entrado
em um esplêndido dia!» 
Parte do poema Duas Existências de Mário de Sá Carneiro, in ‘Antologia Poética’
 
JDACT

Os Segredos do Código. Dan Burstein. «Poderia ver-se envolvida numa ciumenta rivalidade com os outros apóstolos, alguns dos quais, em particular Pedro, podem ter desdenhado seu papel no movimento devido ao seu sexo, e ter encontrado que a sua relação com Jesus era problemática»

Cortesia de wikipedia 

O drama da História feminina. A História masculina e a Heresia. Maria Madalena e o sagrado feminino. Como uma mulher foi convertida em prostituta pela história masculina
«Maria Madalena é, em muitos sentidos, a estrela do Código Da Vinci, e é apropriado que ela seja o ponto de partida da odisseia de exploração nas histórias e mistérios da novela de Dan Brown. Mas quem era esta mulher que desempenha um papel tão decisivo em momentos críticos dos Evangelhos tradicionais? Está claro que é um dos acompanhantes mais amealhados ao Jesus itinerante. No Novo Testamento, a menciona por nome doze vezes. Está entre os poucos seguidores de Jesus presentes no momento de sua crucificação e se ocupa dele depois de morto. É a pessoa que, três dias depois, retorna à sua tumba e a pessoa a quem o Jesus ressuscitado aparece pela primeira vez. Quando aparece, instrui-a, de facto, outorga-lhe poderes, para que difunda as notícias da sua ressurreição e se converta, com efeito, no mais importante dos apóstolos, a portadora da mensagem cristã aos outros apóstolos e ao mundo. Este relato é o que fazem as narrações autorizadas do Novo Testamento. Se se estudarem as narrações alternativas, várias escrituras perdidas e os Evangelhos gnósticos, se verá em seguida que há sugestões de que Maria Madalena e Jesus poderiam ter uma relação extremamente estreita, uma relação íntima de marido e mulher. Ver-se-á que ela seria uma dirigente e pensadora por direito próprio a quem Jesus confiou segredos que não compartilhou sequer com os apóstolos varões. Poderia ver-se envolvida numa ciumenta rivalidade com os outros apóstolos, alguns dos quais, em particular Pedro, podem ter desdenhado seu papel no movimento devido ao seu sexo, e ter encontrado que a sua relação com Jesus era problemática. Pode ter representado uma filosofia mais humanista e individualizada, talvez mais próxima a que realmente pregou Jesus que a que chegou a ser aceita pelo Império Romano em tempos de Constantino como o pensamento cristão oficial, padronizado e convencional.
Talvez a forma em que melhor a conhece na história é como prostituta. Jesus simplesmente a perdoou, e ela simplesmente se arrependeu e mudou de conduta, para ilustrar os tradicionais princípios cristãos sobre o pecado, o perdão, a penitência e a redenção? Ou não foi absolutamente uma prostituta, mas uma rica patrocinadora financeira e partidária do movimento de Jesus, de quem, no século VI, o papa Gregório declarou que era quão mesma outra Maria Madalena dos Evangelhos, que era, esta sim, uma prostituta? E quando o papa Gregório refundiu deliberadamente às três Marias dos Evangelhos em uma o fez para marcar deliberadamente a Maria com o estigma da prostituição? Tratou-se de um inocente engano de interpretação em uma idade obscura em que se contava com poucos documentos originais e a linguagem bíblica era uma mixórdia de hebreu, aramaico, grego e latim? A Igreja necessitava simplificar e codificar os evangelhos e destacar os temas do pecado, a penitência e a redenção? Ou foi uma estratégia muito mais maquiavélica (um milênio antes de Maquiavel) para arruinar a reputação de Maria Madalena ante a história e, ao fazê-lo, destruir os últimos vestígios da influência dos cultos pagãos da deusa e do sagrado feminino sobre o cristianismo primitivo, para escavar o papel das mulheres na Igreja e sepultar o flanco mais humanista da fé cristã? Chegou ainda mais longe? Quando o papa Gregório com a letra escarlate da prostituição marcou a Maria Madalena, que continuaria oficialmente uma prostituta reformada pelos seguintes catorze séculos, começou um grande ocultação para negar o casamento de Jesus e Maria Madalena e, em última instância, a linhagem real, sagrada, de sua descendência? Sua descendência? Bom, sim. Se Jesus e Maria Madalena se casaram ou ao menos tiveram uma relação íntima bem poderiam ter um ou vários filhos. E o que ocorreu com Maria Madalena depois da crucificação? A Bíblia cala, mas na área do Mediterrâneo, de Éfeso ao Egipto, há lendas e tradições que afirmam que Maria Madalena e seu filho (ou filhos) escaparam de Jerusalém e finalmente se assentaram para viver como evangelistas. Os relatos mais interessantes são os que fazem que termine sua vida na França... um tema que Dan Brown recolhe e integra à trama do Código Da Vinci.
Não é surpreendente que Maria Madalena, que representa a temática do pecado e a redenção, a Virgem e a puta, a penitência e a virtude, os fiéis e os cansados, fosse sempre uma figura destacada na arte e a literatura. Nos actos sacramentais, a primeira forma de teatro produzida na Europa, faz mais de mil anos, era representada por fiéis de sexo masculino. E após, foi uma figura constante na arte eclesiástica. Em tempos muito mais recentes, Dan Brown não foi o único autor em sentir-se fascinado pela Maria Madalena nem o primeiro em destacar a temática de seu possível romance com Jesus. Nikos Kazantzakis postulou uma relação romântica entre ambos em sua novela A última tentação de Cristo faz mais de cinquenta anos (muito antes de que Martin Scorsese o convertesse em filme na década de 1980 e fizera surgir o tema uma vez mais). William E. Pipps tratou boa parte destes temas no seu livro Jesus esteve casado? Faz mais de trinta anos. A ópera rock Jesus Cristo Superstar, outra obra que tem mais de trinta anos, também dá por aceito que existe uma relação romântica entre Jesus e Maria Madalena. Dado o interesse da nossa sociedade pelos papéis que se adjudicam aos sexos, as mulheres como dirigentes e todas as permutações do amor, o matrimónio e o sexo que alguém possa imaginar, a nova Maria Madalena encaixa justo e O Código Da Vinci chega bem a tempo». In Dan Burstein, Secrets of the Code The Unauthorized Guide to the Mysteries Behind The Da Vinci Code, Os Segredos do Código, Emecé Editores, Buenos Aires, 2004, ISBN 950-04-2585-8-1.
 
Cortesia de Sextante/JDACT