quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Poesia no 31. Fernando Pessoa. Ricardo Reis. Alberto Caeiro. Álvaro de Campos. «Pode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é o que nos guia. Não sou assediado pela consciência, mas sim consciência do ser. A consciência é o maior prodígio da inconsciência»

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O passado é o presente na lembrança
«Se recordo quem fui, outrem me vejo,
e o passado é o presente na lembrança.
Quem fui e alguém que amo
porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
não é de mim nem do passado visto,
senão de quem habito
por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
minha mesma lembrança é nada, e sinto
que quem sou e quem fui
são sonhos diferentes».

Cansa sentir quando se pensa
Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
há uma solidão imensa
que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
em que não sei quem hei de ser,
pesa-me o informe real que existe
na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
um negro astral silêncio surdo
e não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
mundo mudo, silêncio mudo
ah, nada é isto, nada é assim!)»


Sempre que penso uma coisa, traio-a
«Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
e o que existe para os olhos não tem que existir
para o pensamento;
só existe verdadeiramente para o pensamento
e não para os olhos.

Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu».

Não estou pensando em nada
Não estou pensando em nada
e essa coisa central, que é coisa nenhuma,
é-me agradável como o ar da noite,
fresco em contraste com o verão quente do dia,
não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
é viver intimamente
o fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
há um amargo de boca na minha alma:
é que, no fim de contas,
não estou pensando em nada,
mas realmente em nada,
Em nada...»
Poemas de Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis)

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Despedida no 31. João Chichorro. «Um homem que pudesse ter em si próprio, em certo grau, génio, talento e inteligência estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua inteligência, na sua época pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos…»

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Génio, talento e celebridade
«Pode-se supor que a presença no mesmo homem de mais de um elemento intelectual facilitaria a sua imediata celebridade. Até certo limite é assim, mas o é até um limite menor do que se poderia conjecturar na ociosidade da hipótese. Um homem dotado ao mesmo tempo de grande génio e de grande inteligência (como Shakespeare), ou de grande génio e grande talento (como Milton), não acumula na sua época ou na seguinte os resultados do génio e os resultados de outra qualidade. É que estes diferentes elementos intelectuais estão misturados por coexistirem no homem, e derrama-se na substância da inteligência ou do talento o sagrado veneno do génio; a bebida é amarga, embora retenha algo do seu gosto comum. Os antigos misturavam mel com vinho e achavam isso gostoso; mas o néctar não pode fazer qualquer vinho gostoso ao paladar da gente comum. Um homem que pudesse ter em si próprio, em certo grau, génio, talento e inteligência estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua inteligência, na sua época pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos e épocas pelo seu génio. Mas como o seu génio afectaria o seu talento, e o seu talento e o seu génio a sua inteligência, pois as coisas que coexistem na mente coexistem por interfusão e não por mera continuidade, menor seria o seu talento puro, e menos atrairia gerações mais amplas; e menos seria a sua inteligência pura e menos acariciaria a simplicidade de todos os presentes. Qualquer exemplo tornaria isto claro para quem compreende por meio de exemplos. Um homem de espírito que, entre os seus pares, faz uma piada, daquelas que um espírito talentoso poderia inteligentemente conceber, provoca uma gargalhada geral de apreço. Esta coisa impura é pura inteligência. O homem que, no mesmo grupo, faz uma piada, com uma alusão clássica ou com uma distensão de espirituosidade intelectual, pode mostrar ao analista que acrescentou alguma coisa à inteligência, mas, no efeito moderado que produziu nos ouvintes, ter-lhe-á subtraído algo. Se, além disso, o mesmo homem for um génio e acontecer que faça tal piada em que o seu génio claramente se mostre e inunde a sua inteligência com a sua cor, terá de enfrentar o daltonismo de cada ouvinte diante do qual torna ridícula a sua sabedoria. Será algo de parecido como fazer uma piada em língua estrangeira. O presente não tem segunda visão e a ponta permanece na bainha». In Fernando Pessoa.

João! Que estejas em Paz.

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Penúria no 31. George Orwell. «A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com qualquer outra coisa. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer…»

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«A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com qualquer outra coisa. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer, ou como se não se tivesse sangue, e o sangue tivesse sido substituído por água morna. A inércia completa é a minha principal recordação da fome; isso e ser forçado a esca… com frequência, à medida que o esca… ganha uma estranha cor branca de algodão, como se fosse saliva de cuco. Não sei a razão do fenómeno, mas todas as pessoas que conheci e que passaram fome durante alguns dias falam da mesma coisa».

«Ó ferida da injúria, condição da pobreza

«Sete da manhã, na rue du Coq d’Or, Paris. Sobe da rua uma enfiada de gritos estridentes e furiosos. Madame Monce, a dona do pequeno hotel que fica precisamente diante do meu, desceu para o passeio, e daí dirige as suas imprecações contra uma locatária do terceiro andar- Tem os pés sem meias enfiados em socos e o cabelo grisalho desgrenhado. Madame Monce: Salope! Salope! Quantas vezes te disse já para não esmagares os percevejos contra o papel da parede? Estás convencida que compraste o hotel, não? Não podes atirar os bichos pela janela como toda a gente? Putain! Salope! A mulher do terceiro andar: Vieille vache! Irrompe, entretanto, um coro discordante de uivos, e as janelas abrem-se de todos os lados, enquanto metade da rua se encontra já envolvida na zaragata. Mas tudo se cala de súbito, passados dez minutos, Porque um esquadrão de cavalaria atravessa a rua e toda a gente fica a vê-lo passar.
Este breve apontamento destina-se apenas a transmitir ao leitor um pouco do espírito da rue du Coq d'Or. Não é que lá as zaragatas fossem o único acontecimento observável, mas é verdade que raramente se passava uma manhã sem a ocorrência de pelo menos uma crise como a que acabo de descrever. Brigas e os gritos desolados dos vendedores ambulantes, os berros das crianças dedicadas à apanha de cascas de laranja no chão, e, com a noite, cantigas entoadas a plenos pulmões, de mistura com o cheiro azedo dos caixotes do lixo, tal era a atmosfera peculiar da rua. Era uma rua estreitíssima, um carreiro de casas esgalgadas e leprosas, imobilizadas umas sobre as outras, rígidas, como se tivessem sido bruscamente congeladas no instante anterior à derrocada. Todas as casas da rua eram hotéis, hotéis a abarrotar de gente, na sua maioria polacos, árabes e italianos. No rés-do-chão dos hotéis havia pequenos bistrots, onde uma pessoa podia embebedar-se por uma soma equivalente a um xelim. Nas noites de sábado, cerca de um terço da população masculina do quarteirão encontrava-se em estado de embriaguez. Havia zaragata por causa de histórias de mulheres, e os locatários árabes, que viviam nos hotéis mais baratos, entregavam-se habitualmente a misteriosas dissensões internas, batendo-se com cadeiras atiradas pelo ar e, por vezes, a tiro de revólver. Durante a noite, só dois a dois os polícias entravam na rua. Era um lugar razoavelmente ruidoso. E, no entanto, no meio de toda aquela barafunda e de todo aquele barulho, vivia uma pequena população bem instalada de lojistas franceses, padeiros, lavadeiras e outros negociantes, comunidade à parte que ia somando tranquilamente as suas pequenas fortunas. Tratava-se, de facto, de um bairro característico de certas zonas pobres de Paris. O meu hotel chamava-se Hôtel des Trois Moineaux. Era um emaranhado sóbrio de cinco andares, dividido por tabiques de madeira, em quarenta quartos. Os quartos eram pequenos e irremediavelmente sujos, porque não havia empregada de limpeza, e Madame F., a patronne, não tinha tempo para tratar disso. As paredes de madeira tinham a espessura de um fósforo e, para tapar as rachas, haviam sido cobertas por camadas e camadas de papel cor-de-rosa, que se despegavam aos pedaços e serviam de abrigo a um sem fim de percevejos. Junto ao tecto, longas filas de percevejos marchavam durante todo o dia como colunas de soldados, e à noite desciam até ao chão, ferozes e famintos, de tal modo que de tantas em tantas horas o inquilino tinha que se levantar e proceder a uma hecatombe. À vezes, quando os percevejos se tornavam mais ameaçadores, a solução consistia em queimar um pouco de enxofre, obrigando-os a retirar para o quarto do lado; então, o inquilino do lado podia ripostar, queimando enxofre no seu quarto e devolvendo os percevejos na direcção anterior. O hotel era um lugar sujo, mas acolhedor, porque Madame F. e o marido eram boas pessoas. A renda paga pelos quartos variava entre trinta e cinquenta francos por semana». In George Orwell, Na Penúria em Paris e em Londres, 1985, Antígona, Lisboa, 2003, ISBN 972-608-031-2.

Cortesia de Antígona/JDACT

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A Garota das Laranjas. Jostein Gaarder. «No meu quarto há um álbum cheio de fotografias do meu pai. Acho meio sinistro guardar tantos retratos de uma pessoa que já deixou de viver. Também temos o meu pai em vídeo. Fico todo arrepiado quando o ouço falar…»

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«Meu pai morreu há onze anos. Na época, eu nem havia completado quatro. Não esperava voltar a ter notícia dele, no entanto agora nós estamos escrevendo um livro juntos. Estas são as primeiras linhas do livro e, embora eu as esteja escrevendo, meu pai também vai participar. Afinal, é ele quem mais tem o que contar. Não sei dizer se me lembro do meu pai. Às vezes acho que só acredito que me lembro dele por ter visto muitas e muitas vezes as suas fotografias. Só de uma recordação eu tenho certeza absoluta; quer dizer, certeza de que é autêntica. Foi algo que aconteceu quando nós estávamos lá fora, na varanda, contemplando as estrelas. Numa fotografia, o pai e eu aparecemos no velho sofá de couro da sala. Ele parece estar contando uma coisa engraçada. O sofá, nós ainda o temos, mas meu pai já não se senta nele. Noutra fotografia, nós dois estamos muito bem instalados na cadeira de balanço verde do jardim-de-inverno. O retrato continua pendurado no mesmo lugar desde a morte do meu pai. Agora eu acabo de me sentar na cadeira de balanço verde. Procuro não balançá-la, pois quero escrever o que penso num caderno grosso. E depois passar tudo para o velho computador do meu pai. Também tenho o que contar sobre esse computador, mas prefiro deixar para mais tarde. Sempre achei esquisito coleccionar fotografias antigas. Elas pertencem a outro tempo.
No meu quarto há um álbum cheio de fotografias do meu pai. Acho meio sinistro guardar tantos retratos de uma pessoa que já deixou de viver. Também temos o meu pai em vídeo. Fico todo arrepiado quando o ouço falar. Ele tinha um vozeirão grosso, de trovoada. Penso que deviam proibir os vídeos de gente que não existe mais, ou que já não está entre nós, como prefere dizer a minha avó. Não acho certo ficar espreitando os mortos. Em alguns vídeos, eu também ouço a minha própria voz. É muito fina e aguda. Lembra um filhote de passarinho. Naquele tempo era assim: meu pai fazia o baixo; eu, o falsete. Num dos vídeos, estou montado nos ombros dele, tentando pegar a estrela no alto da árvore de Natal. Embora só tivesse um ano naquele tempo, faltou pouco para que eu conseguisse. Às vezes, quando assisto aos vídeos do meu pai comigo, a mãe afunda na poltrona e cai na gargalhada, muito embora fosse ela própria quem estava atrás da câmara, gravando tudo. Não gosto que riam dos vídeos do meu pai. Aposto que ele também não gostaria disso. Talvez dissesse que é contra o regulamento.
Noutra fita, o pai e eu estamos em frente à nossa casa de campo em Fjellstolen, os dois curtindo o sol da Páscoa, cada um com meia laranja na mão. Eu tento chupar a minha sem descascar. Meu pai deve estar pensando em outras laranjas, isso sou capaz de apostar. Pouco depois dessa viagem de Semana Santa, ele começou a notar que não estava bem de saúde. Passou mais de meio ano doente, com medo de morrer. Acho que sabia que isso não ia demorar a acontecer. A mãe já me disse várias vezes que o que mais o entristecia era morrer sem ter-me conhecido para valer. A minha avó também diz isso, só que de um jeito um tanto místico. A avó sempre fica esquisita quando fala no pai. Não é de admirar. Meus avós perderam um filho adulto. O que eles sentiram eu não sei. Sorte, que ainda têm um filho vivo. Mas a avó nunca ri quando olha para os velhos retratos do meu pai. Fica muito compenetrada. Isso é ela mesma quem diz. Na época, meu pai decidiu que era impossível conversar para valer com um garotinho de três anos e meio. Hoje eu entendo isso, e você também vai entender quando tiver lido este livro.
Tenho uma fotografia do meu pai numa cama de hospital, com o rosto muito magro. Eu estou no seu colo, e ele segura as minhas mãos com força para que eu não caia. Tenta sorrir para mim. A fotografia foi tirada poucas semanas antes da sua morte. Preferia não ter esse retrato, mas, já que o tenho, não posso jogá-lo fora. Nem posso deixar de olhar muitas vezes para ele. Hoje eu tenho quinze anos, ou, para ser mais exacto, quinze anos e três semanas. Chamo-me Georg Roed e moro no Humlevei, em Oslo, com minha mãe, Jorgen e Miriam. Jorgen é o meu novo pai, mas eu chamo-o assim mesmo, pelo nome. Miriam é a minha irmãzinha. Tem só um ano e meio, portanto é pequena demais para que se possa conversar com ela. Obviamente, não há fotografias nem vídeos antigos em que Miriam apareça com o meu pai. O pai dela é Jorgen. Eu era o único filho do meu». In Jostein Gaarder, A Garota das Laranjas, tradução de Luis Araújo, Companhia das Letras, 2008, ISBN 978-853-590-712-4.

Cortesia CLetras/JDACT

Garrett. De Fingimentos e Conclusões. Leituras. «Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita»

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«(…) Gomes Amorim, o seu dedicado biógrafo e confessado discípulo, sai à liça dos comentários que lhe tildam o mestre de vaidoso mas não nos tira as dúvidas quanto à verdadeira autoria do inesquecível elogio: De quantos elogios acusam o autor de ter tecido a si próprio, e posto às costas dos seus editores, se o prólogo da segunda edição das viagens foi escrito por ele, nenhum revela maior vaidade, segundo o juízo dos contemporâneos; em meu humilde conceito, porém, está a mais cabal pintura que de tamanho engenho se podia obter em tão pequena tela. Tudo que diz de si é de uma verdade tão indiscutível, que só há a lastimar o não ter sido de outra pena aquele elogio merecidíssimo, se com efeito o produziu a sua. Gomes Amorim não nos tira aqui as dúvidas sobre a autoria do prólogo. Mas parece inclinado a admitir que assim seja na lástima que manifesta e talvez ainda mais no juízo que emite sobre a verdade do que ali se diz. Pessoalmente, confesso que nem sequer chego ao ponto de lastimar que o elogio tenha saído da pena do próprio Garrett. Dou graças aos deuses pelo facto de não me sentir obrigada a defender-lhe a honra pelante os detractores, e à distância de século e meio lembro que o escritor não fazia mais, nem menos, do que o seu mestre e modelo Camões tinha já feito quase três séculos antes: ter a consciência do seu imenso valor de escritores e a coragem de afirmá-lo, alto e bom som, preto no branco, na praça pública das invejas ou das indiferenças (Outros, depois, como Fernando Pessoa e Jorge de Sena hão-de seguir-lhes o gesto e não com menos verdade e pertinência).
Fica-nos, pois, não a lástima mas, pelo contrário, o agradecimento de um texto que, como diz Gomes Amorim, e com ele assentimos plenamente, nos dá, para sempre, uma cabal pintura do engenho garrettiano. Mais adiante, voltarei à forma como esta cabal pintura sintetiza, de forma exemplar, o percurso do escritor e a sua prática literária dando-nos, ao mesmo tempo, pistas valiosíssimas para a leitura da obra. Quero, todavia, antes recordar como, afinal, apenas dois anos antes deste prólogo, tinham os seus contemporâneos visto aparecer nas páginas do Universo Pittoresco, na secção Biographia, um outro texto onde, em cerca de doze longas páginas, distribuídas em três entregas, se apresentava ao leitor O conselheiro de Almeida Garret. Nele, também em terceira pessoa, se traçava um retrato da vida e da obra do escritor, não menos elogioso que o Prólogo das Viagens. E aqui parece não se pôr sequer dúvidas quanto à autoria garrettiana do mesmo. O próprio Gomes Amorim, logo no início da sua biografia de Garret, indica que está a utilizar o manuscrito original daquele texto e identifica o seu autor com as seguintes palavras que são, ao mesmo tempo, e tal como o juízo que há-de pronunciar sobre o prólogo das Viagens, de pena por esta fragilidade: Infelizmente, porém, até nos maiores engenhos se revela a fragilidade humana; e não foi este Garrett isento dela. Na sua biografia, publicada no Universo Pittoresco, da qual possuo o manuscrito original, escreveu ele, falando de si. Aquelas maneiras polidas, que só dá o nascimento e alta educação...» In Maria Fernanda Abreu, Leituras de Almeida Garrett, Revista da Biblioteca Nacional, 1999, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Cortesia da BNP/JDACT

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «Previa-se que a duração de uma viagem de Angola a Pernambuco, com condições favoráveis, fosse de trinta e cinco dias, à Baía quarenta e ao Rio de Janeiro cinquenta. Mas se o navio ficava preso nas calmarias equatoriais…»

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Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«(…) Aí tudo lhes faltava. A alimentação continuava a ser má e insuficiente, fermentada pelo calor e pelo azebre das caldeiras de cobre em que era cozinhada. A água, escassa, era salobra, alterada pela má qualidade do vasilhame. A pouca ou nenhuma higiene, juntamente com o intenso calor e a humidade salitrosa, ateavam as epidemias de que nem os marinheiros escapavam. O próprio ar, pouco ou nada ventilado, tornava o ambiente dos porões denso e pestilento; tal como a luz, entrava apenas pelas grades da escotilha, ou por uma ou outra fenda. Os capitães dos navios tinham consciência de quanto era prejudicial esta situação. Querendo de algum modo minimizar as perdas, mais por interesse do que por humanidade, entre outras medidas, mandavam limpar e esfregar a coberta duas vezes por semana com vinagre e permitiam que os escravos, divididos em grupos, viessem a ferros até ao convés para receber ar fresco. Nessas ocasiões, davam-lhes uma porção de aguardente e, para os obrigarem a fazer algum exercício mandavam-nos cantar e dançar. Recomendavam à tripulação, igualmente, que nos dias quentes e calmos, se prendesse no cesto da gávea uma manga de pano que, passando pela grade da escotilha, renovasse o ambiente. Todas essas providências eram, no entanto, esforços que na prática se revelavam inúteis para afastar o ar doentio e travar o avanço das epidemias que os alimentos estragados, a ardência do clima e a imundície favoreciam.
Previa-se que a duração de uma viagem de Angola a Pernambuco, com condições favoráveis, fosse de trinta e cinco dias, à Baía quarenta e ao Rio de Janeiro cinquenta. Mas se o navio ficava preso nas calmarias equatoriais, o percurso até ao Recife podia durar cinquenta dias. Quanto mais longas fossem as viagens, piores se tornavam. As embarcações que iam da Guiné e da região de Daomé para a Baía beneficiavam de viagens mais rápidas. Nas das outras regiões, que de preferência se dirigiam para o sul do Brasil, os escravos padeciam a mais longa, cruel e mortífera travessia do oceano, a que provocava mais vítimas e maiores tragédias. Elias Corrêa descreve a experiência que viveu na sua viagem para o Rio de Janeiro em que os mantimentos e a aguada embarcados foram de tal modo preteridos ao embarque de um maior número de escravos que, ao vigésimo dia de mar, já só era distribuída meia ração de água, chegando a situação ao ponto de se recusarem os remédios aos doentes pela sua falta. Quando aos sessenta dias de viagem se avistou terra, foram obrigados a aportar à capitania do Espírito Santo por falta total de mantimentos. Todavia a farinha de pau comprada neste porto para suprir a que o navio deixou de embarcar, estava tão podre e cheia de bicho que causou uma epidemia terrível e muitas mortes.
Faleciam não só vitimados pelas doenças, mas também devido ao desespero em que se encontravam e que os levava na primeira oportunidade ao suicídio. Neste acto, acontecia arrastarem consigo para o mar os seus companheiros de ferros e, por vezes, até os tripulantes do navio, dando assim resposta ao desespero que os minava. O seu desejo de morrer era tão forte que, faltando-lhes outros meios, se recusavam a comer. Nestes casos, se mesmo depois de castigados mantinham a sua recusa, abriam-lhes a boca à força e obrigavam-nos a engolir os alimentos. Este procedimento dos escravos era acompanhado, com frequência, por manifestações doentias de carácter psicológico designadas banzo e apresentavam como principal sintoma uma nostalgia angustiante que, no dizer de Oliveira Mendes, constituía uma paixão da alma a que se entregavam e que so dão por extinta com a morte». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

Poesia. Cesário Verde. Maria Alzira Seixo. «A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. a razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor há qualquer coisa compreensível»

jdact e manuelfigueiredo

Contrariedades
«Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo insensatamente os ácidos, os gumes
e os ângulos agudos.

Sentei-me à secretíria. Ali defronte mora
uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
e engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para as sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
por causa dum jornal me rejeitar,há dias,
um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
no fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
me tem fechado a porta.


A crítica segundo o método de Taine
ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e empaz pela calçada abaixo,
um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
mas sim, por deferência a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa.
Obtém dinheiro , arranja a sua coterie;
e a mim, não há questão que mais me contrarie
do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
eu raramente falo aos nossos literatos,
e apuro-me em lançar, originais e exactos,
os meus alexandrinos...


E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
lgnora que a asfixia a combustão das brasas,
não foge do estendal que lhe humedece as casas,
e fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
oiço-a cantarolar uma canção plangente
duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
conseguirei reler essas antigas rimas,
impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
e esta poesia pede um editor que pague
todas as minhas obras.

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!»
Poema de Cesário Verde, in ‘Antologia

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Terra Brava. Frederico Brito. «Sentei-me à sombra fagueira duma frondosa oliveira, posta à beira dum caminho; nem uma folha tremia e no silêncio, eu ouvia-a murmurar muito baixinho…»

jdact e heitorcoelho

Rendas do Mar
«Ai!, a pobre engomadeira,
não pode, mesmo que queira,
nem que leve a vida inteira,
com o seu ferro, engomar
aquela renda ligeira
que tem o lençol do mar!

Viu partir o seu amante
muito apressado, ofegante,
no seu batel arrogante
que soube desafiar,
aquele enorme gigante,
aquele, dragão do mar !

Viu as ondas, uma a uma,
a desfazerem-se em espuma
e o batel, como uma pluma
que o vento leva no ar,
meter-se por entre a bruma
para nunca mais voltar.

E andou soltando gemidos,
dias inteiros, seguidos,
ouvindo os roucos bramidos
que as ondas sabem soltar,
mas tudo passos perdidos,
tudo sem ele chegar!


Um certo dia, amanhece;
e sem que alguém o soubesse,
junto do mar aparece
com seu ferro de engomar,
tão contente, que parece
que nunca soube chorar.

E põe-se com todo o jeito,
com toda a arte e preceito,
inclinada sobre o peito,
com seu ferro, a dar, a dar,
na espuma, que sobre o leito
as ondas deixam ficar.

É que a pobre engomadeira,
que amou em louca cegueira,
julga que renda ligeira
que tem o lençol do mar,
se faz da mesma maneira
que a dum lençol de noivar!»
Poema de Frederico Brito, in ‘Terra Brava

In J. Frederico Brito, Terra Brava, Versos, Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1932.

Cortesia ENPublicidade/JDACT

Luís XVI. França. Monarca Infeliz. Américo Faria. «Quatro anos após o seu auspicioso casamento, Luís XVI ascendia ao trono por morte do avô. É então, que ele profere a histórica frase de desespero: Sou o mais infeliz dos homens! Meu Deus, que fardo recebo na minha idade!»


Cortesia de wikipedia

O ‘pobre homem’ que não queria reinar
«Na verdade, se há, na substancial História da França, monarcas infelizes, ao neto do faustoso rei Bem-Amado, que foi o décimo-sexto da extensa relação dos Luíses, cabe, indubitavelmente, as palmas do martírio. Como soberano, o seu reinado foi dos mais tormentosos e acidentados, e, como marido, talvez tivesse sido feliz somente pela sua credulidade e confiança, o que, bem vistas as coisas, poderá ser uma forma de felicidade!, a mulher, essa bela e galante Maria Antonieta da Áustria, tê-lo-ia iludido milhentas vezes, com a volubilidade e versatilidade que historiadores autorizados lhe apontam. Luís XVI era, realmente, o pobre homem, como a esposa geralmente o nomeava, com demasiadas virtudes para reinar, se aceitarmos como boa a teoria do cínico Maquiavel. Ele não tinha as condições essenciais para poder vencer, dominar o terrível ambiente de rebeldia, de corrupção, de libertinagem, de espírito revolucionário latente para que foi arrojado pelo destino. Sinceramente religioso, cheio das melhores intenções para o seu povo, mas de carácter fraco, indeciso sempre quanto às atitudes políticas a tomar, era presa fácil para as intrigas, tanto dos cortesãos astuciosos como da própria rainha. Um inconsciente joguete nas mãos dos que o rodeavam. Tal o retrato que dele traçam unanimemente os cronistas. Filho do delfim Luís, neto de Luís XV, nasceu o infortunado Capeto, em 1754, na deslumbrante moldura de Versalhes. A morte do pai levou-o à situação, para si indesejável, de herdeiro directo da coroa, com manifesto desespero do avô: Esse balofo ente vai deitar tudo a perder!, teria dito dele o Bem-Amado, tempos antes do seu passamento.
Mas, se o avô não ficava satisfeito, parece que o desgosto do forçado herdeiro não era menor. A perspectiva de algum dia reinar nunca lhe agradara, no que também são unânimes em o reconhecer todos os seus biógrafos. Dir-se-ia que ele tinha a percepção intuitiva das dificuldades que iriam deparar-se-lhe e o destino de tragédia que o aguardava. O povo, porém, cansado de toda a sorte de escândalos da realeza e da aristocracia, depositava no gordo e apático príncipe, devido à grande reputação de virtudes que lhe engrinaldavam o espírito, as maiores esperanças. O seu casamento, ainda delfim, com a volúvel Maria Antonieta, nos princípios de 1770, acendera delirante entusiasmo na alma popular. O júbilo do povo atingiu quase as raias da loucura quando a formosa princesa austríaca fez a sua solene entrada em Paris, em Maio desse ano. A expectativa para um feliz reinado era, portanto, das melhores. Quatro anos após o seu auspicioso casamento, Luís XVI ascendia ao trono por morte do avô. É então, que ele profere a histórica frase de desespero: Sou o mais infeliz dos homens! Meu Deus, que fardo recebo na minha idade!
Nesse momento, que para tantos seria de glória e satisfação, tornou-se patente o seu desprazer do poder, para o qual não sentia a mais pequena espécie de aptidão. E, ao receber, mais tarde, a coroa na cabeça, comentou, num esgar, para o arcebispo de Reims: Ela incomoda-me! A época era, realmente, de temível subversão de ideias. O povo agitava-se numa ânsia de justiça social, de morigeração de costumes. A nação vivia numa impaciência permanente, a que os violentos desmandos dos soberanos e da aristocracia a tinham conduzido. Esses manifestos factores de desagregação monárquica constituíam, sem sombra de dúvida, fortes obstáculos a uma governação pública hábil, mas, para um timoneiro mais enérgico ou mais arguto, não eram de forma nenhuma insuperáveis. Bastava, de facto, que Luís XVI volvesse um olhar para o passado do reino, sempre envolvido ora em lutas intestinas ora em guerras com o exterior, para se fortalecer esperançosamente com a visão de outras provas bem mais difíceis que a monarquia atravessara já, por diversas vezes, e que galhardamente vencera». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT

Monarcas Infelizes. Maximiliano I. México. Américo Faria. «… o ambiente social no México, sempre exacerbado de paixões, de irrequietudes, que o sangue escaldante do seu povo, caldeamento de raças ardentes: os espanhóis de um lado e, do outro, os índios aborígenes…»

Cortesia de wikipedia

Habsburgo que segue o destino trágico dos seus ancestrais
«Tragédias sobre tragédias se abatem, no decorrer dos tempos, sobre esta família dos Habsburgos, cujos membros só raramente escaparam à fatalidade, que parece tê-los estigmatizado. Fernando José Maximiliano, que Napoleão haveria de enviar à morte sobre um trono imperial, um trono oscilante, efémero, criado num momento de crise por influência europeia, e que logo se esbarrondaria irremediavelmente, nasceu em 1832, no palácio de Shoenbrunn, em Viena, no mesmo palácio em que, nessa mesma data, noutra sala, agonizava o infortunado filho de Napoleão Bonaparte, cujo caminho à coroa os Habsburgos tinham entravado. Dezasseis anos mais tarde, em 1848, o irmão mais velho do recém-nascido, Francisco José, sobe ao trono imperial da dualidade austro-húngara, enquanto aquele ingressa na Marinha de Guerra do seu país, onde chegou a atingir o posto de vice-almirante. Desde novo que o arquiduque Maximiliano, segundo filho do arquiduque Francisco Carlos, de espírito poético, sonhador, mostrava pendores para a literatura, que se concretizaram mais tarde na publicação de descrições, ao gosto romântico da época, das viagens que como marinheiro fez a terras distantes, a pontos pouco conhecidos ainda. Deixou o livro Memórias do Imperador Maximiliano.
Mesmo já como Governador-geral de Veneza, cargo para que fora nomeado pelo irmão, o arquiduque Maximiliano, carácter aventureiro, não soube sobrepor à fogueira do sonho que lhe abrasava a alma o senso prático das realidades, essencial a um homem de Estado. O perigo era evidente. Nestas condições espirituais pode calcular-se o efeito que nele fez a encantadora filha de Leopoldo I, da Bélgica, a princesa Carlota, dona Maria Carlota!, jovem de grande talento, beleza e ambição, e igualmente romântica como ele. Um verdadeiro casamento de amor, aliás entrelaçado nas melhores conveniências políticas, foi o deles, celebrado em Bruxelas, em 27 de Julho de 1857. Esse ano encontra os dois príncipes, que doloroso destino conduziria a trágico desastre político, radiantes na felicidade da sua lua-de-mel, no castelo de Miramar, enchendo os olhos dos largos horizontes do Adriático em frente. Entretanto, o ambiente social no México, sempre exacerbado de paixões, de irrequietudes, que o sangue escaldante do seu povo, caldeamento de raças ardentes: os espanhóis de um lado e, do outro, os índios aborígenes, talvez explique, forçara as potências europeias a uma intervenção armada no país, em 1861: para garantia das vidas e bens naquela turbulenta República liberal e anticlerical, que ofendia os seus sentimentos e prejudicava os interesses estrangeiros.
Os acontecimentos ocorridos no México impressionavam naturalmente a Europa. Mas, por um lado, a opinião pública francesa, que almejava pelo repatriamento das suas tropas, e, por outro, as potências, Inglaterra e Espanha, comparticipantes na ocupação, exigiam o termo daquela interferência. A intervenção da França, da Inglaterra e da Espanha fora decidida em face da violência da guerra civil, provocada pelo profundo descalabro moral e económico e, sobretudo, pelas medidas anti-religiosas de Benito Juarez, índio-zapoteca, que, dedicando-se, primitivamente, à Teologia, breve a trocou pelo Direito, ascendendo à suprema magistratura do país. Quando as tropas da Inglaterra e da Espanha se afastaram, ficou unicamente a França a braços com a difícil situação. O seu contingente militar desembarcou em Vera Cruz, em 1862, e dali marchou sobre Puebla, que tomou, após encarniçada luta, fazendo a entrada na capital em 7 de Junho. A Napoleão III apresentava-se, pois, um problema para resolver. Havia a certeza de que, mal as tropas estrangeiras de ocupação voltassem costas ao país, tudo ali recomeçaria. Foi então que no seu cérebro se forjou o projecto, perigoso mas de tentar, de impor ao turbulento país uma monarquia hereditária, como solução p ti os problemas internos. As vistas do imperador francês, perscrutando em volta à procura de um soberano, fixaram-se na figura do arquiduque Maximiliano, não por ser um Habsburgo, mas por descender de Carlos V». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Rainha. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI…»

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O casamento do primeiro rei de Portugal. A escolhida: Mafalda de Mouriana
«(…) Contudo, a impedir a tentação, na casa real de Leão e Castela não havia, disponível, mulher que conviesse ao rei de Portugal. As filhas do imperador eram ainda crianças, tanto que só mais tarde haviam de contrair matrimónio, Sancha com Sancho de Navarra (1153), herdeiro de Garcia Ramires IV e Constança com Luís VII de França (1154). E mesmo que se considerasse uma bastarda, que bem serviria à estratégia política de seus pais e irmãos, ainda assim não se achava candidata em idade conveniente ao rei de Portugal. A filha de Afonso VII e da condessa Urraca Fernandes, viúva do conde Rodrigo Martins (1138), era ainda e apenas mais uma criança, que não servia aos objectivos mais profundos do rei de Portugal. Então, a este só restava a busca de uma noiva na Europa de além-Pirenéus. A escolha recaiu sobre uma filha de Amadeu III, conde de Mouriana (1103-1148), como bem recordam os documentos do rei de Portugal, seu genro, marquês na Itália e (1.º) conde de Saboia por concessão imperial, e de dona Matilde de Albon. Pelo lado paterno, a esposa de Afonso Henriques era neta de Humberto II de Mouriana e de Gisela de Borgonha (condal). Era, por isso, simultaneamente prima de Luís VII, rei de França, através de sua tia Adelaide, mulher de Luís VI, e ainda prima do imperador de Leão, embora em grau mais afastado, pois o pai de Afonso VII, Raimundo de Borgonha (condal), era irmão da citada Gisela de Borgonha, sua avó. Era ainda sobrinha-neta da imperatriz Berta, esposa de Henrique IV, o da jornada de Canossa, episódio de reconciliação entre aquele imperador e o papa Gregório VII. Segundo o cronista da Casa de Saboia, Jean d’Orville (que escreveu no início do século XV), esta efectiva aproximação da família ao Império ficou ainda patenteada num outro momento, significativo também, e que foi a coroação imperial de Henrique V pelo papa Pascoal II, em Roma, em 1111. Na comitiva terá participado também o jovem Amadeu, futuro Amadeu III de Mouriana.
No entanto, a ilustração da família, bem como a sua paulatina ascensão, pode marcar-se de bem longe, tendo ocorrido, a última, à sombra protectora do Império. Foi nas peripécias sobrevindas à desanexação dos estados de Carlos Magno e emergência do reino da Borgonha e sua passagem à esfera de influência do Sacro Império Romano-Germânico que a família se começou a evidenciar, no início do século X. Próxima do último rei de Borgonha e de sua viúva, foi em virtude dessa aproximação ao Império que um antepassado de dona Mafalda (seu tetravô, Humberto I, o das Mãos Brancas) se tornou (o 1.º) conde de Mouriana, por mercê do imperador Conrado II. Seguiu-se uma boa gestão dos interesses da família, quer na busca de significativas relações matrimoniais, quer num sábio posicionamento em relação aos problemas que dominaram o Império, mormente as relações com o papado. Pelas primeiras, e ainda nesse século XI, a família de Mouriana alcançou o vale de Susa e o Piemonte, possessões acompanhadas de um engrandecimento da prosápia da família com o título de marquês de Susa ou marquês na Itália. O mesmo século veria uma filha da família, Berta, ocupar o trono imperial, pelo seu casamento com Henrique IV. A fidelidade da família no processo de Canossa valeu-lhe mais territórios, agora na região de Vevey, rica pela sua posição estratégica entre a França, a Alemanha e a Itália. Pela sua implantação, a esta família estava atribuída a responsabilidade da guarda das gargantas do Mont-Cenis e do Mont-Joux (Grande São Bernardo). Pela via do matrimónio do herdeiro da casa, Amadeu II, a família veria chegar-lhe as regiões de Seyssel e Valromey, advindas do dote de Joana de Genebra, sua esposa.
Na geração seguinte, a política matrimonial da família levaria ainda ao consórcio de Humberto II com Gisela da Borgonha, que havia de fazer dele cunhado de Guigo de Borgonha, arcebispo de Vienne, o futuro papa Calisto II e o grande vencedor da questão das investiduras, com a assinatura da concordata de Worms, em 23 de Setembro de 1122. No século XI ficava assim definido o âmbito territorial dos de Mouriana. O último detentor do título nesse século (Humberto II) logrou sabiamente organizar os seus domínios, chamando à fidelização à família condal os vários potentados locais, laicos e eclesiásticos. Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI, rei de França; a sua influência alargava-se e os laços de família abriam-lhe outras portas, a juntar às do Império. Seu filho e sucessor, Humberto III, havia de prosseguir esta política, tendo concertado o casamento da outra irmã sua, Alice, com o futuro João Sem-Terra, enlace que, todavia, não se chegaria a consumar pelo falecimento prematuro da jovem de Mouriana». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

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