segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Uma pequena vila no 31. Galveias. José Luís Peixoto. «O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Sem que o soubessem, guardavam sintonia com um ritmo maior do que as paredes à sua volta. Logo quando começaram, em cadência incerta, ou depois quando continuaram a uma velocidade mecânica, tipo comboio, ou mesmo quando se dirigiram para o fim com estocadas rápidas, as duas cinturas a baterem palmas côncavas, toc, toc, toc, dirigiam-se já para aquele ponto no tempo. Em sincronização perfeita, o Sem Medo e a mulher receberam uma onda de prazer e de glória, que os varreu durante um minuto inteiro e que coincidiu, segundo após segundo, com a explosão que se sentiu em Galveias. Por isso, ao contrário de todos, quando o Sem Medo saiu de cima da mulher, estavam os dois arrasados de profunda satisfação.
Muitos acharam que era o fim do mundo, principalmente o padre Daniel, que acordou ainda baralhado da bebedeira, com a cara espalmada de encontro à mesa da cozinha. Com a face crivada de migalhas de pão duro. Como uma buzina feita de morte, a explosão cobriu os gritos por completo. A maioria dos galveenses desconhecia um barulho tão bruto, não sabia que era possível. Alguns, por instinto, passaram esse minuto a gritar. Sem possibilidade de raciocínio, sentiram que se ouvissem a sua voz estariam a controlar a situação. Ao mesmo tempo, seria sinal de que estavam vivos. Mas, com a garganta em esforço, não chegavam a escutar-se sequer dentro da cabeça. Abriam a boca, gritavam e, apesar de sentirem a vibração da voz, o sangue a palpitar nas têmporas, os olhos quase a rebentarem, não ouviam nada. Quando o barulho terminou, ficou um silêncio insistente, um guincho nos ouvidos. Então, podiam ter gritado, mas aquele já não era tempo de gritos, era hora de respirar. Por isso, todos foram para a rua, velhos, crianças, mulheres, homens com a barba por fazer.
O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões mas, em roupa de cama ou roupa de casa, malvestidos, apreciaram o frio, soube-lhes bem na pele. Tinham sobrevivido. A meio da noite, as portas abertas de todas as casas da vila, luz entornada, e as ruas cheias, mulheres de camisa de noite, homens de ceroulas, contentes por se verem uns aos outros. Estavam alarmados e magoados mas, assim que dividiram o peso dessa aflição por todos, o alívio foi imediato. Houve quem começasse a sorrir logo ali. Ninguém tinha respostas. Do Queimado à Amendoeira, no Alto da Praça, na Deveza, na Fonte, as ruas estavam cheias de gente a expulsar de dentro de si o susto. Sob o trauma dos estrondos e o cheiro a enxofre, falavam sem parar. Perdiam o sentido, mas não perdiam a oportunidade. Àquela hora, bem passava da meia-noite, em Janeiro, as ruas estavam cheias de gente a falar. Todos queriam dizer alguma coisa. Quando parecia que estavam compenetrados, não estavam realmente a ouvir, estavam só à espera de vez, à espera de um bocadinho vago para entrarem com o que tinham a dizer. Até as crianças, ignoradas pelos crescidos, procuravam-se e arregalavam os olhos. Dentro do segredo, entre as sombras, os cães cheiravam-se uns aos outros, murchos, magoados, de orelhas descaídas, como se tentassem consolar-se de uma tristeza infinita.
Na fachada do Matta Figueira, na rua da Fonte Velha, o candeeiro estava tombado, de pescoço partido, cabeça caída, sem préstimo. Era um candeeiro de estimação, pendia daquela parede desde épocas em que o pavio era aceso todas as noites. E, sim, o próprio Matta Figueira estava na rua, dois passos diante da sua porta, e estava também a senhora, e também o filho, menino Pedro, também a nora e o neto. Como se posassem para uma fotografia. Apesar de terem acordado de imprevisto como toda a gente, estavam bem penteados e passados a ferro. Essa solenidade contagiava os vizinhos. Até o Acúrcio e a mulher, do outro lado da rua, vestidos com a roupa com que atendiam todos os dias na taberna, nódoas de vinho tinto, estavam em sentido, mas sem convicção. O cabo da guarda, vindo do lado do terreiro, foi direito ao Matta Figueira. Em tom de relatório, não tinha explicações seguras. De olhar baixo, lamentava muito, pedia desculpas, quase como se assumisse responsabilidade da ocorrência. O doutor não o desculpou logo. Não podia esquecer com tanta facilidade um incómodo daquela dimensão. A sua família, como era visível, tinha sido bastante atingida. Além disso, havia a situação do candeeiro. O cheiro a enxofre engelhava a cara das pessoas em toda a vila». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

Interpretações no 31. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «… que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra ‘é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos’…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Envolto num ambiente de contenda, Maquiavel acabou por ficar atado ao pelourinho da infâmia, as suas ideias, tanto no linguajar popular como na conceitualização erudita, associadas a uma acepção pecaminosa, simbolizando a palavra maquiavélico a urdidura do enredo enganador, a vileza da traição aleivosa, a perfídia desapiedada, em suma, o principado da amoralidade, em resumo, o(a) diabólico(a). Papini, que tem o condão de resumir grandes reflexões em pequenas frases, sintetizou: … Maquiavel ficou com fama de porco por causa de La Mandragola e de canalha por causa de O Príncipe. E, no entanto, poder-se-á dizer, como escreveu Sena, que ...ele foi, antes de mais, um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a sua Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras? Poder-se-á dizer, acompanhando de novo Jorge de Sena, um engenheiro a quem a literatura tanto deve, que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas? Talvez, ou nem tanto. Eis do que se trata: de amar, odiar ou compreender este livro. Lê-lo não basta. Ele pode ser um produto do riso irónico sobre os poderosos ou o fruto de uma raiva contida sobre as suas vítimas. Manual de política ou novela alegórica? Vejamos pois, começando pelo seu autor, aproximando-nos do momento em que o escreveu.

Escrever para parecer vivo
Estamos no dia 7 de Novembro de 1512, em Florença. O secretário da Segunda Chancelaria, cumulativamente secretário dos Dieci di Libertà, organismo incumbido da defesa da cidade, Niccolò Machiavegli, como assinava então, é informado pela Senhoria de que perdeu os seus lugares, estando deles exonerado, sendo substituído por um também Niccolò, mas Michelozzi, de quem não reza hoje a História. Mudara o regime que governava a cidade, os de Medici haviam regressado em força, depois de dezoito anos de exílio. Piero Soderini, o gonfaloniere vitalício, (o governo de Florença era então confiado bimestralmente a nove cidadãos eleitos com o título de gonfaloniere, gonfaloneiro em português; Piero Soderini (1452-1522) sê-lo-ia por designação vitalícia, mas o seu mandato acabou por durar apenas oito anos) cabeça da ordem política agora caída, vira ser-lhe retirado, num primeiro momento, essa perenidade do cargo, para ser depois substituído por Giovan Battista Ridolfi. A sua tibieza, a incapacidade de lidar com os graves problemas do seu tempo, o facto de ter consentido a realização do concílio cismático de Pisa, evento animado pelo rei Luís XII de França e que levou à queda do papa Júlio II, foram a causa da sua desgraça. Niccolò, considerado um mannerino do deposto, um instrumento da sua política, teria de seguir-lhe os passos.
A estrutura do mando é profundamente alterada. Tanto Maquiavel como o seu dilecto coadjuctor, Biagio Buonaccorsi, sabem que a sua posição está em causa. Aqueles que haviam servido estão apeados. Para o autor de O Príncipe nasce aqui a grande lição de vida, a confirmação do essencial da sua filosofia, o que faz dele, séculos volvidos, o mestre observador da arte da política: a bondade, a generosidade, a tibieza, o escrúpulo moral são, na política, instrumentos inúteis. Comentando, em um dos seus Discorsi, o comportamento daquele seu senhor agora caído, censura-lhe a paciência e a bondade de alma e, sobretudo, o ter seguido os humores da multidão, preterindo os conselhos dos homens sábios, franqueando as portas aos seus adversários; ao não ter tomado as medidas extraordinárias que a situação exigia, perdera a pátria, o Estado e a sua própria reputação. O regime que servira caíra ante a sua incapacidade de fazer mal: eis, nesta apologia do mal instrumental, neste desprezo pela inocência do bem absoluto, nesta ênfase do conselho da aristocracia dos sábios, neste relegar dos humores da multidão, a estrutura resumida do que pensava Maquiavel sobre o modo como deve agir o político, para que possa conseguir sucesso, no meio hostil em que tem de sobreviver». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

O almofariz no 31. O Quinto Mandamento. Barry Eisler. «A imprevisibilidade é essencial para se ser um alvo difícil mas o conceito aplica-se tanto à hora como ao local. Meias medidas como as deste tipo talvez o protegessem de algumas pessoas em algumas alturas…»

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«(…) Na verdade, o meu aparecimento recente no ginásio dele não tinha nada que ver com uma transferência para outro posto de trabalho, era mais uma viagem de negócios. Afinal de contas, eu estava em Tóquio para tratar de um serviço. Quando o trabalho estivesse feito, ia-me embora. Tinha feito algumas coisas para gerar animosidade contra a minha pessoa quando ali morara e talvez os afectados ainda andassem à minha procura, mesmo depois de me ter ausentado durante um ano, de modo que uma estada curta era o máximo que me podia permitir sem abusar da sorte. O Tatsu entregara-me uma pasta sobre o yakuza um mês antes, quando me encontrara e me convencera a aceitar a missão. Pelo conteúdo da pasta, eu teria concluído que o alvo era apenas um capanga da máfia, mas sabia que devia ser mais do que isso, visto que o Tatsu queria que fosse eliminado. Não lhe chegara a perguntar. Só queria saber os pormenores que me ajudariam a aproximar-me do homem. O resto era irrelevante.
A pasta incluía o número de telefone móvel do yakuza. Eu tinha passado essa informação ao Harry que, sendo um hacker compulsivo, há muito que tinha invadido os sistemas informáticos que controlam as redes de comunicação móvel das três maiores operadoras telefónicas do Japão. Os computadores dele andavam a monitorizar os movimentos do telefone móvel do yakuza na rede. Cada vez que o aparelho era apanhado por uma torre que cobria a região em redor do ginásio o Harry mandava-me uma mensagem para o pager. Hoje a mensagem chegou pouco depois das oito da noite, quando eu estava a ler no meu quarto no Hotel New Otani, em Akasaka-Mitsuke. Sabia que o ginásio fechava às oito, portanto, se o yakuza estava lá a fazer exercício fora de horas, era bem provável que se encontrasse sozinho. Era disso que eu estava à espera.
O meu equipamento já estava arrumado num saco e saí dali a poucos minutos. Apanhei um táxi ligeiramente afastado do hotel, não querendo que o porteiro ouvisse, ou memorizasse, para onde eu ia e, passados cinco minutos, apeei-me na esquina da Roppongi-dori com a Gaienhigashi-dori, em Roppongi. Detestava ter de seguir um percurso tão directo, pois isso reduzia a possibilidade de me assegurar de que não estava a ser seguido, mas tinha muito pouco tempo para resolver a situação de acordo com o planeado e decidi que valia a pena correr esse risco. Há mais de um mês que andava a vigiar o yakuza e conhecia as rotinas dele. Descobrira que gostava de variar o horário das sessões de exercício, ora aparecendo no ginásio de manhã cedo, ora aparecendo à noite. Provavelmente partia do princípio que a imprevisibilidade resultante o tornava mais difícil de atingir. Em parte, tinha razão. A imprevisibilidade é essencial para se ser um alvo difícil mas o conceito aplica-se tanto à hora como ao local. Meias medidas como as deste tipo talvez o protegessem de algumas pessoas em algumas alturas, mas não o protegeriam durante muito tempo de alguém como eu.
É estranho que as pessoas consigam adoptar medidas de segurança adequadas, até mesmo fortes em determinados aspectos, enquanto se deixam vulneráveis noutros. É como trancar a porta de casa com duas voltas da chave e deixar as janelas escancaradas. Às vezes esse fenómeno deve-se ao medo. Não tanto o medo das exigências como o medo das consequências da vida de alvo difícil. Protecção a sério exige a aniquilação de todos os laços sociais, laços que, para a maioria das pessoas, são tão necessários como o oxigénio. Obriga a que se desista dos amigos, da família e do amor. Passeia-se pelo mundo como um fantasma, desligado dos seres vivos que o rodeiam. Caso se morra, por exemplo, num acidente de autocarro, acaba-se enterrado num cemitério municipal obscuro, um anónimo como os outros, sem flores, sem enlutados, ora, sem que a perda doa a quem quer que seja. É natural, e provavelmente até desejável, recear-se fudo isso.
Noutras alturas verifica-se uma variedade de negação. A adopção de percursos sinuosos, as medidas de segurança extensivas e o diálogo interno constituído por: … se eu estivesse a tentar caçar-me, como faria?, exigem uma aceitação profunda da noção de que há alguém por aí que tem não só motivos, como também meios para abreviar a nossa permanência na Terra. Essa, noção é inatamente incómoda para a psique humana, de tal modo que produz uma enorme tensão, até nos soldados em combate. Há muitos tipos que, da primeira vez que são alvo de fogo à queima-roupa, entram em estado de choque. Porque é que ele me quer matar a mim?, perguntam para com os seus botões. Que mal lhe fiz eu? Pense nisso. Alguma vez espreitou para dentro do armário ou para debaixo da cama, quando está sozinho em casa, para garantir que não há ali nenhum intruso escondido? Agora, se sinceramente acreditasse que o gorro está à coca num desses sítios, teria a mesma atitude que tem hoje? Claro que não. No entanto, é mais confortável acreditar no perigo apenas em termos abstractos e reagir com uma certa falta de convicção. Trata-se de uma forma de negação.
Por fim, como é evidente, também há a preguiça. Quem é que tem tempo e energia para inspeccionar o carro da família, à procura de engenhos explosivos artesanais, antes de cada viagem que faz? Quem é que se pode dar ao luxo de perder duas horas num percurso sinuoso para chegar a um sítio onde poderia ter chegado em dez minutos? Quem é que quer desistir de se sentar num restaurante ou num bar porque os únicos lugares vagos estão virados para a parede, e não para a entrada? São perguntas retóricas, mas sei qual seria a resposta do Crazy Jake: … os vivos; e aqueles que têm intenção de continuar assim. E assim se chega a uma racionalização fácil que, com certeza, é conhecida de muita gente que já matou, como eu: … se ele realmente quisesse viver, reza a racionalização, … eu não teria conseguido apanhá-lo; ele não se teria permitido aquela fraqueza que o entalou». In Barry Eisler, O Quinto Mandamento, 2004, tradução de Luís Coimbra, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-6337-304-7.

Cortesia de SEmergência/JDACT

Picasso no 31. O Pintor de Sombras. Esteban Martin. «Para quê ser tão rígido? A disciplina, a ordem e o seguimento dos professores e dos amigos artistas não haviam feito do pai um bom pintor, apenas um professor competente. Pablo tinha razão»

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Pablo Picasso. El Torín
Barcelona, finais de Setembro de 1895
«(…) Pablo não respondeu. Sabia que o pai tinha razão. Mas também sabia que envelhecia mal. Andava sempre triste e amargurado. Tudo aquilo se acentuara na Corunha, depois da morte da irmã e quando se decidiu a não voltar a pintar. Deixa-o. É uma criança, interveio a mãe, que sempre se colocava do seu lado. Não dizes que é muito bom e que será um grande pintor? Então permite-lhe alguma liberdade. Não faz nada de mal, sai de casa e desenha. Não é o que querias? O pai não respondeu. Sabia que a mulher defendia sempre o rapaz, mesmo que fosse apenas para o contradizer, para o colocar em evidência. Pablo era o seu favorito. María Picasso não percebia de pintura e, apesar de não revelar admiração pelo marido, acompanhava-o unicamente na convicção de terem um génio na família, alguém que o superaria e que se tornaria um pintor de verdade. Para quê ser tão rígido? A disciplina, a ordem e o seguimento dos professores e dos amigos artistas não haviam feito do pai um bom pintor, apenas um professor competente. Pablo tinha razão. Precisava de asas e não que o seu melancólico e triste marido tentasse cortá-las e aprisioná-lo a cada passo. Anda. A tua mãe tem o jantar preparado, disse José com o intuito de terminar por ali a discussão. Talvez não fosse absurdo alugar um estúdio ao rapaz. Convinha-lhe ter um espaço próprio, mesmo que fosse um local pequeno e modesto, pensou o pai José enquanto se sentava à mesa.

O estúdio
Barcelona, Setembro de 1896
Aqui ficarás bem, disse-lhe o seu pai. José alugara ao rapaz um pequeno quarto para que instalasse o seu atelier, situado no número quatro da Rua de la Plata. Tudo isto é para mim, pai? Não é muito grande, mas é o suficiente. Mal cabemos em casa e isto é tudo o que posso pagar para que te dediques a pintar, disse, lacónico, e logo a seguir, como se falasse consigo mesmo, acrescentou: … um pintor necessita de estar sozinho para que o seu mundo flua até à mão; um pintor necessita de silêncio e solidão. Precisamente o que ele nunca tivera.
José olhou o rapaz e abraçou-o. Não era homem dado a gestos efusivos, mas não conseguiu evitar abraçar o seu filho. Chegara à conclusão de que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar a carreira daquele rapaz que tinha um dom prodigioso, acreditando que os seus olhos conseguiriam ver a pintura como ninguém o fizera até então. Ainda conseguia recordar o seu pequeno desenhando na areia da Praça de La Merced, sem levantar o dedo do solo, quando ainda nem sabia andar, começando o desenho de um cão, de um galo ou de uma pomba pelo ponto indicado pelas primas: pela cauda, pela cabeça, por uma pata. Tanto fazia. Pablito era capaz de desenhar começando por qualquer parte. Aquele rapaz, que sempre tivera problemas com a ortografia e a aritmética, e a quem não interessavam os livros, passava o dia pintando touros, pombas e tudo o que lhe pediam as suas primas. Pis, pis, pis, dizia a sua mãe que fora a primeira palavra que aprendera. Pedia um lápis mesmo sem saber falar. Um lápis que não mais soltaria até ao ultimo dia da sua vida, mesmo que o seu pai não o pudesse saber». In Esteban Martin, O Pintor de Sombras, 2008, tradução de Renato Carreira, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-637-310-8.

Cortesia SEmergência/JDACT

No 31. De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «Apesar de não nos ser dito que dona Leonor foi a mais velha, parece ter sido o caso, ainda que continue por explicar o que aconteceu nos anos entre 1447 e 1458, isto é, entre a data do casamento e o nascimento de dona Leonor»

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Uma mãe eficiente: dona Beatriz, infanta e neta do duque de Bragança
«(…) Em primeiro lugar, os dados brutos: só em ouro totalizava 22,5 marcos e 6 oitavas, e a prata 483,5 marcos e 5 oitavas, isto é, o equivalente a 5,1 quilo de ouro e 111 quilo de prata. Eram de ouro as jóias de seu corpo, e de prata muitos dos objectos necessários à sua câmara. Por outro lado, trata-se de um enxoval cujo uso era colectivo e se estendia a uma comunidade de mulheres, uma vez que as damas da infanta aparecem referidas em muitos dos itens. Para elas, havia uma mesa marchetada (isto é, com embutidos), munida de castiçais e saleiros; uma profusão de peças de roupa entre cotas (vestidos), opas e crespinas (toucas ou véus), e várias camas munidas de todo o necessário (colchões, travesseiros, lençóis, etc.). Um total de cerca de trinta arcas e cofres que continham uma extrema variedade de objectos de uso pessoal e doméstico, incluindo as peças mais prezadas enquanto consumos de prestígio.
Havia uma capela completa para as devoções e funções religiosas privadas, de que faziam parte livros litúrgicos (um missal e um breviário), uma vestimenta para um sacerdote e uma sobrepeliz para um capelão, castiçais para o altar, um cálice e uma custódia, a cruz do altar, a naveta para guardar o incenso e o turíbulo para queimar e espalhar o seu fumo, um porta-paz, uma caldeira com hissope para aspergir água benta, galhetas para guardar os santos óleos. Não faltavam também objectos de uso profano como o tabuleiro de xadrez, ou os essenciais e muito prestigiosos objectos de toilette, os espelhos e pentes. Também se incluíam numerosos objectos para levar à mesa, em que não faltavam as confeiteiras (para doces) e os oveiros (para ovos). Sinais de distinção que, mais do que fornecerem os equipamentos necessários à vida doméstica e aos cuidados do corpo e alma, simbolizavam o estatuto régio da noiva e recordavam ao noivo o dever de o respeitar. Estava portanto a infanta dona Beatriz suficientemente provida de bens necessários ao seu novo estado. Vejamos o que aconteceu nos vinte e três anos em que esteve casada com o infante Fernando, antes de enviuvar em 1470.
Teve, segundo consta, nove filhos, o que significa que cumpriu o que se esperava de uma nobre de alta estirpe em termos de reprodução biológica. Se tivermos em conta que pode ter tido desmanchos, filhos mortos à nascença ou de poucos dias que raramente deixavam vestígios documentais, provavelmente teríamos muito mais gravidezes. Mesmo os filhos de reis e rainhas em exercício só são mencionados extensivamente nas crónicas quando vieram a ser herdeiros ou herdeiras do trono. Quando o marido morreu, João era o filho mais velho, dado como tendo 10 anos, ou seja, menos dois do que a irmã. Apesar de não nos ser dito que dona Leonor foi a mais velha, parece ter sido o caso, ainda que continue por explicar o que aconteceu nos anos entre 1447 e 1458, isto é, entre a data do casamento e o nascimento de dona Leonor. Teriam tido filhos entretanto mortos? Ou teria havido um longo período de infertilidade, seguido por muitos filhos?
Dona Beatriz sobreviveu mais de trinta e seis anos ao marido, e assumiu por inteiro o comando da família durante a menoridade dos filhos, em nome dos quais administrava o património da casa, uma grande fortuna e um enorme poderio territorial. Sogra do rei, sogra do duque de Bragança, o número dois no ranking do poder monárquico, tutora de seus filhos rapazes menores, tia da rainha de Castela, Isabel a Católica. Ao mais velho estava destinada a sucessão do mestrado da Ordem de Cristo, mas dona Beatriz assumiu durante breve espaço de tempo a chefia da mesma, na qualidade de tutora de seu filho. Não é difícil imaginá-la como uma mulher autónoma. A sua independência, no entanto, sofria de uma desvantagem que a filha dona Leonor não terá aquando da sua também prolongada viuvez. É que, enquanto mãe de filhos do sexo masculino, dona Beatriz ficaria dependente da sua generosidade e debaixo da sua autoridade quando atingissem a maioridade. Aconteceu com Diogo e mais tarde com o filho Manuel, duque de Beja e depois rei, que lhe pagava uma generosa tença. Dona Leonor seria uma viúva sem filhos, pelo que gozaria de maior autonomia.
De resto, fazemos aqui um parêntese importante para explicar algo de crucial: pela via materna, a rainha dona Leonor fazia a ponte com os Bragança de forma dupla. Por um lado a sua mãe, dona Beatriz, era neta de Afonso, conde de Barcelos, 1.º duque de Bragança e filho ilegítimo do rei João I, e por outro a sua irmã dona Isabel era casada com o terceiro duque do título, Fernando. E já agora uma segunda ligação dinástica importante: a irmã de dona Beatriz, Isabel, era mãe Isabel, a Católica, sendo esta última, portanto, sua sobrinha, e prima direita de dona Leonor. De resto, a avó materna de dona Leonor morreria em Arévalo, onde se juntara à filha (e mãe de Isabel, a Católica) que sofria de perturbações do foro mental. Portanto, dona Leonor, por via de sua mãe, não deixava de ser também uma Bragança, e, demonstrou apego a estes laços de parentesco durante toda a sua vida. Dona Leonor pertencia a uma família cuja linhagem tinha pertenças múltiplas relativamente a duas casas que podiam contender o poder dinástico ao príncipe e depois rei seu marido: os Bragança e os Reis Católicos». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 30 de agosto de 2015

O Quinto Mandamento Barry Eisler. «Antigamente não me era fácil manter o anonimato no Japão, numa fase em que a minha ascendência estava documentada em registos abertos ao público e era motivo de provocações no recreio»

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«Assim que se ultrapassa a ironia geral da situação, percebe-se que matar um tipo dentro do seu próprio ginásio tem muito a seu favor. O alvo era um yakuza, um fanático da musculação chamado Ishihara que treinava todos os dias num ginásio do qual era proprietário em Roppongi, um dos bairros de diversões de Tóquio. O Tatsu dissera-me que a morte dele tinha de parecer provocada por causas naturais, como sempre, portanto fiquei contente com a possibilidade de trabalhar num espaço onde não era, nem de perto, nem de longe, impensável que alguém esticasse o pernil com um aneurisma fatal provocado pelo esforço, ou tivesse o azar de cair em cima de uma barra de aço, ou de sofrer qualquer outro acidente trágico enquanto usava um dos complicados aparelhos de exercício. Talvez uma dessas eventualidades viesse inclusive a ser imortalizada nos avisos que os advogados especializados em direito comercial insistiriam em colocar na próxima geração de equipamento de ginásio informando o público de mais uma utilização contra-natura que não era pretendida para o dito aparelho e pela qual não poderia ser imputada ao fabricante qualquer responsabilidade. Ao longo dos anos o meu trabalho transformou-me no anónimo laureado com dois encómios jurídicos dessa laia: um deles numa ponte sobre as águas poluídas do rio Sumida, onde determinada figura política se afogou em 1982 (Atenção. Não Trepar Para Cima Do Corrimão); outro datado de uma década mais tarde, criado na sequência da electrocussão de um banqueiro invulgarmente diligente, que aparece hoje nas embalagens de secadores de cabelo (Atenção. Não Utilizar Enquanto Toma Banho).
O ginásio também era um local conveniente por eu não me ter de preocupar com as impressões digitais. No Japão, onde a escolha da indumentária é como que um passatempo nacional, um halterofilista fazer exercício sem luvas estilosas e almofadadas é tão improvável como um político aceitar subornos em cuecas. Era o início de uma Primavera amena para Tóquio, prometendo, segundo se dizia, uma bela temporada de cerejeiras em flor, e onde, senão num ginásio, poderia um homem de luvas ter passado despercebido? No meu ramo, metade do trabalho passa por não dar nas vistas. As pessoas comunicam sinais através da linguagem corporal, a maneira de andar, o vestuário, a expressão facial, o porte, a atitude, o discurso, os maneirismos, que nos dizem de onde vêm, o que fazem, quem são e, o mais importante de tudo, se estão bem integradas em determinado meio. Porque se uma pessoa não parecer bem integrada, é topada pelo alvo e, a partir daí, não consegue aproximar-se suficientemente dele para arrumar o assunto como deve ser. Ou é apanhada pelo raro polícia incorrupto e ter de dar satisfações à justiça. Ou uma equipa de contra vigilância repara nela e, então, parabéns!, o assassino passa a ser o alvo.
Por outro lado, se se tiver atenção, começa-se a perceber que a identificação de sinais é uma ciência, e não uma arte. Observa-se, imita-se e assimila-se. Mais cedo ou mais tarde, consegue-se seguir alvos diferentes em ecossistemas sociais diferentes, permanecendo-se anónimo em todos eles. Antigamente não me era fácil manter o anonimato no Japão, numa fase em que a minha ascendência estava documentada em registos abertos ao público e era motivo de provocações no recreio. No entanto, hoje ninguém daria pelos traços caucasianos na minha cara, a não ser que estivesse avisado de que estão lá. A minha mãe americana não se teria importado com isso. Sempre quis que eu me integrasse no Japão e ficou satisfeita por as feições nipónicas do meu pai terem prevalecido naquele confronto genético inicial pelo predomínio. E a operação plástica a que me submeti quando voltei ao Japão, depois da minha temporada com as Forças Especiais americanas no Vietname, completou em grande medida a obra que o acaso e a natureza tinham iniciado. A história que os meus sinais contariam ao yakuza era simples. Só me tinha começado a ver no ginásio há pouco tempo, mas era nítido que eu já estava em forma. Portanto não era um tipo de meia-idade que tinha decidido dedicar-se à musculação para tentar recuperar o físico perdido depois da faculdade. A explicação mais provável para isso seria que eu trabalhava para uma empresa que me transferira para Tóquio, e, tendo em conta que me tinham pago alojamento perto de Roppongi, talvez em Minami-Aoyama, ou Azabu, devia ser uma pessoa razoavelmente importante e bem remunerada. O facto de, pelos vistos, me dedicar à musculação nesta fase da vida provavelmente implicava que tinha casos com mulheres mais novas, para quem um físico jovem talvez aliviasse as inevitáveis consequências emocionais de dormirem com um homem mais velho naquilo, que, no fundo, seria pouco mais do que uma troca de sexo e da ilusão da imortalidade por carteiras Ferragamo e as outras moedas de troca implícitas em tais situações. Tudo isso seria compreensível e até respeitável para o yakuza». In Barry Eisler, O Quinto Mandamento, 2004, tradução de Luís Coimbra, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-6337-304-7.

Cortesia de SEmergência/JDACT

O Pintor de Sombras Esteban Martin. «O melhor do local em que vivia era a magnífica praça de touros ‘El Torín’, a primeira de Barcelona, concebida pelo arquitecto Josep Fontseré. A praça situava-se em Barceloneta»

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«No meu caso, um quadro é um somatório de destruições». In Pablo Picasso

Pablo Picasso. El Torín
Barcelona, finais de Setembro de 1895
«Embarcaram com destino a Barcelona no dia 13 de Setembro no Cabo Roca, um pequeno cargueiro, depois de o seu pai solicitar a transferência e de passarem as férias em Málaga. O seu tio Salvador, detentor do cargo de director de sanidade do porto de Málaga, conseguira obter-lhes um desconto considerável no preço das passagens, facto que, sem dúvida, encorajou o pai a ultrapassar o receio que sempre sentira das viagens por mar. A travessia foi demorada e aborrecida, pois o barco navegou junto à costa até Barcelona, fazendo escalas nos portos de Cartagena, Alicante e Valência. Parecia que a viagem jamais chegaria ao fim. Para se entreter durante o percurso Pablo trabalhava em pequenas tábuas, pintando e desenhando cenas marítimas. José observava o filho enquanto este se entregava ao trabalho. Posso ver? Pablo mostrou-lhe a tábua. O pai José observou-a em silêncio, enquanto os seus olhos se iluminavam. O colorido do mar é bom. É um bom estudo, mas eu focar-me-ia mais no paredão e nos barcos atracados, disse, devolvendo-lhe a tábua.
Pablo centrou-se no paredão, tal como lhe havia instruído o pai, e pintou os barcos com grande detalhe. Já está, pai. Magnífico. Esperemos que esta viagem termine em breve. Começa a ser um pouco aborrecida, disse-lhe o pai, devolvendo-lhe o trabalho. Chegando a Barcelona, alojaram-se provisoriamente num pequeno quarto na Rua Cristina, muito perto do porto em Barceloneta e a quatro passos do edifício da Llotja, que albergava a Escola de Belas-Artes, onde José daria aulas e onde matriculara o filho no final de Setembro. Barcelona fascinou o rapaz. Era uma cidade grande, inovadora e industrial, com mais de meio milhão de habitantes e em plena transformação, com edifícios modernos e avenidas com árvores e iluminação. O melhor do local em que vivia era a magnífica praça de touros El Torín, a primeira de Barcelona, concebida pelo arquitecto Josep Fontseré. A praça situava-se em Barceloneta, no bairro de Ginebra, e visitava-a com o pai em muitas tardes para ver as corridas com um caderno na mão. Naquela praça, um ano depois da sua inauguração, eclodira a revolta que se estendeu pela cidade e que resultou na queima de conventos. O sucedido foi eternizado na poesia popular:

El dia de Sant Jaume de l’any trenta-cinc
hi va haver gran broma dintre del Torín;
van sortir set toros tots van ser dolents,
això va ser la causa de cremar els convents.

A praça foi fechada e, como represália, houve planos para a converter em matadouro. As corridas continuariam a realizar-se na Praça do Borne e, para ampliar a oferta taurina, idealizou-se a Praça do Rei. Mas a afición da cidade de Barcelona pela tauromaquia vinha de muito longe e ninguém se atreveu a converter El Torín num matadouro. Pablo entusiasmava-se com o bairro e percorria-o esboçando tudo o que via: as mulheres dos pescadores remendando as redes à porta das suas casas, estendendo a roupa ou vendendo peixe fresco; os miúdos brincando no adro da igreja de San Miguel del Puerto; os pescadores descarregando as caixas contendo as capturas do dia, e os banhistas, que vinham celebrar o solstício de Verão banhando-se nus nos balneários Soler. Até mesmo Amadeu I, de visita à cidade para as festas de La Merced, em 1871, acabou nu e banhando-se em pelota. Transformara-se assim numa tradição monárquica, já que a rainha Isabel II, em 1840 e pelo menos em três outras ocasiões, se deslocara à praia de Barceloneta para se submeter a banhos de ondulação por recomendação médica, com a finalidade de curar um doloroso eczema.
Esta tarde iremos ao bairro de Ostia para ver os touros, disse-lhe o seu pai numa ocasião. A expressão chocou o rapaz, levando em conta as suas crenças religiosas e a pureza da sua linguagem. A Barceloneta, filho. Também lhe chamam assim porque, ao que parece, quando fundaram o bairro existia um estabelecimento propriedade de um italiano, que na fachada mandou pôr um letreiro representando a sua terra natal, a cidade de Ostia. Aquela gente maravilhava Pablo nos seus passeios. Como todas as gente do mar, viviam mais na rua do que em casa, tomando ar fresco, jantando. Viviam em casas pequenas, muitas apenas com piso térreo. O rapaz depressa deixou de ser um estranho. Onde te metes, Pablo? Passas todo o dia por aí, com os teus amigos. Estive no paredão, na praia de Barceloneta, nos alpendres, no molhe de pesca, no bairro antigo...
Não pode ser, Pablo. Estás a negligenciar os estudos, repreendeu o seu pai com voz grave. Olhe o que lhe trago, pai, disse, mostrando-lhe um caderno. José começou a folhear as páginas lentamente, observando os desenhos que preenchiam o caderno. O rapaz tinha boa mão para o esboço rápido, para captar uma grande variedade de tipos humanos, de profissões e de ambientes. Fizeste tudo isto esta semana? Não, pai. Fi-los hoje. Hoje?... A todos? Sim, pai. Estão muito bem, filho. Mas preferia que não faltasses às aulas. Aborrecem-me, pai. Mas vou a todas. Sabe-o bem. Sim, sobretudo às de desenho e modelo. Mas, o que me dizes das aulas de história da arte e de estética?» In Esteban Martin, O Pintor de Sombras, 2008, tradução de Renato Carreira, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-637-310-8.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos»

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«(…) João foi capciosamente aceitando tais incumbências, e simultaneamente consolidando o poderio da sua casa com valiosas mercês outorgadas por Filipe IV. Terá constituído uma profunda surpresa para Castela a adesão de João à causa dos conjurados, ficando por esclarecer a estratégia do duque, entre prudente e ambígua, mantendo a sua reserva na aceitação da coroa até meados de Novembro de 1640. O apoio de dona Luísa Gusmão à decisão do marido é consensual nas diferentes fontes históricas sendo, contudo, relegada para o domínio da lenda a sua épica frase antes viver reinando que acabar servindo, que a história, de facto, não regista. Consumada a restauração da independência, a 1 de Dezembro de 1640, com a lendária defenestração de Miguel Vasconcelos e a prisão da duquesa de Mântua, o 8.º duque de Bragança é aclamado rei de Portugal a 15 de Dezembro seguinte, sob o nome de João IV, inaugurando, assim, a última dinastia de Portugal.
João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos. Nada mais é assinalado sobre a saúde do rei até Dezembro de 1654, altura em surgem os primeiros sintomas da doença que o levaria à morte, cerca de dois anos depois. O rei sofre um episódio de retenção urinária, de provável etiologia obstrutiva, descrito pelo seu médico pessoal, Francisco Morato Roma, de forma elucidativa: … estando el-rei nosso senhor João IV, nos campos de Salvaterra, numa madrugada de Dezembro à caça, e depois de alguns dias de exercício, a pé e a cavalo, lhe sobreveio uma repentina e total supressão de urina. Deu conta aos médicos, que palparam e tentaram as vias da urina e acharam que a supressão era superior, porquanto na bexiga nem na uretra havia urina detida. Começaram a aplicar remédios e, como não bastassem, suposto que não havia febre nem dor, o sangraram por haver enchimento nas veias. Não bastaram estas evacuações para desembaraçar as vias da urina, passaram a banhos e cozimentos de ervas apropriadas em que se banhava de manhã e à tarde. Estando no banho tomava remédios diuréticos, assim em bebidas como em substância, quintas essências e outros de grande eficácia. Ajuntaram-se os médicos da câmara real, que eram sete, concordaram todos assim no conhecimento do achaque, como na aplicação dos remédios. Passaram-se neste aparato quatro dias e como nestes casos o prognóstico é de pouca esperança, tratou-se de acudir a Deus. Comungou sua majestade, fizeram-se preces, vieram relíquias, continuando-se os remédios com muito cuidado.
Ao 5º dia se assentou entre os médicos tomasse as pílulas de aço. Levantou-se sua majestade, tomou cinco pílulas, que teriam meia oitava de aço, passeou meia hora, recolheu-se, descansou e nisto pediu retrete. Tomou o urinol, lançou quantidade de uma onça de urina, com a qual saiu um limo de fleima, coisa pequena, e trazia consigo envolta uma pedrinha branca da figura e tamanho de uma pevide de limão pequeno. Foi continuando a urinar em tanta cópia que naquele dia e no outro lançou três canadas e no dia seguinte outro tanto. No quarto dia tornou a natureza o seu curso ordinário. Nos dois anos seguintes, não dispomos de informação sobre a evolução da saúde do rei João IV. A 4 de Outubro de 1656, surge novo episódio de retenção urinária que lhe seria fatal, ao fim de duas semanas de sofrimento». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

De Princesa a Rainha-velha. Leonor de Lencastre. Isabel Guimarães Sá. «… um reino empobrecido, um património real secundário face à soma do dos dois ducados de Bragança e Viseu. Para João II, arriscamos, a família “rica”, seria a da mulher e não a dele. E a mãe, dona Beatriz? E os irmãos de Leonor?»

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Um pai ambicioso. O infante Fernando, irmão do rei Afonso V
«(…) O autor ou autores dos Apontamentos históricos, dão no entanto um timing diferente para este acordo: verificou-se logo a seguir à expedição em que o infante Fernando conquistou Anafé com autorização do irmão, em 1468. Reza o texto: … neste tempo depois da vinda do infante Fernando acabou ele de firmarde tudo com el rei seu irmão o casamento da senhora dona Leonor sua filha com o príncipe João; e assim consertou outro da senhora dona Isabel também sua filha legítima com o conde de Guimarães e el rei por mais enobrecimento deste casamento o fez duque da mesma vila de Guimarães sendo ainda vivo o duque de Bragança seu pai por cuja morte sucedeu o título de dois ducados e etc. Aos 10 anos, estava já a nossa rainha prometida ao herdeiro do trono, e sua irmã ao futuro duque de Bragança. Filhas arrumadas, portanto. Com uma importante consequência, que devemos desde já assinalar. Vistas as coisas pelo lado do futuro João II, agora comprometido, estavam cortadas as hipóteses de fazer outros arranjos matrimoniais. Com efeito, poucos anos antes, em 1465, a irmã de ambos, Joana, casada com o rei de Castela Henrique IV, viera pedir ajuda contra os nobres que se levantavam contra o marido, tendo falado do casamento tanto do rei viúvo como do seu herdeiro. Os casamentos não foram por diante, mas as noivas em perspectiva eram a sua filha muito pequena, Joana, e Isabel, meia-irmã do rei, e depois conhecida por a Católica. Estes planos deviam ser do conhecimento do próprio duque de Viseu, que assim punha termo a quaisquer projectos, interpondo a sua filha entre Afonso V e a família real castelhana, O que terá consequências futuras.
Os sucessores do infante Fernando, nomeadamente a sua viúva, tratariam dos detalhes do negócio com o seu irmão Afonso V. A outra filha, Isabel, nascida depois de dona Leonor, viria a casar pela mesma altura. Uma sequência que, de resto, não tinha nada de aleatório: nos jogos das uniões dinásticas, a filha mais velha, a não ser que tivesse algum defeito, era sempre dada ao noivo mais importante. E é quase tudo o que se pode dizer acerca do pai e da filha, e apenas podemos especular sobre as recordações que esta última teve do pai na sua idade adulta. Recordá-lo-ia ao lado da mãe, em Beja, preparando a criação do Mosteiro da Conceição? Ou como cavaleiro, aprontando expedições a África? Ou como governador das ordens militares de Santiago e de Cristo? Ou, pelo contrário, tinha dele uma imagem ficcionada, alterada pelas recordações e narrativas dos outros? Em todo o caso, relembre-se que, à semelhança de muitas crianças não só das famílias reais como das outras, dona Leonor ficou sem pai muito cedo, e não deixou de ser, embora rica e bem nascida, uma órfã. Numa época em que a esperança de vida era curta e a mortalidade elevada, ficar sem pais durante a infância era um destino relativamente comum.
Relembre-se que esse estatuto era dado a todas as crianças cujo pai, natural detentor do poder paternal, tinha morrido ou não existia, o que fazia com que os que tivessem o pai vivo mas não a mãe não fossem considerados órfãos. Por exemplo, o príncipe João (futuro João II), embora sem mãe desde os sete meses, não era um órfão à face da lei. Dona Leonor foi-o, mas uma órfã para quem o pai teve tempo de cumprir o seu dever antes de morrer: arranjar-lhe um casamento vantajoso. Mesmo sem sabermos o que a figura paterna representou para a filha, adivinhamos o que o tio Fernando pode ter significado para João II: um reino empobrecido, um património real secundário face à soma do dos dois ducados de Bragança e Viseu. Para João II, arriscamos, a família rica, seria a da mulher e não a dele. E a mãe, dona Beatriz? E os irmãos de Leonor?

Uma mãe eficiente: dona Beatriz, infanta e neta do duque de Bragança
 mãe, tinha também reis entre os seus antepassados, sendo neta pela via paterna e materna do fundador da dinastia, o da Boa Memória, João I (1357-1385-1433). Como dissemos, era filha de um dos seus filhos legítimos, infante João, que tinha por sua vez casado com a meia-prima dona Isabel, filha de Afonso, 1.º duque de Bragança, bastardo de João I, e portanto também sua neta por via ilegítima. Casou com o infante Fernando em 1447, mas o seu contrato foi assinado dois anos antes. O seu enxoval é conhecido e encontra-se publicado: … jóias e corregimentos, que recebeu de sua mãe, dona Isabel de Bragança. Às mães competia zelar para que as filhas levassem para o casamento todos os objectos necessários ao corpo e casa. O enxoval de dona Beatriz é elucidativo sob vários pontos de vista, e necessita de um estudo que o enquadre na história da cultura material tardo-medieval, comparando-o com o de outras noivas de estirpe régia». In Isabel Guimarães Sá, De Princesa a Rainha-velha, Leonor de Lencastre, colecção Rainhas de Portugal, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-709-0.

Cortesia de CLeitores/JDACT

sábado, 29 de agosto de 2015

A Estátua do imperador Maximiliano. Pedro IV. Alexandre Borges. «… com parlamento, eleições, separação de poderes, liberdade de imprensa, liberdade religiosa, uma lei fundamental escrita consagrando valores de igualdade. O rei João VI e aquela que continua a ser formalmente sua mulher»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O príncipe tem nove anos quando os exércitos de Napoleão invadem o reino e o pai decide fugir para o Brasil. A travessia do Atlântico vai tornar-se familiar para os seus olhos negros e brilhantes: fá-la-á quatro vezes ao longo da vida. Fez-se homem no Rio de Janeiro, entre o povo das tabernas, mulheres e cenas de pancadaria, muitas vezes com maridos atraiçoados. Mas foi em São Paulo que casou, aos 19 anos, com a arquiduquesa Leopoldina, filha de Francisco, último imperador do Sacro Império Romano-Germânico e primeiro da Áustria, e sobrinha-neta da célebre Maria Antonieta. O momento determinante da sua vida, contudo, chegaria três anos depois...
Portugal, o país que tinha visto fugir para o Brasil toda a família real e elites, que precisou de um comandante estrangeiro, inglês, no caso, para se defender, podia gabar-se de uma coisa: quase toda a Europa tinha sido tomada por Napoleão, boa parte dela à primeira tentativa; Portugal sofrera três investidas francesas e nunca soçobrou. Com a derrota de Bonaparte em Waterloo e subsequente desterro para a ilha de Santa Helena, ficava o orgulho de um pequeno país que saía invicto do embate com um gigante (ainda que os ingleses o viessem a retratar como pouco mais do que um anão), mesmo que abandonado pelos seus líderes.
Esse orgulho, essa prova de vida e, finalmente, essa certeza de ter sobrevivido 13 duros anos sem rei, tinham de efectivar-se em qualquer coisa concreta. Assim, a partir da cidade do Porto e estendendo-se, depois, a muitos círculos do país, começou a formar-se a convicção de que o tempo dos senhores absolutos chegara ao fim. O Ocidente, de França aos Estados Unidos, já,fizera as suas revoluções liberais; era chegada a hora da revolução portuguesa. Em 1821, a família real é chamada a voltar para renunciar a boa parte dos seus poderes e assinar os termos de uma monarquia constitucional, com parlamento, eleições, separação de poderes, liberdade de imprensa, liberdade religiosa, uma lei fundamental escrita consagrando valores de igualdade. O rei João VI e aquela que continua a ser formalmente sua mulher, dona Carlota Joaquina, despedem-se do Brasil e embarcam para Lisboa; o filho Miguel, que tem agora 19 anos, também; mas Pedro não. Ou porque foi ali que cresceu, ou porque apoia os movimentos autonómicos locais, ou de concerto com o próprio pai, para reinar sobre um Brasil que evoluía, inexoravelmente, para a independência, Pedro fica.
E passado pouco mais de um ano, tomando conhecimento de que, em Portugal, se moviam influências diplomáticas para voltar a reduzir o reino brasileiro à condição de colónia, assume a ruptura junto ao riacho do Ipiranga, em São Paulo, grita independência ou morte. Ganha a primeira. Pedro é aclamado imperador do Brasil.
Em nome da vontade de fazer daquele território imenso e em boa medida selvagem um país uno e desenvolvido, o filho de João vai renunciar a ser rei de meio mundo. A decisão de ficar daquele lado do Atlântico e emancipá-lo significava, desde logo, recusar o trono português e o império adjacente de que era herdeiro legítimo, mas outros chamamentos viriam, e das proveniências mais inesperadas. Libertas de 400 anos de domínio turco, as províncias do antigo Império Romano do Oriente procuram reis que as dirijam numa nova era enquanto nações soberanas. A Grécia endereça o convite a um homem que ainda é descendente dos imperadores da velha dinastia Comnenus, precisamente Pedro, mas ele recusa. A própria Espanha, emancipada da ocupação napoleónica e dilacerada pela guerra entre absolutistas e liberais, vê em Pedro, liberal e libertador do Brasil, o homem certo para a comandar, mas ele, uma vez mais, prefere ficar do lado de lá a consolidar um novo país. Dizia assim que não a uma oportunidade sem paralelo em toda a História: ser imperador da Ibéria e das respectivas províncias ultramarinas, isto é, de grande parte da América Latina e da África, estendendo-se até Macau ou Filipinas, na Ásia longínqua». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Letras, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia CdasLetras/JDACT

O Quarteto de Alexandria. Clea. Lawrence Durrell. «Reconstituir a realidade, escrevi algures; palavras presunçosas e temerárias com efeito, pois é a realidade que nos constitui e reconstitui na sua roda lenta. E, contudo, se o interlúdio nesta ilha enriqueceu…»

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«A primeira e mais bela qualidade da natureza é o movimento que constantemente a agita; mas esse movimento é simplesmente a consequência perpétua de crimes, e só deles se alimenta». In DAF de Sade

«As laranjas foram este ano mais abundantes e opulentas. Brilhavam nos seus ninhos de um verde-pálido, como lanternas embaladas pelo vento, aparecendo aqui e além por entre as árvores batidas pelo sol. Era como se quisessem celebrar a nossa partida da ilha, porque finalmente a muito esperada mensagem de Nessim tinha chegado como uma intimação para regressarmos ao mundo das trevas. Uma mensagem que ia atirar-me inexoravelmente de volta para a cidade que para mim tinha sempre pairado entre a ilusão e a realidade, entre a substância e as imagens poéticas que o seu próprio nome despertava em mim. Uma memória, pensei, que tinha sido falsificada pelos desejos e intuições e apenas semirrealizada no papel. Alexandria, a capital da memória! Todos os escritos que fui buscar aos vivos e aos mortos, até eu próprio me tornar uma espécie de pós-escrito de uma carta que nunca foi remetida...
Quanto tempo estive fora? Difícil calcular, pois os calendários dão poucas indicações sobre as eternidades que separam um eu de outro eu, um dia de outro dia; e na verdade vivi sempre, mental e emotivamente, em Alexandria. E página após página, pulsação após pulsação, fui-me abandonando ao organismo grotesco a que todos pertencemos outrora, vencedores e vencidos. Uma cidade muito velha, modificando-se sob as pinceladas de mil pensamentos assaltados pela dúvida e pelo desejo de encontrar um significado, uma cidade que procurava desesperadamente uma identidade; algures para o sul, sobre os promontórios sombrios e hirsutos da África, persistia a aromática verdade do lugar, a amarga e intragável erva do passado, a medula da memória. Eu empreendera outrora arquivar, codificar e anotar o passado antes de inteiramente perdido, pelo menos decidira fazê-lo. Falhei (seria uma tarefa desesperada?), pois mal embalsamava em palavras um dos seus aspectos logo a intrusão de novo conhecimento quebrava os moldes do quadro e tudo se desmoronava para se reajustar sob novos planos invisíveis e imprevistos...
Reconstituir a realidade, escrevi algures; palavras presunçosas e temerárias com efeito, pois é a realidade que nos constitui e reconstitui na sua roda lenta. E, contudo, se o interlúdio nesta ilha enriqueceu a minha experiência foi talvez devido ao fracasso total da minha tentativa de relatar a verdade íntima de Alexandria. Agora encontrava-me perante a natureza do tempo, essa doença de alma humana. Tive de admitir a minha derrota como cronista. E todavia, de forma bastante curiosa, o mero acto de escrever dotou-me ainda de outra espécie de amadurecimento, pelo próprio fracasso das palavras que se afundam e perdem uma após outra nas insondáveis cavernas da imaginação. Forma dispendiosa de começar a viver, sim; mas nós, os artistas, somos obrigados a nutrir as nossas vidas por meio destas estranhas técnicas de introspecção.
Mas, então..., se eu tinha mudado, que seria feito dos meus amigos, Balthaza, Nessim, Justine, Clea...? Que novos aspectos iria discernir neles depois deste lapso de tempo, quando novamente me visse enredado no ambiente da nova cidade, uma cidade em guerra? Eis uma pergunta para a qual não encontrava resposta. Tremia interiormente de apreensão como uma agulha magnetizada. Era duro renunciar ao terreno arduamente conquistado pelos meus sonhos a favor de novas imagens, novas cidades, novas disposições, novos amores. Tinha-me habituado a amar os meus sonhos da cidade como um maníaco... Não seria mais prudente, pensava eu, deixar-me ficar onde estava? Talvez. E contudo sabia que devia partir. Na verdade, nesta mesma noite, estaria já longe da ilha! O pensamento era em si próprio tão incrível que tive de pronunciá-lo em voz alta.
Desde a chegada do mensageiro tínhamos passado os últimos dez dias numa deliciosa antecipação; o tempo parecia querer colaborar connosco numa sucessão de dias azuis e mares tranquilos. Estávamos entre duas paisagens, sem querer deixar uma delas, mas ansiosos por encontrar a outra. Como gaivotas pousadas na beira de uma falésia. E já as imagens contraditórias se misturavam e pugnavam nos meus sonhos. A casa da ilha, por exemplo, com as suas oliveiras e as amendoeiras cor de prata queimada, onde se perdiam as patas vermelhas das perdizes... Clareiras silenciosas onde apenas se poderia encontrar a face caprina de um sátiro. A simples e luminosa perfeição das formas e das cores, as outras premonições que cresciam dentro de nós, não se podiam mesclar. (Um céu cheio de estrelas-cadentes, as marés cor de esmeralda nas praias desertas, o grito das gaivotas nos caminhos brancos do Sul.) Este mundo grego começava a ser invadido já pelos odores da cidade esquecida, promontórios onde os suados capitães do mar tinham bebido e comido até estalar os ventres, onde tinham saciado o desejo dos seus corpos nas escravas negras com olhos de sabujo. (Os espelhos, a doçura dilacerante das vozes dos canários cegos, o gorgolejo dos narguilés dos vasos cor-de-rosa, o cheiro a parchuli e incenso). Entredevoravam-se estes sonhos irreconciliáveis. E tornei a ver os meus amigos (não apenas como nomes) à luz diferente da certeza desta partida. Não eram mais as sombras da minha mente, nem mesmo os mortos. À noite percorria as ruas tortuosas, de braço dado com Melissa (situada agora algures para além do remorso, pois mesmo em sonhos eu sabia que ela tinha morrido); as pernas magras davam-lhe um andar oscilante. E, como era nosso hábito, caminhávamos muito unidos, as coxas coladas. E tudo agora me despertava uma grande ternura, mesmo o velho vestido de algodão e os sapatos baratos que ela usava nos dias feriados. Ela não se lembrara de disfarçar com pó de arroz a mancha azulada de um chupão que alastrara no pescoço... Então desapareceu e acordei com um grito de desgosto. A madrugada nascia entre as oliveiras prateando as folhas inertes». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Clea, 1960, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Mountolive. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Bateu palmas violentamente e soltou um grito através das águas, sobressaltando o companheiro, que levantou a cabeça para seguir-lhe a direcção do dedo apontado. Para onde?»

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«(…) Os dois apêndices de carne rosada que separavam o lábio fendido estavam húmidos de saliva. Piscou o olho afectuosamente ao jovem inglês. As trevas corriam agora para eles e a luz extinguia-se. Bruscamente Narouz gritou: Chegou o momento. Olhe lá para diante. Bateu palmas violentamente e soltou um grito através das águas, sobressaltando o companheiro, que levantou a cabeça para seguir-lhe a direcção do dedo apontado. Para onde? A resposta de um tiro disparado no barco mais distante chicoteou o espaço, e a linha do horizonte foi novamente cortada a meio por um novo voo, erguendo-se mais lentamente e dividindo céu e terra numa ferida encarnada que alastrava como o recheio de uma romã a derramar-se da casca. Depois, o encarnado cambiou para escarlate, e a abóbada recaiu na superfície do lago numa chuva de neve branca que se fundia ao tocar na água. Flamingos!, exclamaram ambos e riram, e a escuridão recaiu sobre eles, extinguindo o mundo visível.
Ficaram por um momento imóveis, respirando pesadamente, enquanto os seus olhos se acostumavam às trevas. Vozes e gargalhadas de barcos distantes, flutuando na trilha que seguiam. Alguém gritou Ya, Narouz, repetindo Ya, Narouz. O rapaz limitou-se a resmungar. E veio então o som breve e sincopado de um tamborim, música cujos ritmos se instalaram na mente de Mountolive de tal modo que este se surpreendeu a tamborilar com os dedos no costado da embarcação. O lago era agora invisível, a lama amarelada tinha desaparecido, essa lama quebrada e macia das grandes fendas pré-históricas, ou essa lama betuminosa que o Nilo leva adiante na sua marcha para o mar. O seu relento impregnava a atmosfera. Ya, Narouz, ouviu-se uma vez mais, e Mountolive reconheceu a voz de Nessin, o irmão mais velho, trazida numa rajada de vento. Está..., na..., hora..., de..., acender. Narouz resmungou uma resposta e soltou um grunhido de prazer procurando os fósforos. Agora é que vai ver, disse com orgulho.
O círculo das canoas tinha-se cerrado em torno das redes e no crepúsculo quente principiaram a flamejar as chamazinhas dos fósforos; logo as lâmpadas de carbureto fixadas à proa das embarcações começaram a emitir a sua luz trémula e amarelada, vacilando antes de se acender, permitindo assim aos que não se encontravam alinhados rectificarem as posições. Narouz passou por cima do companheiro, desculpando-se, e dirigiu-se à proa. Mountolive surpreendeu o cheiro a suor do seu corpo atlético quando o outro se debruçou para aspirar o tubo de borracha e agitar o reservatório da lâmpada, cheio de pedaços de carbureto. Depois deu volta a uma chave, acendeu um fósforo e por um momento ficaram ambos sufocados pela densa fumarada que se dissipou rapidamente enquanto debaixo deles florescia, como um imenso cristal colorido, um semicírculo de água, radiante como uma lanterna mágica, revelando as formas estranhamente nítidas dos peixes que se dispersavam e tornavam a agrupar com estremecimentos de surpresa, de curiosidade e, porventura, até de prazer. Narouz expeliu o ar dos pulmões e regressou à popa.
Olhe para baixo, disse num tom imperativo; e acrescentou: mas conserve a cabeça bastante baixa. E como Mountolive, que não compreendera esta última recomendação, se voltasse para o interrogar, explicou: cubra a cabeça com o casaco. Os maçaricos enlouquecem com a pescaria. Da última vez fiquei com um rasgão na face e Sobhi perdeu um olho. Olhe baixo e para a água. Mountolive obedeceu e ficou ali flutuando no poço de luz inquieta, cuja superfície era agora de um cristal incomparável onde passeavam tartarugas, sapos e peixes, um mundo perturbado pela invasão dos seus domínios. o batel oscilou novamente antes de deslizar para diante. A água fria lambia-lhe os pés. Com um canto do olho viu o semicírculo luminoso, como uma corrente florida, fechar-se mais rapidamente; e, como para dar às embarcações um ritmo e uma orientação, elevou-se um cântico, acompanhado pelos tamborins, surdo e melancólico, mas imperativo. Outra vez os sacões do batel se foram repercutir nas suas costas. As sensações presentes eram inteiramente novas, não tinham precedente.
A água adensara-se, espessa como um caldo de aveia lentamente remexido ao fogo. Mas, atentando melhor, compreendeu que essa densidade não era devida à água mas à proliferação dos peixes, que, excitados sem dúvida pela consciência do seu grande número, deslizavam e saltitavam. O cordão fechara-se como um nó corredio, e agora as embarcações não distavam entre si mais de sete metros. Os homens lançavam gritos roucos e batiam a água, excitados também eles pela presença dos cardumes cada vez mais densos no fundo macio do lago, enquanto os peixes se enervavam num ritmo crescente ao descobrirem-se cercados. Era um delírio de movimentos circulares e fugas bruscas. Vagas silhuetas de homens começaram a desdobrar as redes e a gritaria aumentou. Mountolive sentiu que o sangue lhe corria mais vivo». In Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Mountolive, 1958, Publicações dom Quixote, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «E ouvindo-a recitar esses versos, pondo em cada sílaba grega, deliberadamente irónica, uma espécie de ternura equívoca, descubro de repente o estranho e ambíguo poder da cidade, a sua paisagem composta de um único plano aluvial…»

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«(…) Era, se preferem assim, o namoro de dois espíritos prematuramente extenuados e que parecia ainda mais perigoso que um amor de base puramente sexual. Sabendo até que ponto ela amava Nessim, de quem eu próprio gostava enormemente, tal pensamento causava-me horror. Estendida ao meu lado, ligeiramente ofegante, os seus grandes olhos contemplavam o tecto onde voavam querubins de gesso. Disse-lhe então: … esta aventura entre um pobre professor e uma dama da alta sociedade de Alexandria não pode conduzir a nada. Isto vai acabar num escândalo mundano que nos separará porque serás obrigada a pôr-me de parte. Justine não gostava de ouvir as verdades. Voltou-se, descansou sobre um cotovelo, e, baixando os seus magníficos olhos perturbados sobre os meus, olhou-me demoradamente. Não temos qualquer alternativa neste assunto, disse ela naquela sua voz rouca que eu tanto amava. Falas como se pudéssemos escolher. Tudo isto faz parte de um plano preconcebido por qual quer ente que desconhecemos, talvez pela cidade ou por outra parte de nós próprios. Que sei eu? Revejo-a na modista, diante dos grandes espelhos múltiplos, dizendo: Olha! Cinco imagens diferentes da mesma pessoa. Se eu fosse escritor tentaria descrever uma personagem assim, através de uma espécie de visão prismática. Porque será que não podemos ver mais de um perfil de uma só vez?
Ela boceja e acende um cigarro; depois senta-se na cama e abraça os delicados tornozelos, começando a recitar lentamente, com um delicioso trejeito, os maravilhosos versos do velho poeta que falam de um amor muito e muito antigo, cujo encanto não suporta uma tradução. E ouvindo-a recitar esses versos, pondo em cada sílaba grega, deliberadamente irónica, uma espécie de ternura equívoca, descubro de repente o estranho e ambíguo poder da cidade, a sua paisagem composta de um único plano aluvial, o seu ar de perpétuo esgotamento e compreendo que ela é uma verdadeira filha de Alexandria; isto é, nem grega, nem síria, nem egípcia, mas uma híbrida, um complexo.
Que intensidade põe ela ao recitar a passagem em que o velho lança fora a antiga carta de amor que tanto o comoveu e exclama: … entro tristemente no terraço; que nada venha distrair o curso dos meus pensamentos, nada, nem mesmo o espectáculo dos movimentos insignificantes da cidade que amo, das suas ruas e das suas lojas! E levanta-se, abre as persianas e debruça-se sobre a varanda que deita para a cidade recamada de luzes, todo o seu ser tenso sob a carícia do vento do entardecer que chega das planícies da Ásia; e, durante um breve lapso, nem mesmo tem consciência do corpo que lhe pertence. Príncipe, Nessim é, evidentemente, um gracejo; pelo menos para os comerciantes que o viam passar, digno e imperturbável, no seu grande Rolls cor de prata. Para começar, ele não era muçulmano mas sim copta. Todavia, o epíteto convinha-lhe admiravelmente, pois havia algo de principesco no desdém que Nessim afectava perante a cupidez nos lucros, que é um traço comum a todos os alexandrinos, mesmo nos mais ricos. E, contudo, os elementos que formavam a sua reputação de excêntrico nada tinham de particularmente notável para aqueles que tinham vivido fora do Levante. Só lhe interessava o dinheiro para gastar; não tinha nenhuma garçonnière e parecia ser absolutamente fiel a Justine, coisa de facto inaudita. No que respeita ao dinheiro, era tão rico que lhe causava uma espécie de nojo, e nunca trazia nenhum consigo. Gastava à árabe e passava vales aos comerciantes; os restaurantes e os night-clubs aceitavam os seus cheques. As suas dívidas eram regularmente pagas, e todas as manhãs, Selim, o seu secretário, percorria de carro o itinerário que o amo seguira na véspera, para liquidar todos os débitos acumulados.
Este estilo de vida, que derrotava os hábitos de servilismo e o espírito provinciano dos habitantes da cidade, era considerado por estes uma espécie de desprezo à europeia. Mas não se tratava de hábitos adquiridos pela educação; Nessim tinha nascido com eles e, neste pequeno universo, cuja única razão de existir parece ser o ganho, não encontrava nenhum alimento para o seu desejo de doçura e contemplação. Não existia homem menos autoritário do que ele, e, contudo, os seus actos provocavam comentários porque vinham marcados com o forte selo da sua personalidade. As pessoas sentiam-se inclinadas a atribuir as suas maneiras a uma educação estrangeira, quando, de facto, a Alemanha e a Inglaterra o tinham profundamente desconcertado, tornando-o mais tarde incapaz de se adaptar à vida da cidade. Da primeira, tinha colhido o gosto pela especulação metafísica, em contradição com a natureza do espírito mediterrânico, ao passo que Oxford tinha tentado transformá-lo num pedante e apenas conseguira desenvolver as suas tendências filosóficas a ponto de o incapacitar para o culto da sua arte predilecta: a pintura. Pensava e sofria muito, mas faltava-lhe a força necessária para ousar, que é a condição essencial para realizar seja o que for». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.
Cortesia de PdQuixote/JDACT

Quarteto de Alexandria. Baltasar. Lawrence Durrell. «Seis meses decorreram, um silêncio reconfortante porque me segredava ter o meu crítico ficado satisfeito, confundido. Não posso afirmar que tenha esquecido a cidade mas a verdade é que deixei adormecer a sua imagem»

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«(…) Estou a esforçar-me por me aproximar dos factos... Na sua última carta, Baltasar escrevia-me: Penso em si frequentemente e com um certo humor macabro. Você isolou-se nessa ilha, com, segundo pensa, todos os dados sobre as nossas pessoas e existências. Vai certamente julgar-nos no papel à maneira dos escritores. Gostaria de ver o resultado. Deve ficar muito distante da verdade: quero dizer, daquelas verdades que eu lhe podia contar a nosso respeito, e porventura até a seu respeito. Ou das verdades que Clea poderia contar (encontra-se em Paris e deixou de me escrever). Vejo-o sabiamente debruçado sobre o Moeurs, os diários íntimos de Justine, Nessim, etc, imaginando que a verdade se encontra nessas páginas. Erro, enorme erro! Um diário é a última fonte a que o historiador deve recorrer para conhecer o seu autor. Ninguém se atreve a ser sincero no papel: pelo menos quando se trata de amor. Sabe quem era o homem a quem Justine amava verdadeiramente? Pensa que esse homem era você, não é verdade? Confesse!
Por única resposta enviei-lhe o enorme maço de papel que lentamente se tinha ido dilatando sob a minha pena preguiçosa e a que tinha dado um pouco abusivamente por título o nome de Justine, embora Cahiers tivesse servido perfeitamente. Seis meses decorreram, um silêncio reconfortante porque me segredava ter o meu crítico ficado satisfeito, confundido. Não posso afirmar que tenha esquecido a cidade mas a verdade é que deixei adormecer a sua imagem. Contudo, é claro, ela continuava lá, e continuaria, suspensa no meu espírito como a miragem que tantas vezes deslumbra os viandantes. Pursewarden descreveu o fenómeno nos seguintes termos: Encontrávamo-nos ainda a duas ou três horas de distância do ponto onde se começaria a avistar terra quando subitamente o meu companheiro gritou qualquer coisa e apontou para o horizonte. Vimos, invertida no céu, uma imagem em tamanho natural da cidade, luminosa e trémula, como pintada em seda poeirenta, mas rica em pormenores; a minha memória reconstituía todos os locais, o Palácio Ras El Tin, a Mesquita de Nebi Daniel, e assim por diante; o conjunto formava uma alucinante composição pintada com pinceladas de orvalho; ali ficou no céu por tempo considerável, talvez vinte e cinco minutos, antes de se dissolver na neblina do horizonte. Uma hora depois apareceu a cidade real, um pontinho que se dilatou até às dimensões da sua imagem.
Os dois ou três Invernos que passámos nesta ilha foram solitários, invernos austeros e ventosos e verões escaldantes. Felizmente a criança ainda é demasiado nova para sentir como eu a necessidade de livros e de contactos humanos. É feliz e activa. Agora na Primavera chegam as grandes calmarias, os dias de premonição, sem perfumes, sem marés. O mar doma-se a si próprio e fica atento. Breve se ouvirá o zangarrear das cigarras acompanhar a flauta dos pastores no alto dos rochedos. Os nossos únicos companheiros são a tartaruga desajeitada e o lagarto. Devo explicar que o nosso único visitante regular do mundo exterior é o paquete de Esmirna que, uma vez por semana, dobra a ponta de terra a caminho do sul, sempre à mesma hora e à mesma velocidade, pouco depois do poente. No Inverno os temporais tornam-no invisível, mas agora sento-me à espera dele. Para começar ouve-se apenas o pulsar desmaiado dos motores. Depois a criatura desliza e aparece a dobrar o cabo, rasgando no mar a sua linha de espuma sedosa, brilhando na obscuridade da noite diáfana do Egeu, condensada, mas sem contornos, como uma nuvem de pirilampos movendo-se à flor do mar. Avança depressa, e desaparece demasiado depressa para além da outra ponta da enseada, deixando atrás de si um fragmento de qualquer canção popular, ou a casca de uma tangerina que no dia seguinte encontrarei arrojada à praia onde costumo ir tomar banho com a criança». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1958, Baltazar, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT