domingo, 31 de janeiro de 2016

Narrativa no 31. O Canto da Salamandra. Leonor Teles. Seomara Ferreira. «Ela, a tal mulher, uma judia pobre enrolada num manto apardado, de baixa qualidade, é evidente, e que os mortos espoliava para lhes vender os tristes panos»

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Do Sonho e da Guerra
«(…) O rei Dinis I, esse, ah, meu amigo!, era diferente. E vede lá, dos dois o que maior dor me provocou foi João. Apesar de Dinis I ter, inclusive, pretendido assassinar-me. Dinis I é mais novo ainda, menos um ano que eu. Foi sempre um menino querido para o pai que via nos filhos de dona Inês o futuro da sua terra, a consumação dos seus miríficos sonhos. Desde pequeno foi-lhe concedido um rendimento que, à morre do pai, rondava as dez mil libras. Altivo, também extremamente pertinaz e violento, tem como aio um homem de nobre carácter, é certo, mas que lhe incutiu na alma um veneno indestrutível, o ódio: Gil Vasques Resende. Já homem, escolheu para conselheiro aquele que foi a alma e o cérebro do assassínio de sua própria mãe: o ressabiado Diogo Lopes Pacheco. Aprendi ao longo da minha vida que em política não há bem ou mal mas resultados. Se foi isso que o Pacheco ensinou a meu cunhado Dinis, estaria certo, mas não compreendo como rum homem que se diz nobre e de honestos sentimentos pode compactuar e comer à mesma mesa com outro que barbaramente retirou a vida àquela que o pôs aqui neste mundo. Talvez eu esteja errada, frei Juan, e os desígnios do mundo e de Deus, que me ultrapassam, os justifiquem mas não posso, em consciência, aceitar. Disseram-me, e posso até vos dizer quem, a minha camareira Maria Peres e o Guedelha, que foi médico meu e do rei meu marido, que Dinis, para se livrar de mim, como em Lisboa não conseguiu, quando Fernando e eu resolvemos casar, até contratou os serviços de uma dessas mulheres que se dedicam à bruxaria... Ela, a tal mulher, uma judia pobre enrolada num manto apardado, de baixa qualidade, é evidente, e que os mortos espoliava para lhes vender os tristes panos, derretera chumbo e lançara-o em água fria para com ele conseguir uma figura de mulher que, depois, pendurou num pedaço de cordel e sobre ela fez muitos sinais, proferiu encantamentos e disse orações numa estranha língua que ninguém percebia. O sortilégio só resultou alguns anos depois... Sempre conheci judeus. De resto existe sempre na Casa Real um ou vários. Tive-os ao meu serviço na fazenda, como criados e como médicos. O Guedelha de que lhe falei for médico, ilustre, mas, como todos, não conseguia milagres. Fernando não se curou. O irmão do judeu, chamado José, era um dos mais belos homens que conheci. De elevada estatura, branco, aquela tez pálida e os lábios vermelhos, o cabelo acobreado, uma figura no todo cativante e majestosa. É escritor e poeta e, dizem, filósofo. O Guedelha lá tem sobrevivido. É agora o médico do Mestre de Avis, do rei de Portugal.
Em Lisboa os judeus vivem entre as barbacãs da cerca que o rei Afonso construiu, o terceiro de nome, e a Porta do Mar. Ainda chamam a essa zona o bairro de Gibraltar, da Vila Nova. Ainda me recordo das badaladas do sino da Oração, ao lusco-fusco, quando os judeus e os mouros, que viviam e vivem a Oriente de S. Domingos e na base do monte de Alfela, acorriam de rodo o lado onde labutavam e mercadejavam com os cristãos, para o sossego de suas casas, isolados da população cristã. Recordo-os e à cidade, que sempre me odiou por obra e graça dos burgueses e de meus cunhados. A cidade que se lança sobre o rio como uma barca branca, saída de tempos passados, ruidosa e viva, cheia de luz e que eu pensei amar quando a olhei pela primeira vez. Há momentos especiais da nossa memória que, despertos, são um livro, uma vida. E chegam a ser tão fortes, perfeitos e poderosos que acabam por criar um tempo próprio, libertos de nós, como se não nos pertencessem. Vêmo-los ali, na nossa frente, quase intocados, não fora a saudade. Vi Lisboa pela primeira vez só um ano depois de me ter casado, em 1407. Só conheci Fernando em casa de sua irmã, a Infanta, em Agosto de 1409, quando fui visitar minha irmã, então já viúva e também mãe de um filho». In Seomara da Veiga Ferreira, Leonor Teles, ou o Canto da Salamandra, 1998, Editorial Presença, Lisboa, 1999, ISBN 942-23-2347-4.

Cortesia de Presença/JDACT

Viagem no 31. Sevilha. Século XVI. De Colombo a D. Quixote. Entre a Europa e as Américas. Carlos Araújo. «Homens como o célebre Alonso Ojeda que, ainda criança, fazia equilibrismo num poste, suspenso no ar, lá das alturas da Giralda»

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Arquitectura e festas
«(…) Também as artes decorativas revelaram artistas de primeiro plano, tais como o ceramista Francisco Niculoso Pisano (portal da igreja do convento de Santa Paula), os grandes ferreiros das grades da Catedral (Pedro Delgado, Cosme Soribes, Juan Méndez), os vidreiros flamengos que executaram os vitrais da Catedral (Arnao Vergara e Arnao Flandres), ou o excelente ourives Juan de Arfe, autor da célebre custódia processional da Festa do Corpo de Deus de Sevilha. Para concluir, há que citar os três grandes nomes da música polifónica sevilhana do século XVI, Francisco Guerrero, Alonso Mudarra e Cristóbal Morales, que são também três dos nomes mais importantes da idade de ouro da música espanhola. Com uma atmosfera tão faustosa e um clima tão sugestivo, era natural que Sevilha exercesse uma poderosa atracção sobre aqueles que a não conheciam mas tinham ouvido falar dos seus encantos. Sevilha, no século XVI, tornou-se uma encruzilhada de encontros, visitada por viajantes profissionais, marinheiros, comerciantes, intelectuais, religiosos, conquistadores. Por vezes, a presença simultânea de tantas personalidades célebres podia transformar a cidade, já metrópole económica incontestada, em capital intelectual, e mesmo em certos casos política, da Europa, como aconteceu quando o imperador, em viagem de núpcias em Sevilha, reuniu à sua volta, ministros e altas personagens da corte, e também figuras literárias tão importantes como Andrea Navagero (embaixador de Veneza), Baldassare Castiglione (núncio pontifício), Juan Boscán, o grande poeta catalão em língua castelhana, e talvez (mas o facto não está confirmado) Garcilaso La Vega. A sua reunião formava uma brilhante academia que talvez tenha servido de modelo às jovens gerações de intelectuais sevilhanos, que iriam sonhar, mais tarde, em converter a sua cidade numa nova Roma. Estes foram os anos em que Sevilha desempenhou um papel de primeiríssima grandeza, viveu as mais belas horas da sua história, atingiu uma dimensão universal, adquiriu um brilho inalterável e definiu uma personalidade original, personalidade essa que, para lá dos claros-escuros e das vicissitudes que a cidade iria conhecer posteriormente, se transmitiu às gerações vindouras como um património imperecível.

Uma cidade-mundo. Entre Colombo e D. Quixote
Sevilha é uma cidade de larápios e de arrivistas, de camaleões humanos que parecem viver do ar, de passageiros fixos, cuja função é aguardarem, com uma paciência evangélica, que a fortuna os acorde, sacudindo os batentes enferrujados das suas portas. Trinta e um de Março de 1493. Nesse dia, começa o grande século de Sevilha. Uma soberba caravela sobe lentamente o Guadalquivir. Cristóvão Colombo, o almirante do Mar Oceano, regressa depois de ter descoberto o Novo Mundo. No porão, dormem cinco selvagens, desses que povoam as terras longínquas donde vem Colombo. O almirante trá-los consigo para causar o assombro e a admiração da corte. Traz também estranhos pássaros de soberba plumagem e sementes de plantas inteiramente desconhecidas do mundo cristão. Dois meses mais tarde, durante o tórrido mês de Julho, Colombo regressa a Sevilha, preparando já a sua segunda expedição. Para essas terras novas leva o primeiro contingente de colonos, mil e duzentos homens e mulheres, bem como um número respeitável de cavalos, vacas e porcos, animais desconhecidos no Novo Mundo. De todas as terras da Península começam a chegar a Sevilha os aventureiros que, durante dois séculos, irão escrever, com o seu sangue, a golpes de audácia, os inúmeros feitos do empreendimento americano. Homens como o célebre Alonso Ojeda que, ainda criança, fazia equilibrismo num poste, suspenso no ar, lá das alturas da Giralda, e lançava, a rir, laranjas sobre os transeuntes assombrados e apavorados. Isto a fim de que os reis admirassem a sua coragem e lhe confiassem uma missão. Este valoroso homem de armas virá a ser governador da Colômbia, mas morrerá pobre, recolhido por caridade num convento de franciscanos. Assim se manifestam o anverso e o reverso da medalha, a glória e a miséria, da aventura americana». In Sevilha, Século XVI, De Colombo a D. Quixote, Entre a Europa e as Américas., O coração e as riquezas do Mundo, coordenação de Carlos Araújo, Carlos Martínez Shaw, Terramar, Lisboa, 1993, ISBN 712-710-073-2.

Cortesia de Terramar/JDACT

sábado, 30 de janeiro de 2016

Psiché. Fernando Campos. «Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade…»

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A memória do esquecimento
«Lembrava‑se apenas de que se esquecera... ou esquecera‑se de se lembrar. Que queria? Fraca memória a sua!, suspirava. Os anos!... Fernanda tinha muitas vezes comigo este desabafo e eu tomava‑lhe a preocupação, procurava colar‑lhe os restos das lembranças, reconstituía‑as em mantas de retalhos, a tentar conservar o calor das veias, a cor das faces, o brilho de um olhar, o tom de uma voz, o latejar dos corações atingidos pelo gelo do tempo que chegou ao seu limite... Procurar trabalhar a matéria perpetuável, no limiar do eterno... e transpô‑lo! Tomar o esquecimento e recolocá‑lo na memória! Repor a memória no pedestal do esquecimento, na cidade indiferente e distraída..., nas cidades, vilas, aldeias e lugares distraídos e indiferentes por onde Silva Lisboa espalhou a rodos a fantasia e o riso!... Antes que o verme pontual e infalível roa com suas mandíbulas tenazes os últimos músculos putrefactíveis, ainda vivos, que o sal do artista fez contrair num sorriso, vibrar e estalar numa gargalhada. Fixar as recordações para ao menos essas se não transformarem em cinza!... Descuidados que somos até da única certeza indesmentível! Dir‑se‑á não querermos acreditar que nascemos mortais. Surpreende‑nos sempre desprevenidos a notícia da morte. A carta, o telegrama que nos bate à porta quando se está longe. O telefone que toca como tantas vezes rotineiras... Está? Fernando?, Sim. É para te dizer que o avô...
O gesto lento, interiorizado, de pousar no descanso o telefone. Então aquele foi mesmo o último suspiro?... E aquele corpo vai arrefecer?... Do espantoso lance teatral inesperadamente surgido no cemitério junto ao corpo exânime do actor, ao fechar do caixão, quando o padre pronunciava as últimas encomendações, lançava as derradeiras aspersões de água‑benta, traçava no ar a cruz do requiem e um coveiro avançava com a pá de cal viva, far‑me‑iam relato mais tarde os parentes que assistiram. Estranha realidade: nenhuma das versões é coincidente! Eu encontrava‑me no norte, para lá das montanhas, desmaiava Setembro. Grande a azáfama do abrir das aulas. A mulher, pesadona, a três meses do fim do tempo. Eu não possuía ainda carta nem carro nesse tempo e a única possibilidade de me deslocar para ir assistir ao enterro era aquele comboiinho de brincar que levava meio dia a chegar, depois de fumegar e resfolegar as voltinhas gaiatamente apitadas, trepando a montes de vento e lobos, espreitando telhados isolados, adormecidos em vales perdidos, bordejando pegos e córregos de vertigem. Apareciam os pais a trazerem os filhos para o internato, os professores vinham pelos horários e as cadernetas. Tudo eu fazia ali, naquele colégio que era de brincar como o comboio. A única coisa bonita que tinha era estar alcandorado nas velhas muralhas medievais bordadas de lírios a olhar o rio largo e lento sob a ponte de Trajano. De resto achava‑me praticamente só num barco a naufragar. Trinta alunos que mal davam para as despesas, um sócio que fugira mal cheirara o descalabro, deixando‑me com as suas dívidas. Director, prefeito, administrador, professor de tudo e mais alguma coisa, português, francês, inglês, desenho, treinador de jogos, para evitar ter de pagar a outros aquilo que eu não recebia. Vinte e seis anos de idade..., a construção do meu futuro!...
O telefone tocara no meio da barafunda do início do ano lectivo e das preocupações. Não se deve expor a uma tal viagem agora, foi a proibição do Mário Carneiro. Nem pensar! Ela concordava, virava‑se para mim: tu... Também não podes ir. Não há ninguém para te substituir no colégio. Foi assim que não estive presente no funeral de Silva Lisboa. Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade possíveis e desfazer a natural emoção. Silva Lisboa e Albertina, Raquel e Alberto Tavares, Fernanda e Alberto Campos..., e Mário..., e Ana de Jesus..., e Maria José..., e João..., e Josué..., e a desconhecida... Pessoas, personagens de romance. Lembro a última imagem que dele me ficou. Chegara o fim de Agosto e partíamos, eu e Maria Olga, com as duas filhas, acabadas as férias grandes, para o nosso castelo roqueiro, por causa da abertura do colégio. Fomos ao quarto dele despedirmo‑nos. Olhou‑nos com um sorriso a disfarçar o ar triste, sentado na borda da cama, seu pijama de flanela azul às riscas. Mostre‑me as suas mãos!, recordo‑lhe a voz dirigindo‑se à Maria Olga. Pegou‑lhas vivamente quando ela as estendeu de costas para cima. Gostava de falar com ela, que tinha muita paciência para o escutar, lhe fazia atenciosa companhia quando lá passávamos uns dias. Deixava‑a arrancar‑lhe pormenores da sua vida que a mais ninguém confidenciara. Talvez porque mais ninguém lhe fazia ou ousava fazer perguntas ou se sentia à vontade para lhas fazer». In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

Anakagawea. Rochett Tavares. «Meu lar? Como ainda reivindico tal propriedade, se hoje me tornei um pária, um monstro inominável cuja alma é tão negra quanto o breu a cobrir o vale nesta noite?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Sinto odor de carne apodrecida invadir as minhas narinas, à medida que me aproximo do único mundo que conheci desde o momento no qual o Senhor me dera o dom do raciocínio. Quem sou eu para tocar em seu santo nome? Maculei a minha alma nesta noite maldita! Cruzei a ténue linha que separa o homem da besta, o pecador do virtuoso. Minha luxúria transcendeu qualquer mensura, igualando-me à mais nefasta cria do abismo! O trilho que conduz à vila de Woosonat está coberta por galhos de aspecto semelhante aos braços de um cadáver no seu descanso eterno. Como desejo cerrar meus olhos e ingressar no sono sem sonhos dos que aguardam o julgamento! Como desejo livrar-me da dor e do horror, do remorso e da vergonha pairando como uma gigantesca sombra sobre meu espírito! Um luar pálido cintila delicados fios de prata na margem do Blackstone enquanto o meu corpo geme a cada passo rumo ao lar. Braços, tórax, pernas e ombros, tudo está recoberto por seiva humana. Sim... A tinta escarlate a pulsar nas corredeiras sob a pele; usada pelo messias para simbolizar o holocausto, a expiação de nossos pecados. Se o filho do homem imaginasse o que aconteceria esta noite, jamais se deixaria pregar na cruz por seus algozes romanos... Tudo em nome do mesmo amor proclamado por ele em seus sermões. Tudo em nome do mesmo amor pelo qual seu pai imolara o único e verdadeiro filho. Estou nu. As minhas vergonhas são acariciadas pelo vento do Outono, balançando no vazio a rodear-me como frutas amadurecidas. Por que motivo me deixei levar pelo clamor da carne, cedendo à tentação? Por qual motivo não me entreguei à contricção, orando por ela como todo homem de fé deveria fazer? Avanço mais um pouco e posso distinguir os cumes das chaminés no meio emaranhado de copas fixadas desde o topo ao sopé da colina onde os fundadores decidiram criar um mundo livre dos abusos e depravação reinantes na distante Europa. Europa... A terra mãe dos meus ancestrais nada mais é do que um nome sem significado nas entranhas de Rhode Island. Sou um cidadão americano, tão americano quanto ela e o seu povo. Não! Mesmo tendo nascido neste lugar inóspito, mal tocado pela mão do homem branco, não posso requerer um título cujo direito é apenas dos que já estavam aqui antes de Colombo! Sinto pedaços de carne desprenderem-se das solas feridas. Meus pés gritam em sofrimento, implorando por um alívio que não poderei conceder-lhes até chegar ao meu lar. Meu lar? Como ainda reivindico tal propriedade, se hoje me tornei um pária, um monstro inominável cuja alma é tão negra quanto o breu a cobrir o vale nesta noite? Espinhos mordem a pele desprotegida de braços e abdómen, rasgando o seu caminho até aos músculos extenuados. Não sei o que me move e sinto, contudo, não ser capaz de parar minha marcha, até atingir o objectivo: um sussurro esgueirando-se no fundo de minha mente. Mais um pouco e chegaria à residência dos Fierce, onde poderia reunir algum dinheiro, roupas e partir sem rumo, deixando para trás o lugar onde perdi a alma em troca de prazeres reservados apenas ao sagrado matrimónio. A quem estou enganando, afinal? Tudo o que desejo é cair por terra diante do nosso padre e implorar-lhe o perdão pelo meu crime. Se Cristo perdoou as meretrizes, por que não seria eu merecedor de sua dádiva? Jamais toquei numa mulher com lascívia até conhecer... Conhecer... Seu nome causa-me vergonha. A sua lembrança revira-me o íntimo. Mesmo após tudo o que aconteceu, como ainda posso sentir-me atraído por... Por aquilo? Tende piedade de mim, senhor, pois pequei contra o senhor, contra a minha fé e contra mim mesmo! A punição pela minha luxúria não pode ser outra além do abraço eterno das chamas infernais! Arderei por toda eternidade, supliciado por demónios ávidos em violar as almas à mercê dos seus mais abjectos caprichos!» In Rochett Tavares, Anakagawea, 1975, Bahia, Luís Eduardo Magalhães, Grupo Artístico Editora, 2014, CDD 869-938-699-3.

Cortesia de GAEditora/JDACT

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «E olhai que nunca mais se lhe soube o paradeiro! E enquanto iam falando assim, em grupos ou de porta para porta, a multidão dos alvoroçados aumentava de instante para instante»

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Dor que enlouquece
«(…) Uma grande lâmpada de bronze punha os seus reflexos de luz dourada na figura da Virgem com o seu Jesus pequenino ao colo, Mãe e Filho numa expressão de júbilo e ridente fulgor. Foi até ela, a tremer, a pobre esfarrapada; ajoelhou-se fervorosamente, a acalentar a filha, e pôs no painel um olhar mortificado, numa súplica em que as lágrimas davam o dobro das palavras. Senhora, acudi-me! Ninguém me ouviu, ninguém me pôde socorrer! Escutai-me vós! Socorrei-me, Senhora! Mãe divina fostes, mas também eu quero à minha filha, como vós, Senhora, ao vosso filho. Sofreu, sofrestes com ele, e mataram-no; mas o vosso era Deus, e a esta, coitadinha, sou eu que a deixo morrer! Senhora, talvez nunca sofresse fome o vosso pequenino Jesus, por se não terem secado para ele os vossos seios como secaram os meus! A criancinha estrebuchou-lhe nos braços como uma avezita agonizante e soltou um grito dolorido. A esfarrapada ergueu-se de repente, a tremer doidamente, e deu uns passos torcidos para que a luz da lâmpada lhe iluminasse melhor o rosto da pequenina. Estás a esfriar! Filha! Filha! Olha para mim!, rouquejou ao beijá-la, a tactear-lhe a cara, em convulsões de epiléctica. Mas a filha já não a ouvia. Estava morta. Morta pela fome. A mulher sacudiu-se em soluços e pôs-se numa correria doida pelo terreiro da Sé com o cadáver da pequenina erguido nos braços, trementes como se fossem de uma octogenária. E no céu de profundo azul brilhou um fulgor intenso de estrelas, no alheamento e na indiferença daquela dor de mãe a envolver-se em desvario de loucura! A enlouquecida sentou-se no degrau do portal a regougar uma trova de acalentar crianças e a embalar nos braços o corpo hirto da filha. Vibraram de repente naquele lúgubre silêncio vozes altas de gente que vinha da Porta de Ferro a correr. Gentes, despertai! Boas novas chegaram! Erguei-vos e dai graças a Deus! E com as vozes altas, alvoroçadas, ressoavam nos ares as marteladas das aldravas, revoava um sussurro de gente surpreendida, um ranger de portas que se abriam e um ruído de adufas que se levantavam.
Entrou um grupo de homens no terreiro da Sé. Vinha diante deles um galeote com uma acha de pinho embreada, acesa em guisa de archote, a esfumar de negro aquela frouxa penumbra das estrelas e a projectar os seus clarões vermelhos na fachada vetusta daquele grande templo. Por Deus, que chegaram boas notícias! Que notícias são?, inquiriram os estremunhados, assomando às portas com as candeias de luz na mão. São notícias de Nuno Álvares, o jovem campeão?, perguntavam. Quereis ver que deu nova arremetida contra os castelãos e venceu outra batalha? Eu já sonhei com ele três noites a fio, a entrar por Castela adentro, ao lado do senhor S. Jorge, com o seu bacinete de ouro e a sua lança de prata! E que tinha levado à escalada os muros de Badalhouce (assim chamavam a Badajoz.; parece que foi fundada pelos mouros com a denominação de Baladelaixe, que os nossos antigos mudaram para Badalhouce). Não vos deiteis a adivinhar, gente endrominada, que o caso foi outro. Dizei qual. Contai o que houve. Falai depressa. Dizei, insistiram muitas vozes. Lançou ferro (atracou) em Cascais a armada que veio do Porto a socorrer-nos, esclareceu um dos recém-chegados. Pois Santa Maria seja bendita e que viva quem nos vem ajudar. Viva! Viva! E o senhor dom Bispo que mande abrir as portas da Sé, e os senhores cónegos que mandem pôr luzes nos altares, para que Deus nos ampare! E quem trouxe tal notícia? Um homem bom do Porto, mercador rico, de rijas febras e destemida gana para o mar, que pelo escuro da noite fugiu de Cascais num batelzito e, por entre a armada inimiga, se atreveu a cá vir trazer-nos a boa notícia! Já esteve a falar com o Mestre, informou outro dos avisadores, referindo-se ao Mestre da Ordem Militar de Avis, filho bastardo de el-rei Pedro I. E com ele veio também aquele destemido fidalgo jovem de Riba-Douro, que foi o mais belo pajem da rainha comborça (mulher que tem amores ou vive com um homem casado. Assim chamavam à rainha dona Leonor Teles) e o mais animoso na guerra do ano passado. Não sei quem seja! Ora! Nem Lisboa conhece outro mais afoito de alma. É aquele jovem de vinte anos que mandou desafiar o Condestabre de Castela. Ah! Esse então todos nós sabemos quem é. É claro que se sabe. É Ruy Vasconcelos, da melhor nobreza de Riba-Douro.
Morrem por ele as mulheres novas. E dizem que no paço real por ele se perdeu certa dama linda como as estrelas. E olhai que nunca mais se lhe soube o paradeiro! E enquanto iam falando assim, em grupos ou de porta para porta, a multidão dos alvoroçados aumentava de instante para instante; as luzes das candeias brilhavam pelas adufas como pirilampos e voejava pelos ares um rumor mais intenso de passos e de vozes. Entretanto, no portal da Sé, alheada de tudo, a enlouquecida mãe, a quem a filha morrera, soluçava as orações com ela deitada no regaço. A multidão podia lá ouvi-la! Ninguém reparara naquela mulher nova, enrodilhada em farrapos de brocado, endoidecida no drama da maior dor humana, toda mirrada na sombra enorme da igreja. E ela também absolutamente alheia a todo aquele alvoroço, como se ali a tivessem cegado as suas próprias lágrimas e de tudo tivesse ensurdecido no estonteamento daquela mágoa inexcedível e sem remédio! Gentes, aí vem o Mestre, o Defensor, o que um dia será rei!, gritou à frente da multidão, numa voz dominadora, que se sobrepunha a todas as outras, um homem alto, espadaúdo, exemplar admirável dessa raça de plebeus que havia então, de consciência lavada e ânimo intemerato, para falarem alto fosse a quem fosse, e para morrerem a peito descoberto pelo seu crer e pela sua coragem. Era o tanoeiro (tanoeiro ou toneleiro é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos) Afonso Eanes, o chamado Juiz do Povo", um revolucionário dos dias turbulentos que seguiram à morte do rei Fernando I». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, Uma nova forma de ler, Formato digital, 2013.

Cortesia de LusoLivros/JDACT

O Poder e os Pobres. Laurinda Abreu. «… em 8 de Agosto de 1639 o regedor da Casa da Suplicação clarificava ao afirmar que o ser cigano não consiste na natureza [naturalidade] mas em viver como tal»

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Práticas de caridade e assistência nos alvores da Modernidade. Contextos sociais e políticos
«(…) Em Portugal, a questão dos ciganos começou por não se individualizar do problema dos falsos mendigos e dos vagabundos em geral. O primeiro alvará conhecido que os refere, de 13 de Março de 1526, proibia a sua entrada no reino e ordenava a saída dos que cá viviam, usando o argumento da necessidade de proteger a ordem pública; mas apenas a referência às muitas feitiçarias que fingem saber em que o povo recebe muita perda e fadiga sobressaía das queixas recebidas pelo rei contra os demais andante. A lei seguinte, de 1538, ao especificar que as suas determinações visavam, além dos falsos mendigos, outras pessoas de qualquer nação que andassem ou vivessem como ciganos, introduzia um elemento novo, já que o legislador reconhecia o nomadismo como um tipo de vida característico desta etnia; doravante, todos os diplomas que condenavam a vadiagem particularizavam igualmente os que vivessem como ciganos, argumento que em 8 de Agosto de 1639 o regedor da Casa da Suplicação clarificava ao afirmar que o ser cigano não consiste na natureza [naturalidade] mas em viver como tal. Sem um rumo político definido em relação a este grupo, ainda que a tendência fosse para o agravamento do quadro penal, se é verdade que a Coroa geriu a questão dos ciganos conforme os seus próprios interesses e condicionalismos conjunturais, não é menos verdade que por várias vezes decidiu a seu favor, contrariando os municípios que os recusavam nos seus territórios e procurando integrá-los, em condições idênticas às exigidas a qualquer minoria, fixação num determinado local, obrigação de trabalharem e de abandonarem os traços identificadores da sua pertença étnica, imposições sempre rejeitadas. A este propósito distingue-se a Lei sobre ciganos e vagabundos de 1649, determinando a entrega das crianças ciganas às misericórdias, recolhimentos e colégios de órfãos, quando atingissem os nove anos, para os educarem para o mundo do trabalho, incutindo-lhes os valores básicos do cristianismo, afinal os mesmos pressupostos que presidiam às políticas relativas às crianças abandonadas e aos órfãos. Pela primeira vez, a lei tomava a pedagogia como uma forma de repressão em relação aos ciganos, mas como antes, sem qualquer sucesso, pois a sua memória social mostrava-se suficientemente sedimentada para resistir aos valores que lhes queriam incutir, nomeadamente o do trabalho como garante do desenvolvimento económico, estabilidade social e condição de acesso aos mecanismos formais de assistência.
Nenhuma destas políticas contra os mendigos sem licença, vagabundos, ociosos e embusteiros, ciganos ou não, punha em causa, todavia, os princípios religiosos que, por esta altura, sustentavam o exercício da caridade: a Bíblia e a patrística continuavam a dar substância aos textos oficiais e literários, como a obra vicentina bem retrata, e a ideologia da Igreja, que era também uma prática, espelhava-se em livros como o Leal Conselheiro, do rei Duarte I, ou no Livro da Virtuosa Benfeitoria, do infante Pedro. A generalidade dos autores combinava, sem se contradizer, dois tópicos fundamentais: o da pobreza evangélica, doutrinalmente enquadrada, e o da condenação da ociosidade, defendendo a honestidade e o trabalho. O que se pretende salientar é que as medidas contra a mendicidade podem igualmente incluir-se no conjunto das acções régias que definiam o modelo do bom rei». In Laurinda Abreu, O Poder e os Pobres, As Dinâmicas Políticas e Sociais da Pobreza e da Assistência em Portugal, Séculos XVI-XVIII, Gradiva, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-616-596-3.
           
Cortesia de Gradiva/JDACT

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «… esmagado os exércitos cristãos em Sagrejas, próximo de Badajoz, em 1086; em Consuegra, em 1097; em Uclés, quase às portas de Toledo, onde morrera o filho do imperador Afonso e de Zaida»

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A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) Recomeça a vida intelectual. Em Itália, no norte de França, nos mosteiros e depois nas escolas urbanas, grupos de clérigos estudam os textos que lhes foram legados pelos seus antecessores, comparam-nos, analisam as suas divergências, rentam resolvê-las. Têm a impressão de tecer o fio de uma tradição interrompida, de descobrir e assimilar outra vez uma cultura esquecida: somos anões empoleirados nos ombros de gigantes, dizia um deles. Desse saber antigo, as bibliotecas da Europa apenas conservam migalhas. O ocidente cristão, faminto de livros, é exigente: vai importar dos países que conservaram a tradição antiga, dos países islâmicos, de Bizâncio, a matéria-prima indispensável ao seu desenvolvimento intelectual. Para ele, a Espanha é uma ponte. Já no final do século IX o monge Gerbert viera fazer a sua aprendizagem das matemáticas a Ripoll, na Catalunha...
Os soberanos cristãos da Espanha procuravam o apoio deste novo dinamismo. Até meados do século XI, o cristianismo espanhol tinha uma vida autónoma, praticamente separada do mundo. Aqui ainda reinava o velho rito visigodo e Roma não contava. Todavia, desde 1063, que o papa concedera indulgências aos que fossem para Espanha combater os infiéis: vê-se, nesta decisão, o primeiro exemplo de cruzada. Sancho Ramirez de Aragão respondera a estas medidas. Deslocara-se a Roma e declarara-se vassalo da Santa Sé (1068); aceitara o ritual romano: era uma forma de se proteger das ambições da vizinha Navarra e de legitimar a independência que acabara de adquirir a expensas desta. Os outros seguiram-se-lhe, rapidamente. Castela jogara a cartada de Cluny, essa grande abadia da Borgonha cujo peso, na cristandade, era então colossal. Por seu intermédio, ligara-se à família ducal de Borgonha, que tinha vários membros fixados em Espanha: um deles estará, aliás, na origem de Portugal e Constança, a mulher de Afonso VI, era natural da Borgonha. Os cluniacenses haviam criado mosteiros, fornecido bispos, imposto, em 1080, a passagem ao rito romano. Em contrapartida, faziam propaganda do caminho de Santiago que atravessava o norte do reino e cuja expansão tanto prestígio trazia ao rei de Leão; empurravam para Espanha a multidão dos imigrantes que repovoavam, tal como os moçárabes provenientes do Sul, as terras conquistadas. A escolha de Bernard Cluny para bispo de Toledo não tinha nada de surpreendente, nem a proclamação por parte de Roma, alguns anos mais tarde, da Sé da cidade como arcebispado primaz de Espanha...
1212. Um grande exército reúne-se em Toledo. Primeiro, no início da Primavera, chegaram os cruzados do Poitu, da Gasconha, da Provença e do Languedoc, uma turba indisciplinada, sedenta de saque, reunida pela prédica dos clérigos que, nos últimos anos, percorriam o sul de França. Depois, o rei de Aragão, Pedro II (1196-1213), e os seus homens; as milícias das cidades de Castela; os voluntários de Leão e de Portugal, cujos reis não quiseram acompanhá-los; Sancho VII de Navarra, cognominado o Forte, (1194-1234) e por fim, Afonso VIII de Castela (1158-1214), o anfitrião de todos eles. Ele reuniu-os para o grande embate, que se pressente ser decisivo, contra An-Nasir, o Almóada, o rei de Marraquexe. A preparação foi longa. Foi necessário assinar com Aragão acordos de partilha das eventuais conquistas: eles dariam a este último, Valência e as Baleares; o resto, a Castela. Houve que chegar a entendimento com Leão, ainda independente, para obter pelo menos a sua neutralidade benevolente. O papa teve de insistir e proclamar a cruzada. Não devemos imaginar uma vaga unânime da Espanha cristã a precipitar-se sem segundas intenções sobre o infiel. É indubitavelmente mais verosímil do que em muitas outras ocasiões, mas isso não impede outras reflexões a terra. Apesar de tudo, o resultado é bem visível: constituiu-se um enorme exército.
Há um século que a frente da Reconquista está bloqueada frente a Toledo. No entanto, após a tomada da cidade, os castelhanos haviam progredido rapidamente para sul. Mas os reis dos taifas, não vendo já saída e pressionados pelos seus súbditos a quem o perigo radicalizava a fé, haviam decidido pedir ajuda aos Almorávidas, uns fundamentalistas que tinham acabado de tomar o poder em Marrocos. Estes haviam varrido os taifas, esmagado os exércitos cristãos em Sagrejas, próximo de Badajoz, em 1086; em Consuegra, em 1097; finalmente, em Uclés, quase às portas de Toledo, onde morrera o filho do imperador Afonso e de Zaida. Destronados os Almorávidas, sucederam-lhes os Almóadas, ainda mais rígidos, ainda mais decididos a repelir o infiel e a salvar al-Andalus. Durante mais de um século, Toledo fora cercada e os seus campos devastados». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

Cortesia de Terramar/JDACT

Requiem em Terezín Josef Bor. «Mãos à obra, ouve-se de todos os lados para encorajar os artistas. Estes sorriem e, com um leve aceno de cabeça, prometem que a coisa sairá…»

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«No recreio da antiga escola de Terezín, diante da porta fechada do amplo ginásio, uma grande multidão encontra-se pacientemente reunida. Aguarda-se a chegada dos artistas, os quais devem ter prioridade de entrar no salão, já que mais tarde dificilmente o conseguiriam. Ei-los que se aproximam, enfim, Rafael Schaechter e todo o conjunto, calorosamente saudados pela multidão, sem qualquer espécie de cerimónia, como se costumam cumprimentar bons amigos que se encontram diariamente na rua. Não existe entre eles a distância do espectador ao artista, todos são prisioneiros do mesmo lager. Olá, Rafinho, gritam-lhe daqui e dali, hoje queremos assistir a qualquer coisa de especial. Aqui ninguém usa outro nome para ele; é assim que todo o gueto conhece este moço de óculos, um tanto baixote. Mãos à obra, ouve-se de todos os lados para encorajar os artistas. Estes sorriem e, com um leve aceno de cabeça, prometem que a coisa sairá de primeira, não haverá decepção. Schaechter abre a porta, os artistas vão entrando e encaminham-se directamente para os seus lugares. Não há palco, vendo-se apenas, em frente da estante do regente, um caixote virado. É o estrado do maestro. Schaechter  sobre para ele e fica a olhar para o público que vai ocupando a sala.
Entram adultos e crianças, pois até estas, já que a morte, no campo, a todos ronda, hão-de compreender a música desta noite. Muita gente idosa. Gente magra, recurvada, envergando velhas roupas remendadas. Autênticos mendigos. Porém, são justamente estes que, através da pose e da atitude, tentam expressar o cunho solene da estreia de hoje, nem que seja por meio de uma tirinha de pano no lugar da gravata. Não há ninguém para encaminhar os convidados; todos sabem perfeitamente para onde se devem dirigir. Às crianças ficou reservado o lugar no chão mais perto da orquestra, os velhos vão-se acomodando, muito apertados, em compridos bancos de madeira e os adultos mais novos ajeitam-se o melhor que podem, junto às paredes e nas coxias. Será que ainda há lugar para mais alguém? A sala está apinhada, parecendo não comportar mais ninguém. No entanto, Schaechter espera, pacientemente, enquanto outros e mais outros vêm entrando. É incrível, como a massa humana se pode comprimir daquela maneira!
Bom público de estreia!, pensa o regente. Poderia encontrar, no meio dele, às dúzias, músicos e críticos notáveis! Até dava para organizar o corpo docente de um conservatório de música! De facto, um público desse nível, com tanta cultura musical, não se encontra em qualquer parte. E, certamente, em lugar algum os ouvintes aguardam com tanta ansiedade os primeiros acordes de uma estreia. Cessou o movimento junto à porta, não vem mais ninguém. A porta, porém, fica aberta, não só porque é impossível fechá-la mas também para dar aos que não conseguiram entrar uma oportunidade de ouvirem. Pode-se começar». In Josef Bor, Requiem em Terezín, 1963, colecção os livros das três abelhas, Publicações Europa-América, 1966, edição 2085-1286.

Cortesia PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Cemitérios de Pianos. José Luís Peixoto. «Olharam para mim, e choraram mais, e sentiram no peito todo o vazio terrível, negro: profundo, profundo: que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido um deles»

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«Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer. Nos últimos meses da minha vida, quando ainda conseguia fazer a pé o caminho entre a nossa casa e a oficina, sentava-me numa pilha de tábuas e, sem ser capaz de ajudar nas coisas mais simples: aplainar o aro de uma porta, pregar um prego: ficava a ver o Francisco a trabalhar compenetrado, dentro de uma névoa de pontos de serradura. Em novo, também eu tinha sido assim. Nessas tardes, tanto tempo impossível depois de ter sido novo, certificava-me de que não estava a ver-me e, quando não aguentava mais, pousava a cabeça dentro das mãos. Segurava o peso imenso da minha cabeça: mundo: tapava os olhos com as mãos para sofrer dentro da escuridão, dentro de um silêncio que fingia. Depois, nas últimas semanas da minha vida, fui para o hospital. A Marta nunca me foi visitar ao hospital. Estava grávida do Hermes. Estava nos últimos meses, e a Marta, com a natureza que tem, precisou de muitos cuidados durante o tempo da gravidez. De repente, lembro-me de quando era pequena e tão feliz na trotinete que lhe comprei em segunda mão, lembro-me de quando ia para a escola, lembro-me de tanto. Enquanto eu estava no hospital à espera de morrer, a Marta estava noutro hospital, não demasiado longe, à espera que o Hermes nascesse. Como é que está o meu pai?, perguntava a Marta, deitada, mal penteada, com os lençóis da cama de hospital a taparem-lhe a barriga. Lá está na mesma, respondia alguém mentindo. Alguém que não era nem a minha mulher, nem a Maria, nem o Francisco, porque nenhum deles tinha forças para lhe mentir. Na última tarde em que estive vivo, a minha mulher, a Maria e o Francisco foram ver-me. Durante toda a doença, o Simão nunca me quis visitar. Era domingo. Eu estava apartado dos outros doentes, porque ia morrer. Tentava respirar e a minha respiração era um zumbido grosso, rouco, que enchia o quarto. Ao fundo da cama, a minha mulher chorava, engasgada pelas lágrimas, pelo rosto contorcido e pela dor: o sofrimento. Sem escolher as palavras, dizia-as dentro de uivos estendidos, esticados, longos, interrompidos apenas por tomadas sôfregas de fôlego. Eram palavras que ardiam dentro do seu corpo emagrecido, vestido com um casaco de malha, uma saia estimada, sapatos engraxados: … ai meu rico homem meu amigo que és o meu maior amigo e eu fico sem ti meu rico homem meu companheiro meu amigo tão grande tão grande. A Maria chorava e tentava abraçar a mãe, consolá-la, porque, no peito, sentiam as duas o mesmo vazio definitivo e terrível que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido uma delas. O Francisco olhava pela janela. Tentava não ver. Tentava não saber aquilo que sabia. Tentava ser um homem. Depois, sério, aproximou-se de mim. No tempo eterno e concreto, pousou-me festas no rosto e pousou a mão sobre a minha mão. Na mesinha-de-cabeceira, sobre o tampo de ferro cinzento, descobriu um copo de água e um pau que tinha um pedaço de algodão na ponta. Molhou o algodão na água e assentou-mo na boca seca e aberta. Mordi-o com toda a força que tinha, e o Francisco surpreendeu-se por sentir pela última vez a minha força. Retirou o algodão. Olhou-me, e chorou também, porque já não conseguia aguentar. A Maria abraçou-o e tratou-o como quando era pequeno: … não tenhas medo, menino, que a gente não te vai deixar sozinho. A gente vai tratar de ti. Toda a minha força. Usei toda a minha força e só consegui fazer um som horrível de moribundo. Queria dizer ao Francisco e à Maria que eu também nunca os deixaria sozinhos, queria dizer-lhes que eu era o maior amigo que tinham na vida, que nunca os deixaria sozinhos e que nunca deixaria de ser o seu pai, e de tratar deles, e de protegê-los. Em vez disso, usei toda a minha força e só consegui fazer um som horrível de moribundo. O som de uma voz que já não conseguia falar, o som de uma voz que, usando toda a sua força, só conseguia fazer um barulho rouco com a garganta, um som horrível, um som de moribundo. Olharam para mim, e choraram mais, e sentiram no peito todo o vazio terrível, negro: profundo, profundo: que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido um deles. Foram para casa da Maria e cada um ficou abandonado num canto dentro do sofrimento. Longe, protegida, a Ana tinha dois anos e estava na casa dos avós do lado do pai. Desprotegidos, a minha mulher, a Maria e o Francisco esperavam que o telefone tocasse. Esperavam que telefonassem do hospital com a notícia de que eu tinha morrido. Foi assim que a enfermeira disse: … em princípio, telefonamos ainda hoje. Telefonamos logo que o seu marido falecer. Foi assim que a enfermeira disse. Sem reparar talvez que a minha mulher já não era ninguém. Sem reparar que as palavras que lhe dizia se perdiam sem eco dentro da sua escuridão. Vagarosa, a noite. Com o vagar desmedido das coisas mundiais, a noite cobriu todos os lugares do mundo que eram todos só ali: a casa da Maria: os bonecos a imitarem porcelana sobre as prateleiras dos armários, as cobertas sobre os sofás, os cantos dobrados dos tapetes, os candeeiros a imitarem cristal, as pinturas estampadas nos quadros: e a casa de festas de anos em que, desafinados, cantávamos os parabéns, batíamos palmas desencontradas e nos ríamos: e a casa de festas de Natal em que me sentava no sofá, e se punha a toalha de mesa com desenhos de pinheiros e sinos, e se usavam os copos de pé alto. Nessa casa, cada um ficou abandonado num canto dentro do sofrimento. Às nove horas da noite, o telefone tocou. O telefone tocou durante um momento que foi muito longo, porque ninguém o queria atender, porque todos tinham medo de o atender, porque todos sabiam com uma certeza muito grande que, ao atendê-lo, iria acabar definitivamente a esperança até ao último instante, iriam acabar os quase três anos da minha doença que, sempre se soube, me ia levar à morte, me ia levar até àquele telefone que tocava e que ninguém queria atender. O telefone tocou. O som atravessou a casa e o peito da minha mulher, da Maria e do Francisco. Quem atendeu foi o marido da Maria. As suas palavras dentro de uma suspensão negra do tempo, como dentro de uma sombra do tempo: … Sim, sim. Está bem. Eu digo. Aproximou-se dos meus filhos e da minha mulher e disse-lhes. Um muro invisível entre o seu rosto e as palavras que dizia. Um muro invisível entre o mundo e as palavras que dizia. Um muro que não permitia a compreensão imediata de palavras tão simples. O Hermes tinha acabado de nascer». In José Luís Peixoto, Cemitérios de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de Quetzal/JDACT

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Anjo dos Esquecidos. Heinz Konsalik. «Existem regiões destas em toda a parte: na bacia central do Amazonas, no norte do Canadá, nas vertentes tibetanas do Himalaia e no mar de areia incandescente do Gobi…»


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«Às dez horas e vinte e sete minutos um pequeno avião pousava no aeroporto da selva de Homalin, no norte da Birmânia. Era uma avioneta velhíssima e de aspecto muito frágil, pintada de encarnado vivo. O piloto que o conduzia devia ser um homem muito corajoso, pois voar num objecto como aquele sobre florestas, serras, correntes e pântanos ainda não explorados, pressupunha uma grande segurança, ou simplesmente a proverbial calma asiática e a certeza de que a vida mais tarde ou mais cedo terá que acabar, mas que a ninguém é dado escolher a maneira de morrer. O pequeno aparelho de quatro lugares dançou sobre a pista de erva, um miserável aeródromo tão acidentado como uma tábua de lavar a roupa. Tinha sido construído no meio da selva e ainda lhe pertencia, pois logo voltava a transformar-se nela por todos os lados. As rodas tocaram o solo, fazendo estremecer o avião que rolou mais um pouco, deu uma volta e ficou então parado no meio do campo com o motor ainda a roncar. A hélice, de vermelho laçada, ficou parada em posição horizontal. Mal os roncos do motor pararam, logo se abriu a porta da cabina. Duas malas foram atiradas para o chão e um homem saltou logo atrás delas, espreguiçando-se como se até àquele momento tivesse viajado dobrado em dois. Depois encostou-se à fuselagem do aparelho, limpando com a manga o suor da testa. Ninguém estava à sua espera. Só o calor húmido e podre da selva, que cortava a respiração, veio ao seu encontro. Era um homem de quem antes se teria dito: é um tipo formidável. Mas pouco ou nada restava desse homem. Era de estatura média, de ombros largos e cabeça cheia de cabelos castanhos-escuros, já entremeados com brancas. Com os olhos de um azul acinzentado olhava o que o rodeava com uma expressão cheia de asco. Quando andava, os ombros largos curvavam-se um pouco para a frente e o corpo começava a gingar. Tinha aquele andar típico do marinheiro que parece querer acompanhar o baloiçar dos barcos ou os movimentos da ondulação.
Todos deveriam saber onde fica Homalin. É um ninho de porcaria no extremo norte da Birmânia, entre a Índia e a China, num sítio onde a criação do mundo não foi além do sétimo dia. Existem regiões destas em toda a parte: na bacia central do Amazonas, no norte do Canadá, nas vertentes tibetanas do Himalaia e no mar de areia incandescente do Gobi, mas aqui, na selva de Homalin, a pergunta subsistia realmente: como é que os homens que aqui vivem ainda não perderam o juízo? Uma nuvem de putrefacção invisível, mas de cheiro muito intenso, cobria a região: cheiro como se fosse bolor em evaporação, cheiro a podre de um enorme monte de estrume. O piloto desceu do avião. Era um birmane de idade indefinida. Vestia uma bata branca e um boné também branco, com uma pala verde de material sintético. Encostou-se taciturno à asa esquerda do avião, utilizando-a como secretária, e registou no diário de bordo o relatório da aterragem: Homalin, dez horas e vinte e sete minutos. Voo normal. Nenhuns acontecimentos imprevistos. O passageiro, Reinmar Haller, foi entregue. Voo de regresso após abastecimento... Haller olhou em volta.
Numa das extremidades do aeródromo estavam dois barracões, únicos indícios de que naquele ermo viviam seres humanos. Porque é que tinham construído este aeroporto era uma das muitas incógnitas que se punham a respeito daquela região. Não tinha qualquer importância estratégica, mas, no entanto, entre aqueles edifícios baixos estava hasteada uma bandeira birmana e à sombra das árvores estavam estacionados alguns jipes pintados de verde. Para além disto nada mais se mexia. Sem contar com uns ligeiros sons vindos do motor desligado, que se pareciam com a respiração final dum doente com pneumonia, o silêncio era total. Um silêncio opressivo num enorme túmulo verde e abafante. Aqui o homem torna-se pequeno e insignificante como um mosquito, pensava Haller saindo da sombra da fuselagem do avião. Pôs a mão direita em pala sobre os olhos e olhou na direcção dos barracões. A suspeita de que este pedaço de terra, arrancado à selva só tinha sido feito para aqui se descarregar a escória da Humanidade tornou-se mais forte. Mas esperara ele outra coisa?
Já devia ter ficado de sobreaviso quando em Rangum, depois de ter aceite o posto de médico que tinha ficado vago, o ministro da Saúde, um homenzinho alegre e gordo com grandes óculos lhe tinha dito: doutor Haller, sentimo-nos muito satisfeitos por termos conseguido uma pessoa da sua capacidade para este cargo. Ninguém examinara os seus papéis, nem os seus diplomas. Também ninguém se tinha interessado pelo que Haller fizera nos últimos anos. Bastara que ele comprovasse ser um médico alemão e estivesse disposto a voar para o norte, para trabalhar como médico permanente no hospital Jesus na Cruz, que ficava num local chamado Nongkai. Devia ser um local muito pequeno, pois Haller não o conseguiu localizar em nenhum mapa, embora até à presente data isso lhe tivesse sido bastante indiferente. Só quero trabalhar, pensava ele, estar de novo à cabeceira dos doentes, ajudar seres humanos, conseguir provar mais uma vez que ainda sou alguém, apesar de tudo aquilo que ficou para trás... Ser novamente um médico! Por esta chance, Nongkai até podia ficar na Lua!» In Heinz Konsalik, Engel der Vergessenen, 1974, O Anjo dos Esquecidos, tradução de Coração Carvalho, Círculo de Leitores, 1978.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Nikalai! Nikalai! José Rodrigues Miguéis. «Há semanas que eu não tomava um banho, apeteceu-me um chuveiro. Tu estavas a dormir tão sossegado, e eu às voltas com a insónia...»

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«Entreabriu um olho com dificuldade e tentou ver no escuro. Tinha adormecido havia horas, ou assim supunha embalado no monótono ping-pang da água que se infiltrava do telhado para cair no balde de zinco, e no plic-ploc inconfundível e mais espaçado das gotas que, escorrendo do rebaixo, ficavam um instante a tremer suspensas da aresta do alizar e depois tombavam desamparadas na bacia do lavatório, ali posta, como o balde além, expressamente para as recolher. Deixara de ouvir no sono esse gotejo, de começo, enervante, agora familiar, e o silêncio tinha-o despertado. Nem sequer ouvia a respiração do companheiro, que, quando não ressonava fragorosamente, sonhava em voz alta, dava brados de comando a imaginários soldados, ria às gargalhadas, ou suspirava e gania em misteriosas sensações de gozo: silêncio toral nas fileiras! Soergueu-se no cotovelo e, de ouvido apurado e olhos já bem abertos, se papudos e algo ramelosos, ficou a espiar a opacidade nocturna do sótão. De começo nada pôde ver, e só o cicio da chuva lá fora lhe chegava aos ouvidos ali no esconso para onde empurrara o catre, a fim de escapar à tortura inquisitorial da pingadeira: mas se a chuva continuava, porque é que a água deixara de gotejar nos dois recipientes? Inquietou-se. Mais afeito à escuridão, percebeu que, do lado oposto do acanhado espaço, o outro catre estava desfeito e vazio. Impossível! Tinham-se deitado ao mesmo tempo! Alarmado, sentou-se de salto. Só então pôde ver claro, e o que viu arrancou-lhe um berro dilacerado: o corpo enorme e nu de Vladimir Mirônovitch Tatarátsin pendia da lucarna do tecto, com os braços hirtos colados ao tronco, em rigorosa posição regulamentar de sentido. O infeliz tinha-se enforcado! Othon Kirílovitch Buldógov rebolou aflitivamente do catre abaixo, e aos tropeções precipitou-se. Apertou ao peito as pernas felpudas e musculosas do companheiro, agora frias de neve, desatou a sacudi-las convulsivamente e a tentar erguê-las no ar, ao mesmo tempo que tartamudeava de pena, pavor e solidão: Vladimir Mirônovitch, acorda! Acorda, Vládia! Ah meu Deus, acorda, meu camarada e meu irmão! Não me deixes ficar aqui sozinho...
Pode alguém dizer a um cadáver que acorde? O facto é que o corpanzil, viscoso da água vinda do céu para ensopar os jornais velhos que forravam o soalho, estremeceu; uma voz rouca e sonolenta respondeu da noite e do telhado, e Othon Kirílovitch caiu de joelhos, aparentemente não menos assombrado agora com a ressurreição, do que momentos antes com o suicídio do seu inseparável. Vladimir Mirônovitch recolheu com algum custo a volumosa cabeça ao interior do sótão, fechou e trancou a vigia, agachou-se no mocho a que estava trepado, e inclinou-se para o amigo. Este, acocorado e ainda sacudido por um soluço ocasional, contemplava-o incrédulo: acordei estremunhado, dei pela tua falta, e quando te vi pendurado do tecto julguei que te tinhas enforcado. Farto da vida, farto do exílio, farto disto tudo, Vladimir Mirônovitch! Que ideia tão estúpida... Como se um Cossaco da Morte fosse capaz de...! Limpou uma lágrima. O outro abanou a cabeça e passou-lhe um terno braço pelos ombros: mas não, Othon Kirílovitch, que lembrança a tua!
Há semanas que eu não tomava um banho, apeteceu-me um chuveiro. Tu estavas a dormir tão sossegado, e eu às voltas com a insónia... Levantei-me sem fazer bulha, abri a trapeira e regalei-me de chuva, com a cabeça ao léu. Estava morna, um consolo! Passou a mão pelo couro cabeludo, a espremer fora a água. Acho que adormeci em pé, com o queixo apoiado no caixilho. Ah, agora me lembro! Estava a sonhar que andava a nadar no Don. Nisto, sinto-me agarrado pelas canelas... Pregaste-me um susto, Othonchka! Então não julguei eu que era um tubarão? Esta não lembra ao Diabo. No Don! Um tubarão no Don! Desataram a rir em coro. Buldógov caiu sentado, depois de costas no soalho, a espernear, em gargalhadas molhadas de um resto de pranto; o amigo, agachado no banco, com uma peça anatómica essencial em espasmos e a pingar». In José Rodrigues Miguéis, Nikalai! Nikalai!, Editorial Estampa, Círculo de Leitores, Obras Completas, 1995, ISBN 972-421-180-0.

Cortesia de EEstampa/CLeitores/JDACT

Dicionário da Origem das Palavras. Orlando Neves. «Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias?»


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«… Na feitura desta reunião de dados, consultei algumas dezenas de publicações. Seria fastidioso e desnecessário enumerá-las exaustivamente. Para o leitor vulgar, tornar-se-ia desinteressante tal lista; para o especialista nada traria de novo. Todavia, sempre que achei necessário, citei, nos próprios verbetes, os autores e as obras em que me baseei.

Abade
Sabe que abade significa pai? Se assume esta palavra, presta um serviço ao Estado. Desempenhará o melhor papel que um homem pode desempenhar: nascerá de si um ser pensante. Nisso há qualquer coisa de divino. Mas se você é abade só porque quis ser tonsurado, quis usar um colarinho branco, uma capinha e auferir um rendimento fixo, você não merece o título de abade. Os antigos monges davam esse nome ao superior que elegiam. O abade era o seu pai espiritual. Como o mesmo título significa coisas diferentes com o passar do tempo! O abade espiritual era um pobre à frente de outros pobres, mas os pobres abades, mais tarde, já tinham 200, 400 mil libras de renda e hoje há pobres pais espirituais que têm um regimento de guardas por sua conta. Um pobre, que fez juramento de ser pobre e que, afinal, é um rei! Já se disse isto, frequentemente, mas é preciso dizê-lo mais vezes, porque é intolerável. [... ] Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias? Porque não podemos ser príncipes? Os bispos são-no; originariamente, eram pobres como nós, enriqueceram, ascenderam aos mais altos postos, um deles até se tornou soberano dos reis, deixem-nos imitá-los. Têm razão, senhores, invadam a terra. Ela pertence ao forte e ao hábil que dela se apodere. Vós tendes aproveitado tempos de ignorância, de superstição, de demência para nos despojarem do que herdámos, para nos espezinharem, para engordarem com a carne dos infelizes. Tremam quando o dia da razão chegar.
Estas palavras de Voltaire definem o estado a que chegara o título de abade, poucos anos antes da Revolução Francesa. Era cognome e cargo dado a torto e a direito, autêntica sinecura, todos os eclesiásticos, com ordens ou sem ordens (e mesmo os leigos) podiam receber a distinção e o proveito ainda que não pertencessem a qualquer abadia (chamava-se a estes, entre outros designativos, abades sem abadia, abades cortesãos ou abades da Santa Esperança de algum dia virem a ter abadia). Verdadeiros peralvilhos, inúteis, ociosos, frequentadores das senhoras da nobreza, passeavam o seu estatuto pelos salões (recorde-se o célebre abade Prevost, escritor de mérito, autor, por exemplo, de Manon Lescaut). Daí a indignação de Voltaire. Porque a palavra abade é profana. Foram os cristãos gregos que a introduziram na religião, chamando aos primeiros superiores dos monges abbot, o que, na língua síria, significava pai. Origem contestada, no entanto, pelos que dizem ser a palavra hebraica, aba (com o sentido de amar, querer bem e daí também pai). Antes dessa passagem para a linguagem religiosa, a palavra era atribuída àquele que, pela idade, sabedoria e pureza de alma, aconselhava, orientava os que se lhe dirigiam. Cristo invocando Deus, em Getsémani, diz Abbá. S. Paulo nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas, utiliza também Abbá. Os judeus no livro dos Apótegmas incluem um capítulo chamado Pirke abbot, ou seja, Capítulo dos pais. Jesus Cristo terá proibido os seus discípulos, por tal razão, de chamarem pai a qualquer homem, visto que pai no sentido místico só seria Deus. E S. Jerónimo proibiu, igualmente, os monges de darem esse título àqueles que os superintendiam. Preveria o santo o que acontecia nos tempos de Voltaire? A verdade é que as palavras do filósofo estão bem presentes ainda na nossa linguagem popular em expressões como: cara de abade, dormir como um abade, comer como um abade.

Abalar
Pode significar partir com pressa, ir-se embora ou abanar, oscilar, fazer tremer, sentidos que só por generalização se ligam à origem da palavra. Proveniente do verbo latino advallare, por sua vez, vindo de vallis (vale) é, literalmente, descer para o vale, ir para baixo». In Orlando Neves, Dicionário da Origem das Palavras, 2001, Editorial Notícias, 2007, ISBN 978-972-461-187-7.

Cortesia de ENotícias/JDACT

O Clube de Bilderberg. Daniel Estulin. «A Bolsa de Toronto cá está, é a terceira maior na América do Norte em volume de transacções, nona no mundo em valor de mercado, e tem o primeiro sistema completamente informatizado da América do Norte»

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«(…) Ameaçam tirar-nos o direito de orientarmos o nosso próprio destino, e está a tornar-se mais fácil para eles, devido ao desenvolvimento das tecnologias da comunicação, e do profundo impacto da internet e dos novos métodos de engenharia do comportamento para manipular o indivíduo, o que poderá converter aquilo que, noutras épocas da história, não passava de más intenções... numa realidade perturbadora. Cada nova medida, vista por si só, poderá parecer apenas uma ligeira aberração, mas todo um conjunto de mudanças, parte de um contínuo, constitui uma mutação tendente à escravatura total. Por isto é que é tempo de ver os bastidores. Encontramo-nos numa encruzilhada, e o caminho que tomarmos a partir de aqui determinará o futuro da humanidade. Temos de acordar para os verdadeiros objectivos e intenções do Clube Bilderberg e afins, se temos esperança de manter as liberdades por que lutaram os nossos pais na Segunda Guerra Mundial. Não compete a Deus livrar-nos da Nova Idade das Trevas que nos arquitectaram, compete-nos a nós! Quer saiamos deste século enquanto estado marcial global e electrónico, quer como seres humanos livres, depende dos actos que empreendermos agora. Nunca saberemos as respostas certas se não conhecermos o contexto mais fundo. E isso que este tenta proporcionar.

Queda Mortal
Em Maio de 1996. eu estava em Toronto a cobrir a reunião anual do Clube Bilderberg, mas desta vez em casa, na minha pátria adoptada, o Canadá. Era bom estar de volta, e fui lembrado das muitas razões por que adoro este país. Toronto, com mais de cinco milhões de pessoas, é o maior centro financeiro do Canadá e a quarta maior cidade da América do Norte. Apenas Nova Iorque, Chicago e Los Angeles possuem economias maiores. A Bolsa de Toronto cá está, é a terceira maior na América do Norte em volume de transacções, nona no mundo em valor de mercado, e tem o primeiro sistema completamente informatizado da América do Norte. A uma hora de carro de Toronto estão as grandes concentrações de fábricas de automóveis e criação de cavalos do país. Eu ia para norte, para o local da Conferência Bilderberg daí a pouco, mas primeiro queria gozar as ruas da cidade, conhecer novamente as belíssimas vistas que tantos canadianos têm como dado adquirido. Na baixa, no coração do bairro financeiro de Toronto, fica a Bay Street, a versão mais pequena que Toronto tem da Wall Street nova-iorquina. No número 161 da Bav Street fica a Canadá Trust Tower. Este edifício de 53 pisos e 260 metros é um dos arranha-céus de referência na cidade, e tem-me fascinado desde a sua construção em 1990, a cargo do famoso arquitecto espanhol Santiago Calatrava. Esta torre faz parte de um complexo de mais de dois mil hectares chamado BCE Place, a segunda silhueta mais distinta no horizonte de Toronto, depois da CN Tower, a qual, 554 metros acima do solo, é a estrutura autónoma mais alta do mundo. A BCE Place na verdade são vários edifícios ligados por um centro comercial, mas da perspectiva das silhuetas no horizonte, são a Canadá Trust Tower e a irmã, Bay Wellington Tower, que roubam a ribalta». In Daniel Estulin, The True Story of the Bilderberg Group, 2005, O Clube de Bilderberg, 2008, PE-A, Biblioteca das Ideias, ISBN 978-972-1-05966-5.

Cortesia da PEAmérica/BdasIdeias/JDACT

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Jacques le Goff. «Na visão paradisíaca do deserto há que não esquecer a familiaridade dos que lá vivem, ou para lá se retiram, com os animais selvagens. É o modelo de Antão e de Paulo…»

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O Deserto-Floresta no Ocidente Medieval
«(…) O deserto de Paulo, Primeiro Eremita, é uma montanha, uma caverna, uma palmeira e uma fonte. Ele vive aí, revestido de folhas de palmeira e alimentado, todos os dias, de um meio pão que lhe é trazido por um corvo. Quando morre, dois leões saem correndo do fundo do deserto, com as suas longas jubas que lhes esvoaçam no pescoço. Depois de terem acariciado o corpo do velho com as suas caudas, enquanto emitem altos rugidos à maneira de oração fúnebre, escavam-lhe uma sepultura com as suas garras e nela o sepultam. Depois, abanando as orelhas e com a cabeça baixa, vão lamber os pés e as mãos de Antão, que assiste estupefacto à cena e os abençoa. O modelo eremítico de Antão é muito semelhante ao de Paulo. Também ele, na última parte da sua vida, depois dos sessenta anos, vive na montanha, numa gruta, num lugar que os viajantes modernos descrevem como particularmente árido e austero, e que a Vida de Atanásio apresenta como um paraíso terrestre. Também ele vive dos frutos de uma palmeira e dos pães que lhe trazem sarracenos-homens negros, como negra era a ave de Paulo. Mas a primeira parte da vida eremitíca de Antão consistiu num longo combate contra as visões de monstros e de demónios aterradores que o assaltam. É o teatro da sombra das tentações.
Estes temas são inesgotavelmente retornados, multiplicados, embelezados em duas grandes recolhas hagiográficas: Consulationes, redigidas no início do século V por João Cassiano, que viveu entre os eremitas orientais, e Vidas dos Padres, um complexo conjunto de histórias traduzidas em grego, que começa a circular no Ocidente no mesmo período. Como se disse, o deserto dos monges egípcios apresenta-se como o lugar do maravilhoso, por excelência; o monge encontra lá o demónio de um modo que pode dizer-se inevitável, porque o demónio, no deserto, está em sua casa; mas o monge encontra também no deserto, de certo modo, o Deus que lá veio procurar. O eremitismo ocidental, à procura de desertos geográficos e espirituais. parece ter preferido, num primeiro momento, as ilhas. É o caso no Mediterrâneo, de Lérins. onde a noção de deserto oscila entre uma concepção paradisíaca e uma concepção de prova. É um lugar de libertação para os que correm para a liberdade da solidão, o porto da salvação, como um canto do paraíso, segundo Cesário Arles.
Na visão paradisíaca do deserto há que não esquecer a familiaridade dos que lá vivem, ou para lá se retiram, com os animais selvagens. É o modelo de Antão e de Paulo, que, à falta de leões no Ocidente, faz do urso, do veado, do esquilo, os amigos e os interlocutores dos eremitas. De S. Columbano pôde dizer-se: quer em Luxeuil quer em Bobbio, manifestou sempre para com os animais uma simpatia quase franciscana. S. Godrico, que morreu em 1170, tendo-se retirado para viver na solidão de Finchdale, perto de Durham, acolhe na sua cela os coelhos e as lebres perseguidos pelos caçadores. É o deserto asilo, o refúgio no refúgio. O imaginário romanesco prescindirá da zoologia e fará de um leão o companheiro de Yvain. um S. Jerónimo cortês, no romance de Chrétien de Troyes. No seu Elogio do Deserto, o aristocrático Euquério de Lião, que se retira para Lérins entre 412 e 420. depois de ter evocado todos os episódios famosos do Antigo e do Novo Testamento que tiveram lugar no deserto (eremus = desertum, precisa ele), declara que o deserto monástico é o lugar de todos os carismas e de todas as teofanias. O ingresso no deserto é encarado, segundo uma expressão de S. Jerónimo, como um segundo baptismo». In Jacques le Goff, Il meraviglioso e il quotidiano nell’occidente medievale, Gius, Laterza, 1983, Roma, O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, Edições 70, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-44-1563-5.

Cortesia de E70/JDACT

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «… uma nova direcção nos Descobrimentos, quer dizer, para ocidente do Atlântico, fora para o autor a razão divisória oculta entre as duas épocas navegadoras»

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«(…) Quanto ao número de cativos trazidos para o reino, Azurara promete referi-lo mais adiante, como com efeito vem a fazer no fim da obra, mas abrangendo então a mais os anos que vão até ao fim de 1448. Daqui é lícito inferir que daquela data por diante, isto é, de 1446, qualquer circunstância marcava uma época nova na obra do infante Henrique, e no que expressamente tocava aos descobrimentos. Se rebuscarmos nos restantes capítulos, não encontramos, todavia, nada justifique esse balanço final referido àquela data. Notemos já que, fazendo o reconto de todos os navios que foram às novas terras descobertas, em vez de 51 encontramos 53. Mas, como Azurara se refere expressamente a caravelas, tirando da soma pelo menos uma barca, dois varinéis, dois navios e uma fusta, aquele número fica reduzido a 47. Além disso também na cronologia das viagens até aquela data se diria que há soluções de continuidade. De 1443 até ao começo de 1446, o relato da Crónica passa duma viagem para outra sem especificar a data claramente, dizendo, tentando aquele ano, ou referindo o dia e o mês, e ainda factos sincrónicos, como se anteriormente o ano ficasse declarado.
Em cronista tão minucioso aquele erro de soma e esta obscuridade cronológica, quando é certo que nos outros passos do relato ele se mostra por demais solícito em fazer notar as passagens dum ano a outro, dão direito a supor que exista qualquer lacuna na série das viagens até aquela data realizadas. Mais adiante veremos se há motivos sérios para crê-lo. Analisemos agora a parte da Crónica que imediatamente continua o balanço das caravelas enviadas e das léguas percorridas. Observará, que imediatamente a seguir a este capítulo em Azurara implicitamente fecha uma época navegadora, ele começa a falar sucessivamente do descobrimento das Canárias, Madeira, Porto Santo e Deserta, e se refere a algumas ilhas dos Açores. Dir-se -ia assim, relacionando o estranho seguimento duns e dos capítulos restantes, que uma nova direcção nos Descobrimentos, quer dizer, para ocidente do Atlântico, fora para o autor a razão divisória oculta entre as duas épocas navegadoras. Mas é certo que todas as ilhas a que se refere Azurara foram descobertas antes de 1446 e desde o fim desse ano até ao fim de 1448, último a cujos feitos se refere a Crónica, a darmos crédito a Zurara, por tal forma diminuiu a actividade descobridora, que o cronista refere unicamente três capítulos a esses dois anos, sem que qualquer das expedições relatadas seja propriamente de descobrimento. Poder-se-ia assim alegrar que a ausência de avanços exploradores bastava a justificar aquele balanço de Azurara. Mas ainda depois disso, e antes daqueles três capítulos, isto é, durante 1446, ele relata a segunda viagem de Álvaro Fernandes, cujo êxito explorador, como nota o cronista, excedeu em extensão e alcance todas as anteriores. Há, pois, a acrescentar ao mistério daquela divisão essa inexplicável pouquidade nos feitos relatados durante os últimos dois anos a que se refere a Crónica». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de PortugáliaE/JDACT

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Quando atento, folheando a Crónica, entra na última parte, chegado aos capítulos 71º e 73º (a obra tem noventa e sete), notará que o cronista dá um balanço à obra do infante Henrique…»

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«(…) Rui de Pina só em 1497, isto é, já no reinado de Manuel I, era investido no cargo de cronista-mor, que Vasco Fernandes Licena, o chanceler-mor do cível, lhe cedia. Todavia, já antes de 1490, ele fora encarregado de escrever os feitos do rei e do reino, por João II. A que vinha esse encargo confiado ao escrivão da câmara, se o ilustre Vasco Lucena, grande doutor in utroque jure, orador e diplomata, figura preeminente da nação, era o cronista-mor? Conforme cremos, a razão está em que nem todos se prestavam à tarefa de extorquir, mutilar ou destruir o alheio labor, defraudando a uns a glória dos feitos e a outros o mérito de os ter perpetuado, ainda que sob a fácil indulgência da razão do Estado. A ilustrar o nosso estudo vai a reprodução duma iluminura com que abre o manuscrito da Crónica de D. Afonso V, feita no começo do século XVI, e desde então guardado no Arquivo Nacional, na qual estão representados, e, segundo os entendidos, com todos os caracteres do retrato, Rui de Pina, o autor da Crónica, e Manuel I, monarca, a quem foi oferecida. Lá se vê, moreno, grisalho e gordo, envolto em rico manto, e farto das benesses que fruía, o cronista, de giolhos (joelhos) em terra aos pés do trono, ofertando ao monarca o seu inglório e minguado epitome. Adiante veremos que outras razões mais nos convencem de seus furtos e emendas, e ao mesmo tempo o inocentam em grande parte deles.

A Crónica da Guiné foi mutilada e truncada
Voltemos agora à Crónica da Guiné. De há muito, e sempre que a líamos, ainda que como livro de consulta e sob alguns dos seus aspectos parciais, ficávamos com a impressão mal definida de que havia através dela, mormente nos últimos capítulos, ou fossem insuficiências de relato, ou desconexões ou soluções de continuidade, que a tornavam abortiva e falha. Suspeitosos de que o cronista soubera mais do que nos dizia na sua Crónica, e impressionados ainda com a estreiteza dos resultados obtidos pelo infante, medidos pela invocação exclamativa do prólogo, donde era lícito supor que o infante Henrique tivera vastos conhecimentos do Oriente, adquiridos pelos seus servidores numa série de viagens por terra, formulámos a hipótese de que o manuscrito de Paris não correspondesse integralmente ao primeiro original. Demo-nos então a uma análise da Crónica, o mais minuciosa e paciente que pudemos, pela única edição impressa, a do visconde de Carreira. Em vez de apesentarmos as nossas conclusões, segundo o processo por que as conseguimos alcançar, vamos seriá-las conforme a ordem lógica e por maneira que as faça ressaltar com maior evidência.
Quando atento, folheando a Crónica, entra na última parte, chegado aos capítulos 71º e 73º (a obra tem noventa e sete), notará que o cronista, sem que nenhum facto até aí relatado o possa explicar, dá um balanço à obra do infante Henrique realizada até ao começo do ano de 1446, sumariando nos dois primeiros alguns informes sobre a geografia física e política do Noroeste de África, visitado por nós, assim como sobre os costumes dos respectivos habitantes, e declarando no seguinte o número de caravelas ali enviadas até aquela data, ou sejam cinquenta e uma e o número de léguas de costas exploradas, que vem a ser quatrocentas e cinquenta». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de PortugáliaE/JDACT

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Poesia na noite escura. O que faz falta. Florêncio Neto Carvalho. «Lá longe, ao cair da tarde quando a saudade se esvai ao sol poente como canção dolente de uma mocidade…»

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Lá longe ao cair da tarde
«Lá longe, ao cair da tarde
vejo nuvens d’oiro
que são os teus cabelos
fico mudo ao vê-los
são o meu tesoiro
lá longe ao cair da tarde.

Lá longe, ao cair da tarde
quando a saudade
se esvai ao sol poente
como canção dolente
de uma mocidade
lá longe, ao cair da tarde».
Florêncio Neto de Carvalho, letra e música. 1942

Vento não batas à porta
«Vento não batas à porta
que ela julga que sou eu!
Saudades da mocidade
(Ai) de um amor que já morreu.

Não vás contar tuas mágoas
às pedrinhas do ribeiro;
chorando ao pé de quem chora
(Ai) chora a gente o dia inteiro».
Florêncio Neto de Carvalho, música, 2ª quadra de Florêncio Neto de Carvalho. 1951


Esmeralda verde
«Conheço a esmeralda verde
verde de água marinha;
nenhum verde é como o verde
dos teus olhos Joaninha.

Conheço a esmeralda verde
verde da água marinha.

(Ai) Eu vou rezar à saudade
este meu amor sem fim;
saudades da mocidade
que eu trago dentro de mim.

(Ai) Eu vou rezar à saudade
Este meu amor sem fim».
Florêncio Neto de Carvalho, música e letra. 1952

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