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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pensamento. Música. Orçamento. Doença. Política. Revolta. Até Amanhã Camaradas. «As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX. A actualidade sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis»

Até amanhã camaradas
jdact


«As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX. A sua expansão mundial foi possível por explicar o que até então não tinha explicação. Sobre a relação do ser humano com a natureza que o envolve. Sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis. Sobre a actualidade da construção revolucionária de uma nova sociedade. Porque científicas e dialécticas, teorias abertas à reflexão e contrárias à própria cristalização. As conquistas das ciências, as transformações provocadas pelas novas tecnologias, a internacionalização a nível mundial dos processos produtivos, as alterações na composição social das sociedades, incluindo na composição do proletariado, obrigaram e obrigam a novas respostas e a um novo rigor dos princípios teóricos. Curioso que certos estudiosos, quando falam do marxismo, investigam o pensamento de Marx antes de este ter formulado as grandes conclusões teóricas. Ou seja: de quando Marx ainda não era marxista. O marxismo há que considerá-lo em movimento, acompanhando a vida. Lembre-se que, apenas passados 50 anos do Manifesto Comunista, já o desenvolvimento do capitalismo exigia novos acertos teóricos. Lembre-se que coube a Lénine definir o capitalismo monopolista, o imperialismo etapa suprema do capitalismo, como indica o título da sua obra célebre.


Neste e noutros aspectos, negar ou recusar o pensamento de Lénine é negar o marxismo ao longo do século XX. Não foram infelizmente poucos os que, começando por negar Lénine acabaram por negar Marx. A ideologia que inspirou as transformações e conquistas revolucionárias do século XX é correctamente designada por marxismo-leninismo. Além do mais, porque a teoria adquiriu na sociedade força material quando amplas massas a tomaram como sua e, mesmo que conhecendo e assimilando apenas aspectos essenciais, sentem nela inspiração para lutarem com convicção, coragem e confiança. O marxismo-leninismo foi a grande ideologia revolucionária que inspirou e encaminhou as grandes lutas, realizações e experiências libertadoras de transformação social que marcam para sempre o século XX, na história da humanidade. Não sem um percurso acidentado. Tanto tendências revisionistas como dogmáticas têm com frequência incapacitado de responder criativamente às transformações da realidade. Se muitas respostas têm sido dadas, muitas mais estão por dar. Entretanto, princípios fundamentais continuam válidos e continuam não só a explicar o mundo, mas também a indicar como transformá-lo». In 150 anos do Manifesto Comunista de Marx e Engels.

JDACT

domingo, 10 de novembro de 2013

Centenário de Nascimento. Até Amanhã, Camaradas. Manuel Tiago. «… e não obedecem a um adjectivo naturalista de autenticação, de efeito do real, mediante a contiguidade de circunstâncias aleatórias à margem da tipicidade essencial»

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«(…) Logo adiante encontrou as primeiras casas, acotoveladas ao longo da estrada inundada. Escorrendo em água, a grande aldeia parecia deserta. Só já no coração da terra descobriu, abrigado num telheiro, um homem gordo em mangas de camisa, com os polegares metidos nas cavas do colete. À sua pergunta, o homem acenou ligeiramente com a cabeça, convidando-o a abrigar-se também. Sempre na mesma posição e no mesmo sítio, mirava atentamente o forasteiro, reparando no seu fato modesto repassado de chuva, no rosto bem barbeado e na pasta de couro pendente do quadro da bicicleta, agora encostada a uma estaca. - Vai lá vender alguma coisa? - perguntou por sua vez. - Não, não vou vender, disse o desconhecido, limpando novamente com o lenço a cara e o pescoço. O outro ficou uns instantes silencioso. Parecia hesitar. Observou com muito interesse o lenço com que o ciclista se limpava e voltou depois a olhar para a pasta de couro, para o fato encharcado, para a estrada inundada e para a chuva caindo. - O senhor não é destes sítios. - Não, não sou. E acrescentou, batendo vigorosamente com os pés no chão para não arrefecer: - Quem havia ontem de dizer o dia que hoje ia estar. - Não era difícil, disse o gordo. - Ontem choveu toda a tarde e de noite a chuva não parou.
O ciclista compreendeu perfeitamente estas palavras. Elas significavam: se não quiseres dizer, não digas o que te obriga a meteres-te ao temporal. Mas não julgues que me comes por parvo. Ao compreendê-las assim, pensou que fizera mal em abrigar-se ali. - Tanta chuva é capaz de dar cabo das culturas. - Não dá cabo de nada, replicou o gordo com voz irritada. - O mal é se não chovesse. Vê-se bem que o senhor não trabalha no campo. Se calhar é viajante. - Não, não sou viajante, respondeu o forasteiro. - Estou a arrefecer por estar parado, acrescentou esfregando as mãos e continuando a bater com os pés. - Meter-se a esta chuva é que com certeza não dá saúde, disse o gordo. O ciclista compreendeu também perfeitamente estas palavras: o que tu queres é ir-te embora para evitares conversa, mas eu entendo-te muito bem. - E o caminho para Vale da Égua? Sai daqui da terra? O gordo, sempre com os dedos nas cavas do colete, não bulia do mesmo sítio. O rosto parecia inalterável. Mas nos olhitos avermelhados adivinhava-se a profunda irritação da curiosidade insatisfeita. - Eu sei lá onde isso fica! - exclamou como se a pergunta fosse um disparate. Sempre a bater os pés no chão, o forasteiro suspendeu o movimento das mãos que esfregava e voltou bruscamente a cabeça para o outro. Instintivamente o gordo deu um passo atrás, como esperando uma agressão. Já o forasteiro, com gestos lentos, ajustava as peúgas por fora das calças encharcadas, aconchegava o boné à cabeça e a gola do casaco ao pescoço, agarrava a bicicleta e saía à estrada. - Então, bom dia. - Vá, com Deus! - respondeu debaixo do telheiro a voz colérica do gordo.
Abrandara o vento, chovia menos, mas, na estrada inundada e cheia de covas, a bicicleta rolava com dificuldade. O ciclista lembrava-se do que lhe haviam dito: apeias-te na estação, perguntas aí e logo te dizem. Não lhe conviera vir de comboio, mas deveria ter-se dirigido na mesma à estação. Pensando que se havia de ver da estrada, resolveu não perguntar nada a ninguém até lá chegar. Diante de um lago lamacento, ensopado em humidade, a estação, tal como a aldeia, parecia deserta. Ninguém no átrio, ninguém no balcão das bagagens, ninguém à bilheteira, ninguém no cais. Nem o ruído de uma voz, nem de qualquer trabalho. Só o tiquetaque da chuva e o gorgolejar de um ralo invisível. Chegado ao fim do cais o forasteiro, ao voltar para trás, deu de súbito com um empregado de calças de ganga e samarra de surrobeco, parado junto ao relógio e olhando distraidamente a linha. À pergunta respondeu calmamente: - o Zé Cavalinho deve estar por aí e já lho indica. Ele é lá desses sítios. - E, olhando a chuva, acrescentou, é um grande ponto, o Zé Cavalinho. Tirou do bolso uma lata com tabaco, serviu-se e ofereceu: - Uma cigarrada? O forasteiro limpou as mãos e fez o seu cigarro. Entretanto o ferroviário enrolara lentamente o tabaco, lambera a mortalha e procurava os fósforos no bolso». In Manuel Tiago, Editorial Avante!, Lisboa, 1989, 2005, ISBN 972-550-212-4.

Cortesia de Avante!/JDACT

Centenário de Nascimento. Até Amanhã, Camaradas. Manuel Tiago. «E eles até mesmo nos ajudam a sentir que muito existe ainda sem nome, à espera de coragem, pois de coragem é, em grande parte, feita a capacidade de entender, de sentir a fundo, e de acertar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Súbitas rajadas de vento bufaram do Sul. Com estardalhaço, uma chapa de zinco, vinda não se sabe donde, voou de um lado da estrada, deu quatro pinotes grotescos e foi engarrafar-se, silenciosa e miserável, na valeta do outro lado. Logo uma bátega varreu a estrada. Os homens, já encharcados pelos chuviscos que caíam desde o alvorecer, procuraram abrigo junto aos troncos esbeltos dos pinheiros. Só dois rapazitos se deixaram ficar a britar pedra, rindo dos homens que fugiam à chuva. Encolhidos e colados às árvores, os homens gritaram que se abrigassem. Vendo-se observados, os rapazitos mais riram ainda e um deles, sempre britando pedra, começou a esticar o pescoço alto e esgalgado, pondo os olhos em alvo e lambendo a água que lhe escorria cara abaixo. O outro, piscando os olhos, olhava o companheiro, olhava os homens e parecia dizer: somos engraçados, não somos? - Vejam aqueles diabos, disse um velho, procurando enrolar-se num casaco tão pequeno que dir-se-ia de criança. O homenzinho magro a quem se dirigia encolheu os ombros. - Já não temos outro dia, disse numa voz branda e cansada.
Como para lhe dar razão, o vento soprou mais forte, o ar escureceu, o céu pegou-se à terra, os fios de água continuaram a engrossar. Um a um, os homens largaram então os fracos abrigos. Alguns em passo forçado, outros em corridas curtas, outros com seu passo natural, como achando indigno apressar-se por coisa tão pouca, dirigiram-se a uma casa isolada que a uma centena de metros parecia agachar-se debaixo da chuva. Havia ali uma taberna e, se nem todos estavam dispostos a beber, ao menos sempre teriam um tecto em cima. Vendo os companheiros afastarem-se, os dois garotos atiraram as marretas ao chão. O do pescoço alto partiu como uma flecha, espadeirando as poças de água com os pés nus e agitando os braços em gestos largos e desengonçados, a querer possivelmente significar que era um grande nadador. O outro seguiu, sacudido de riso. Chegaram antes de todos à taberna, mas o engraçado, incapaz de ali esperar, veio para a chuva, chamando os homens com os braços e reivindicando assim a iniciativa e a descoberta de tão magnífico abrigo. Foram-se juntando no pequeno e escuro compartimento. Amontoados à porta, olhavam para fora a insinuar ao taberneiro que estariam ali só um instante a abrigar-se da chuva. As ocasiões de negócio eram porém raras e o taberneiro, apressado, pôs-se a lavar os copos já lavados, olhando os homens a pedir desculpa da demora em os servir. Seja pela vergonha de negar tão claro convite, seja porque lhes parecesse não poderem ali ficar todos sem gastar um tostão, seja pela força do pecado, três homens, com ar solene, chegaram-se para beber. Então todos os outros se instalaram mais à vontade, sentando-se uns à roda da mesa, fugindo outros do vão da porta, onde a chuva martelava trazida pelo vento.
 - Já, não temos outro dia, repetiu o homenzinho magro. - Era bem precisa, era bem precisa disse o velho, que não conseguira ainda, nem conseguiria nunca, ajeitar pelos ombros o minúsculo casaquinho. Todos aqueles homens eram mais camponeses que operários, alguns tinham mesmo a sua leira de terra, e, como a estiagem fora grande, sentiam-se tentados a perdoar a molha e a tarde de trabalho perdida. Silenciosos, repassados, fitavam no rectângulo de claridade da porta a cortina de água que quase vedava à vista o outro lado da estrada e apuravam o ouvido ao ruído surdo e amplo perdendo-se na profundidade do pinhal e acusando o peso da bátega. Até os garotos estavam silenciosos, e o engraçado, com um ar triste que se julgaria impossível naquele rosto minutos antes, fazia esforços para reter as tremuras de frio dos membros arroxeados. Num momento em que a chuva caía mais forte, uma sombra passou rápida diante da porta e, antes de alguém ter ido ver do que se tratava, a sombra voltou a aparecer e um homem entrou. Vinha curvado para a frente, abanando os braços e a cabeça para fazer escorrer a água das mangas do casaco e do boné. Quando julgou completada a operação, endireitou-se e, dando os bons-dias, mostrou um rosto largo, anguloso, de pele branca e de expressão severa, onde os olhos se destacavam pela sua fixidez. Um dos garotos, reparando nas calças metidas por dentro das meias, chegou à porta, espreitou para fora, disse qualquer coisa a um dos homens e este dirigiu-se ao desconhecido. - Meta a máquina dentro. Há muito lugar.
O desconhecido pareceu não ouvir. Limpava a cara e o pescoço com um lenço. - Algum dos senhores sabe dizer-me o caminho para o Vale da Égua? - perguntou. Os homens entreolharam-se. Alguns mostraram um sorriso mal disfarçado. - Para onde? - perguntou de um canto uma voz. - Vale da Égua. Fez-se um breve silêncio e os homens voltaram a olhar-se. - Ná, isso não é para aqui, disse outra voz do lado da mesa. - Como disse? - Vale da Égua. Com certeza estava enganado, informou o velho do casaquinho. Nascera ali no sítio e ali vivera sempre. Nunca ouvira falar. Decerto se enganava. O velho falava e alguns sorriam. - Esta não é a estrada para V...? - perguntou o desconhecido. - É, sim, respondeu um dos homens. - V... é, já adiante. Se não estivesse tanta chuva, viam-se daqui as casas. O desconhecido chegou à porta, olhou a estrada, tirou e torceu o boné e voltou para dentro, batendo violentamente com ele numa das mãos e mostrando o cabelo empastado na testa. - Então nenhum dos senhores sabe? - Caminho para onde?, perguntou lá do fundo o taberneiro, que ouvira tudo muito bem, mas entendia dever chamar a atenção do desconhecido para a casa onde se encontrava. - Vale da Égua, disse um dos rapazitos. O taberneiro estendeu o beiço inferior, o que tanto podia mostrar não conhecer tal sítio como descontentamento porque o forasteiro se não decidia afazer despesa. - Bom, obrigado!, disse o desconhecido. E ajeitando o boné, puxando para cima a gola do casaco, chegou-se à porta, olhou ainda o céu e fez-se de novo à chuva». In Manuel Tiago, Editorial Avante!, Lisboa, 1989, 2005, ISBN 972-550-212-4.

Cortesia de Avante!/JDACT

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Centenário de Nascimento. Discursos Políticos. Falência da Política de Direita do PS (1983-1985). Álvaro Cunhal. «Os direitos e liberdades violados e espezinhados pelos governos reaccionários nos últimos anos serão assegurados. Confiança em que a reacção será derrotada, a “democracia portuguesa” e as suas “conquistas” serão defendidas»

Cortesia de alvarocunhal e jdact

«(…) O governo e o seu ministro da Defesa preparavam-se assim para tomar conta das forças armadas, restaurarem uma hierarquia militar fascista para utilizarem depois as forças armadas para esmagar a resistência popular. Vivemos assim no mês de Dezembro último um momento de extraordinário perigo. Mas finalmente a grandiosa luta dos trabalhadores e das massas populares impediu que se concretizasse esse sinistro objectivo da reacção. O governo reaccionário foi demitido em Janeiro. O ministro da Defesa (que era também vice-primeiro-ministro e presidente do partido de extrema-direita) renunciou a todos os seus cargos públicos. A Assembleia foi dissolvida em Fevereiro. Eleições gerais antecipadas terão lugar no próximo mês de Abril. Estes acontecimentos representam uma grande derrota da reacção e uma grande vitória do nosso povo. É nesta situação que presentemente nos encontramos. A democracia portuguesa e as conquistas da Revolução correm ainda sérios perigos. Mas a Revolução portuguesa não está morta. Está viva e bem viva na luta constante do nosso povo em defesa das conquistas revolucionárias.
Está viva e bem viva no elevado grau de organização, de consciência de classe e de combatividade da classe operária, dos camponeses, das mulheres, dos jovens, dos intelectuais. Está viva e bem viva na força, influência crescente e autoridade do nosso partido. Desde a Revolução de 25 de Abril, mesmo nos momentos mais difíceis e perigosos, temos reforçado incessantemente as nossas fileiras. No primeiro recenseamento depois da legalização do partido tínhamos 15 000 membros. Actualmente temos 190 000, além de 30 000 jovens comunistas. Temos confiança no nosso partido, cujas raízes profundas estão solidamente assentes na classe trabalhadora e nas massas populares. E porque temos confiança no povo português, estamos certos de que a Revolução portuguesa alcançará a vitória final. As terras roubadas pela força armada às cooperativas e entregues de novo aos grandes latifundiários voltarão para as mãos dos trabalhadores e camponeses.
As empresas entregues de novo aos grandes capitalistas voltarão para a legítima posse do Estado. Os direitos e liberdades violados e espezinhados pelos governos reaccionários nos últimos anos serão assegurados. Temos profunda confiança em que a reacção será totalmente derrotada, a democracia portuguesa e as suas conquistas serão defendidas, Portugal retomará o caminho aberto pela Revolução de Abril e o socialismo acabará também por triunfar na nossa pátria. Na nossa luta não estamos sós. Contamos com o apoio e a solidariedade internacional. E entre esse apoio e solidariedade internacional contamos com o apoio e a solidariedade da Etiópia socialista, da COPTE, do povo da Etiópia. Foi com profunda emoção que em toda esta nossa visita, nas conversações com os vossos dirigentes e militantes nacionais e regionais, nas visitas às vossas cooperativas, recebemos constantes provas de apoio e solidariedade e fomos sempre recebidos e tratados como irmãos.
Irmãos de luta, irmãos no ideal, irmãos na solidariedade recíproca. Nós transmitiremos ao nosso partido e ao nosso povo tudo o que vimos, conhecemos e aprendemos na Etiópia. Guardaremos uma lembrança imorredoura dos vossos dirigentes, dos vossos militantes, dos vossos camponeses. Nunca esqueceremos a determinação e a confiança revolucionária que nos foi expressa por todos aqueles com quem tivemos a felicidade de nos encontrar. E as mãos firmes que apertámos. E a felicidade que tivemos de beijar as vossas crianças, que, elas, podem estar seguras de virem a ser mulheres e homens livres e felizes numa Etiópia socialista. Também o povo etíope, a revolução etíope (que o nosso partido apoiou desde os primeiros dias), podem contar no futuro, em todas as circunstâncias, com o apoio e a solidariedade fraternal dos comunistas portugueses». ». In Álvaro Cunhal, Discursos Políticos, 19, Falência da Política de Direita do PS (1983-1985), Edições Avante!, Lisboa, 1988.

Cortesia de Avante!/JDACT

Centenário de Nascimento. Discursos Políticos. Falência da Política de Direita do PS (1983-1985). Álvaro Cunhal. «Com orgulho podemos dizer que nas grandes conquistas da Revolução portuguesa o nosso partido teve um papel determinante. Quais foram essas conquistas?»

Cortesia de alvarocunhal e jdact

«(…) Camaradas. Para nós, comunistas portugueses, a revolução etíope tem um particular significado. Porque o ano de 1974, ano da revolução etíope, foi também, ano da Revolução portuguesa, na qual o nosso partido desempenhou importante papel. Nós pertencemos a um partido, o PCP, com grandes tradições de luta. É um partido com 62 anos de existência, dos quais 48 anos, de 1926 a 1974, actuando nas mais ferozes condições de clandestinidade. Milhares de membros do nosso partido foram presos, torturados e condenados. Temos camaradas que passaram nas prisões fascistas 20 anos e mais. Como exemplo: só a soma dos anos de prisão dos membros do Comité Central que existia na altura em que a ditadura fascista foi derrubada atingia mais de 300 anos. Muitos camaradas foram assassinados com torturas por se recusarem a fazer declarações à polícia. Outros foram assassinados nas prisões e campos de concentração. Outros foram simplesmente assassinados a tiro, nas ruas. A luta era conduzida a partir da mais profunda clandestinidade. Militantes houve que viveram e lutaram na clandestinidade 20 e30 anos seguidos. A organização era clandestina.
A imprensa do partido era clandestina e apesar de a polícia fascista empregar poderosos meios para descobrir as tipografias e calar a voz do partido, o nosso órgão central Avante! Foi sempre escrito, impresso e distribuído regularmente, nos últimos 34 anos de ditadura fascista. Apesar, porém, de ser forçado à mais profunda clandestinidade, o nosso partido, lutando incessantemente contra a ditadura, defendendo incessantemente os interesses do povo e do país, criou e reforçou incessantemente as suas ligações com a classe operária, o campesinato, as massas populares e organizou e conduziu, no tempo da ditadura, grandes e poderosas lutas de massas. Pode dizer-se, porque é a verdade, que o PCP, nos 48 anos de ditadura fascista, foi o único partido que conduziu a luta do povo pela sua libertação. Tudo isto explica o papel que o nosso partido teve na Revolução de 1974. Com orgulho podemos dizer que nas grandes conquistas da Revolução portuguesa o nosso partido teve um papel determinante. Quais foram essas conquistas? A primeira grande conquista da Revolução portuguesa foi a liberdade, a liberdade de organização, de partidos e sindicatos, a liberdade de imprensa, o direito à greve. A segunda grande conquista da Revolução foi o fim da guerra colonial que os colonialistas portugueses conduziam contra os povos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau e o reconhecimento a esses povos do direito à independência, pela qual lutavam de armas na mão.
A luta dos povos das colónias portuguesas pela sua independência nacional foi comum com a luta do povo português contra a ditadura fascista. Uma estreita amizade e cooperação fraternal se estabeleceu entre o PCP e os movimentos de libertação nacional. E assim como a luta dos povos das colónias portuguesas contribuiu para a libertação do povo português da ditadura fascista, assim a luta do povo português, e finalmente a Revolução portuguesa, deram uma contribuição decisiva para a libertação dos povos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A terceira grande conquista da Revolução portuguesa foi a liquidação dos grupos monopolistas e a nacionalização de todos os sectores básicos da economia portuguesa. A quarta grande conquista da Revolução portuguesa foi a Reforma Agrária, com a liquidação dos latifúndios, e a constituição de centenas de unidades colectivas e cooperativas. A quinta grande conquista da Revolução portuguesa foram amplos direitos dos trabalhadores que melhoraram consideravelmente as suas condições de vida. À Revolução portuguesa faltou, porém, aquilo que não faltou à revolução etíope: um poder revolucionário, um governo revolucionário, consolidação das forças armadas revolucionárias. Por isso, em Portugal, a reacção pôde passar à contra-ofensiva. Conseguiu dissolver o movimento revolucionário das Forças Armadas.
Conseguiu de novo voltar ao governo e alcançar a maioria de deputados no parlamento. Conseguiu dar golpes fundos na reforma agrária, roubando às cooperativas (com o apoio de poderosas forças repressivas, espancando, espingardeando, assassinando) metade das terras para as entregar de novo aos grandes agrários, além do roubo de milhares de tractores e outras máquinas, de dezenas de milhares de cabeças de gado. Mas o povo opôs-se heroicamente à ofensiva contra-revolucionária e defendeu palmo a palmo as suas conquistas. De tal forma que, depois de 6 anos de ofensivas contra-revolucionárias, todas as empresas nacionalizadas continuam nacionalizadas e na reforma agrária continuam a trabalhar, a lutar, a defender as suas terras mais de 400 UCPs/Cooperativas. A reacção compreendeu que, existindo em Portugal um regime democrático, não conseguiria jamais dominar a resistência popular e destruir as conquistas da Revolução. Por isso estabeleceu sucessivos planos para a liquidação do regime democrático e a instauração de uma nova ditadura. A última dessas tentativas teve lugar o ano passado, em 1982. Estando no governo, dispondo de maioria no parlamento, contando com a colaboração do PS, as forças reacionárias conseguiram levar a cabo a revisão da Constituição. Essa revisão significou um perigo mortal para a democracia portuguesa. Em resultado dessa revisão foi liquidado o Conselho da Revolução, constituído por militares, e os poderes do Conselho da Revolução e do Presidente da República passaram para o governo, e particularmente para o ministro da Defesa». In Álvaro Cunhal, Discursos Políticos, 19, Falência da Política de Direita do PS (1983-1985), Edições Avante!, Lisboa, 1988.

Cortesia de Avante!/JDACT

sábado, 15 de junho de 2013

Uma Biografia Política. ‘Daniel’. O Jovem Revolucionário. Álvaro Cunhal. Pacheco Pereira. «Toda a literatura que um jovem ilustrado lia não tinha outro tema que não fosse esta obrigação do compromisso, o dever de participar, a necessidade de cerrar fileiras e a obrigação de ser fiel aos seus ideais»

Teria 99 anos de idade. Morreu num dia 13 de Junho
jdact

«(…) Estava-se a entrar numa nova dimensão da política. As ideias do século não eram para os indivíduos, eram feitas para as grandes massas, para as multidões nos comícios, para uma forma de paixão arregimentada e sectária, ao mesmo tempo anónima e ultrapessoalizada nos líderes, (…) no culto da personalidade dos pais dos povos e dos homens de aço. De Itália à Alemanha, do Japão à URSS, em toda a Europa, na China e na Índia, todos os ismos estão à solta. As guerras civis de ideologia preparam-se ou multiplicam-se, as guerras de expansão e império vão atravessar todo o mundo. De Espanha à Abissínia, os homens vão pagar um preço elevado em sofrimento e miséria em nome de ideias. Mas essas ideias são ideais para a geração nascente, e ideais irrecusáveis.
O impacto dessas novas ideias políticas nascidas no pós-guerra, da crise económica e social, é enorme. Comunismo e fascismo não deixavam ninguém indiferente, e as formas moderadas burguesas da política democrática eram tão violentamente atacadas por uns como por outros. O cabeçalho da revista Ordem Nova, dirigida por Marcello Caetano, que se proclamava antiliberal, antidemocrática, anticapitalista, anticomunista, antitotalitária e antimaçónica, traduz bem, no seu radicalismo, o espírito da época entre as duas guerras. Há dois campos, há dois exércitos, e cada um tem que escolher, alistar-se e combater. Tudo ia no mesmo sentido. A formação dos indivíduos, a formação integral do indivíduo, como escrevera Bento de Jesus Caraça, fazia-se pelo compromisso e pela acção. Não estávamos em tempos de contemplação, e, na cultura política emergente, polarizada por estes contrários que se eliminavam um ao outro, a violência era inevitável.
Um jovem formado nestes anos é inevitavelmente dilacerado por uma política que se apresenta como total, comprometedora, pretendendo arrancar todos os homens, do homem qualquer ao intelectual, à passividade e à inacção. Toda a literatura que um jovem ilustrado lia não tinha outro tema que não fosse esta obrigação do compromisso, o dever de participar, a necessidade de cerrar fileiras e a obrigação de ser fiel aos seus ideais. Os intelectuais que marcaram a juventude na década de trinta comprometeram-se quase todos na luta política, e esse compromisso é a marca do seu tempo. Foi nestes anos que a herança de Zola se viu integralmente cumprida, já não na figura de uma atitude de responsabilidade individual face a valores ou princípios, mas como um acto de pertença a um destino colectivo. Esta diferença vai ser essencial porque o compromisso, agora, é com a História, com uma ou outra interpretação contraditória da História.
Quer sejam o sangue e a raça, ou a classe e a revolução, está à solta entre os jovens uma força profunda que falava em nome da História. Quando, mais tarde, se vêm juntar os romances sociais de Jorge Amado, de Gorki, de Istrati, os romancistas americanos da Depressão, com as suas veementes denúncias da injustiça, da exploração, da realidade trágica da miséria, encontram o terreno preparado pelos autores do compromisso, os próceres literários da obrigação moral do envolvimento. Uns incentivam a atitude, outros fornecem a causa. O resultado é, em primeiro lugar a atitude de obrigação face à História, a que se acrescenta depois a consciência da desigualdade e da pobreza. Antes de serem revoltados sociais, os jovens que nestes anos se aproximam do comunismo aceitam uma atitude face à Historia, que nalguns deles evolui para uma filosofia face à História: a da predestinação marxista».

In Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, ‘Daniel’, O Jovem Revolucionário, 1913-1941, Temas e Debates, Lisboa, 1999, ISBN 972-759-150-7.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

sábado, 8 de junho de 2013

‘Daniel’. O Jovem Revolucionário. Uma Biografia Política. Álvaro Cunhal. Pacheco Pereira. «… faz o que um jovem da sua idade faz em férias: vai para a praia, toma banho, namora. Lê e discute. Participa em récitas teatrais no casino local. Uma das pessoas que aí conhece é ‘Armando Magalhães’, vidreiro da Marinha Grande»

Cortesia de wikipedia e jdact

1913-1941
«(…) A grande vaidade de Cunhal foi sempre mostrar que se pode ser capaz. Interpreta por isso a história da sua vida como uma história de ascese, de sacrifício, de rito de passagem com sentido teológico, que lhe serve para explicar os seus actos. Cunhal vai sempre mostrar que é capaz, não para si próprio, para a sua vaidade, mas para a sua mestra e senhora: a História. Mas ele sabe que, no íntimo, o mundo do Céu permanece intangível, o mundo de sua mãe permanece intacto, e Álvaro Cunhal aspirará sempre à santidade, como na sua infância de crente.
Cunhal encontra-se aqui com as personagens da ficção do início do século XX, com as personagens de Romain Rolland, de Joyce jovem, de Hermann Hesse, que constroem a sua personalidade através de uma crise interior que as aproxima ou da História, se são revolucionários, ou da sua negação, se são estetas. Revoltando-se contra a Igreja, a família, a escola, a sociedade, reencontram-se consigo próprios e com o seu destino. É contra a mãe que Cunhal se revolta, ao recusar as suas convicções religiosas. É contra a mãe que ele se reconstrói como revolucionário, mas é no pai que encontra as referências para a sua opção política. Cunhal tem no pai uma outra influência, que ele acabará por sempre reconhecer como decisiva para as suas escolhas de adolescente. Mas na aceitação do pai há muito de recusa da mãe. E as recusas são muitas vezes mais formadoras do que as escolhas.


O caminho para o comunismo
«Si solo se lucha por lo seguro lo que realmente pasa, eso seria igual a no hacer nada, renunciar a la lucha y aceptar la sumisión eterna a la explotación, a la opresión y la injusticia». In Álvaro Cunhal, ‘A Casa de Eulália’

A aproximação ao comunismo
1931-1935
Cunhal tem 13 anos quando acaba a I República e começa o longo período de ditadura do Estado Novo. Está com a família há pouco tempo em Lisboa. Já não é a criança protegida que cresceu num meio rural, distante, pequeno, mas um rapaz que veio para a grande cidade e para quem muita coisa vai mudar em pouco tempo. O período crucial da sua adolescência acompanha os primeiros anos de ditadura, anos de confrontos violentos a que ninguém podia ficar insensível, como foi o caso da revolta de 1927 em Lisboa e no Porto, a revolta da Madeira de 1931 e as revoltas de 1931-1932 em Lisboa. Para quem vivia em Lisboa, era impossível desconhecer os movimentos de tropas e de civis revoltosos, o barulho dos tiros, a necessidade de se refugiar em casa, o ocasional conhecimento directo e físico de que se matava e morria nas ruas. Para um estudante do Liceu é nas próprias aulas que essa instabilidade se manifesta, muitas vezes interrompidas, por precaução, para proteger os estudantes. Cunhal começa por ir para o Liceu Pedro Nunes e, depois, para o Liceu Camões.
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Mesmo que não se tome à letra tanta precocidade, não há dúvidas que o encontro de Álvaro Cunhal com o comunismo se deu desde muito novo, quase como um desejo de procura de identidade adolescente. Cunhal desejava ser comunista antes de o ser, Cunhal procurava o comunismo e assediava os amigos e conhecidos manifestando a sua vontade. Nestes anos, Cunhal passava o Verão na Praia de S. Pedro de Muel, onde a família alugava uma casa. São férias típicas de uma família já com alguns recursos. Cunhal faz o que um jovem da sua idade faz em férias: vai para a praia, toma banho, namora. Lê e discute. Participa em récitas teatrais no casino local. Uma das pessoas que aí conhece é Armando Magalhães, vidreiro da Marinha Grande, que irá ser um dos principais dirigentes comunistas no fim da década de trinta, a quem o jovem Cunhal manifesta a vontade de ser comunista. Pelo relato de Magalhães, este deve ter-lhe dado qualquer resposta evasiva ou mesmo sarcástica. Quando ambos se encontram em Moscovo em 1935, Cunhal dirigiu-se a Magalhães para lhe lembrar o sucesso da sua determinação: Eu não te disse? Dissera e fizera.
O que é que fez Cunhal querer ser comunista? Á aproximação de Cunhal, como a de muitos jovens do seu tempo, ao comunismo parecia uma inevitabilidade. A outra inevitabilidade seria o movimento no sentido inverso, a aproximação de outros jovens ao fascismo. Comunismo e fascismo, em si próprios e na sua oposição, ocupavam todo o terreno da luta política, varrendo pouco a pouco a complexidade dos anos da República, com a sua miríade de grupos, partidos e opções, reduzindo tudo a escolhas claras, opostas e extremas. As antigas divisões entre monárquicos e republicanos, entre as diferentes facções oriundas do Partido Republicano histórico, entre anarquistas, anarco-sindicalistas e sindicalistas revolucionários, entre socialistas e comunistas, do PCP, a esquerda democrática e social e as múltiplas variantes de reformismo socializante, todo este mundo ainda existia no início dos anos trinta, mas estava a acabar. E, por muito que as paixões políticas ainda estivessem presas ao passado, e vão estar quase até ao fim da década de trinta em grupos cada vez mais minoritários e isolados, elas envolviam essencialmente uma elite urbana isolada da maioria do país. O republicanismo carbonário tinha sido popular em meios da pequena-burguesia e do operariado, o sindicalismo tinha conhecido um momento de apogeu, mas não tinham atingido as massas e suscitado o envolvimento das multidões». In Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, ‘Daniel’, O Jovem Revolucionário, 1913-1941, Temas e Debates, Lisboa, 1999, ISBN 972-759-150-7.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

Uma Biografia Política. ‘Daniel’. O Jovem Revolucionário. Álvaro Cunhal. Pacheco Pereira. «Jovem fisicamente atraente, brilhante, inteligente, corajoso, sujeito desde muito novo a uma intensa admiração pelos seus pares e pelos seus próximos, ele sabe muito bem qual é a maior das tentações…»

(1913-2005)
Coimbra
Cortesia de wikipedia e jdact

1913-1941
«(…) Como veremos muitas vezes em vários episódios da vida de Cunhal comunista, muito desse catolicismo de crença ficou no adulto. Não se trata de repetir o lugar-comum de uma mera substituição de crenças entre o catolicismo da infância e o comunismo da adolescência, mas de acompanhar a permanência de um sentido pessoal de dever e obrigação face a valores maiores. Cunhal não substitui Deus pelo Comunismo, mas sim pela História, o que não é rigorosamente a mesma coisa, nem tem os mesmos efeitos. Mas o que Cunhal não substitui nunca é a fé, como ele a sentiu sempre, por coisa nenhuma que não seja a mesma fé. Em Cunhal, esta fé implica sobretudo uma obrigação ética individual, um despojamento do mundo, uma vida sacrificial. O mundo assim sentido acaba por ter um forte sentido de destino, e esse sentido de destino exerce-se individualmente por uma escolha entre o bem e o mal. Uma raríssima reminiscência de infância, contada pelo próprio Cunhal à sua biógrafa soviética Yulia Petrova, retrata a consciência de como o crescimento é um abandono da inocência e a descoberta do mal e do pecado. Ao mesmo tempo, mostra como Cunhal, ainda criança, é sujeito às influências muito contraditórias do mundo distinto do pai e da mãe.
Apesar do quadro politicamente correcto em que é contada, como uma história de proveito moral sobre a vida humana, esta memória infantil é involuntariamente, como o são as histórias de infância, um retrato de uma difícil e conflitual afirmação de individualidade Nessa reminiscência, Cunhal parte do mundo da mãe para o do pai, revelando as tensões que a influência de um e outro tiveram sobre a sua vida de criança. O local onde tudo se passa pertence à mãe, em frente à igreja de Seia, a lição de moral cívica, ao pai:
  • Cunhal recordou um caso passado na sua infância: tinha ele cinco anos, a manhã estava soalheira. Muitas andorinhas voavam bem alto no Céu, sobre o campanário da igreja. Elas descreviam vertiginoso voo no espaço e baixavam depois com tal rapidez que mais parecia a queda livre de uma pedra. No céu estão as andorinhas, e o céu parecia não ter fundo nem limites; o torvelinho das aves balanceia e inclina o céu para um lado. Até esse minuto, ele recorda o céu... Não se sabe de onde irrompeu um alvoroço, e depois gritos. O céu transformou-se completamente, e ele esqueceu-o. Ao lado encontravam-se rostos corados, de garotos, de olhos e mãos tensos, e um deles apontava a uma andorinha: os garotos atiravam às aves com fisgas. Novamente irrompe uma explosão de gritos infantis: Acertou! Diziam, triunfantes, repletos de entusiasmo. O próprio Cunhal desejou nesse momento alvejar para o elogiarem também. Empunhou rápido uma fisga. Apostou com outro pequeno diabo, como ele, umas quantas moedas em como também acertava. Atirou muitas vezes a cabeça, começou a dar-lhe voltas e nada conseguia; errava sempre. Vociferou, encabulou, mas acabou por acertar. A andorinha tombou no solo. O céu esvaziou-se, cessou de balancear, mas isso já não tinha agora importância: a andorinha estava no solo; gritavam em torno e ele sentia-se feliz. Ao apanhar a ave ainda morna, correu radiante, para a mostrar ao pai. O pai de Cunhal, inesperadamente, afligiu-se: Às vezes, para viver, disse, os homens necessitam de fazer mal. Mas quanto menos se faz isso, melhor. Esta tua façanha não é nenhuma vitória.
Esta é uma história da perda da inocência. É uma história de desejo reprimido, do conflito entre a liberdade da vida e o dever de a viver com sentido. Tudo começa na infância, no céu azul até esse minuto. Então o Céu cai e esvazia-se porque o homem atenta pela violência contra esse lugar sem fundo e sem limites, onde tudo está certo e a felicidade é um estado natural. A história é uma variante da queda de Adão do paraíso, motivada não pela curiosidade, mas pela emulação, pela vaidade, pela vontade de mostrar que também se é capaz.
É uma história de pecador que teria sido liminarmente condenada pela mãe e que é apenas repreendida pelo pai, num tom pedagógico e tolerante. O mal não é nenhuma vitória, se não tiver sentido útil, diz o pai. Pela via desta sentença moral, entra a mais persistente companheira de Cunhal: a História. O pai diz-lhe que na necessidade da história está também presente o mal. O filho irá, com a sua vida, completar a frase e dizer que é a história a dadora de sentido para todos os actos, inclusive para o fazer do mal. Cunhal, como todos os comunistas deste século e do anterior, vai fechar os olhos a esse mal em nome da inevitabilidade da revolução. Aqui se revela essa espécie de idealismo pragmático típico de muitos dirigentes comunistas do século XX, uma vontade de dedicação da vida toda a um ideal que era mais de organização social do que de justiça social, associada à completa amoralização das decisões subordinadas a um fim que justificava tudo.


São homens que vêm tudo, ouvem tudo, sabem tudo e aceitam tudo, porque não estão ao mesmo nível dos outros homens, mas acima deles. São santos laicos, que comunicam a sua fé através dos seus sacrifícios individuais numa engrenagem colectiva e anónima. Dentro dela são os mais absolutos individualistas, por detrás do anonimato do colectivo. Por ela são capazes dos maiores crimes, porque, como estão pessoalmente dispostos a sofrer tudo, acham que têm autoridade para impor aos outros a sua verdade. Nesta reminiscência que funciona como fábula moral, Álvaro Cunhal admite a perda da inocência, o mundo da mãe, para encontrar na lição do pai, o passo que o levará a aceitar uma justificação suprema, que o levará do pecado da vaidade ao serviço aos homens.
O Cunhal que conta esta história de infância, já nos seus cinquenta anos, sabe intimamente que a vaidade foi e é o seu pecado, ou melhor, a sua tentação. Encontrou-a como tentação, como os eremitas no deserto, muitas vezes desde muito cedo. Jovem fisicamente belo, brilhante, inteligente, corajoso, sujeito desde muito novo a uma intensa admiração pelos seus pares e pelos seus próximos, ele sabe muito bem qual é a maior das tentações em que pode cair e em que muitas vezes caiu». In Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, Uma Biografia Política, ‘Daniel’, O Jovem Revolucionário, 1913-1941, Temas e Debates, Lisboa, 1999, ISBN 972-759-150-7.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT