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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Capitão Nemo e Eu. Álvaro Guerra. «O suor arrefece no meu corpo. Acabei de ver as três rodas com impressionante nitidez, a do meio girava velozmente no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio e as outras duas estavam imóveis…»

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Sono. Sonhos
«(…) À porta, que lentamente se abre, surge a enfermeira empurrando uma silenciosa mesa de rodas que ostenta os seus hemisférios de metal cromado a reflectir as imagens do universo debaixo da miniatura espectral da enfermeira dentro do minúsculo quarto oval, aparecem o peito de frango, fumegante, o arroz de manteiga, a canja, o pêssego, o sumo de laranja. Tenho apetite e reconheço os meus gostos. Ouço que estou com melhor parecer e que preciso de fazer a barba. Do meu rosto nem um traço. Esqueci o que era possível esquecer e prolongo este momento até aos limites da minha vontade. Tarde ou cedo, surgirá um espelho, e eu nele. Um espelho... Outra recordação... Dormito, imóvel e obediente, e desse levíssimo sono regresso, três dias, três horas, três séculos, são noções cujo rigor me não interessa, porque neste desinteresse está a suspeita de uma outra memória, da minha vontade e da esperança insensata; entrevejo o esboço de uma cópula e de uma guerra e não sei qual durou mais, mas obrigo-me a optar, e escolho a cópula, encerrado na minha fortaleza branca de doente.
Vem o médico. Toma-me o pulso e fala. Respondo sem aplicação, por delicadeza. Sou, portanto, bem-educado, tenho uma família que se ocupou de mim, da minha instrução, e me preparou para a vida... Para ver o primeiro cadáver tive que me pôr em bicos de pés e espreitar para dentro do caixão: era uma velhinha mirrada, uma tia de oitenta anos a quem tinham tirado a dentadura e que estava em frente do altar, aconchegada entre flores e com um crucifixo entre as mãos; o cheiro da cera e do pólen fez-me espirrar e outra tia, com menos quarenta anos que a defunta, assoou-me a um lenço branco; todas as mulheres da família e as suas melhores amigas estavam sentadas à volta do caixão e suspiravam ou fungavam; todos os homens da família e os seus melhores amigos estavam na sacristia e falavam em voz baixa do preço do trigo e da guerra na Alemanha...
O suor arrefece no meu corpo. Acabei de ver as três rodas com impressionante nitidez, a do meio girava velozmente no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio e as outras duas estavam imóveis; todas brilhavam e eram feitas de metais diferentes. Acho que não se tratava de um sonho e que há alguma coisa na memória que não é possível violar; na verdade, existe muito viva em mim a recordação de tudo o que não fiz, de tudo o que não criei, uma herança infinitamente mais vasta do que a possibilidade de a esquecer e me transforma numa ínfima partícula fechada na humilde casca de uma realidade adiada, eternamente. Agora, não só conheci as três rodas do Labirinto da Fortuna, de Juan Mena, a roda imóvel do passado, a roda girando do presente e a roda imóvel do futuro, coisas que assim deixaram de ser meros símbolos. Eu julgava que o homem já tinha feito Deus à sua imagem e semelhança mas afinal, Deus não está ainda feito, nem estará nunca, ele é esta tarefa interminável e constante. Mas onde é que descansa? Senhor, responde Marcel, descanso na Providência, Mas não consigo lembrar-me de onde saiu esta ironia». In Álvaro Guerra, O Capitão Nemo e Eu, Crónica das horas aparentes, Publicações dom Quixote, 1973, 2000, ISBN 972-201-828-0.

Cortesia de BN/PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os Românticos. Crimes Imperfeitos. Álvaro Guerra. «Os republicanos chamaram-lhe República, os salazaristas mudaram-no para Central e os da revolução botaram-lhe o nome de 25 de Abril. Então não é que os das Finanças querem fazer-me industrial de hotelaria...»

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«Os românticos não viajam realmente para o passado, trazem o passado para o presente». In Eduardo Lourenço

«(…) Rubrico o fim da utopia. E poderia ter-lhe dito que, depois de cá estar há coisa de um milhão de anos, o homem é ainda um animal relativamente racional, a sua superioridade sobre as outras espécies dá-lhe a ilusão de ter o absoluto ao seu alcance. E podia ter acrescentado que essa convicção é um risco que oscila entre a criação e a destruição, e que as cíclicas buscas do absoluto desembocam na submissão à ordem, nova ou velha. Mas, em vez de tal discurso, puxo-a para mim, primeiro devagar, com firme brandura. Ela debate-se, o seu hálito morno pousando nas minhas pálpebras, grita a tua ordem! A tua ordem!, enquanto as minhas mãos se fecham sobre os seus pulsos e o peso dos seus seios cai lentamente sobre o meu peito. Agoniza no amor, gemendo prazeres nascidos numa antiga ansiedade, numa outra despedida repetida e sem fim. Saliva, suor, esperma, estamos a afogar-nos nos nossos líquidos murmurando palavras de outro tempo. No meio do fumo dos cigarros, na penumbra velando a nossa nudez, recordamos episódios de antigos combates, quando o inimigo era comum e o futuro nos defendia de tudo, até da realidade. Não é uma reconciliação. Nenhuma ordem nos serve, digo eu, maculando o silêncio onde repousam as nossas lembranças. E, no entanto, começamos a envelhecer.
Revejo outras simplicidades que não afrouxam os laços da juventude, mesmo quando marcam a irreversibilidade em imagens de melancólica limpidez... O cotovelo esquerdo está apoiado sobre a pedra do balcão e a mão vai coçando o rosto muito branco semeado de barba rala e áspera; depois, alisa meia dúzia de cabelos que lhe riscam a calva luzente, e o dedo indicador vem dar a volta ao pescoço, devagar, entre o colarinho e a pele, até parar atrás do lacinho preto pendurado sobre a maçã de adão. O outro braço cai ao longo do corpo e a mão direita, cortada a meio pela bainha do casaco branco e largueirão, pontua com gestos moles o monólogo. Deu o que tinha a dar, nem mais nem menos. O Castro, com as suas relações, bem podia arranjar-me comprador para isto. A revolução deu cabo do negócio. Mas quem tiver vontade e força para trabalhar encontra aqui enxada para cavar bom dinheiro. É derrubar este mono, e espalma a mão esquerda na pedra gasta. Instalar balcão frigorífico, desses com vidros e cromados, abrir montra naquela parede, rasgar as portas, estucar o tecto, rebocar as paredes, dar-lhes duas demãos de verde e começar a contar o pé de meia.
Estou cansado, Castro. Os meus pais fizeram-me ao mesmo tempo que o Café, em 1914. Nasci sete meses depois de lhe abrirem a porta. Já teve três nomes e nunca fomos nós que lhos demos. Os republicanos chamaram-lhe República, os salazaristas mudaram-no para Central e os da revolução botaram-lhe o nome de 25 de Abril. E não tarda nada vão querer trocar-lhe o nome outra vez. Quando voltar para a Galiza ainda hei-de arranjar paciência para abrir um café só para ter o gosto de o baptizar. Farto, Castro, farto de aturar os fregueses que me gastaram os pés e a paciência. O meu pai deixou cá os ossos, mas eram outros tempos, o ofício de comes e bebes era uma arte natural. Então não é que os das Finanças querem fazer-me industrial de hotelaria, lá porque avio de vez em quando umas bifanas e uns cachorros! Já o meu pai o fazia e todos o conheciam como o galego do Central. Industrial de hotelaria!...
António Maria muda o apoio do corpo do pé direito para o esquerdo, sublinha o enfastiamento passando, sem gana, o esfregão pelo mármore e resmunga uma resposta às boas-tardes do lavrador Luís Morais que vai amesandar-se num canto à espera do carioca de limão das cinco da tarde. Sorvo o resto da cerveja já tépida, vejo o galego a arrastar os pés deformados por décadas daquele mesa em mesa. E dou balanço ao futuro que a minha geração, a seu tempo, sonhou, debruçada naquelas mesas, ambicionando ultrapassar os triunfos dos conterrâneos, a cavalo na bicicleta incerta de Inocêncio Clemente, ciclista sofredor, dentro do traje de luces do promissor espada Galo, ao lado das plumas e missangas da vedeta Vera Rios, Marília para os íntimos e patrícios». In Álvaro Guerra, Crimes Imperfeitos, Edições o Jornal, colecção Dias de Prosa, 1990, Depósito legal nº 40709.

Cortesia OJornal/JDACT

domingo, 31 de maio de 2015

Os Românticos no 31. Crimes Imperfeitos. Álvaro Guerra. «Espero alguns meses para prolongar o adeus. E começo a aprender que não se esgota nunca o passado de que nos separamos onde, como dizia Pascoaes, se pressente o infinito constelado de lágrimas»

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«Os românticos não viajam realmente para o passado, trazem o passado para o presente». In Eduardo Lourenço

«(…) Testemunha silenciosa e comovida, ela acompanhou-me quando fui despedir-me do mar, quando transportei até à beira das areias salgadas a incerteza de reencontrar o passado liquefeito e tormentoso que talvez se parecesse com o dos portugueses antigos, uma sempre incompleta pesquisa. Ia partir das minhas praias no sentido inverso das caravelas, na direcção do mundo a quem uma vez tínhamos dado outros mundos. Era essa, dizia-se, a direcção do futuro e eu avançava para lá, embora soubesse que é no futuro que a morte espreita na sua infinita paciência. No jardimargem da minha despedida, afaguei com o olhar esse inverno de barcos varados nas ruas que desembocavam no mar, proas respeitosamente apontadas a perigos conhecidos. Homens e gaivotas em terra, sabendo de temporais e peixes. Mulheres de negro, presságios, vigílias em olhos antigos. E um risco de areia ameaçada. E a vida, de costas viradas para a terra, deitando contas ao mar. O sal curtira todas as mãos e todo o saber estava temperado de ansiedade e esperança. No mar de cada um, a ideia da última onda e a memória de todas as outras. Despedia-me do etemo regresso, sem nada conhecer desse gesto definitivo, sempre haverá quem venha varar o bote e deixar-lhe a proa apontada à viagem.
Espero alguns meses para prolongar o adeus. E começo a aprender que não se esgota nunca o passado de que nos separamos onde, como dizia Pascoaes, se pressente o infinito constelado de lágrimas. Marília partilha este limbo, desde que saímos da revolução, ela pela porta do coração, eu pela porta da razão, ambos órfãos das nossas ilusões, as minhas de morte natural, as dela de morte violenta. Mas ela acredita na ressurreição e eu não. Assim nos dilaceramos semanas a fio, sob o mesmo tecto provisório da Avenida de Roma, eu fazendo lentamente as malas, perante os olhos acusadores e inquietos, rodeados de rugazinhas, de Marília mimando conspirações e solidariedades internacionalistas, na pele da actiz Vera Rios ensaiando uma Mãe Coragem que não chegará à cena. Cinicamente não quero abusar da minha boa acção. Se nos enfrentamos, também na cama onde embalamos uma espécie de amor furioso, é porque o futuro nos dá a dimensão comum de uma deixa de Cirano de Bergerac, mourir n'est rien. Ce n'est qu'achever de naître. Portanto: para cada um sua vida. Isto é, seu nascimento inacabado. Também eu queria fugir, se... Isto não é bem uma fuga. Parto antes que me façam entender que não tenho lugar na nova ordem. Foges da ordem que ajudaste a instaurar, protesta ela. Foste um inimigo da revolução. Agora, é a tua ordem. Não é minha. Mas é a menos má para quem assistiu aos incontáveis funerais da esperança». In Álvaro Guerra, Crimes Imperfeitos, Edições o Jornal, colecção Dias de Prosa, 1990, Depósito legal nº 40709.

Cortesia OJornal/JDACT

Vila Velha (1914-1945) no 31. Café República. Álvaro Guerra. «… e semeava o seu apocalipse: não calcula, Mariana. Aquilo, volta não vira, rebentam os tiros e as bombas. E muda-se de ministro como de camisa. A propósito, o seu cunhado Aníbal sempre vem agora de férias?»

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«(…) Assim intuíam vagamente os palestrantes do Café República, o Teófilo, notário, o farmacêutico Soares e o único industrial da vila àquela data, Josué Silva Castro, herdeiro do velho Saul, a quem se juntava, condicionada pelas solicitações do serviço, a aquiescência apaziguadora e amiúde contraditória do galego Manuel Maria, dono do café e o mais moderno dos cidadãos adoptivos de Vila Velha. Já no ano passado, quando fui à Suíça ver o meu falecido irmão David, me pareceu que essa Europa anda meio maluca..., interveio Josué Castro, o único vila-velhense verdadeiramente viajado, com excepção de António Lencastre, frequentador certo da Feira de Sevilha. Em Bordéus, tomaram-me por um anarquista italiano autor de um atentado em Marselha e passei um mau bocado na gendarmaria para conseguir explicar que era o Castro de Vila Velha. E, afinal, como é que você viu o imperador Francisco José, ó Castro?, indagou o farmacêutico, fascinado. Passou de carruagem, escoltado pelos granadeiros. Estava eu diante do Parlamento admirando a estátua de Palas, e vinha ele dos lados do Castelo de Schönbrunn. Usa suíças iguaizinhas às do António Lencastre. Talvez mais brancas... Uma sombra de despeito gelou o olhar do Teófilo, que jamais conseguira dominar o complexo de inferioridade causado pela longa peregrinação do Josué por Paris, Genebra, Viena, Berlim, o mundo. E o Luís Soares, respeitado proprietário da Pharmácia Asclepius, contemplando gravemente o enlutado Castro: coitado do David. Um rapaz tão inteligente e brilhante... Infelizmente ainda não se inventou o remédio radical para a tísica. Galopante, amigo Soares, galopante. Nem os especialistas, nem as montanhas suíças lhe valeram. E olhe que não poupámos nos contos de réis para lhe salvar a vida. Ofegante, o Fonseca estafeta, melena desgrenhada, carregado de embrulhos, gritou à porta do café: temos outra bernarda para breve, com tropa na rua! No Rossio, ferviam os boatos e em cada esquina havia uma conspiração. E o Teófilo, dobrando o jornal: vê-se logo que já chegou o comboio de Lisboa. E alisou as guias do bigode frisado.
Ermelinda Pacheco, viúva rotunda do juiz Laurentino Pacheco, avançou a alentada figura pela álea do roseiral da Casa Grande, acenando com o lenço de renda a Mariana Castro, que a esperava na soleira; ao lado, a criada de peitilho e crista, na mão, o regador de zinco. Mal terminados os cumprimentos e as queixas pelos tormentos do calor, ainda não perfeitamente acomodadas banhas e refegos no canapé de palhinha da sala de estar, Ermelinda desabafou: devia haver uma lei contra as revoluções!
Chegara na véspera de Lisboa onde fora visitar uma filha casada com um tenente da Guarda Republicana. Vira cair dois ministérios, e o genro, de equipamento completo, a pendurar o sabre à cinta, partindo à conquista da ordem da pátria em perigo. Vinha assustada. Levava a mão ao cimo do espartilho de barbas de baleia a sobrar ligeiramente do vestido preto e branco, luto aliviado, suspirava e semeava o seu apocalipse: não calcula, Mariana. Aquilo, volta não vira, rebentam os tiros e as bombas. E muda-se de ministro como de camisa. A propósito, o seu cunhado Aníbal sempre vem agora de férias?
Mariana fez-se desentendida. A chegada do cunhado de mais uma missão nas colónias interessava, pelas mais diversas razões, numerosos cidadãos de Vila Velha. Ao toque da campainha de prata acorreu a criada. Jacinta, serve-nos o chá. E não te esqueças daqueles bolinhos de noz que fiz hoje de manhã. Ora, dizia a Ermelinda que por Lisboa vai o diabo à solta... Enquanto Ermelinda Pacheco, contradizendo a sua pesada silhueta de matrona, passava ligeira e habilmente à moda das capelines com flores da Casa Silveira da Rua do Carmo, Mariana pensava nas voltas que a vida dá sem que as criaturas precisem de sair do mesmo lugar. Referia-se o pensamento a si própria, sem poder explicar porque lhe ocorria, a não ser pela defesa instintiva da tagarelice de Ermelinda, uma chata. Ali sentada entre a mobília arte nova da sala de estar de um casarão de vinte quartos, cave, sótão e jardim, obra mandada construir pelo falecido Saul Castro, seu sogro, no ano da graça de 1902,a menos de duzentos metros da Pensão Pereira, casa no fundo da qual nascera e se criara, filha única de Francisco Pereira e de Matilde, que ela perdera ainda em menina, no tempo das olhadelas furtivas ao balcão do café-restaurante de onde o pai a queria longe mas que sempre a atraía, sobretudo depois de vislumbrar o bigode preto do mais velho dos meninos Castro, de seu nome Josué, esguio como um vime, o longo pescoço emergindo do colarinho de goma fechado com botão de ouro e plastron, como o caule de uma flor saindo de um vaso». In Álvaro Guerra, Café República, folhetim do mundo vivido em Vila Velha (1914-1945), Edições O Jornal, Lisboa, 1982/1984, Depósito Legal 5036.

Cortesia de O Jornal/JDACT

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Crimes Imperfeitos. Álvaro Guerra. «O amor e o ódio sempre andaram à solta naquele grande coração que, da amálgama, tira afectos carregados de perigos que acabam por vitimá-la. Anda já perto dos cinquenta anos…»

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«(…) Sei sem saber dos seus amores, do seu único amor, e que a vida foi demasiado injusta para essa mulher ao oferecer-lhe o que ela não poderia aceitar. O melhor de si mesma e a memória disso ficaram encerrados num púdico halo de clandestinidade. A revolução falhou o seu tempo e talvez esteja aí a explicação das suas lágrimas de Abril, o seu último Abril, que não eram só de alegria mas corriam também sobre o seu passado, no único momento em que senti que ela se encerrava entre recordações silenciadas. Que direito me daria acesso àquele coração solitário? O seu sentido da justiça poupou-me a um segredo que lhe devorava a juventude. Justiça?!... Que digo eu! Amor, sim. Uma prova mais. E agora é que me permito chorar, desatar o nó dos soluços presos na garganta, na boca o sal das lágrimas, à simples lembrança do roçagar de um vestido de seda numa tarde de verão, do seu hábito de entrelaçar os dedos finos nas contas de um colar, da sua mão afastando-me da testa uma madeixa rebelde.
Subitamente, encontro-me vítima do meu egoísmo. Tarde de mais... Retribuí tão pouco o amor de Judite de que me chegam notícias claras, o amor impossível que nunca entendi antes desta ausência. Fingimo-nos demasiado inteligentes e jogámos um jogo com regras diferentes para cada um de nós. Oh, triste vitória a dos preconceitos! Lágrimas por esse equívoco irremediável, enquanto procuro o seu perfume numa écharpe que lhe envolvia os ombros nos dias, já tão distantes, em que publiquei o primeiro livro e lhe mostrei a primeira mulher.
Durante a revolução breve o amor foi diletante... Nesse tempo nunca encontrei a actriz Vera Rios. Claro que jogávamos às escondidas. Porque a vi de longe, no ecrã da televisão, em acalorados comícios unitários, advogando a justa luta dos trabalhadores do espectáculo, e na Praça do Comércio, cheia de camponeses alentejanos e operários da cintura industrial de Lisboa, quando se pregava a tomada do poder pelo proletariado. Só depois dei com ela, num serão de amigos e conhecidos. Para além dos ressentimentos acumulados de longe, nesse longo ano de 1975, havia outro passado. Os seus olhos incansáveis logo me envolveram numa ternura húmida, escorregadia, magoada, feita de outras recordações. O amor e o ódio sempre andaram à solta naquele grande coração que, da amálgama, tira afectos carregados de perigos que acabam por vitimá-la. Anda já perto dos cinquenta anos e viveu muito depressa desde que, ainda menina Marília Sales dos bailes do Clube Vila-Velhense, fugiu para os palcos da revista do Parque Mayer, nos anos 40. Entre amores breves e tumultuosos, subiu a rampa do êxito até ao teatro sério. No final da década de 60, juntou-se aos intelectuais e políticos que mantinham a chama da resistência antifascista. E, durante a revolução, levou Brecht às aldeias serranas das Beiras e às povoações do litoral duriense, com óptimas intenções e péssimos resultados.
Estou desempregada..., disse. Não como um lamento, mas como uma acusação que me era pessoalmente dirigida. Escapáramos para um bar de pouca luz e muito fumo, na Rua do Século. Fixei esses olhos intactos, negros e íntimos das lágrimas, e reconheci-os, bem como a boca sensual que se abrira como um fruto maduro aos amores dos seus vinte anos. Mea culpa..., balbuciei. Nunca me tomei por Deus. Não fui eu que desatei a fúria dos elementos. Com um brusco movimento de cabeça, libertou parte da testa coberta por uma madeixa de cabelos pintados com a cor do fogo, estendeu os braços, colocou as mãos sobre as minhas e eu senti que elas eram o que de mais antigo e cansado havia no seu corpo. Ninguém é Deus, disse ela. Em todo o caso, nunca desejei a ninguém todo o mal deste mundo. Nem todo o bem. Sim... Desejo-o para mim mesmo. Como toda a gente. Gostaria de não ter dito o que disse. No abandono dessas mãos abertas, cruzadas de veias azuis, ela clamava por alguém capaz de outro abandono. Que posso fazer por ti?, perguntei. Tudo... Isto é, nada, respondeu com uma tristeza cálida. Abanei a cabeça afirmativamente. E as minhas mãos responderam, enfim, às suas mãos abandonadas, enquanto um remorso insensato e uma inesperada ternura punham nos meus olhos o brilho das suas lágrimas». In Álvaro Guerra, Crimes Imperfeitos, Edições o Jornal, colecção Dias de Prosa, 1990, Depósito legal nº 40709.

Cortesia OJornal/JDACT

sábado, 16 de maio de 2015

Café Central. Álvaro Guerra. «Da Lurdinhas Paiva dos saudosos chás das quintas-feiras com o falecido farmacêutico passara-se à virtuosa dona Lurdes Paiva Soares e, desta, à respeitada viúva Soares. Aproximava-se então a terceira metamorfose…»

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«Mal se extinguiram os ecos das manifestações do fim da guerra, Vila Velha reentrou no quotidiano, com fumos de vitória e o mesmo pasmo boleando as esquinas e as almas. Até os fascistas, os bravos fascistas vila-velhenses, se apoderavam da vitória dos Aliados, como se tivessem andado nos maquis de França, à manche de Spitfires ou aos comandos de algum tank do general Paton. Em tempo de paz escolhia-se o triunfo na guerra dos outros. E vigiavam-se promessas de progresso. Um dos primeiros vila-velhenses a concretizar aspirações de vulto foi o Belmiro Belezas, filho do taberneiro Victor Belezas, um rapaz com ambições e estudos liceais desperdiçados ao balcão do pai, entre copos de vinho, carapaus de escabeche e pastéis de bacalhau. Conseguiu do abastado José Costa, o Tainha Rico, sociedade e crédito para realizar o seu sonho: um café moderno, como os de Lisboa. O anúncio de concorrência iminente apanhou o galego proprietário do Café Central, ex-República, com setenta anos e frequentes crises de reumático. À novidade encolheu os ombros e, por desfastio, sugeriu: e se pintássemos as paredes?... De verde-adiantou o filho, que era de poucas falas. Manuel Maria voltou a encolher os ombros. Tanto se lhe dava a cor das paredes, desde que continuasse a ver a cor do dinheiro da freguesia. Arrastando os pés, dirigiu-se ao balcão, largou a bandeja em cima do mármore, despiu o casaco branco e, encaminhando-se para a porta interior que ligava o estabelecimento à residência, disse para o herdeiro: amanhã, passa pelo Praga de Mãe. Pede-lhe orçamento. O relógio da Câmara deu meia-noite e os últimos três clientes arrumaram o dominó, mastigando bocejos. António Maria deu as boas-noites ao pai e ficou a olhar as paredes acastanhadas de fumo, manchadas de humidade, procurando na memória a cor primitiva. Em vão. Mais tarde ou mais cedo, mesas e cadeiras novas, pensou. Pela primeira vez, sentiu-se dono e senhor do Café Central. Depois de correr os taipais, olhou o cartaz encaixilhado onde Santa Camarão esboçava um upercut decisivo que era já uma recordação. Subiu a guarda, arqueou o tronco, ligeiro de pés, aplicou uma finta a duas mesas e acertou um directo no futuro. Sabia-se predestinado a ganhar o seu combate com o tempo, num ringue pintado de fresco, de verde. Nesse Verão de 45, outras transformações se forjavam.
Da Lurdinhas Paiva dos saudosos chás das quintas-feiras com o falecido farmacêutico passara-se à virtuosa dona Lurdes Paiva Soares e, desta, à respeitada viúva Soares. Aproximava-se então a terceira metamorfose, prematuramente crismada pelo advogado Vicente Mourão como fase da viúva alegre. O primeiro sinal foi a reabertura da Farmácia Asclepius, representando o abandono do persistente pê-agá um sintomático corte com o passado. Dona Lurdes adaptando-se a novas circunstâncias, aliás favoráveis, desistira do projecto da loja de modas. Pelo menos às drogas mantém-se fiel, insinuava maliciosamente o notário. Quisera o acaso que um rapaz de vila Nova, filho de um pequeno industrial de curtumes, de sua graça Emílio Coelho, concluísse o curso de Farmácia, após uma odisseia de catorze anos de larga boémia e moderada frequência da Universidade de Lisboa. O surpreendente epílogo da carreira universitária de Coelho veio muito a propósito resolver os embaraços de dona Lurdes que assim podia manter-se no ramo do querido defunto. Sem delongas, propôs ao licenciado direcção técnica, bom ordenado e percentagem. Tanto bastou para que a Vila murmurasse outros entendimentos, perversamente instigados pela feroz concorrência da Farmácia Ideal com a Gertrudes Purificação à cabeça.
À actualização da ortografia na fachada do estabelecimento juntava-se a fama de boémio do Emílio Coelho com a sua silhueta à Dominguin e o seu bigode à Clark Gable. As bocas da Vila destinavam-no já a protagonista do período viúva alegre de dona Lurdes, se bem que, nesse Verão, mal se detectassem os inocentes indícios de um ou outro olhar pestanudo e lânguido ou uma presença mais demorada da viúva entre unguentos e xaropes. Para falatório, porém, não bastavam a Vila Velha os negócios do mundo e os reais problemas do Concelho. Que casos graves mereciam mais atenção ficou logo demonstrado, em princípios de Agosto, quando caiu sobre Hiroshima a primeira bomba atómica. A entrada numa nova era em que o homem provava ser capaz de destruição universal apanhou parte da Vila em merecido gozo das delícias estivais. Apesar disso e da considerável distância da pavorosa explosão, chegaram a Vila Velha ondas de choque». In Álvaro Guerra, Café Central, Edições O Jornal, Lisboa, 1984, Depósito legal nº 5030.

Cortesia OJornal/JDACT

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crimes Imperfeitos. Álvaro Guerra. «… passa de Vila Velha para as metrópoles de várias latitudes, reflectindo uma peculiar visão de um mundo em que avultam as ruínas da utopia…»

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«A casa do meu passado minguou até ao tamanho do meu coração. Está condenada ao camartelo, ao golpe de misericórdia nas ruínas. Não quero vê-la, apenas senti-la no pulsar do coração do seu tamanho. E irei à vida, depois da morte me passar na alma, sobre o lamento dos equívocos e das recordações. Morreu a tia Judite. Escrevo estas palavras para acreditar nelas. O homem pode, afinal, suportar tudo, até à morte. Até à morte. E posto que tudo a pó se reduz, veremos se a coragem me não falta para a pó reduzir alguns dos vestígios materiais do tempo. Restarão certas palavras e a memória pura, precursora do limbo. Mas a liberdade absoluta é uma ilusão e os resíduos do passado uma violência apaixonada, escolhos do futuro, pesados baús que me deixam as mãos manchadas de poeira, ao abri-los. Neste sótão da minha infância, no casarão decrépito e condenado, as recordações são mais vivas que as fotografias dos álbuns de contornos muito esbatidos. A capeline branca que a tia Judite ostenta, no grupo à porta da igreja (o casamento da irmã), está naquela caixa de chapéus abandonada sobre uma cadeira império, sem fundo. O seu sorriso luminoso é o que se destaca dentro do Opel descapotável dos anos 30, com o meu avô ao volante, ainda de guarda-pó. O meu pai, de fato de linho e chapéu de palha, sentado numa cadeira de lona junto da barraca da praia da Ericeira, é apenas um comparsa de Judite, de pé, com o vestido claro de decote quadrado, colado ao corpo pelo vento, a fronte liberta dos cabelos atirados para trás, um braço levantado, horizontal, apontando para o mar. Procuro no coração cansado outras paixões e os meus olhos despedem-se dessa imagem que não se apagará jamais. E porque não reconhecer que busco mais os símbolos que o sentido dessa existência inicial que me antecedeu e esperou, a mim, outro e de outro modo? O filho que ela não teve? O amante que partiu? De tudo isto tenho vaga consciência nos largos minutos em que fixo a silhueta esguia de Judite quando jovem, levemente inclinada para a criança cuja mão desaparece na sua, que idade eu teria? Um ano? Dois anos? A minha mãe também ali figura, desamparada, braços ligeiramente abertos, olhos fixos no meu afastamento titubeante. E viajo mais para trás, para os longínquos mistérios da sua infância que anunciava o afectuoso e canibalesco cerco da família, pais, irmãos, imobilizados num canapé de verga, ao lado esquerdo a floreira, o vaso de porcelana com a planta de folhas espalmadas, e o seu laçarote parecendo maior que o natural, supostamente branco sob a sépia que congela um tempo indecifrável, ainda, e que antecipava já a gravidade da boca e a profundidade dos olhos negros.
Ao sarar as minhas feridas de guerra, quando reencontrei os lençóis de linho, o cheiro da alfazema e da cera nos velhos soalhos, o seu perfume habitava os meus sonhos de sobrevivente e quando a manhã a trazia ao meu quarto, com a luz do sol filtrada pelas cortinas de renda, eu acreditava em tudo o que estava à minha frente e nos outros sonhos que partilhávamos com o mundo da esperança. Estes antigos retratos, estes móveis desconjuntados, estas malas sem fundo arrumadas para nenhuma viagem, este espólio, estes despojos, não os quero. Só não posso fugir a este doloroso esforço da memória para voltar a sentir a presença viva que estes restos desmentem. Amar o impossível, como sempre... Amor que mata e ressuscita e aflora a pele do meu rosto, os meus lábios, sentidos despertos para todo o sinal de reconstituição fantástica que nasça do contacto com outro corpo. Vai-se-me o resto da juventude que só ela salvava na obstinação da liberdade que a manteve viva. Que outra fantasia poderá inspirar os meus desejos, encorajar os meus combates, celebrar as minhas incertas vitórias? Chegava-me sabê-la viva. Bastará, agora lembrá-la? Todo o peso do absurdo cai sobre os meus ombros, enquanto as minhas mãos mergulham nas arcas do tempo, no meio da noite gelada que invade o sótão do meu passado. E outros mistérios, os que Judite guardou. No secretismo do seu corpo. Meias palavras para lá de portas entreabertas». In Álvaro Guerra, Crimes Imperfeitos, Edições o Jornal, colecção Dias de Prosa, 1990, Depósito legal nº 40709.

Cortesia OJornal/JDACT

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Lebre. Álvaro Guerra. «A cicatriz desce do sobrolho até ao maxilar, levemente sinuosa, vertical, e o dedo fino da mulher, tão nova, tão nova, percorre-o como se evocasse um outro tempo em que não eram frequentes os cuidados e as minúcias…»

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«Era belo, como quem guardava muito de uma infância não pura mas indefesa, beleza ainda próxima do sono da criança, de costas, cabelos negros espalhados na almofada branca, braços abertos em ângulo recto, mãos fechadas, ainda indecifrável beleza de começo e de separação. Galopava no cavalo ruço impelido pelo bico das suas esporas de cavaleiro com lágrimas nos olhos chicoteados pelo vento frio, sozinho na charneca, atrás dos cães, galgos puros, só nervos e instinto de velocidade, de vitória, saltando moitas, rasando os troncos velhos de sobreiros e azinheiras, sozinho, abria uma fenda, um golpe na névoa do Outono castanho, amarelo e verde, marcando, macerando a terra mole na sua passagem vertiginosa, primeiro as patas leves dos galgos, minúsculas almofadas de cinco unhas, depois, as marcas fundas dos cascos do cavalo ruço, rasgões em meia lua no chão, lama projectada, raivoso galope de seus dezoito anos, fuga, ultrapassagem, encontro, dúvida, dádiva, perseguição, perseguição de um rasto, uma lebre, um veado, um dragão, um diabo, joelhos apertados com força contra as costelas do cavalo ruço, suor branco, azedo e espumoso, crinas batendo na sua cara, os ramos da azinheira pertíssimo, ele a debruçar-se sobre a cabeça do cavalo, a abraçar-lhe o pescoço tenso, esticado para a frente, o choque verde, a queda, um sabor pastoso, doce, enjoativo, o esquecimento e, depois, muito depois, o frio da terra, da lama no rosto, o vapor libertando-se dos corpos dos galgos de pelo molhado, o macho tinha um extenso rasgão no flanco direito e gania suavemente enquanto a fêmea lhe lambia o sangue que começava a coagular, nuvenzinhas mornas saindo de suas narinas.
A cicatriz desce do sobrolho até ao maxilar, levemente sinuosa, vertical, e o dedo fino da mulher, tão nova, tão nova, percorre-o como se evocasse um outro tempo em que não eram frequentes os cuidados e as minúcias de bem coser uma ferida, outro tempo dele, demarcado com rigores de violências e caprichos simples, nada de remorsos e angústias que não pudessem ser resgatados ao confessionário, uma vez por ano. Um dedo de mulher, tão nova, demora-se naquela ex-ferida até agora tida como sinal de macho, recordação, invocação de juventude que, com surpresa, pela primeira vez magoa, severa, implacável. Aproxima-se do seu este corpo nu, de muito nervo e frescura que, subitamente, em frio se transforma. E ele começa quando eu tinha dezoito anos..., para desistir, logo. Jamais será capaz de explicar, de saber, reconhecer, admitir, aceitar que, agora, vinte e nove anos depois, a memória o atraiçoe por fidelidade, tão estranhamente clara a dúvida, a dádiva. O quê? Nada, nada. Na Primavera levo-te a Paris. Queres? Inês sorri, abrindo ligeiríssimas rugas, estrias de desgosto, a cada canto da boca, claro que quero. Mas não achas que vai ser muito complicado? O dedo vem da cicatriz aos lábios dele e, depois, o beijo. Nada existe para esquecer, tudo vem depois». In Álvaro Guerra, A Lebre, Prelo Editora, Lisboa, 1970.

Cortesia PreloE/JDACT

Memória. Álvaro Guerra. «… e o mar que é nosso e dele nós e as ilhas e as terras e os escravos e a pimenta e o ouro e o marfim pesados como uma herança que havemos de gastar até ao último cruzado…»

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Eu. Memória
«No calor morria e nesse medo matava rasgando capim folhas lianas a tiros de raiva e metal escaldante metralha a abrir o caminho para hoje percorrido comigo desde o meu corpo espalmado na terra a beber o suor e o sangue e os olhos fechados invocavam imagens e logo se abriam para a dor real naquele longe de casa que eu era rastejando entre os silvos e explosões zumbidos aos ouvidos meus sentidos todos na fusão com o nada e desesperado disso que eu sabia ser tarde para a escolha que não fiz e matava e no meio desse calor morria e me abria o caminho da justiça sem voz já o silêncio pesava e prometia delírios de possesso que os tive e deles saí já homem sem o resgate que quis e sempre perseguindo este meu futuro que na verdade vem da mais aguda dor da morte da mais monstruosa memória que a antecede humedecida com uma lágrima ainda que caída dos olhos ou do que resta dos olhos no meio de uma cabeça rebentada a tiros os mesmos com que cheguei a esta tão nítida visão de um corpo o meu suspenso e trespassado a caminho da terra quente gretada mas assim mesmo prenhe a acolher-me numa envolvente fertilidade como a um feto regressando à madre não obstante meu dedo lesto no gatilho a disparar-me em cada uma das minhas balas encharcando-me com o sangue do mundo e o sofrimento e a violência que do berço me vinham ensinando a imaginar e então pensei só no acertar que é também uma angústia e um modo de sobreviver no mato ou algures quer a morte ou a vida sejam quer apenas em metáforas soldados de chumbo castelos aviões e pistolas de infância e também os inofensivos jogos de adulto explodindo e desintegrando-se no delírio que passou através dos ferros brancos da cama qual fera rebentando sua jaula ou desejado diabo redentor saltando em cima da minha barriga e então nasci de súbito confirmando o celerado que disse ser a morte o princípio de toda a vida e eu nela com a memória do meu princípio assim neste visitar-me e reconhecer o rosto e o gesto uma paragem brusca um espanto de aqui estar a convencer-me de razões para comigo que sei como se morre nesta guerra de todos os anos discreta guerra de poucos mortos por semana e bondosas senhoras que mandam tantos presentes para os valentes soldados e os mais valentes de todos e os que mais matam vêm de medalha ao peito matar saudades à terra onde estoiram foguetes e sai a banda e é portanto a morte o princípio de tudo este nada estes heróis estas bandeiras pesados como um remorso atrás das impenetráveis paredes de pedras grandes lajes dos túmulos dos reis e dos santos muros de castelos conventos catedrais lendas profecias fantasmas e o mar que é nosso e dele nós e as ilhas e as terras e os escravos e a pimenta e o ouro e o marfim pesados como uma herança que havemos de gastar até ao último cruzado que é o preço de tudo quanto perseguimos e está no vento e dentro de nós respira e pulsa nossa ânsia e combate nosso doce e nosso amargo que eu na morte chorei e gritei e clamei pelo nome de liberdade uma suspeita uma vontade que é nossa nossa ainda que emparedados neste passado de névoa de onde só nós poderemos sair vivos mesmo quando ou só quando chegados para demolir as velhas casas da família primeiro os painéis de azulejos o da entrada com o pajem empunhando o bastão e os outros nos vãos das janelas junto aos bancos de pedra com aves e cornucópias de um mundo azul e branco sobre as tábuas carunchosas o pó antigo deslizando para dentro de caves frescas garrafeiras vazias teias de aranha e baús e depois as paredes e os metros quadrados para o edifício de quatro andares e assim até à liquidação total da qual sobram mancas mobílias de estilo que não cabem em parte nenhuma o arcabuz os candelabros e a colecção da illustration com gravuras da guerra da Crimeia e da guerra russo-japonesa folheadas na infância durante a qual aprendi mal a violência antes daquela minha morte daquele meu princípio e isso foi entre beijos cachecóis xaropes bonitas palavras e respeito e tudo isto magoa tão perto como um desmoronamento ainda no seu eco e estas paragens de capricho para sem lamentos assumir a terraplanagem que começamos nós que do napalm e da tortura só conhecemos o clarão longínquo e os gritos e a terra queimada e as feridas e assim dizemos o não que não fazemos». In Álvaro Guerra, Memória, Editorial Estampa, Lisboa, 1971.

Cortesia EEstampa/JDACT

terça-feira, 12 de maio de 2015

Café República. Álvaro Guerra. «… no momento em que o progresso está no poder, a monárquica Inglaterra tem sindicatos livres e se navega no canal do Panamá. Uma no cravo, outra na ferradura, era a receita política para a manutenção do prestígio…»

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«Até àquele dia de Junho de 1914 nunca fora pronunciado, em Vila Velha e no seu Concelho, o nome de Sarajevo. Em todo o país, aliás, os dedos da mão chegavam para contar aqueles que sabiam da existência de Sarajevo e onde era. Mesmo assim, Teófilo Oliveira, notário, e autoproclamada testemunha omnisciente da historia contemporânea e dos meandros da heráldica dos duques de Vila Velha, não resistiu a situar, com inesperado acerto, Sarajevo nos Balcãs, ao profetizar em pleno Café República graves consequências do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria. O primeiro grande massacre do século ia começar mas, em Vila Velha e em muitos outros lugares, ninguém sabia de nada. Nem sequer o douto notário, pessoa de erudição e experiência, expoente da gente honrada, tira-teimas de questões de águas e limites de pequenas propriedades bem como dos conflitos internacionais das potências de todos os tamanhos. Porém, nem no Verão de 14 nem depois, se pronunciou correctamente, em Vila Velha, o nome da cidade da Bosnia-Herzegovina, Saraievo, mas antes se acentuava o jota, como o Teófilo, naquela fatídica tarde de Junho, à mesa da tertúlia do Café República. Algumas das testemunhas desse momento histórico viriam a ter razões pessoais para não mais o esquecer, embora então saboreassem, com ripanço e segurança, o cafezinho da tarde, absolutamente incapazes de prever as voltas dramáticas que o tempo tramava nas suas costas.
De resto, tudo chegava tarde a Vila Velha. As notícias, também. Desde o momento em que Gavrilo Prinzip desfechou a pistola nos peitos nobres do herdeiro do Imperio Austro-Húngaro e da duquesa Solia até que o Teófilo Oliveira desdobrasse, com idêntico dramatismo, a gazeta chegada da capital, à mesa do Café República, decorreram três longos dias durante os quais os mortos se contaram apenas nas fileiras dos nacionalistas sérvios. O telégrafo, desabafou o notário, o telegrafo e o telefone só servem para mandar recados do ministério e do partido ao administrador do concelho. Um atraso, um atraso permanente, no momento em que o progresso está no poder, a monárquica Inglaterra tem sindicatos livres e se navega no canal do Panamá. Uma no cravo, outra na ferradura, era a receita política para a manutenção do prestígio do notário de Vila Velha. Embora se conhecessem os seus dedicados serviços à monarquia apeada em 1910, ninguém contestava a autodefinição que ele apregoava depois do advento da República: nem monárquico, nem republicano, homem de bem ao serviço da coisa pública. Quem havia para o contestar?
Como dizia António Lencastre, o nobre lavrador da Quinta das Toupeiras, quando do alto da milorde parada à porta do café, ao sábado à tarde, debitava pródigas e audazes verdades, republicanos, em Vila Velha, havia três, um barbeiro, um judeu e um estafeta, quando muito quatro, contando com o Praga de Mãe, que nem é homem nem mulher. Esta estimativa, relativamente rigorosa em 5 de Outubro de 1910, desactualizara-se progressivamente pela adesão de uma clientela sequiosa dos empregos e privilégios da nova administração e pelos efeitos da propaganda revolucionária cujos ecos chegavam da capital, nas páginas das gazetas, nas narrativas dos viajantes e na acção itinerante dos vultos míticos do Partido Republicano que, no Verão de 1911, levaram a República a Vila Velha com banda de música, foguetes e morteiros, grinaldas, festões, bandeirolas e discursos ao bom povo proferidos na varanda do Município. A iniciativa arregimentara trinta ardorosos aderentes, entre os quais o anterior administrador do Concelho, monárquico mas homem honrado, que viu recompensada a sua competência com a solene recondução no cargo.
Quanto aos perigosos carbonários a que se referia António Lencastre, repimpado no assento da milorde, haveria que contar com o radicalismo verbal do barbeiro Zacarias Gorjão entre a barba a um talassa, a massagem a um adesivo, o corte francês a um jovem oficial de finanças; com os boatos do Fonseca estafeta, colhidos durante as suas deslocações semanais nas esquinas, lojas e repartições da capital; com a fama de Aníbal Castro, no período de férias entre cada quinquénio de missão nas colónias longínquas das Áfricas e Ásias. Quanto ao Praga de Mãe, pintor de tabuletas com veleidades artísticas, a quem o fidalgo da Quinta das Toupeiras desdenhosamente se referia como não sendo nem homem nem mulher, viu recusarem-lhe a carta do Partido por causa do seu ar efeminado e dos rumores, nunca confirmados, que intimamente se ligavam ao único nome que se lhe conhecia, Praga de Mãe, por esta, vendedeira de hortaliças e legumes, viúva desembaraçada com lugar estabelecido na praça do mercado, contemplar, segundo a lenda local, as traquinices do filho com a ameaça constante e fatal: está quieto, menino, se não levas no cu! Portanto, nada mais natural em Vila Velha do que o cepticismo erudito do Teófilo, exercitado à mesa do Café República, sobre os efeitos distantes do atentado de Sarajevo e das ainda mais distantes consequências das últimas bombas rebentadas na capital, entre uma greve da Tabaqueira e uma surtida de dois pelotões de Caçadores 5 comandados por um oficial nostálgico. Como centro do mundo, Vila Velha era um lugar relativamente abrigado das contingências e caprichos da Historia». In Álvaro Guerra, Café República, folhetim do mundo vivido em Vila Velha (1914-1945), Edições O Jornal, Lisboa, 1982/1984, Depósito Legal 5036.

Cortesia de O Jornal/JDACT

A Guerra Civil. Álvaro Guerra. «… desculpe, Ti Rita, mas está na hora de ir aquecer os ‘cuses’ das minhas senhoras. Mais respeito, minha alevantada!, censura a Francisca. Uma xícara de café, Ti Rita... E deixe cá ver esse xale para secar aqui ao pé do fogo…»

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1828 – 1831. S. Miguel Arcanjo
«(…) Primeiro, tinham morto o marquês de Loulé. Depois, já nas cavalgadas entre Queluz e Lisboa, espantaram para uma nau inglesa o conde de Subserra, prenderam o Palmela, o Parati, e deram ao cacete em tudo o que se parecesse com atrevimento moderno e ideias lá de fora. Foi então que Raimundo, protegido do Subserra, para quem pintava um fresco, levou por tabela e denúncia uma sova em que participaram o José Veríssimo e o Sedevém, companheiros das montarias aos liberais chefiadas por Miguel em pessoa, de pampilho entalado na sela, boné de pala, casaca verde, calção e botas altas de tacão, à toureiro. Daquilo saíra o Raimundo com uma perna quebrada e mancando para o resto da vida. Raimundo, o pai Raimundo, como lhe chamava desde que titubeara os primeiros sons e separara dos saiões da mãe Rita os passos periclitantes... Para quem não tinha pai nem mãe foi o destino pródigo em providenciar um afecto tão desvelado e constante como o do pintor do bairro do Castelo, espremendo o talento nos frescos da Ajuda e nos retratos de fidalgos da melhor estirpe e fazenda que na capital haviam sobrado dos exércitos que espadeiravam os franceses de Massena e Soult, esses companheiros do capitão Villepin varado por uma bala inglesa na batalha do Vimeiro, de quem Filipe usara o nome, entremeado de Maldonado, que era o apelido da mãe infeliz que morrera do parto e do desgosto. Quem o visse, fincado à amurada da escuna Le Dragon, veria nele uma expressão de rebeldia e tristeza. Mas por baixo desses sentimentos esconde-se o amor que fica em terra, a resgatar, ainda que seja preciso mudar o mundo inteiro. É que o amor e o ódio são os gémeos mais parecidos que se acoitam na alma humana, aguilhoam por igual e igual calor espalham no sangue esquentado por destinos vários. Na alma de Filipe não há desesperança que os apague.
Rita Silva puxa pela corrente da sineta da porta de serviço da mansão dos senhores Almeidas, buscando na ombreira protecção para a chuva que recomeçou. Repontara o seu João quando ela tomara o caminho da Lapa, separando-se ele, que ia em demanda da tasca de Alfama onde passa o mais do tempo em jogos de cartas entremeados com púcaros de vinho. Que ainda lhe haviam de dar muitos trabalhos aqueles recadinhos de alcoviteira, dissera. A mãe ofendera-se, que não se desgraçasse ele nalguma briga de taberna. Com modos de amuo, viraram-se as costas, cada um para seu lado. Entreabre-se a porta, a mostrar a senhora Francisca cozinheira, de coifa e avental muito alvos, xale cruzado por cima dos vastos peitos. Que entre Ti Rita, que está toda ensopadinha. E demandam a cozinha imensa onde a Rita sempre imagina albergue para família numerosa, com seus tanques de pedra, a grande mesa de mármore, a chaminé que sobe em cone, quase cúpula de igreja, os cobres muito acendrados a brilharem nas paredes caiadas onde se cruzam as sombras dos ferros dos janelões rectangulares. O criado resmunga as boas tardes, sentado num banco a engraxar as botas altas do patrão, e a Maria, uma moçoila que ri por nada, criada de quartos, guincha-lhe simpatias despropositadas, pega nas asas da braseira com os carvões bem ateados e, delambida, abalando para os aposentos dos amos, desboca-se: desculpe, Ti Rita, mas está na hora de ir aquecer os cuses das minhas senhoras.
Mais respeito, minha alevantada!, censura a Francisca. Uma xícara de café, Ti Rita... E deixe cá ver esse xale para secar aqui ao pé do fogo, que vossemecê ainda me apanha algum sopro de peitorreira, a andar assim à chuva. Lá foram, enfim..., suspira a Rita. Venho agora de Belém onde fui despedi-los. A Francisca não se mostra compungida. Que Deus os ajude, que hão-de precisar, diz, de repelão, juntando uma censura. Quem os mandou andar abandoados com os hereges que querem mal ao senhor Miguel, que é um santinho dos pobres, devoto e defensor da santa religião?! E valente como só ele, acrescenta o criado, que, dando as botas por prontas, se retira com elas pela porta da copa. Se o vissem picar um touro como eu vi... Só então Rita Silva extrai da algibeira do avental um sobrescrito amarrotado. Passa-o para a mão da Francisca, que logo o faz desaparecer pela gola do vestido. Nenhum cuidado é de mais, que vão por aquela casa tratos e choros por via da teima da menina Margarida; falam em metê-la em convento, se não deixar a cisma pelo Filipe e não casar com o primo». In Álvaro Guerra, A Guerra Civil, Publicações dom Quixote, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1993, ISBN 972-201-083-2.

Cortesia BN/PdQuixote/JDACT

domingo, 10 de maio de 2015

Esboços para uma Tauromaquia Álvaro Guerra. «Meditação romântica. Repõe a questão das raízes culturais do toureio na Península, seguindo a linha esteticista que, de Goya a Picasso e de Lorca a Alberti, justifica um olhar como arte e como paixão»

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Dinastia
«Procurando bem, sob a folhagem da árvore, interrogando as rugosidades do tronco, os caprichos da irregularidade vegetal, os nós endurecidos pelo tempo, acabamos por achar o ramo de onde derivámos com uma bossa especial, um elo, um nexo, uma espécie de paixão sem objecto que, mais tarde, nos dirige os passos por caminhos repetidos e reconhecidos, sempre em busca duma novidade que coincida com algum sonho que há muito nos maravilhou. A afición aos toiros é também, com muita frequência, uma coisa de família, um caso de dinastia, um entroncar na memória herdada ou em alguma vivência que cedo nos moldou as contorções da nossa diferença de ramo nascido duma seiva premeditada. Ocorreu-me este devaneio ao ler um livro de Jorge Semprun em que ele se despede para sempre do pseudónimo de Federico Sanchez, que usava na clandestinidade, quando se arriscava na Madrid franquista a conspirar as promessas traídas do futuro radioso. Fora dessa esfera hermética cujo rolar era impulsionado de Moscovo pelo camarada Suslov, Jorge Semprun, aliás Federico Sanchez, frequentava o oásis do bar do Palace, quando vinha expor-se aos perigos madrilenos, nos finais dos anos 50. Os seus companheiros ali eram os Dominguín e os Ordoñez e, fortuitamente, o já decadente Ernesto do Dangerous Summer, Ernest Hemingway de sua imperecível graça. Nos perigosos e episódicos regressos às raízes, Semprun não renegava quanto decidira do seu destino de escritor e quanto se submetia ao seu atavismo de espanhol. Dos convívios com o malogrado Domingo Dominguín no bar do Palace, lembro que este o apresentara a Hemingway como sociólogo, ao que Semprun acrescentara uma precisão: a definição irónica que José Bergamín dava à sociologia, una ciencia vaga, sin domicilio conocido.
É nesta perspectiva diletante que as minhas lucubrações se desenrolam, ao pretender lembrar aqui o peso das dinastias no que à tauromaquia diz respeito. Os Dominguín e os Ordoñez com quem privava Semprun nas aventuras roubadas à clandestinidade são óbvios exemplos do que avancei em matéria dinástica, segundo (ou primeiro?) sentido da expressão sangre torera. Não vou, de forma alguma, esgotar este filão inesgotável. Mas tão-só recordar que Juan Belmonte ensombrou com o seu génio a descendência; que Joselito vinha de outro passado e era parte duma dinastia. E que dizer dos Bienvenida, esse clã dirigido com mão autoritária pelo Papa Negro? E os de Manolete? E os Litri? Poucos serão os que andam nos toiros que não tenham lá para trás, se bem buscarmos até aos confins da memória, a sombra dum bandarilheiro, dum novilheiro sem futuro, dum torillero, dum maioral, dum empresário.
Nos domínios dessa ciencia vaga, sin domicilio conocido, a sociologia segundo Bergamín, seria talvez possível construirmos uma teoria de temperos freudianos, em que todas as minhas contradições conduzissem a um pai aficionado, arruinado por essa paixão sem objecto que me legou sem consulta prévia. No jogo da causalidade, do silogismo dialéctico à dialéctica silogística, chegaria fatalmente uma conclusão de divã psiquiátrico (se é que conclusões existem), tão abrangente que poderia ir da última fila do sol à barreira de sombra. Olho a escada social com a mais olímpica das indiferenças, embora a veja escorregadia e traiçoeira, de degraus polidos pela memória, boleados por uma ironia sempre pronta a desmascarar-se numa ou outra imagem do passado. Assim, encontrar dinastias de toureiros nos bares dos hotéis não é um mero acaso, nem um capricho, nem uma aposta, pode ser também parte duma dinastia». In Álvaro Guerra, Esboços para uma Tauromaquia, Publicações dom Quixote, Lisboa, 1994, Biblioteca Nacional, ISBN 972-201-177-4.

Cortesia de PQuixote/JDACT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Mastins. Álvaro Guerra. «Portanto, o caminho empedrado, a ponte, a nora, o poço e a igreja são os incertos sinais da idade, não da Aldeia, mas do Homem no Lugar. Há, ainda, ou havia, aquele pilar torneado com coroas e brasões…»

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Os lugares. A aldeia
«A Aldeia que fica no fim do mundo, para lá de brenhas e penedos, com a serventia ruim de caminhos lamacentos ou empoeirados, mudando de traçado e piso ao ritmo das estações, a Aldeia, onde o tempo se mede por colheitas e gerações e o sol, a lua, os ventos, granizo, chuva, geada, neve, calor e frio determinam o trabalho e o pão dos homens que lá vivem, a Aldeia embiocada nas duras trevas de muitos anos iguais e somados, rastejando, espalmada e quase engolida pela terra de onde nasceu, é um lugar onde o tempo deixou as suas marcas mas onde a História nada fez que mereça ser contado, alguma gesta, tratado, batalha, revolução, morte de homem público, a não ser tudo aquilo que invisivelmente a mudou dentro das quatro paredes de cada casa, ou visivelmente alterou o seu aspecto irregular. E, no entanto, o poço aberto no local a que, talvez impropriamente, se possa chamar o centro do povoado e a nora parada, abandonada e esquecida como um esqueleto sem sepultura, datam de há largos séculos, aberto e engenhada pelos antigos donos do território, gentes de outros lugares para onde regressaram empurradas por novos invasores; e a ponte sobre o ribeiro bem como o caminho empedrado que se afunda na planície, para lá da charneca, o único transitável todo o ano nas sete léguas em redor, são obra de um ainda mais remoto povo que veio do Nascente, sulcando mares e transpondo montanhas, em legiões eriçadas de lanças. Povos que chegaram e partiram com séculos de intervalo, apagando com as patas dos cavalos e as rodas dos carros a marca dos que os precederam, modificando mais a fisionomia dos homens do que a dos lugares, criando novos povos e raças de tal modo mescladas e híbridas que as origens do sangue que hoje corre nas veias dos camponeses da Aldeia se perde nas conjecturas e no muito tempo decorrido. Os últimos a chegar trouxeram cruzes, muitas cruzes, primeiro apenas nos punhos das espadas, nos pendões, nas armaduras, cruzes que depois espalharam pelos caminhos, pelos muros, pelas casas, marcos da posse e signos da verdade nova. Se todos deixaram o traço indelével da sua passagem fizeram-no nos objectos, nas coisas que, por um acto de orgulho e inconformismo, construíram ou criaram em matérias tão resistentes e duráveis que nem os incêndios, as pestes, as fomes, os terramotos, as inundações, as guerras ou, simplesmente, os anos foram capazes de beliscar na sua orgulhosa e inconformada perenidade.
Portanto, o caminho empedrado, a ponte, a nora, o poço e a igreja são os incertos sinais da idade, não da Aldeia, mas do Homem no Lugar. Há, ainda, ou havia, aquele pilar torneado com coroas e brasões em baixos relevos arredondados, erecto, no meio do que foi ou pretendera ser um largo, praça pública ou terreiro, aquele pilar a sustentar coisa nenhuma com três degraus de pedra a contornar a base e quatro ferros cravados lá em cima formando uma cruz horizontal de pontas em gancho, o pelourinho, mas isso era antes da gente da cidade ter vindo para laboriosamente o transplantar lá para onde entenderam ser necessário. Agora, são só vinte e seis casas, colocadas um pouco ao acaso com uma rua por traço de união, uma espécie de rua, forum, ou propriedade comum, debicada por escassas e assustadas galinhas, domínio de rafeiros escanzelados e refilões, devassado por ágeis travessias de gatos mais selvagens que domésticos, a rua, a espécie de rua, com lama de palmo no Inverno e um espesso tapete de pó avermelhado no estio, testemunha, desde o limite que a memória alcança, as desatinadas cavalgadas dos senhores da caça, as ronceiras e repetidas viagens dos carros de bois carregados de uvas, ou de molhos de espigas, ou de mato, ou de esterco, as guisalhantes passagens dos grandes rebanhos senhoriais, os melancólicos e numerosos passos dos ranchos de alugados e o mais que, segundo as épocas, por lá tem que passar». In Álvaro Guerra, Os Mastins, Prelo Editora, Lisboa, 1967.

Cortesia de EPrelo/JDACT

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A Guerra Civil. Álvaro Guerra. «A guerra civil que nos anos 20 e 30 do século XIX dividiu os portugueses em bandos fratricidas é o ambiente do romance, em que o choque das paixões e dos ódios revela o que de imutável existe no coração dos homens»

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1828 – 1831. S. Miguel Arcanjo
«Lembro-vos, Senhor, o signo debaixo de que nascestes, e seja este o último suspiro do meu afecto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos Reis e Monarca Supremo do Mundo, para dar exemplo de morrer a príncipes». In António Vieira, História do Futuro

«Os dois emigrantes, a bordo da escuna Le Dragon zarpando de Belém, sabem que os príncipes ainda não aprenderam o exemplo de bem morrer. Para trás fica o passado. E nada mais para levar nos olhos que essas duas silhuetas sob a poalha da chuvinha, Rita Silva e seu filho João. Ninguém mais arrostara com o medo dos cacetes carcundas, nem os amigos do Castelo e de Alfama, nem os companheiros, encafuados os que sobraram dos alentos trazidos pelo Belfast, em esconderijos protectores do físico ou cosidos com as sombras onde escurenta a esperança liberal. Rita Silva e seu filho João, eis o que resta, além da espuma lambendo a beira do Tejo picado do Sudoeste pela brisa molhada, no adeus de Raimundo Anunciação e Filipe Maldonado Villepin, malhados emigrando, neste Dezembro triste, imerso em cinzas. Raimundo vê os píncaros dos Jerónimos furando como puas aqueles céus fechados que testemunharam mais partidas que chegadas, desde que os portugueses viraram as costas à terra onde sempre deixavam depositado o coração, na esperança de voltarem para o resgatar, à custa de sangue e de saudade. Tanto quis ver mundo, para educar os olhos noutras maravilhas que lhe guiassem a mão de artista, e afinal olha para a sua terra a fugir-lhe à popa do navio, com duas silhuetas escuras a esboçarem um adeus aflito. Não foi assim que sonhou ir ao mundo, mas aprendera há muito que só na ponta dos pincéis assestados às telas se constroem os sonhos, que os das noites são pesadelos de vida a minguar com muito de vivido, bom e mau, em todo o caso, aquém dos projectos, como acontece a quem tem de todos os dias a ânsia da novidade e da fantasia. Filipe tem os olhos secos e mais pretos que de seu natural, a boca cerrada, as mãos fincadas no rebordo da amurada, os caracóis dos cabelos loiros desordenados pelo vento e pela chuva. É uma estátua de revolta espessa, dura, polida por um ódio novo ao mundo velho que fica para trás. As chibatadas miguelistas que lhe traçaram vergões nos ombros, nas correrias loucas da chegada do usurpador, furiosamente celebrada pelos realistas absolutos, essas chibatadas marcaram-lhe o destino. Filipe sabe que há-de voltar. Raimundo não.
E aí vão os dois, prosseguindo uma partilha começada há vinte anos, um, moço na flor da vida; outro, homem no Outono das ilusões. Rita Silva aconchega-se no xale empapado e passa pela face um lenço de chita que nada seca da chuva e do pranto. Atira uma derradeira mirada para o chumbo do horizonte, a ver as velas da escuna a reduzirem-se a pontos brancos, no rumo da barra e do nunca mais. Seu filho João puxa-a mansamente pelo braço. Vamos lá, minha mãe... E, com a mão livre, trombeteia a venta e sacode o monco dos dedos grossos. Rita não interrompe o responso, pontoado de suspiros, quando vira as costas ao Tejo escuro e inimigo que lhe leva os seus. Os nossos... Ora, ora, minha mãe! Um padrinho e um irmão de leite que nos deixam à beira da miséria e que a senhora serviu por nada estes vinte anos... Assim está falando o seu João, quando ela ainda revê o mestre Raimundo e o menino Filipe a acomodarem-se no escaler da escuna sacudido pelo rio picão. Que são a família deles, responde a Rita. E o filho, contrafeito e reticente, misturando entoações de tristeza e despeito: Pois sim... Mas abandonam-nos como criados.
A chuvinha pára e eles vão, lado a lado, chapinhando as chancas na lama, regelados por dentro e por fora. Antes de Alcântara têm de saltar para o abrigo dum portal, para escaparem sem empeno aos tombos desarvorados duma sege puxada por uma parelha de mulas a galope, perseguida por uma matilha de rafeiros a ladrar. João Silva desabafa pragas e maldições e a mãe persigna-se e invoca a Virgem Santíssima. Filipe Villepin permanece à amurada, único passageiro da escuna a querer olhar a última sombra da terra a sumir-se. Tem vinte anos e já algumas contas a acertar com o destino. Vê Raimundo coxeando, a recolher-se ao abrigo da camarata, e mantém-se firme a desafiar a intempérie. Não olha aquele jovem apenas a saudade a afogar a terra já escondida no horizonte, no baloiço do mar que se faz grosso, levando mais uma vaga de fugitivos do despotismo acirrado pelos frades e pelos picadores do Miguel. Aos quinze anos começara a dança das furtas, escondendo o nome paterno que, por francês, o fazia suspeito, para escapar às primeiras escaramuças dos apaniguados do infante, fiéis discípulos da rainha Carlota Joaquina, na sequência da rebeldia de Vila Franca contra a Constituição. A abrilada fora pior. A corja do Miguel ensandecera, atropelando em correrias de campinos, arruaças de fadistas, galopadas de estribeiros e moços fidalgos, à aventura, desabando fúrias sobre os pedreiros-livres, os moderados suspeitos, os liberais, em rusgas selvagens, invadindo casas e espancando quem calhava. Era uma pandilha boçal investindo como toiros sobre um mação (maçon) distraído ou um letrado com dois livros entalados no sovaco». In Álvaro Guerra, A Guerra Civil, Publicações dom Quixote, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1993, ISBN 972-201-083-2.

Cortesia BN/PdQuixote/JDACT

O Capitão Nemo e Eu. Álvaro Guerra. «Tudo o que está fora de mim reconheço, só o tempo me deixou, tal como se alguém bebesse de um trago toda a água até então imóvel dentro desse jarro cilíndrico e esguio com seu pescoço de ganso e sua boca de serpente»

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Crónica das horas aparentes. Sono. Sonhos
«Que perdi a memória, dizem. E logo dão um nome a esta imunidade que pretendem retirar-me. Dizem isso com precaução e manha como se quisessem disfarçar o despeito. Defendo-me. Só agora, na metade do tempo em que a droga do sono se esgota e sei que é meu o que me circula nas veias, só agora me visito: primeiro, o estojo duro e branco que esconde o grande golpe na coxa direita, as ligaduras que encontro ao passar a mão pela testa. Também procuro os resíduos invisíveis das anestesias e só me revelo um estranho gosto na boca. É uma visita tosca e breve, que se cansa de mim ou me recusa para repousar nas quatro paredes brancas e no tecto branco e nos brancos panos da cama, simetria nem ao de leve desfeita pelos rectângulos da porta e da janela velada por cortinas de cassa tão leves que, constantemente ondulantes, me repetem a existência do ar em movimento, ar sossegado, filtrado, prisioneiro e puro, e não com partículas de sal lançadas em bátegas por um vento furioso varrendo as duríssimas arestas das rochas, imagem última, única, fria, dureza e frio diversos dos que adivinho nas superfícies polidas do copo e do jarro sobre a mesa, ao meu lado esquerdo, onde, consoante o sol, assim o filtram no seu vidro sem que dele conservem o menor rasto, que não de mim, pois neles vou imprimir com os dedos minuciosos desenhos a lembrar outras matérias, talvez tronco cortado pelo nó, talvez... Tudo o que está fora de mim reconheço, só o tempo me deixou, tal como se alguém bebesse de um trago toda a água até então imóvel dentro desse jarro cilíndrico e esguio com seu pescoço de ganso e sua boca de serpente, eu que vagamente me obrigo a pensar no corpo da mulher que veio, há pouco, dizer-me que perdi a memória e unir os seus lábios aos meus tão levemente como a ondulação das cortinas quase transparentes a embaciarem o verde-escuro da árvore lá fora, visita tão breve como o beijo e o nome, o seu, e um obstinado brilho nos olhos que irremediavelmente reconhecerei, mais tarde. Voltará.
Em vão procuro uma imperfeição na lisura destas paredes, um pouco de estuque falhado, uma mancha de humidade, uma fissura que confirme os meus planos, a utopia... Memória e palavra convivem perfeitamente. Uma excepção, um instante, claro. Eu trazia em mim um projecto de perdição, não este, mas a profunda recusa da morte mansa e doméstica, e afinal soube, ao regressar do sono, conhecer a dor, a fome, a sede, o copo, o vidro, a cortina ondulante, o ar em movimento, apenas não me reconheci e aceitei com indiferença um nome que disseram ser o meu. Por outro lado, as palavras são, sem que as pronuncie, mais fluentes que nunca e ganham a fulgurância dos projécteis infalíveis e a suavidade ambígua de uma sabedoria que finge ignorar a sua história. Mas isto não vai durar e começou a perder-se no momento em que despertei porque, ainda que do tempo não encontre a medida, o primeiro fragmento ocupou o seu lugar no puzzle, com a visita da mulher e o beijo e a palavra memória na sua boca...
Que sabia levemente a sangue e se ocupava sabiamente da minha língua, sem poder evitar uma desagradável colisão de dentes, boca furtiva e apressada, como a minha mão procurando o seio que nela cabia e cuja ponta endurecia onde a linha da vida encontra a do coração; sem palavras e só com o nosso medo e um pouco do medo dos outros, fomos a uma cave fria, cheia de objectos de um outro tempo e esquecidos, entre os quais se contavam um gigantesco corno da abundância, um barómetro sem ponteiro, um retrato do Kaiser, três cadeiras partidas, um molho de chaves ferrugentas e uma velha mesa de cozinha manchada por qualquer misterioso líquido, sobre a qual nos deitámos e eu descobri as virilhas brancas e macias onde tudo acabou no esforço desajeitado de ir mais além, num jacto quente e espesso que ela cuidadosamente limpou com o avental que nem sequer tinha tirado. Não trocámos uma palavra... Com as palavras e uma presença indecisa, eis que começo a morrer de novo». In Álvaro Guerra, O Capitão Nemo e Eu, Crónica das horas aparentes, Publicações dom Quixote, 1973, 2000, ISBN 972-201-828-0.

Cortesia de BN/PdQuixote/JDACT