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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte IV. «... As naus que navegarem do Ocidente. Toda esta costa, enfim, que agora urdia o mortífero engano, obediente lhe pagará tributos, conhecendo não poder resistir ao Luso horrendo...»

Cortesia de staighworldbank 

OS LUSÍADAS
Canto II

( ...)
«Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fui ...» E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lágrimas ardentes,
Como co orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co vulto alegre, qual, do Céu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
As lágrimas lhe alimpa e, acendido,
Na face a beija e abraça o colo puro;
De modo que dali, se só se achara,
Outro novo Cupido se gerara.

 E, co seu apertando o rosto amado,
Que os saluços e lágrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,
Por lhe pôr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos Fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira enfim lhe está dizendo:

«Fermosa filha minha, não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ninguém comigo possa mais
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
Há-de fazer nas partes do Oriente,

«Que, se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo,
E se o piadoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando.

 «Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacíssimos e duros
Deles sempre vereis desbaratados;
Os Reis da Índia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados,
E por eles, de tudo enfim senhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

«Vereis este que agora, pres[s]uroso,
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno de medroso,
Sem vento suas águas encrespando.
Ó caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Ó gente forte e de altos pensamentos,
Que também dela hão medo os Elementos!

«Vereis a terra que a água lhe tolhia,
Que inda há-de ser um porto mui decente,
Em que vão descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa, enfim, que agora urdia
O mortífero engano, obediente
Lhe pagará tributos, conhecendo
Não poder resistir ao Luso horrendo.

«E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado;
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.
( ... )

Cortesia de institutocamoes


Cortesia de Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte III. «... Mas pois saber humano nem prudência enganos tão fingidos não alcança, ó tu, Guarda Divina, tem cuidado de quem sem ti não pode ser guardado!»

Cortesia de institutocamoes

OS LUSÍADAS
Canto II

( ... )
«Bem nos mostra a Divina Providência
Destes portos a pouca segurança,
Bem claro temos visto na aparência
Que era enganada a nossa confiança;
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado!

«E, se te move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que, só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos.»

Ouviu-lhe estas palavras piadosas
A fermosa Dione e, comovida,
Dantre as Ninfas se vai, que saüdosas
Ficaram desta súbita partida.
Já penetra as Estrelas luminosas,
Já na terceira Esfera recebida
Avante passa, e lá no sexto Céu,
Pera onde estava o Padre, se moveu.

E, como ia afrontada do caminho,
Tão fermosa no gesto se mostrava
Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
E tudo quanto a via, namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espíritos vivos inspirava,
Com que os Pólos gelados acendia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria.

E, por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e cara,
Se lh’ apresenta assi como ao Troiano,
Na selva Ideia, já se apresentara.
Se a vira o caçador que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na água clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.

Os crespos fios d’ ouro se esparziam
Pelo colo que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava e não se via;
Da alva petrina flamas lhe saíam,
Onde o Minino as almas acendia.
Polas lisas colũnas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

Cum delgado cendal as partes cobre
De quem vergonha é natural reparo;
Porém nem tudo esconde nem descobre
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
Mas, pera que o desejo acenda e dobre,
Lhe põe diante aquele objecto raro.
Já se sentem no Céu, por toda a parte,
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

E mostrando no angélico sembrante
Co riso ũa tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
E se torna entre alegre, magoada,
Destarte a Deusa a quem nenhũa iguala,
Mais mimosa que triste ao Padre fala:

 – «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
Que, pera as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afábil e amoroso,
Posto que a algum contrairo lhe pesasse;
Mas, pois que contra mi te vejo iroso,
Sem que to merecesse nem te errasse,
Faça-se como Baco determina;
Assentarei, enfim, que fui mofina.

«Este povo, que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo;
Por ele a ti rogando, choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo é mal tratado;
Quero-lhe querer mal, será guardado.
( ... )

Cortesia de staighworldbank

Cortesia de Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte II. «... «Ó caso grande, estranho e não cuidado! Ó milagre claríssimo e evidente, ó descoberto engano inopinado, ó pérfida, inimiga e falsa gente! ...»

Cortesia de institutocamoes

OS LUSÍADAS
Canto II

( ... )
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerúlea companhia,
Que, porque no salgado mar nasceu,
Das águas o poder lhe obedecia;
E, propondo-lhe a causa a que deceu,
Com todos juntamente se partia
Pera estorvar que a armada não chegasse
Aonde pera sempre se acabasse.

Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas branca escuma;
Cloto co peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma;
Salta Nise, Nerine se arremessa
Por cima da água crespa em força suma;
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
Não sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga tão fermosa.
Já chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.

Põe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, estão de jeito
Que em vão assopra o vento, a vela inchando;
Põem no madeiro duro o brando peito,
Pera detrás a forte nau forçando;
Outras em derredor levando-a estavam
E da barra inimiga a desviavam.
Quais pera a cova as próvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado
As forças exercitam, de inimigas
Do inimigo Inverno congelado;
Ali são seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas estorvando
À gente Portuguesa o fim nefando.

Torna pera detrás a nau, forçada,
Apesar dos que leva, que, gritando,
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre astuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estava um marítimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hórrida batalha;
Não sabem a razão de fúria tanta,
Não sabem nesta pressa quem lhe valha:
Cuidam que seus enganos são sabidos
E que hão-de ser por isso aqui punidos.

Ei-los sùbitamente se lançavam
A seus batéis veloces que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam
Saltando n’ água, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro súbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mãos inimigas entregar-se.

Assi como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem porventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando (o charco soa),
Por fugir do perigo que se sente,
E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:

Assi fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Também foge, saltando na água amara.
Mas, por não darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A âncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.

Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos ou das águas sem corrente,
Que a nau passar avante não podia,
Havendo-o por milagre, assi dizia:

– «Ó caso grande, estranho e não cuidado!
Ó milagre claríssimo e evidente,
Ó descoberto engano inopinado,
Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo, sàbiamente,
Se lá de cima a Guarda Soberana
Não acudir à fraca força humana?
( ... )

Cortesia de straightworldbank

Cortesia do Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: «... As âncoras tenaces vão levando, com a náutica grita costumada; da proa as velas sós ao vento dando, inclinam pera a barra abalizada...»

Cortesia do institutocamoes

Os Lusíadas
Canto II
( ... )
Mas aquele que sempre a mocidade
Tem no rosto perpétua, e foi nascido
De duas mães, que urdia a falsidade
Por ver o navegante destruído,
Estava nũa casa da cidade,
Com rosto humano e hábito fingido,
Mostrando-se Cristão, e fabricava
Um altar sumptuoso que adorava.
 
Ali tinha em retrato afigurada
Do alto e Santo Espírito a pintura,
A cândida Pombinha, debuxada
Sobre a única Fénix, virgem pura;
A companhia santa está pintada,
Dos doze, tão torvados na figura
Como os que, só das línguas que caíram
De fogo, várias línguas referiram.

Aqui os dous companheiros, conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o Mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorífera, queimava
O Tioneu, e assi por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.
 
Aqui foram de noite agasalhados,
Com todo o bom e honesto tratamento
Os dous Cristãos, não vendo que enganados
Os tinha o falso e santo fingimento.
Mas, assi como os raios espalhados
Do Sol foram no mundo, e num momento
Apareceu no rúbido Horizonte
Na moça de Titão a roxa fronte,

 Tornam da terra os Mouros co recado
Do Rei pera que entrassem, e consigo
Os dous que o Capitão tinha mandado,
A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
E sendo o Português certificado
De não haver receio de perigo
E que gente de Cristo em terra havia,
Dentro no salso rio entrar queria.

Dizem-lhe os que mandou que em terra viram
Sacras aras e sacerdote santo;
Que ali se agasalharam e dormiram
Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
E que no Rei e gentes não sentiram
Senão contentamento e gosto tanto
Que não podia certo haver suspeita
Nũa mostra tão clara e tão perfeita.

Co isto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que subiam,
Que levemente um ânimo se fia
De mostras que tão certas pareciam.
A nau da gente pérfida se enchia,
Deixando a bordo os barcos que traziam.
Alegres vinham todos porque crêm
Que a presa desejada certa têm.

Na terra cautamente aparelhavam
Armas e munições, que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E nesta treïção determinavam
Que os de Luso de todo destruíssem,
E que, incautos, pagassem deste jeito
O mal que em Moçambique tinham feito.

 As âncoras tenaces vão levando,
Com a náutica grita costumada;
Da proa as velas sós ao vento dando,
Inclinam pera a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande e tão secreta,
Voa do Céu ao mar como ũa seta.

( ... )

Cortesia de straightworldbank

Cortesia do Instituto Camões/Biblioteca Digital

sábado, 12 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte III. «Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado...»

Cortesia de paulatravelho
No ano de 1572 foi feita a publicação dos Lusíadas 

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
A primeira vez que Eneias é invocado é o «Troiano». Compara-o ao Gama; em II.45.5 lembra que o «piadoso» Eneias «navegou / de Cila e de Caríbdis o mar bravo»; em III.106.1-8 compara a tímida Maria implorando o favor do rei de Portugal a Vénus quando implora a Júpiter o favor para seu filho Eneias, navegando. Camões recorda mesmo a pele bovina (IX.23) que, cortada em tiras finíssimas, fez o perímetro de Cartago, por indústria de Vénus. E de Ovídio não tem apenas o conhecimento das Metamorfoses. No início da Elegia III dá-nos um belo retrato moral de Ovídio desterrado, em confronto com o seu caso pessoal:

O Sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;
sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;
não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.
O curso das estrelas contemplava,
como por sua ordem discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.
Os pexes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
com o seu natural lhes permitia.
De sua fonte via estar nacendo
os saüdosos rios de cristal,
a sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saüdosos que escrevia
e lágrimas com que ali o campo banha.
...............................................................

Cortesia de omba
E que leu dos prosadores? Plutarco, com certeza. Em grego? Conheceu a Bíblia. Dos geógrafos e naturalistas algum conhecimento teria. Pelo menos, cita-os em fiada:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Acerca de Plínio parece não haver dúvidas.
Da história geral também não estamos bem informados. Utilizou a Enneades ou Rhapsodiae historiarum, de Sabélico, volumoso tratado que foi parcialmente traduzido em português por D. Leonor de Noronha, «prima co-irmã do amigo e protector do poeta D. Francisco de Noronha,  2.º conde de Linhares». Da tradução só são conhecidos os dois primeiros volumes, impressos em Coimbra (1.º, 1550; 2.º, 1553). A obra geral de Sabélico foi continuada por Paulo Jove e outros.
É notável a prontidão e a frequência com que o Poeta invoca paralelos para pôr em evidência os feitos dos Lusitanos ou os seus defeitos em relação a outros:

Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que a Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida! 
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais fizeram tanto.
(IV.53.1-8)
Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperíssimo contrário
Do romano poder, de nascimento,
Que tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma;
E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro do Cocito,
Quando a santa cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste
E não força de braço, ó nobre Tito,
Que assi dos vales foi profetizado,
E despois por JESU certificado.
(III.116 e 117)
Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Ápio também Tarquino o viu;
Pois por quem David santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

E, pois, se os peitos enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece
Quando em Ônfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu, também, Peno próspero, o sentiste,
Despois que ũa moça vil na Apúlia viste.
(III.140 e 141)

Teve muita influência no Poeta o poema Argonautica de Valério Flacco e talvez o de Apolónio Ródio. A partida dos mercantes de Belém é associada à dos Mínias:

Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mínias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.
(IV.83)

Cortesia de purl 
Os Portugueses são os «segundos Argonautas» (IX.64). Não faltam as referências ao Veo (=Velo) dourado (III.72 e IV.83), nem à «rica pele de Colcos» (V.28) (10).
A partida das naus de Belém suscita ao Poeta este símile:

Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos
(IV.85)

E a constelação Argo figura, entre outras, nestes versos:

Este, por sua indústria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pôde a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.
(VIII.71)

Dos poetas estrangeiros não pode negar-se-lhe o conhecimento de Petrarca, Ariosto, Tasso, Sannazaro, Garcilaso, Boscán. Teve de munir-se de livros auxiliares de estudo, como as Genealogiae deorum, de Boccacio, o Dictionarium poeticum, de Tormentino, a Officina, de Ravisio Textor, os Lectionum antiquarum libri triginta, de Célio Rhodigino.

Cortesia de conversamoswordpress 
Conhecia bem as lendas mitológicas e a história geral da Antiguidade, mas não é fácil determinar as suas fontes. Para além de Sabélico, que conheceu da história romana? Para a história geral dos tempos posteriores à queda do império romano ocidental – lembra Epifânio (11) –, valeu-se Camões dos trabalhos de vulgarização que já no seu tempo existiam, tais como: a Historia rerum ubique gestarum, de Eneas Silvio, o Catalogus annorum et principum, de Valerio Ryd, que chega até 1540, o De vitis ac gestis summorum pontificum, de Plátina, os Commentariorum libri, de Raffael Maffei de Volaterra, as Historie del mondo, de Tarchagnota. Os conhecimentos cosmográficos podem ter sido hauridos na enciclopédia que tem por título Margarita philosophica. A descrição do sistema do mundo ptolemaico foi
extraída do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes (1537). Storck, referindo-se aos conhecimentos de Camões, escreve: «Os seus conhecimentos filosóficos derivam, quanto a pormenores, na aparência, da leitura de Diógenes Laércio, Plutarco, Cícero, Valério Máximo, Aulo Gélio, Plínio Sénior e das Antologias. Encontram-se a miúdo reminiscências destes escritores em passagens camonianas romanos que Camões manuseava frequentemente. As suas poesias são testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa série de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virgílio, Lucano, Ovídio, Horácio, Plauto, Lívio, Eutrópio, Justino, Ptolemeu e outros, ficando indecisa a questão se lia obras gregas no original». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.


Cortesia do Instituto Camões/JDACT

terça-feira, 1 de março de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. Parte II. «Como é que Camões, errante, pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou? Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Prefácio
A Elaboração do Poema
«Dizer quando o Poeta pousou pela primeira vez a pena sobre o papel não parece muito difícil; mas a quando remonta o pensamento da epopeia? Para Storck o propósito de cantar os feitos heróicos do seu povo e da Pátria tomou, contudo, forma decisiva e amadureceu durante os seis meses de vida no oceano . É uma tese que podemos aceitar. E acrescenta o historiador alemão: «Se o gérmen da epopeia ainda não estendera até então raízes vivazes e tenazes, se na mente do Poeta ainda não se definira claramente o descobridor do caminho da Índia como figura principal, se a primeira e feliz navegação ao Oriente, a empresa do forte capitão, ainda não se revelara no seu esboço e na primeira traça como ponto culminante e foco de irradiação, no qual convergem as acções heróicas dos Portugueses, foi, sem dúvida alguma, durante a travessia que o génio criador do Poeta tomou o seu voo de águia».

Cortesia de poliscopio
Infelizmente, Storck terçou armas pela criação de dois poemas:
  • um, histórico, elaborado ainda em Portugal e em Lisboa e de que o Poeta teve quase prontos os Cantos III e IV,
  • e, depois, a epopeia marítima, em que vem entretecer-se a história do Reino.
Mas isto, a meu ver, é destruir a unidade dos Cantos III, IV e V, que constituem a narrativa dos feitos do Reino ao rei de Melinde e inserem-se na epopeia marítima. Tal narrativa tem muito pouco de histórica: foi sobretudo ideada pelo Poeta. Camões aproveitou muito bem o momento em que aparece pela primeira vez um rei amigo, o de Melinde, para iniciar a narrativa épica desde as origens até aquele momento em que chegou a Melinde. Não se vê como se podem separar estes três cantos e inserir os dois primeiros numa epopeia do Reino.

Prefiro ver a elaboração da epopeia segundo um plano preestabelecido, apenas modificado nesta ou naquela estância por acontecimento posterior à navegação e portanto tendo o seu lugar em qualquer profecia.
Não creio que o Poeta tenha levado longos anos a elaborar a sua epopeia intensamente, e há uma efeméride que mostra bem que em quatro ou cinco anos o Poeta avançara bastante. O trecho insere-se na descrição do orbe terrestre:

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os cantos que, molhados,
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados ...
(X.128.1-4)

Refere-se ao rio Mecom, que recolheu os náufragos do navio de Leonel de Sousa, que se afundou nos mares da China nos fins de 1558 (ou princípios de 1559). Entre eles contava-se Camões. O Poeta fala dos «seus cantos molhados», o que significa que se tratava já de um volume apreciável, cuja perda seria irreparável. O principal da obra estava feito. Mas o Poeta ainda a limou e é testemunha do facto o historiador Diogo do Couto, seu amigo, que em Moçambique o viu dedicado a essa tarefa (1568-1569).

Cortesia de palavrasquemetocam
De novo em Lisboa, em 1570, o Poeta deu-se pressa em arranjar forma de publicar o seu Poema e deve ter encontrado um interessado intercessor em D. Manuel de Portugal.
Em 23 de Setembro de 1571 a obra estava na impressão, conforme consta do alvará respectivo. No alvará que concede a Luís de Camões uma tença de 15$000 réis pela publicação de Os Lusíadas (datado de 28 de Julho de 1572) diz-se que a mercê será dada por três anos, a começar em doze de março deste ano presente de mil quinhentos setenta e dous em diante. Esta tença foi dada pelo conhecimento que o rei tem do «engenho e habilidade» do Poeta e pela «suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da Índia». A data de 12 de Março de 1572 é uma data assinalável porque deve corresponder à do lançamento da obra.

Como é que Camões, errante por tantas partes do Mundo, dependente, como soldado, das ordens de marcha que lhe impunham e de que naturalmente descansava a bordo dos navios em que embarcava, como pôde ele arrumar no seu cérebro tantos conhecimentos e servir-se deles por onde quer que andou?
Estamos mais bem informados acerca da sua despedida de amor, em Coimbra (vão as serenas águas / do Mondego descendo ...) do que dos seus estudos naquela cidade.
Nem mesmo sabemos quando o Poeta saiu definitivamente de Coimbra. Mas se na 1.ª carta da Índia se queixa de, sem pecado que o obrigasse a três dias de Purgatório, ter passado (em Lisboa) três mil dias de más línguas, piores tenções, danadas vontades, nascidas de pura inveja de verem «su amada yedra de si arrancada, y en otro muro asida», podemos admitir que chegou a Lisboa por 1546.
Camões deve ter assistido a certos conflitos de jurisdição entre os cónegos regrantes de Santa Cruz e a Universidade, transferida de Lisboa para Coimbra. Impossível me é afirmar (porque a presença de Camões em Coimbra coincidiu com uma fase de transição) se Camões já foi ouvir o ensino «artístico» à Universidade ou se se manteve nos colégios de Santa Cruz, protegido por algum parente daquela congregação. É curioso que na narrativa ao rei de Melinde (III.97), falando das obras do rei D. Dinis, o Poeta escreveu:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva,
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

É Vasco da Gama quem informa, mas a verdade é que nesse momento (em 1497-1498) a Universidade estava em Lisboa. Vasco da Gama transmite ao rei de Melinde uma impressão de Camões, que aproveitara com o estudo de Coimbra e com a reforma do ensino ali operada.

Cortesia de purl
Os poetas lidos por Camões foram numerosos. Nem só Virgílio, nem só Homero, ainda que do primeiro teve um conhecimento profundo, que se revela no número de passos imitados, às vezes por forma bastante literal. Por exemplo:

Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
(II.56.1-3)

Haec ait et Maia genitum demittit ab alto,
Ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces
hospitio Teucris...
(En., I.297-299)

Quando a mãe de Eneias interroga ansiosamente o Pai dos deuses sobre o futuro do filho, Júpiter «oscula libavit natae» e diz-lhe: «Parce metu, Cytherea, manent immota tuorum / fata tibi ...» (I.256-258). Em Os Lusíadas também Júpiter, ainda mais aceso de amor:

As lágrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija e abraça o colo puro
(II.42.5-6)

para lhe dizer

... não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos
(II.44.1-2)

No entanto, se Camões reconhece a suserania destes dois (V.94.7 e V.98.2), não desconheceu nem deixou de aproveitar outros: Ovídio, Horácio, Valério Flacco, Lucano, Claudiano e quantos mais ...
Conhece-os por dentro e invoca-os com toda a precisão». In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Lusíadas. Prefácio: Luís de Camões. «...Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554...»

Cortesia de oslusiadas

Com a devida vénia à Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro

Prefácio
A Elaboração do Poema
Manuel de Faria e Sousa, cuja «reabilitação» na Europa cis e transpirenaica parece iminente, escreveu, como é sabido, duas vidas de Camões: uma impressa à frente de Os Lusíadas e outra à frente das Rimas Várias, muito modificada. (Deve dizer-se que nem em todos os exemplares das Rimas aparece esta Vida.) A primeira das Vidas é notável por diversos títulos, e ainda pelos dislates que aquele comentador acumulou sobre o início da redacção do Poema, pois diz (col. 35) «que el creerse que la mayor parte deste Poema (la mayor parte, note-se) iva escrito de Portugal quãdo passó a la India, no es difficil; i menos el ver que desde sus primeros años le comẽçó». E mesmo que tivesse começado o seu Poema aos 20 (concede Faria e Sousa), trouxe-o entre mãos trinta anos, pois tendo nascido em 1517 (Faria e Sousa mudou depois de opinião) e imprimido o Poema em 1572 ficam 55, e deduzindo os tais 20 ficam 30 «e quando menos 20». E se alguém argumentar que o Poema só poderia ter sido começado (ou, pelo menos, concebido) depois da leitura das duas primeiras Décadas de Barros e do primeiro livro da História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, por Castanheda, poderá objectar-se com Faria e Sousa que Camões poderia ter conhecido aquelas obras em manuscrito. Mas ainda que não fosse assim, havendo a primeira Década de Barros sido impressa em 1552 e tendo o Poeta partido para a Índia em 1553 «aun queda en pie lo que diximos de q el primero bosquejo se hizo en Portugal en este tiempo que corriò desde la impression de las Decadas a sua partida; o tres años primero que le imprimiese el de 1572; e assi quando menos, son veinte los que truxo consigo este Poema». Uma tão penetrante conjectura devia por força ter o auxílio da Providência. E teve! «O buen Dios, como favoreces las honestas ocupaciones!» E vieram ter-lhe às mãos, ao começar a impressão dos seus Comentários, dois manuscritos, um deles de primacial importância para o seu ponto de vista: «es una copia de los primeros seis cantos, escrita antes que el Poeta passasse a la India: con que me hallo mas contento que un ignorante; mas loco que un enamorado, i mas sobervio que un rico» (na corte de Madrid, acrescente-se). Eis como termina a cópia manuscrita: «Estes seys cantos se furtaraõ a Luis de Camões da obra que tem começado sobre o descubrimento, e conquista da India por os Portugueses: Vam todos acabados, excepto o sexto, que posto que vay aqui o fim delle, faltalhe hũa historia de amores que Leonardo
contou estando vigiando, que ha de prosiguir sobre a Rima 46 onde logo se sente bem a falta della; porque fica fria, e curta a conversaçam dos vigiantes, e o propio canto mais breve que os outros» (col. 37). E assim se fundamentava uma redacção incompleta do Poema, antes de o Poeta ter partido para a Índia.

Cortesia de poliscopio
À história de cavalaria de Fernão Veloso faltava a história de amores de Leonardo, esquecendo que no fim dos Doze de Inglaterra a «companha» pedia a Veloso mais histórias de cavalaria! (VI.69.5-8).
Na segunda Vida, à frente das Rimas, dirá Faria e Sousa no n.º 28:
  • «En la vida del P. que escrivimos en los Comentarios a la Lusiada, desde el numero 16. hasta el 21. hemos procurado mostrar en que tiempos, y en que partes del mundo avia el P. escrito los más de sus Poemas; y despues hallamos que en mucho nos aviamos equivocado, porque tuvimos mejores noticias».
E mais não disse! Ora o n.º 16 referido é justamente aquele em que se ocupa das circunstâncias de tempo e de lugar em que redigiu Os Lusíadas!
Não há qualquer notícia de que o Poeta tenha tido a ideia de escrever um Poema sobre o descobrimento de Vasco da Gama antes de partir para a Índia. Pode supor-se, interpretando alguns versos líricos, que várias ideias heróicas lhe passaram pela mente quando estava ainda em Lisboa, mas não concretizou nenhuma. É certo que o primeiro livro de Castanheda estava à sua disposição desde 1551 e a primeira das Décadas da Ásia desde o ano seguinte. Mas a elaboração de um plano épico não dependia apenas de duas ou três leituras. Camões não ia escrever uma narrativa histórica; ia escrever uma obra de arte, servindo-se de um grande acontecimento histórico. Decidir-se a optar pela fábula pagã também não lhe teria sido fácil, mas, além do exemplo do Mantuano, havia em Camões uma verdadeira idolatria pela beleza do paganismo. Sobre esta matéria estava Camões bem informado ainda antes de partir para a Índia, mas faltava inseri-la num grande campo de acção, que só a experiência marítima lhe daria. E quando falo de experiência marítima não quero referir-me apenas à dura vida de bordo, nem aos grandes fenómenos presenciados, mas às imagens visuais e auditivas que a própria vida do mar pôs ao alcance da sua retina e do seu ouvido e que vieram a transformar-se em versos imortais, como o famoso:


Cortando o longo mar com larga vela

analisado por Tasso da Silveira. A est. 19 do Canto I, que marca o início da narração, só poderia ter sido escrita por um nauta que vê de bordo as outras naus recortando-se num poente solar:
Já no largo oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

Nem a alusão mitológica vem empanar a beleza do quadro. À sua experiência marítima pertence a tormenta do cabo da Boa Esperança, que lhe daria a inspiração para a tormenta (irreal) sofrida por Vasco da Gama.
Inseriram-se na sua experiência marítima os ecos surdos do mar, que depois foram transformados em arte:

Bramindo o negro mar de longe brada
Como se desse em vão (= no vão) nalgum rochedo ...

... e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
 
Cortesia de palavrasquemetocam

Em minha opinião, e fossem quais fossem as meditações do Poeta sobre o assunto, o Poema, tal como o temos, começou a tomar forma em 1554 ou pouco depois. A Dedicatória a D. Sebastião foi redigida na hora de iniciar o seu Poema, portanto, por fins de 1554, quando chegou à Índia a notícia do prodigioso nascimento do neto de D. João III, em 20 de Janeiro de 1554. Não só o Poeta se dirige em toda a Dedicatória ao tenro infante «Vos tenrro & novo ramo florecente» (I.7); «Que nesse tenrro gesto vos contemplo» (I.9); «Que afeiçoada ao gesto bello & tenro» (I.16), mas, circunstância para mim muito importante, não procurou alinhá-la na esfera temporal com o ano em que acabou o Poema. A Dedicatória ficou como foi escrita, a marcar um acontecimento que teve foros de miraculoso para os Portugueses «maravilha fatal» - e só o poderia ter sido não longe de 1554. Os versos 
 
E vós, ó bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
 
marcam uma «segurança» presente, que acaba de surgir. Muito mais tarde, em 1575, dirá a D. Sebastião

Assi vós, Rei, que fostes segurança
da nossa liberdade ...

Eram já outros os termos dessa segurança, que o próprio rei, aliás, se encarregaria de destruir.
Não me resta dúvida de que foi por 1554 que o Poeta tratou de elaborar o plano da epopeia (poderia escrever-se um poema sem plano?) e de delinear os principais episódios que, entressachados no Poema, mas fazendo corpo com ele, o encheriam de atractivos estéticos. In Biblioteca Digital Camões, Centro Virtual Camões, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Pimpão e Apresentação de Aníbal Castro.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT