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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Bibliotecário. AM Dean. «Talvez esteja enganada, conjecturou, sabendo que não era assim. Estou um pouco perturbada e confusa desde que me deram a notícia do assassínio»

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«(…) Os nossos planos são seguros. Por isso, deixe-nos tratar da nossa parte, e o senhor trata da sua. Assim, todos ficamos a ganhar. Permitiu que as palavras flutuassem entre eles no pesado ar do gabinete. Não perca de vista o seu rumo. Aquela aparente segurança incutiu confiança a Hines, apesar do pavor que sentia daquele tipo. Expirou, endireitou as costas e recuperou a compostura. Os estadistas deviam ser fortes, e ele estaria à altura da tarefa. Bem, então, falo consigo amanhã? O seu interlocutor assentiu e levantou-se da cadeira. Claro que sim, senhor vice-presidente.

Minnesota, 9h 45m CST
Emily ficou a olhar para a carta que tinha nas mãos. A folha oscilava e isso fê-la tomar consciência do seu próprio tremor. Releu a missiva uma vez mais, e outra e outra. Ficara a saber do assassínio de Arno Holmstrand há poucos minutos, e naquele momento segurava uma carta escrita por ele. Escrita antes da sua morte. Sabendo que ia morrer. É mais do que isso, ponderou Emily. Sabendo que ia ser assassinado. Esse facto constituía uma diferença considerável. E, sabendo-o, Arno Holmstrand havia escrito a Emily Wess. Um rei a escrever a um serviçal nos últimos momentos de vida. Não conseguia perceber porquê. O que quer que Arno tivesse descoberto, porque estaria ele a envolvê-la nisso? A relação directa entre a carta e a morte do seu autor fazia com que tudo se tornasse mais premente. Parecia plausível que o conhecimento mencionado naquela carta tivesse sido a causa do homicídio de Holmstrand. Ele mesmo o sugeria. E, portanto, não parecia improvável que a vida de Emily estivesse em risco pelo simples facto de ter a dita carta em seu poder. Revolveu-se-lhe o estômago só de pensar nisso e na realidade daquilo que tinha em seu poder.
Virou a carta e os seus olhos pousaram no número de telefone escrito no centro da página. O pedido de Arno era que ligasse para esse número, mas não esclarecera quem iria atender. Ficou gelada quando leu os dez dígitos escritos a tinta castanha no papel de carta do defunto. Estava surpreendida e confusa.
Era um número que conhecia na perfeição. Costumava ligar para aí através da sua lista de contactos, porém, ainda era capaz de recordar esse número. Era impossível não se lembrar. Pegou no auscultador do telefone do seu gabinete e marcou lentamente cada um dos dígitos. Talvez esteja enganada, conjecturou, sabendo que não era assim. Estou um pouco perturbada e confusa desde que me deram a notícia do assassínio. Não obstante, sabia que isso era mentira. A sua respiração acelerou quando deu o toque de chamada. Estava consciente de que, assim que se estabelecesse a ligação, os acontecimentos daquela manhã iam assumir uma nova dimensão. Esse momento chegou uns instantes depois. Quando atenderam do outro lado, escutou uma inspiração familiar como preâmbulo a uma saudação formulada por quem conhecia a pessoa que estava  ligar. Em! O sotaque britânico de Michael Torrance era inconfundível. Com um entusiasmo comparável à confusão dela, o noivo de Emily Wess cumprimentou o amor da sua vida». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

No 31. O Bibliotecário. AM Dean. «Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota»

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«(…) Hines digeriu a informação, ou melhor, a falta dela. Após cada atentado terrorista, havia sempre uma mancheia de grupos que declarava a autoria do mesmo em busca da publicidade que proporcionavam os atentados contra a Grande Besta do Ocidente. Também existiam excepções, claro, e eram bastante frequentes para que a ausência de reivindicação, como no caso presente, não fizesse soar nenhum alarme, mas não deixava de ser um silêncio interessante. Já houve alguma reacção oficial por parte do Governo britânico? Limitaram-se a expressar a sua surpresa e o horror e a assegurar que estão a trabalhar com celeridade para levarem os culpados de tão horrendo crime perante a justiça, et ceterat et cetera. Mitch Forrester agitou os dedos num trejeito que indicava a total ausência de conteúdo daquelas respostas padronizadas. Trabalhava no gabinete de Hines há apenas seis meses, mas fazia aqueles comentários com um ar de quem já tinha escutado tudo aquilo antes. Hines não foi capaz de conter-se e perguntou-lhe: quantos anos tem, Mitch? A pergunta apanhou o assistente desprevenido. Desculpe? Estou a perguntar-lhe a idade. Quantos anos tem?
O jovem Forrester mirou-o de um modo estranho, com uma expressão que combinava o seu desdém habitual e a mais completa perplexidade. Se estivessem sozinhos, teria retorquido manifestando a aversão que sentia naquele momento, contudo, estava demasiado consciente da presença de outro homem no gabinete de Hines, tipo sentado silenciosamente a um canto. E não desejava que essa pessoa fosse testemunha da sua impertinência. Vinte e seis, respondeu por fim.
Vinte e seis, repetiu Hines, e deixou escapar um suspiro, deprimido com aquele número tão pequeno. Teria sido ele tão cabeça-dura nessa idade? Passaram-se mais de vinte e seis anos desde essa altura. Ele sempre fora ambicioso, porém, não acreditava que se tivesse comportado com a impetuosidade do rapaz que se encontrava à sua frente. Não tenho a certeza de que isso seja relevante para... Não é, não é, interrompeu Hines, agitando a mão. Mais alguma coisa? Por enquanto não, redarguiu Forrester secamente. Informá-lo-ei assim que tivermos mais novidades... Senhor. Deixou que a pausa antes da última palavra evidenciasse o seu descontentamento pelo modo como fora tratado. Ainda assim, com todo o egotismo da juventude, ficou de pé à espera de reconhecimento pelo seu trabalho. Hines limitou-se a olhar para o televisor. O jovem assistente girou nos calcanhares e saiu quando compreendeu, por fim, que não ia receber nada em troca. Hines esperou meio minuto em silêncio antes de se voltar para o homem sentado no canto mais afastado do gabinete. Embora há muito se tivesse resignado ao serviço que aqueles homens prestavam à organização, ainda sentia uma pontada de nervosismo de cada vez que ficava sozinho com um deles. O seu papel na organização sempre havia sido diplomático, profissional. Nunca fora um desses tipos que faziam o sempre necessário trabalho sujo. Era uma dimensão vil da causa, mas essencial. Embora a maioria das pessoas o considerasse um indivíduo com muita influência, Jefferson Hines sabia que o homem sentado a escassos metros dele representava um poder maior do que alguma vez seria capaz de alcançar.
Acredita que esteja relacionado?, indagou por fim, apontando para a pasta vermelha na sua secretária e depois para o televisor sem som. Relacionado com a missão. Claro. Ambos sabiam que não deviam falar do plano de outro modo que não fosse a missão. Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota. Hines não estava satisfeito. Nunca discutimos isto. Marlake, Gifford..., e os restantes. Esse era o plano. Que diabo se passa em Inglaterra? O seu interlocutor levantou-se quando Hines começou a falar e lançou-lhe um olhar fulminante cujo significado não deixava margem para dúvidas: Cala-te. Nunca deviam mencionar os nomes.
Hines compreendeu o olhar e a mensagem que este encerrava. Tamborilou com os dedos sobre a mesa, contrariado e nervoso. Diga-me que já esperávamos respostas deste tipo, pediu. Diga-me que isto não constitui uma surpresa. Se o seu interlocutor sentia algum tipo de hesitação antes de responder, não o demonstrou. Exibia o ar de um homem que desejava emanar confiança, de alguém que pretendia que o seu ouvinte se mantivesse firme e inabalável». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Bibliotecário. AM Dean. «Chegou ao gabinete antes de eu conseguir acabar com ele. Na altura fiquei com a impressão de que algo não estava bem, mas não podia demorar-me»

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«(…) Isso é irrelevante, respondeu o Secretário, desde que tenhas cumprido a tua missão. Com excepcão da fonte, de quem irás encarregar-te em breve, era o último homem com acesso à lista. A fuga dessa lista havia sido um erro imperdoável. Uma coisa tão simples como uma lista de nomes punha em risco tudo o que tinham conseguido reunir. Uma lista que incluía nomes que ninguém devia conhecer. O plano dependia desse secretismo, desse anonimato, porém, sem saber bem como, a lista de nomes fora comprometida. A única resposta possível havia sido a eliminação daqueles que a tinham visto. O Guardião e o seu Ajudante eram homens cujas vidas possuíam um valor inegável, todavia esse valor era ultrapassado pelos riscos. O Secretário ficara tão absorto nos seus pensamentos que, num primeiro momento, nem sequer notou o silêncio do outro lado da linha. Mas não tardou a que um alarme interno soasse. Esqueceu os devaneios e inclinou-se para a frente. O que se passa? O que correu mal? O facto de estar à nossa espera..., pode ser mais relevante do que pensa. O Secretário estremeceu. Não lhe agradavam as surpresas. Inclinou-se um pouco mais e pressionou o auscultador contra a cara. Conta-me tudo.
Chegou ao gabinete antes de eu conseguir acabar com ele. Na altura fiquei com a impressão de que algo não estava bem, mas não podia demorar-me. A minha suspeita confirmou-se esta manhã quando regressei para acompanhar o desenvolvimento desse assunto. Continua, ordenou o Secretário com uma calma estudada. Contava com décadas de experiência a receber más notícias. Sabia como era importante manter a compostura nos momentos mais difíceis. Um bom líder tornava-se mais feroz e temível quando sabia manter a calma. Havia um livro no gabinete dele. Faltavam-lhe três folhas. Tinham sido arrancadas, explicou o Amigo. Encontrei-as queimadas no cesto dos papéis ao lado da cadeira. Fez uma pausa para que o Secretário pudesse digerir os pormenores. Não estava à espera de uma resposta ou de uma reacção. Não era assim que funcionava a relação entre eles. Esperava-se apenas que respondesse ao que lhe perguntavam. O Secretário pediria mais informações se as desejasse. O homem mais velho reflectiu sobre o estranho relatório. Então, havia qualquer coisa que o Guardião não queria que o seu assassino visse. Estava decidido a complicar-lhes a vida mesmo depois de morto. O Secretário pronunciou as seguintes palavras mais como uma ameaça do que como uma pergunta: conseguiste saber pormenores desse livro? Claro, senhor. Fez um esforço para relaxar os músculos dos ombros. O Amigo estava bem treinado. Quero esses pormenores em cima da minha mesa dentro de meia hora. Envia-os enquanto regressas a Washington. A caça não ia terminar daquela maneira. E consegue-me urna cópia desse livro.

Washington, D. C. 10h 45 EST (9h 45 CST)
As notícias contidas na pasta de arquivo vermelha que segurava nas mãos eram inquietantes, mas dificilmente mais exaustivas do que as proporcionadas pela CNN, no seu televisor, ligado do outro lado da sala, e apresentadas por uma mulher loira sentada a uma mesa. Tirara o som ao televisor há uns minutos, quando o assistente entrou no gabinete. A locutora dera a notícia de uma explosão no Reino Unido, e um helicóptero sobrevoava a cena para oferecer imagens em directo. Todavia, para além da hora da explosão e de uma panorâmica geral do alcance dos danos, pouco mais se sabia naquele momento. Uma célebre igreja antiga, uma das mais importantes do património inglês, fora destruída numa explosão às primeiras horas da manhã. Não havia baixas, salvo o dano sentimental e os estragos causados ao património histórico. Já alguém reivindicou a autoria da explosão?, quis saber. Ainda não, senhor Hines, replicou o seu assistente. Jefferson cerrou os dentes com força perante a falta de deferência do jovem. Não se dirigir a ele pelo cargo era algo que o outro fazia propositadamente. A CIA está a acompanhar o SIS britânico na procura de suspeitos, contudo, até agora, nem os loucos do costume quiseram ficar com os créditos». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Bibliotecário. AM Dean. «Verás um número de telefone impresso no reverso desta carta. Termina de a ler e marca-o. Prometo-te que em breve tudo ficará mais claro»

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«(…) Introduziu delicadamente o dedo por baixo da dobra do envelope e abriu-o. Uma única folha, dobrada ao meio, caiu-lhe no regaço. Desdobrou a folha. Se as primeiras impressões deixavam marca, ponderou Emilv, aquela nota pretendia dar uma imagem de luxo. O suave papel de cor creme era de primeira qualidade, obviamente dispendioso e, se não estivesse equivocada, exalava um ligeiro aroma a madeira de cedro. Aquilo que leu no cabeçalho da folha provocou-lhe um nó no estômago. Numa elegante letra gravada a relevo podia ler-se:
Gabinete do professor Arno Holmstand. Licenciado em História e Letras. Doutorado em História. Oficial da Ordem da Império Britânico.
Arno Holmstrand, o homem assassinado na noite anterior. O grande professor. O defunto professor. O texto por baixo captou toda a sua atenção. Querida Emily, começava a nota, escrita com a mesma elegante e a mesma tinta castanha do envelope. Sem dúvida que a minha morte antecedeu esta carta.

«Querida Emily,
Sem dúvida que a minha morte antecedeu esta carta, que escrevo com pleno conhecimento do que vai acontecer e com ainda maiar certeza de que irás desempenhar um papel importante no que está para vir. Existe algo que devo deixar a ti para descobrires, Emily. Uma coisa que coloca todos os meus restantes trabalhos na sombra e os reduz ao pó da insignificância. Conheço a localização de uma biblioteca. Da Biblioteca. Uma biblioteca erguida por um rei que te é familiar graças às tuas investigações. A Biblioteca de Alexandria. Existe, tal como a Sociedade que a acompanha. Nenhuma delas se perdeu. Está em jogo muito mais do que uma simples curiosidade arqueológica. Quando receberes esta missiva eu terei sido morto por causa disso. Este conhecimento não pode perder-se, Emily. A tua ajuda é agora necessária. Verás um número de telefone impresso no reverso desta carta. Termina de a ler e marca-o. Prometo-te que em breve tudo ficará mais claro. Tu e eu não nos conhecíamos muito bem, e lamento-o, mas acredito que te escrevo com sinceridade e premência.
Respeitosamente, Arno»

Nova Iorque. 10h35 EST (9h35 CST)
O Secretário levantou o auscultador antes que tivesse terminado de soar o primeiro toque. Sim? Está feito, tal como ordenou, informou a voz do outro lado da linha com um tom glacial e seco. O Guardião está morto? Vi-o com os meus próprios olhos. A noite passada. A polícia encontrou-o esta manhã. O Secretário reclinou-se na cadeira, invadido por uma sensação de poder e contentamento. Haviam cumprido um objectivo nobre e garantiram o futuro do projecto. Ao longo da história, poucos homens tinham tentado aquilo a que eles agora se propunham. E menos haviam atingido os seus propósitos. Mas seriam bem-sucedidos e ninguém iria atravessar-se no seu caminho, tal como demonstrava o avanço conseguido na semana anterior. O Secretário passou os dedos pelos cabelos grisalhos. Estava à nossa espera, continuou o interlocutor. Isso era previsível. A morte do Ajudante na semana anterior havia sido um assunto público. Não era possível disparar sobre um empregado de uma organização de patentes no seu gabinete em Washington sem que os meios de comunicação social dessem conta disso. Ainda assim, o objectivo do Conselho não havia sido ocultar a eliminação do sujeito. Esses crimes acabariam por ser classificados como homicídios pela maioria, excepto pelas pessoas a quem se destinavam, que os considerariam mensagens. Avisos». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

O Bibliotecário. AM AM Dean, JDACT, LiteraturaDean. «O seu nome aparecia escrito no anverso com uma letra muito elegante. Não tinha selo nem remetente»

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«(…) O jovem não retorquiu. Pegou no livro e examinou-o com uma intensidade qie ia muito para além da frustração que Al sentia. Parecia…, zangado. Escuta, rapaz. Não sei o teu nome. Nunca te vi por aqui. Estás há muito tempo nas Cidades?, inquiriu Al. Os detectives das cidades gémeas de Minneapolis e Saint Paul, o núcleo das forças da lei e da ordem na zona meridional do estado, conheciam-se quase todos, nem que fosse apenas de vista. Não sou daqui. Foi tudo o que respondeu e não deu sinais de querer prosseguir com tais cortesias profissionais. Virou o livro e voltou a olhar para as folhas queimadas no cesto dos papéis. Al não estava ainda disposto a deixar o assunto morrer. Não és da polícia local? Então, és da estatal? O que faz aqui a polícia estatal?
Este é um caso para a polícia local. Maldita seja a polícia estatal. O homem mais jovem ignorou a persistência de Al e não respondeu às suas perguntas, acabando por colocar o livro sobre a mesa. Alisando o fato, virou-se para o detective com um ar de eficiência. Pela primeira vez, em toda a conversa, olhou directamente para os olhos de Al. Lamento. Já tenho o suficiente para elaborar o meu relatório. Foi um prazer conhecê-lo, detective. Um relatório? Aquele comentário displicente já passava  das marcas. Um livro e uns papéis queimados eram relevantes, claro, mas não suficientes para um relatório. Johnson olhou em redor da sala. Havia impressões digitais, manchas de sangue, marcas de sapatos. Tudo aquilo dava um relatório. E aquele janota parecia não lhe prestar a menor atenção. Mostrara unicamente interesse pelo livro e as folhas queimadas. Como se o resto da cena do crime não existisse. Não era um comportamento normal, nem mesmo para um polícia estatal. Voltou-se para o agente desconhecido com uma réplica sarcástica, contudo, não tardou a descobrir que o tipo se havia esfumado, deixando-o a falar sozinho.

Se atacaram e assassinaram um dos nossos colegas aqui, no campus, então quem é o próximo? Os colegas de Emilv tinham ido dar aulas e ela ficara sozinha no seu gabinete, cogitando sobre os estranhos contornos da conversa. As palavras de Emma Ericksen ecoavam na sua cabeça. As questões sem resposta associadas à morte de Arno Holmstrand não eram a única coisa que contribuía para o medo incómodo que sentia. Havia também a presença ominosa da própria morte. Um colega havia sido assassinado a poucos metros do seu gabinete. Existiria um perigo maior? Correriam todos perigo?
E eu? Emily descartou a ideia com a mesma velocidade com que esta chegara. Transformar aquilo numa situação pessoal era irracional e servia apenas para alimentar o medo. Teria de combater aquelas divagações dedicando-se a alguma outra actividade: trabalhando e encarregando-se das pequenas tarefas pendentes antes de abandonar o campus e ir ter com Michael.
Olhou para a pilha de correio que retirara da caixa. Naquele momento era a fonte de distracção mais imediata. Lixo, lixo, lixo. Emily ganhara a reputação de recolher tarde o seu correio, e aquela era a razão. Numa das mãos segurava a correspondência de quase duas semanas, e a maior parte do que recebera acabaria no lixo. Um envelope de uma editora a publicitar um livro que ela não pensava ler. Uma circular sobre os direitos dos animais, igual à que recebera na semana anterior e idêntica à que receberia na semana seguinte. Um memorando que alertava para a existência de um novo código de acesso para a fotocopiadora do departamento, escrito pela secretária com o mesmo secretismo e a solenidade que teria usado se estivesse a dar os códigos das armas nucleares. A vida de um académico podia ser intelectualmente cativante, mas não era nada excitante. Emilv atirou o memorando para o lixo, juntamente com o resto da publicidade. Por baixo de tudo encontrava-se um solitário sobrescrito amarelo de papel texturizado e claramente dispendioso. O seu nome aparecia escrito no anverso com uma letra muito elegante. Não tinha selo nem remetente.
Algo chamou a atenção de Emily. Notou a elegante caligrafia e a tinta castanha. As letras desenhadas com desenvoltura apresentavam os inconfundíveis traços típicos de quem usa uma caneta de tinta permanente. Virou o envelope e ficou a olhar para o reverso em branco. Não exibia carimbo nem remetente, pelo que devia ter sido colocado directamente na sua caixa de correio. Talvez se tratasse de um convite para uma festa ou um evento, embora, a julgar pelo aspecto do sobrescrito, tivesse de ser um acto de maior nível social do que aqueles a que estava habituada a frequentar». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O Bibliotecário. AM Dean. «Al chegou mais perto da secretária. Ela era como imaginava a mesa de um velho professor: um candeeiro verde-escuro, porta-canetas de bronze, papel mata-borrão desbotado…»

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«(…) Dois pequenos orifícios perfuravam o couro da velha poltrona, marca dos tiros fatais que tinham tirado a vida de Arno Holmstrand. Os tiros foram dados bem no meio do tronco, com pouco mais de dois centímetros de distância entre si. Sinais que denunciavam o trabalho de um profissional. Agora, com o corpo removido, o detective podia retraçar a trajectória das balas a partir dos dois buracos deixados no estofamento da poltrona. O assassino tinha parado na entrada do gabinete; ele não tinha mais que 1,70m de altura. A vítima estava sentada, de cara para o seu agressor. O detective Al Johnson observava os técnicos que vasculhavam a cena do crime. Uma fina pinça, manuseada com habilidade pelas mãos enluvadas de um homem que obviamente já tinha feito aquilo antes, extraíram uma bala de um dos orifícios da poltrona. Talvez um calibre 38, cogitou Johnson, embora não possuísse conhecimentos suficientes para fazer tal afirmação. Aquele era o terreno dos técnicos em balística. Para ele, bastava saber que se tratava de um revólver, que aquilo era sem dúvida um assassinato, e que claramente fora perpetrado por um profissional. Coisas que ele já vira antes.
O corpo fora levado para a morgue às primeiras horas da manhã. Três ferimentos de bala no total. O do lado direito viera primeiro, provavelmente quando a vítima ainda estava fora do gabinete. Johnson perscrutou o rastro de sangue que se estendia até ao interior da sala. O médico forense suspeitava que o primeiro ferimento já teria sido fatal, mas a vítima tinha sobrevivido tempo suficiente para passar pela porta cambaleando, o detective ergueu-se do chão tentando reconstituir os passos hipotéticos, passar pela porta e chegar até à mesa. Para quê? Havia um telefone sobre a mesa, mas nenhum sinal de que fora usado e ninguém telefonara para o número de emergência até à manhã seguinte, quando o contínuo descobrira o cadáver. Outro perito procurava impressões digitais na moldura da porta e um terceiro fazia o mesmo,mas na secretária. Dois sujeitos uniformizados tiravam fotos, o parceiro de Johnson entrevistava os funcionários da noite no corredor, e pelo menos seis outras pessoas movimentavam-se pela sala. Não foi a primeira vez que Al se surpreendeu, diante da vibração de vida que pode haver na cena de um crime. Era um dos estranhos paradoxos do seu trabalho.
Al chegou mais perto da secretária. Ela era como imaginava a mesa de um velho professor: um candeeiro verde-escuro, porta-canetas de bronze, papel mata-borrão desbotado e um computador que parecia já estar ultrapassado desde a época em que fora fabricado. Uma bandeja de couro continha cartas antigas, cada uma meticulosamente aberta com abre-cartas de marfim, que repousava sobre elas. Abre-cartas de marfim, torre de marfim…, o ambiente era um conjunto de símbolos de uma afirmação cultural. No centro da mesa, havia um grande livro de capa dura repleto de fotografias. Estava aberto, mais ou menos na página central. O detective aproximou-se e correu levemente a mão enluvada pela superfície das páginas. Por baixo do látex cheio de talco, os seus dedos calejados detiveram-se ao tactear numas bordas inesperadamente rugosas. A encadernação no centro do livro escondia uma irregularidade no papel, no ponto onde algumas páginas haviam sido evidentemente arrancadas pouco tempo antes. Um flash chamou a sua atenção no momento em que um jovem perito da equipe de Homicídios tirou uma foto do livro, juntamente com a mão de Al.
Al imaginou a cena. Um homem, atingido por um tiro no peito, caminha com dificuldade de volta à sua sala para arrancar algumas páginas de um livro. Aquilo fazia pouco sentido. Mas também, assassinatos quase nunca faziam muito sentido. Outra foto, desta vez a objectiva apontava para os seus pés. Al olhou para o cesto do lixo, repleto de papéis enegrecidos. De joelhos, um jovem bem trajado, que revolvia os restos carbonizados. Belo fato, pensou Al com os seus botões, encolerizando-se de imediato. Um rapaz das agendas do governo, era só o que faltava. Não era fã dos grandes filmes comerciais de Hollywood, mas achava que eles representavam muito bem a perturbação causada toda vez que várias agências de segurança disputavam um caso. E os detectives das equipes locais nunca vestiam fatos elegantes. Não sabia de onde o rapaz era, mas independentemente disso, Al já sentia que a situação seria terrivelmente frustrante. Os professores de História queimam sempre os seus papéis?, perguntou o desconhecido sem levantar os olhos do que estava a fazer.
Não faço ideia rapaz. O tipo do fato titubeou ao escutar a última palavra, visivelmente contrariado por lhe recordarem a sua juventude. Levantou-se bem devagar, forçando-se a recuperar a compostura. Não é grande coisa. Só algumas páginas amassadas, queimadas todas ao mesmo tempo. Al apontou o livro sobre a secretária. Algumas páginas foram arrancadas dali, disse, indicando as bordas rasgadas do álbum. Foram três, ao julgar pelo número da página anterior e da posterior. São as que temos aqui, confirmou o jovemrapaz, indicando as folhas queimadas no interior do cesto dos papéis.  Não entendo, disse Al. O velho leva um tiro no corredor, mas consegue vir cambaleando de volta ao seu gabinete e sentar-se à secretária. Há um telefone bem à sua frente, porém nem lhe tocou. Não pede socorro. Com papel e canetas por todo lado, não escreve nada. Em vez disso, abre um livro com fotos, arranca umas páginas e queimou-as». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT