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terça-feira, 14 de junho de 2016

Galveias. José Luís Peixoto. «A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Está claro que não era. As palavras saíam-lhe da boca e ele sabia que não era. Lançou esse palpite sobretudo como expressão do espanto extraterrestre que ali se sentia. Poucas pessoas arriscavam sugestões. O doutor Matta Figueira, de fato, colete e gravata, acompanhado pelo Edmundo, em traje de tratar do jardim, botas de borracha, partilhava dessa cautela silenciosa. A coisa sem nome tinha caído no Cortiço. Os mais velhos lembravam-se dessa herdade já ter dado toda a espécie de cultivo. Naquela hora, estava coberta por um pasto verde, viçoso, próprio para ser apreciado. O caminho não custa: quem vá da vila ao monte da Torre, passa pelo campo da bola e encontra o Cortiço à esquerda, depois de passar pela Assomada e antes de chegar à Torre. Do outro lado da estrada, está a courela do Caeiro.
Era na courela que os perdais se refugiavam. Levantavam-se às vezes, aqui e mais além, num restolhar de penas. Como se quisessem desembaraçar-se de si próprios, aguentavam-se por dois ou três segundos errantes e voltavam logo a cair, vencidos pelo medo. Eram pardais que nunca tinham visto um ajuntamento daqueles. Os galveenses iam chegando em levas. Acercavam-se da cratera, avaliavam a forma da coisa sem nome, sentiam-lhe o calor e o cheiro, mas ignoravam-lhe o mistério. Muitos atravessavam os campos, iam de algum lado a algum lado. Outros juntavam-se em assembleia debaixo dos sobreiros. Às vezes, em ocasiões que passaram despercebidas, havia alguém a querer obrigar um cão a aproximar-se, a empurrá-lo ou a puxá-lo. Nunca conseguiam e acabavam por desistir. Os cães guardavam sempre mais força de vontade. Teriam sido capazes de virar-se contra os donos, não chegou a ser preciso. Ao longo do dia, entre a vila e a herdade do Cortiço, houve viúvas de todas as idades em ritmo de procissão e houve rapazes sem travões a acelerarem a fundo nas motas; houve carroças de mulas, onde os cachopos apanhavam boleias clandestinas, e houve burros arreados a levarem velhotes de pernas fracas e de ancas a dançar.
Nesse serão, os galveenses jantaram sopa de feijão com couve. A seguir, limparam a boca com uma peça de fruta e ficaram pensativos. Isto, claro, com a excepção daqueles que jantaram outra coisa, daqueles que não tinham fruta em casa e daqueles que estavam demasiado compenetrados em alguma tarefa para se distraírem com pensamentos. Uns deitaram-se mais cedo, outros deitaram-se mais tarde. A noite passou. Chegou a madrugada e, logo depois, chegou a manhã. Para muitos, despertar foi um alívio. Esse não foi o caso do ti Ramiro Chapa, que faleceu no posto de socorros ao toque da aurora.
A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea, colocaram a hipótese. Mas esteve também nas conversas na capela de São Pedro. Os homens do lado de fora, a aguentarem um frio que atravessava samarras; as mulheres lá dentro, em redor da presença deitada do defunto, embrulhadas em mantas que não as aqueciam, intoxicadas pelo cheiro a enxofre que, ali, se condensava com uma força que dava tonturas. Era como se o próprio homem, coitado, internado havia tanto tempo no posto de socorros, se tivesse transformado numa barra de enxofre. Foi só na manhã seguinte, depois do enterro, que chegaram novas visitas. Sem saberem como lidar com a coisa sem nome, sem compreendê-la, os mais desocupados e menos sensíveis de nariz regalaram-se a olhá-la. Então, exploradores, perceberam que podiam aproximar-se. O cheiro a enxofre lançava-se pelas narinas como pregos, mas o quente temperava a frieza daquela hora. Era uma dezena de homens com as palmas das mãos assentes sobre uma pedra. Nesse momento preciso, caiu a primeira gota. Logo a seguir, uma chuva mundial. Era o céu inteiro que chovia. Sem descanso, sem uma interrupção, noite e dia, exactamente com a mesma avidez, à bruta, choveu durante uma semana, sete dias seguidos. E todos se esqueceram da coisa sem nome, menos os cães». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 28 de março de 2016

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) A caminho da escola, os cachopos iam todos a coçar as ramelas e a torcer o nariz. Estavam ensonados e rabugentos com aquela manhã tão cinzenta, tão sem consideração pelas suas arrelias. Já na sala, arrumaram-se ao aquecedor de gás, a professora deu licença, e deram soltura às suas teorias. Forasteira, a professora ficou banzada com as cabeças dos cachopos e, nessa manhã, mandou-os para o recreio mais cedo. Achou que precisavam de correr. De madrugada, no alto da rua de São João, os homens e as mulheres firmaram-se e subiram com desenvoltura para os reboques dos tractores. E 1á seguiram para o campo sem grande paleio, sisudos, sentados em fardos de palha, a agitarem-se conforme os buracos da estrada e, se não fosse pelo cheiro cinzento a enxofre, quase a duvidarem que a noite anterior tivesse acontecido. As velhas, viúvas ou não, vinham para a porta de casa com a sua vassoura de mato. De rabo para o ar, começavam a varrer. Passava um instante e levantavam a cabeça para olhar em redor. Queriam dar fé e perceber se havia novidades. Esta incerteza demorou até meio da manhã.
Na torre da igreja, os sinos deram as dez. Estava a rodar essa música de sinos em perfeita afinação quando o Cebolo entrou de motorizada na vila. Era um motor preguiçoso, a gemer uma surdina de besouro, a falhar nas subidas, incerto, espécie de motor bêbado. Trazia o capacete enfiado na cabeça, mas levava a correia desapertada. Passava de olhos muito abertos, um mais aberto do que o outro. Quem o via, tão compenetrado, suspeitava. Quando parou no terreiro e pôs â motorizada na espera, os homens que estavam à porta do café do Chico Francisco ficaram só a olhar para ele. Com vagar, aproximou-se, deixou que passasse um momento e deu-lhes a notícia. Tresandava a uma mistura de enxofre e borregum. Ficaram doidos. Dois deles pegaram logo nas motas e seguiram juntos. Os outros espalharam-se: um desceu pela rua da sociedade, outro desceu pela rua da Fonte Velha, outro subiu em direcção ao Alto da Praça, outro foi para o lado do São Pedro. O Cebolo pouco se mexeu. A vitrina do café do Chico Francisco estava coberta por um tapume velho de contraplacado. Esse fundo deu ainda mais gravidade ao olhar do Cebolo. A notícia foi alastrando a partir do terreiro, como um incêndio, ou como água da chuva nas regadeiras, ou como a notícia de uma morte, ou como uma lata de tinta entornada.
Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar, foi ultrapassado pelo automóvel do doutor Matta Figueira. Quando essa nuvem de pó se desfez, o Cebolo teve de parar a motorizada para acreditar no que estava a ver. Dezenas de pessoas, centenas talvez, enchiam a herdade do Cortiço, atravessavam-na a passos largos. Contra o ligeiro abrandamento das ervas altas, dirigiam-se à cratera. Muitos rodeavam-na já. Julgando-se abandonadas, as cabras do Cebolo admiravam-se com aquele movimento de gente, levantavam um olhar de medo, coitadinhas, podiam mesmo ensaiar uma fuga espantada se alguém fizesse um gesto mais brusco, mas não chegavam a sair do lugar.
O terreno apresentava uma cratera redonda e inédita: um círculo com um diâmetro de uma dúzia de metros, mais ou menos, abatido a cerca de um metro abaixo do resto da terra. Era como se um martelo gigante tivesse afundado aquele disco. No centro, a coisa sem nome, imóvel, vaidosa, a exibir-se. Aqueles que tinham descido o degrau e feito menção de se aproximar, não aguentaram o calor. Mesmo à distância, a coisa sem nome difundia um calor ardente, que corava as faces e secava a boca. O cheiro a enxofre era quase irrespirável. Muitos tapavam a boca com lenços de assoar ou com a palma da mão. Ali, nunca ninguém tinha visto nada que pudesse comparar com aquilo. Rodeado por alguns dos seus filhos, o Cabeça estava lá, embasbacado. Se calhar, é um bocado de sol, disse». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «As velhas, de xaile pela cabeça, só a mostrarem os olhos e a ponta da testa, foram as primeiras a recolher-se. O frio acabou por vencer aquela meia hora, invernia de má raça»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Só a ti Adelina Tamanco, arrumada ao poial de casa, sussurrava que tinha sido muita força de bruxedos. Não queria que se ouvisse porque sabia que a viva voz chamaria esses bruxedos e, dava para ver, tratava-se de trabalhos feios, horrorosos, que ninguém quereria para si, Deus livre. O Joaquim Janeiro dizia que era a guerra, os americanos, filhos de um rancho de pu… Cada um dizia o que queria, mesmo sem noção. A ti Inácia, arrumada à casa do prior, defendia que tinha sido o Espírito Santo. Afirmava isto e ficava a olhar para o padre Daniel, à espera de comentário que a apoiasse, mas ele fingia que não ouvia e foi o primeiro a queixar-se de frio, realmente estava fresco. Em frente à loja do Bartolomeu, o próprio Bartolomeu, com umas ceroulas bastante manchadas, acreditava que tinha sido uma trovoada eléctrica.
Segundo ele, era um jeito de tempestade, mas com trovões, tipo bombo, e eléctrica. Um terramoto? Chegou a falar-se nisso à porta da loja, mas não deixaram que tivesse um segundo de lógica porque, se fosse um terramoto, o chão teria tremido. As certezas eram muito miúdas, tinham de ser catadas com a pontinha dos dedos. A ti Silvina, à porta da casa dela, puxou a menina Aida e disse-lhe que sabia de onde vinha aquele caso. Quando a outra se dispôs a ouvir, após uma pausa de expectativa, disse-lhe que eram as obras do metro. No Verão, quando a filha veio de férias, contou que lá na Inglaterra andavam a fazer obras do metro ao pé da casa dela e não havia sossego, era um transtorno tal e qual como aquele. A menina Aida continuou a olhar para ela muito séria e encolheu os ombros. Sim, talvez andassem a fazer obras do metro, era uma possibilidade.
As velhas, de xaile pela cabeça, só a mostrarem os olhos e a ponta da testa, foram as primeiras a recolher-se. O frio acabou por vencer aquela meia hora, invernia de má raça. Quando começaram a repetir assunto, as pessoas foram-se apercebendo das orelhas geladas, dos pés gelados, da maré de gelo que entrava por debaixo da roupa e se esfregava até nos refegos mais agasalhados. As crianças custaram a voltar para casa. Estavam já prontas para ficar ali o resto da noite. As mulheres da boîte quiseram aproveitar para seduzir clientela, prometeram bebida de borla e alguns favores sem compromisso. Sem saber para onde se virar, o Miau andava atrás delas, com a língua de fora, a rir-se sozinho. Quem se esforçou mais nesses sorrisos foi a Isabella, brasileira de camisola caicai e com uma mancha de farinha nas calças de licra, a cobrir-lhe a nalga direita. Fazia lembrar as brasileiras das telenovelas, mas não teve sorte. Havia muita gente a olhar para que algum tivesse a ousadia de seguir o convite. Além disso, o pessoal andava pouco abonado. Além disso, era pouco provável que alguém estivesse com disposição. A mãe do Miau chegou à procura dele e conseguiu levá-lo. Mas o último a entrar em casa foi o Catarino. Quando os vizinhos fecharam as portas, foi buscar a motorizada à garagem. A avó tentou dissuadi-lo: Ó Nuno Filipe, vai-te deitar, rapaz. Mas não se empenhou a fundo porque sabia que não valia a pena. O Catarino passou devagar por todas as ruas da vila, mas já não encontrou ninguém». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Uma pequena vila no 31. Galveias. José Luís Peixoto. «O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Sem que o soubessem, guardavam sintonia com um ritmo maior do que as paredes à sua volta. Logo quando começaram, em cadência incerta, ou depois quando continuaram a uma velocidade mecânica, tipo comboio, ou mesmo quando se dirigiram para o fim com estocadas rápidas, as duas cinturas a baterem palmas côncavas, toc, toc, toc, dirigiam-se já para aquele ponto no tempo. Em sincronização perfeita, o Sem Medo e a mulher receberam uma onda de prazer e de glória, que os varreu durante um minuto inteiro e que coincidiu, segundo após segundo, com a explosão que se sentiu em Galveias. Por isso, ao contrário de todos, quando o Sem Medo saiu de cima da mulher, estavam os dois arrasados de profunda satisfação.
Muitos acharam que era o fim do mundo, principalmente o padre Daniel, que acordou ainda baralhado da bebedeira, com a cara espalmada de encontro à mesa da cozinha. Com a face crivada de migalhas de pão duro. Como uma buzina feita de morte, a explosão cobriu os gritos por completo. A maioria dos galveenses desconhecia um barulho tão bruto, não sabia que era possível. Alguns, por instinto, passaram esse minuto a gritar. Sem possibilidade de raciocínio, sentiram que se ouvissem a sua voz estariam a controlar a situação. Ao mesmo tempo, seria sinal de que estavam vivos. Mas, com a garganta em esforço, não chegavam a escutar-se sequer dentro da cabeça. Abriam a boca, gritavam e, apesar de sentirem a vibração da voz, o sangue a palpitar nas têmporas, os olhos quase a rebentarem, não ouviam nada. Quando o barulho terminou, ficou um silêncio insistente, um guincho nos ouvidos. Então, podiam ter gritado, mas aquele já não era tempo de gritos, era hora de respirar. Por isso, todos foram para a rua, velhos, crianças, mulheres, homens com a barba por fazer.
O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões mas, em roupa de cama ou roupa de casa, malvestidos, apreciaram o frio, soube-lhes bem na pele. Tinham sobrevivido. A meio da noite, as portas abertas de todas as casas da vila, luz entornada, e as ruas cheias, mulheres de camisa de noite, homens de ceroulas, contentes por se verem uns aos outros. Estavam alarmados e magoados mas, assim que dividiram o peso dessa aflição por todos, o alívio foi imediato. Houve quem começasse a sorrir logo ali. Ninguém tinha respostas. Do Queimado à Amendoeira, no Alto da Praça, na Deveza, na Fonte, as ruas estavam cheias de gente a expulsar de dentro de si o susto. Sob o trauma dos estrondos e o cheiro a enxofre, falavam sem parar. Perdiam o sentido, mas não perdiam a oportunidade. Àquela hora, bem passava da meia-noite, em Janeiro, as ruas estavam cheias de gente a falar. Todos queriam dizer alguma coisa. Quando parecia que estavam compenetrados, não estavam realmente a ouvir, estavam só à espera de vez, à espera de um bocadinho vago para entrarem com o que tinham a dizer. Até as crianças, ignoradas pelos crescidos, procuravam-se e arregalavam os olhos. Dentro do segredo, entre as sombras, os cães cheiravam-se uns aos outros, murchos, magoados, de orelhas descaídas, como se tentassem consolar-se de uma tristeza infinita.
Na fachada do Matta Figueira, na rua da Fonte Velha, o candeeiro estava tombado, de pescoço partido, cabeça caída, sem préstimo. Era um candeeiro de estimação, pendia daquela parede desde épocas em que o pavio era aceso todas as noites. E, sim, o próprio Matta Figueira estava na rua, dois passos diante da sua porta, e estava também a senhora, e também o filho, menino Pedro, também a nora e o neto. Como se posassem para uma fotografia. Apesar de terem acordado de imprevisto como toda a gente, estavam bem penteados e passados a ferro. Essa solenidade contagiava os vizinhos. Até o Acúrcio e a mulher, do outro lado da rua, vestidos com a roupa com que atendiam todos os dias na taberna, nódoas de vinho tinto, estavam em sentido, mas sem convicção. O cabo da guarda, vindo do lado do terreiro, foi direito ao Matta Figueira. Em tom de relatório, não tinha explicações seguras. De olhar baixo, lamentava muito, pedia desculpas, quase como se assumisse responsabilidade da ocorrência. O doutor não o desculpou logo. Não podia esquecer com tanta facilidade um incómodo daquela dimensão. A sua família, como era visível, tinha sido bastante atingida. Além disso, havia a situação do candeeiro. O cheiro a enxofre engelhava a cara das pessoas em toda a vila». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Galveias. José Luís Peixoto. «O João Paulo parecia ter um certo gosto em apontar para o portão de ferro. Rodeado de motas e de bocados de motas, os olhos brilhavam-lhe. Sempre que fosse preciso, limpava as mãos a um esfregão de desperdício…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Durante um minuto inteiro, Galveias foi atravessada por uma sucessão de explosões contínuas, sem um intervalo pequeno, sem uma folga. Ou também é possível que tenha sido uma só explosão, longa, a durar um minuto inteiro. Em qualquer dos casos, explosões ou explosão, chegou como um pau espetado no peito, como o terror durante um minuto, Segundo a segundo a segundo. Foi como se a terra estivesse a partir-se ao meio, como se o planeta inteiro estivesse a partir-se: uma rocha do tamanho deste planeta, dura e negra, basalto, a partir-se. Ou talvez fosse o céu, feito dessa mesma rocha, a partir-se em duas partes maciças, mas separadas sem remédio. Talvez esse céu, tantas vezes dado como seguro, estivesse desde sempre à espera daquele momento. Talvez aquela explosão do além trouxesse solução às perguntas mal respondidas. A vitrina do café do Chico Francisco estourou numa remessa de pedaços mais pequenos do que uma unha. Era vidro grosso, com muitos anos em cima. Um dos homens que lá estava, o Barrete, disse que viu a vitrina formar uma bola no centro, conforme uma bola de futebol, disse que só depois se desfez em todas as direcções. Pode calcular-se o estrondo de um caso desses, mas não é garantido que tenha sido mesmo assim. A vitrina era transparente e muitos duvidaram que, àquela hora da noite, alguém lhe conseguisse distinguir formas. Além disso, o Barrete era amigo do branco, do tinto e da pinga de qualquer cor, e a vitrina com formato de bola já parecia muita história. O Barrete ficava ofendido se alguém duvidava e, como prova, tinha uma ferida funda, fresca, que abria com a ponta dos dedos para mostrar. Tinha sido feita por um caco de vidro espetado no antebraço. Só conseguiu proteger-se a tempo porque estava a olhar para a vitrina quando rebentou. Segundo ele, o caco de vidro ia-lhe direito à vista.
O João Paulo parecia ter um certo gosto em apontar para o portão de ferro. Rodeado de motas e de bocados de motas, os olhos brilhavam-lhe. Sempre que fosse preciso, limpava as mãos a um esfregão de desperdício e contava que, quando tudo começou, estava a mexer na motorizada do Funesto. Concordava que tinha parecido o fim do mundo, mas afiançava que nem se lembrara de medo. Acreditou que eram uns sujeitos da Ervideira a procurá-lo. Tinham ficado incomodados com uma série de habilidades que fez à porta de um baile em Longomel ou na Tramaga, já não se lembrava bem. Achou que estavam três ou quatro desses malandros a dar pontapés no portão da oficina. Por fim, tinham vindo cumprir a ameaça. Enfiou um capacete, agarrou numa chave inglesa das maiores e avançou sobre o portão. Assim que o abriu, levou com ele de chapa nos dentes, voou atordoado e bateu despedido com as costas no cimento. Este era o ponto em que se ria mais alto. Ria-se à gargalhada, forçando aqueles que o ouviam a rir também. De olhos espantados, riam por cortesia. Só as gargalhadas dele eram sinceras. Estas eram conversas fáceis de vários dias depois. Na hora, ao longo daquele minuto inteiro, as pessoas mudaram de cor. Durante o apocalipse, ninguém tem espírito para graças. Identificando essa gravidade, o Sem Medo ouvia as descrições feitas pelos homens do terreiro, encolhia os ombros e admirava-se em silêncio. Perante as mesmas histórias, contadas por vizinhas, a mulher do Sem Medo escancarava os olhos, desentupia os ouvidos com o mindinho, e calava-se também. Na hora do sucedido, estavam nus, na cama, a pensarem noutros temas». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

sábado, 29 de novembro de 2014

Galveias. José Luís Peixoto. «Galveias e todos os planetas existiam ao mesmo tempo, mas mantinham as suas diferenças essenciais, não se confundiam: Galveias era Galveias, o resto do universo era o resto do universo»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«Entre todos os lugares possíveis, foi naquele ponto certo. O serão ia adiantado e sem lua, só estrelas geladas a romperem o opaco do céu, espetadas a partir de dentro. Galveias descaía lentamente para o sono, os pensamentos evaporavam-se. A escuridão era muito fria. Ao longo das ruas desertas, os candeeiros entornavam cones de luz amarela, luz fosca, engrolada. Passavam minutos e quase podia haver silêncio, mas os cães não deixavam. Ladravam à vez, de uma ponta da vila à outra. Cães novos, sozinhos em quintais, a gritarem latidos que terminavam em uivos; ou rafeiros moribundos de sarna, encostados ao lado de fora de um muro e a levantarem a cabeça apenas para lamentar a noite, revoltados e fracos. Se alguém estivesse a prestar atenção àquela conversa , talvez enquanto adormecia entre lençóis de flanela, seria capaz de distinguir a voz de cães maiores e mais pequenos, cães ariscos, nervosos, estridentes ou de voz grossa, gutural, animais pesados como bois. E um cão lá longe, a ladrar sem pressa, o som do seu discurso alterado pela distância, erosão invisível; e um cão aqui perto, demasiado perto, a raiva do bicho quase a levantar uma espertina no peito; mas depois um cão noutra ponta da vila e outro noutra e outro noutra, cães infinitos, como se desenhassem um mapa de Galveias e, ao mesmo tempo, assegurassem a continuação da vida e, desse jeito, oferecessem a segurança que faz falta para se adormecer. Lá do alto, do cimo da capela de São Saturnino, Galveias era como as brasas de um lume a apagar-se, cobertas de cinza e imperturbáveis. Mesmo como as brasas de um lume, certas chaminés largavam fios de fumo muito direitos: gente que ainda estava acordada, a espicaçar restos de fogo com conversas ou cismas. Mas as casas, noite e janeiro, firmavam-se no chão, faziam parte dele. Rodeada por campos negros, pelo mundo, Galveias agarrava-se à terra.
No espaço, numa solidão de milhares de quilómetros onde parecia ser sempre noite, a coisa sem nome deslocava-se a uma velocidade impossível. O seu sentido era recto. Planetas, estrelas e cometas pareciam observar a decisão inequívoca com que avançava. Eram uma assembleia muda de corpos celestes a julgar com os olhos e com o silêncio. Ou, pelo menos, essa impressão era provável porque a coisa sem nome atravessava a lonjura do espaço com uma velocidade de tal ordem, de tal indiferença e desapego que todos os astros pareciam estáticos e severos por comparação, todos pertenciam a uma imagem nítida e pacífica. Assim, o mesmo universo que a lançara, que a insuflara de força e direcção, assistia suspenso ao seu percurso. Existia o ponto de onde tinha partido, mas cada segundo destruía um pouco mais a memória desse lugar. Aquela sucessão de instantes compunha um tempo natural, isento de explicações. Passado sim, futuro sim, no entanto aquele presente impunha realidade, era composto apenas por ambições límpidas. E nem a violência que a coisa sem nome fazia ao rasgar caminho conseguia sobrepor-se à tranquilidade da sua passagem, distante de tudo e, mesmo assim, integrada numa arrumação cósmica, simples como respirar. Avisados por um alerta secreto, os cães calaram-se durante um instante que não dava mostras de fim. O fumo das chaminés paralisou-se ou, se continuou, seguiu uma linha imperturbável, sem sobressaltos. Até o vento, que se entretinha apenas com o barulho de alisar as coisas, pareceu conter-se. Esse silêncio foi tão absoluto que suspendeu a acção do mundo. Como se o tempo soluçasse, Galveias e o espaço partilharam a mesma imobilidade.
E até aqueles que estavam sozinhos nas suas casas, esparramados numa soneira ou distraídos na última tarefa do dia: pousar o púcaro de esmalte no armário, esticar o dedo para desligar a televisão, descalçar as botas. Todos mantiveram a sua posição única e todos ficaram parados no acto que os ocupava. Até a Lua, onde quer que estivesse, invisível naquela noite. Até o adro da igreja, lá no alto, com vista para a Deveza, imóvel como a estrada de Avis. E os campos em redor, trevas arborizadas, a estenderem-se até à Aldeia de Santa Margarida, conforme se sabe, e imóveis também. Até o terreiro. Até o jardim de São Pedro e a estrada de Ponte de Sor, a recta da tabuleta. Até a rua de São João. Até o monte da Torre e a barragem da Fonte da Moura, até o Vale das Mós e a herdade da Cabeça do Coelho. Galveias e todos os planetas existiam ao mesmo tempo, mas mantinham as suas diferenças essenciais, não se confundiam: Galveias era Galveias, o resto do universo era o resto do universo. E o tempo continuou. Tudo muito de repente. A coisa sem nome continuou à mesma velocidade desmedida, como um grito. Quando entrou na atmosfera da terra, já não tinha o planeta inteiro à sua disposição, tinha aquele ponto certo». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Porém, o que consta é que ele se descuidou em tomar cautelas precisas, e que não fora avisado da chegada dos espanhóis, se não no momento de ser atacado. Não conheço o lugar da acção, mas sendo uma povoação imagino que teria ali meios de defesa…»

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(continuação)

Um balanço incerto
«Sobre Flor da Rosa, Forbes Skellatei comenta:
  • ‘A expedição de Flor da Rosa era de sua natureza muito difícil e arriscada; mas por isso mesmo devia aquele comandante dobrar as suas cautelas, para ser avisado com bastante antecipação da chegada dos inimigos, a fim de poder seguir um partido, que sem se afastar das instruções que tinha, ou salvasse a tropa que mandava, ou resistisse defendendo-se enquanto tivesse munições. Porém, o que geralmente consta é que ele se descuidou em tomar cautelas precisas, e que não fora avisado da chegada dos espanhóis, se não no momento de ser atacado. Não conheço o lugar da acção, mas sendo uma povoação imagino que o dito comandante teria ali meios de defesa por muito tempo, causando grande perda aos inimigos, cuja principal força era a cavalaria’.
Prõssegue depois:
  • ‘As relações que o dito coronel apresenta destas duas acções me parecem extremamente exageradas, e são pouco conformes ao que é constante neste Exército; portanto, julgo que não será justo nem conveniente dar a este coronel a recompensa que ele pretende, quando a voz pública, e os sucessos, o não favorecem’.
E acrescenta, com certa benevolência:
  • ‘Devo contudo acrescentar que as circunstâncias em que se achou comprometido, o zelo, boa vontade e valor que mostrou, sempre que foi empregado, o fazem digno da indulgência de Sua Alteza Real, para que se não entre em averiguações destes factos, de que lhe poderiam resultar alguns danos, se não como particular, ao menos como Comandante’.
Epílogo
Carcome Lobo prosseguiu uma carreira militar que se adivinhava destinada a voos modestos. Mas o evoluir da situação internacional ir-lhe-á possibilitar uma ascensão inesperada. Em 1806 ainda era coronel, servindo no Regimento de Infantaria de Linha n.º 15. Um ano depois, a 24 de Junho, era promovido ao posto de Brigadeiro de Infantaria. Com a fuga de família real para o Brasil e a entrada das tropas francesas em Lisboa, iniciou-se um novo período na vida de José Carcome. Paradoxalmente, foi o seu momento de glória, proporcionado por aqueles contra cuja política combateu na Guerra das Laranjas. Junot, na sua qualidade de general-em-chefe, promoveu-o a marechal de campo, l - 4 - 1808, e com esse posto desempenhou um importante papel na organização da Legião Portuguesa, um dos vários corpos de tropas estrangeiras que combateram sob os auspícios de Napoleão, e que, no caso português, foi inicialmente comandado pelo marquês de Alorna.
Sobre a Legião Portuguesa existem diversas obras nas quais encontramos algumas alusões a José Carcome.
P. Boppe, no seu estudo exaustivo Le Légion Portugaise 1807-1813, para além de vários relatórios daquele militar, publica na parte final uma curiosa nota biográfica que foi, certamente, elaborada a partir de informações fornecidas pelo próprio José Carcome no tempo em que serviu na Legião, e que contém uma referência à ‘Guerra das Laranjas’.
Ainda em Portugal, e com a graduação de general de brigada (1 - 8 - 1808), participou na organização daquele Corpo, ficando à frente da 2ª Divisão. Comandou depois a 13ª Meia Brigada de elite organizada por decreto de 10 - 3 - 1809, e fez a campanha da Alemanha no exército do general Oudinot, tomando parte, juntamente com dois batalhões portugueses, na batalha de Wagran, 6  - 7 - 1809, contra os austríacos. O comportamento dos legionários nesse combate foi brilhante, reflectido nas elevadíssimas baixas sofridas, e impressionou favoravelmente Napoleão. Na peleja, Carcome Lobo ficou ferido no braço esquerdo, embora se levantassem algumas dúvidas quanto à efectividade desse ferimento. Ribeiro Artur reproduz o depoimento coevo de um dos oficiais da Legião, José Garcez Pinto Madureira:
  • ‘D. José Carcome apareceu de braço ao peito, mas Garcez que toma à sua conta o velho general, põe em dúvida esse ferimento’.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «… algum exagero no que se refere à artilharia capturada, a coluna possuía 4 canhões, tantos quantos foram apreendidos, e não 6, como refere o diário da Divisão de Vanguarda. A posição de ‘Carcome Lobo’ não sofreu beliscadura, mesmo após este novo desaire»

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Um balanço incerto
«Quanto ao balanço do combate, não existe unanimidade. Nenhuma das fontes espanholas esclarece o número de baixas portuguesas. Godoy refere, na Gazeta de Madrid, que os espanhóis capturaram 340 portugueses, quedando el resto entre heridos y muertos, excepto los pocos que podrian librarse en la fuga, e que foram apreendidos 50 carros, 4 canhões com as respectivas munições e 400 espingardas. O mesmo autor, nas suas Memórias, nada acrescenta. Nos diários de operações das divisões espanholas os números são ligeiramente diferentes: 300 prisioneiros portugueses, muitas mortes e 4 canhões capturados, no caso do diário da 2ª Divisão, 360 prisioneiros, no caso do diário da Divisão de Vanguarda, que alude ainda ao facto de terem sido capturados 4 de los 6 cañones que tenian. Sobre as baixas espanholas, nem uma palavra...
Carcome Lobo, por seu turno, contabiliza as perdas portuguesas em 14 mortos, 22 feridos e 310 prisioneiros, com 240 mortes causadas às forças inimigas. Não podemos, infelizmente, comprovar estes números, uma vez que o livro de óbitos da paróquia de Aldeia da Mata, respeitante àquele ano, não se encontra no Arquivo Distrital de Portalegre. Também não localizámos a declaração do pároco que teria enterrado os cadáveres, referida no relatório de Carcome Lobo. No livro de registo de óbitos da Matriz, Crato, existente naquele Arquivo, encontrámos algumas referências a mortos em resultado de ferimentos recebidos em combate:
  • Bernardo José Picão, granadeiro do 2º Regimento de Olivença, ferido e prisioneiro no combate de Flor da Rosa, faleceu com todos os sacramentos em o Hospital desta Vila;
  • João Marques Durão, de 40 anos, pouco mais ou menos, casado com Silvéria Joana, moradores em Vale do Peso. Foi ferido em o combate de Flor da Rosa com os Espanhóis;
  • Outro soldado faleceu a 23 de Junho no Hospital de Crato. Foi ferido no Combate de Flor da Rosa. Era do Bispado do Algarve, do Regimento de Faro, mas não houve quem soubesse o seu nome.
A última referência que surge no livro, a 30 de Julho de 1801, é a de um militar espanhol. Pela descrição, foi certamente assassinado por populares:
  • Francisco Villa, soldado espanhol da quarta Companhia do primeiro Batalhão de Voluntários da Infantaria Ligeira da Catalunha, casado com Magdalena Villa, do mesmo Reino, aparecendo morto no pinhal de Flor da Rosa, a tiro de bala, e quartos, e com três feridas de faca no peito e coração.
Detectámos, isso sim, algum exagero no que se refere à artilharia capturada, a coluna possuía 4 canhões, tantos quantos foram apreendidos, e não 6, como refere o diário da Divisão de Vanguarda. O certo é que a posição de Carcome Lobo não sofreu beliscadura, mesmo após este novo desaire. A 18 de Junho de 1801 foi libertado, juntamente com outros militares portugueses, sob palavra de honra em como não voltariam a empunhar armas contra a Espanha nessa guerra.
O Príncipe Regente ordenou a realização de um inquérito, Aviso de 11 de Agosto, no seguimento de uma petição do polémico coronel em que, não só justificava todo o seu comportamento durante a guerra, como pretendia ser recompensado por bons serviços prestados em campanha, e que abrangeu as duas acções em que esteve envolvido, Arronches e Flor da Rosa. O parecer do general Forbes Skellater, datado de 15 de Agosto, embora relativamente moderado, não deixava de ser crítico:
  • ‘Na acção de Arronches, pela mesma relação que o dito coronel dá deste sucesso, e pela que remeto inclusa do brigadeiro Bernardim Freire, comandante do Corpo de Granadeiros, destinado a protegê-lo, se vê que a obstinação com que ele, coronel, persistiu em se conservar em Arronches, apesar dos avisos que teve, e da sua mesma determinação, que me tinha participado na véspera, fez com que ele fosse quase surpreendido e obrigado a fazer precipitadamente a sua retirada, sendo a Infantaria atropelada pela Cavalaria, e salvando-se o resto da Tropa assim desordenada pela protecção que lhe prestou o Corpo de Granadeiros que os inimigos não ousaram atacar’.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Surpreendido pelo inimigo no meio do descanso que dera à sua tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada da marcha que tinha feito, teve ainda tempo para formar e meter ordem de batalha»


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Combate de Flor da Rosa visto pela historiografia liberal, Luz Soriano
«Reduzidos a este estado, tiveram de retirar pelo modo que lhes foi possível, até que ganharam a pequena coluna das quatro companhias de granadeiros, à testa das quais se achava o coronel José Carcome Lobo, e o meu imediato, o tenente-coronel de cavalaria, o conde de Leutaud. Efectuada que foi esta junção retiraram-se todos com muito trabalho por causa da viva perseguição que lhes fazia a cavalaria inimiga, que lhes ia sempre matando gente, enfraquecendo-se também os nossos pelas muitas deserções que durante a retirada iam tendo lugar. Aproveitando-se dos sítios pedregosos, que encontravam, assim andaram perto de légua e meia, até chegarem à Aldeia da Mata, onde entraram num pequeno bosque, que a precedia, guarnecido por um muro de pedra solta de que fizeram parapeito. Durante esta retirada perdeu-se a artilharia, já quase ao pé do serrado, não a podendo já puxar as bestas que o conduziam, por serem péssimas e acharem-se faltas de forças. Por espaço de duas horas se fez ali fogo contra o inimigo; mas desenvolvendo estes quinze esquadrões de cavalaria pelos flancos portugueses, e puxando sobre a sua frente três batalhões de infantaria, fizeram-lhes intimar por uma trombeta que imediatamente se rendessem, sob pena de serem passados à espada, quando assim o não o fizessem. Faltos já de munições, e atacados por todos os lados, vendo até já na sua frente em atitude ameaçadora artilharia inimiga, os nossos renderam-se finalmente à promessa de serem bem tratados, garantindo-se-lhes as bagagens e armas, assim como os cavalos aos oficiais que os tivessem. O número dos que assim se renderam, e em que também entrava o seu comandante, Carcome Lobo, andava por 400 homens, à excepção dos poucos que fugiram ou se extraviaram, e dos mortos, que dos nossos foram 12, reputando-se igual a este o número da parte dos espanhóis, apesar das notícias exageradas que erradamente se espalharam a respeito destes últimos, que não foram mais, nem talvez tantos.
Concluído o conflito, e concluída a capitulação, foi a nossa tropa conduzida a Portalegre, onde a oficialidade foi bem tratada e atendida dos generais, passando dali por Arronches e Santa Eulália para Badajoz, onde o príncipe da Paz lhes deu logo a liberdade de voltarem para Portugal, prometendo não pegarem mais em armas contra a Espanha, nem seus aliados na presente guerra. Da Aldeia da Mata voltaram os castelhanos soberbos e arrogantes, não só pela vitória alcançada, mas por também ter sido tão completa e acabada, que no meio dos seus esquadrões levavam os portugueses prisioneiros, e com os quais, à maneira de triunfo, entraram em Flor da Rosa, cujos moradores, bem como os do Crato, trataram mal, como já o tinham feito aos de Arronches. Tendo roubado e destruído campos, bem como as povoações, apresaram todo o gado, que encontraram nos seus distritos, que era muito, por não haver só o que pertencia aos seus moradores, mas até mesmo pelos rebanhos dos lavradores das terras vizinhas das fronteiras, que para ali os tinham conduzido, por serem lugares situados mais no coração da província. Apresaram e levaram também para Portalegre os mantimentos e munições que encontraram, desarmaram ambos os povos, e conduziram tudo ou para Badajoz, ou para outros lugares onde lhes convinha, para abastecerem e fornecerem as suas tropas. A nossa cavalaria para não perder a posse em que já estava de fugir e aterrar o exército, foi o primeiro correio, que no meio da sua precipitada carreira levou aos campos e vila do Gavião a triste notícia, não só do encontro da nossa tropa com a inimiga, mas até a da total derrota dos seus camaradas, exagerando o número de mortos, que não viu, e o destroço geral, que não quis experimentar, batendo-se como devia. O certo é que nesta empresa deu o coronel Carcome Lobo novas e evidentes provas da sua imperícia militar:
  • porque chegando a Flor da Rosa, nenhum cuidado teve em se informar das marchas e situação do inimigo;
  • não estabeleceu guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes;
  • não fez a marcha com a rapidez que convinha, e que na verdade foi mais dilatada do que devia ser, dizendo-se que por culpa dos guias.
Surpreendido pelo inimigo no meio do descanso que dera à sua tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada da marcha que tinha feito, teve ainda tempo para formar e meter ordem de batalha. Apesar de reduzido à crítica situação em que se achava, nenhuma participação fez, nem para o campo de Gavião, nem para a Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado chamar de Abrantes um destacamento bastantemente forte para auxiliar a sua retirada e a marcha do comboio por aquele lado. Finalmente não conhecendo a vantagem que lhe oferecia o convento, e a mesma povoação da Flor da Rosa, onde bem podia fazer-se forte e defender-se o tempo necessário para ser socorrido.
Quanto porém aos efeitos, que o desastre de Flor da Rosa produziu no exército português, acampado no Gavião, foram exactamente os mesmos que nele tinha produzido o desastre de Arronches, quando acampado em Portalegre, porque não só se não tentou ataque algum contra o inimigo, nem se recorreu a medida tendente a recuperar as munições e mantimentos perdidos, mas até nem se cuidou em defender a posição ocupada, apesar de forte e vantajosa, não lembrando mais que fugir novamente da guerra, e evitar quanto possível e cobardemente a vista dos castelhanos, e por modo tal, que não sendo as serras mais altas e inacessíveis do país asilo bastantemente forte para se abrigarem os nossos generais e as suas tropas, foram aqueles e estas buscar além do Tejo o refúgio que este caudaloso rio lhes oferecia, partindo para Abrantes no dia 6 de Junho, com muita pressa, e não menos confusão, sendo ali vitimas da fome, enquanto de Lisboa lhes não foram os necessários socorros». Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, Primeira Época, Tomo III, 1867.

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

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O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Mas o que parecerá incrível é que na marcha retrógrada de Portalegre para Gavião não houvesse quem se lembrasse de mandar retirar do Crato e Flor da Rosa os géneros que ali havia, e com tanta mais razão, quanto que em Gavião nenhuns existiam…»

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Combate de Flor da Rosa visto pela historiografia liberal, Luz Soriano
«Alguns traidores houve, que sem temor de Deus, nem dos homens, denunciaram aos espanhóis, não só os lugares em que na cidade de Portalegre se tinham escondido as munições do exército, mas até lhes declararam as povoações vizinhas, onde existiam armazéns e feitores com elas. Eram estas, além de outras, que já estavam em seu domínio, a vila do Crato, e o lugar de Flor da Rosa, pouco distante da dita vila, onde se havia recolhido grande número de moios de trigo e farinha, para provimento do exército de Portalegre e suas vizinhanças, de onde distavam apenas quatro pequenas léguas. No dia 4 de Junho mandou Ignacio de Lencastre sair de Portalegre o marechal de campo de Mora, com 2.500 cavalos e três batalhões de infantaria para a vila do Crato e lugar de Flor da Rosa com o fim de tomarem estes lugares pela voz de Espanha, e sobretudo com o de se apossarem das munições de boca, que ali se tinham juntado para fornecimento do nosso exército. Dos campos de Gavião saíram também para a vila do Crato e lugar de Flor da Rosa, das seis para as sete horas da tarde de uma quarta feira, 3 de Junho, por ordem do marechal general, duque de Lafões, e debaixo do comando do coronel José Carcome Lobo (não obstante a formal desobediência de ordens, que cometera na defesa de Arronches e da miserável maneira por que ali se conduziu), quatro companhias de granadeiros do 1º e 2º regimentos de Olivença, duas dos dois regimentos do Algarve e Setúbal, e duas de caçadores destes mesmos corpos, com 40 cavalos portugueses, e 28 ingleses, com quatro peças de artilharia, sendo duas de calibre 6 e duas de calibre 3, tudo gente a mais escolhida e forte de todo o nosso exército. Era o fim desta expedição conduzir para Gavião os mantimentos, que havia naqueles dois lugares, devendo ser escoltados e conduzidos por esta força, que para o cabal desempenho da sua comissão levava consigo até sessenta carros, dezasseis dos quais eram puxados por bestas, e todos os mais por bois, pertencentes aos moradores das vizinhanças de Gavião. Tinha esta expedição tanto de necessário, como de arriscada. Necessária, porque o exército, partindo tão apressadamente de Portalegre, não só deixara nesta cidade e terras circunvizinhas, já todas em poder dos espanhóis, todos os mantimentos necessários para a sua subsistência, mas porque, acampando no Gavião e suas vizinhanças, vira-se cortado de fome e de miséria, havendo dias em que se deu a 4 e 6 soldados um pão de munição, que diariamente se dava a um só. Arriscada era também esta empresa, não só pela probabilidade, que os espanhóis dela tivessem sido informados, estando muito mais bem servidos de espias do que o nosso exército, mas também pela quase certeza de que estivessem senhores do Crato e Flor da Rosa, tanto para abastecerem os seus soldados, como para privarem os nossos dos meios de subsistência.
Caminhou a nossa tropa de noite até à pequena vila de Tolosa, onde lhe amanheceu, e dali se dirigiu à Flor da Rosa, onde chegou pelas onze horas do dia, e largando as armas para descansar, deram parte as vedetas e avançadas da vista e proximidade do inimigo, que das estradas de Portalegre se encaminhava para aqueles sítios. Parece que aconselhava a prudência que ou se não arriscasse aquela pouca tropa portuguesa, que para ali foi mandada, à vista das ponderadas razões e circunstâncias, por ser bem de esperar que a vizinhança do inimigo embaraçasse a empresa, ou que a tentar-se, fosse em número suficiente para lhe fazer frente, e muito mais quando o exército ficava inútil em Gavião, onde se não podia recear ataque algum ou manobra do exército contrário, que inactivo se deixou ficar em Portalegre, de onde alguns espias, se é que havia alguns, podiam dar aviso, quando houvesse sinal de movimentos.
Mas o que parecerá incrível é que na marcha retrógrada de Portalegre para Gavião não houvesse quem se lembrasse de mandar retirar do Crato e Flor da Rosa os géneros que ali havia, e com tanta mais razão, quanto que em Gavião nenhuns existiam, nem era fácil havê-los. Determinada porém a operação, necessário era que a marcha se efectuasse rápida, forçando-a de maneira que antes do amanhecer do dia 4 de Junho os nossos estivessem em Flor da Rosa, o que podia bem suceder, pois que entre este posto e Gavião medeiam apenas cinco léguas de distância, e mandando-se logo carregar os carros, era provável que o transporte dos mantimentos se pudesse fazer sem maior risco. Entretanto não se fez assim, acontecendo mais que depois de chegarem as tropas ao lugar do seu destino, apareceu a dificuldade de não haverem sacos para a condução do trigo e farinhas, que em Flor da Rosa estavam a monte, falta a que se devia ter prestado a necessária atenção quando se fez sair a tropa de Gavião. O certo é que esta foi outra das causas do retardamento da operação, ou antes do seu completo malogro. Com a notícia da chegada dos castelhanos, os nossos correram às armas, postando-se duas bocas de fogo em lugar conveniente para bater o inimigo, logo que chegasse ao alcance de lhe poder fazer dano. Duas companhias de caçadores dos regimentos de Olivença se destacaram no intuito de ganharem dos agressores para o incomodarem e deterem o mais que lhes fosse possível, sendo as ditas companhias auxiliadas para este fim, tanto pelos 40 cavalos portugueses, como pelos 28 dragões ingleses. No meio de estas disposições avançou o inimigo, sendo por algum tempo demorado na sua marcha pelo fogo da artilharia; porém, nesta conjuntura, tanto a cavalaria portuguesa, como a inglesa, abandonando os caçadores, que deviam reforçar, fugiram a todo o galope, atropelando nesta fuga a gente que acharam diante de si.

Mapa da região do Crato, 1801, elaborado por espanhóis

Vendo-se expostos, e sem apoio algum, as companhias de caçadores fizeram quanto puderam pela sua parte para cumprirem com os seus deveres, no que perderam alguma gente, que lhes foi morta pelas partidas avançadas da cavalaria inimiga». In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

continua
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sábado, 16 de junho de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. Comentado por Francisco de Borja Garção Stockler. «Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa»


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«Entretanto existia ainda no Crato alguma porção de trigo e farinha, que era conveniente salvar, e para este fim mandou o Duque um Destacamento de quinhentos homens de Infantaria, e quarenta ou sessenta cavalos, cujo comando confiou ao coronel Carcome, ordenando-lhe que logo que chegasse a Flor de Rosa, aí tomasse Posto, e se mandasse informar se o inimigo tinha ou não já entrado no Crato; qual a situação de seus Postos avançados; e até onde lançava as suas Patrulhas, a fim de executar esta operação com toda a circunspecção, e prudência.
Nesta segunda comissão se houve Carcome como na primeira. Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada de marcha, que executara na noite precedente e na manhã daquele dia, a qual por culpa de seu guia fora mais dilatada do que deveria ser. No meio do descanso, a que se abandonara, foi surpreendido por um Corpo espanhol de dois a três mil homens, que o Inimigo mandava ao Crato com o fim de apoderar-se do Depósito secundário, que ali existia. Teve Carcome ainda tempo para formar a sua Tropa; mas em vez de expedir logo a notícia do aperto em que se achava para o Campo do Gavião, e para Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado marchar de Abrantes um Destacamento assaz forte para auxiliar a sua retirada, e a marcha do seu Comboio por aquele lado; não conhecendo a vantagem que lhe ofereciam o Convento, e a mesma Povoação de Flor da Rosa, aonde poderia fazer-se forte, e defender-se o tempo bastante para ser socorrido; não sabendo mesmo parquear-se com os seus carros; rumou o partido de bater-se em retirada, o que fez por espaço de uma légua Aldeia da Mata. Ali se defendeu valentemente até consumir o cartuxame, que a sua Infantaria tinha nas patronas: e achando-se envolvido por todos os lados, se rendeu prisioneiro de guerra com mais de metade do seu Destacamento, tendo perdido a sua artilharia e munições, e uma grande parte dos carros que conduzira para a evacuação do Depósito». Cartas do autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da restauração deste reino, por Francisco de Borja Garção Stockler [...], Rio de Janeiro, na Impressão Régia, 1813.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”»



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«Como se vê, Manuel Godoy equivoca-se em vários momentos. Nem o exército luso retirava em direcção a Crato, mas sim a Gavião, nem as tropas que saíram de Portalegre tinham como objectivo persegui-lo. O ‘general’ era, realmente, um coronel, e os fugitivos não levaram o ‘temor’ às tropas de Crato, rumando sim em direcção ao grosso do exército. Claro está que sabemos que estas memórias foram publicadas muitos anos após os acontecimentos que descrevem, e sem recurso a documentos coevos, pelo que é útil compulsarmos essa versão com a que o próprio Manuel Godoy inseriu na “Gaceta de Madrid”.
A descrição do combate, feita pelo comandante das tropas portugueses, apresenta algumas coincidências com a que escrevera sobre o combate de Arronches. Naturalmente que José Carcome Lobo procurava justificar o sucedido. Esse texto, que foi utilizado, certamente, por Luz Soriano na descrição que fez do mesmo episódio. Dele ressalta uma actuação quase impecável. Procedeu-se ao reconhecimento prévio do terreno, as tropas descansavam junto às suas armas mas com duas sentinelas colocadas na torre, presumimos que do mosteiro, dominante da planície. Carcome Lobo teria, também, disposto guardas avançadas, porque no relatório afirma que às duas da tarde fora avisado por ‘vedetas avançadas’ de que o inimigo vinha dos lados de Portalegre. Estava, segundo esta versão, excluída a hipótese de surpresa... E de imediato o comandante se dispôs a defender as posições ocupadas, aprontando as duas bocas de fogo, todos os soldados armados e grupos a proteger os flancos. Outro grupo de militares colocou-se na retaguarda para procurar melhores posições; os carros de bestas foram retirados, na impossibilidade de fazer o mesmo com os que eram puxados por bois, bem mais lentos. A artilharia portuguesa disparou sobre o inimigo, retardando-o, mas a cavalaria lusa repetiu a proeza de Arronches, fugindo precipitadamente e, como ali, atropelando na fuga a infantaria incluindo o próprio Carcome Lobo. Perante o ímpeto atacante, os portugueses retiraram em direcção à Aldeia da Mata, onde se entrincheiraram atrás de muros de pedra e num pequeno bosque, mantendo um fogo nutrido até que, esgotadas as munições, e após duas horas de tiroteio, acabaram por se render na sua grande maioria, incluindo o próprio comandante. Os espanhóis fizeram mais de três centenas de prisioneiros que foram levados para Badajoz e posteriormente libertados, depois de darem a sua palavra de honra em como não voltariam a pegar em armas durante aquela campanha.
A descrição de Carcome Lobo colide com todas as outras versões, nomeadamente com a de Neves Costa, embora este não tenha sido testemunha do combate; e, o que é mais sintomático, contrasta com a de Francisco de Borja Garção Stockler. Este foi, como se sabe, um colaborador íntimo do duque de Lafões, apontado por muitos como o grande responsável pelos desastrosos resultados da campanha de 1801. Já no Brasil, em 1813, no livro que escreveu em resposta às acusações formuladas contra si e o duque por José Acúrcio das Neves, embora reconhecendo alguma valentia a Carcome Lobo, Stockler julga-o muito negativamente, considerando, tal como Neves Costa, que ele fora completamente surpreendido e que não tinha tomado as necessárias medidas para prevenir qualquer ataque inopinado.
Ao menos neste ponto, estava de acordo com José Acúrcio das Neves...

NOTA: José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”.

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

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terça-feira, 3 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir... Quando se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas»


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«No dia 4 sucedeu um episódio curioso. Ao Campo de Gavião chegou um mensageiro espanhol, oficial de Hussares, ajudante de campo do general Inácio de Lencastre, comandante da 2ª Divisão, o qual era portador de uma mensagem para o duque de Lafões. No caminho encontrou a coluna de Carcome, junto a Gáfete, e ficara aparentemente convencido de que aquela se deslocava para Estremoz. À cautela, o coronel português fez-lhe vendar os olhos para que não visse qual o caminho tomado pelo destacamento. Quando o referido oficial espanhol regressou às suas linhas, foi escoltado por alguns portugueses, entre os quais o brigadeiro Neves Costa, que o conduziu por um caminho diferente do que inicialmente tomara, de modo a evitar um encontro com a coluna que fora a Flor da Rosa. No entanto, quando chegou a Alpalhão, Neves Costa aproveitou a sua missão de escolta, com o consequente salvo-conduto, para reconhecer o terreno:
  • ‘lembrando-me que talvez não tivéssemos tropas em Alpalhão, e ignorando-se se os espanhóis ali estavam, tinha agora uma excelente ocasião para me certificar disso; saber ali de algumas novidades relativas a Portalegre e Marvão, e na minha volta vir por Gáfete e Tolosa para saber do que se passava no Crato, etc.’
 Recebido pelo capitão-mór de Alpalhão, Neves Costa veio a saber que, na tarde do dia 3, uma força espanhola proveniente de Portalegre por ali passara em direcção a Crato e que, no dia seguinte, novos reforços de cavalaria e infantaria, com a mesma origem, tomaram idêntico caminho. De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir...
De facto, quando se encontravam em Flor da Rosa e se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas sob o comando do marquês de Mora, com uma flagrante superioridade:
  • 1 esquadrão de Hussares, 3 de Borbón, 2 de Alcântara, 3 de Farnesio, 3 de Almansa, 2 batalhões de Maiorca, 100 homens do 1º batalhão da Catalunha e 4 peças de artilharia.
Terão os espanhóis tido conhecimento atempado da expedição portuguesa, como receava Neves Costa, sendo, assim, deliberada a sua acção sobre Flor da Rosa e Crato com o objectivo de interceptar a coluna? Não obstante as críticas do brigadeiro Neves Costa sobre a falta de secretismo na sua preparação, no ‘Campo de Gavião’, e a possibilidade de ela ser conhecida do inimigo, as dificuldades de comunicação e até, a própria cronologia dos acontecimentos acaba, em nossa opinião, por inviabilizar aquela hipótese. Na verdade, a operação foi planeada a 2 de Junho, e as tropas portuguesas marcharam no dia seguinte, 3, ao pôr-do-sol. Ora, ao compulsarmos os diários de operações das divisões espanholas envolvidas na acção, nada consta sobre uma preparação deliberada ou sobre um conhecimento prévio do sucedido. Assim, no diário da Divisão de Vanguarda lê-se:
  • Dia 4
  • El Mariscal de Campo marquês de Mora con 100 hombres del 1º de Cataluña, 2 Escuadrones de Borbón, 1 de Húsares y otros 3 de la 2ª División, salió al amanezer para ocupar los almacenes que los enemigos habian dejado en Crato y en Flor de Rosa, y proporcionar al mismo tiempo forrages a la Caballeria que ya no podia subsistir en Porto Alegre. Al paso por el lugar de Flor de Rosa encontró con un destacamento enemigo compuesto de 6 Compañias completas de Granaderos y Cazadores, 40 Dragones ingleses, 25 portugueses y 6 piezas de Artilleria, que a las ordens del animoso coronel Josef Carcome llevaba el mismo objeto. El marqués de Mora lo atacó y derrotó completamente matando a muchos y tomando prisioneros 360 hombres entre los quales se encontraban l7 oficiales y el Comandante Principal, que también lo havia sido en la función de Arronches (continua)".
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sábado, 17 de março de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes»

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«Em alternativa, havia que ir buscar tudo o que a deficiente logística portuguesa tinha reunido, de forma a impedir que caísse em mãos inimigas. Consciente dessa dificuldade, Neves Costa apresentou um memorando ao duque de Lafões com algumas sugestões:  
  • ‘os destacamentos enviados a Nisa, Alpalhão e Crato para guardarem e protegerem a retirada dos efeitos que dali se houverem de transportar para o Campo do Gavião, podem e devem servir ali de primeira linha dos postos avançados, pois que estes lugares ficando rodeados de planícies podem facilmente descobrir os movimentos e marchas do inimigo numa grande distância. Para este fim, segurança e vantagem dos ditos destacamentos, é preciso que eles sejam compostos particularmente de cavalaria a fim de fazer as rondas e descobrir como se precisa, advertindo que as patrulhas de cada destacamento apenas sentirem o inimigo avisarão não só o respectivo corpo a que pertencerem, mas também os postos ou destacamentos que lhe ficarem contíguos a fim de se evitar a surpresa ou o ser cortado. E necessário recomendar providências para que em Abrantes se examinem os soldados que vão do Campo com o título de doentes, ou licenças, pois é provável que entre estes haja muitos que se retirem ilegitimamente; o que concorre a enfraquecer os corpos que compõem o exército. É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes. E preciso também examinar a natureza e força das fortificações que defendem a dita ponte deste lado do Tejo; pois segundo algumas notícias elas não são capazes de a proteger contra qualquer ataque’.

Por fim, no dia 3 de Junho, projectou-se o envio de uma força a Gáfete, Tolosa, Flor da Rosa e Crato com o objectivo de recolher os abastecimentos ali existentes. Ao brigadeiro Bernardim Freire de Andrade foi confiado o comando da coluna, mas o seu estado de saúde não permitiu que o assumisse, sendo substituído pelo coronel José Carcome Lobo, o polémico comandante das tropas lusas em Arronches, o que não augurava nada de bom. O duque de Lafões assistiu, a cavalo, ao desfile das forças que eram constituídas por 4 companhias de granadeiros, 2 de caçadores, num total de 600 homens de infantaria, e 70 de cavalaria dos quais 30 dragões ingleses da escolta do duque, 2 canhões de 6 e 2 de 3. Este destacamento devia escoltar 60 carros, uns puxados por mulas e outros por bois, destinados ao transporte dos víveres e apetrechos existentes nos armazéns.

Quando a expedição deixou o Campo de Gavião, ao entardecer do dia 3 de Junho de 1801, o seu objectivo era conhecido há algumas horas. E surgiu o receio de que, se esse conhecimento era geral no acampamento português, o mesmo poderia suceder entre o inimigo, que poderia ser alertado pelos seus espiões não obstante a distância a que se encontrava.

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O brigadeiro Neves Costa não podia ser mais pessimista quanto ao resultado da expedição que adivinhava desastroso pela qualidade do seu comandante, moral da tropa e publicidade dos objectivos:
  • ‘O oficial comandante de um corpo de tropas derrotadas em Arronches, era o mesmo que se escolhia para comandar uma expedição que se devia considerar terminando num segundo combate. Que confiança pois podiam ter estas tropas num chefe semelhante publicamente acusado justa ou injustamente como culpado e autor da derrota de Arronches? O soldado, e particularmente o soldado bisonho é perfeitamente uma máquina, ou um animal irracional que precisa de muito jeito para o fazer mover como se pretende. Ainda que Carcome fosse um hábil oficial, e tivesse desenvolvido grandes talentos na acção de Arronches, entretanto os soldados não estavam persuadidos disso, e era preciso no combate imediato atender absolutamente a esta prevenção dos soldados. Não era só Carcome batido e com o crédito de ignorante e de traidor para os soldados brutos, o oficial encarregado desta importante expedição; o conde de Lieutaud, que comandava em Arronches 200 cavalos que fugiram tão vergonhosamente, era novamente o comandante de uma cavalaria de menor número e que justificava o seu temor com a desconfiança e mau crédito do seu comandante. Não se podiam pois comentar, nem de propósito, erros tão crassos e palpavelmente funestos’.

A comparação com o ocorrido em Arronches era inevitável:  
  • ‘vendo que 200 cavalos fugiram ao inimigo em Arronches, agora julgavam suficientes 70 para defenderem um comboio de carros num terreno de planícies imensas’.

Criticando asperamente a incompetência já provada do duque de Lafões e do seu ajudante Francisco Stockler, mas também a aquiescência cúmplice de John Forbes e de Miguel Pereira Forjaz, Neves Costa analisava as características do terreno por onde se iam movimentar os portugueses:  
  • ‘Flor da Rosa e Crato distam do Gavião 5 para 6 léguas. Estas terras distam de Portalegre muito menos de 4, o terreno entre Gavião e Flor da Rosa é de planície aonde a cavalaria tem uma vantagem decisiva; é pois sobre um tal terreno, sobre a vanguarda do nosso exército e para a parte do inimigo que se envia um destacamento de 600 infantes e 70 cavalos, devendo executar a sua comissão num lugar mais próximo do inimigo do que nós; e nestas 5 léguas de distância ficando inteiramente abandonado, sem haver outro corpo que apoiasse em Gáfete ou noutro lugar a sua marcha retirada? Ainda se fosse um reconhecimento, um ataque repentino, etc., que eles tivessem de fazer, mas um movimento tão vagaroso qual era o de acompanhar carros, e fazê-los carregar, e conduzi-los carregados, não devia dar assaz tempo ao inimigo para marchar a atacar este comboio? Grande Deus, e é crível que nos nossos dias tantas loucuras se tenham podido cometer? E notando a publicidade da expedição projectada já no dia antecedente não ficava ainda mais certo o ataque do comboio?’

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT