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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Poesia. Amélia Janny. «Desde 1860, em todas as manifestações académicas se tem feito ouvir a sua voz de poetisa, quer no teatro, quer nas salas de conferências, no Instituto, na Associação dos Artistas…»

Amélia Janny
1839-1914
Cortesia de wikipedia

Soneto
O sino repicara alegremente
chamando à festa a gente do povoado;
para ouvir um orador muito afamado,
tudo ia ligeiro e impaciente.

Vivera ali, criança e adolescente,
pelos montes errante, a guardar gado:
ordenara-se à custa do morgado,
homem piedoso, benfazejo e crente.

Ficara bom: nunca esquecera aquela
que ao peito seu, tão pobre e amando-o tanto,
tanta vez o levara a essa capela!

Sobe ao púlpito, enfim, sob esse encanto;
mas na turba só vê a imagem d'Ela,
e desce, sem falar, banhado em pranto!
Soneto de Amélia Janny, in ‘Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou’


«Poetisa contemporânea, natural de Coimbra. Desde a mais tenra idade mostrou uma não vulgar tendência e facilidade para a poesia. Tendo pouco mais de 14 anos, o falecido escritor e poeta António Xavier Rodrigues Cordeiro lhe anima a sua vocação, e a apresentou a António Feliciano de Castilho, mais tarde visconde de Castilho, que na presença de todos os poetas, prosadores, homens de ciências e de artes desse tempo, lhe fez uma consagrarão Manuel Maria Bordalo Pinheiro desenhou-lhe um primoroso de retrato à pena. Desde 1860, em todas as manifestações académicas se tem feito ouvir a sua voz de poetisa, quer no teatro, quer nas salas de conferências, no Instituto, na Associação dos Artistas. A sua inspiração arranca sempre aplausos, e é escutada com entusiasmo comovente porque o seu talento impõe-se, e sabe sempre interpretar os sentimentos da mocidade. Em 1880, por ocasião das festas do centenário de Camões, recitou no Teatro Académico de Coimbra, que se via completamente cheio, a sua poesia Pátria, obra-prima de patriotismo, que se distribuiu impressa pelos espectadores. As suas poesias andam dispersas em muitos jornais, e não foram nunca reunidas em volume, por não o permitir a modéstia da distinta poetisa. Uma das suas melhores composições modernas, dizem ser a poesia O Médico, homenagem a Raimundo Gama, e corre impressa em edição muito cuidada. Amélia Janny foi premiada no concurso da Academia de Monte Real pela sua poesia Victor Hugo; possui o colar do Instituto de Coimbra, é sócia do Retiro Literário Português, no Rio de Janeiro; do Grémio Literário do Pará; da. Associação dos Artistas de Coimbra, da Filantrópica Académica, …» In Portugal, Dicionário Histórico.

JDACT

Hora de Justiça. Amélia Janny. Costa Rodrigues. «… tal como ela foi, como a viu Teixeira de Pascoaes, alta e magra, duma leveza aérea no andar, que a desligava do solo empredado e lhe diluia a velhice no sorriso perpétuo dos seus lábios…»

Cortesia de wikipedia

«… Evoca hoje este Instituto de Coimbra Amélia Janny, uma curiosa figura de Mulher e de Poesia do puro romantismo coimbrão, que em Coimbra nasceu, em Coimbra viveu sempre em vida, que não foi curta, a sentir, a escrever e a declamar seus versos, inspirada no seu encanto e no seu culto. Será mais uma Hora de Justiça que chega e ao Instituto se deve, como, nos mais próximos tempos, as horas de Eugénio de Castro e de Mestre Gonçalves. Uma hora de justiça e também uma hora de reparação. Há muito se esbatera, ou quae apagara, na memória, tão frágil e incerta, desta terra, o nome que ela tantas, tantas vezes aclamara em festas de caridade, em comemorações cívicas, em ruidosas manifestações académicas, como o tricentenário de Camões, nos folguedos alegres do seu povo.
Depressa esqueceram os seus versos, que por aí se cantavam e sabiam de cor e se aprendiam sem esforço porque eram límpidos, de clara expressão, espontâneos, brotando, quase sempre, de uma impressão rápida, mas incisiva. Dela bem poderá dizer-se, ajeitando-lhe o pensamento do mal-aventurado Chénier, l’art ne fait que des vers, le coeur seu est poète, que a arte desses versos lhe vinha do coração, porque antes de tudo, os sentia. O culto da sua bondade, que aqui floresceu a par com o seu talento, esse mais depressa se amortece, ou quase extingue… Mas Coimbra é assim, como algumas mulheres caprichosas, inconstantes, ingratas no rumo ou no querer de seus próprios amores…
Ora se apaixona ou delira em entusiasmo excessivo e pródigo, nem sempre justo e medido, ora se esquiva, repudia até os que mais e melhor lhe querem… Regozijemo-nos, porém. Se o primeiro centenário do nascimento de Amélia Janny passou quase em injusto e doloroso silêncio, aqui nos reunimos hoje para avivar a sua memória, atenuando assim, ao mesmo tempo, mais uma culpa de ingratidão… E se, nesta casa, se mantém o pensamento inicial da lei dos nossos Estatutos, no regimento da sua vida científica e associativa, seja esta uma oportunidade para relembrar que, na sua tradição, viveu sempre o justiceiro preito aos que hajam merecido no cultivo das ciências, das belas letras e das artes exaltando seus méritos ou seus serviços. Não se quebrou, felizmente, a tradição.
E ainda bem que a figura de Amélia vai como que ressurgir nesta sala, tal como ela foi, como a viu Teixeira de Pascoaes, alta e magra, duma leveza aérea no andar, que a desligava do solo empredado e lhe diluia a velhice no sorriso perpétuo dos seus lábios (O Penitente). Assim vi eu ainda essa Senhora, na sua feminilidade encantadora, passar por essas ruas saudada com carinhoso respeito, com o prestígio do seu talento poético e da sua bondade, com a admiração por tudo quanto a tornou singular em Coimbra. Na verdade, Amélia não foi só a poetisa de tão inspirados versos, que primorosamente declamava, numa voz doce e clara, nem aquela delicada e cativante figura que, à sua volta e com largueza, soube espalhar o bem com simplicidade e com modéstia. Não; não foi só isso. Aquela sua casa, pequenina e acolhedora, da Couraça de Lisboa, tão cheia sempre da luz incomparável do sol de Coimbra, sobre o vale alegre do Mondego, a cujos sortilégios e encantos a poetisa se manteve sempre fiel, foi, por muitos anos, apetecido e obrigado lugar de reunião das mais proeminentes e festejadas e marcantes figuras da Coimbra das últimas décadas do século passado e dos primeiros anos do actual». In Costa Rodrigues, O Instituto, Universidade de Coimbra, Revista Científica e Literária, Coimbra Editora Limitada, volume 114, Coimbra, 1950.

Cortesia da UCoimbra/Instituto/JDACT