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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «O soutien, as meias, transpira, deita, se encolhe, se estica Pantita. O Tigre tinha razão: a humidade morna, a gente respira fogo, o sangue ferve»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você passou todos estes dias feito um idiota, põe os óculos escuros, tira o casaco Pochita. Não falava nada, ficava sonhando de olhos abertos. Ai, que inferno. Nunca vi você tão mudado, Panta. Eu estava um pouco preocupado com o meu novo destino, mas já passou, tira a carteira, dá umas notas ao motorista Panta. Sim, chefe, número 549, o Hotel Lima. Espere, mãe, eu ajudo você a descer. Você é militar, não é?, joga a bolsa de viagem numa cadeira, tira os sapatos Pochita. Sabia que podia ser mandado para qualquer lugar. Iquitos não é nada mau, Panta, não está vendo que parece um lugar simpático? Tem razão, estou comportando-me feito um bobo, abre o armário, pendura um uniforme, um casaco Panta. Devia estar acostumado demais com Chiclayo; palavra de honra que já passou. Bem, vamos abrir as malas. Que calorzinho, não é, chola? Por mim, passaria a vida dentro do hotel, deita de costas na cama, se espreguiça Pochita. Aqui fazem tudo por você, não é preciso se preocupar com nada. E seria adequado receber o cadete Pantoja num hotelzinho?, tira a gravata, a camisa Panta. O cadete Pantoja?, abre os olhos, desabotoa a blusa, apoia um cotovelo no travesseiro Pochita. Sério? Já podemos encomendar, Pantita? Não prometi que seria quando chegasse o terceiro galão?, estica, dobra e pendura a calça Panta. Vai ser loretano, que coisa. Maravilhoso, Panta, ri, aplaude, toma impulso no colchão Pochita. Ai, que felicidade, o cadetinho, Pantita Júnior. Temos que encomendar o quanto antes, abre e estica as mãos Panta. Para que chegue rapidinho. Venha, chola, não fuja. Espere, espere, o que é isso?, salta da cama, corre para o banheiro Pochita. Ficou maluco? Vamos, vamos, o cadetinho, tropeça numa mala, derruba uma cadeira Panta. Vamos encomendar agora mesmo. Vamos, Pochita. Mas são 11 da manhã, acabamos de chegar, gesticula, afasta, empurra, fica zangada Pochita. Solte, a sua mãe vai-nos ouvir, Panta. Para estrear Iquitos, para estrear o hotel, ofega, luta, abraça, escorrega Pantita. Venha, amorzinho. Veja só o que ganhou com tanta denúncia e tanto comunicado, brande um ofício repleto de carimbos e assinaturas o general Scavino. O senhor também tem culpa disso, comandante Beltrán: veja o que esse sujeito veio organizar em Iquitos. Vai rasgar a minha saia, protege-se atrás do armário, joga um travesseiro, pede paz Pochita. Não o estou reconhecendo, Panta, sempre tão educadinho, o que há com você. Deixe, eu tiro. Queria curar um mal, não causar, lê e relê a cara compungida do comandante Beltrán. Nunca imaginei que o remédio seria pior que a doença, general. É inconcebível, iníquo. Vai permitir esse horror? O soutien, as meias, transpira, deita, se encolhe, se estica Pantita. O Tigre tinha razão: a humidade morna, a gente respira fogo, o sangue ferve. Vem, me belisque onde eu gosto. A orelhinha, Pocha. Sinto vergonha assim de dia, Panta, reclama, se enrola na colcha, suspira Pochita. Você vai adormecer, não tem que estar no Comando às três? Acaba sempre adormecendo. Tomo uma chuveirada, se ajoelha, se dobra, se desdobra Pantita. Não fale nada, não me distraia. Belisque minha orelhinha. Assim, assim. Ai, já sinto que vou desmaiar, chola, já nem sei quem sou. Sei muito bem quem você é e para que veio a Iquitos, resmunga o general Roger Scavino. E, de cara, quero logo dizer que não estou nem um pouco feliz com a sua presença nesta cidade. Gosto das coisas claras desde o começo, capitão. Desculpe, general, balbucia o capitão Pantoja. Deve haver algum mal-entendido. Não estou de acordo com o serviço que o senhor vem organizar, aproxima a careca do ventilador e abaixa os olhos por um instante o general Scavino. Eu me opus a ele desde o começo e continuo pensando que é uma barbaridade. E, acima de tudo, uma imoralidade sem nome, se abana com fúria o padre Beltrán. O comandante e eu não dissemos nada porque os superiores mandam, desdobra o seu lenço e enxuga o suor da testa, das têmporas, do pescoço o general Scavino. Mas não nos convenceram, capitão. Eu não tenho nada a ver com esse projecto, general, transpira imóvel o capitão Pantoja. Foi a maior surpresa da minha vida quando me comunicaram, padre. Comandante, corrige o padre Beltrán». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «E desmoralização, nervosismo, apatia. Precisamos dar de comer a esses famintos, Pantoja, olha solene nos seus olhos o Tigre Collazos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Se a generala ouvisse isto, diverte-se o general Victoria, ai das suas garras, Tigre. A princípio pensamos que era a alimentação, bate na barriga o general Collazos. Que nos quartéis se usava muito tempero, coisas que aumentam o apetite sexual das pessoas. Consultamos especialistas, até um suíço que custou os olhos da cara, esfrega dois dedos o coronel López López. Um nutricionista cheio de títulos. Pas d’inconvénient, anota numa caderneta o professor Bernard Lahoé. Vamos planejar uma alimentação que, sem reduzir as proteínas necessárias, enfraqueça a libido dos soldados em 85%. Não vá exagerar, murmura o Tigre Collazos. Também não queremos uma tropa de eunucos, doutor. Horcones chamando Iquitos, Horcones chamando Iquitos, parece impaciente o alferes Santana. Sim, muito grave, extremamente urgente. Não obtivemos os resultados previstos com a operação Rancho Suíço. Os meus homens estão morrendo de fome, ficando tuberculosos. Hoje desmaiaram mais dois na revista, comandante. Não é brincadeira, Scavino, segura o telefone entre a orelha e o ombro enquanto acende um cigarro o Tigre Collazos. Procuramos até cansar, e esta é a única solução. Vou-lhe mandar o Pantojita com a mãe e a mulher. Faça bom proveito. Pochita e eu já nos acostumamos com a ideia e estamos felizes de ir para Iquitos, dobra lenços, arruma saias, embrulha sapatos a senhora Leonor. Mas continua de crista caída. O que é isso, filhinho. O senhor é o homem certo, Pantoja, fica em pé o coronel López López e segura-o pelos braços. Vai acabar com essa dor de cabeça. Apesar de tudo é uma cidade, Panta, e parece que linda, joga panos no lixo, dá nós, fecha bolsas Pochita. Não faça essa cara, seria pior ir para a puna, não é mesmo? Na verdade, coronel, não tenho ideia como, engole saliva o capitão Pantoja. Mas farei o que me ordenarem, naturalmente. Por enquanto, vá para a selva, pega um ponteiro e indica um lugar no mapa o coronel López López. O seu centro de operações será Iquitos. Vamos chegar à raiz do problema e liquidá-lo na sua origem, bate o punho na mão aberta o general Victoria. Porque, como já deve ter adivinhado, Pantoja, o problema não é só das senhoras atacadas. Também é dos recrutas condenados a viver como castos pombinhos naquele calor pecaminoso, estala a língua o Tigre Collazos. Servir na selva é duro, Pantoja, muito duro. Nos povoados amazónicos todas as saias têm dono, gesticula o coronel López López. Não há bordéis nem garotas de acompanhamento, nem nada parecido. Passam a semana inteira isolados, cumprindo missões no mato, sonhando com o dia de folga, imagina o general Victoria. Caminham quilómetros até ao povoado mais próximo. E o que acontece quando chegam? Nada, pela maldita falta de fêmeas, encolhe os ombros o Tigre Collazos. Então, os que não batem pun… perdem o juízo e no primeiro copinho de aguardente jogam-se feitos pumas no que estiver à sua frente. Houve casos absurdos e até de bestialismo, precisa o coronel López López. Imagine que um cabo de Horcones foi surpreendido tendo vida marital com uma macaca. A símia responde pelo absurdo apelido de Chupa-chupa da Quinta Esquadra, prende a risada o alferes Santana. Ou melhor, respondia, porque a matei com um tiro. O degenerado está no calabouço, coronel. Enfim, a abstinência traz-nos uma corrupção dos diabos, diz o general Victoria. E desmoralização, nervosismo, apatia. Precisamos dar de comer a esses famintos, Pantoja, olha solene nos seus olhos o Tigre Collazos. É aí que o senhor entra, aí é que vai aplicar o seu cérebro organizador. Por que está tão aturdido e tão quietinho, Panta?, guarda a passagem na bolsa, pergunta: onde é a saída para o avião? Pochita. Vamos ter um grande rio, podemos tomar banho, visitar as tribos. Anime-se, bobinho. O que houve que está tão esquisito, filhinho, observa as nuvens, as hélices, as árvores a senhora Leonor. Não abriu a boca em toda a viagem. Por que está tão preocupado? Não é nada, mãe, nada, Pochita, aperta o cinto de segurança Panta. Estou bem, não é nada. Olhem, já estamos chegando. Este deve ser o rio Amazonas, não é?» In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sábado, 27 de maio de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Meus soldados não, soldados da Nação, faz gestos apaziguadores o general Victoria. Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta muitíssimo o incidente com a sua cunhada e fará tudo o que puder para compensá-la. Agora chamam estupro de incidente?, se desconcerta o padre Beltrán. Porque foi isso o que aconteceu. Florcita foi dominada por dois homens uniformizados que vieram da chácara e a violaram no meio da trilha, rói as unhas, pula sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. Com uma pontaria tão boa que agora está grávida, general. Agora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea, resmunga o coronel Peter Casahuanqui. Sem chorar, sem chorar. Vai ver como eu ajeito isto. Acha que eu vou lá?, soluça Dorotea. Ficar sozinha na frente de todos os soldados? Eles vão desfilar por aqui, em frente à esquadra, esconde-se por detrás da treliça metálica o coronel Máximo Dávila. Fica espiando pela janela e os aponta para mim quando descobrir os salientes, senhorita Jesus.
Salientes?, salpica salivas o padre Beltrán. Depravados, canalhas e miseráveis, isto é o que eles são. Fazer uma infâmia dessas com dona Asunta! Macular assim o uniforme! Luisa Cánepa, minha faxineira, foi estuprada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso, limpa os óculos o tenente Bacacorzo. Ela gostou da coisa ou sei lá, comandante, mas o facto é que agora se dedica à prostituição com o nome de Maminha e tem um veado chamado Milcaras como cafetão. Agora diga com qual destas pessoinhas se quer casar, senhorita Dolores, passeia em frente aos três recrutas o coronel Augusto Valdés. E o capelão faz o casamento neste instante. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai do seu futuro filhinho?
Pegaram a minha esposa na própria igreja, permanece rígido na ponta da cadeira o carpinteiro Adriano Lharque. Na catedral não, na igreja do Santo Cristo de Bagazán, senhor. Pois é, queridos radiouvintes, brama o Sinchi. Esses sacrílegos lascivos não foram contidos pelo temor a Deus nem pelo respeito devido à Sua santa casa nem aos nobres fios grisalhos dessa digníssima matrona, semente já de duas gerações de loretanos. Começaram a puxar-me, ai meu Jesus, queriam jogar-me no chão, chora a senhora Cristina. Estavam caindo de bêbados e nem queira saber os palavrões que falavam. Na frente do altar-mor, juro.
É a alma mais caridosa de todo o Loreto, general, retumba o padre Beltrán. Foi ultrajada cinco vezes! E também a filhinha e a sobrinha e a afilhadinha, já sei, Scavino, sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. Mas esse padre Beltrán está connosco ou com eles? É ou não é capelão do Exército? Protesto como sacerdote e também como soldado, general, encolhe a barriga, estufa o peito o comandante Beltrán. Porque esses abusos fazem tanto dano à instituição quanto às vítimas. O que os recrutas pretendiam fazer com aquela senhora é muito errado, claro, contemporiza, sorri, faz vénias o general Victoria. Mas os parentes quase os mataram de pancadas, não se esqueça disso. Aqui está o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, rasgão na orelha. Neste caso houve empate, doutorzinho. Iquitos?, pára de humedecer a camisa, levanta o ferro Pochita. Cruz, como nos mandam para longe, Panta.
Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme e a balsa em que atravessa o rio, paira sobre o bosque de cabeças imóveis, caras ofegantes e braços abertos o irmão Francisco. Com madeira você fabrica o arpão que pesca o peixe, a zarabatana que caça a capivara e o caixão onde enterra o morto. Irmãs! Irmãos! Ajoelhem-se por mim! É um grande problema, Pantoja, balança a cabeça o coronel López López. Em Contamana, o prefeito emitiu um comunicado pedindo à população local que deixe as mulheres trancadas em casa nos dias de folga da tropa. E, principalmente, como é longe do mar, solta a agulha, arremata o fio e o corta com os dentes a senhora Leonor. Será que lá na selva há muito pernilongo? Eles são o meu suplício, você sabe.
Olhe esta lista, coça a testa o Tigre Collazos. Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, é claro, o problema exige medidas mais radicais que os casamentos forçados. Até agora, castigos e vinganças não mudaram o panorama: todo soldado que chega na selva vira logo um porra-louca. Mas você parece o mais desanimado com este lugar, meu amor, começa a abrir e sacudir as malas Pochita. Porquê, Panta? Deve ser o calor, o clima, não acha?, se anima o Tigre Collazos. Pode ser, general, gagueja o capitão Pantoja. A humidade morna, essa exuberância da natureza, passa a língua pelos lábios o Tigre Collazos. Sempre acontece comigo: é chegar na selva e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «E já me livrara de quem regressava dos estádios mimando os jogos nas suas discussões, quando umas gotas geladas me salpicaram as mãos»

jdact

«(…) Do asfalto das ruas emanava um calor azulado de gasolina, atravessado por vapores químicos, que estagnava em pátios fedendo a detritos, onde algum cão arquejante se estirava como se fosse um coelho esfolado, para encontrar canteiros de frescura na mornidão do pavimento. O carrilhão martelava uma avé-maria. Tive a insólita curiosidade de saber que santo se festejava nessa data: 4 de Junho. São Francisco Caracciolo, dizia a edição vaticana por onde eu estudara outrora os hinos gregorianos. Totalmente desconhecido para mim. Procurei o livro da Vida dos Santos, impresso em Madrid, que a minha mãe me lera vezes sem conta, no meu país, durante as ditosas enfermidades da infância que me livraram de frequentar a escola. Nada constava de Francisco Caracciolo. Mas encontrei algumas páginas com os seguintes títulos piedosos: Rosa recebe visitas do céu; Rosa luta contra o diabo; O fenómeno da imagem que sua. E uma guirlanda festonada, em que se misturavam palavras latinas: Sanctae Rosae Limanae, Virginis, Patronae principalis totius Americae Latinae. E esta estrofe da santa, apaixonadamente dedicada a seu Esposo: Ai de mim! Ao meu amado quem o detém? Tarda, é meio-dia, e ele que não vem.
Um travo amargo fincou-se-me na garganta ao evocar através das palavras da minha infância tantas recordações acumuladas. Decididamente, estas férias amoleciam-me. Bebi o que restava do xerez e fui novamente para a janela. As crianças que brincavam debaixo dos quatro abetos poeirentos do Parque Modelo abandonavam por vezes os seus castelos de areia cinzenta para olharem com inveja um grupo de fedelhos metidos na água de um tanque municipal, nadando entre pedaços de jornais e pontas de cigarros. Isso sugeriu-me a ideia de ir até a uma piscina fazer algum exercício. Não era nada aconselhável ficar em casa sozinho. Porém, ao procurar o fato de banho, que não encontrei nos armários, ocorreu-me que seria mais saudável apanhar um comboio e descer onde houvesse bosques, para assim respirar um pouco de ar puro. Dirigia-me já para a estação do caminho-de-ferro, quando me detive frente ao Museu onde se inaugurava uma grande exposição de arte abstracta, anunciada por móbiles suspensos de mastros, cujos cogumelos, estrelas e laços de madeira giravam num ar impregnado de cheiro a verniz. Preparava-me paru subir a escadaria quando reparei que o autocarro do Planetarium, cuja visita, de repente, me pareceu extremamente necessária, para sugerir ideias a Mouche acerca da nova decoração do seu estúdio, estacionava ali mesmo ao pé. Mas como estava muito demorada a sua partida, acabei por andar de um lado para o outro, aturdido com tantas opções, parando na primeira esquina para seguir os desenhos traçados sobre o passeio, com giz de cor, por um estropiado com o peito coberto de medalhas militares. Quebrado o desenfreado ritmo dos meus dias, liberto, por três semanas, da empresa alimentar que me comprara já vários anos de vida não sabia em que empregar esse tempo de lazer. Estava como que doente do meu súbito repouso, desorientado em ruas conhecidas, indeciso perante desejos incompletos. Tinha vontade de comprar a Odisseia, ou os últimos romances policiais, ou as Comédias Ameríndias de Lope expostas na montra da Brentano's, para voltar a encontrar-me, ainda que só pudesse multiplicar e somar em espanhol (contando pelos dedos), com a língua que deixara de falar. Mas havia também o Prometeu Libertado, que me afastou rapidamente dos livros, pois o seu título estava demasiado ligado ao velho projecto de uma composição que, depois de um prelúdio rematado por um grande coral de metais, não passara, no recitativo inicial de Prometeu, do soberbo grito de revolta.
Na verdade, o ter tempo disponível para olhar as montras das lojas, depois de um afastamento de meses, tornava-as da maior importância para mim. Podia ver-se, aqui, um mapa de ilhas rodeadas de galeões e rosas-dos-ventos; mais adiante, um tratado de organografia: acolá, um retrato de Ruth, reluzindo de diamantes emprestados, para a propaganda de um joalheiro. A recordação da sua viagem produziu-me uma repentina irritação: era ela, na realidade, quem eu perseguia agora; a única pessoa que eu desejava ter a meu lado, nesta tarde sufocante e enevoada, cujo céu escurecia por detrás da monótona agitação dos primeiros anúncios luminosos. Porém, uma vez mais, interpunham-me um texto, um palco, uma distância, uma vez mais, entre os nossos corpos, que já não voltavam a encontrar, no Convívio do Sétimo Dia, a alegria das primeiras relações. Era ainda muito cedo para ir a casa de Mouche. Fatigado de ter de escolher um caminho entre a multidão que caminhava em sentido contrário, rasgando papéis prateados ou descascando laranjas com os dedos, desejei um sítio onde houvesse árvores.
E já me livrara de quem regressava dos estádios mimando os jogos nas suas discussões, quando umas gotas geladas me salpicaram as mãos. Ao fim de algum tempo cuja medida me escapara, agora, por causa da aparente brevidade do seu percurso num processo de dilatação e de recorrência que então me fora insuspeitável, recordo essas gotas caindo sobre a minha pele em alfinetadas deliciosas, como se fossem a primeira advertência, ininteligível para mim, na altura, do encontro. Encontro trivial, de certo modo, como são, aparentemente, todos os encontros cujo verdadeiro significado só se revelará mais tarde, na trama das suas consequências... Devemos procurar o começo de tudo isto, seguramente, na nuvem que se desfez em chuva naquela tarde, com tão inesperada violência que os trovões pareciam chegados de outra latitude». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
           
Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 30 de abril de 2016

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «Era taciturna e obediente, como a tradição exigia das princesas virgens da casta imperial. Pizarro, que pertencia a uma raça altiva, deve ter-lhe reconhecido uma certa dignidade, pois conferiu-lhe imediatamente um estatuto…»

jdact

O cerco a Lima
«(…) Nas semanas seguintes, Hernando Pizarro regressou a Lima, tendo partido de Espanha, com boas notícias para o seu irmão Francisco: o rei tinha aumentado o território sob a sua alçada em setenta léguas! Também levava, sem grande alvoroço, o que Almagro tanto tinha cobiçado: as provisões para os territórios sob a sua jurisdição, que o rei fixava em duzentas muito modestas léguas. O primeiro encontro de Hernando com a sobrinha Francisca foi breve, pois poucas semanas após a sua chegada, o irmão, preocupado com as informações que lhe chegavam do Cuzco, enviou-o para a antiga capital com poderes de governador e de juiz-mor. Importa mostrarmo-nos mais comedidos no trato com eles, pois diz-se que o inca vai acumulando rancor, explicou-lhe Francisco, antes de o enviar.
Hernando tomou logo à letra os seus títulos e o seu papel de irmão mais velho. A sua prudência política era superior à de Juan e Gonzalo, mas inferior à sua própria ganância. Mostrou-se mais amável no trato com o inca, como lhe tinha sugerido, para além do seu irmão, o próprio Imperador Carlos V que tinha conhecimento dos serviços prestados por Manco aquando da tomada do Cuzco e no apaziguamento dos vencidos. Mas uma coisa era evitar provocações excessivas, outra era desperdiçar oportunidades douradas, cintilantes, mesmo. No início de 1536, aproveitando a época das chuvas, altura em que os índios não podiam movimentar-se com facilidade caso sentissem a tentação de se revoltarem, exigiu novas entregas de ouro ao inca. Tinha os olhos postos nas múmias dos antepassados incas, banhadas a ouro e prata e, segundo um relatório anónimo, tão volumosas como as pipas ou tonéis em que se armazenavam água e vinho, nos navios. Como não retribuiria o inca agradecido a liberdade recuperada?
Atahualpa não fazia ideia do significado que viria a adquirir o seu acto quando ofereceu a Pizarro o presente de carne e osso que dava pelo nome de Quispe Sisa. Isto aconteceu na sequência do primeiro embate, quando foi feito prisioneiro em Cajamarca. Fiel ao velho costume de entregar as esposas secundárias aos senhores ou caciques com quem pretendia estabelecer alianças, o inca entregou a própria irmã ao Conquistador. Quispe Sisa viajara preocupada desde Cuzco, com o resto da corte, para o acompanhar no seu momento de desgraça, e teve uma recepção carnal: Atahualpa transmitiu-lhe que ia entregá-la a Pizarro, o seu raptor.
E foi o que fez. Mas aquela índia orgulhosa não deixou transparecer os seus pensamentos, tão obscuros para quem pretendesse interpretá-los como a sua pele acobreada. Era taciturna e obediente, como a tradição exigia das princesas virgens da casta imperial. Pizarro, que pertencia a uma raça altiva, deve ter-lhe reconhecido uma certa dignidade, pois conferiu-lhe imediatamente um estatuto que ultrapassava o de mera concubina. No início, limitou-se a namoriscar com ela, em atenção aos seus cinquenta anos de vida e à sua libido adiada. Contudo, mais tarde chegou a sentá-la à sua mesa, juntamente com os seus lugares-tenentes, o que constituía a máxima expressão da respeitabilidade naquele tempo de hierarquias sociais improvisadas. Nem ele saberia dizer quanto esta decisão teve de respeito para com a linhagem real da princesa; quanto de vertigem perante o poço daqueles olhos negros, em que repousava uma cultura mais antiga e soberba do que quantas conhecera nas suas viagens pelas Caraíbas, América Central e Panamá; e quanto de fria estratégia política para estabelecer convivências que protegeriam raptores de Atahualpa da ira vingativa de um povo massivamente numeroso. A verdade é que as orelhas avantajadas da princesa e a cascata elegante dos seus cabelos se tornaram, desde a primeira hora, presença constante ao lado do Conquistador.
Em Quispe Sisa, reproduzia-se, de certa forma, o destino da sua própria mãe, Contarhuach, que, em 1515, integrou a legião de esposas secundárias de Huayna Cápac (que veio a ser pai de Atahualpa). O lendário inca entregara ao pai de Contarhuacho o senhorio de Tocas y Huaylas, no sopé da Serra Nevada. O nome de Quispe Sisa foi logo alterado para Inés Huaylas por essa magia da conquista chamada baptismo. A história do Peru enredou-se para sempre, no momento em que Pizarro abraçou a cascata cabeluda da índia, pois, a partir desse instante, o relato das proezas guerreiras do Conquistador no Tahuantinsuyo passou a ser também o das façanhas do marido de Inês Huaylas, irmã do inca. A história que Inés Huaylas começou a reconstruir mentalmente, com base nos relatos de quem se sentava consigo à mesa e do seu marido recente, teve a virtude ambígua de a humilhar e vingar ao mesmo tempo, pois uma parte de si pertencia ao passado vencido, e outra ao presente vencedor». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 18 de março de 2016

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «… que ela exigia a paródia e a gargalhada. Foi uma experiência libertadora, que me revelou, só então!, as possibilidades da brincadeira e do humor na literatura»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A história baseia-se num facto real, um serviço de visitadoras organizado pelo Exército peruano para desafogar as ânsias sexuais das guarnições amazónicas, que conheci de perto em duas viagens à Amazónia, em 1958 e 1962, magnificado e distorcido até se transformar numa farsa truculenta. Por incrível que pareça, pervertido como eu estava pela teoria do compromisso na sua versão sartriana, tentei, a princípio, contar esta história a sério. Descobri que era impossível, que ela exigia a paródia e a gargalhada. Foi uma experiência libertadora, que me revelou, só então!, as possibilidades da brincadeira e do humor na literatura. Ao contrário dos meus livros anteriores, que me fizeram transpirar, escrevi este romance com facilidade, divertindo-me muito e lendo os capítulos, à medida que os terminava. Alguns anos depois de publicado o livro, com um sucesso de público que não tive antes nem voltei a ter, recebi um misterioso telefonema, em Lima: sou o capitão Pantaleão Pantoja, disse a enérgica voz. Gostaria de vê-lo para que me explique como soube de minha história. Recusei, fiel à minha crença de que os personagens da ficção não devem se intrometer na vida real». In Londres, 29 de Junho de 1999

«Acorde, Panta, diz Pochita. Já são oito horas. Panta, Pantita. Já, oito horas? Puxa, que sono, boceja Pantita. Costurou o meu galão? Sim, meu tenente, se perfila Pochita. Ai, desculpe, capitão. Até eu me acostumar você vai continuar sendo tenentinho, meu amor. Sim, costurei, ficou ótimo. Mas levante-se de uma vez, sua reunião não é às...? Às nove, sim, Pantita se ensaboa. Aonde vão nos mandar, Pocha? Passe a toalha, por favor. Para onde você acha,chola? Aqui, em Lima, contempla o céu cinzento, as varandas, os automóveis, os pedestres Pochita. Ai, fico com água na boca: Lima, Lima, Lima. Não sonhe, Lima nunca, que esperança, se olha no espelho, amarra a gravata Panta. Se fosse pelo menos uma cidade como Trujillo ou Tacna, eu ficaria feliz. Que engraçada esta notícia no El Comercio, franze o rosto Pochita. Em Leticia um sujeito se crucificou para anunciar o fim do mundo. Foi mandado para o manicómio mas as pessoas o tiraram à força porque acham que ele é santo. Leticia é a parte colombiana da selva, não é? Que boa-pinta você está como capitão, filhinho, põe a geleia, o pão e o leite na mesa a senhora Leonor. Agora é da Colômbia, mas antes era do Peru, tiraram de nós, passa manteiga numa torrada Panta. Um pouquinho mais de café, mamãe. Se nos mandassem de novo para Chiclayo, junta as migalhas num prato, tira a toalha a senhora Leonor. Afinal, lá estávamos muito bem, não é mesmo? Para mim, o principal é que não nos mandem para muito longe da costa. Vá, filhinho, boa sorte, com a minha bênção. Em nome do Pai e do Espírito Santo e do Filho que morreu na cruz , ergue os olhos para a noite, abaixa os olhos até as tochas o Irmão Francisco. Minhas mãos estão amarradas, a madeira é oferenda, façam por mim o sinal da cruz! O coronel López López está à minha espera, senhorita, diz o capitão Pantaleão Pantoja. E dois generais também, abre os olhinhos a senhorita. Pode entrar, capitão. Sim, essa aí, a porta marrom. Aqui está o homem, se levanta o coronel López López. Entre, Pantoja, parabéns por esse novo galão. A melhor nota no exame de promoção, e por unanimidade do júri, aperta sua mão, dá um tapinha no ombro o general Victoria. Muito bem, capitão, assim é que se faz carreira para o bem da Pátria. Sente-se, Pantoja, aponta para um sofá o general Collazos. Fique à vontade e segure-se bem para ouvir o que vai ouvir. Não o apavore, Tigre, move as mãos o general Victoria. Assim ele vai pensar que o estamos mandando para o matadouro. Os chefões da Intendência vieram pessoalmente lhe comunicar o seu novo destino, isto significa que a coisa não é tão simples, faz uma expressão grave o coronel López López. Sim, Pantoja, trata-se de um assunto bastante delicado. A presença destes chefes é uma honra para mim, bate o calcanhar no chão o capitão Pantoja. Caramba, o senhor me deixa intrigado, coronel. Quer fumar?, tira uma cigarreira, um isqueiro o Tigre Collazos. Mas não fique aí em pé, sente-se. Como, não fuma? Está vendo, desta vez o Serviço de Inteligência acertou, acaricia uma fotocópia o coronel López López. Isso mesmo: nem fumante, nem pau-d’água nem olho-grande. Um oficial sem vícios, se admira o general Victoria. Já temos alguém para representar as armas no Paraíso, junto com Santa Rosa e São Martín de Porres. Não exagerem, enrubesce o capitão Pantoja. Devo ter alguns defeitos desconhecidos. Sabemos do senhor mais que o senhor mesmo, apanha uma pasta e torna a largar na mesa o Tigre Collazos. Ficaria pasmo se soubesse quantas horas passamos estudando a sua vida. Sabemos o que fez, o que não fez e até o que vai fazer, capitão. Podemos recitar sua folha de serviço de cor, abre a pasta, embaralha fichas e formulários o general Victoria. Nem uma punição como oficial, e como cadete só meia dúzia de advertências leves. Por isso foi escolhido, Pantoja. Entre quase oitenta oficiais da Intendência, nada mais, nada menos, levanta uma sobrancelha o coronel López López. Pode ficar inchado feito um pavão. Agradeço o bom conceito que têm de mim, se embaça a vista do capitão Pantoja. Farei tudo o que puder para corresponder a essa confiança, coronel. O capitão Pantaleão Pantoja?, sacode o telefone o general Scavino. Não estou ouvindo direito. Para que o mandou, Tigre? O senhor deixou uma magnífica lembrança em Chiclayo, folheia um relatório o general Victoria. O coronel Montes estava doido para que ficasse lá. Parece que o quartel funcionava como um relógio graças ao senhor. Organizador nato, senso matemático da ordem, capacidade executiva, lê o Tigre Collazos. Conduziu a administração do regimento com eficácia e verdadeira inspiração. Nossa, o mestiço Montes se apaixonou pelo senhor. Tantos elogios me deixam confuso, abaixa a cabeça o capitão Pantoja. Só procurei cumprir o meu dever, apenas isso. O Serviço das... quê?, solta uma gargalhada o general Scavino. Nem você nem o Victoria vão conseguir me deixar de cabelo em pé, Tigre, esqueceram que sou calvo? Bem, vamos aos factos, sela os lábios com um dedo o general Victoria. Este assunto exige a mais absoluta reserva. Falo da missão que vamos lhe confiar, capitão. Solte os bichos, Tigre. Em poucas palavras, a tropa da selva está comendo as cholas, toma fôlego, pisca, tosse o Tigre Collazos. Há estupros a granel e os tribunais já nem conseguem julgar tanto safado. Toda a Amazónia está em alvoroço. Diariamente nos bombardeiam com informes e denúncias, belisca o queixo o general Victoria. Chegam comissões de protesto dos povoados mais perdidos. Seus soldados abusam das nossas mulheres, espreme o chapéu e perde a voz o prefeito Paiva Runhuí. Fizeram mal a uma cunhadinha minha há poucos meses, e na semana passada quase abusaram da minha própria esposa». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «Caíramos na era do Homem-Vespa, do Homem-Ninguém, onde as almas não se vendiam mais ao Diabo, mas ao Contabilista ou ao Carcereiro. Compreendendo que toda a revolta era vã»

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«(…) Estava longe do aturdimento e da confusão dos estúdios, num silêncio que não era quebrado por músicas mecânicas nem vozes amplificadas. Nada me afligia e, talvez por isso mesmo, sentia-me objecto de uma vaga ameaça. Nesse quarto abandonado, onde o perfume revelava ainda uma presença, encontrava-me como que desconcertado pela possibilidade de dialogar comigo mesmo. Surpreendia-me falando-me a meia-voz. Novamente deitado, olhando o tecto, rememorava os últimos anos passados: via-os rolar do Outono à Primavera, do vento gelado ao amolecimento do asfalto, sem ter tempo de os viver, sabendo, repentinamente, pelos anúncios de um restaurante nocturno, do regresso dos patos selvagens, do bom estado das ostras, ou do reaparecimento das castanhas. Sabia, às vezes, também, da passagem das estações pelos sinos de papel vermelho em exposição nas vitrinas das lojas, ou pela chegada de camiões carregados de pinheiros cujo perfume deixava a rua como que transfigurada durante uns segundos. Havia enormes lacunas de semanas e semanas na crónica da minha vida; períodos que não me deixavam qualquer recordação que valesse a pena, alguma marca de excepcional sensação, alguma emoção duradoira; dias em que todos os gestos me causavam a obsessiva impressão de os ter feito já em circunstâncias idênticas, de me ter sentado no mesmo recanto, de ter contado a mesma história, olhando o veleiro aprisionado no cristal de um pisa-papéis. Quando se festejava o meu aniversário no meio das mesmas caras, nos mesmos lugares, com a mesma canção repetida em coro, assaltava-me invariavelmente a ideia de que ele não diferia do aniversário anterior a não ser pelo aparecimento de mais uma vela sobre um bolo cujo gosto era igual ao precedente. Subindo e descendo a encosta dos dias, com a mesma pedra aos ombros, sustinha-me por meio de um impulso adquirido à força de paroxismos, impulso esse que cederia mais tarde ou mais cedo, a uma data que talvez figurasse no calendário do ano em curso. Mas evadir-me disso, no mundo que o destino me reservara, era tão impossível como tentar reviver, na época actual, certas gestas santas ou heróicas. Caíramos na era do Homem-Vespa, do Homem-Ninguém, onde as almas não se vendiam mais ao Diabo, mas ao Contabilista ou ao Carcereiro. Compreendendo que toda a revolta era vã, após um desenraizamento que me fez viver duas adolescências, a que ficava do outro lado do mar e a que aqui se encerrara, não via onde encontrar alguma liberdade fora da desordem das minhas noites, em que tudo era um bom pretexto para me entregar aos mais reiterados excessos. A minha alma diurna estava vendida ao Contabilista, pensava eu, escarnecendo de mim próprio; mas o Contabilista ignorava que, de noite, eu empreendia estranhas viagens pelos meandros de uma cidade invisível para ele, cidade dentro da cidade, com moradas para esquecer o dia, como o Venusberg e a Casa das Constelações, quando um vicioso desejo, avivado pelo álcool, não me levava aos secretos apartamentos, onde o nome se perde ao entrarmos lá. Subjugado à minha técnica, entre relógios, cronógrafos, metrónomos, em salas sem janelas, revestidas de feltros e matérias isolantes, sempre iluminadas com luz artificial, procurava, instintivamente, quando me encontrava todas as tardes na rua já anoitecida, os prazeres que me faziam esquecer a passagem das horas. De costas para os relógios, bebia alegremente, até cair de borco ao pé de um despertador, invadido por um sono que eu procurava adensar colocando sobre os olhos uma mascarilha negra que me daria, adormecido, um ar de Fantomas em repouso... Esta cómica imagem pôs-me de bom humor. Emborquei um grande copo de xerez, decidido a aturdir a voz da razão que se levantava na minha consciência; tendo recuperado, com este vinho, o calor que o álcool me comunicara na véspera, pus-me à janela do quarto de Ruth, cujos perfumes começavam a recuar perante um persistente odor de acetona. Depois dos cabelos grisalhos entrevistos ao despertar, chegara o Verão, escoltado por sirenes de navios que se respondiam de rio a rio por cima dos edifícios. Lá no alto, entre as evanescências de uma bruma morna, eram os píncaros da cidade: as agulhas sem pátina das igrejas cristãs, a cúpula da igreja ortodoxa, as grandes clínicas onde ficavam Eminências Brancas, sob os travejamentos clássicos, demasiado escorados por causa da altura, daqueles arquitectos que, em princípios do século, perderam o sentido dos estilos. Maciça e silenciosa, a agência funerária de infinitos corredores parecia uma réplica em cinzento, com a sua sinagoga e sala de concertos ao centro, da imensa Maternidade, cuja fachada, despida de qualquer ornamento, tinha uma fileira de janelas todas iguais, que eu costumava contar aos domingos, da cama da minha mulher quando os temas de conversa escasseavam». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
           
Cortesia de SEmergência/JDACT

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «… se tinham apropriado de duas das suas mulheres, incluindo a imperatriz, que era, como mandava a tradição, simultaneamente sua irmã e a sua primeira esposa»

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O cerco a Lima
«(…) A Lima, onde Inés Huaylas amamentava a filha, iam chegando rumores daqueles problemas nos Andes. A azáfama e a animação da nova capital afastavam-na ainda mais do Cuzco, pois o eco dos embates políticos desta região chegava a Lima transformado num simples murmúrio. Pizarro voltou ao litoral convencido de que tudo voltaria à normalidade. O Cuzco recuperaria a sua rotina, pairando acima da realidade como as damas da classe dirigente inca, com os cabelos negros beijando-lhes os ombros, transportadas pela cidade em padiolas e liteiras, alheias ao inconveniente de representarem um poder fictício. Os membros das classes inferiores, envoltos nas suas mantas e gibões de lã de camelídeo andino, continuariam ocupados com as suas tarefas agrícolas ou servis, quando não com a extracção de ouro ou com a construção de edifícios para os seus novos amos. E estes, já sem a presença perturbadora de Almagro, continuariam a imprimir a sua personalidade, sob a forma da mestiçagem, na cidade conquistada. Mas não foi assim, pois a normalidade teimou em fazer-se esperar. Os irmãos Juan e Gonzalo demoraram pouco a encontrar boas bases para os rumores que lhes chegavam aos ouvidos sobre as intenções revoltosas de Manco II, pelo que retomaram as visitas.
Temos conhecimento de que conspiras contra nós!, acusou Juan, encarando-o, com o irmão atrás de si. O governador mandou-nos prender-te, como fizemos com o teu irmão Atahualpa. O que é que eu vos fiz? É dessa forma que pretendeis retribuir-me pelos serviços que vos prestei?! É assim que me agradeceis por vos ter recebido na minha própria terra e vos ter dado tudo o que me pedistes?! Sabemos que conspiras contra nós e vamos castigar-te! Ides prender-me como a um cão, a mim, que tanto fiz por vós?! Que provas estás disposto a dar-nos da tua obediência? Até onde estás disposto a ir para provares que não andas a conspirar contra nós? Mais provas? As que desejeis! Ouro? Prata? O inca apressou-se a reunir duzentos e quinze mil marcos de ouro e cento e cinquenta mil de prata em grandes sacas, com o que apenas adiou o seu cativeiro por três meses. Findo este prazo, recebeu nova visita. Agora queremos uma das tuas mulheres: Inquill Túpac Yupanqui.
Nada o livrou das correntes. E mesmo com elas postas, continuou a receber visitas dos irmãos, que ora o vexavam ora o presenteavam com lisonjas zombeteiras, para melhor sublinharem a sua condição. Alguém te ofendeu? Não o toleraremos!, exclamavam, diante do índio acorrentado. Compreendendo a precariedade do equilíbrio político e militar, e mediante a torrente de notícias sobre estas tensões, Pizarro ia enviando mensagens de Lima, em que pedia comedimento aos irmãos. Mas nem um nem os outros sabiam, em Outubro, que um desertor da expedição de Almagro havia voltado ao Cuzco dissimuladamente e que essa personagem solitária levava, na cabeça, ideias multitudinárias. Com a permissão de vossa alteza, soltar-vos-ei e, em pouco tempo, acabarei com os barbudos, prometeu certa noite, ao inca, o sumo-sacerdote e seu estratega militar, Villac Umu, pouco tempo depois de ter abandonado o exército de Almagro e retornado ao Cuzco. Para faiar com Manco II, a quem eram permitidas visitas, Villac teve de se disfarçar.
Deu-lhe argumentos para se revoltar, mas não eram os argumentos de que Manco precisava naquele momento, em que Juan e Gonzalo se tinham apropriado de duas das suas mulheres, incluindo a imperatriz, que era, como mandava a tradição, simultaneamente sua irmã e a sua primeira esposa. O pacto tácito de manutenção das aparências para dissimular a submissão fora quebrado, e Manco não precisava que ninguém lhe explicasse esta realidade. Porém, não estava seguro do resultado da iniciativa, mesmo tendo o sumo-sacerdote suficiente capacidade de adivinhação para antever os acontecimentos. Villac Umu explicou-lhe que, com os cem mil homens disponíveis e o ânimo da sua gente, que tinha sondado discretamente, em diversos pontos do território, o impossível tornar-se-ia possível. Para estimular a confiança do inca, assegurou-lhe que tinha conseguido acabar com Almagro durante a expedição ao Chile e derrotar, sem dificuldade, a sua cavalaria e os seus soldados». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «Se os invasores estavam a habituar-se a comer batatas, ganso e quinoa e não tinham qualquer problema porque não poderiam tolerar também, nas suas barbas, um inca numa padiola e em regime de partilha com o verdadeiro poder?»

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O cerco a Lima
«(…) O Cuzco era um vale rugoso rodeado de serras, onde o frio da altitude tornava impossível o cultivo de árvores de fruto. Os Incas tinham erigido uma cidade portentosa naquela mesma região, que resistira galhardamente aos embates da Conquista. Quando Almagro chegou à dita cidade, em 1535, com a intenção de tomar posse do que considerava seu, os palácios tinham já menos ouro do que antes, mas conservavam o seu antigo esplendor. Ainda abundavam as tradicionais casas de pedra, madeira e colmo, com terraço, mas os novos habitantes já tinham introduzido a telha e começavam a construir casarões com grandes beirados e portões. No local do palácio de Wiracocha tinham já lançado as fundações da catedral, e, para o do palácio de Huayna Cápac, projetavam um convento. Os espanhóis compreenderam, desde muito cedo, que os índios daquele império eram demasiado numerosos, pelo que os métodos de conquista não passaram pelo extermínio mas pela mestiçagem e pela dissimulação política. Tal implicava preservar, nessa altura, traços suficientes do mundo anterior e, com isso, uma aparência de convivência harmoniosa entre as duas civilizações. Por isso, mantiveram no Cuzco, sob o domínio efectivo de Juan e Gonzalo Pizarro, um chefe inca simbólico, com a sua casta governante. Se os invasores estavam a habituar-se a comer batatas, ganso e quinoa e não tinham qualquer problema em forni… com as nativas, porque não poderiam tolerar também, nas suas barbas, um inca numa padiola e em regime de partilha simulada do governo com o verdadeiro poder? As aparências atenuavam os rancores decorrentes da subordinação.
O Cuzco com que se deparou Almagro tinha como governante formal Manco II, que os espanhóis tinham coroado com uma coroa de lata e coberto com um manto de lantejoulas, para além de lhe terem colocado uma espada toledana à cinta e lhe terem calçado botas com esporas de ouro. Este inca, de tez pálida, nariz aquilino e constituição fraca e fibrosa, deixava-se controlar desde que lhe permitissem reinar..., sem reinar! Era assim que lhe retribuíam o seu apoio, decisivo aquando da tornada do Cuzco às hostes de Atahualpa, e mantinham, ou julgavam manter, a docilidade de um povo que, se tomasse consciência da sua superioridade numérica, poderia anular a Conquista. Mas tudo era tão recente e estava tão pouco firme que o perigo espreitava a cada esquina.
As rivalidades locais tinham sido determinantes no êxito inicial de Pizarro. Agora, cabia aos índios jogar com as alianças instáveis. Manco II apercebeu-se rapidamente da tensão entre Almagro e os Pizarro e, acreditando ter encontrado naquele um bom apoio contra os desmandos e as hostilidades quotidianas destes, tornou evidente a sua simpatia pelo recém-chegado. Os irmãos Pizarro reagiram com novas provocações e, certa noite, Manco II, mais previdente do que digno, procurou refúgio onde lhe pareceu tê-lo mais seguro: sob a capa de Almagro. A cidade ficou, portanto, dividida. Os seguidores dos Pizarro, entre os quais se contavam índios e espanhóis, e os de Almagro, também compostos por gente de ambas as etnias, quase chegaram a vias de facto em plena praça principal. Em Lima, Francisco Pizarro considerou estas perturbações suficientemente graves para interromper a indolência paternal e a urbanização da sua nova capital. Assim, partiu no final de Maio para restabelecer a ordem no Cuzco.
Em meados de 1535, e a pós uma difícil negociação, Pizarro conseguiu convencer Almagro a sair para explorar os seus novos domínios do Sul, ainda não totalmente conhecidos e, sobretudo, dominados. E certo que o Cuzco era o centro da disputa, mas nos territórios mais a sul não havia rivais. Essas terras eram de Almagro. Manco II cedeu-lhe vários milhares de índios, incluindo o sumo-sacerdote e temível general Villac Umu, sem o qual lhe seria impossível assegurar algumas lealdades locais para a expedição. Francisco Pizarro não imaginava que, ao afastar o seu inimigo íntimo, chamava, em vez de afastar, uma ameaça também ela íntima, pois o mais certo era que os beneficiários do afastamento temporário de Almagro, os desordeiros Juan e Gonzalo Pizarro, não tardassem a desencadear acontecimentos sombrios para a Conquista. Pizarro partiu para o litoral para fundar uma nova cidade, a norte de Lima, e deixou o Cuzco entregue aos irmãos. Um elefante que caminhasse sobre as pontes suspensas do Apurímac teria causado menos estragos que esta parelha à solta naquela que ainda era a praça central do império». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «… da distribuição de índios e das investiduras em cargos públicos nos cabidos das cidades que fundava. Mas Almagro queria mais! Queria... queria ser Pizarro! A corte defraudara-o ao negar-lhe o governo do território que ambicionara nos primeiros tempos da Conquista…»

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O cerco a Lima
«(…) Francisco Pizarro reservou para si quatro solares, nos quais instalou a sua própria casa e o centro nevrálgico do poder. Mandou plantar, para si, um pomar com um reservatório de água de ladrilho e cal e fazer um telheiro de lata. Entregou dois solares vizinhos ao seu irmão Hernando e cedeu ao seu meio-irmão Martín Alcántara um solar que fazia esquina com a praça. Também reservou espaço para os futuros conventos de La Merced, Santo Domingo e São Francisco. Foi ele próprio quem assentou as canas, o colmo, a madeira e a pedra da modesta igreja matriz, cuja construção ordenou imediatamente, dedicando-a a Nossa Senhora da Assunção, como era norma da vertente evangelizadora da Conquista. Com o passar do tempo, as ruas que irradiavam da praça foram adquirindo personalidade e nomes que também designavam ofícios. Assim, havia a rua dos mercadores, a dos adeleiros e a das mantas.
No porto, a alguma distância do centro, ergueram-se armazéns para as mercadorias que o mar prometia. O comércio externo era indispensável ao novo mundo, simultaneamente transplante e invenção, a que aspiravam. A enseada ou baía que formava o porto era visível dos solares da praça principal, o que reconfortava Pizarro e os seus, pois isso lembrava-lhes de que, ao contrário dos vales andinos em que tinham defrontado os Incas nos meses anteriores, ali dispunham de uma via de fuga, caso fossem cercados, e também tinham a possibilidade de se reabastecerem e rearmarem, no caso de serem necessários reforços humanos e mecânicos. O mar era também uma via de comunicação com os territórios do Norte; uma rota mais eficiente do que o caminho dos Incas, essa serpente que ziguezagueava pelo interior, contornando vales e desfiladeiros, com todo o tipo de pontos de observação naturais e o perigo permanente de se depararem com inimigos emboscados. Quando desceu a Lima, Francisca ainda não tinha idade para ver as coisas mas para as cheirar, pelo que o seu primeiro encontro com a capital ficou marcado pelo odor salgado do Pacífico, transportado pela humidade do Verão. Esta é a tua nova casa, arvelita disse Pizarro afectuosamente a dona Inés Huaylas, que, habituada, por herança cultural, a venerar determinados elementos da Natureza, não achava demasiado estranho o seu marido e senhor tratá-la pelo diminutivo do nome de uma ave das montanhas da Estremadura.
Pizarro podia ser analfabeto e desprovido do refinamento renascentista, mas os seus reflexos defensivos denotavam a sofisticação própria da capacidade para detectar ameaças. E Diego Almagro, o seu grande companheiro na Conquista, com quem conseguira conquistar um império com mais de um milhão de quilómetros quadrados, era uma ameaça! O Conquistador dedicava boa parte do seu tempo à administração dos apetites dos seus lugares-tenentes, nomeadamente através da divisão do ouro e da prata, da atribuição de comendas, da distribuição de índios e das investiduras em cargos públicos nos cabidos das cidades que fundava. Mas Almagro queria mais! Queria... queria ser Pizarro! A corte defraudara-o ao negar-lhe o governo do território que ambicionara nos primeiros tempos da Conquista, para não se sentir inferiorizado em relação a Pizarro, mas, no início de 1535, chegou a notícia de que o rei decidira conceder-lhe o poder sobre os territórios do Sul, contíguos aos domínios do seu companheiro e rival. Os limites exactos dos territórios sob a sua alçada foram-se esfumando no caminho entre a Península Ibérica e o Peru, pelo que, em vez de diminuir a tensão entre ambos, a boa nova acabou por a estimular. Ao enviar Almagro ao Cuzco, que estava sob o controlo dos seus irmãos Juan e Gonzalo Pizarro, o Conquistador acabou por fazer aumentar, sem querer, as ambições do seu rival. É que era justamente Cuzco, a cidade emblemática de Tahuantinsuyo, que ele cobiçava. E os seus apaniguados, aproveitando a inexactidão das fronteiras entre os dois territórios, sussurravam-lhe dia e noite: o Cuzco pertence à tua jurisdição! Era inevitável que a sua chegada à dita cidade o colocasse em rota de colisão com os dois insolentes jovens de vinte anos, que dela haviam desfrutado como infantes durante aqueles meses de ausência do Conquistador». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «Os solares em torno da praça principal, que era um antigo ‘tambo’ ou depósito inca situado na margem do rio, foram divididos pelos colonos a troco de galinhas. Como ainda eram poucos, foram ocupando as quadras em redor, ficando muitos solares livres, os quais foram entregues…»

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O cerco a Lima
«(…) A administração dos apetites das suas hostes era uma prioridade de Estado não menos urgente do que debelar os focos de resistência índia, de modo que enviou Almagro ao Cuzco com a missão de governar o território enquanto ele se ocupava da fundação da nova cidade. Os seus três enviados encontraram o local ideal no vale perto de Lima, onde convergiam três territórios, habitados por dez mil yungas (índios das regiões costeiras). Encontraram o que procuravam na margem do rio Rímac, situada no território do meio, perto da huaca ou santuário do deus que dava o nome ao rio, que era o oráculo das gentes da região. O local tinha água e dispunha de uma rede de regueiros para a irrigação. As goiabas, os mamões, os fardos de produtos agrícolas e os terrenos de plantio prometiam terrenos férteis para as suas sementeiras, apesar da acentuada aridez de todo o litoral, e havia lenha com fartura. Os palácios dos caciques, as suas sepulturas e as suas choupanas de adobe não constituíam obstáculos ao afã fundador dos invasores. Rodeada de outeiros e pedreiras, Lima prometia abundância de pedra e o seu porto natural permitiria a comunicação com o mundo exterior. Só um inconveniente estorvava o caminho para a foz do Rímac. Para onde irá o meu povo, se o senhor se instalar nestas terras?, protestou o chefe Taulichusco, cacique do seu povo. Não temos outro sítio onde povoar a cidade, respondeu Pizarro.
Assim, a 18 de Janeiro de 1535, estabeleceu a capital num recanto insignificante do império, à lei da espada, e recorrendo a cem colonos dispostos a tudo, com o que deixou, para sempre, as hierarquias regionais em pantanas. Quatro semanas depois, embora a menina fosse ainda demasiado pequena para o perceber com os seus próprios olhos, o repentino aumento da densidade nos seus pulmões serranos deve ter-lhe indicado que algo tinha mudado na atmosfera que respirava, bem como no seu destino. Pela mão de sua mãe, a princesa dona Inés Huaylas, descera à planície, onde a esperavam o pai e um lar por terminar. O Conquistador fizera-se acompanhar por doze mulheres espanholas na aventura da fundação da nova capital, e a décima terceira, meio espanhola meio índia e, por isso mesmo, simultaneamente vencedora e vencida, trazia consigo um orgulho de casta, para além desta cabala inquietante, anunciadora de problemas. Que outra coisa poderia indicar a presteza com que a criatura se juntara aos atarefados organizadores da nova capital, que perturbava para sempre a lógica geográfica e política do império do seu tio Atahualpa e do seu avô Huayna Cápac?
Pizarro traçou o quadrilátero da cidade com a ponta da espada, dividindo-o como um tabuleiro de xadrez, com cada quarteirão dividido em quatro solares. As ruas eram amplas, para permitirem a passagem de cavalos e canhões. Os solares em torno da praça principal, que era um antigo tambo ou depósito inca situado na margem do rio, foram divididos pelos colonos a troco de galinhas. Como ainda eram poucos, foram ocupando as quadras em redor, ficando muitos solares livres, os quais foram entregues às mesmas pessoas para que neles plantassem pomares e organizassem ranchos onde se alojariam os índios, que seriam servos destes novos amos. Na sua maioria, os índios foram expulsos para os arredores e ocuparam os terrenos de cultivo repartidos pelos novos senhores da cidade.
As casas começaram a ser construídas em terracota, que fazia as vezes dos ladrilhos, madeira e colmo, e, em pouco tempo, os fundadores encheram os pomares de árvores de fruto cujos ramos, carregados de figos, marmelos e laranjas, tombaram por cima dos muros de adobe. Como grande parte da terra foi gasta no fabrico deste material de construção, a cidade foi erigida sobre cascalho, um tipo de solo tão pouco denso que a simples passagem dos cavalos fazia estremecer Los Reyes (nome oficial atribuído a Lima) com mais vigor que os esporádicos tremores de terra. Os habitantes improvisaram fazendas e casas de campo nos arredores da cidade e plantaram figueiras, bananeiras, romãzeiras, meloeiros, laranjeiras, legumes, canaviais e olivais em torno do vale por nostalgia, mas também pelo ímpeto de criar, ou recriar. As primeiras casas erguidas em redor da praça principal, em cujo centro o Conquistador mandou colocar um pelourinho, cobriram-se de esteiras feitas de junco e madeira tosca de mangue». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «Silêncio é palavra do meu vocabulário. Tendo trabalhado a música, usei-o mais do que os homens de outros ofícios. Sei como se pode especular com o silêncio, (sempre cdu…) como se pode medi-lo e enquadrá-lo»

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«(…) Dantes, pelo menos, tentava manter a sua forma por uma contínua releitura dos grandes papéis que sempre desejara interpretar. Passava de Norah a Judith, de Medeia a Teza, com uma renovada ilusão; porém, essa ilusão fora vencida, finalmente, pela tristeza dos monólogos declamados frente ao espelho. Na impossibilidade de fazer coincidir normalmente as nossas vidas, as horas da actiz não são as do empregado, acabámos por dormir cada um em seu lado. Ao domingo, pelo fim da manhã costumava passar uns momentos na sua cama, cumprindo com o que eu considerava um dever de esposo, sem saber, no entanto, se na realidade esse meu acto correspondia a um verdadeiro desejo de Ruth. Era provável que ela, por sua vez, se julgasse obrigada a entregar-se a essa prática física semanal em virtude de uma obrigação contraída no momento da assinatura do nosso contrato matrimonial. Eu, por meu lado, agia impulsionado pela ideia de que não devia ignorar a possibilidade de uma necessidade que me era dado satisfazer, calando assim, por uma semana, certos escrúpulos de consciência. O certo era que esse amplexo, ainda que maquinal, voltara a apertar, uma vez mais, os laços frouxos pela divergência das nossas actividades. O calor do corpo restabelecia uma certa intimidade, que era como um breve regresso ao que fora nos primeiros tempos a nossa casa.
Regávamos o gerânio esquecido desde o domingo anterior; mudávamos um quadro de lugar; fazíamos as contas dos gastos domésticos. Porém, os sinos de um carrilhão vizinho advertiam-nos de que a hora da reclusão era chegada. E ao deixar a minha mulher no palco, ao princípio da tarde, tinha a impressão de a devolver a uma prisão onde cumprisse uma condenação perpétua. Ouvia-se o disparo, o falso pássaro tombava do segundo terço de bambolinas, e dava-se por terminado o Convívio do Sétimo Dia. Hoje, no entanto, alterara-se o preceito dominical, por culpa daquele soporífero ingerido de madrugada para conseguir um sono rápido, que não me chegava como dantes, quando vendava os olhos, a conselho de Mouche. Ao despertar, dei-me conta que a minha mulher tinha partido, e a confusão de roupas meio saídas das gavetas da cómoda, os tubos de maquilhagem atirados para um canto, as caixas de pó-de-arroz e os frascos de perfume abandonados por toda a parte, denunciavam uma inesperada viagem. Ruth regressava, agora, do palco, acompanhada por um rumor de aplausos, desatando pressurosamente os colchetes de seu corpete. Fechou a porta com um coice que, de tanto se repetir, desgastara a madeira, e a crinolina, lançada por sobre a sua cabeça, esparramou-se na alcatifa de uma ponta à outra. Ao libertar-se dessas rendas, o seu corpo branco causou-me uma agradável revelação, e já me aproximava para o acariciar, quando sobre a sua nudez caiu um veludo que tinha o odor dos retalhos que minha mãe guardava, na minha infância, nas profundezas da sua arca de mogno. Uma onda de cólera subiu-me à cabeça, contra o estúpido papel que sempre se interpunha entre as nossas pessoas como a espada do anjo das hagiografias; contra aquele drama que dividira a nossa casa, arrastando-me para a outra, aquela cujas paredes se adornavam de símbolos astrais, onde o meu desejo encontrava sempre um espírito propício ao abraço. E fora para favorecer essa carreira nos seus difíceis começos, para ver feliz aquela que então muito amava, que dei um rumo diferente à minha vida, procurando a segurança material no oficio de que era escravo, assim como ela do seu! Agora, de costas para mim, Ruth falava-me através do espelho, enquanto manchava o rosto inquieto com as cores gordurosas da maquilhagem: explicava-me que, depois da representação, a companhia empreenderia, de seguida, uma digressão à outra costa do país e que por essa razão trouxera as suas malas para o teatro. Perguntou-me distraidamente pelo filme apresentado na véspera. Ia contar-lhe do êxito alcançado, lembrando-lhe que o fim desse trabalho significava o começo das minhas férias, quando bateram à porta. Ruth pôs-se de pé, e eu vi-me perante quem, uma vez mais, deixava de ser a minha mulher para se transformar em protagonista; prendeu uma rosa artificial à cintura, e, com um ligeiro gesto de desculpa, encaminhou-se para o palco, cujo pano à italiana acabava de abrir-se levantando no ar um cheiro a poeira e a madeiras velhas.
Entretanto, voltou-se para mim, num aceno de despedida, e tomou a vereda das magnólias anãs... Não me senti com coragem de esperar pelo intervalo seguinte, em que o veludo seria trocado pelo cetim, e uma nova camada de cosméticos se espalharia sobre a anterior. Regressei a nossa casa, onde a desordem da partida pressurosa revelava ainda a presença da ausente. O peso de sua cabeça imprimira-se sobre a almofada; havia, na mesa-de-cabeceira, um copo com água meio bebido, com um precipitado de gotas verdes, e um livro aberto num fim de capítulo. A minha mão podia sentir a mancha ainda húmida de uma loção derramada. Uma folha de agenda, que eu não vira quando entrara no quarto anteriormente, informava-me da inesperada viagem. Beijos. Ruth. P S. Há uma garrafa de xerez na secretária. Senti uma terrível sensação de solidão. Era a primeira vez, em onze meses, que me via sozinho, fora da cama, sem uma tarefa a cumprir no momento, sem ter de correr para a rua com medo de chegar atrasado a algum sítio». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
                                                                                                                              
Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os Passos Perdidos no 31. Alejo Carpentier. «A selva era o mundo da mentira, da armadilha e do falso semblante: ali tudo era disfarce, estratagema, jogo de aparências, metamorfoses. Mundo do lagarto-cogombro, de castanha-ouriço, da crisálida-centopeia e do peixe eléctrico que fulminava desde a quietude das linhaças». Para sempre cdu…

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«Há quatro anos e sete meses que eu não via a casa de colunas brancas, com o seu frontão ornado de carrancudas molduras, que lhe dava um ar austero de palácio de justiça, e agora, perante móveis e velhos trastes colocados nos mesmos lugares tinha a quase penosa sensação de que o tempo regredira. A mesma cortina cor de vinho, a mesma gaiola vazia, a mesma roseira a trepar pela parede. Mais além, estavam os ulmeiros que eu ajudara a plantar nos dias de grande euforia, quando todos nós colaborávamos na obra comum; junto ao tronco envelhecido, o banco de pedra que fiz ressoar como madeira, com o bater dos meus tacões. Por detrás, o caminho para o rio, com as suas magnólias anãs, e o gradeamento de intrincados arabescos à maneira de Nova Orleães. Como na primeira noite, andei pelo átrio, ouvindo a mesma ressonância oca sob os meus passos e atravessei o jardim para chegar mais rapidamente ao local onde se moviam, em grupos, os escravos marcados a ferro, as amazonas de saias enroladas no braço e os soldados feridos, esfarrapados, com ligaduras mal atadas, aguardando a sua hora no meio de sombras tenebrosas, fedendo a betume, a feltros velhos, a suores acumulados nas mesmas labitas. Saí a tempo da zona iluminada, quando o disparo do caçador se fez ouvir e um pássaro tombou no palco do segundo terço de bambolinas. A crinolina de minha mulher voou por cima da minha cabeça, pois encontrava-me precisamente no sítio por onde ela entrava em cena, estorvando-lhe a passagem já de si estreita. Por ser menos penoso, dirigi-me ao seu camarim, e aí tomei consciência do tempo: tudo demonstrava claramente que quatro anos e sete meses não se passavam sem desgastar, desluzir e murchar. As rendas dos remates estavam ruças; o cetim negro da cena do baile perdera a bela rigidez que o fizera ranger em cada reverência, como um revolutear de folhas secas. Até as paredes do aposento se tinham deteriorado, por serem sempre tocadas nos mesmos sítios, mostrando assim as marcas da sua longa convivência com os cosméticos, as flores retardadas e os trajes da fantasia. Sentado agora no divã, que de verde-mar passara a verde-cinza, consternara-me pensar quão dura se tornara, para Ruth, essa prisão de tábuas e artifícios, com suas pontes volantes, suas teias de cordel, suas árvores pintadas. Na altura da estreia dessa tragédia da Guerra da Secessão, quando nos tocou a nós ajudar o jovem autor, servido por uma companhia recém-saída de um teatro experimental, entrevíamos no máximo uma aventura de vinte noites. No entanto, atingimos as mil e quinhentas representações, sem que as personagens, ligadas por contratos sempre prorrogáveis, tivessem alguma possibilidade de se evadir da acção depois que os empresários, utilizando o generoso ardor da juventude em proveito dos seus grandes negócios, receberam a obra na sua sociedade. Assim, para Ruth, longe de ser uma porta aberta sobre o vasto mundo do Drama, uma forma de evasão, este teatro era a Ilha do Diabo. Suas breves fugas, quando se permitia tomar parte em espectáculos de beneficência, sob o penteado de Pórcia ou a túnica de alguma Ifigénia, não lhe traziam grande alívio, pois por debaixo de um vestido diferente os espectadores procuravam a rotineira crinolina, e na voz que pretendia ser a de Antígona, todos encontravam as inflexões de contralto da Arabela, que agora no palco aprendia com Booth, numa situação que os críticos tinham por prodigiosamente inteligente, a pronunciar correctamente o latim, repetindo a frase: Sic semper lyrannis. Seria necessário, no entanto, ter o génio de uma trágica ímpar para se libertar desse parasita que se alimentava do seu sangue; daquela hóspede de seu próprio corpo, incrustada em sua carne como um mal sem remédio. A vontade de romper com o contrato não lhe faltava. Porém, essas revoltas pagavam-se, no ofício, com um longo desemprego, e Ruth, que começara a dizer o texto com a idade de trinta anos, via-se chegada aos trinta e cinco, repetindo os mesmos gestos, as mesmas palavras, todas as noites da semana, todas as tardes de domingo, sábados e dias feriados, sem contar com os espectáculos das digressões estivais. O sucesso da obra aniquilava lentamente os seus intérpretes, que iam envelhecendo à custa do público de dentro de suas roupas imutáveis, e quando um deles morrera de enfarte, certa noite, pouco depois de cair o pano, a companhia, reunida no cemitério na manhã seguinte, exibira, talvez, sem se dar conta, uma aparatosa roupa de luto que mais fazia lembrar um daguerreótipo. Cada vez mais desgostosa, menos esperançada em atingir uma carreira que, apesar de tudo, amava por profundo instinto, a minha mulher deixava-se arrastar pelo automatismo do trabalho imposto, como eu me deixava arrastar pelo automatismo da minha profissão». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.

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segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Primeira Mestiça. Álvaro Vargas Llosa. «Não é preciso termos sido confidentes de Francisca para sentirmos o palpitar do seu coração e compreendermos o muito que se passa no sei íntimo enquanto, por fora, iam sucedendo os factos relatados…»

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O cerco a Lima
«Jauja nasceu entre guanacos (também conhecido por lama), raposas e vicunhas (também conhecido por vigonho, taruca ou taruga) e morreu entre as pernas da princesa virgem Inés Huaylas precisamente no dia em que Francisco Pizarro descobriu a ternura. Tinham passado apenas oito meses entre a fundação de Jauja, em Abril de 1534, com as celebrações de pompa e circunstância que Manco II organizara em honra dos novos senhores do império, e o nascimento da mestiça. Quando a filha abriu caminho para sair das entranhas da princesa inca Inés Huaylas, já o Conquistador tinha decidido transladar a capital para a orla costeira, numa viagem de sentido contrário à da expedição que o levara, a passo de vencedor, da espuma do Pacífico até aos cumes andinos do Cuzco. Antes de partir para o litoral como objectivo de determinar a localização exacta do novo eixo político do país, foi surpreendido, bem como os seus lugares-tenentes, pela constatação de que na sua alma guerreira havia lugar para a humanidade. A sua mestiça era muito mais do que a prova da sua estada em Tahuantinsuyo. Na verdade, representava o seu encontro outonal com um exército para si até então desconhecido, o qual não usava cavalos, arcabuzes, fundas ou flechas. Era o exército dos seus próprios sentimentos. Acabara por ceder perante esta força, ainda que não sem resistência.
O estratega não se esquecia de que os focos de resistência índia permaneciam muito activos; que, a norte, alguns compatriotas ávidos de última hora ameaçavam os confins da província sob o seu governo; nem que ainda estava por fixar o local exacto da nova capital. No entanto, por alguns dias, o geómetra da Conquista do Peru entendeu que gerar uma raça era uma façanha mais extraordinária do que fundar uma cidade, pelo que se entregou aos festejos do nascimento da criatura sem lhes regatear um instante da sua boa disposição. Participou em torneios, à espanhola, e bebeu chicha de milho, como os índios, enquanto os espíritos de uns e de outros eram assaltados pelo pressentimento de que os vagidos daquela doce amostra de gente tornariam a guerra ainda mais confusa do que as alianças de certas facções locais com os invasores, que tinham por objectivo o acerto de contas pendentes com os Incas. De que forma é que o espírito de Pizarro, fugazmente enternecido com a paternidade, seria afectado pela consciência de que, dali por diante, o inimigo passava a incluir a mãe da sua filha? E os vencidos? Entenderiam como uma segunda derrota, como uma garantia ou sobretudo como uma espécie de vingança cósmica o facto de o seu conquistador, o carrasco de Atahualpa, partilhar a sua descendência com a irmã do inca morto?
Nem uns nem outros expressaram publicamente estas dúvidas, pois as danças e os torneios encheram de festa o vale serrano de Jauja naqueles derradeiros dias de 1534. Uma minúscula expedição, enviada para a orla costeira, pouco tempo antes, por Pizarro, explorava os arredores de Pachacamac, em busca do local ideal para a nova capital política do império. Jauja despedia-se da sua honra efémera de cidade capital misturando para sempre o sangue das partes inimigas. Tal como acontece com algumas espécies zoológicas, que morrem ao dar a vida à descendência, também Jauja entregou a sua quando outra vida nasceu. Depois de baptizar a sua mestiça, cujas madrinhas foram Isabel, a Conquistadora, Beatriz, a Mourisca e Francisca Pinelo, soldaderas lendárias nestas suas terras adoptivas, Pizarro partiu para o litoral com o intuito de transladar a capital. Um esquecimento providencial do cabido tinha-lhe facilitado a tarefa, pois os habitantes de Jauja acreditavam que as terras frias e estéreis da montanha os impossibilitariam de criar os seus porcos, aves e cavalos, pelo que apoiaram efusivamente a transladação para junto do mar. Inés Huaylas e Francisca, a recém-nascida, permaneceram na cidade enquanto Pizarro resolvia os assuntos de Estado a partir do santuário indígena de Pachacamac, muito perto de Lima. O Conquistador visitara o lugar anteriormente e tinha outorgado ao seu irmão Hernando a numerosa comenda de Chincha. Despachou três homens com a missão de encontrar o local perfeito para o seu objectivo, pois queria fixar o seu centro político antes de os rivais se lhe adiantarem, estabelecendo uma testa-de-praia no litoral. Temia, sobretudo, Pedro Alvarado, que desembarcara a norte com a intenção de tomar de assalto o território governado por ele, cujos limites estavam ainda por fixar de forma definitiva. As novas de que Diego Almagro, seu antigo companheiro de muitas batalhas, se tinha juntado a Alvarado e que ambos avançavam em direcção a Pachacamac, vindos do Norte, aumentavam a sua inquietação. Nesse tempo, em que as hierarquias e a lealdade eram de barro, nem o grande arquitecto da Conquista tinha os foros garantidos. Almagro e Alvarado chegaram, por fim, a Pachacamac. E não, não iam mancomunados. Depois de o felicitar pelo nascimento da filha, Almagro informou-o de que tinha convencido Alvarado a abandonar o Peru. Sebastián Benalcázar tinha-se adiantado ao ávido estremenho na tomada de Quito, e Alvarado decidira vender a sua frota e os serviços dos seus homens a Pizarro». In Álvaro Vargas Llosa, A Primeira Mestiça, 2004, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-503-4.

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