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sábado, 31 de outubro de 2015

Alguns aspectos da vida universitária no 31. Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «… Penso que esta era uma das razões da má vontade que um outro grande humanista, André Resende, guardou toda a vida a nuestros hermanos…»

Cortesia de wikipedia

«(…) De Diogo de Teive, que também esteve preso, como Buchanan, perdeu-se a tragédia que foi representada nesses anos, intitulada Judith, mas chegou até nós outra que escreveu depois de 1554, a Tragoedia Ioannes Princeps, sobre a morte do príncipe herdeiro, pai do futuro rei Sebastião I. Mais tarde, quando o Colégio das Artes passou para as mãos dos jesuítas, depois de 1555, a tradição das representações dramáticas continuou. Por Coimbra se demorou mesmo um dos maiores dramaturgos da Ordem, Miguel Venegas, que viria a ser licenciado, como então se dizia, isto é, expulso da Companhia de Jesus. E sabe-se que em 1570, o rei Sebastião I assistiu durante horas à representação do Sedecias do padre Luís Cruz. Também o uso das máscaras nos cortejos universitários está documentado em legislação do tempo de João III que as proibiu. Regressemos, porém, às glórias da vida universitária local, segundo o Conimbricae Encomium de Inácio Morais.
O poeta trata seguidamente dos concursos para as vagas de professor, as chamadas oposições. Aos candidatos dava-se o nome de opositores. Sirvo-me, de novo, da tradução que publiquei no artigo já referido: … e não menos exulta [Coimbra], quando alguém, em formosa competição de talento, alcança com a vitória os prémios, e sufrágios em maior número lhe atribuem a cátedra para que, a seguir, muito transmita sabiamente aos alunos. A multidão dos seus partidários, com um rumor aprovativo, dobra os aplausos e grita de alegria; proclama-o vencedor e aponta-o ao povo, por onde passa, e ergue-o aos ombros e senta-o na cátedra. Ao invés, o vencido em vão suspira, está desconsolado, tem os olhos fixos em terra. Rodeiam-no os companheiros e ao triste dizem palavras de consolação e exortam-no a que suavize as tristezas com uma esperança melhor.
Podemos dizer que esta é ainda a face luminosa da medalha. O reverso, porém, cobre-se de sombras espessas de cepticismo em face da natureza humana. Na verdade, estas oposições eram a ocasião das maiores arbitrariedades e injustiças, e até de autênticas infâmias. Os grandes mestres, convidados por João III com esplêndidos ordenados, como Martin Azpilcueta ou Fábio Arcas, viam-se providos nas cátedras sem oposição. Também não havia oposição, quando o candidato era único e aceite pelo Conselho. Ao passo que nos lugares ocupados por concurso entre vários ficavam os candidatos sujeitos aos votos dos ouvintes que durante um certo tempo assistiam às suas lições e depois votavam. Nem sempre, venciam os melhores. E havia na juventude, entre os estudantes, uma tendência para votar nos que estavam mais perto de si, pela idade, pela nacionalidade, por várias outras razões que não tinham que ver com a competência. Em Salamanca, onde o sistema era idêntico, professores distintos como Antonio Nebrija ou o português Aires Barbosa foram preteridos, nestas votações, por concorrentes muito inferiores.
Contemos brevemente o caso do nosso compatriota, a quem até o facto de ser português deve ter prejudicado. Penso que esta era uma das razões da má vontade que um outro grande humanista, André Resende, guardou toda a vida a nuestros hermanos. E se Manuel Costa e Aires Pinhel tiveram êxito, em 1561, é preciso não esquecer que eram filhos da escola salmantina. Voltando ao caso típico de Aires Barbosa. Ele foi, como é sabido, o introdutor do Grego na Península Ibérica, ao ensinar na Universidade de Salamanca, a partir de 1495, a língua helénica que aprendera em Itália. O Grego era, porém, uma catedrilha não obrigatória e menos rendosa que a de Gramática Latina. Em Coimbra, nos meados do séc. XVI, as duas primeiras classes de Latinidade eram pagas a 100 000 réis por ano e o Grego a 50 000. Mas voltando a Salamanca. Tendo vagado a cadeira de Gramática, Aires Barbosa apresentou-se a concurso com um outro candidato que de modo algum podia comparar-se-lhe. Era, porém, Pedro Espinosa, o rival, castelhano e mais jovem. O prestigioso mestre Grego, como lhe chamavam, foi batido». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «O cortejo académico segue pelas ruas da cidade, a caminho do palácio onde João III instalara o Estudo Geral, em contraste com a pacatez da cerimónia actual, circunscrita ao pátio da Universidade e à Sala dos Capelos»

Cortesia de wikipedia

«(…) Foi Stochamer bedel de Cânones e de Leis na Universidade, sendo de notar que o lugar de bedel era então mais importante do que hoje, se é que tal posto ainda existe. Tenho notícia de um Doutor Nicolau Lopes que foi bedel. A respeito da vida e obras de Stochamer, veja-se o artigo que sobre ele escrevi para a Enciclopédia Verbo. Quanto a Fábio Arcas foi sepultado com uma bela inscrição latina que Stochamer compôs em sua honra, na Igreja de São Cristóvão, mais tarde profanada e transformada no actual Cinema Sousa Bastos, depois de ter sido teatro académico no século passado. Estrangeiro também devia ser um César Picolelli, estudante universitário que, por recomendação de Ascânio Escoto, um italiano, foi nomeado bedel da Faculdade de Leis em 18 de Janeiro de 1549. Será de recordar aqui que nenhum dos estrangeiros que conheço ficou sujeito às consequências de um alvará de 16 de Outubro de 1546 que mandava entregar ao lente de prima de Medicina os cadáveres dos doentes estrangeiros que falecessem no Hospital de Coimbra, acentuando e serão pessoas estrangeiras de que por isso se não siga escândalo algum. Vae soli!
Deve acrescentar-se que, pelos Estatutos de 1559, todos os cadáveres do Hospital, e não apenas os dos estrangeiros desconhecidos, ficavam sujeitos a exercícios anatómicos. Na pequena cidade de Coimbra, a vida universitária tinha uma projecção maior do que hoje. O Conimbricae Encomium de Inácio Morais, publicado em 1554, assim canta em dísticos elegíacos as cerimónias públicas da Universidade: … acrescente-se que também Coimbra distrai o seu povo com alegres festejos que celebra com frequência. Assim, todas as vezes que alguém solicita o prémio dos seus estudos e que lhe cinjam gloriosamente a cabeça com o ramo de louro, canta-se, à maneira antiga, o alegre triunfo e um cortejo se encaminha ordenadamente às doutas Escolas. Vai à frente o Reitor, acompanhado de áureos feixes, e segue-o multidão espessa de varões. Vai a comitiva dos doutores, com as têmporas coroadas e os trajos tingidos cada um da cor que lhe pertence. A multidão cheia de espanto corre de todos os lados na ânsia de ver, e reboam os tambores tocados em festivo modo. E a rouca trombeta mistura, com alternado estrépito, o som e juntam as flautas ocas seus finos ritmos. Então gostam de andar, por um lado e por outro, jovens de rosto mascarado e de soltar graciosas troças. Como outrora, quando o general romano, dominado o inimigo, celebrava o triunfo e conduzia vencedor os cavalos brancos, e coroado de louros era recebido com grande honra pelo Senado, e o povo em alta voz dava-lhe o seu aplauso, de igual modo toda a Academia se alegra em festivo clamor, quando alguém recebe o apolíneo louro. Esplêndidas tapeçarias ornamentam o teatro espaçoso: senta-se a ordem dos senadores e o coro de Palas. Então deleitar-te-á a abundância eloquente da prosa e uma graça que flui de Cícero. E há-de seduzir-te a tragédia pomposa que caminha em graves versos ou a musa cómica, em seu leve soco. [… adde, quod et populum laetis Conimbrica ludis Exhilarat, crebro quos celebrare solet. Nam quoties quisquam siudiis sua praemia poscit, Et lauri emeritum cingere fronde caput: Antique canitur laetus de more triumphus, Pergit et ad doctas ordine pompa Scholas. Incedit rector, comitatus fascibus aureis. Atque comes sequitur densa caterua uirum. Turba it doctorum, redimitaque têmpora sertis, Textaque quisque suo tincta colore gerunt. Plebs stupefacta ruit studio diffusa uidendi, Et reboant festo tympana pulsa sono. Miscet et alterno strepitu tuba rauca sonorem, Argutos fundunt et caua buxa modos. Turn personatis iuuenes discurrere gaudent Vultibus, et lépidos ore referre iocos. Sic cum Romanus domito dux hoste triumphum, Atque olim niueos uictor agebat equos: Laurigerum magno excipiebat honore senatus, Et populus plausum uoce sonante dabat. Tota igitur gaudet clamore Academia festo, Donatur lauru dum quis Apollinea. Attalica exornant spatiosum aulaea theatrum: Ordo sedet patrum, Palladiusque chorus. Copia mulcebit tune te facunda soluti Eloquii, atque fluens de Cicerone lepos. Teque graui incedens tumefacta tragoedia uersu, Aut socco alliciet cómica Musa leui. (o texto é o da edição de 1554, tirado do exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa, Res. 191 V)].
Tirei esta tradução dum artigo que publiquei, há anos, na revista Panorama (n.° 15, III Série, Lisboa, Setembro de 1959; título Coimbra do Renascimento: um texto pouco conhecido). O doutoramento solene é claramente comparado no poema latino de Inácio Morais a um triunfo militar romano, quer antigo, quer às imitações modernas como a que dele fizeram em Goa, em 1547, para celebrar o triunfo de João Castro sobre os sitiantes de Diu e pode ainda ver-se nas tapeçarias que se encontram, no Museu Imperial de Viena. O cortejo académico segue pelas ruas da cidade, a caminho do palácio onde João III instalara o Estudo Geral, em contraste com a pacatez da cerimónia actual, circunscrita ao pátio da Universidade e à Sala dos Capelos. Os versos finais do trecho que citei parecem aludir a representações teatrais como as que estavam previstas nos estatutos do Colégio das Artes e de certo ocorreram em Coimbra, depois de 1548, se já não existiam antes como uma carta de 1538 deixa entrever. Michel Montaigne recorda que no Collège de Guyenne o principal André Gouveia organizava anualmente esses espectáculos como parte da actividade pedagógica da escola e de certo terá continuado a fazer o mesmo em Coimbra, tanto mais que três dos seus companheiros eram dados ao teatro novilatino. Refiro-me ao escocês George Buchanan, o francês Guilherme de Guérente e o português Diogo Teive. Mas das representações dos bordeleses não ficou qualquer descrição, decerto contribuindo para o esquecimento as suspeitas de heresia que a Inquisição (maldita) lançou sobre os dois professores estrangeiros e o português». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «A Universidade ficou impressionada com tanta honradez e dedicação do jovem bávaro que se encontrava em graves dificuldades económicas. E João III promoveu Stochamer…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas voltando a Fabrício, apenas um dos seus colegas lhe mereceu relevo especial, a saber, quem o tinha trazido do Colégio de Guyenne de Bordéus, o principal André Gouveia. Do mestre português dirá, anos mais tarde, como é geralmente sabido, o mais famoso dos antigos alunos do colégio bordelês, Michel Montaigne, que André Gouveia fora no seu tempo, sans comparaison le plus grand principal de France. Outros professores do Colégio das Artes, do grupo trazido por André Gouveia, que recordo aqui para assinalar a sua presença em Coimbra, entre 1548 e 1550, são, além do francês Arnold Fabrice, os seus compatriotas Guilherme Guérente, Nicolau Grouchy e Elias Vinet; os escoceses George e Patrick Buchanan; os portugueses João Costa, António Mendes Carvalho e Diogo Teive.
Assinalemos a quantidade de estrangeiros que se encontravam em Coimbra entre 1548 e 1550, pois muitos dos mestres mencionados atrás na oração de Juan Fernandez, ele mesmo um espanhol, são igualmente de além-fronteiras. Ao acaso, darei o nome de alguns : Afonso Prado e Martinho Ledesma eram castelhanos; Martin Azpilcueta era basco; Fábio Arcas e Ascânio Escoto eram italianos. Isto, pelo que diz respeito a teólogos, canonistas e juristas; quanto aos médicos: Reinoso e Franco eram espanhóis; e dos mestres de Artes, mencionados, Eusébio era italiano e Vicente Fabrício, germanus, não sendo, portanto, parente de Arnaldo Fabrício que era francês. Aliás, o alemão encontrava-se em Coimbra, há muito, quando chegou o bordelês. A Vicente Fabrício há referências nas denúncias à Inquisição (maldita): era acusado de comer carne às sextas-feiras e de ir para a missa ler o escritor grego Luciano, a quem um denunciante chama, sem grande propriedade, apóstata. Tê-lo-á confundido com o imperador Juliano, o Apóstata? A carne em dias defesos, não a comia sozinho, segundo o mesmo denunciante, o médico Jorge Sá, mas com huû Amrique de Colónia lyu.T0 q vyuia em coJmbra. Disse ainda o licenciado Jorge Sá que ho dito m.te fabricyo he m.to merencório & q bebe como Alemão & q p A minham começa logo A beber. A denúncia é de 4 de Maio de 1552.
Sete anos mais tarde, o livreiro Anrique Colónia, certamente alemão como Fabrício, já tinha falecido, pois num registo do Livro de Óbitos de Santa Cruz de Coimbra, entre 1558-70, que me comunicou Maria Georgina Ferreira, se encontra a seguinte e valiosa informação: aos 19 do dito mes e era [Junho de 1559] se finou Maria Ruan, f.a de João de Ruan e jaz a par da pia do baptizar em a sepultura de anrique de colónia seu primeiro marido (...). Portanto, o alemão Henrique Colónia era casado com uma filha do francês João Ruão, cujo centenário da morte há pouco celebrámos (em 1980; João Ruão faleceu em Coimbra, em 28 de Janeiro de 1580). De outros estrangeiros em Coimbra, e ligados a actividades culturais, temos conhecimento, por exemplo, de mais um alemão, Sebastião Stochamer que veio para Coimbra como criado-estudante do professor italiano Fábio Arcas Narni ou Narnia, já atrás mencionado. Era de Ingolstadt, a norte de Munique, de onde acompanhou o seu patrão e mestre. Este tomou posse do lugar de professor de prima de Leis em 29 de Outubro de 1547, mas veio a falecer, aqui em Coimbra, em 10 de Julho de 1554. Sebastião Stochamer tratou de tudo o que dizia respeito aos bens do amo com tal isenção, que nada guardou para si, restituindo todos os haveres a um parente do italiano que veio a Coimbra para o efeito. A Universidade ficou impressionada com tanta honradez e dedicação do jovem bávaro que se encontrava em graves dificuldades económicas. E João III promoveu Stochamer a cavaleiro fidalgo de sua casae nomeou-o corrector das provas da Imprensa da Universidade com 30 000 réis anuais, quando o seu antecessor, Cristóvão Nunes, ganhava apenas 12 000, desde que Fernão de Oliveira, o mais antigo dos três, fora preso pela Inquisição (maldita)». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 10 de outubro de 2015

A Infanta dona Maria e o seu Tempo. Américo C. Ramalho. «A Infanta dona Maria foi o último dos filhos do rei Manuel I. Era cerca de vinte anos mais nova do que seu irmão, o rei João III. Por outro lado, sua mãe, a rainha dona Leonor de Áustria, terceira mulher de seu pai, fora a noiva destinada a esse irmão…»

Cortesia de wikipedia

«Conferência lida em 7 de Junho de 1986 na sessão solene de entrega dos diplomas aos primeiros licenciados do Curso de Humanidades do Centro de Viseu da Universidade Católica Portuguesa, cerimónia a que presidiu o bispo de Viseu, José Pedro Silva, presidente da Comissão Administrativa do mesmo Centro. A Infanta dona Maria foi senhora de Viseu. O investigador viseense Alexandre Lucena Vale, No Quarto Centenário de João de Barros, Edição da Junta Distrital de Viseu, 1970, mostrou que o Panegírico da Infanta dona Maria, de João de Barros, foi composto na altura em que João III conferiu a sua irmã o senhorio de Viseu, por volta de 1546. Um esboço da presente conferência foi lido na Escola Secundária Infanta dona Maria, em Coimbra, em 19.2.1986»

«A Infanta dona Maria foi o último dos filhos do rei Manuel I. Era cerca de vinte anos mais nova do que seu irmão, o rei João III. Por outro lado, sua mãe, a rainha dona Leonor de Áustria, terceira mulher de seu pai, fora a noiva destinada a esse irmão mais velho, da qual o pai de ambos, o rei Manuel I, se apossou para si, intrigando junto da corte de Carlos V, irmão de dona Leonor, por intermédio de um emissário de confiança e com o auxílio de presentes aos participantes nas negociações. O príncipe João, futuro João III, viu chegar a madrasta, com alguma revolta contra as intrigas de seu pai que o fizera apresentar à sua prometida como um idiota. Esta, ao chegar a Portugal, deu-se conta do logro e terá perguntado, quando lho apresentaram: Es este, el bovo?
O príncipe D. João era um rapaz desempenado e de agradável aparência. De idiota não tinha nada, mas aprendeu cedo a ser dissimulado e hipócrita. Entretanto, a jovem rainha dona Leonor, com vinte e um anos, casada com Manuel I, cerca de trinta anos mais velho, começou a ter filhos, segundo o provérbio popular de que homem velho e melher nova, filhos até à cova. Nos dois anos em que estiveram casados, de fins de Novembro de 1518 a 13 de Dezembro de 1521 em que Manuel I morreu, tiveram dois filhos: o infante Carlos (18.2.1520 - 15.4.1521) que viveu pouco mais de um ano e a infanta dona Maria, nascida em Lisboa, em 8 de Junho de 1521. Quando seu pai faleceu, tinha, portanto, a infanta seis meses de idade.
Após a morte de Manuel I, uma onda de simpatia romântica parece ter-se desencadeado na corte portuguesa. Muitos queriam que o jovem rei e sua jovem madrasta casassem. Entre o povo, que era no fundo quem pagava os casamentos reais com os tributos extraordinários que para o efeito lhe eram pedidos, além da simpatia pelos dois jovens, havia a preocupação com o dote da rainha que teria de ser restituído, se ela não casasse com o príncipe. Estas considerações materiais eram tão importantes, que o mais qualificado representante da nobreza, o duque de Bragança, Jaime, foi um dos que advogaram o casamento de João III com dona Leonor.
A rainha olhava o enteado, e a hipótese do casamento, com visível aprovação. E a afeição do jovem monarca pela madrasta não era segredo para ninguém. Se tivessem casado, dona Leonor seria mulher depois de ter sido madrasta. E a infanta dona Maria tornar-se-ia enteada, além de ser irmã. Todavia, João III teve escrúpulos e preferiu não casar. Mas o envolvimento romântico entre ele e a madrasta existiu e chegou mesmo às páginas dos cronistas, normalmente discretos, nestas coisas de decoro real. Veja-se, por exemplo, o capítulo duodécimo da parte I dos Anais de D. João III de frei Luís Sousa.
Por fim, a rainha dona Leonor partiu, depois de lutar arduamente para levar consigo a infantinha sua filha. Lutaram ela e seu irmão Carlos que, além de rei de Espanha, era desde Outubro de 1521 imperador da Alemanha. João III não cedeu e a infanta ficou em Portugal. Já então as razões económicas devem ter pesado nesta decisão do rei. A infanta, pelo contrato de casamento de sua mãe, tinha direito a uma elevada soma e ficava herdeira de seu pai e dos rendimentos permanentes que a sua mãe eram devidos dos bens que, por força do contrato matrimonial, herdara no nosso país. Além disso, e para não falar só de dinheiro, estava na linha de sucessão do trono português. As questões materiais e no seu caso, por ironia do destino, a afluência, e não o contrário, virão a ser determinantes nas vicissitudes da vida da Infanta dona Maria. Seu irmão, o rei, casará com dona Catarina, irmã mais nova de sua mãe, em 5 de Fevereiro de 1525 e, aos quatro anos de idade, a pequena infanta dona Maria fica, assim, com uma mãe adoptiva que será simultaneamente sua tia e sua cunhada. João III considerar-se-á sempre como seu pai adoptivo, e é de crer que lhe fosse afeiçoado, mas na prática olhará sobre aos seus interesses pessoais e aos da família que acabava de constituir». In Américo Costa Ramalho, A Infanta dona Maria e o seu Tempo, Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «O conde de Alcoutim, Pedro Meneses, não era professor universitário, mas um jovem aristocrata, discípulo do humanista italiano Cataldo Parísio Sículo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Conferência feita na Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, em Coimbra, em 29 de Abril de 1981. Algumas das fontes, nomeadamente, o testemunho de Martin Azpilcueta Navarro, o das Actas dos Conselhos da Universidade de Coimbra e o de Inácio Morais no Conimbricae Encomium já foram utilizados por Teixeira Carvalho em A Anatomia em Coimbra no século XVI, Alonso Rodriguez Guevara, Revista da Universidade de Coimbra, vols. II (1913), III (1914), IV (1915), V (1916), trabalho aproveitado por Joaquim de Carvalho na sua edição das Noticias Chronologicas da Universidade de Coimbra escriptas pelo beneficiado Francisco Leitão Ferreira, Segunda Parte, Volume I, Coimbra, 1938, p. 609 e seguintes».

Na história da Universidade, depois da sua última transferência para Coimbra, o ano de 1548 é dos mais significativos. Foi um ano de orações académicas. Assim, em 21 de Fevereiro, na véspera do começo das aulas (pridie quam Ludus aperiretur. IX. Cal. Martii. MDXLVIII), pronunciava Arnaldo Fabrício a sua celebrada oração inaugural De Liberalium Artium Studiis Oratio in Gymnasio Régio, isto é, no Colégio das Artes Conimbricense, fundado nesse mesmo ano por João III. Em 17 de Julho também de 1548, quando o Infante Luís visitou Coimbra, saudou-o em nome da Universidade, o mestre de Retórica João Fernandes num discurso intitulado De Celebritate Academiae Conimbricensis, Sobre a Fama da Universidade de Coimbra. O orador desenrolou perante os olhos e ouvidos do irmão do Rei, as glórias do corpo docente universitário, referindo, com maior ou menor extensão, o currículo e os méritos de mestres como os teólogos Afonso do Prado, Marcos Romeiro, frei Martinho de Ledesma e Paio Rodrigues Vilarinho, os canonistas Martinho Azpilcueta, o doutor Navarro, João Morgovejo e Fábio Arcas Nârnia, os juristas Manuel Costa e Ascânio Escoto, os médicos Rodrigo Reinoso, Francisco Franco e António Luís, o matemático Pedro Nunes, os mestres de Artes, Gaspar Bordalo, Vicente Fabrício Eusébio.
Finalmente, ainda em 1548, a 1 de Outubro, que era então o dia de abertura solene das aulas, dia de São Remígio (la Saint-Remy dos franceses), falou De Disciplinaram Omnium Studiis Oratio ad Uniuersam Academiam num elogio de todas as matérias ensinadas na Universidade e no Colégio das Artes, o professor desta última escola, Belchior Beleago. Deve notar-se que no princípio do século, quando a Universidade estava em Lisboa, a abertura solene do ano lectivo se fazia a 18 de Outubro, dia de São Lucas. Estas orações contêm dados importantes sobre pessoas e coisas do meio universitário conimbricense, em meados do século XVI. Não são, porém, como actividade académica, a inovação que durante muito tempo se julgou terem sido. A prática vinha já da Universidade de Lisboa. Recordarei em anos próximos de 1537, data em que o rei João III transferiu a Universidade para Coimbra, a Oratio de André Resende, em 1534, e a de Jerónimo Cardoso, em 1536. Todavia, não difere muito destas, a Oratio habita a petro menesio comité alcotini coram Emmanuele. S. rege in scholis vlixbonae ou Discurso pronunciado por Pedro Meneses, conde de Alcoutim, na presença do Sacratíssimo Rei Manuel nas Escolas em Lisboa, a 18 de Outubro de 1504.
O conde de Alcoutim, Pedro Meneses, não era professor universitário, mas um jovem aristocrata, discípulo do humanista italiano Cataldo Parísio Sículo. Aliás, estes discursos inaugurais eram frequentemente ditos por pessoas que não ensinavam na Universidade, e no caso de Pedro Meneses, que tinha apenas dezassete anos de idade, a incumbência deve corresponder a um uso frequente nas cidades universitárias italianas, possivelmente trazido por Cataldo, de confiar orações deste género a moços de famílias cultas. O conde de Alcoutim era o filho primogénito de Fernando Meneses, segundo marquês de Vila Real, chamado por Salvador Fernandes pai da língua latina, numa oração de entrada em Vila Real, dita nos começos de 1509.
Mas voltemos a Coimbra, no ano de 1548. Vimos atrás, alguns dos mestres que João Fernandes ou, melhor, Juan Fernandez, natural de Sevilha, elogiou, de par com as ciências de que eram o expoente em Coimbra. Arnaldo Fabrício exalta sobretudo as disciplinas e, em geral, a alta qualidade dos mestres que vêm, segundo ele julgava, expulsar a barbárie da Lusitânia. Esta pretensão tiveram-na, aliás, todos os estrangeiros que ensinaram em Portugal, a começar com Cataldo Sículo, mas este já no final do século XV, isto é, cinquenta anos antes do orador de 21 de Fevereiro de 1548. Arnaldo Fabrício guarda os seus elogios, naturalmente, para o rei João III fundador da nova instituição. A frequência com que todos os oradores de Coimbra incensam o soberano criou a impressão nos modernos leitores das traduções desses discursos, de que as Humanidades foram introduzidas em Portugal só no tempo de João III. Esta impressão é falsa. A própria floração intensa das Humanidades coimbrãs, quase imediatamente a seguir à fundação do Colégio das Artes, e a sua vitalidade, apesar dos graves acontecimentos de dois anos mais tarde, em 1550, quando alguns dos mestres mais prestigiosos foram presos pela Inquisição (maldita), tudo isto prova que a tradição clássica tinha raízes mais antigas em Portugal». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

José de Anchieta em Coimbra. Américo Costa Ramalho. «… facção adversa aos bordaleses, nome dado a André Gouveia e seus companheiros. Eram os chamados parisienses, inimigos de André e partidários de seu tio, o principal de Santa Bárbara, Diogo Gouveia Sénior»

Cortesia de wikipedia

«(…) A prisão dos lentes do Colégio das Artes ocorreu dois anos depois, em Agosto de 1550. Foram presos, como atrás disse, o escocês Jorge Buchanan e os portugueses Diogo Teive e João Costa, os dois primeiros em Coimbra e o último em Lisboa, onde se encontrava a tratar de assuntos do Colégio, de que era então principal. As acusações não eram desmandos morais, ao contrário do que já alguém escreveu, mas faltas como confessarem-se pouco, comerem carne em dias proibidos, desencorajarem os discípulos de se meterem a frades, afirmarem que Deus se deve servir por amor e não por temor, dizerem que furtar uma pena de escrever é tão grave como roubar trinta cruzados e um ou outro comentário imprudente, feito nas aulas ou em conversas de amigos, sobre pontos de doutrina religiosa. Talvez por influência duma carta de Martin Azpilcueta à rainha dona Catarina que era espanhola como ele, e muito o respeitava, os três professores foram relativamente bem tratados durante a sua curta prisão, e Buchanan talvez melhor que os outros. Mandado recolher a um convento de frades Lóios de Lisboa, os frades deram-lhe como penitência redigir os Salmos de David, em versos clássicos latinos. Ε Buchanan saiu-se do encargo, escrevendo uma das suas obras primas de grande poeta, admirado em toda a Europa de então.
A actividade editorial, sobretudo em latim, de Coimbra entre 1548 e 1551, é notável. A poesia latina estava na moda e Buchanan, por exemplo, tanto pode escrever um epigrama a recomendar uma relectio de Azpilcueta, como dedicar um pequeno poema em louvor de João III, logo a abrir o Commentarius de Rebus in índia apud Dium gestis, anno Salutis nostrae MDXLVI. Iacobo Tevio Lusitano Autore. Conimbricae, MDXLVIII,  ou seja, a Crónica dos feitos praticados na índia, em Diu, no ano de 1546, da autoria de Diogo de Teive português. Coimbra, 1548. O outro epigrama em louvor do livro de Teive é de João Costa. O livro trata do 2.º cerco de Diu, em 1546. Sabe-se que Buchanan, uma vez em liberdade, e já fora de Portugal, mimoseou João III com outro epigrama In Polyonymum, Contra o de muitos nomes, este nada laudatório do soberano de Portugal. Traduzi ambos no meu livro Latim Renascentista em Portugal.
Tem-se escrito que esta prisão dos três lentes do colégio e, um ano mais tarde, a de um quarto lente, Marcial Gouveia, desmantelou o Colégio das Artes. Não é bem assim. Havia professores competentes na facção adversa aos bordaleses, nome dado a André Gouveia e seus companheiros. Eram os chamados parisienses, inimigos de André e partidários de seu tio, o principal de Santa Bárbara, Diogo Gouveia, Sénior. Por outro lado, fora das duas parcialidades, estavam humanistas de grande gabarito, como André Resende e Inácio Morais que vieram ensinar no Colégio das Artes, chamados por João III. Todavia, a prisão dos lentes afectou o clima de confiança em que até aí se trabalhava no Colégio das Artes, e a partida, em anos sucessivos, de alguns dos professores estrangeiros como Nicolau Grouchy, Elias Vinet Guilherme Guérente, facilitou a posterior entrega do Colégio à Companhia de Jesus.
Nestes anos em que Anchieta permaneceu em Coimbra, por aí passou uma pléiade notável de poetas latinos, entre outros, George Buchanan, Diogo Teive, João Costa, André Resende, Inácio Morais, Marcial Gouveia, o grande jurista Manuel Costa, etc. Destes, pelo menos Diogo Teive foi professor de Anchieta que, mais tarde, dará provas de uma excepcional aptidão para a poesia latina, ao compor não apenas dois longos poemas em ritmo dactílico mas numerosas poesias em ritmos líricos, um género que só estava ao alcance dos melhores cultores da poesia latina. Compor versos em latim clássico era parte da formação cultural dum humanista do Renascimento. Assim, este exercício escolar veio a ser praticado por versejadores correctos mas sem inspiração. Não é esse o caso de José Anchieta, cuja poesia em latim renascentista, o proclama um dos melhores poetas do seu tempo». In Américo Costa Ramalho, José de Anchieta em Coimbra, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

José de Anchieta em Coimbra. Américo Costa Ramalho. «… de ‘17 de Julho de 1548’, foi a visita que fez o Infante Luís, irmão de João III, que decidira fazer estudar em Coimbra seu filho bastardo “António”, o futuro prior do Crato e efémero rei de Portugal (18º)»

Cortesia de wikipedia

«(…) Um aluno dum centro universitário não se faz apenas pela frequência das aulas. Há todo um conjunto de actividades circum-escolares que contribuem para lhe dar a formação universitária, característica do seu tempo. Ε Coimbra não escapava à regra no século XVI, como não escapa hoje. Assim, o ano de 1548 é particularmente fértil em manifestações académicas. Já me referi, de passagem, à oração de abertura do Colégio das Artes, pronunciada pelo francês Arnaldo Fabrício, em 1548. Se José Anchieta, chegado nesse ano a Coimbra, não pôde ouvi-la, não teria qualquer dificuldade em fazer a sua leitura, pois foi publicada em Coimbra, no mesmo ano, pelos impressores João Barreira e João Alvares. Em 17 de Julho desse ano de 1548, pronunciou o mestre de Retórica João Fernandes um discurso intitulado De celebritate Academiae Conimbricensis Sobre a Fama da Universidade de Coimbra que foi a dissertação de licenciatura de Jorge Alves Osório, meu antigo aluno e hoje professor catedrático da Faculdade de Letras do Porto. Encontra-se publicada esta oração, com tradução e um valioso estudo introdutório do seu tradutor moderno, desde 1967, em edição do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Coimbra.
A ocasião que propiciou este discurso universitário de 17 de Julho de 1548, foi a visita que fez o Infante Luís, irmão de João III, que decidira fazer estudar em Coimbra seu filho bastardo António, o futuro prior do Crato e efémero rei de Portugal. António estava desde o ano anterior, 1547, no Colégio de São Jerónimo, de onde passaria em 1548 para o Mosteiro de Santa Cruz, vindo a licenciar-se em Artes, em 1551. No seu discurso em Julho de 1548, Mestre João Fernandes desenrolou perante os olhos e ouvidos do irmão do Rei, as glórias do corpo docente universitário, referindo, com maior ou menor extensão, o currículo e os méritos de mestres como os teólogos Afonso Prado, Marcos Romeiro, frei Martinho Ledesma e Paio Rodrigues Vilarinho, os canonistas Martinho Azpilcueta, o doutor Navarro, João Morgovejo e Fábio Arcas Nârnia, os juristas Manuel Costa e Ascânio Escoto, os médicos Rodrigo Reinoso, Francisco Franco e António Luís, o matemático Pedro Nunes, os mestres de Artes, Gaspar Bordalo, Vicente Fabrício Eusébio.
De todos estes, a figura mais prestigiosa era o canonista Doutor Navarro, Martinho Azpilcueta, um basco como o pai de José Anchieta. Ε pergunto a mim mesmo, se uma das razões da vinda de Pedro Nunez, estudante de Cânones, e seu irmão José Anchieta para Coimbra não terá sido exactamente a presença na universidade do famoso canonista Azpilcueta Navarro, tanto mais que não é impossível admitir relações de conhecimento mútuo, dada a comum origem basca. Lembro-me de que, quando estudava (1947-49) em Oxford, acorriam àquela Universidade muitos médicos catalães, atraídos pela reputação dum patrício, professor de Medicina, de nome Trueta, se me não engano.
A terceira oração de 1548, e a essa pode muito bem ter assistido José Anchieta, ou tê-la lido, porque foi publicada de seguida, foi a de Belchior Beliago, em 1 de Outubro de 1548, dia da abertura solene das aulas do ano lectivo de 1548-49. Beliago falou das disciplinas ensinadas na Universidade, pondo em relevo o mérito de cada uma num discurso que intitulou de De Disciplinarum omnium studiis oratio ad uniuersam Academiam (Oração sobre todas as Disciplinas, tradução de Maria Helena Pereira, Porto, 1959). Também Anchieta deve ter passado em Coimbra os momentos mais críticos do Colégio das Artes e do seu corpo docente internacional, subsequentes ao falecimento do principal André Gouveia, em 9 de Junho de 1548. A hora da morte, contava-se em Coimbra, o principal, perguntado se queria um confessor, respondeu soli Deo, a Deus somente. Ε esta resposta fora considerada uma confirmação do espírito protestante de André Gouveia e das tendências reformistas de que ele e alguns dos professores que trouxera de França, vinham sendo acusados.
Hoje, com a publicação dos processos na Inquisição (maldita) de George Buchanan, Diogo Teive e João Costa, e com as informações proporcionadas pela correspondência entre Diogo Gouveia Sénior e o Rei, sabe-se que a intriga vinha sendo montada de longe, tanto no tempo como no espaço. A fonte das maquinações secretas que levariam os três lentes mencionados ao tribunal da Inquisição (maldita) estava em Paris, no velho e rancoroso Diogo Gouveia e no seu ódio incurável ao sobrinho André que abandonara o Colégio de Santa Bárbara na capital francesa de que o tio era principal, para fazer uma carreira coroada de êxito em Bordéus e em Coimbra». In Américo Costa Ramalho, José de Anchieta em Coimbra, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 12 de setembro de 2015

Corrector de Erasmo. António Luís. Américo Costa Ramalho. «Verificou-se que a letra parecia de castelhano e foi interrogado o capelão da rainha dona Catarina, licº Rodrigo Sánchez, castelhano, que não confirmou que a letra fosse de alguém nascido em Castela»

Cortesia de wikipedia

«O licenciado António Luís é mal conhecido e faz falta um estudo sobre a sua formação e actividade como professor, investigador, cientista e filósofo. A primeira condição para isso será a tradução da sua obra. Não digo apenas leitura por alto do seu latim, nem sempre fácil, mas a tradução publicada, com o latim em face, para que possa ser apreciada e discutida. Sem esta medida prévia, tudo quanto continuar a ser escrito sobre António Luís, não passará de glosa inútil sobre o que está dito. Alguns flagrantes da sua personalidade e hábitos podem colher-se do Auto q se fez sobre o ldo ant° luys xpão nouo mor a sã giã desta cidade de lixboa pso por ter liuros em hebraico 1539 mdo soltar. Este Auto, cuja leitura foi feita pelo Mário Brandão, foi publicado por iniciativa de Joaquim Carvalho. Recordemos. Foi o caso que nas portas de algumas igrejas de Lisboa, como a Sé e a igreja do convento do Carmo, apareceu uma carta de controvérsia judaica na qual se declarava, entre outras coisas, que o Messias ainda não tinha chegado. Verificou-se que a letra parecia de castelhano e foi interrogado o capelão da rainha dona Catarina, licº Rodrigo Sánchez, castelhano, que não confirmou que a letra fosse de alguém nascido em Castela.
Procurava-se um culpado, quando a senhoria do licº António Luís resolveu denunciá-lo, dizendo q hu ant° lujs filho de mtre lujs fysiquo que viue nas costas da egreia de sã giã... auya perto de dous anos pouco mais ou menos q treladaua certos liuros -s- briuya de [grego] latym ë lingoajë. & certos textos q elle dizia a ella testemunha. O marido da denunciante, proprietária da casa onde vivia António Luís, era iluminador, e a ele recorria o médico para lhe aguçar as penas de que se servia para escrever. Por isso, ela esclarece: & q hos mais dos domingos & dias santos pncipais pella menhã jazendo ella testa  Ajnda na cama e dito seu marjdo trazia o dto antº lujs penas haparar ao dto seu marjdo. & papell a Regrar que lhe durauã pera toda a somana espver.
Toda a denúncia da mulher do iluminador, além de pitoresca, é extremamente elucidativa. Ela submete o licº António Luís a quem dava tratamento de filho, prova indirecta de que era ainda novo, a um interrogatório de beata coscuvilheira e desconfiada. Eis como ela caracteriza o seu inquilino: & q o dto antº lujs se nomeaua p philosopho e grade letrado. & q ella testemunha dissera ao dto Id0 aos domigos & festas quãdo vynha a Regrar o papell & q lhe aparase as penas q fora mtas donde se ueria q cada uez trazia hua dúzia duas dúzias & q ella ta lhe disera como nã vsaua antes da fysica & ë vysitar seus doemtes asy como fezera seu pay & q elle lhe Respondera q nã estimaua ne tynha de fazer cõ yso q estimaua muis sua honrra & seu saber q nã a fysiqua. Esta denúncia é confirmada pelo filho e pelo marido da denunciante.
A via para a Inquisição (maldita) tinha sido um tal mestre Afonso, pregador, ao qual a senhoria de António Luís, acompanhada por um criado que confirmou as suas declarações, viera consultar sobre a conveniência de denunciar o inquilino. Então acrescentara que António Luís espuja e grego & e abrayco. & q era chamado o grande philosopho plos xpãos nouos & q era grade ajutamto delles e sua casa. Como se vê, todas as acusações visavam a fazer de António Luís um cristão-novo judaizante. Até o aparar das penas era feito aos domingos e dias santos principais... O inquisidor João Melo, desta vez, foi benevolente e a sentença saiu ligeira: Visto como as tas se refere aos liuros & escritura que o R. podia ter feito e sua casa os quaes forom achados catholicos & asi vista a èformação q de sua vida & custumes foi tomada, mando q seja o R. Solto & p ter algíis liuros de hebraico ë sua casa de sop.ta  lhe dou e penjtençia o tpo q esteue preso. J° De mello Inquisidor.
Esta sentença é de 21 de Fevereiro de 1539. Creio que o João Melo levou preso António Luís na noite em que com as varas da Justiça, entre as onze horas e meia-noite, lhe examinou em casa livros e papéis. Isto passou-se a 10 de Fevereiro. Portanto, o lic° António Luís deve ter estado preso uns onze dias. Por testemunhos e declarações, insertos no processo, fica-se a saber que António Luís estudou em Salamanca e que, entre os seus amigos de Lisboa, ao tempo que foi preso, se contavam o leitor João de Barros, André de Resende, oquatrim & o padre frey brás. Num parecer em latim, o promotor de Justiça que assina philippus, chama aos amigos de António Luís uiri probatae uitae. O processo mostra que António Luís era em 1539 solteiro, não exercia a Medicina e se entregava a laboriosos trabalhos de investigação. Desse mesmo ano de 1539, é um livro em latim, escrito em louvor de João III e da expansão ultramarina dos portugueses, a Panagyrica Oratio, em nossos dias mais nomeado do que lido. Todavia, está longe de ser a sua obra mais importante. O autor declara solenemente que a Oratio, embora publicada em 1539, fora escrita anos antes, como me fez notar, Jorge Alves Osório. Mas a oportunidade da publicação é óbvia». In Américo Costa Ramalho, António Luís, Corrector de Erasmo, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

José de Anchieta em Coimbra Américo Costa Ramalho. «Ora a 8 de Maio de 1553, tinha embarcado em Lisboa, o irmão José de Anchieta da Companhia de Jesus, com destino ao Brasil. O facto de ter entrado em Coimbra na Companhia de Jesus não o impedia de frequentar o Colégio das Artes»

Cortesia de wikipedia

«Nesse ano de 1548, em que abriu em Coimbra o Colégio das Artes, fundado por João III, chegava à cidade do Mondego o estudante José de Anchieta. José de Anchieta era filho do escribano real Juan de Anchieta, nascido no País Basco, e de dona Meneia Diaz de Clavijo y Lharena. Esta senhora era viúva do bacharel Nuno Nunez de Villavicencio, de quem tivera uma filha e um filho. José de Anchieta era filho do segundo matrimónio de sua mãe e chegou a Coimbra, na companhia de seu irmão mais velho, filho do primeiro matrimónio, de seu nome Pedro Nunez. Este Pedro Nunez aparece matriculado na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra, como natural de tenerife das Canárias de Castella. O registo em questão, encontrado pela minha saudosa amiga, Maria Georgina Trigo Ferreira, encontra-se no vol. 5, caderno l.º dos Autos e Graus de 1554 a 1557, e reza assim: provou pedro nunez de tenerife das Canárias de Castella diante do Sor frei diogo de murça Reitor dous cursos em Cânones que começarão pollo outubro de I bc quarenta e oito e se acabarão por I bc Lta e forão testemunhas que asi o jurarão os bacharéis diogo madeira e hieronimo sueiro e eu diogo dazevedo o screvi aos xi dias de Julho de I bc Lta e quatro anos yeronimo soeyro dioguo madeira (A. Costa Ramalho, Para a História do Humanismo em Portugal I, Coimbra, 1988).
Como em tempos escrevi, há ainda mais dois documentos relativos a Pedro Nunez de Tenerife das Canárias de Castela, mas só este revela a data do início da sua frequência da Universidade. José de Anchieta chegou portanto a Coimbra na companhia de seu irmão em 1548 e já se encontrava na cidade em Outubro deste ano. Terá assistido à abertura do Colégio das Artes de que se sabe ter sido aluno, por uma referência indirecta? O Colégio das Artes abriu solenemente em 21 de Fevereiro de 1548, com uma oração de Arnold Fabrice, conhecido pela forma aportuguesada de seu nome latino, como Arnaldo Fabrício. A oração existe ainda hoje e foi traduzida e comentada,  numa dissertação de licenciatura dactilografada (Maria José Sousa Pacheco, Coimbra, 1959). É um belo discurso humanístico.
O Colégio das Artes não inaugurou os estudos de Humanidades em Coimbra. Antes da sua fundação, os estudos de Humanidades eram ministrados na Faculdade de Letras que funcionava no Mosteiro de Santa Cruz, ainda antes da transferência da Universidade para Coimbra, em 1537. O Colégio das Artes conferia aos seus alunos os graus de bacharel, licenciado e mestre em Artes, mas a sua frequência era obrigatória, durante um certo número de anos, como escola preparatória de ingresso nas outras Faculdades. Ε duas delas exigiam o curso completo de Artes para a sua admissão. Eram a Faculdade de Teologia e a Faculdade de Medicina. A tradição dos médicos devotados à Literatura tem aqui um dos seus prováveis fundamentos.
Do tempo em que as Artes eram estudadas em Santa Cruz, há testemunhos vários sobre o funcionamento do curso e, entre eles, uma oração de sapiência de Outubro de 1539, pronunciada por Mestre Juán Fernández, um sevilhano conhecido na tradição coimbrã, pelo nome aportuguesado de João Fernandes. Esta oração de 1539, extremamente interessante, foi traduzida e comentada por um aluno, numa dissertação de mestrado (Fernando Alexandre M. P. Lopes, Coimbra, 1993). Com as informações que possuímos sobre as Artes em Santa Cruz e sobre o Colégio das Artes, podemos fazer uma ideia aproximada dos estudos de Anchieta em Coimbra, embora não possuamos qualquer documento da sua frequência da Universidade onde certamente não chegou a entrar, visto que mesmo certas disciplinas mais adiantadas, como a Filosofia, eram ministradas no Colégio das Artes. Também não deve ter concluído o curso de Artes, pois nunca foi chamado de bacharel ou licenciado. Mas deve ter sido um excelente aluno, a avaliar pela qualidade dos seus versos e da sua prosa em latim humanístico. Ε também, como tive ocasião de acentuar no Congresso de La Laguna, em Junho de 1997, deve ter chegado a Coimbra com um bom conhecimento da língua latina, como era então uso entre as famílias instruídas, onde há casos de os filhos terem iniciado o latim, aos três anos de idade.
Preparação semelhante à sua, em grau talvez ainda mais adiantado, devia possuir seu irmão Pedro que se matriculou directamente em Cânones, sem passar pelo ensino preparatório do Colégio das Artes. A inferência de que José foi aluno do Colégio das Artes tira-se dos factos seguintes: …pelo Processo Apostólico de Lisboa. Arquivo Secreto Vaticano por depoimento do padre Álvaro Pires, foi Anchieta colega de aula de Jorge Ataíde. Diogo Teive no processo inquisitorial, a que foi submetido em 1550, arrola como testemunha de sua ortodoxia esse seu aluno. Esta informação é tirada do livro Anchieta, o apóstolo do Brasil do padre Hélio Abranches Viotti, que para o processo de Diogo Teive cita Mário Brandão, A Inquisição e os professores do Colégio das Artes, (vol. I, Coimbra, 1948). Temos, portanto, Anchieta, colega de classe de Jorge Ataíde, filho do poderoso conde da Castanheira, valido del-rei João III.
Mário Brandão no referido livro, dá uma informação complementar sobre a carreira académica de Jorge Ataíde, desenrolada com toda a normalidade, isto é, sem interrupções nem reprovações, que veio a terminar, pelo que respeita ao Colégio das Artes, com o grau de bacharel em 7 de Março de 1554, com o de licenciado em Artes em 29 de Março de 1555 e o de mestre em 3 de Maio de 1555. Anchieta, se tivesse continuado em Coimbra, teria, portanto, recebido os graus académicos de Artes também entre 1554 e 1555. Ora a 8 de Maio de 1553, tinha embarcado em Lisboa, o irmão José de Anchieta da Companhia de Jesus, com destino ao Brasil.
Devo esclarecer que o facto de ter entrado em Coimbra na Companhia de Jesus não o impedia de frequentar o Colégio das Artes. Antes pelo contrário. Com efeito, os jesuítas estavam interessados em angariar vocações entre os alunos do Colégio das Artes que viria a cair-lhes nas mãos em 1555. Sabemos dessa táctica de conquista dos melhores alunos e dos membros da nobreza, porque alguns reparos feitos a essa situação, nomeadamente, por Diogo Teive, vêm a figurar entre as acusações contra o humanista, no processo da Inquisição (maldita), que está publicado». In Américo Costa Ramalho, José de Anchieta em Coimbra, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT