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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Princesas Portuguesas. Rainhas no Estrangeiro. Américo Faria. «Também na corte de Leão, o ex-marido da rainha Teresa não ficou satisfeito, nem se conservou impassível, ante a posição tomada por Afonso II»

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Filha de Sancho I, rainha e monja
«(…) O destino, contudo, numa negaça cruel, não lho consentira. Ia começar a terceira e derradeira fase da sua existência ainda curta mas já marcada pela adversidade. Amortalhou-se no hábito sombrio e pesado de monástica. Recolheu-se ao convento de Lorvão, depois de o ter mandado restaurar e de o fazer habitar por freiras de Cister. A morte, em 1198, da mãe, essa insignificante rainha dona Dulce, sem grande influência na sua época e sem traços de personalidade forte que lhe assinalassem rastro luminoso, constituiu mais uma chicotada vibrante, um choque amargo a que o destino a sujeitou. Depois, mais tarde, já o pai era morto também, foi o irmão, Afonso II, que tentou apropriar-se dos legados deixados por Sancho I, bom pai, às irmãs e a ela. Resistiram as três irmãs ao esbulho, que nada talvez justificasse, além do espírito ambicioso do monarca ou a sua necessidade de fortalecer o trono. As infantas, para defenderem os seus direitos, chamaram em seu auxílio os cavaleiros descontentes com o governo do irmão. As perspectivas de uma guerra civil, com todos os seus horrores e consequências, não eram de molde a animar o monarca na sua atitude rapace. Quis transigir, tergiversar.
Também na corte de Leão, o ex-marido da rainha Teresa não ficou satisfeito, nem se conservou impassível, ante a posição tomada por Afonso II. E aproveitou o ensejo para entrar em Portugal em pé de guerra e tomar-nos algumas praças. Um bastardo de Sancho I, Martin Sanches, que estava ao serviço de Leão, comandou a invasão e conquistou Chaves, entre outras vilas. Alegava o de Leão que, procedendo assim, defendia os legítimos interesses da senhora que fora sua esposa e era donatária das vilas de Montemor e Esgueira, por legado do pai. O rei português viu-se em dificuldades, tanto mais que, além da excomunhão lançada sobre ele pelo arcebispo de Braga, viera a excomunhão do papa, com a ameaça de o privar do trono e desobrigar os seus súbditos do juramento de fidelidade. A situação era difícil para o reino de Portugal, empenhado nessa altura nos preparativos da batalha de Navas de Tolosa. Mas, terminada esta, ajustaram-se as contas. O poderio de Afonso II, junto às forças de Afonso VIII, de Castela, forçou o rei leonês a retirar as suas tropas das praças ocupadas.
Subsistia, todavia, a questão. Inocêncio III, o papa, entendeu de entrar na contenda, concordando com a solução proposta por Afonso II: as infantas ficariam com o usufruto das vilas, mas caberia ao rei a nomeação dos respectivos alcaides. Teresa aceitou aparentemente as condições impostas, que, aliás, não a beneficiavam. Não era, porém, mulher que admitisse ultrajes ao que considerava os seus legítimos direitos. A energia do pai formara-lhe o carácter, e a sua manha, também. Sabia esperar pela oportunidade mais favorável aos seus desígnios. Logo que soube o irmão a contas com dificuldades, renovou as suas pretensões. De novo, o ex-marido acorreu em seu auxí1io, invadindo outra vez o reino por Trás-os-Montes. E conservou Chaves como garantia de que o rei português não ficaria com o pleno domínio das terras que pertenciam a Teresa». In Américo Faria, Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro, 1963, Edições Parsifal, 2013, ISBN 978-989-983-331-9.

Cortesia de Parsifal/JDACT

Princesas Portuguesas. Rainhas no Estrangeiro. Américo Faria. «A rainha leonesa despedira-se com pena da sua corte, desse ambiente com que já estava familiarizada e onde, afinal, conhecera alguns dos seus mais venturosos dias»

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Filha de Sancho I, rainha e monja
«(…) Dentro desse alto espírito peninsular promoveu Sancho I o matrimónio de sua filha Teresa com o rei de Leão, Afonso IX (1187-1230), primo de um outro Afonso IX, que reinava em Castela. Largou a infanta para a nova pátria em que ia ser rainha, deixando com fundas saudades a corte do pai, de ambiente um tanto rude, como a maioria das cortes da idade medieval, mas onde se movia gente portuguesa, gente da sua raça, já com características diferenciadas das de outras gentes do resto do mundo. Levava comitiva brilhante de ricos-homens e infanções, açafatas, aias e pajens, e a recepção que lhe fizeram em Leão teve acentuado cunho de grande carinho e profundo respeito. Não era a corte leonesa, apesar de talvez mais faustosa do que a lusitana, de molde a fazer-lhe esquecer o saudoso quadro da alcáçova de Coimbra, a par da Sé, e os serões nas suas vastas salas abobadadas, onde se rimavam entremezes acompanhados pelas notas dolentes das cístulas e dos alaúdes, e os encantos do remansoso Mondego a deslizar-lhe aos pés, em suave murmúrio...
Nesses primeiros tempos de adaptação a novos climas sociais e diferentes costumes, só a convivência com as suas fâmulas e damas de honor, portuguesas como ela, lhe dulcificava um tanto o que considerava o seu desterro. A época era de lutas esgotantes, de dissídios quase permanentes, muitos levantados pelos grandes senhores da nobreza, sempre em latente fermentação de rebeldia e que tantas e tantas vezes complicavam a vida de uma nação e dos próprios soberanos. Leão não escapava à regra. Afonso IX, não obstante a consideração que nutria pela esposa, a quem devotava profundo afecto, procedia como todas as altas personalidades de então: ou se entregava a acidentadas correrias guerreiras impostas pelas circunstâncias ou se embrenhava por florestas e matagais, no sadio exercício da caça, ambas as actividades tão apreciadas na remota quadra de tempo.
O paço, com a sua existência tranquila e delicada, era mais adequado a mulheres e menestréis do que a guerreiros ávidos de movimento e glória... Teresa, enérgica e sensata como o pai, e senhora de firme força de vontade, acabou por bem se adaptar e exercer com a maior dignidade os seus deveres de esposa e de rainha. Respeitada por todos, ouvida com deferência pelo marido, gozando de alto prestígio no paço e no reino, não terá deixado crónica notável como soberana, mas soube ser, isso sim, figura à altura da situação. E também, ramo de boa cepa, seguindo o exemplo dos fecundos genitores, já ia na sua terceira filha, quando, em 1195, ocorreu o inesperado acontecimento que mudaria o curso do seu destino. A Igreja era ao tempo de severo rigor quanto à consanguinidade dos cônjuges.
Afonso IX e dona Teresa eram parentes em grau interdito pela religião, e só poderiam ter casado por meio de bula de dispensa emitida pelo papa. Tal não se dera, e o papa Celestino III, não perdoando o facto, anulou o casamento. Golpe doloroso para ambos, mas a que havia que obedecer como bons cristãos que eram. Acordaram os esposos na solução a dar às condições em que se encontravam. Divorciaram-se à boa paz. Teresa, separando-se doloridamente das filhas, ainda pequeninas, regressou a Portugal. Sancho I, porém, desejaria outra solução para o caso. Talvez a rebeldia à determinação papal. Tomou como afronta feita ao reino, feita à sua real pessoa, feita à própria infanta-rainha, o decretado divórcio. E a sua primeira reacção foi a de se aliar com Aragão e Castela contra Leão e Navarra.
A rainha leonesa despedira-se com pena da sua corte, desse ambiente com que já estava familiarizada e onde, afinal, conhecera alguns dos seus mais venturosos dias. As filhas ficavam-lhe ali e, com elas, o seu coração, despedaçado para sempre. A vida doméstica destroçara-se-lhe. Para a dor que a atormentava só encontraria um refugio, Deus. Só no altar poderia achar consolo e lenitivo para a sua angústia de mãe, a quem separavam violentamente dos pequeninos entes a que dera o sopro da vida, que acompanhara nos primeiros passos e a que desejaria dar educação sólida, como a sua». In Américo Faria, Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro, 1963, Edições Parsifal, 2013, ISBN 978-989-983-331-9.

Cortesia de Parsifal/JDACT

domingo, 3 de setembro de 2017

Princesas Portuguesas. Rainhas no Estrangeiro. Américo Faria. «Desde que entre eles houvesse uma permuta de respeito e de consideração. A série de princesas portuguesas que se sentaram como soberanas em tronos estrangeiros»

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Filha de Sancho I, rainha e monja
«(…) Na realidade, logo nos começos de Portugal como nação emancipada, embora ainda indefinida nas suas fronteiras, principiou a corte portuguesa a ser alfobre de princesas de sangue real destinadas especialmente ao tálamo conjugal dos vários Estados soberanos da Europa, fossem impérios poderosos, reinos importantes ou simples condados de jurisdição própria e autónoma. Não se cuidava de amor entre os cônjuges, celebrando-se tais matrimónios sob o objectivo supremo de razões políticas. Os príncipes, eles e elas, não eram como os restantes mortais. Não podiam dispor do coração a seu talante, ceder a imposições sentimentais. O seu destino era o sacrifício dos afectos mais íntimos às conveniências da coroa. Mas, apesar dos casamentos marcados pela desigualdade de temperamentos, de educações, de princípios religiosos até, não raramente os nubentes alcançavam senão a felicidade pelo menos a tranquilidade de espírito. Desde que entre eles houvesse uma permuta de respeito e de consideração.
A série de princesas portuguesas que se sentaram como soberanas em tronos estrangeiros continuou com as filhas de Sancho I, o herdeiro do Fundador. Dos seus onze filhos legítimos (este monarca bem mereceu o cognome de Povoador, até pela numerosa prole que deixou!) seis pertenciam ao sexo feminino e, destas filhas, três vieram a colocar, pelo casamento, coroas estrangeiras na cabeça: dona Teresa, que teve Afonso IV, de Leão, por marido; dona Mafalda, casada com Henrique I, de Castela e dona Berengária, que foi mulher de Valdemar II, da Dinamarca.
Sancho I, rei enérgico e ardiloso, obstinado, hábi e valente, recebera pesada herança, o ceptro real, mas não recuou ante os encargos herdados. Bateu-se com os mouros em guerras extenuantes; combateu o rei de Leão, e lutou bravamente contra o clero interno, opondo-se, por vezes, ao próprio papa e zombando das interdições da Igreja. No entanto, e talvez por isso mesmo, magnificamente auxiliado pelo astuto chanceler Julião, muito fez, no fim de contas, pela definitiva consolidação da Pátria. Grande rei e excelente chefe de família, mau grado os devaneios amorosos tidos com algumas filhas de algo, casos de Maria Anes ou Maria Aires e dessa picante Maria Pais, que as crónicas celebrizaram sob o apodo de Ribeirinha e que tão petulante história deixou de si.
De ambas, de resto, houve o nosso segundo rei outros filhos, a engrossar a larga descendência.
Das raparigas, dona Teresa foi, provavelmente, a de mais assinalável destino. De infanta de Portugal transformou-se em rainha de Leão, e de rainha metamorfoseou-se mais tarde em monja, monja virtuosa que a Igreja, quase cinco séculos depois, beatificou por bula de 23 de Dezembro de 1705, concedendo-lhe ofício próprio, no reino, em 1724. Razões de Estado, os tais factores que causaram a infelicidade de tanta princesa, recomendavam o estabelecimento de alianças políticas, pelo enlace matrimonial entre os reinos ibéricos. Era indispensável opor-se uma frente única contra as ambições expansionistas dos sarracenos, senhores de boa parte da Hispânia, e arrojá-los, pelo Sul, para lá do mar». In Américo Faria, Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro, 1963, Edições Parsifal, 2013, ISBN 978-989-983-331-9.

Cortesia de Parsifal/JDACT

terça-feira, 4 de abril de 2017

Soberanos Destronados. Sancho II de Portugal. Américo Faria. «Paio Peres Correia, por seu turno, foi-se a Tavira, tomando-a após desesperada resistência moura»

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«(…) Censurava-se abertamente a sua acção como reinante, fazendo-se disso a mais descabelada propaganda junto da parte consciente da nação. Aliciavam-se adeptos valiosos para o partido da oposição, que se avolumava cada vez mais. A espaços, o país vibrava ainda com os seus feitos de armas. Duas expedições militares efectuadas em 1238 e 1239, contra Mértola, Alfajar de Pena e Ayamonte, uma, e contra Cacela, outra, coroadas ambas, com assinalável brilhantismo, pela conquista dessas povoações, electrizaram de entusiasmo a opinião pública.
Paio Peres Correia, por seu turno, foi-se a Tavira, tomando-a após desesperada resistência moura. O rei, contudo, se se distinguia como capitão de tropas, errava por tibieza como chefe político do país e esta circunstância fazia esquecer aquela.
Os restos de prestígio que o aureolavam prestes se diluíram com o casamento desigual que celebrou com a viúva de Álvaro Peres Castro, dons Mécia Lopes de Haro, filha de fidalgo biscainho Lopo Dias de Haro. Não lhe levaram a bem os detractores tal casamento, tanto mais que Sancho II amoleceu nos braços da mulher o seu temperamento de guerreiro. Nada havia, agora, que o impusesse à admiração nacional e, naturalmente, os inimigos trataram de explorar a situação a seu favor.
Trabalhava-se activamente para o derrubar do trono. O monarca aprendeu à sua custa quanto era terrível e clamava vingança o espírito implacável dos adversários da sua pessoa. Gregório IX tinha morrido, 1241; e Inocêncio IV, após duas semanas de Celestino IV exercer o cargo, sucedera-lhe. As dissenções de Frederico II, imperador da Alemanha, com aquele, continuaram com este. Inocêncio, perseguido, e expulso da Itália pelo imperador, repelido de França por S. Luís, e de Espanha pelo rei de Aragão, acolheu-se à cidade de Leão, onde logo tratou de reunir um concílio para depor Frederico. Lá se apresentaram, entre os delegados de Portugal, o arcebispo de Braga, o bispo de Coimbra e os outros descontentes, e o papa juntou à deposição do imperador da Alemanha a de el-rei de Portugal.
Os adversários de Sancho II tinham enfim conseguido o que pretendiam. Para tanto, forjaram repugnantes maquinações em que tomou parte saliente o próprio irmão do monarca, Afonso, o Bolonhês. Este, procurando em Paris, onde residia pelos aludidos prelados, com eles celebrou um tratado deprimente para a coroa.
Que importavam as condições acordadas, se o infante não pretendia respeitá-las? O que o interessava de imediato era apossar-se do trono, de qualquer modo, mesmo em prejuízo do irmão, seu legítimo possuidor. Depois, na sequência dos acontecimentos, se veria o que havia a fazer...
Sancho II, assinala um escritor, era um rei inábil, sem dúvida. Deixara que se cometessem violências que até certo ponto justificavam as reclamações eclesiásticas. Com valimentos pouco acertadas, descontentara muitos fidalgos e levantara grandes discórdias na corte». In Américo Faria e Herdeiros, 1958, Dez soberanos destronados, Grandes Soberanos Destronados, Edições Parsifal, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-8760-00-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

sábado, 17 de setembro de 2016

Soberanos Destronados. Sancho II de Portugal. Américo Faria. «Sabe-se, com efeito, que os cavaleiros moços que rodeavam Sancho, turbulentos e desatinados, zombaram das imunidades do clero e praticaram actos repreensíveis, como seu irmão, o infante Fernando»

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«(…) Soeiro Gomes já tivera contenda com Afonso II e, não encontrando no filho deste disposição para ceder, dirigiu-se a Roma com o fim de se queixar pessoalmente ao Sumo Pontífice contra o rei de Portugal. Gregório IX, porém, não pôde dar andamento à reclamação, mau grado os seus desejos de fazer justiça. A verdade é que Sancho II não deixava em sossego os moiros, acérrimos inimigos da fé cristã, o que era motivo de sobejo para a benevolência de Sua Santidade, nesse período de entusiástica guerra santa contra os infiéis. Afinal, Soeiro fez essa árdua viagem debalde. O bispo de Lisboa já não chegou a ver, por ter morrido entretanto, a vitória alcançada anos depois pela sua classe sobre o poder temporal, pela deposição do rei. Sobranceiro aos ódios que pressentia em volta, o monarca continuava na sua obra de guerreiro intemerato. Conquista Serpa, Moura e Aljustrel. Ficava assim completada a conquista do Alentejo, em cuja fronteira meridional, para sua mais segura garantia, estabeleceu a um lado os cavaleiros de S. Tiago, comandados por Paio Peres Correia, e no outro os cavaleiros do Hospital, estes dirigidos por Afonso Peres Farinha. Uns e outros, levando a bom termo os desejos do soberano e as exigências nacionais, não descansaram enquanto não arrancaram das mãos dos moiros várias praças do Algarve. O primeiro, servido por maior ambição ou audácia, atirou-se valentemente a tarefa de vulto, reconquistando a importante praça de Silves.
Neste ambiente de agitação política e de empresas bélicas decorriam os anos. Sancho II, agora homem na plenitude do seu vigor (1235), viu-se a braços, mais uma vez, com novas dificuldades na governação. Dos três ministros que tão dedicadamente o haviam apoiado nas primícias do reinado, já mais nenhum estava junto de si: um, Gonçalo Mendes morrera; o segundo, Pedro Anes, abandonara o poder por motivos que se ignoram; e, finalmente, o terceiro, mestre Vicente, fora nomeado bispo da Guarda, acabando por enfileirar também ao lado dos inimigos do monarca. Nuvens negras se adensavam sobre a cabeça de Sancho, o qual tinha de apelar para toda a sua prudência, a fim de que não se agravassem ainda mais as circunstâncias, tornando irremediável a situação. Procedia assim o monarca, cônscio das responsabilidades do seu cargo e, também, decerto, receando o poderio que o alto clero desfrutava na época. Outro tanto não faziam os que se lhe agregavam em volta.
Sabe-se, com efeito, que os cavaleiros moços que rodeavam Sancho, turbulentos e desatinados, zombaram das imunidades do clero e praticaram actos repreensíveis, como seu irmão, o infante Fernando, conhecido pelo nome de infante de Serpa, que estabeleceu à força, na Sé de Lisboa, um bispo que a corte queria ver eleito, maltratando o que o capítulo elegera regularmente, violando uma igreja, etc.. O soberano, reprovando esses e outros desacatos e temendo as consequências do procedimento dos seus endiabrados cavaleiros, deu todas as desculpas que lhe exigiram, concedeu indemnizações e obrigou o irmão a ir a Roma prostrar-se perante o papa, a implorar-lhe o perdão. De pouco serviram tais atitudes de humilhação. A desavença entre os dois poderes, por antiga e fundamental, já não podia ter arcanjo. Eram irreconciliáveis. As iras dos bispos não desarmavam.
Talvez até refinassem com a humildade que o filho do odiado Afonso II exteriorizava sem que, todavia, lhes satisfizesse as esperanças de devolução de bens e regalias de que se viam esbulhados. Cada vez mais se arraigava no espírito de todos quantos tinham responsabilidades, nomeadamente das autoridades religiosas, que Sancho não estava à altura do trono. E, junto às acusações que lhe faziam de praticar violências contra a Igreja e seus representantes, outra acusação principiou a correr o país, a tomar corpo: a da incapacidade governativa do soberano». In Américo Faria e Herdeiros, 1958, Dez soberanos destronados, Grandes Soberanos Destronados, Edições Parsifal, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-8760-00-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Faruk do Egipto. Américo Faria. «Numerosas circunstâncias, entre as quais, sem sombra de dúvida, o problema do Canal de Suez contribuíram para dar à terra do Nilo e ao seu deposto soberano ruidosa actualidade»

jdact e wikipedia

«Num dia em que Faruk, do Egipto, jogava e ganhava, um dos parceiros observou, lisonjeiro: o rei está a vencer! O soberano logo ripostou: hoje, porque dentro de pouco tempo só haverá no mundo cinco reis: o rei de ouros, o rei de copas, o rei de paus, o rei de espadas e o rei de Inglaterra. Foi uma previsão que se vai cumprindo gradualmente. Dir-se-ia que Faruk viu a distância, com rara clarividência, o destino que o arrojaria do trono da terra faraónica para o desterro, que nele não se tornou muito pesado, pela sua grande fortuna pessoal, que lhe aliviou prazenteiramente os dias. É um exílio dourado, o seu. Aquando da sua abdicação forçada, os jornalistas de todo o mundo devassaram até o inconcebível a vida do anafado soberano do Egipto e do Sudão, focando-a em todos os aspectos e de todos os ângulos. É, portanto, uma história assaz conhecida. Vale, porém, à pena recordá-la, fixando-a em breves traços nesta galeria de monarcas destronados.
Numerosas circunstâncias, entre as quais, sem sombra de dúvida, o problema do Canal de Suez contribuíram para dar à terra do Nilo e ao seu deposto soberano ruidosa actualidade. Fazendo parte integrante do império otomano, de que era tributário, o Egipto, na sua História contemporânea, tinha a forma de monarquia hereditária, governada por um quedive (vice-rei) desde 1867. Contudo, em Outubro de 1917, com o desagregar da Sublime-Porta, Fuad I, tornada a pátria independente, tomou o título de rei. Brilhantemente dotado, Fuad I, albanês pelo sangue mas europeu por seus gostos e sua educação, foi inquestionavelmente, entre os príncipes muçulmanos do Oriente, o mais esclarecido. Na África, às portas da Ásia, ele representava o Ocidente, de que havia haurido a cultura e os hábitos. Desposando, em segundas núpcias, uma princesa de sangue, a elegante e formosa Nazli, filha de um velho governador do Cairo, desse matrimónio nasceram Faruk e as suas quatro irmãs. Pela linha materna, o ex-rei do Egipto pôde orgulhar-se de uma ascendência ilustre e antiga, que chega mesmo ao profeta. Mas, ao mesmo tempo, descende em linha recta de um brilhante oficial francês, o coronel de Séve, chamado no Egipto Solimão Paxá, filho de um pobre moleiro de Lião. Nesta mistura de tantos sangues de tipo diferente querem alguns filiar as desigualdades de carácter de Faruk, que o tornavam ora impetuoso e ardente, ora calmo e impassível como uma estátua.
Desde cedo, o príncipe constituiu um problema para o pai. Fuad I, com efeito, para lhe imprimir um pouco mais de regularidade ao temperamento juvenil e irrequieto, entregou a chefia da casa militar do príncipe a um severo mentor, encarregado de o controlar e acalmar-lhe os ímpetos: o general Masry Paxá. Breve, o ardoroso príncipe encontrou nos exercícios físicos, em que foi exímio, um sedativo para os seus impulsos indomináveis. Praticou, quando jovem, com grande perícia, esgrima, natação, equitação, ténis, pólo e, até, boxe. As suas loucuras, rapaziadas se lhe haviam de chamar antes, se chocavam o ânimo dos velhos conselheiros, presos às tradições do trono de Cleópatra, conquistavam, pelo contrário, as simpatias indulgentes do povo. Quero que o meu filho, manifestou o rei Fuad, de certa vez, seja educado longe de toda a lisonja, de toda a adulação, que aprenda a disciplina, o respeito ao dever, e que adquira conhecimentos sólidos. Não conseguiu cumprir integralmente esse plano de educação. Mas no ponto de vista de cultura não foram as suas esperanças iludidas. Faruk foi aluno da Real Academia de Woolwich, onde fez estudos apreciáveis, sendo muito auxiliado pelo sábio Ahmed Hassanein, chefe da sua casa civil. Como grande parte dos egípcios, Faruk logo demonstrou assinalável facilidade para as línguas. Dominava perfeitamente várias, entre as quais o inglês, o francês e o italiano. Obedecendo à rígida disciplina das escolas inglesas, Faruk levantava-se às seis horas da manhã, e esse saudável hábito acompanhou-o pela vida fora, e, depois de um pequeno passeio a cavalo, entregava-se ao estudo intelectual. Sentindo grande atracção pela leitura, lia de preferência livros franceses. Coleccionou amorosamente velhos livros, edições raras, encadernações luxuosas, manuscritos antigos, medalhas e armas do passado». In Américo Faria e Herdeiros, 1958, Dez soberanos destronados, Grandes Soberanos Destronados, Edições Parsifal, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-8760-00-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2016

Soberanos Destronados. Sancho II de Portugal. Américo Faria. «O irmão de Sancho, Afonso (mais tarde rei sob o título de Afonso III), dizem uns que descontente com os negócios da governação pública, enquanto outros afirmam que por simples espírito de aventura»

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«(…) Foi então que Martinho Rodrigues, bispo do Porto, sentindo-se diminuído na sua dignidade e autoridade, apelou para a intervenção do papa. Sentava-se nessa altura no sólio pontifício Gregório X. De espírito conciliador, mas não admitindo de forma alguma o menosprezo das instituições religiosas (tenha-se em vista a excomunhão que por duas vezes lançou sobre o poderoso Frederico II) mandou a Portugal um seu legado, João Abbeville, incumbido de estudar as causas do dissídio e resolvê-lo, se para tanto houvesse ensejo. Era Abbeville pessoa prudente, de espírito sensato, tolerante. Graças aos esforços que desenvolveu no desempenho da delicada missão de que fora encarregado, logrou estabelecer entre as partes desavindas, senão a harmonia completa, pelo menos um armistício confortável, delimitados ambos os poderes convenientemente. Durante três anos, devido a isso, pôde Sancho II gozar de relativa tranquilidade, sem empecilhos de maior. O moço monarca ocupou-se então do desenvolvimento da agricultura e do povoamento do reino. Já nesse tempo no seu cérebro agudo, de notável visão, flutuaria o sonho da constituição de uma organização de marinha de guerra, tão necessária para reprimir as atrevidas investidas da pirataria berbere e moirisca contra algumas das povoações litorâneas, onde faziam autênticas razias.
Entretanto, no seio da corte as dissenções continuavam em luta subterrânea e silenciosa. A nobreza, que Afonso tão bem soubera conter em respeito, tomando por fraqueza o espírito indulgente de Sancho II, não perdia o ensejo de, com as suas mãos calçadas de guantes de ferro, dilacerar o poder real. Por seu turno, o armistício com o clero quebrara-se, não por culpa do soberano, preocupado sobretudo em expulsar do reino os moiros, ou conquistar para a pátria os últimos redutos sarracenos que ainda perduravam no reino, mas por insensatez de certos validos que abusavam, em nome do rei, das regalias que usufruíam. O irmão de Sancho, Afonso (mais tarde rei sob o título de Afonso III), dizem uns que descontente com os negócios da governação pública, enquanto outros afirmam que por simples espírito de aventura, partiu para França, acompanhado por diversos fidalgos ávidos de novidade e, possivelmente, malquistados com a pátria. Os ministros, que temiam fosse o príncipe influenciado e aproveitado algum dia pelos inimigos do rei para qualquer revolta contra este, rejubilaram com o facto. Era mais um perigo que ficava temporariamente afastado, no mínimo durante o tempo que ele se conservasse no estrangeiro.
As façanhas de guerreiro praticadas pelo monarca não faziam esquecer aos descontentes as suas faltas na governança. E à frente desses elementos desgostosos figuravam sempre os bispos, ressabiados com certas medidas reais. A luta irrompeu de novo entre o alto clero e a coroa, antes, entre os ministros e o bispo de Lisboa, Soeiro Gomes. Era este uma figura de prestígio que muito contribuíra para a tomada de Alcácer do Sal aos moiros, pois foi ele quem convidou os cruzados a pararem em Lisboa, incitando-os a realizar a triunfante expedição». In Américo Faria e Herdeiros, 1958, Dez soberanos destronados, Grandes Soberanos Destronados, Edições Parsifal, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-8760-00-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

quinta-feira, 24 de março de 2016

Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro Américo Faria. «Não deixou sucessores esta linda princesa portuguesa, que foi a segunda, cronologicamente, a cingir uma coroa, a qual, por ser condal, nem por isso deixava de ser soberana e muito poderosa»

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Teresa Henriques. Poderosa condessa da Flandres
«(…) Terminada essa guerra, ou, antes, mesmo durante o seu período, a Cristandade reuniu-se para a chamada terceira cruzada. Três famosos chefes do Ocidente, o rei da França, Filipe Augusto; o imperador da Alemanha, Frederico Barbarroxa; e Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, esquecendo dissídios que os dividiriam, coligaram-se com o auxílio de outros Estados para defesa da Cruz. Saladino, o valente sultão do Egipto, conquistara o reino de Jerusalém. O último rei da Terra Santa, Guy de Lusignan, caiu prisioneiro na famosa batalha de Tiberíades. Nada menos de vinte mil cristãos ali tombaram para sempre. Urgia repor o anterior estado de coisas. Filipe de Alsácia, conde da Flandres, era soberano demasiado categorizado para que não participasse da cruzada, chefiando as suas valorosas hostes. Ia estar ausente a servir uma causa sagrada. Não sabia por quanto tempo. Os seus Estados, porém, precisavam, durante esse período, de ter alguém à sua frente a governá-1os. Não hesitou. Depositava a maior confiança no bom senso e na visão administrativa da esposa. Entregou-lhe a regência do condado-ducado durante a sua ausência. Nunca mais se viram com vida desde a partida dele. Desgraçadamente, na batalha de S. João de Acre, após apertado cerco, no fim do qual essa fortaleza for tomada finalmente, o marido de dona Teresa caiu como um bravo que era. Deixou de si boa memória, não só pelo seu valor guerreiro como pela sua soberania na Flandres. Dona Teresa, infanta de Portugal e condessa da Flandres, ficava viúva ainda nova, sem dúvida, e mais rica do que chegara. Por morte do esposo recebeu, como dote e em satisfação do contrato de casamento, além de Lille e de Fournes, em Bourbony, algumas outras terras de pingues rendimentos.
Além do mais, e à parte a sua notável beleza, tinha fama de muito sensata e ponderada. Não lhe faltariam candidatos à sua mão. Na realidade, não demorou muito tempo no estado de viúva, o que a credita como um bom partido matrimonial. Sem embargo do profundo afecto que devotara ao falecido Filipe, tornou a casar em 1194, desta vez com Eudo, 3.º duque de Borgonha. Esta filha de Afonso Henriques parece não ter sido bem fadada para destino venturoso, pois também desta feita não logrou a felicidade. De facto, ainda mal havia gozado a sua segunda lua-de-mel quando o papa Celestino III, alegando o próximo parentesco entre os cônjuges, determinou a sua separação. Não havia decorrido um ano sobre a celebração deste seu consórcio.
Voltou a princesa portuguesa aos seus domínios recebidos do primeiro marido, aí vivendo como flor a estiolar-se, a perder viço, formosura e perfume, sem que os anais se ocupem dela durante esse período. Na verdade, e que o saibamos, só nova referência lhe é feita por ocasião da sua trágica morte, em 1218. Viajava de coche, acompanhada de duas damas de honor, pelas margens de uma lagoa, perto de Fournes, quando ocorreu inesperadamente o dramático acidente. Por qualquer motivo, a carruagem caiu à água, arrastando-a para o fundo. Horrorizadas, as pessoas que presenciaram o sinistro tentaram imediatamente socorrê-la. Inutilmente, porém. Ao fim de muitos esforços lograram retirá-la das águas, mas já cadáver. Conduziram o corpo da infortunada infanta-condessa para a próxima abadia de Chairval, por entre prantos e ais. Não deixou sucessores esta linda princesa portuguesa, que foi a segunda, cronologicamente, a cingir uma coroa, a qual, por ser condal, nem por isso deixava de ser soberana e muito poderosa, com alguma influência na política europeia da época». In Américo Faria, Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro, 1963, Edições Parsifal, 2013, ISBN 978-989-983-331-9.

Cortesia de Parsifal/JDACT

domingo, 8 de novembro de 2015

Carlos XII. Suécia. Monarcas Infelizes. Américo Faria. «… esse Inverno de 1708 era dos mais rigorosos e tremendos não para os Russos, habituados às grandes invernias dos desertos brancos, mas para os Suecos, que lhe sofreram mal as inclemências»

Cortesia de wikipedia

Rei errante que não conseguiu voltar ao trono
«(…) Convinha, por conseguinte, refrear a impetuosidade do jovem monarca e aquietá-lo com uma batalha que fosse decisiva. Carlos XII, conhecedor dos intentos do inimigo, vê gorados os seus desejos de regresso à sua corte. Ele, embora se sinta cansado de campanhas e de combates, compreende que, para ter algumas probabilidades de êxito tem de aproveitar o entusiasmo dos soldados, ainda quente, pelos passados feitos. De Saxe, já então comandando uma massa disciplinada de 43.000 soldados, força considerável para o tempo e para o seu pequeno país Carlos antecipa-se ao antagonista nos propósitos de invasão, e toma a ofensiva, invadindo por seu turno a própria Rússia. Foi, talvez, esse o maior erro que praticou em sua vida de guerreiro. Ele não desconhecia quanto era delicada e de resultados problemáticos uma invasão dos territórios russos, de infindáveis e desérticas planícies, mormente se tivesse de afrontar um dos terríveis e devastadores invernos, internado naquelas áridas imensidades. Mas, tão bom político como hábil militar, Carlos XII não se aventurou a tão contingente proeza sem primeiramente se assegurar de uma valiosa aliança com o famoso Mazepa, hetman dos cossacos ucranianos, poderoso chefe dispondo de apreciáveis soldados e que, na altura, estava rebelado contra o czar.
O chefe cossaco fizera-lhe fantasiosas promessas quanto ao auxílio que lhe dispensaria-e, não podendo cumpri-las, colocou o aliado na terrível emergência de nada mais encontrar senão as estepas desoladas e intermináveis, cobertas de gelo. Desgraçadamente, esse Inverno de 1708 era dos mais rigorosos e tremendos não para os Russos, habituados às grandes invernias dos desertos brancos, mas para os Suecos, que lhe sofreram mal as inclemências. Os moscovitas, como mais tarde fizeram com as hostes napoleónicas e mais recentemente com as avalanches motorizadas de Hitler, foram retirando diante dos invasores, esquivando-se à batalha, com o propósito de os fazerem internar-se fundamente. Ao mesmo tempo, enquanto os seus corpos recuavam sistematicamente, sistematicamente também iam deixando a terra devastada. Os suecos gelavam de frio e morriam de fome. Tombavam pelos caminhos, de inanição, e em breve ficavam sepultados no gelo. Chegada a Primavera, do brilhante e vigoroso exército invasor, apenas restava uma pálida sombra.
A dificuldade de deslocar em ordem tão grande mole de homens, a maior parte sofrendo intensamente, depressa acudiu ao espírito agudo de Carlos. Mas, porque já estava demasiado entranhado pelo interior russo, só teve um único meio, o de prosseguir, apesar de tudo. Recuar seria a morte inglória, sem combate. O avanço dava-lhe uma probabilidade remota de escapar com a sua tropa. Em redor, ele via, dia a dia, os seus soldados caírem, exaustos, vencidos pelas doenças, privações e obstáculos de toda a espécie. O monarca sueco sentia-se impotente para resistir, ou sequer lutar contra aquele terrível inimigo que eram os elementos conjugados para o abater. Tudo ali se aliava contra a sua tropa, desmoralizando-lhe os homens, minando-lhe a vontade de vencer». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LClássicaE/JDACT

Carlos XII Suécia. Monarcas Infelizes. Américo Faria. «Os esplêndidos feitos de armas de Carlos XII, em série vitoriosa e sucessiva, tiveram extraordinária retumbância no Mundo, espantado. No seu país, tão boas e estimulantes notícias foram acolhidas com o delírio popular»



Cortesia de wikipedia e jdact

Rei errante que não conseguiu voltar ao trono
«(…) Carlos, todavia, resoluto e intimorato, não era homem para recuar, mesmo perante tão flagrante desigualdade. Assediando, nesse mesmo ano, Narva, o soberano sueco, mercê da sua habilidade e estratégia, do seu prestígio e do valor dos seus homens, obtém sobre o inimigo memorável vitória, deixando-o totalmente desbaratado, a saborear o amargo gosto da derrota. Bater o colosso russo era coisa inconcebível originou a admiração do Mundo. Faltava vencer o último dos três possantes inimigos. Carlos, verdadeiramente incansável, senhor de uma energia assombrosa e com o carácter já caldeado pela dureza da vida de campanha, dispõe-se a travar o que ele julgava ser a última batalha. Sem ter voltado à sua capital depois da declaração da guerra (aliás, ele não tornaria mais à sua corte!), avança com os seus exércitos invencíveis sobre as tropas saxónicas do rei da Polónia, às quais consegue derrotar na passagem do Duna, em 1701. Augusto II logra escapar-se ao aprisionamento e retira desordenadamente. Carlos aproveita inteligentemente a desorganização do exército inimigo, persegue-o tenazmente e invade com os seus valorosos homens o solo polaco. Contactos fortuitos se estabelecem, por vezes, entre os antagonistas, mas a decisão final da contenda só em 1703 viria a manifestar-se com uma nova e clamorosa vitória dos suecos. Estes, comandados pelo seu juvenil e querido chefe, abatem, em Kissaw, o orgulho e a pertinácia do inimigo.
Os esplêndidos feitos de armas de Carlos XII, em série vitoriosa e sucessiva, tiveram extraordinária retumbância no Mundo, espantado. No seu país, tão boas e estimulantes notícias foram acolhidas com o maior e mais justificado delírio popular. Augusto, derrotado, esmagado material e moralmente, vê-se constrangido a abandonar a pátria e a renunciar à coroa. Os polacos, humilhados, encarregam o seu compatriota Estanislau Leczinski, oriundo de ilustre família e filho de Raphael Leczinski, palatino da Posnânia, de negociar a paz junto do vencedor. E, sob o título de Estanislau I Leczinski, o negociador, por influência sueca, sobe ao trono vago da Polónia, assinando ambas as partes um acordo definitivo entre os dois países: o tratado do Alto-Randstadt, firmado em 1706, após a invasão da Saxónia.
Resolvido o caso polaco, Carlos XII, previdentemente, trata de consolidar Estanislau I Leczinski no trono, a fim de se poderem estabelecer relações duradoiras e amigáveis entre os dois povos vizinhos. Entretanto, os Russos, de recursos inesgotáveis e já refeitos da tremenda derrota sofrida em Narva, reorganizados e sem desistirem das suas pretensões de domínio, ao mesmo tempo que animados do desejo de desforra, preparam-se activamente para marchar contra os invictos suecos e entravar-lhes o sucesso das armas. As contínuas vitórias de Carlos XII estavam provocando o alarme em muitos Estados europeus e originavam, sobretudo, a inquietação no espírito de Pedro, o Grande, pela limitação de largas ambições territoriais». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LClássicaE/JDACT

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro Américo Faria. «Sabe-se, no entanto, que era fisicamente linda, havendo quem a aponte como “uma das mulheres mais belas da Europa no seu tempo”, o que não era pequeno predicado

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Teresa Henriques. Poderosa condessa da Flandres
«Portugal estava nos primórdios da sua existência como reino independente de facto, muito embora o antigo suserano não no-lo quisesse reconhecer. Mas o atlético Afonso Henriques, lançado decididamente no supremo objectivo de engrandecimento dos seus domínios, que ia dilatando a golpes de audácia e de bravura, enérgico e tenaz, queria desconhecer a resistência do primo Afonso VII de Leão ao reconhecimento. Espírito nato de guerreiro, coadjuvado por um escol de cavaleiros de ânimo rijo, de antes quebrar que torcer, o nosso primeiro monarca, rei, desde a aclamação pelas suas tropas vitoriosas na célebre batalha de Ourique (Julho de 1139), segundo reza a tradição, não descansava um momento nos seus propósitos.
Ora contra os leoneses, ora contra os infiéis de Mafoma, ao tempo ainda assenhoreados de uma boa parte do território que, em futuro próximo, viria a integrar Portugal nas suas fronteiras definitivas, o rei-fundador ampliava de forma substancial, em correrias temerárias, sempre motivo de pânico para o inimigo, os escassos limites do antigo Condado Portucalense herdado do pai. Na sua gloriosa carreira de batalhador, nas suas infatigáveis deslocações em surtidas sem fim, teve o grande conquistador apenas uma ausa, a do seu casamento em 1146 e o ano que se lhe seguiu.
Da rainha dona Mafalda, filha de Amadeu II, conde de Moriano, Sabóia e Piemonte, houve ele vários filhos e filhas. Destas últimas, a segunda teria sido dona Teresa, dado que a primeira fora dona Urraca, depois rainha de Leão pelo casamento. Poucos, e de difícil consulta, são os documentos conhecidos dessa época, e oito séculos já sobre ela passaram, que nos elucidem com segurança quanto à vida da infanta dona Teresa.
Os escritores estrangeiros tratam-na por Matilde, por, segundo parece, ter sido esse o nome que ela usou após o casamento, sem que se conheçam as razões que a levaram a adoptar tal qualificativo. Também, de resto, se desconhecem, por serem omissas nesse ponto as raras crónicas que se ocupam desta filha do rei-conquistador, a data em que nasceu e muitos outros pormenores da sua existência. Sabe-se, no entanto, que era fisicamente linda, havendo quem a aponte como uma das mulheres mais belas da Europa no seu tempo, o que não era pequeno predicado. Já em idade casadoira, teve um pretendente na pessoa prestigiosa de Filipe de Alsácia, o poderoso conde da Flandres e de Hainaut. A razão da honrosa escolha não se sabe. Mas, dedutivamente, é provável que algum cruzado, fidalgo de alta linhagem, dos muitos que por cá passaram nessa época e auxiliaram o nosso rei nas encarniçadas lutas contra a moirama aqui radicada, tivesse falado na nossa princesa ao soberano da Flandres, exalçando-lhe as qualidades e dotes físicos e morais.
Aquele condado era, ao tempo, um estado de grande vastidão territorial e de assinalável poderio militar e político, além de ser de muito antiga fundação. E a família condal orgulhava-se, muito justamente, de possuir remota genealogia, com antepassados de grandes lustres e altivos pergaminhos. Afonso Henriques, decerto bem informado no que respeitava à magnífica personalidade do candidato, quase um rei pelos seus estados e categoria, não teve dúvidas em conceder o seu consentimento a matrimónio tão promissor. Celebrou-se, em Portugal, o feliz consórcio em 1184, no mês de Agosto, com as pompas e faustos próprios de tão altos príncipes. E pouco depois seguiu a nossa formosa infanta para a sua nova corte em Gand. Levava por séquito numerosos e brilhantes personagens da corte portuguesa, parte do qual ficaria na Flandres como seu pessoal privativo.
A Europa de então digladiava-se em contínuas guerras religiosas ou simplesmente entre Estados para solucionarem antigas dissidências. Os povos não tinham sossego, e aos príncipes reinantes não era dado desfrutarem em ambiente de tranquilidade as suas coroas. Eram umas vezes os soberanos que marchavam em pé de guerra a fim de submeterem vassalos recalcitrantes, que se rebelavam contra os seus suseranos. Eram os vassalos que se levantavam contra aqueles, defendendo de armas na mão o que presumiam ser os seus direitos... Filipe devia vassalagem a Filipe Augusto, rei da França, de quem aliás fora tutor. Tais factos, no entanto, não o impediram, que, por essas alturas, confundiam-se direitos com interesses, e estes opunham-se a sentimentalismos, de se aliar com os ingleses contra ele». In Américo Faria, Princesas Portuguesas Rainhas no Estrangeiro, 1963, Edições Parsifal, 2013, ISBN 978-989-983-331-9.

Cortesia de Parsifal/JDACT

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Grandes Soberanos Destronados Sancho II de Portugal. Américo Faria. «Faltara-lhe belicosidade para enfrentar o inimigo exterior e dilatar os domínios do reino, mas sobejara-lhe autoridade para se impor e dominar os inimigos internos. Sancho II, ao invés, mostrou-se desde logo um guerreiro, um chefe militar à altura»

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«(…) Dir-se-ia que só os ministros estavam com o rei-infante. O resto da nação parecia empenhado em destruir aquilo que os três reis antecessores, com tanto trabalho e energia, tinham construído: um reino criado numa pequena parcela de terreno da Europa, e que, apesar disso, havia, ao diante, de Provocar o assombro e a admiração dos outros povos pelos audaciosos feitos que os seus filhos souberam realizar. Depois de se sujeitarem os regentes à concórdia, de condições humilhantes para o poder, com o clero de Coimbra, um dos ministros responsáveis, sobre o qual incidia mais fortemente a aversão de uns tantos poderosos, viu-se coagido a abandonar o seu cargo: Pedro Anes. O jovem rei passou a outras mãos, as da família Mendes Sousa, e, ainda que faltem documentos directos da anarquia que lavrou nesse período do reinado de Sancho II, os documentos posteriores, que se referem ao tempo em que el-rei Sancho andava roubado, provam que a anarquia existia, e que as diversas facções se arrancavam umas às outras o monarca infantil para, em seu nome, se assenhorearem do governo.
Tal situação, é óbvio, não podia durar sempre. O filho de Afonso II foi crescendo, desenvolvendo os seus naturais dotes de inteligência e adquirindo vontade própria. Esta, porém, voltava-se inteiramente para as artes da guerra.
O pai mostrara-se mais à vontade nas lutas civis, governando com indomável energia. Faltara-lhe belicosidade para enfrentar o inimigo exterior e dilatar os domínios do reino, mas sobejara-lhe autoridade para se impor e dominar os inimigos internos. Sancho II, ao invés, mostrou-se desde logo um guerreiro, um chefe militar à altura, deixando aos ministros a solução dos negócios domésticos. O soberano, que não foi um cobarde, de qualquer ângulo que se encare o seu vulto, rei cavaleiro, brilhava nas arrancadas contra os moiros, mas era incapaz de sustentar uma luta insignificante contra um bispo. Com dezasseis anos de idade, já então aliado de Fernando II de Castela, com vista à expulsão dos muçulmanos, que constituíam certos focos algo importantes encravados nas terras dos dois reinos, capitaneou a expedição militar e tomou Elvas para a coroa portuguesa. São unânimes os testemunhos que atribuem grande valor militar a Sancho nessa empresa, coroada de tão bom resultado, como, aliás, sucedeu em todas em que participou. Houvesse o rei infeliz tido pulso tão firme como firmeza revelava no manejo da espada e outro teria sido o seu destino e glória.
Não se depreenda, no entanto, que Sancho II seria um tíbio de carácter. Por mais de uma vez, a sua vontade pessoal se opôs às pressões e intrigas de varia ordem, acabando por levar a sua avante. Assim aconteceu, por exemplo, com a nomeação dos ministros, que voltaram a ser os que tinham servido com o seu pai e nos quais ele confiava em absoluto. Não puderam esses homens, infelizmente, dominar a situação anárquica em que o país vivia. Donde menos se esperava surgiam os obstáculos, os trabalhos. Campeavam as cabalas e afloravam as ambições. Com circunstâncias tão favoráveis ao rebentar das paixões, recomeçaram as lutas com o clero, o qual nem sempre levou a melhor». In Américo Faria e Herdeiros, 1958, Dez soberanos destronados, Grandes Soberanos Destronados, Edições Parsifal, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-8760-00-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

quarta-feira, 25 de março de 2015

Dez Enigmas no Mar. Américo Faria. «… uma enorme massa de água do Mediterrâneo projectou-se violentamente sobre o Oceano Atlântico, originando a submersão do antigo continente, que outrora quase ligava a África à América…»

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A Atlântida Existiu?
«Existiu, realmente, a Atlântida ou, pelo contrário, deve-se tal hipótese a uma fantasia de  Platão, expressa nas suas duas obras Timéa e Critias? Era um país, diz o grande filósofo, que ficava situado além das colunas de Hércules (isto é, do moderno estreito de Gibraltar até às ilhas de Cabo Verde). Essa ilha era mais vasta do que a Líbia e a Ásia reunidas, e os navegantes passavam dela para outras ilhas e destas para o continente que borda esse mar. Referia-se evidentemente à América. Num outro passo, o fundador da famosa Academia grega acrescenta: Nessa ilha, Atlântida, os reis tinham formado uma grande ,e maravilhosa potência, que a dominava por inteiro e a muitas outras, estendendo-se, também, até certa parte do continente. Além disso, nas nossas terras, aquém do estreito, eram senhores da Líbia até ao Egipto e da Europa até Tirrenaica. Tais reis teriam feito, em tempos remotíssimos, guerra contra Atenas. O seu povo, além do mais, teria atingido elevada civilização. Mas, enquanto uns acreditam na existência do celebrado continente, outros põem-na em dúvida.
Inegavelmente, a maioria dos sábios está de acordo em que um dos numerosos cataclismos que revolucionaram o Globo terrestre fez desaparecer por submersão o lendário império. A sua localização seria precisamente onde hoje se estende o tapete quase infindável das águas do Atlântico. Os arquipélagos da Madeira e dos Açores, segundo essa teoria, seriam os restos, os picos mais elevados da Atlântida, que, pela sua grandiosa altura, as águas oceânicas não puderam cobrir. Outros, porém, e não menos ilustres e não com menores razões, situam o continente desaparecido no maciço de Hogar, a região do Norte de África onde um laureado escritor francês, Pierre Benoit, fez desenvolver a acção do seu romance Atlântida. Realmente, cuidadosas observações geográficas e geológicas efectuadas por sábios eminentes permitiram que se chegasse a verificações impressionantes. Uma destas é a de que, entre os materiais empregados na construção das famosas pirâmides egípcias, um figura de que há abundância na América do Sul.
Por outro lado, os ídolos dos Astecas têm espantosa semelhança com os do antigo Egipto. Finalmente, não se sabe, nem pela civilização grega nem pela romana, a origem da indústria do bronze, indústria que as tradições afirmam ter sido introduzida no mundo antigo por um povo do Ocidente. Que povo poderia ser este senão o dos Atlantes? Há ainda estudiosos que colocam a Atlântida na Escandinávia, como Rudbeck; na Pérsia, e é o caso de Latreille; ou até na Mongólia, segundo Bailly, e tantos, tantos se têm pronunciado sobre o palpitante assunto que seria longo enumerá-los. Tal divergência de opiniões levou alguns a admitirem tratar-se de simples lenda o hipotético continente, tanto mais que, dos antigos, Plínio e Estrabão se limitam a aceitar sem comentários a descrição dos Diálogos de Platão. No entanto, também dos antigos, Deodoro Siculo tem opiniões próprias sobre a questão. Geógrafo e historiador, ele explica que a causa da submersão da Atlântida se deve a ruptura de Gibraltar e relativa invasão do Atlântico, elevando o nível deste e submergindo o aludido continente. Portanto, uma enorme massa de água do Mediterrâneo projectou-se violentamente sobre o Oceano Atlântico, originando a submersão do antigo continente, que outrora quase ligava a África à América. Afirma também que, como consequência desse fenómeno, o deserto do Saara, até então um grande lago, viu as suas águas escoarem-se para o Oceano Atlântico. O actual deserto de Saara não passaria, desta forma, de leito de um grande lago antigo». In Américo Faria, Dez Enigmas no Mar, Livraria Clássica Editora, colecção Dez, Lisboa, 1959.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Monarcas Infelizes Carlos I Inglaterra. «Ele teria tido, sem dúvida, melhor moldura para o seu reinado se, em vez de se mover no tablado das brumosas regiões inglesas, tivesse vivido noutro ambiente mais galante e mais tolerante»

Cortesia de wikipedia e jdact

Neto de Maria Stuart. Decapitado pelo Parlamento inglês
«(…) Muitos galgaram os degraus do patíbulo para ensopar os lenços no sangue, que afinal não era azul, mas vermelho, como o de toda a gente. A morte de Carlos Stuart em nada desmereceu da de sua avó, infortunada como ele. Afinal, eram ambos Stuarts e os Stuarts, era da tradição, se não sabiam governar bem, sabiam bem morrer! Realmente, a vida de Carlos I não fora brilhante ou invejável. Ele teria tido, sem dúvida, melhor moldura para o seu reinado se, em vez de se mover no tablado das brumosas regiões inglesas, tivesse vivido noutro ambiente mais galante e mais tolerante. Madrid ou Viena, por exemplo, onde a mentalidade colectiva era, ao tempo, mais delicada, teriam, talvez, compreendido melhor esta personalidade real, de psicologia remarcada e firme, este homem coroado tão generoso, humano, artista, profundamente imbuído dos seus deveres do que, por defeito de educação considerava os seus deveres.
Os-filhos mais velhos do Stuart, Carlos e Jaime, encontravam-se no exílio, na Holanda, junto do seu cunhado, o príncipe de Orange, que os auxiliava. Carlos I despedira-se dos filhos mais novos, dona Isabel e o duque de Gloucester, antes de subir ao patíbulo. O monarca deu conselhos ao último. Vão talvez aclamar-te, mas não deves ser rei enquanto viverem teus irmãos, porque se os apanharem cortar-lhes-ão a cabeça..., e o mesmo te espera, meu filho. Não deves, pois, consentir na coroação... Para Carlos I o período mais feliz do seu reinado teria sido, exactamente, o dos onze anos que governara sem Parlamento. Foi nessa fase que logrou impulsionar, de forma assinalável, a indústria do país, que muito lhe ficou devendo.
Após a execução do infeliz soberano, o governo parlamentar exigia de Portugal, por intermédio da sua esquadra, a entrega dos sobrinhos do Stuart, os príncipes palatinos Roberto e Maurício, que se haviam acolhido à protecção da corte de Lisboa. João IV, de Portugal, cedendo mais a razões humanas do que políticas (os interesses de Portugal, nesse momento, quiçá tivessem aconselhado o contrário!) negou-se a atender as imposições da Inglaterra, numa honrosíssima atitude. E os sobrinhos do rei decapitado puderam sair do solo português incólumes e em liberdade para continuarem a combater pela causa de seu tio, e agora, porventura, desejando apenas vingá-lo.
Realmente, quando, anos mais tarde, restaurada a realeza, Carlos II subiu ao trono, um dos seus primeiros actos foi o de julgar e condenar à morte os juízes de Carlos I, seu pai. Quanto à rainha-viúva, Henriqueta Maria, homiziada, apos o trágico fim do marido e depois de ter vivido, no Louvre, a miséria imposta pela avareza de Mazarino, recolheu-se ao Convento da Visitação, em Chailot, de que foi fundadora. Sobreviveu ainda vinte anos ao esposo. Morreu em 1669, em Colombes». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia da LCEditora/JDACT

domingo, 25 de janeiro de 2015

Monarcas Infelizes. Maximiliano I. México. Américo Faria. «Maximiliano faz ouvidos surdos às prudentes palavras de Francisco José, conquistado inteiramente pelas perspectivas que se ofereciam à sua ânsia de aventura. A coroa mexicana concedia-lhe a hipótese de uma sugestiva experiência de governo»

Cortesia de wikipedia

Habsburgo que segue o destino trágico dos seus ancestrais
«(…) Decorre 1863. Fernando José Maximiliano encontra-se, já há seis anos que eles haviam estado juntos pela última vez!, com o seu irmão, o imperador Francisco José I. O tema da conversa entre ambos não podia ser outro: México, distante e sangrento... a proclamação, por essa farsa que passou à História com o nome de Asamblea de los Notables, reunida na cidade do México em l0 de Julho de 1863, de Maximiliano como imperador do país... a deposição do presidente Juarez... Os dois irmãos estudam a situação, pesam probabilidades. Maximiliano mostra-se entusiasmado, forma planos. Para ele, o trono do México será uma capitosa evasão da vida insípida europeia, do pacífico castelo de Miramar, da existência insignificante, sem horizontes, que a sua condição de arquiduque lhe marcava. Ele, exuberante de sonho, traça utópicos programas de governo, de realizações. O irmão, mais experiente, mais maduro no poder, porventura, com a previsão do futuro dramático, objecta-lhe, friamente: Mas, quem poderá garantir que Juarez e os seus partidários não voltam, quando as francesas abandonarem o país? Recorda-lhe o exemplo de Maria Antonieta e pergunta, ansioso: Quem impedirá que os Mexicanos te façam o mesmo que os revolucionários franceses fizeram em 1793 à nossa desgraçada parente?
Maximiliano faz ouvidos surdos às prudentes palavras de Francisco José, conquistado inteiramente pelas perspectivas que se ofereciam à sua ânsia de aventura. A coroa mexicana concedia-lhe a hipótese de uma sugestiva experiência de governo. O espírito inebriava-se-lhe com o projecto e a imaginação, inflamada, sonhava já com um México moderno, poderoso, que pesasse decididamente no tabuleiro do xadrez internacional. A ideia era apaixonante. Respondeu ao imperador da Áustria: Juarez foi totalmente abandonado pelos seus partidários e anda foragido. Além disso, Napoleão prometeu-me deixar lá as tropas por mais três anos, até que a situação esteja consolidada e o país pacificado. De resto, como sou um príncipe católico e liberal, terei por mim a grande facção católica do país e a facção liberal... Uma deputação da nação mexicana vem à Europa saudar Maximiliano como seu imperador. O arquiduque Fernando José aceita a coroa imperial e em 10 de Abril de 1864 renuncia aos seus possíveis direitos à coroa austríaca.
Todo o mundo cristão depositou as maiores esperanças em que Maximiliano acabasse com as perseguições religiosas no grande país de que ia ser chefe de Estado. O próprio papa celebra por tal intenção, nesse mesmo mês, missa na Capela Sistina, com a assistência do imperador e da imperatriz, e diz no final do Ofício Divino: Eis o Cordeiro de Deus que apaga os pecados do Mundo. Por Ele reinam e governam os reis, por Ele fazem justiça, por Ele se exerce todo o poder. Eu vos recomendo em Seu nome a felicidade dos povos católicos, que vos estão confiados. Respeitai os seus direitos e os direitos da Igreja! Palavras de confiança que, em breve, o espírito um tanto inconstante do imperador olvidaria, ou a que a sua tibieza no poder não soube dar satisfação. A viagem dos imperadores do México, triunfal na Europa e saudada calorosamente pelos Estados amigos, transcorre no meio de festas a bordo, de conversas brilhantes, mas superficiais, dos membros do numeroso séquito. Todavia, na outra banda do oceano, as coisas não correram tão propícias. A chegada da frota imperial ao México, levando o Themis por navio-almirante, como não eta esperada tão cedo, levou a perturbação às autoridades. Maximiliano e a sua corte tiveram de conservar-se a bordo mais um dia inteiro, enquanto, em terra, no porto de Vera Cruz, se improvisava apressadamente a recepção». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de LCEditora/JDACT