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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Américo da Costa Ramalho. A propósito de Luísa Sigeia: «No século XVI, Sá de Miranda, sem dificuldade, aclimatara a "mediania dourada" à poesia do seu tempo. E não se limitara a versejar, mas viveu esse ideal de meio-termo e fuga aos cuidados ambiciosos, deixando a corte que o desgostava. Outro tanto fizera, milénio e meio antes dele, o Venusino, ao manter a sua independência...»

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«A bibliografia sobre Luísa Sigeia ficou enriquecida com dois importantes trabalhos, saídos em1970. Graças a eles, a vida e a obra da mestra da Infanta D. Maria passam a ser melhor conhecidas e os estudos a seu respeito obtêm uma actualização, cuja necessidade se fazia sentir. Trata-se, em primeiro lugar, da «thèse de troisième cycle» que Odette Sauvage apresentou à Sorbonne em 1967 sobre o Duarum Virginum Colloquium de vita aulica et privata Loysa Sigea Toletana auctore, editum Vlyssiponae, anno salutis MDLII. E publicado posteriormente no volume do Bulletin des Études Portugaises, relativo a 1970, o longo artigo de Léon Bourdon e Odette Sauvage, intitulado «Recherches sur Luisa Sigea» e subdividido nos seguintes capítulos: «I – Tentative de Biographie Critique de Luisa Sigea» (pp. 36-60); «II – La correspondance latine de Luísa Sigea» (pp. 61-133); «III – Le Duarum Virginum Colloquium de Vita Aulica et Privata» (pp. 134-176).

Aí se publicam e traduzem todas as cartas latinas conhecidas hoje, da autoria de Luísa Sigeia. Para uma actualização completa, falta apenas a reedição contemporânea do poema Sintra, saído em Paris, em 1566, [...] em Portugal, publicado por José Silvestre Ribeiro (1880) e pelo Conde de Sabugosa (1903).
Não é muito, como vemos, o que existe de Luísa Sigeia, falecida em 1560, cuja data de nascimento foi [...] fixada em 1522 [...]. Inclui o livro de Odette Sauvage a reprodução de um retrato de Luísa, cópia do século XVIII de um original do século XVI, cópia essa existente na biblioteca de Toledo. Não é sem interesse fazer a comparação deste retrato com o de sua irmã Angela que o P.e António Carvalho da Costa descreveu de visu em Torres Novas, na Corographia Portuguesa, publicada em 1712.
E o P.e Inácio da Piedade e Vasconcelos na Historia de Santarem Edificada, Lx.ª, 1740, p. 329, afirma ter visto em casa do terceiro neto de Ângela, João de Melo Carrilho de Velasco, em Torres Novas, um retrato de Luísa «com a noticia de huma honrada carta, gravada toda de especiais laudatorias que lhe mandou o Papa Paulo terceiro, envolta com muitas graças de Indulgencias, sendo isto no anno decimo-terceiro do seu Pontificado, passado em Roma a outo do mez de Janeiro de 1547, de cuja carta são estas as primeiras palavras: Dilecta in Christo, filia satutem &c».

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Trata-se da bem conhecida carta, agora reeditada por Bourdon & Sauvage, a p. 83, do artigo citado no Bulletin. O que importa aqui notar é que, se bem entendo as palavras do P.e Vasconcelos, o retrato de Luísa teria uma inscrição, possivelmente longa, em que se fazia referência à famosa epístola do Papa Paulo III. Deste retrato, assim como dos de Ângela Sigeia que o P.e António Carvalho da Costa viu em casa do terceiro neto acima referido, nada chegou até nós. Como não chegaram os escritos de Ângela que, segundo o P.e Vasconcelos, se encontravam na casa de Torres Novas. A este respeito temos a informação dum consciencioso investigador local, Artur Gonçalves, Torrejanos Ilustres, Torres Novas, 1933, p. 243: «Em balde inquirimos dos descendentes de Ângela Sigéa a existência de qualquer obra ou retrato seu na posse da família ou de outrem; nada conseguimos apurar».

O livro de Odette Sauvage apresenta uma valiosa Introdução (pp. 9-64), seguida da edição bilingue do Colloquium: texto latino e tradução francesa em frente (pp. 65-279); notas sucintas mas esclarecedoras, na sua maioria, de identificação dos passos referidos no diálogo (pp. 281-298), seguida da lista dos lugares citados para cada autor (301-304). Bibliografia e Tabela de Matérias encerram o volume onde se sente a falta de um índice de nomes próprios.
O tema do diálogo é dos mais consentâneos com o espírito dos leitores de poetas da época de Augusto, como eram os quinhentistas: o elogio de uma vida retirada, sem o fausto da ostentação mas confortavelmente remediada, sem ambições de escalada social, voltada para o cultivo do espírito e de boas amizades. O tema vinha de Virgílio, recebera em Horácio a consagração lapidar da «aurea mediocritas», fora glosado pelos elegistas romanos, andava nos coros das tragédias e nos diálogos de Séneca, passara à concisão epigramática de Marcial e facilmente se acomodava com a filosofia do Cristianismo. Isto para falar apenas da tradição latina, pois as origens do «topos» rastreiam-se facilmente na literatura grega.
No século XVI, Sá de Miranda, sem dificuldade, aclimatara a «mediania dourada» à poesia do seu tempo. E não se limitara a versejar, mas viveu esse ideal de meio-termo e fuga aos cuidados ambiciosos, deixando a corte que o desgostava. Outro tanto fizera, milénio e meio antes dele, o Venusino, ao manter a sua independência em relação à perigosa vida do palácio de Augusto, refugiando-se na sua quinta sabina.

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Luísa Sigeia tinha, portanto, muito onde se inspirar na discussão «de vita aulica et privata», que as duas jovens Flamínia e Blesila, a primeira natural de Roma e a segunda de Sena, travam «numa casa de campo». As citações abundam, quer de autores cristãos quer de pagãos, tanto mais que o tema, de carácter geral e de filosofia prática, susceptível de inúmeros desenvolvimentos marginais, era daqueles, como atrás dissemos, em que o escol do Paganismo e o do Cristianismo não dissentiam muito. A meta última seria para ambos a mesma: a prática da virtude. Esperar-se-ia, por isso, aquilo que o diálogo da Sigeia é: uma tessitura de opiniões eruditas, abundantes e variadas, a fazerem «jus» à riqueza da livraria da Infanta, onde a humanista compôs a obra, nos momentos livres das suas ocupações. Mas há mais alguma coisa que se não esperava e que irrompe do contexto do Colloquium, sem ter muito que ler nas entrelinhas: a expressão dos próprios sentimentos da autora. E estes, postos na boca de Blesila, não são muito lisonjeiros para a realeza de que a mestra Sigeia era alumna. [A este propósito escreveu Carolina Michäelis em A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, Porto, 1902, p. 89: «(...) Muitos auctores portugueses trocaram os papeis, caracterizando Joanna Vaz como menina-prodigio e Luisa Sigea como matrona, e professora daquela. Outro erro é o de representarem ambas como alumnas da Infanta. Trabalhando no seu paço, consultando a sua bibliotheca, lendo com ella escritos de poetas e historiadores, ambas fariam progressos notaveis. Também é possível que assistissem às prelecções, dadas à Infanta por summidades scientificas. Mas de lá a tratá-las de discipulas da propria Infanta – ainda ha distancia». (O sublinhado é meu.) Não vi os passos citados por Carolina Michäelis onde Joana Vaz e a Sigeia são alumnas da Infanta, mas é claro que se trata de textos latinos e que neles a palavra alumna significa, como é corrente em latim humanístico, «súbdita, empregada de sua casa». Portanto, a indignação da sábia romanista é injustificada.]

Com efeito, não é difícil encontrar passos como aquele em que Blesila, contraditando as cândidas afirmações de Flamínia, lhe faz notar a peruicacia dos príncipes e comenta sardonicamente:
  • «[...] embora afirmes que no teu Príncipe se não encontra tal peste, isso nada significa. Favorece-te, estima-te, acarinha-te; serias acoimada de ingrata, se nele encontrasses faltas, ou as revelasses, ainda que as tivesses encontrado». Esta atitude de crítica aberta ao procedimento dos príncipes, ao seu egoísmo, tirania e ingratidão não a conseguem disfarçar as citações bíblicas, patrísticas ou pagãs, sobretudo as duas primeiras, com que tenta escudar-se a incisiva Blesila, tão franca quanto imprudente. Com efeito, embora Flamínia seja criação da humanista, não menos que Blesila, e Flamínia exalte a realeza e a vida da corte, Blesila está mais de acordo com o que as cartas da Sigeia nos revelam, e representa certamente a sua verdadeira forma de pensar. Não surpreende, por isso, que os príncipes não fossem generosos com Luísa Sigeia, quando esta abandonou o seu serviço. Não pode dizer-se, porém, que tenham sido notoriamente ingratos. Mas não lhe deram tudo quanto esperava, ao fim de treze anos de serviço a que, numa carta, chama de «dedicada servidão» [...]. Mas voltando ao Colloquium, muito nele há a elogiar, na tradução, na paciência infinita com que a autora despistou citações e alusões, na sobriedade e equilíbrio da Introdução e Notas finais [...]».
In Américo da Costa Ramalho, A propósito de Luísa Sigeia (excerto), Fundação Calouste Gulbenkian, História e Antologia da Literatura Portuguesa, século XVI, nº 27, 2003, Miscelânea, ISBN 1645-5169.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas: «A despeito d'esta clausula D. João III oppos-se, não á partida de D. Leonor, mas á da filha, a qual o clamor da capital, excitada por tres annos de intrigas e calumnias, reclamava, perguntando com vivo rigor, “onde mandaes a nossa. infanta, nascida como em nossos braços, filha legitima do nosso natural rey, successora e herdeira en seu grau, nossa paz presente, alliança futura, riqueza certa?»

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NOTA: Texto na versão original

A Infanta D. Maria
«Em outra occasião, ao receber em seus aposentos, cercada de quatro matronas, quatro damas e tres donzellas que pareciam três graças, a um legado pontificio, ella apresentou-se com o mesmo recato: toda de velludo preto, e corpo afogado. É verdade que nesse ensejo contava vinte annos a mais. Mas tendo herdado joias esplendidas da mãe enfeitara-se d'esta vez com ricos adornos de ouro, e uma corôa de rubis e diamantes. Não falta, porém, quem a descreva em galas vistosas. Quando na côrte festejavam, n'um dos ultimos momentos de gloria e regosijo de D. João III, a puberdade do Principe D.João que ensaiava armas no novellesco torneio de Xabregas (1552), a Infanta brilhava em setim encarnado com recamado d'ouro e prata, e dianteira de trança de ouro e perolas. E essas galas tornaram-na tão bella que o poeta que assim descreve as roupagens, um moço da camara do Infante D. Duarte, não se aventura a devassar-lhe os encantos do rosto. Por circumloquios num simile feliz, comquanto pouco novo, diz apenas:
  • «para a eu desenhar vou-me com o pintor que cobriu o rosto de Agamenon no sacrifricio de Iphigenea, porque cousas em que a natureza abalisa seu extremo não lhe chega engenho humano para entendê-las».
Do mesmo modo procedeu o auctor das Decadas. Tocando vagamente na sua graça natural cita o prolóquio:
  • «a quem Deus quer bem, no rosto lhe vem».
Evidentemente entre os eruditos da côrte constava que a Infanta, bizarra, e na consciência da dignidade do seu estado, admittia que ao vulgo profano se fallasse das linhas do seu rosto, ou da elegancia das suas esplendidas formas esculpturaes. Apenas o velho Resende, ao tributar-lhe homenagens, adiantava-se até tocar em alguns pormenores: os cabellos ruivos, o andar divino, «incessu dea», lembrando a Venus de Lucrecio:
  • «incessu patuii dea».
Mas esse... fallava latim.
Para findar, mais uma observação. Parece que graças á robustez da sua constituição, D. Maria conservou longamente certa frescura juvenil. Venturino, o secretario do cardeal Alexandrino, opinava, ao vêla em 1571, que nenhum desprevenido lhe teria dado os cincoenta annos já decorridos.

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Era fructo ultimo do terceiro matrimonio do rei Venturoso com a joven D. Leonor d'Austria, irman mais velha do Imperador Carlos V. Meio anno depois do nascimento da Infanta D. Maria (a 8 de Junho de 1521) o monarca fallecia, deixando ambas, mãe e filha, numa situação melindrosa e anormal, embora legalmente constituida.
D. Leonor fôra promettida primeiramente ao principe D. João (III), quando ninguem podia prever o fim da boa e prolifica rainha D. Maria, e menos ainda a pressa com que o desolado viuvo quasi quinquagenario, convolaria a terceiras nupcias, por conselho de poucos, quasi a furto, e exactamente com a noiva do seu primogenito e herdeiro. «Es este el bovo? havia perguntado, ao entrar em Portugal, fitando surprehendida e com curiosidade o enteado, rapaz viçoso de dezasete annos, dando assim a conhecer os meios illicitos e manhosos que os enviados de D. Manoel haviam empregado, para a fazer mudar de proposito, a ella e seu irmão. Era todavia voz publica que d'esses planos contrariados havia surgido uma verdadeira e violenta afeição que não se extinguira, mas antes medrára no curto prazo de tres annos de consorcio com D. Manoel. Depois do advento ao throno do successor. um partido numeroso de cortesãos e populares, julgando comprazer-lhe advogava o consorcio dos dois namorados, emquanto outros o impugnavam, acreditando na opposição da curia contra o casamento do enteado com a madrasta. Boatos calumniosos corriam. O Imperador para evitar escandalos, cortou o nó, decidindo que D. Leonor regressasse sem delongas.
A Infantinha havia de acompanhá-la pois no contracto, como em previsão do caso, fôra estipulado que D. Leonor podesse, enviuvando, sahir do reino, com seus filhos e creados, sem precisar de licença especial do soberano português.
  • «Si Dios ordenase que el dicho señor Rei de Portugal fallezca d'esta vida presente primero que la dicha Señora lnfanta, que ella, sus hjos y creados se puedan partir de los dichos reinos y señorios de Portugal, queriendo-lo fazer, y se puedan venir a Castella o a otra parte, para donde les pluguiere, sin le ser puesto embargo en ella ni a los que con ella vinieren… sin ser obligado de aver licencia del Rey de Portugal, que en aquel tiempo fuere».

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A despeito d'esta clausula D. João III oppos-se, não á partida de D. Leonor, mas á da filha, a qual o clamor da capital, excitada por tres annos de intrigas e calumnias, reclamava, perguntando com vivo rigor:
  • «onde mandaes a nossa. infanta, nascida como em nossos braços, filha legitima do nosso natural rey, successora e herdeira en seu grau, nossa paz presente, alliança futura, riqueza certa?»
E o soberano não achava prudente, nem sabia como restituir no curto prazo legal de quatro annos as avultadissimas quantias a que a Infanta tinha direito. Se D. Leonor podesse então prevêr o destino ulterior da filha, a sua vida entrecortada de desgostos, as tristes especulações, de que foi alvo por causa dos calculos e manejos profundamente egoistas do rei, seu irmão; se podesse prevêr com que facilidade Carlos V havia de sacrificar affeições pessoaes aos seu planos politicos; se adivinhasse, insistia com certeza com mais energia no cumprimento do contracto, reclamando os seus direitos! Partiu, porém (Maio de 1523), sem a filha, que não tornou mais a vêr, senão trinta e cinco annos depois, poucos dias antes de morrer (1558)!
Não vou devanear sobre o que aconteceria e qual teria sido a sorte da Infanta, uma vez passadas as fronteiras de Portugal. Assim, permaneceu orfan, com dois annos apenas, em poder del-Rei seu irmão entre «tres malicias coronadas» e desencontradas, que cubiçavam os seus bens. Sob a direcção immediata da Rainha D. Catharina, foi creada por D. Joanna de Blasfeldt, sua aia e depois camareira-mór, que viera de Castella com a rainha D. Leonor, com os desvelos que competiam á sua elevada gerarchia, cercada de fausto e com o apparato de uma grande côrte. Mas é impossivel affirmar que os tutores a trataram com carinho e amizade fraternal. Antes, ha razões de sobejo para crêr que D. João III, embora simulasse attender sempre com muito respeito as opiniões da rainha de França, sympathisava pouco com a meia-irman, fructo de um matrimonio de que sempre se dera por offendido». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

sábado, 2 de julho de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal. As suas Damas: «...Mas não será desnecessario acentuar de um lado os traços de parentesco com os quadros da Luz e o do Mosteiro da Encarnação, como são a testa alta, cabello loiro, olhos azues, tez muito clara, e do outro lado a semelhança, notavel da retratada com el-rei D. Manoel»

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NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«Cumpre-me explicar agora quaes motivos me levam a aceitar a antiga tradição aãrtistica, que designa com o nome «Infanta D. Maria» a bella dama pintada por Moro, dizendo porque reconheço no vulto a filha de D. Manoel, comquanto nem no proprio quadro nem tão pouco em documento algum relativo a Moro haja noticias elucidativas. tambem, Por que razão regeito e considero inconsistentes as duvidas levantadas por certos criticos escrupulosos.
De onde essas duvidas nasceram, bem o sei. Da coexistencia de tres damas diversas de nome igual, que, nascidas no terceiro decennio do seculo XVI de allianças entre a casa de Austria e a dynastia manoelinao e casadas ou promettidas em casamento a principes do mesmo sangue, tinham jus a figurar nas galerias de retratos dos Felipes, e deviam, segundo todas as previsões, apresentar certo ar de familia, ostentando trajes de estylo parecido.
Ei-las pela ordem, chronologica:
  • Primeiramente temos a nossa Infanta, filha de D. Manoel de Portugal e D. Leonor de Áustria (1521-1577).
  • Em segundo logar, a filha de D. ]oão III e D. Catharina, a qual nasceu a 21 de maio de 1527, casou em 1543 com seu-primo Felipe, e falleceu ao cabo de dois annos, ao dar á luz o Infante D. Carlos, de triste memoria.
  • De passagem seja dito, que os dois nubentes eram de idade igual e celebravam o seu anniversario no mesmo dia como os reinantes actuaes de Portugal.
  • A terceira é a filha de Carlos V e da Imperatriz D. Isabel de Portugal. Essa nasceu em 1528. Casando em 1548 com o Imperador Maximiliano II, conservou-se todavia na Peninsula até 1551.

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É impossivel que Antonio Moro pintasse a segunda, se realmente veio de Flandres depois de 1550, no que todos concordam. Impossivel tambem que o quadro em questão represente uma joven de 17 ou 18 annos. Tambem não póde representar a terceira D. Maria, pois o retrato d'ella conservou-se e lá está hoje no Prado ao lado do que nos occupa, mas também sem inscrispção comprovativa. Resta portanto a hypothese que defendo e outros impugnam, por confundirem as tres Marias.
A estada do-pintor flamengo, «pintor das noivas regias», como um dos mais entendidos criticos de arte costuma nomeá-lo na côrte portuguesa em 1552, com cartas de recommendação da Rainha-viuva de Hungria para sua irman D. Catharina é um facto incontestavel e comprovado.
Com quasi igual certeza consta que o eximio artista retratou do natural, além dos reinantes, ao principe real, ao Infante D. Luiz e uma D. Maria de Portugal e que esses quadros foram parar, ainda no seculo XVI, a Hespanha, onde figuraram até 1608 na Sala dos Retratos do palacio «El Pardo». E como em 1550 havia uma única «D. Maria de Portugal» é quasi superfluo relevar ainda a perfeita concordancia da idade, e da indole que a pintura revela. Mas não será desnecessario acentuar de um lado os traços de parentesco com os quadros da Luz e o do Mosteiro da Encarnação, como são a testa alta, cabello loiro, olhos azues, tez muito clara, e do outro lado a semelhança, notavel da retratada com el-rei D. Manoel.

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O trage cujos tons sombrios dão realce á singular alvura das mãos e do rosto, finamente modelado, está em harmonia na sua singeleza distinctissima com a nobreza natural do porte, e com a melancholica suavidade da physiognomia. O velludo preto, afogado, de corte modesto, guarnecido apenas na frente com alguns laços de cor clara que se repetem nas mangas golpeadas, denuncia a elevada categoria do personagem, sem ostentar as suas grandes e falladas riquezas que tantas cobiças despertaram. Poucas joias de preço destacam-se do estofo e do veu de gaze, sem annullar o aspecto tristonho do quadro, Poucas, relativamente, diadema, collar, remate do veu e cinto, se tivermos em mira, conforme reclama a justiça, outros quadros da mesma epoca e do mesmo pintor, representando damas das familias reaes de Hespanha, porque o vestuário de algumas está litteralmente coberto das mais raras preciosidades da ourivesaria e joalheria.
Veja-se o retrato da Rainha D. Catharina, o da outra D. Maria, filha da Imperatriz D, Isabel de Portugal, o da Princeza D. Joanna, todos no Prado. E tambem o da Rainha D. Leonor que juntamos a essas paginas, por ser inteiramente desconhecido em Portugal. Vestida á franceza, com decote discreto, em cores brilhantes, parece tão juvenil como a filha; mais bonita e alegre, não.
Fosse em conformidade rigorosa com o seu estado de innupta, fosse por entender que dizia bem com a tez e o colorido, ou que não precisava de luxuosos atavios e grossa pedraria para se distinguir entre as primeiras, a virgem sábia, «egregium virgo decus innuptarum», escolhera aquelle vestido grave, á antiga portugueza». In A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas, edição fac-similada, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Biblioteca Nacional 1994.

Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Infanta D. Maria de Portugal. As suas Damas: «... a respeito das mulheres instruídas que conviveram com Cataldo Sículo e dele receberam cartas e versos, das quais D. Leonor (1488-1563) foi provavelmente a que faleceu mais tarde, temos de admitir que havia um movimento de interesse pela nova cultura entre as damas da corte, antes de 1520, ano em que o humanista já teria deixado de viver. Ao número dessas senhoras pertenceram, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã do rei D. Manuel, e a infanta D. Joana, irmã de D. João II»

Cortesia de wikipedia 

«... O livro do Sabelico chama-se Enneades seu Ehapsodia historiarum e foi D- Leonor de Noronha quem aportuguesou o título em eneyda, sem com isto pretender criar qualquer confusão com o poema de Vergílio. Por outro lado, Enneades é uma palavra derivada do grego «nove», porque cada um dos onze livros das Enneades está dividido em nove partes. ... a respeito das mulheres instruídas que conviveram com Cataldo Sículo e dele receberam cartas e versos, das quais D. Leonor (1488-1563) foi provavelmente a que faleceu mais tarde, temos de admitir que havia um movimento de interesse pela nova cultura entre as damas da corte, antes de 1520, ano em que o humanista já teria deixado de viver. Ao número dessas senhoras pertenceram, a rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã do rei D. Manuel, e a infanta D. Joana, irmã de D. João II.

Cortesia de absoluteastronomy 
Também não tem fundamento afirmar que a rainha D. Leonor, terceira mulher de D. Manuel, e mãe da Infanta, foi a impulsionadora do humanismo da corte no pouco tempo que viveu entre nós, e que sua irmã, D. Catarina, mulher de D. João III, não era muito instruída. Há provas em contrário desta afirmação. E no séquito que veio de Castela um conjunto de personalidades, cuja acção se fez sentir na vida cultural do país, como os irmãos Pedro e Rodrigo Sanches, Julião de Alba, Turíbio Lopes outros mais.
António de Castro, que promoveu a edição das obras de Cataldo Parísio Sículo, não foi discípulo do humanista italiano nem publicou as suas obras completas. Esta edição de António de Castro, se foi de facto impressa, não chegou até nós. Tudo o que temos é a publicação no século XVIII, a partir de António de Castro (manuscrito? livro impresso?), da parte dos versos de Cataldo, com cortes, por vezes, nas peças publicadas. Fez essa publicação D. António Caetano de Sousa no volume VI, das Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa.  

Trabalho de impressão de Valentim Fernandes
Cortesia de tipografos
De um modo geral, pode dizer-se que na edição das Provas não está metade sequer da obra poética de Cataldo e que lá faltam por completo os dois volumes de Epistolae e todas as Orationes menos uma. O primeiro volume de Epistolae et Orationes foi acabado de imprimir por Valentim Fernandes da Morávia, em Lisboa, em 21 de Fevereiro de 1500, o segundo, cerca de 1514. Das Orationes, D. António Caeteno reimprimiu a Oratio habita a Cataldo in aduentu Elisabet Principis Portugaliae ant ianuam Eburae; pronunciada pelo humanista em 28 de Novembro de 1490; e das Epistolae apenas a dirigida ao princípe D. Afonso, filho de D. João II, que precede os Prouerbia Cataldi.
Quanto a António de Castro, editor de Cataldo, a origem das confusões a seu respeito, como em tantos outros casos, esteve na Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado, livro certamente útil, mas pleno de erros de facto e de erros tipográficos». In Prefácio de Américo da Costa Ramalho, A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas, edição fac-similada, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Biblioteca Nacional 1994.


Cortesia de Biblioteca Nacional/JDACT

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Miguel Corte Real: Cataldo Sículo. «Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para a sua biografia, até hoje não aproveitado»

Pintura de Gaspar Corte Real
Cortesia de manuellucianodasilva 

Foge-me o talento e a eloquência,
apodera-se de mim o terror, quando tento
dizer os feitos de tão grande capitão.
É aquele que tem o nome do príncipe
celeste dos cavaleiros e a quem os
antepassados legaram o apelido de Corte Real.

Tudo quanto faz é digno de triunfos,
digno de ser posto em tábua de cedro.
Avô e bisavô o tornaram nobre pelo
sangue. E ele os adorava em todas as
virtudes.

Ele tudo realiza, segundo o
pensamento de quem lho ordena (o Rei).
Cavaleiro ilustre, ora actua como
soldado, ora veste armas ligeiras. Em
qualquer caso, a sua presença significa
victória.
Cataldo Sículo, «Poemata, 1502» 
 
Carta Real de Miguel Corte Real emitido em 02 de Maio de 1502 Cortesia de dightonrock
 
Não há nenhuma pintura de Miguel Corte Real. O Prof. Américo Costa Ramalho afirma:
  • Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para a sua biografia, até hoje não aproveitado. O poema é dedicado a Miguel Corte Real.
Cortesia de Manuel Luciano da Silva/JDACT

sábado, 22 de janeiro de 2011

Recensões. Cataldo Parísio Sículo: Parte I. «Numa das cartas que formam o conjunto dos 73 textos da Cataldi epistolarum et quarundam orationum secunda pars, saída em Lisboa certamente em 1513 num volume impresso em caracteres góticos, endereçada a D. Álvaro (irmão do Duque de Bragança D. Fernando, condenado em 1483), o humanista italiano que, chamado por D. João II, já se encontrava em Portugal em 1485...»

Cortesia de leituragulbenkian

Recensões
Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte. Fixação do texto latino, tradução e notas de Américo da Costa Ramalho e de Augusta Fernanda Oliveira e Silva, col. «Estudos Gerais. Série Universitária», Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, 233 pp. + fac-símiles

«Numa das cartas que formam o conjunto dos 73 textos da Cataldi epistolarum et quarundam orationum secunda pars, saída em Lisboa certamente em 1513 num volume impresso em caracteres góticos evidenciando um razoável cuidado tipográfico, aquela que ocupa o 42º lugar, endereçada a D. Álvaro (irmão do Duque de Bragança D. Fernando, condenado em 1483), o humanista italiano que, chamado por D. João II, já se encontrava em Portugal em 1485, confessava: «Non soleo, natura mea, longas conscribere litteras nisi ubi maxima urget necessitas» (p. 132) = «Não costumo, por minha natureza, redigir uma carta longa, senão quando urge uma necessidade muito grande». A frase deixa transparecer a faceta auto-valorizadora de Cataldo, espelhada em diversificados momentos da sua obra e, portanto, deste corpus, efectivamente caracterizado pelo predomínio quase absoluto de textos curtos.

D. João II
Cortesia de wikipedia
No volume quinhentista em causa, textos longos são as duas orationes nº 45 e 59, já anteriormente publicadas com estudos e tradução (p. 145, n. 172; p. 177, n. 214), textos que, por definição, não poderiam ser breves sob pena de incorrerem no menosprezo do género e da própria situação em que haviam sido proferidas, a carta dirigida a D. Pedro de Meneses, conde Alcoutim (nº 64, p. 188), que é a dedicatória do poema cataldiano Martinho, Verdadeiro Salomão, objecto já, há três décadas, de uma edição e tradução orientadas pelo Prof. Costa Ramalho, e cuja extensão se compreende dessa perspectiva enunciativa e finalmente a referida carta a «D. Álvaro, presidente de Portugal» (D. Álvaro foi regedor da Justiça e chanceler-mor do reino, n. 149), que não deixa de ser também a manifestação caracterizadora da imagem que Cataldo busca dar de si mesmo ao longo deste conjunto de textos.

D. Isabel
Cortesia de wikipedia
Numa outra carta, inscrita na 57ª posição (p. 172), recorre à imagem banal em escritos do tipo laudatório como são predominantemente os textos desta II Parte, para manifestar a sua dor face à «repentina desventura» de saúde que afligira D. João de Noronha, a qual não poderia ser escrita «numa folha de papel por longa 224 Recensões que fosse»; mas a carta é, em si mesma, de pequena extensão.
E qual a razão para a angústia de Cataldo nessa circunstância?
O destinatário, pertencente à família dos Meneses (era irmão de D. Pedro de Meneses), incorporava em si o exemplo de cavaleiro letrado que Cataldo transforma em elemento central da imagem que pretende fazer passar para o leitor ao longo deste conjunto de textos.

Na verdade, tanto nesta carta, «E não é por seres um cavaleiro muito excelente e essa excelência emanava da actividade militar na guerra contra os árabes, nas praças do Norte de África, que tanta honra dera aos Meneses que hás-de desprezar a língua latina», porque, para além do mais, ela «ser-te-á útil» para aquelas situações de convivialidade social junto do príncipe, onde convinha «não só falar de armas mas também de Letras» (p. 172), como naquela outra antes referida, dirigida a D. Álvaro reportando-se à personalidade dos dois filhos do fidalgo, faz sobressair o mais novo pela sua beleza e, sobretudo, pela sua propensão para o estudo («Natus ad eloquium, doctrinas natus ad omnes qualis adhuc nullus traditur esse puer»), mostrando uma «seriedade» própria de «um ancião», contrastando com a maneira de ser do mais velho, «entregue aos cavalos e às caçadas de lebres», afastando-se «do estudo das Letras».

D. Álvaro
Cortesia de albergariadosfusos
Cataldo deixa patente o modelo de formação da juventude aristocrática que orientava a sua actuação como preceptor humanista na corte joanina e manuelina. Era um modelo de origem italiana, de facetas modernizantes que deviam suscitar o interesse de uma nobreza que pretendia ser ela também mais moderna, por diversas razões, entre as quais se devia contar essa aludida utilidade das Letras para o cavaleiro que tinha de estar, nesse sentido forte de «estar junto, de assistir», «quer perante o César, quer perante os restantes grandes homens» (p. 173) – na companhia do monarca, como conselheiro prudente e virtuoso, conforme toda esta literatura não se cansava de sublinhar. Um modelo que bem podia situar-se como oferta muito mais valiosa do que esse outro modelo da dignitas do fidalgo fundada na prosápia genealógica sustentada pela violência belicosa identificada com o figurino do cavaleiro proposto nos livros de cavalaria.
O empenhamento com que Cataldo enaltece as virtudes das Letras na educação da juventude aristocrática mais próxima do rei não podia estar alheado de uma intenção polémica, que passava tanto pelas pessoas em si mesmas, e o feitio de Cataldo, como sempre vincou o Prof. Costa Ramalho nos seus trabalhos, não era marcado pela suavidade, nomeadamente no que dizia respeito a outros mestres de latinidade, como por uma outra literatura marcada pelo atractivo da ficção romanesca e por isso tão procurada.

O valor da obra cataldiana não emana propriamente da sua qualidade intrínseca em termos literários, o que não autoriza a que se desvalorize a sua importância no quadro da expressão em latim renascentista. Mas, exceptuando alguns momentos mais felizes, em que o discurso ganha em vivacidade expressiva, em regra bem se lhe pode aplicar o juízo que, na introdução à presente edição, se tece a Via Spiritus 13 propósito dos Poemata do humanista (um primeiro conjunto saído em 1502-1503 e um segundo cerca de 1513, portanto em momento coincidente com a Secunda pars):
  • «O valor poético de muitas destas observações não é grande, mas o seu interesse documental é incalculável» (p. 16). Trata-se de facto de uma obra vasta e multifacetada e incontornável para um conhecimento menos apoiado em lugares-comuns que vagabundeiam (aproveitando a sugestão do sintagma «influências vagabundas» já usado por alguém) pelos manuais a propósito dos tempos de D. João II e de D. Manuel, tempos também do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e de uma boa parte da produção dramatúrgica de Gil Vicente.
Ora, como mais de uma vez o Prof. Costa Ramalho evidenciou, as relações entre esses três grandes conjuntos são mais reais e significativas, do ponto de vista documental, do que se poderia imaginar há umas décadas atrás.

Cortesia de wikipedia
Neste enquadramento, atentemos no volume saído talvez nesse ano de 1513 como II Parte das cartas e de alguns discursos de Cataldo Sículo, que a presente edição disponibiliza ao leitor actual, fornecendo-lhe não só um texto latino crítico no sentido de cientificamente fixado tendo em atenção que os hábitos de leitura e de empaginação não são os mesmos de há 500 anos, mas também uma tradução rigorosa, conforme na introdução se explicita. O cuidado que marca a edição levada a cabo por Américo da Costa Ramalho e por Augusta Fernanda Oliveira e Silva fica ainda patenteado tanto pela inclusão das notas, índices e bibliografia. Ambas as impressões quinhentistas, pelas suas características materiais, partilham daquilo que se poderia designar como o livro manuelino, isto é, uma linguagem tipográfica que participa na projecção dignificadora do príncipe, no quadro de uma linguagem ostentatória do reinado do Venturoso que corresponde sobretudo ao período ao seu casamento com D. Maria, rainha que, não fora certamente a grande discrição que parece tê-la caracterizado, devia surgir aos nossos olhos como uma figura bem mais influente e culturalmente importante (quiçá até para a actividade de Gil Vicente) do que podemos pensar». In Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva, Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte, Estudos Gerais. Série Universitária.  

Cortesia da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005/JDACT  

sábado, 9 de outubro de 2010

Sheila Moura Hue: Alguns apontamentos sobre a recepção da obra camoniana no século XVI. Antes da publicação de «Os Lusíadas», a obra de Camões já estava a ser lida e avaliada pelos seus contemporâneos. As obras eram conhecidas através da circulação de manuscritos

Cortesia de shahid
Com a devida vénia a Sheila Moura Hue, publico algumas palavras referente à obra camoniana no século XVI.

Alguns apontamentos sobre a recepção da obra camoniana no século XVI.

«A tradição regista que Camões enfrentou a inveja e uma espécie de preconceito dos poetas seus contemporâneos. É essa tradição que está presente, por exemplo, no poema de Jorge de Sena intitulado «Camões dirige-se aos seus contemporâneos», em que os poetas da época são acusados de terem roubado as ideias e as palavras do poeta, e também de não o terem citado, suprimindo-o e aclamando «outros ladrões mais felizes».
Há alguns testemunhos da época sobre esse movimento de hostilidade, que são alusões não muito esclarecedoras, mas que descrevem um clima geral de inveja e ataque da obra camoniana. Esses testemunhos, no entanto, não nomeiam os inimigos de Camões. Sobre essa hostilidade, há estudos de alguns críticos portugueses do nosso século que, estes sim, dão nome aos bois:
  • Os inimigos de Camões, segundo esses críticos, seriam os poetas que gravitavam em torno de Sá de Miranda, poetas que queriam escrever uma epopeia portuguesa, e que nutriam uma forte repulsa por Camões.
A recepção da obra camoniana começa antes mesmo da publicação de «Os Lusíadas» No final do século XVI, as obras poéticas corriam principalmente através de manuscritos. A recepção da obra de um poeta dessa época dava-se através das cartas que os poetas escreviam uns aos outros, dos poemas que trocavam, e dos cancioneiros que então registavam a produção contemporânea. Foi somente na década de 1590 que começaram a sair as primeiras edições da poesia lírica dos autores da época. É interessante observar que nunca António Ferreira leu Sá de Miranda ou Diogo Bernardes num livro impresso.
Cortesia de angnovuswordpress
As obras desses poetas eram conhecidas dos leitores unicamente através da circulação de manuscritos.
Mesmo antes da publicação de «Os Lusíadas», a obra de Camões já estava  a ser lida e avaliada pelos seus contemporâneos. E se houve uma avaliação negativa por parte desses contemporâneos, esta começou a se formar através da leitura de manuscritos que então deviam circular no Oriente, onde o poeta passou 17 anos, e também em Portugal.
O público leitor conhecia a sua poesia através de cartas ou de cancioneiros, como o de Luís Franco Correia, que começou a recolher poemas em 1557, e que, além da produção lírica de Camões, traz também o primeiro canto de Os Lusíadas numa versão diferente da impressa em 1572. No final da cópia desse primeiro canto encontra-se uma nota que diz: «Não continuo porque saiu à luz», isto é, a cópia é interrompida porque Os Lusíadas tinham sido publicados e não havia necessidade de copiá-los.
Ainda a respeito dos cancioneiros manuscritos que então veiculavam a obra de Camões, há que observar o facto de ao existir uma grande quantidade de poemas camonianos, é a afirmação de que além dos lendários inimigos do poeta, também existiam grandes admiradores da sua obra.
Cortesia de arquivohistoricomadeira
No entanto, vejamos alguns dos testemunhos da época que registam ter havido uma forte corrente contrária a Camões antes de sua morte e glorificação. Uma das imagens mais fortes é mostrada por Fernão Álvares do Oriente, um dos primeiros a reconhecer Camões como mestre. No seu livro Lusitânia Transformada, o autor mostra dois pastores que, após uma peregrinação, chegam ao Templo da Poesia, que encontram inteiramente destruído. A ideia é a de que a poesia, na época, está em decadência, praticamente em ruínas. A única estátua no Templo que se encontra íntegra e de pé é a estátua de Camões

O primeiro poema a ser impresso saiu em 1563, em Goa, na primeira edição de «Colóquio dos Simples e Drogas da Índia», de Garcia de Orta, e era justamente uma ode, em louvor do então Vice-rei da Índia, ode que figura entre onze páginas de homenagens e elogios a Garcia de Orta e a seus protectores. A segunda vez que um poema lírico de Camões é impresso ocorre em uma situação similar, também no espaço reservado aos elogios de praxe. Desta vez, trata-se de um soneto e de um poema em tercetos publicados no livro «História da província de Santa Cruz», de Pêro de Magalhães de Gândavo, impressa pelo mesmo editor de «Os Lusíadas».
António Ferreira
Cortesia de grandesescritoresportugueses
Nestes autores que citam Camões, como fazem Fernão Álvares do Oriente e Magalhães de Gândavo, assim como naqueles que lhe encomendam poemas laudatórios para homenagear seus protectores, como Garcia de Orta, temos uma espécie de primeira recepção da obra camoniana, uma recepção que podemos chamar de positiva. Outro dos raros autores quinhentistas a citar Camões é André Falcão de Resende, autor de uma sátira dedicada ao poeta, em que critica aqueles que não sabem admirar a alta cultura e em que ilustra a pobreza do poeta em Lisboa, sátira contemporânea da publicação de «Os Lusíadas».
Portanto, se de um lado temos esses homens que admiraram a obra de Camões publicamente, temos, por outro, a história dos inimigos de Camões, história delineada pelas interpretações de críticos do nosso século. José Maria Rodrigues, em «Fontes dos Lusíadas», é quem mais vivamente levanta o enredo dessas inimizades.

No capítulo sobre António Ferreira e Camões, Rodrigues interpreta poemas do próprio Ferreira, de Andrade Caminha e de Diogo Bernardes, enxergando em certos versos farpas agudas contra o poeta. A ideia geral de José Maria Rodrigues é a seguinte:
  • Em cartas a vários amigos poetas, António Ferreira incentiva-os a escrever uma epopeia sobre os feitos portugueses, e, sabendo que Camões está a escrever a sua, e julgando-o abaixo do valor dessa tarefa, quer que alguém de seu grupo o faça antes, de modo a inutilizar o que Camões vinha escrevendo. Um dos destinatários dessas cartas é Pêro de Andrade Caminha, que ficou para história mais pela sua lendária inimizade a Camões do que por sua produção poética.
António Ferreira, deu duas alcunhas a Camões:
  • A de pomposo Quérilo, que é um nome simbólico de mau poeta épico na tradição humanista;
  • A de Magálio, em que parece criticar a mania de grandeza do poeta.
Diogo Bernardes que, segundo José Maria Rodrigues, também fazia parte do grupo dos inimigos, é um caso a parte. Se num primeiro momento, ele se encontrava neste grupo, num segundo momento, posterior ao seu cativeiro em Alcácer Quibir, ele aparece entre os que louvam Camões, como atesta seu soneto publicado na primeira edição das Rimas, em 1595.
No entanto, ainda sobre esse primeiro momento de hostilidade, Américo da Costa Ramalho parece ter uma prova concreta da indisposição de Diogo Bernardes contra Camões.

Não cantarei aqui fábulas vãs
De novidades sempre tão amigas,
Que vem a converter homens em rãs,
E tornam a fazer homens em formigas.
Verdades contarei, verdades chãs
E vistas por meus olhos, não antigas,
Da jornada que fez o bom Carneiro
Dos Alcáçovas tronco verdadeiro.

Cortesia de poesiaexpressaodaalma
Diogo Bernardes parece acompanhar o percurso da recepção da obra camoniana no século XVI, hostilizando-o antes de 1580, e louvando-o depois, quando as exigências do tempo já eram outras. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade». In Sheila Moura Hue.

Cortesia de Américo da Costa Ramalho/José Maria Rodrigues/JDACT

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A Pedra de Dighton: Um bloco de rocha cuja superfície está recoberta de inscrições. As teorias (de entre outras) atribuem as incrições a navegadores portugueses. A Miguel Corte Real de acordo com uma teoria postulada em 1918 por Edmund B. Delabarre e defendida numa obra publicada em 1929

Cortesia de cmfunchal

Com a devida vénia a Cândido Mesquita, publico algumas palavras.

«Vale a pena alargar os horizontes e partir para a descoberta do Dighton Rock State Park, criado pelo Senador Estadual Edmund Dinis em 1954, (saida 10 da auto-estrada 24, Berkley, Massachusetts) e aí visitar o Museu da Pedra de Dighton, inaugurado em 1977. É uma visita obrigatória para quem viaja por estas paragens e gosta de conjugar beleza com páginas célebres da nossa história».

Cortesia de dightonrock
«Existem ali provas que o navegador português Miguel Corte Real, visitou o local em 1511 e no Museu é possível ver ainda paineis explicando as inscrições da famosa Pedra de Dighton (dentro de uma vitrina octagonal) e objectos associados com os descobrimentos portugueses. Possui uma réplica da caravela «Victória» de Fernão de Magalhães (oferta do Rei D. Carlos de Espanha), assim como uma réplica da «Nau São Gabriel» de Vasco da Gama (oferta do Museu da Marinha de Lisboa). Mostra a única «Litocolagem» do mundo de Chipi Tegu e ainda um impressionante Padrão dos Descobrimentos, em marmore (oferta da Fundação Gulbenkian).
Das águas calmas do rio Taunton a Pedra de Dighton foi elevada com uma grua sendo construído aí o Museu que assim entrou no leito do rio. Anteriormente as 40 toneladas de rocha de granito areoso, estiveram no rio cobertas com água e gelo. Por muito estranho que pareca estas condições adversas protegeram as inscrições de serem mais vandalizadas».

Cortesia de topazio1950
«Sabendo dos grandes feitos dos portugueses que descobriram os caminhos marítimos para a Índia, África, Extremo Oriente e Américas, seria irónico ignorarmos uma verdade surpreendente revelada em 1918, por Edmund Burke, psicologista na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island. Burke detectou o nome de Miguel Corte Real e a data de 1511 gravados na Pedra de Dighton. Em 1951 José Dâmaso Fragoso descobriu três cruzes da Ordem de Cristo. Em 1960 Manuel Luciano da Silva apresentou no I Congresso Internacional dos Descobrimentos em Lisboa, toda a documentação sobre a teoria portuguesa, concluindo a apresentação da seguinte forma:

«A semelhança entre estes padrões portugueses tantos milhares de milhas afastados uns dos outros (referindo-se a outros Padrões Portugueses espalhados pelo mundo) é deveras impressionante. Todos têm gravações com o mesmo escudo das armas portuguesas, com a mesma Cruz da Ordem de Cristo e com o mesmo estilo de algarismo. “Todos estes Padrões foram gravados por navegadores que receberam o mesmo treino e instrução na Escola Nãutica do Infante D. Henrique, em Sagres, Portugal».

Manoel de Oliveira
Cortesia de perolasacorianas
«Delabarre, Fragoso e Luciano da Silva, todos eles dedicaram mais de trinta anos das suas vidas a investigar e a acertar a teoria Portuguesa da Pedra de Dighton. Eles próprios, segundo documentação, examinaram no local, muitas vezes a face da Pedra, em alturas diferentes das marés, quer de dia quer de noite, até com luz razante. O Médico e Historiador Manuel Luciano da Silva, que recentemente inaugurou na sua terra natal, Cavião, Vale de Cambra, uma Biblioteca-Museu, tem ao dispor dos nossos leitores um Portal na Internet onde poderão obter todas as informações relacionadas com este texto e muito mais». In Cândido Mesquita. 


Cortesia dewikipédia/Manuel Luciano da Silva/Museu da Pedra de Dighton/JDACT

Cataldo Sículo: A ele se dve a introdução das ideias do humanismo greco-latino renascentista em Portugal, sendo as suas obras as primeiras representativas daquela corrente de pensamento impressas em Lisboa

Palermo, Sicília
Cidade natal de Cataldo Sículo (1455-1517)
Cortesia de fotografieitalia
Giovanni Cataldo Parisio (Palermo, 1455 – 1517), também conhecido por Cataldo Sículo, foi um poeta e proto-humanista siciliano que viveu alguns anos em Portugal, sendo preceptor de príncipes e de membros da aristocracia. Deve-se a Cataldo a primeira introdução das ideias do humanismo greco-latino renascentista em Portugal, sendo as suas obras as primeiras representativas daquela corrente de pensamento impressas em Lisboa.

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Cataldo. Nasceu em Palermo, Sicília, na última metade do século XV, tendo estudado nas Universidades de Bolonha, Pádua e Ferrara.

D. João II
Cortesia de marebaixa
Por recomendação do bispo de Lamego, D. Fernando Coutinho, o rei D. João II contrata-o como preceptor do príncipe-bastardo D. Jorge, o que faz partir para Lisboa no ano de 1485. A sua capacidade oratória e os seus conhecimentos de latim fazem com que ascenda rapidamente na corte, passando a secretariar o rei na escrita de missivas em latim para a Santa Sé e para monarcas e príncipes europeus. Vindo para Portugal, aos 30 anos de idade, e falecido aqui cerca de 1517, acabou por viver mais tempo entre nós do que na Itália natal. Deste seu apego à terra portuguesa são testemunho declarações nos seus versos em que se considera português por adopção.

Depois da morte prematura do príncipe D. Jorge, continua a sua actividade como preceptor de filhos da alta nobreza lisboeta, fazendo desta actividade o seu meio de vida. Entre outras personalidades notáveis, educou D. Leonor de Noronha (1488-1563), uma das primeiras mulheres a publicar obra em Portugal.

Isabel de Castela (1470-1498)
Cortesia de absoluteastronomy
Em 1490 coube-lhe pronunciar em Évora o discurso de saudação à princesa Isabel de Castela, noiva do príncipe D. Afonso. Em 1497 foi-lhe concedida uma pensão real e teve o apoio, particularmente na edição das suas obras, de alguns membros da aristocracia portuguesa, nomeadamente de D. Pedro de Meneses, 3.º marquês de Vila Real e 2.º conde de Alcoutim. Manteve contacto epistolar com alguns dos expoentes do nascente humanismo italiano, entre os quais Pontano, PlatinaAntonello Petrucci e Aurelio Brandolini, tendo publicado parte da correspondência nas suas Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi, que publicou em dois tomos (1500 e 1513).

Publicou diversas obras em latim, incluindo poemas, provérbios, cartas e análises do pensamento e da literatura dos clássicos. Algumas das suas obras são hoje desconhecidas. Uma rua de Palermo, sua cidade natal, ostenta o seu nome (a via Cataldo Parisio).
 
Obras publicadas
  • Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi, tipografia de Valentim Fernandes, Lisboa, 1500;
  • Poemata, tipografia de Valentim Fernandes, Lisboa, 1501-1502;
  • Epistole et Orationes quedam Cataldi Siculi (2.º parte), tipografia de Valentim Fernandes, 1513 (ou 1514);
  • Visiones, tipografia de Valentim Fernandes, 1513 (ou 1514);
  • Omnia Cataldi Aquillae Siculi, quae extant opera per Antonium de Castro denuo correcta, ac nunc primum in lucem edita, Lisboa, 1509 (não se conhece qualquer exemplar).
Bibliografia
  • Cataldo e André de Resende. Actas do Congresso Internacional do Humanismo Português, Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Centro de Estudos Clássicos, Lisboa, 2002;
  • Adriano Milho Cordeiro, O Poema - Triunfo dos Anjos e das Musas que se Congratulam com Gonçalo Filho de Martinho - Cataldo Sículo, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1992;
  • Américo da Costa Ramalho (editor). Epistolae et Orationes, edição facsimile, a cargo de Américo da Costa Ramalho, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1988;
  • Américo da Costa Ramalho. Um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real in Humanitas, vol. 25-26 (1973-1974), p. 3;
  • Augusta Fernanda Almeida Oliveira Silva. Algumas Cartas a Portugueses do Séc. XVI (Livro II) - De Cataldo Parisio Siculo - Introdução, Texto Latino, Versos e Notas, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1992;
  • Domingos Maurício Gomes dos Santos. Cataldo Áquila Parísio Sículo e a Princesa santa Joana, Porto Publicações do XXVI Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, Secção VII, Porto, 1962;
  • Ema Jesus Rodrigues Barcelos. O Livro II do Poema a Águia de Cataldo Siculo, tese de mestrado em Literatura Novilatina em Portugal, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1986;
  • Helena Maria Ribeiro Almeida Costa Toipa. Cataldo e as duas Princesas, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1991;
  • Maria Beatriz Silvestre. A Correspondência de Cataldo com os Condes de Alcoutim, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1965 (dissertação de licenciatura, dactilografada);
  • Salvatore Statello. Cataldo Siculo Parisio - Un umanista siciliano, grande in Portogallo, ma dimenticato in Sicilia, Revista Agorà, n.º 21-23, Editoriale Agorà, Catania, 2005;
  • Simão Pires Diz. Humanismo Italiano e Cultura em Portugal nas Epistolae de Cataldo, tese de mestrado em Literaturas Clássicas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1986.

Poemata Cataldis. - [Lisboa : Valentim Fernandes, 1500]. - [126] f. ; 2º (28 cm).
Dados de publicação retirados de obra de referência: Lisboa : Valentim Fernandes, 1500. - Assin.: a-p//8, q//6. - H 4678. - GW 6213. – F. com a assin. q//6 em branco. - F. restauradas. - Manchas de acidez e humidade . - Notas mss. marg. - Enc. com: "Epistoli Cataldi". - Enc. em pele grav. a ferros dourados

Cortesia de leituragulbenkian
«Esta obra apresenta a fixação do texto latino, tradução, prefácio e notas por Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva de algumas das cartas e outros textos do humanista italiano Cataldo Parísio Siculo, nascido na Sícilia em 1455 e morto em Portugal cerca de 1517, país para onde veio viver em 1485. Os textos desta personalildade foram impressos numa primeira parte em 1500 por Valetim Fernandes num volume de Epistolae et orationes, de que cerca de 1513 saiu uma segunda parte, que é reproduzida no fim deste volume em fac-simile, sem que a problemática que envolve esta edição seja focada na introdução de Costa Ramalho. De assinalar que antecedem a presente edição duas realizações: a primeira é a edição fac-similada das Cataldo Parísio Siculo, com introdução de Américo da Costa Ramalho, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1988 e a outra, que se prende directamente com a obra aqui apresentada, é a tese de mestrado em Literatura Novilatina em Portugal, apresentada à Universidade de Coimbra em 1992, por Augusta Fernanda Oliveira e Silva, Algumas cartas a portugueses do século XVI (livro II) de Cataldo Parísio Siculo. A publicação das Epístolas de Cataldo, que seria bom não se ficar apenas por esta segunda parte, constitui uma iniciativa do maior realce no panorama da Cultura Portuguesa, pois era de há muito aguardada, permitindo a partir de agora que os estudiosos do Renascimento em Portugal possam ter fácil acesso a textos que eram pouco conhecidos por se limitarem às suas versões latinas. As cartas agora traduzidas incidem sobre a primeira fase do Humanismo em Portugal e revelam as relações mantidas por Cataldo Siculo em Portugal». In José Manuel Garcia, 2005, leitura.gulbenkian.

Cortesia de wikipédia/Paulo Heitlinger/Américo da Costa Ramalho/JDACT

O Retrato de Miguel Corte Real: As honras desta grande descoberta vão para o Doutor Américo da Costa Ramalho, especialista em Cultura Helénica e Humanista. Foi este académico que descobriu um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta italiano Cataldo Sículo

Pintura de Gaspar Corte Real
Cortesia de dightonrock
Com a devida vénia a Manuel Luciano da Silva, publico algumas das sua palavras.
Todas as honras desta grande descoberta vão direitinhas para o Doutor Américo da Costa Ramalho, Professor da Universidade de Coimbra e especialista em Cultura Helénica e Humanista, em Portugal.
Foi este académico que descobriu um elogio em latim, contemporâneo de Miguel Corte Real, escrito pelo poeta italiano Cataldo Sículo, que residia temporariamente em Lisboa e foi publicado na colectânea POEMATA, em 1502.

Cortesia de booksgoogle
Miguel Corte Real foi à procura do irmão em Maio de 1502. Nem um nem outro jamais voltaram a Portugal. Que eu saiba não há pintura nenhuma de Miguel Corte Real. Nunca ninguém tinha analisado este poema em relação ao navegador Miguel Corte Real. Logo no começo da sua monografia o Professor Costa Ramalho alerta-nos:

Prof. Américo da Costa Ramalho 
Cortesia de uc
«Não há dúvida nenhuma de que se trata do famoso Miguel Corte Real e traz, pelo menos, um subsídio histórico para sua biografia, até hoje não aproveitado». O poema consta de quarenta e quatro versos dedicado a «michaele curie regalis» ou seja a Miguel Corte Real. Vamos rever a tradução do referido poema feita pelo Professor Costa Ramalho: O título do poema é como acima se disse -- «Dedicado a Miguel Corte Real». Nos primeiros versos o poeta expressa a sua «humildade poética» mas ao mesmo tempo revela bem claro o nome do protagonista como sendo descendente dos famosos Corte Reais. Diz o poema:

«Foge-me o talento e a eloquência, apodera-se de mim o terror, quando tento dizer os feitos de tão grande capitão».
«É aquele que tem o nome do príncipe celeste dos cavaleiros e a quem os antepassados legaram o apelido de Corte Real».
«Tudo quanto faz é digno de triunfos, digno de ser posto em tábua de cedro».
«Avô e bisavô o tornaram nobre pelo sangue. E ele os adorava em todas as virtudes».
«Ele tudo realiza, segundo o pensamento de quem lho ordena (o Rei)».
«Cavaleiro ilustre, ora actua como soldado, ora veste armas ligeiras. Em qualquer caso, a sua presença significa victória».

E agora vêm os versos que nos dão em pormenor a aparência, o retrato físico e o carácter do famoso navegador Miguel Corte Real:

«É amável com pessoas amáveis, brando com brandos amigos, mas com os arrogantes torna-se bastante ríspido».
«Não aprendeu as belas letras na infância, mas ensinado pelo seu talento tudo sabe».
«De aspecto, é sereno e belo, e mais belo é o seu íntimo. Da sua boca eloquente jorra uma graça variada».
«Gosta de dar muito, com mão larga, a quem o merece e piedosamente se esforça por não prejudicar a quem o não merece».

Qual era a posição oficial de Miguel Corte Real? É Cataldo Sículo que nos informa:

«Talvez queiras saber qual é o ofício deste Senhor?
«O Rei confia-lhe todos os encargos. Principalmente como porteiro-mor do palácio sobre as muralhas, é ele quem, no meio do silêncio geral, manda trazer os alimentos».
«A este homem tão leal confia D. Manuel com razão os seus segredos, tão grande é a virtude que nele reside, tão grande a honra».

E agora vem a parte guerreira de Miguel Corte Real que era totalmente desconhecida:

«Passou às costas africanas em navios. Era o comandante. Preparava-se para aí conquistar uma fortaleza, pondo-lhe cerco».
«Fosse inveja, fosse o fado iníquo, a multidão dos companheiros entrega-se a vergonhosa fuga, sob a pressão do inimigo».
«Ele com uma pequena força , faz frente aos africanos que se precipitam ao ataque e retira coberto de sangue, depois de grande morticínio».

E o poeta Cataldo conclui o seu poema comparando o heroísmo de Miguel Corte Real aos heróis da Antiga Grécia. O Professor Costa Ramalho faz uma análise pormenorizada dos vários dados revelados neste poema. Explica a origem do nome Corte Real que foi dado à Vasco Eanes, um dos antepassados de Miguel, pelos grandes serviços prestados à Corte Real presidida pelo Rei D. Duarte.

Confirma a posição de porteiro-mor da Casa Real, portanto uma das posições mais altas na Corte Portuguesa. Explica que o verso que diz que Miguel Corte Real «Não aprendeu as belas letras na infância», isso não quer dizer que o navegador era analfabeto! Quer dizer, sim, que Miguel Corte Real não sabia Latim. E o Professor Costa Ramalho acrescenta que isto é muito importante para darmos razão ao facto de Miguel Corte Real não ter deixado nenhuma mensagem em latim gravada na Pedra de Dighton. Esta conclusão é igual à que afirmei no meu livro «Portuguese Pilgrims and Dighton Rock» publicado em 1971.

Infelizmente a mensagem que o psicólogo-historiador, Prof. Delabarre da Universidade de Brown, sugeriu em 1928 de que Miguel Corte Real tinha deixado na Pedra de Dighton uma mensagem em latim = "V(oluntate) Dei Hic Dux Ind(orum)", significando: " Chefe dos Indios aqui", é uma FANTASIA que continua a ser repetida em muitas notas de rodapé, que na realidade são aquilo a que eu chamo "notas de chulé"!

Outra análise importante do poema de Cataldo é o facto de ficarmos a saber que Miguel Corte Real também foi guerreiro nas campanhas de Norte Africa. Isto é muito importante para explicar a assinatura duma carta dele em 1501 dirigida ao Rei D. Manuel, que o próprio historiador Henry Harrisse teve dificuldade em entender porque não tinha dados que explicassem que Miguel Corte Real jamais tinha estado em Málaga, Espanha, no ano antes de partir para a América do Norte, em 10 de Maio de 1502, à procura do irmão Gaspar Corte Real que não tinha regressado a Lisboa da sua segunda viagem em 1501.

O Professor Costa Ramalho conclui o seu trabalho desta maneira:

«Durante anos, a teoria prevalecente foi a do psicólogo, tornado historiador, Professor Edmund Burke Delabarre, que , descobriu o nome de Miguel Corte Real, o Escudo Português e a data de 1511. Posteriormente (1951), um professor universitário de Português, José Dâmaso Fragoso, (na New York University), revelou a existência de heráldica lusa no rochedo, três cruzes da Ordem de Cristo. E um médico de origem portuguesa, estabelecido nos Estados Unidos, o Dr. Manuel Luciano da Silva, tem sido o ardente propagandista da teoria de que o rochedo de Dighton é um documento histórico da presença de Miguel Corte Real nas costas da América do Norte. Ele nega a mensagem em latim, reduzindo o texto da inscrição ao nome do navegador e a uma data, 1511, além de um Escudo Português e três Cruzes da Ordem de Cristo».

Manuel Luciano da Silva, médico
Cortesia de atlanticconference
Fez, no dia 18 de Dezembro de 1998, 80 anos que o Professor Delabarre lançou a teoria portuguesa das inscrições portuguesas gravadas na Pedra de Dighton. Durante estas oito décadas todas as investigações só têm servido para consolidarem cada vez mais a Teoria Portuguesa da Pedra de Dighton. Claro que fiquei satisfeito com este artigo original do Professor Costa Ramalho que chegou a ser «Visiting Professor» de Português na «New York University», entre 1959-1962. Devo realçar ainda mais a importância da investigação original do Professor Costa Ramalho pelo facto de ser baseada na análise dum documento contemporâneo de Miguel Corte Real. In Manuel Luciano da Silva (médico).


A Pedra de Dighton
Cortesia de topazio1950
Cortesia de Manuel Luciano da Silva/JDACT