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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Que o Guadiana era fronteira entre a Lusitânia e a Bética repete-o com frequência Plínio. Considerando-a embora genericamente correcta, a historiografia moderna tem encontrado elementos que permitem duvidar da exactidão desta notícia. O caso mais discutido relaciona-se com a parcela de território da margem esquerda do Guadiana nas proximidades de Mérida…»

Cortesia de ediçõescolibri

PLIN.3,6
In eo prima Hispania terrarum est, ulterior appellata, eadem Baetica, mox a fine Murgitano citerior eademque Tarraconensis ad Pyrenaei iuga. Ulterior in duas per longitudinem prouincias diuiditur, siquidem Baeticae latere septentrionali praetenditur Lusitania amne Ana discreta. Ortus hic in Laminitano agro citerioris Hispaniae et modo in stagna se fundens modo in angustias resorbens aut in totum cuniculis condens et saepius nasci gaudens in Atlanticum effunditur. Tarraconensis autem adfixa Pyrenaeo totoque eius a latere decurrens et simul ad Gallicum oceanum Hiberico a mari transuersa se pandens Solorio monte et Oretanis iugis Carpetanisque et Asturum a Baetica atque Lusitania distinguitur.

Comentário
Plínio 3,6
“in eo” - Com esta expressão Plínio estabelece ligação com o período anterior. “Eo” refere-se ao primeiro grande ‘sinus’ do Mediterrâneo que se estende desde “Calpe” até ao “promunturium Bruttium”.

“prima Hispania terrarum est” - Alteração da ordem normal pela interposição de ‘Hispania’ entre dois elementos correlacionados. Com este processo se coloca ‘prima’ em lugar de destaque, acentuando deste modo a ideia de primazia. Não podemos deixar de notar que “Baetica” está “in clausula”, assinalando-se, pela sua posição nos extremos, os dois elementos principais.

“Ulterior appellata eadem Baetica” O elemento comum “appellata”, também o menos importante, ocupa a posição central, enquanto que os nomes “Ulterior” e “Baetica” são postos em relevo pela sua posição na frase.

Parece haver uma contradição evidente entre esta afirmação e a que se faz um pouco mais adiante ao considerar-se a ulterior dividida em duas províncias. As duas realidades correspondem a momentos diferentes da presença romana na Península Ibérica, separados por alguns séculos. A afirmação aqui feita seria válida durante o período que se segue à criação, em 197 a.C. de, de duas províncias na Hispânia, a “Ulterior” e a “Citerior”. No tempo de Plínio, contudo, esta nomenclatura estava desactualizada, visto todos os autores estarem hoje de acordo em atribuir a Augusto o desmembramento da Ulterior em Bética e Lusitânia, embora se discuta ainda a data precisa em que tal aconteceu.
Dessau pensa que ela deverá ter ocorrido em 2 a. C., por isso, considera posterior a essa data uma inscrição em que se atribui à “Hispania Ulterior Baetica” a designação de “prouincia pacata”. A maioria dos estudiosos concorda em recuar esta ocorrência para uma data compreendida entre 27 e 12 a.C., dado que a Lusitânia figurava já como província autónoma no mapa de Agripa. Albertini interpretou uma informação de Díon Cássio que permitiria, segundo ele, considerar que em 27 a.C. já existiriam as três províncias da Hispânia. A principal objecção que se levanta reside no facto de “Augusta Emerita”, a capital da Lusitânia, ter sido seguramente fundada em 25 a.C.. Mais prováveis parecem ser as datas que se aproximam de 12 a.C. e que têm sido sugeridas por diversos autores, sem que haja, entanto, um acordo pleno a esse respeito.

Cortesia de wikipedia

“a fine Murgitano Citerior eademque Tarraconensis ad Pyrenaei iuga” - A inclusão de “Citerior eademque Tarraconensis” entre as duas expressões correlacionadas introduz uma nítida simetria na construção deste período, cujo centro é ocupado pela expressão referida. Os elementos que a enquadram são muito semelhantes, mas neles podemos notar o quiasmo na posição do atributivo geográfico. Significativo é, a nosso ver, o facto de se tratar no texto de uma questão de limites, de tal modo que as expressões que definem as fronteiras são precisamente os extremos da frase, estabelecendo-se, deste modo, uma correspondência entre os planos da expressão e do conteúdo.

“mox” - O elemento que introduz esta frase contrapõe-se a “prima”, que inicia a anterior.

São aqui omitidos elementos já presentes na frase anterior (“Hispania, est, appellata”), como corolário de uma tendência geral (e de Plínio. em particular) para a brevidade da linguagem científica, facto que se manifesta sob variadas formas.

A “fine Murgitano” - O termo de “Murgis” é aqui considerado fronteira, junto à costa, entre a Bética e a Tarraconense, o que nem sempre aconteceu. Essa localidade, tradicionalmente e com base numa falsa etimologia, situada em Muxacra ou Mujácar, tem sido identificada por alguns autores com a actual Dalias e por outros com Ciavieja, nas proximidades de Almería. Na maioria dos autores clássicos esta função é atribuída a “Carthago Noua”. O próprio Plínio nos informa que foi com base neste último dado que Agripa elaborou o seu mapa e que, por esse facto, as medidas nele contidas não eram iguais às do seu tempo. Da análise deste passo pliniano resulta que o estabelecimento desse novo limite de província deve ser colocado entre 12 a.C. (data da morte de Agripa) ou 7 a.C. (ano em que o mapa foi concluído) e 2 a.C.. Teria sido com base noutros documentos oficiais, provavelmente de carácter administrativo, ou nas estatísticas oficiais que Plínio estabeleceu esta fronteira. Prieto e Marín pensam que as razões que levaram Augusto a proceder a esta modificação se prendem com o desejo de controlar importantes zonas mineiras situadas entre os dois limites.
[…]
Que o Guadiana era fronteira entre a Lusitânia e a Bética repete-o com frequência Plínio e encontra-se igualmente referido em MELA 2,78. Considerando-a embora genericamente correcta, a historiografia moderna tem encontrado elementos que permitem duvidar da exactidão desta notícia. O caso mais discutido relaciona-se com a parcela de território da margem esquerda do Guadiana nas proximidades de Mérida, que pertencia à Lusitânia. Esta questão, já colocada por Hübner a respeito de “Metellinum”, foi posteriormente esclarecida por alguns estudiosos que eliminaram algumas imprecisões da sua formulação inicial. Arias retomou o assunto à luz do texto que descreve a paixão de S. Eulália a que García Iglesias acrescenta os contributos da epigrafia e algumas referências de autores clássicos. Estes dados permitem concluir que, contrariamente ao que Plínio e Mela diziam, a Lusitânia ia além do Anas. Recentemente Sillères veio trazer uma achega fundamental para a resolução do problema ao localizar as centuriações de Mérida do lado de lá do GuadianaaT, partindo da referência que delas faz Higino.

No mesmo trabalho, García Iglesias aborda igualmente idêntica questão, mas relativa ao território português de além-Guadiana, concluindo não haver dados que permitam resolver o diferendo entre os historiadores. Mais tarde, porém, Francisco Martín volta ao assunto em defesa da pertença à Lusitânia do território em causa, fundando-se em boa parte nos dados do ITIN. Anton. Aug. 426 e 427, na atracção da fronteira e em argumentos de ordem administrativa e económica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

continua
Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Ora a passagem de Plínio pela Península permitiu-lhe, para além da obtenção de notícias transmitidas oralmente, um conhecimento da produção escrita, tanto de natureza mais propriamente literária, como técnica»

Cortesia de wikipedia

«A popularidade que a obra atingiu tem, pois, plena justificação na forma como Plínio. soube dar resposta às exigências do seu tempo em matéria de gosto, satisfazendo a curiosidade de um público sem pretensões de um rigor científico.

Valor da Obra e fiabilidade da Informação
Na pareciação global da qualidade desta obra enciclopédica, as opiniões actuais nem sempre são favoráveis. A primeira falha que geralmente lhe é apontada tem que ver com a ausência de um método científico na sua investigação, neste aspecto contrastante com alguns percursores da antiguidade. No domínio das ciências naturais sobreleva-se, com frequência, a diferença entre o racionalismo aristotélico e a postura pliniana, mais atraída pelas curiosidades que pela preocupação com uma observação rigorosa e o estabelecimento de uma taxonomia metodologicamente correcta.

O valor do contributo pliniano contudo, pode (e deve) ser apreciado sob uma perspectiva diferente, mais consentânea com os ideais do seu tempo. Trata-se, em primeiro lugar, como refere o próprio Plínio, de um notável repositório de conhecimentos, onde o factos notáveis, as curiosidades, os “mirabilia” ocupam um lugar de destaque e se sobrepõem a uma exposição racionalizada do mundo. E como o seu sobrinho acentua, o conjunto resulta de um excepcional labor de leitura e de um notável esforço e persistente trabalho de recolecção de dados, com as mais diversas proveniências.

Cortesia de wikipedia

Coloca-se deste modo um leque de questões que interessa particularmente o nosso trabalho:
  • em primeiro lugar saber qual a dimensão das verdadeiras leituras de Plínio. Até que ponto ele conhecia por via directa um vasto repositório de fontes citadas tanto no prefácio da sua obra, como ao longo do próprio texto;
  • em segundo lugar avaliar em que medida o seu conhecimento directo das realidades se poderá reflectir nela.
Alguns autores defenderam, no que especialmente toca à geografia, que Plínio recorreu a uma única obra, sendo hipótese habitualmente sustentada o ele dever o essencial dos seus dados a Varrão. Insinua-se, com frequência que poderá ter recorrido ao subterfúgio de citar muitos autores que realmente conhecia apenas de segunda mão e de os incluir dentro das suas fontes para demonstrar uma erudição que realmente não possuía.

Estas convicções representam o contraponto de uma perspectiva que as informações antigas, especialmente de Plínio-o-Moço, deixariam entrever, segundo a qual a NH é uma colagem de um imenso conjunto de informações pesquisada num diversificadíssimo número de autores que nem sequer são exaustivamente citados, limitando-se o autor a incluí-los entre os “alii” que não nomeia explicitamente. Esse, de resto, seria o sentido das suas próprias afirmações no prefácio, a que Ferraro deu uma significativa interpretação.

Cortesia de ecolibri

O que parece evidente é, em primeiro lugar, a discrepância entre as listas de autores apresentadas no início da sua obra e a verdadeira origem dos autores de que provêm as informações, essencialmente pela utilização, para esse efeito, das listas de autores estrangeiros correspondentes, que Varrão tinha já utilizado. Não podemos, por este motivo, remeter para os índices dos autores para corroborar ou negar este tipo de afirmações.
Contudo, a falta de veracidade a respeito das suas fontes não pode ser tomada como um sintoma de uma dependência não assumida de uma obra ou de um autor em especial. E, da mesma maneira, o facto de não se citar uma fonte determinada não pode significar um desconhecimento da mesma. Pode, para este caso concreto, tomar-se o exemplo da descrição geográfica do território peninsular.

Os passos da geografia pliniana que aqui se apresentarão parecem revelar em primeiro lugar uma diversidade de fontes, sem contudo se apresentar como significativa. Para além de Varrão, comparece unicamente entre os autores citados no próprio texto o nome de Agripa. No entanto, toma-se evidente, por um conjunto de informações respeitantes a realidades mais recentes, que Plínio mantinha uma relativa actualização dos dados para determinadas regiões. É sabido que contamos, neste caso particular, com o facto de estar assente que Plínio exerceu na Tarraconense uma procuratela que lhe terá permitido contactar mais de perto com esta realidade. Esses conhecimentos poderão decorrer das suas próprias funções administrativas ou, mais simplesmente constituírem informações que o seu conhecimento dos círculos peninsulares poderiam proporcionar. Ora a passagem de Plínio pela Península permitiu-lhe, para além da obtenção de notícias transmitidas oralmente, um conhecimento da produção escrita, tanto de natureza mais propriamente literária, como técnica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”»

Cortesia de ecolibri

A Carreira Equestre de Plínio
A Obra
«A primeira designação justifica-se por uma obra de carácter retórico em três livros, “Studiosi”, enquanto que as questões gramaticais ocupariam os oito livros do “Dubius sermo”. O título e os fragmentos desta obra permitem situar o seu conteúdo dentro da tradicional querela entre analogistas e anomalistas. Escrita no tempo de Nero, é claramente marcada pelo estoicismo e, ao assumir os princípios dos anomalistas, encara a defesa da liberdade no plano da linguagem como a sua defesa num plano mais geral.

Das obras históricas propriamente ditas sobressaem, pela sua extensão e pela influência que tiveram em outros autores,
  • “Bella Germaniae”,
  • “Historiae a fine Aufidi Bassi”.
Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”.

Quanto à “Naturalis Historia”, apresentada com o título de “naturae historiarum XXXVII (libri), convém desde logo precisar o significado do título, uma vez que a sua tradução literal na línguas modernas pode levar a que se perca de vista o verdadeiro alcance do original.

Cortesia de ecolibri

Em primeiro lugar o termo grego “historia” tem um âmbito maior que a sua equivalente actual, uma vez que ele correspondia ao termo "investigação", sem implicar que esta dissesse respeito a determinados factos do passado. Por outro lado o próprio conceito de “natura” é mais amplo, corresponde mais ao significado de "universo". Teremos, por isso, de considerar preferível uma proposta semelhante à de J. Bayet, “recherche sur le monde”, já que corresponde melhor ao largo âmbito temático da obra.
Estamos pois perante uma "investigação sobre o mundo”, rica e diversificada, como acentuava Plínio-o-Moço, “nec minus uarium quam ipsa natura”, que começa pelos astros, percorre os seres animados e termina de novo nos inanimados, as gemas em concreto, numa construção que levou F. Della corte a defini-la como uma “Ringcomposition” que abre com "as pedras infinitamente grandes" e se conclui com "as infinitamente pequenas".

Antes da sua investigação coloca P. um prefácio em forma epistular, cuja análise tem sido bastante proveitosa para a compreensão de algumas características do seu trabalho. Por ele tomamos conhecimento que a obra é dedicada ao imperador Tito e terá sido concluída certamente em 77. Para além disso o autor com frequência proporciona elementos que permitem definir o carácter do seu trabalho.

Cortesia de ecolibri

Trata-se de cumprir com ela o duplo objectivo de ” iuuare e placere”, nem sempre fácil de atingir dado que o assunto é “sterilis matéria”, obrigando a que dela esteja ausente a “amoenitas”. Reconhece que a natureza da obra não deixa lugar para o engenho, nem a recursos que confeririam maior leveza e a tornariam mais agradável, quer se tratasse de efeitos retóricos, quer consista na introdução de factos curiosos.
Nestes dois casos, como em outros, não podemos tomar à letra as afirmações do autor, dado ser manifesto que não faltam exemplos que contradigam esta opinião sobre a sua própria obra.

Na função de agradar se enquadram os “mirabilia” e os prodígios, abundantemente representados nesta obra, que, na perspectiva de Gigon, traduzem o desejo do saber pelo saber, um elemento de base da cosmologia grega, cuja tradição P. retoma, elementos que faz alternar com as explicações racionais. Por outro lado, assumindo uma característica típica da sua época e aplicando teorias expostas em obras anteriores, podemos dizer que, não raro, a “Naturalis Historia” apresenta exemplos que permitem contradizer o juízo que de si mesmo pretendeu dar a respeito da preocupação retórica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «A sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio…»

Cortesia de ecolibri

A Carreira Equestre de Plínio
«Gaio Plínio Secundo terá nascido nos finais de 23 ou inícios de 24 d.c., na cidade de Como, e dele se traçou este breve perfil biográfico:
  • “Plinius Secundus Nouocomensis equestribus militiis industrie functus procurationes quoque splendissimas et continuas summa integritate administrauit et tamen liberalibus studiis tantam operarn dedit, ut non temere quis plure in otio scripserit. itaqure bella omnia, quae umquam cum Germanis gesta sunt, uiginti uoluminibus comprehendit, item naturalis historiae triginta septern libros absoluit. periit clade Campaniae”.
Retêm-se, pois, como aspectos mais salientes da sua vida, o exercício das procuratelas e a obra literária de que se sublinham neste texto duas obras «históricas»:
  • Os vinte livros dos “Bella Germnniae” e os trinta e sete da “Naturalis Historia”.
A sua condição de cavaleiro obrigou-o a percorrer diferentes províncias e os cargos que exerceu justificam que se tenha tornada um conhecedor de muitas realidades concretas, assumindo, sem dúvida, no caso concreto da Península Ibérica, um grande relevo. O início da sua carreira, está intimamente ligada à Germânia., uma vez que, depois de uma passagem por Roma, desempenha nessa província funções preliminares de um “cursus honorum” equestre. Aí terá decorrido, entre 46 e 58, o exercício das “tres militiae”, provavelmente no exercício da última, teve oportunidade de travar amizade com Tito.
É de resto uma personagem intimamente ligada à dinastia dos flávios e, por consequência, conhece durante os júlio-claúdios, especialmente durante os últimos anos do reinado de Nero, alguns problemas. Mas também é essa circunstância que lhe permite gozar de uma situação de privilégio sob Vespasiano, a ponto de se tornar um conselheiro particular do imperador, segundo a interpretação mais corrente da informação de PLIN. Ep. 3,5,9: “ante lucem ibat ad Vespasianum imperatorem”.

Cortesia de bibliotecadigitalflul

Dentro de uma normal carreira equestre se insere a sua nomeação como “procurator” em diversas províncias. Sobre este aspecto, que nos interessa particularmente, se debruçaram alguns estudiosos, que, recorrendo ao tipo de informações proporcionadas fundamentalmente por conhecimentos particulares de determinadas áreas do império, procuraram traçar o seu percurso, sem que, no entanto, se tenham estabelecido com segurança as províncias e sequência cronológica dos diferentes exercícios. Para Münzer P. teria exercido, no período que medeia entre 70 e74, quatro procuratelas consecutivas, respectivamente Narbonense, África, Tarraconense e Bélgica. R. Syme, revendo a investigação de Münzer, conclui que o exercício do cargo na Narbonense e na Bélgica que este último autor levanta ainda algumas dúvidas, tal como Ziegler já tinha assinalado

Pelo contrário, a sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio, o “iuridicus Hispaniae Citerioris” que terá feito uma generosa oferta pelo repositório de informação entretanto coligido por P., e ao qual se deve ligar o censo promovido nessa província, circunstância que permite situar com grande probabilidade o seu cargo de “procurator” entre72 e74. De facto, como assinala Syme, esta será a razão pela qual P. apresenta os actualizados censos relativos ao Noroeste, uma vez que terá sido em 73-74 que estes se realizaram.

Cortesia de pliniov

O exercício da procuratela permitiu-lhe ter indirectamente contacto com o amplo território peninsular, mas é nitidamente mais completo no que diz respeito ao âmbito em que o seu cargo se exerceu. É fácil constatar que as notícias dependentes de uma observação ou conhecimento directo se situam precisamente na Tarraconense, sendo a Lusitânia e a Bética claramente preteridas. Por outro lado, a simples referência a “Hispania” equivaleria, concretamente na notícia de introdução do pistacho na península, a “Citerior”, em contraste com o uso de “Baetica” e “Lusitania” nas referências específicas a estas duas províncias.
Este cargo, exercido por tempo muito limitado, não permitia um conhecimento aprofundado do terreno, sobretudo se atendermos às limitações do tempo e à sua extensão. Por esta razão, são absolutamente justificadas as limitações da informação pliniana, sobretudo no que toca à falta de correcção de notícias anteriores manifestamente inexactas.

A Obra
Para além de importantes informações sobre aspectos biográficos da correspondência do seu sobrinho, uma célebre carta de Plínio-o-Moço a Bébio Macro, transmite-nos uma lista das suas obras principais, dispostas por ordem cronológica. A sua extensa produção reparte-se essencialmente entre escritos que genericamente abrangemos sob a designação de «históricos» e outros que abordam problemas gramaticais e retóricos. No seu conjunto, justificam a classificação de “orator et historicus” como alguns códices atestam». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT