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terça-feira, 26 de abril de 2016

A Mística do Instante. O Tempo e a Promessa. Tolentino Mendonça. «As mãos são um organismo complexo, são um delta no qual desemboca uma vida que vem de muito longe, para transformar-se numa torrente imensa de acção. Há uma história das mãos; têm por direito próprio a sua beleza…»

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Do lado do excesso de comunicação
«(…) E de modo semelhante com os outros sentidos que implicam proximidade: o paladar e o tacto. Hoje, só os profissionais arriscam provas cegas das comidas ou bebidas. Mas, mesmo aí, são cada vez mais os olhos que comem, pelo investimento no impacto decorativo dos pratos, pelo requinte do design ou pela manipulação do próprio sabor. Para não falar do tacto. A nossa distância da natureza é tão grande que deixamos de saber coisas tão elementares como caminhar descalço, dobrar-se na clareira e afastar mansamente as folhas da fonte para beber devagarinho, ou acariciar a vida desprotegida que se avizinha de nós. Assim nos tornamos os analfabetos emocionais que somos, resumia o cineasta Ingmar Bergman. Não será tempo de voltarmos aos sentidos? Não será esta uma oportunidade propícia para os revitalizarmos? Não é chegado o instante de compreender melhor aquilo que une sentidos e sentido?

Redescobrir o tacto
Pensou-se, desde a Antiguidade clássica, que o primeiro dos sentidos fosse o tacto, mesmo se ele aparece só em terceiro lugar na escala que Aristóteles apresentava então. Na ordem da criação ele tem certamente a primazia. O desenvolvimento dos sentidos no fecto começa provavelmente com o tacto. Depois, com o nascimento, é também através do contacto físico que experimentamos a realidade: o frio e o calor, o familiar e o estranho, o desconforto e o consolo. Todo o objecto vem avaliado pelo nascituro através do tacto, que para isso o leva inevitavelmente à boca e às mãos. Muito legitimamente, o tacto vem descrito como o nosso grande olho primeiro. A pele recobre o nosso corpo, da cabeça aos pés. Ela divide e ao mesmo tempo une o mundo exterior e o interno. A pele lê a textura, a densidade, o peso e a temperatura da matéria. O sentido do tacto conecta-nos com o tempo e a memória: através das impressões do tacto fazemos intermináveis viagens sem as quais não seríamos quem somos. O tacto permite que não esbarremos apenas uns contra os outros, mas que existam encontros. Por isso, a pergunta que um dia Jesus fez no meio de uma multidão compacta continua a ser significativa: quem me tocou? Os discípulos bem tentavam, em vão, dissuadi-lo, lembrando que uma massa de gente o apertava e tocava de todos os lados. Mas o que Jesus afirma é que há um tocar e um tocar.
As mãos são um organismo complexo, são um delta no qual desemboca uma vida que vem de muito longe, para transformar-se numa torrente imensa de acção. Há uma história das mãos; têm por direito próprio a sua beleza; assiste-lhes o direito de ter o seu próprio desenvolvimento, seus desejos próprios, seus sentimentos, escreveu Rainer Maria Rilke. E o que dizemos das mãos podemos dizer da pele. A nossa autobiografia é assim também uma história da pele e do tacto, da forma como tocamos ou não, da forma como fomos e não fomos tocados, mesmo se essa continua, em grande medida, um relato submerso, em que não pensamos. E, contudo, ela tem tanto a ensinar-nos. Existe um tipo de conhecimento, não apenas na primeira infância, mas pela vida fora, que só nos chega através do tacto.
O pintor Miró falava sempre da origem táctil da sua arte. Na juventude, em Barcelona, teve por mestre o arquitecto Francisco Gali que, embora sendo um académico muito convencional, era capaz de arriscar por caminhos inesperados na iniciação dos seus estudantes. Miró confessa que não era propriamente um virtuoso no desenho e que o seu mestre ajudou-o assim: colocava-lhe uma venda nos olhos para que ele tocasse os objectos com os dedos e não apenas com o olhar. Miró fechava então os olhos, agarrava uma pequena pedra, tacteava-a, palpava-a, revirava-a várias vezes nas suas mãos. E desenhava-a. O pintor catalão dizia-se incapaz de chegar à representação do mundo de outra maneira». In José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, O Tempo e a Promessa, Colecção Poéticas do Viver Crente, Série JTM, Paulinas Editoras, 2014, ISBN 978-989-673-396-4.

Cortesia de Paulinas/JDACT

terça-feira, 21 de julho de 2015

A Mística do Instante. O Tempo e a Promessa. Tolentino Mendonça. «… a vista não se sacia com o que vê, nem o ouvido se contenta com o que ouve. A rotina não basta ao coração do homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez»

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Do lado do aprisionamento da vida pela rotina
«(…) A rotina começa por ser um esforço de regularidade nos vários planos da existência, esforço que, temos de dizer, é em si positivo. A vida seria impossível se o eliminássemos de todo. As rotinas têm um efeito saudável: tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos habitar com confiança o tempo. Mas o que começa por ser bom esconde também um perigo. De repente, a rotina substitui-se à própria vida. Quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Cada dia é simplesmente igual ao anterior. A nossa viagem passa para as mãos de um piloto automático, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os sentidos adormecem. Bem podem os dias ser novos a cada manhã ou o instante abrir-se como um limiar inédito, que nunca os cruzaremos assim. Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido. E, sem nos darmos conta, acontece-nos o que o salmo bíblico descreve a propósito dos ídolos: … têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram; têm mãos, mas não palpam. Podemos equivocadamente pensar que nos é possível viver assim. Mas chega a estação, como recorda o livro do Eclesiastes, em que a vista não se sacia com o que vê, nem o ouvido se contenta com o que ouve. A rotina não basta ao coração do homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez, deslumbrando-se com a surpresa dos dias. É reconhecer que este instante que passa é a porta por onde entra a alegria. Mas para isso teremos de recuperar a sensibilidade à vida, à sua desconcertante simplicidade, ao seu canto frágil, às suas travessias. A vida que nos havíamos habituado já a consumir no relâmpago que dura um fósforo, sem ouvi-la verdadeiramente, sem conspirar para a sua plenitude. Para responder à pergunta sobre o sentido que a dada altura nos assalta a vida que levo que sentido tem? E indispensável uma pedagogia de reactivação dos sentidos.

Do lado do excesso de comunicação
Não somos apenas o nosso corpo, estamos também integrados num corpus social, que solicita, expande e reprime a nossa sensibilidade. Basta ouvir aquele que foi o maior teórico da comunicação do século XX, Marshall Mcluhan, para perceber até que ponto isso é aproveitado pela sociedade de comunicação global, para quem o indivíduo passa a ser uma presa. O que diz McLuhan sobre a televisão, por exemplo, é imensamente elucidativo: … um dos efeitos da televisão é retirar a identidade pessoal; só por ver televisão, as pessoas tornam-se num grupo colectivo de iguais; perdem o interesse pela singularidade pessoal. Se repararmos, os meios que lideram a comunicação humana contemporânea (da televisão ao telefone, do e-mail às redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais à distância: fundamentalmente a visão e a audição. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participação no real. Viste aquilo? Já ouviste a última do... Os nossos quotidianos são continuamente bombardeados pela pressão do ver e do ouvir. O mesmo se passa com a locomoção: seja a pilotar um avião, a conduzir um automóvel, ou seja o peão a deslocar-se nas artérias das cidades modernas, o fundamental são os sentidos que colhem a informação visual e sonora. Nem será necessário lembrar que não é assim em todas as culturas. Esta sobrecarga sobre os sentidos que captam o que está mais afastado de nós esconde o subdesenvolvimento e a pobreza em que os outros são deixados. Ao mesmo tempo que floresce a indústria dos perfumes, desaprendemos a distinguir o aroma das flores. Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar». In José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, O Tempo e a Promessa, Colecção Poéticas do Viver Crente, Série JTM, Paulinas Editoras, 2014, ISBN 978-989-673-396-4.

Cortesia de Paulinas/JDACT

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Mística do Instante. O Tempo e a Promessa. Tolentino Mendonça. «O luto é um manto de tristeza que oculta dois corpos: o corpo amado que parte e o nosso próprio corpo que, permanecendo, tem, no entanto, absoluta necessidade de acompanhá-lo…»

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«(…) Diversos são, no entanto, os quadros existenciais que nos conduzem às patologias dos sentidos e nos empurram para uma espécie de astenia. Passaremos, em seguida, em revista, mesmo se brevemente, quatro experiências dessa ordem: o sofrimento humano, o luto, o aprisionamento da vida pela rotina ou os efeitos da nossa exposição actual ao excesso de comunicação.

Do lado do sofrimento
Vivemos numa sociedade dominada cada vez mais pelo mito do controlo. E o seu postulado dogmático é este: a receita para uma vida realizada é a capacidade de controlá-la a 360 graus. Não percebemos até que ponto uma mentalidade assim representa a negação do princípio de realidade. Isto para dizer como somos pouco ajudados a lidar com a irrupção do inesperado que hoje o sofrimento representa. Sentimos a dor como uma tempestade estranha que se abate sobre nós, tirânica e inexplicável. Quando ela chega, só conseguimos sentir-nos capturados por ela, e os nossos sentidos tornam-se como persianas que, mesmo inconscientemente, baixamos. A luz já não nos é tão grata, as cores deixam de levar-nos consigo na sua ligeireza, os odores atormentam-nos, ignoramos o prazer, evitamos a melodia das coisas. Damos por nós ausentes nessa combustão silenciosa e fechada onde parece que o interesse sensorial pela vida arde. A dor é tão grande, a dor sufoca, já não tem ar. A dor precisa de espaço, escreve Marguerite Duras nas páginas autobiográficas do volume a que chamou A dor. E descobrimo-nos mais sós do que pensávamos no meio desse incêndio íntimo que cresce. Nas etapas de sofrimento a impotência parece aprisionar enigmaticamente todas as nossas possibilidades. E colocamos em dúvida que este limitado corpo que somos seja o lugar para viver a nossa aventura total ou um fragmento dela que seja significativo. Precisaríamos de recursos que nos capacitassem a vivenciar a incapacidade, provocada pela dor, com outro ânimo e outro olhar.

Do lado do luto
O luto é um manto de tristeza que oculta dois corpos: o corpo amado que parte e o nosso próprio corpo que, permanecendo, tem, no entanto, absoluta necessidade de acompanhá-lo, não só no plano afectivo e simbólico, mas também pela diminuição dos nossos indicadores vitais. Lembro-me da descrição que abre o romance As ondas, de Virginia Woolf, onde há uma frase que, no meu entender, descreve exactamente o que é o luto: a separação entre o céu e o mar. Uma barra de sombra desceu no horizonte, separando o céu do mar, e o grande tecido cinzento ficou marcado por grossas linhas que se agitavam sob a superfície, perseguindo-se num ritmo infindável. A experiência da perda é também um desses segredos do corpo, de si para si, com o qual é-nos cada vez mais difícil lidar. Por um lado, a morte tornou-se um tabu. É mais desagradável referi-la do que soltar uma obscenidade. Ocultamo-la por todos os meios. E depois, por outro, quando nos cabe saber que os que amamos partem, isso mergulha-nos numa dor e numa solidão extremas. Entramos, então, numa espécie de suspensão, de recuo face à vida, de eclipse na nossa relação não só com o exterior, mas com o corpo que somos. Faltam-nos mestres que nos ajudem a avizinhar-nos da morte e do que ela representa para a nossa humanidade. Precisaríamos primeiro de chorar a nossa impossibilidade de consolação (extraordinária frase do Antigo Testamento que São Mateus recupera para o seu Evangelho, na cena da morte dos inocentes: Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto: é Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada. Precisaríamos depois de chorar e ser consolados, em pequenos passos. E integrar então progressivamente a ausência numa nova compreensão desse mistério que é a presença dos outros na nossa vida». In José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, O Tempo e a Promessa, Colecção Poéticas do Viver Crente, Série JTM, Paulinas Editoras, 2014, ISBN 978-989-673-396-4.

Cortesia de Paulinas/JDACT

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Mística do Instante. O Tempo e a Promessa. Tolentino Mendonça. «”Estou cansado, é claro,/ porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado./ De que estou cansado não sei:/ de nada me serviria sabê-lo/ pois o cansaço fica na mesma”. ‘Não sei sentir, não sei ser humano’, escrevia ainda Fernando Pessoa»

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A sociedade do cansaço
«(…) Todas as épocas têm as suas patologias e estas funcionam como indicadores que vão além do diagnóstico banal. As enfermidades dominantes mostram-nos o ponto de dor escondido, revelam comportamentos e compulsões, desocultam a vulnerabilidade que é a nossa, mas que raramente queremos ver. Ora, o grande combate dos séculos que nos precederam foi bacterial e viral. A invenção dos antibióticos e das vacinas, partindo do esforço imunológico, sem resolver tudo, torna, no entanto, esses problemas sanitários controlados. É verdade que de vez em quando irrompe o pânico de uma pandemia viral, mas essa não é a questão que condiciona mais profundamente os nossos quotidianos e práticas. O filósofo Byung-Chul Han, seguido atentamente em círculos cada vez mais amplos, defende que este começo do século XXI, do ponto de vista das patologias marcantes, é fundamentalmente neuronal. O sol negro da depressão, os transtornos de personalidade, as anomalias da atenção (seja por hiperactividade, seja por uma neurastenia paralisante), a síndrome galopante do desgaste ocupacional que nos faz sentir devorados e exauridos por dentro à maneira de uma terra queimada, definem o difícil panorama da década presente e das que virão. Estas enfermidades não são infecções, mas modalidades vulneráveis de existência, fragmentações da identidade, incapacidades de integrar e refazer a experiência do vivido. A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações...) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nesse cansaço, como explicava profecticamente Fernando Pessoa: Estou cansado, é claro,/ porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado./ De que estou cansado não sei:/ de nada me serviria sabê-lo/ pois o cansaço fica na mesma.

Combater a atrofia dos sentidos
Accende lumen sensibus, (Ilumina os sentidos), recitava uma antiga invocação litúrgica, não deixando dúvidas sobre o necessário envolvimento dos sentidos corporais na expressão crente. Os sentidos do nosso corpo abrem-nos à presença de Deus no instante do mundo. Em boa saúde, temos ao nosso dispor cinco sentidos (tacto, paladar, olfacto, visão e audição), mas a verdade é que não os aperfeiçoamos a todos devidamente, ou, pelo menos, não os temos desenvolvidos da mesma maneira. Podemos receber e transmitir informações tão diversas pelos sentidos, porque dispomos de um cérebro que elabora e dirige. Mas falta-nos uma educação dos sentidos que nos ensine a cuidar deles, a cultivá-los, a apurá-los. Não sei sentir, não sei ser humano, escrevia ainda Fernando Pessoa. E continuava: Senti de mais para poder continuar a sentir. De facto, o excesso de estimulação sensorial em que estamos mergulhados tem um efeito contrário. Não amplia a nossa capacidade de sentir, mas contamina-a com uma irremediável atrofia. Ah, se ao menos eu pudesse sentir!, é a proposição do desespero contemporâneo, que advém depois de se ter experimentado tudo, em vertigem e convulsão. Mas também a indiferença aos sentidos, que o cinismo induzido a dada altura da vida promove, não deixa de ser um menor instrumento de aniquilação. A pele não me ensinou nada, lamentava-se o poeta René Crevel em O meu corpo e eu. Este é um território onde a mística dos sentidos pode desempenhar um papel reconversor fulcral, porque nela, como explica Michel de Certeau, o corpo é informado. A pele ensina». In José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, O Tempo e a Promessa, Colecção Poéticas do Viver Crente, Série JTM, Paulinas Editoras, 2014, ISBN 978-989-673-396-4.

Cortesia de Paulinas/JDACT

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Mística do Instante.O Tempo e a Promessa. Tolentino Mendonça. «… quanto mais a alma vai às escuras, e vazia de suas operações naturais, tanto mais segura vai. A subida ao monte místico implicava tomar como programa esta noite sensitiva: procurar o espiritual e interior e combater o espírito da imperfeição segundo o sensual e exterior»

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Para uma espiritualidade do tempo presente
«Se tivéssemos de buscar um sinónimo para espiritualidade diríamos, sem muito risco de errar, interioridade. E interioridade parece ser também a noção mais afim à ideia de mística. Fecha a porta dos teus sentidos/e procura Deus no profundo, propunha um dos expoentes do pietismo no século XVIII. A sua proposta representa bem aquilo que poderíamos designar por mística da alma. De que se trata, afinal? Da consideração de que o caminho que nos conduz a Deus é fundamentalmente um exercício interior que implica uma relativização ou mesmo uma renúncia dos sentidos corporais. Para alcançar o divino a alma tem de mergulhar na própria alma. O divino oculta-se às possibilidades do corpo e à sua gramática, e não se deixa detectar senão pelo radar da profundidade mais estrita. O divino é o mistério. A via para ele passa por desligar-se do mundo, do mundo habitual e quotidiano, e reentrar no espaço interior, esse sim, a morada que guarda Deus religiosamente.
Numa obra que teve um grande impacto na imaginação cristã, e que trazia  emblemático título de A verdadeira religião, Santo Agostinho dizia: Não saias para fora de ti, retorna a ti mesmo, porque a verdade habita no homem interior. Há que reconhecer que grande parte de mística cristã, mais antiga e até contemporânea, glosou indefinidamente este motivo, o que mostra quanto é oportuna uma releitura desse precioso património à luz de uma antropologia mais integradora. O grande São João da Cruz, por exemplo, na segunda metade do século XVI, explicava que quanto mais a alma vai às escuras, e vazia de suas operações naturais, tanto mais segura vai. A subida ao monte místico implicava tomar como programa esta noite sensitiva: procurar o espiritual e interior e combater o espírito da imperfeição segundo o sensual e exterior. Mas esse modelo marcou e marca ainda referentes da mística cristã mais próximos de nós. Em pleno coração comercial de Louisville, cidade do Estado americano do Kentucky, há uma placa a assinalar que ali, no ano de 1958, ocorreu a segunda conversão do monge trapista Thomas Merton. Nessa época, ele já era mundialmente conhecido como autor no domínio da espiritualidade. O volume que o tinha lançado, dez anos antes precisamente, havia sido a sua autobiografia, A montanha dos sete patamares, onde o paradigma da fuga ao mundo estava completamente presente. Andando agora por Louisville, abraçando a marcha frenética de uma multidão naquele epicentro comercial, Merton teve a intuição de que afinal não existia diferença alguma ou separação entre ele e aquele povo desencontrado e sedento. Sentiu-se simplesmente membro da família humana, da qual o próprio Filho de Deus quis fazer parte. Nascia assim uma nova etapa da sua espiritualidade, crítica em relação à primeira. Thomas Merton percebia que a mística só pode ser uma experiência quotidiana, solidária e integrativa.

Há mais espiritualidade no corpo
De um lado, a excessiva internalização da experiência espiritual e, de outro, o distanciamento do corpo e do mundo permanecem, porém, em grande medida, características destacadas da espiritualidade que se pratica. O que é espiritual vem considerado superior àquilo que vivemos sensorialmente. O primeiro é estimado como complexo, precioso e profundo. O segundo é visto como epidérmico e sempre um pouco frívolo. E há uma sintomática condição descarnada na vivência do religioso, que se refugia voluntariamente numa representação de alteridade em relação ao mundo, do qual se considera (vem sendo considerado) distante, para não dizer estranho. Na chamada mística da alma, o Espírito divino é radicalmente outro face ao instante presente. E face ao destino histórico e pungente das criaturas». In José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, O Tempo e a Promessa, Colecção Poéticas do Viver Crente, Série JTM, Paulinas Editoras, 2014, ISBN 978-989-673-396-4.

Cortesia de Paulinas/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

BNP. Para a História da Literatura Popular Portuguesa (1978). M. Viegas Guerreiro. «Para além da Etnografia e da Antropologia, domínios fundamentais da suas pesquisas, estendeu interesses à abordagem de temas histórico-geográficos e literários e ao estudo da literatura tradicional e oral»

(1912-1997)
Querença, Loulé

Cortesia de bnp

MOSTRA. Até ao pf dia 5 de Janeiro de 2013. Sala de Referência.

«M. Viegas Guerreiro foi um dos mais insignes expoentes da Etnografia portuguesa na esteira de Leite de Vasconcelos, que foi seu mestre e de quem foi colaborador. Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1936, ingressou no ensino secundário como docente a partir de 1939 até se tornar efetivo em 1953. Bolseiro do Instituto de Alta Cultura entre 1955 e 1970, com o objetivo de organizar e publicar os manuscritos de Leite de Vasconcelos, sobretudo a Etnografia Portuguesa, a partir do 4º volume, foi também colaborador do Centro de Estudos Geográficos, e integrou a Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português, em 1957, sob a chefia de Jorge Dias, de quem foi nomeado adjunto em 1959. Regente das cadeiras de Etnologia Geral e Etnologia Regional na FLUC, entre 1966 e 1971, aí se doutorou em 1969, sendo nomeado professor extraordinário em 1970 e catedrático em 1971, até à aposentação em 1982. Para além da Etnografia e da Antropologia, domínios fundamentais da suas pesquisas, estendeu interesses à abordagem de temas histórico-geográficos e literários e, muito em particular, ao estudo da literatura tradicional e oral, tanto em Portugal como no Brasil. Da sua vasta bibliografia destacam-se as seguintes obras: J. Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa: tentame de sistematização (vols. IV a X organizados por Manuel Viegas Guerreiro, em colaboração com Alda da Silva Soromenho, Paulo Caratão Soromenho e Orlando Ribeiro);  Contos populares portugueses (seleção e pref., 1955), Adivinhas Portuguesas (seleção e pref., 1957), Conto maconde de tema universal (1962), Rudimentos da língua maconde (1963),  Conto e costumes macondes (1965), Os Macondes de Moçambique. Sabedoria, língua, literatura e jogos (1966), Bochimanes ´Khú de Angola: estudo etnográfico (1968), Novos contos macondes (1974), Guia de Recolha de Literatura Popular (1976), Para a História da Literatura Popular Portuguesa (1978), Temas de Antropologia em Oliveira Martins (1986), A carta de Pero Vaz de Caminha lida por um etnógrafo (1992), Cristóvão Colombo : carta do achamento das Antilhas (1992), Colombo e Portugal (1994), Povo, povos e culturas (1997)». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia da BNP/JDACT

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Leituras. Parte XI: Deixem Passar o Homem Invisível. «Subiram a gambiarra e alguém gritou e apontou a meio do buraco. Era um pequeno socalco de areia dourada, no sedimento de obras antigas. Via-se qualquer coisa, um resto arqueológico, mas de cores vivas, recentes. Ali, ali, o que é aquilo?! Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança»

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Um buraco no chão.
«Todos, profissionais e amadores, se mantiveram vigilantes nos vários centros da catástrofe, palavra sujeita a confirmação, até se constiparem em directo. Foram os primeiros a mostrar à luz do dia as ruas, os estabelecimentos a enxaguar, a brigada de colectores da câmara municipal, homens exaustos pela luta com as sarjetas, de chávena de café na mão, mais as vítimas friorentas a exigirem subsídios para a ruína, ou a explicarem que aquela chuvada parecia o fim do mundo e o aquecimento global juntos, mas a vida continua.

Por exemplo, no café-snack O Dedé, ao Boqueirão dos Anjos, o dono ouviu como que uns sinos de vidro, olhou e viu as suas grades de minis a fugia parecia aquelas jangadas de imigrantes a escaparem para um país novo, arriscando tudo na maré, disse o senhor Delmiro, o Galego, que não bebia há vinte anos por não poder, mas abriu a única cerveja que ficou e engoliu-a de pequeno-almoço, numa alegria trágica, numa vez sem exemplo.

Cortesia de ionline

No geral, Lisboa acordava sem novas situações de pânico, sem cadáveres a boiar, só esqueletos de guarda-chuva, tambores de máquina de lavar ferrugentos) gatos vadios enrolados nas silvas. Falava-se em milagre e em quase milagre.

A manhã seguinte, no entanto, guardava um mistério. Nas costas do Parque Eduardo VII, frente à Igreja de São Sebastião da Pedreira, do outro lado dos grandes armazéns espanhóis, abrira-se um buraco enorme.
Um fosso no chão de Lisboa, do tamanho duma banheira grande - um alçapão de palco, daqueles por onde desaparecem as partenaires dos mágicos -, disse um taxista que não conseguia fazer pegar o carro que já dera a volta ao conta-quilómerros, pelo menos milhão e meio o meu carro fez, fui à Lua e voltei duas vezes, duas vezes sim, fiz as contas e nunca troquei de motor, disse o homem coçando a cabeça, mas este buracão na estrada parece truque de ilusionismo. A ideia ganhou força e espalhou-se com a segunda e terrível descoberta.
O Comandante operacional dos sapadores bombeiros falava da sorte que era ninguém ter caído lá dentro, como às vezes acontece a carros e até autocarros em Lisboa. Não se esqueçam que isso sucede quando chove desta maneira louca, é uma cidade toda mal feita no solo e subsolo, cheia de ribeiras domesticadas com canos gigantes, que não está nem nunca esteve pronta para precipitações, brincou ele, felizmente até agora os veículos automóveis ficaram sempre entalados, o rabo de fora, por serem demasiado grandes para a fenda respectiva.

Cortesia de alcatraopenas
Os sapadores vedaram o sítio com fita plástica. Ao fim da manhã, desceram uma gambiarra e, no fundo do buraco, a alguns metros de profundidade, deram com um cano velho de tijoleira, bastante alto e largo. Estava rebentado pela implosão da calçada de granito, com paralelepípedos cinzentos à entrada, e seguia pelas entranhas de Lisboa, descendo no escuro pelo que parecia, para baixo ou na direcção do Parque Eduardo VII. Houve uma exclamação geral, no bordo da cratera.
Uma saída! Uma entrada! Um cano secreto?
Em princípio, um boqueirão antigo da cidade subterrânea, disse o Comandante, que aumentara o pescoço como um réptil. E acrescentou, mantendo o espírito cómico, que o desgraçado dum peão que tivesse cardo ali durante a chuvada, na altura do afundamento do chão, estaria perdido, afogando-se sabe-se lá onde, arrastado pelas águas a caminho do Tejo talvez, o destino da água em Lisboa, por causa da gravidade.

Subiram a gambiarra e alguém gritou e apontou a meio do buraco. Era um pequeno socalco de areia dourada, no sedimento de obras antigas. Via-se qualquer coisa, um resto arqueológico, mas de cores vivas, recentes. Ali, ali, o que é aquilo?! Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Leituras. Parte X: Deixem Passar o Homem Invisível. «Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas…»

Cortesia de alcatraopenas

Um buraco no chão.
«Nas ruas ouvia-se um vómito de pedra, um enjoo hidráulico, canos deitavam água pela boca fora, baratas e excrementos, que outros canos voltavam a engolir, como numa gigantesca festa decadente. A água parecia confusa com a sua própria quantidade, um único corpo vivo a cobrir a terra que o rejeitava, e tanto enfiava um braço viscoso no primeiro buraco como usava outro para explodir um «geyser» de esgoto, grosso e gelado.
Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas, nos pacotes à deriva, nos linóleos descolados dos pisos e nos balcões novos de alumínio.


Cortesia de ionline e jdact

Em certas caves de restaurante, soube-se mais arde, houve batata que grelou irremediavelmente, da noite para o dia a batata nova fez-se velha, e pouco restou para servir aos clientes dessas sacas, só dava para fazer sopa.
Os bombeiros não têm mãos a medir para acorrer a todos os pedidos de socorro, aos milhares de inundações, e as pessoas são aconselhadas a não sair de casa em caso algum, quem tem água potável que a poupe, subam aos andares superiores, apelou a Protecção Civil.
Quem perdeu o telhado, pelo contrário, desça com precaução até um nível médio que considere seguro, livre das rajadas.
Um prédio erguido em cima do caneiro de Odivelas abanou, cheirando a gás e a curto-circuito, e quinze famílias foram evacuadas por terem escolhido mal o sítio para viver.

Cortesia de a23online

Fugiram a chorar na imundície, velhos e bebés em lágrimas, mais água despejada na rua. Felizmente, e contra o que toda a gente receava, ao fim dumas horas a Protecção Civil anunciou não haver vítimas mortais a registar, por enquanto, ou a denúncia de qualquer desaparecimento, por enquanto, repetiu.
Tudo estava a acabar bem: a meio da madrugada, as rádios e televisões transmitiam o retrocesso das águas, e só mostravam, com o foco luminoso da câmara, alguns cães nadadores a passar, agarrados com os dentes a ramagens, mas, explicou uma testemunha, ainda há uma hora a água me chegaria ao pescoço, aqui mesmo onde estou. O Instituto de Meteorologia disse que as nuvens começavam a desaparecer, umas seguiram o caminho do mar, outras pareciam ter-se gasto ao tentar seguir para norte e para leste e inundar o resto do território. Boas perspectivas abriam-se para a manhã, talvez o próprio Sol.
Esperava-se o regresso do céu azul de Portugal. Os repórteres admitiram dormir uns minutos no carro de exteriores, por falta de novidades mas, por outro lado, se calhar era melhor continuar como toda a gente, em êxtase profissional. Usaram palavras como borbotões, bueiros e gorgolejo. As melhores imagens começavam a ser negociadas por cidadãos-jornalistas, e os seus telemóveis, numa enxurrada de envios para as televisões. Eram de fraca qualidade mas tinham a característica, muito apreciada, do homem no centro do perigo». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Leituras. Parte XI: Deixem Passar o Homem Invisível. «Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas…»


Cortesia de domquixote e touaabarrotar

Um buraco no chão.
«Nas ruas ouvia-se um vómito de pedra, um enjoo hidráulico, canos deitavam água pela boca fora, baratas e excrementos, que outros canos voltavam a engolir, como numa gigantesca festa decadente. A água parecia confusa com a sua própria quantidade, um único corpo vivo a cobrir a terra que o rejeitava, e tanto enfiava um braço viscoso no primeiro buraco como usava outro para explodir um «geyser» de esgoto, grosso e gelado.

Nas zonas mais altas foi menos grave, mas centenas de comerciantes ficaram com dores nas costas, estiramentos e mesmo hérnias discais por súbito abuso de pá, esfregona e balde. Outros sofreram incalculáveis prejuízos de lama no mobiliário, nos electrodomésticos, nas carnes congeladas, nos pacotes à deriva, nos linóleos descolados dos pisos e nos balcões novos de alumínio.


Cortesia de aleteonocturno e domquixote

Em certas caves de restaurante, soube-se mais arde, houve batata que grelou irremediavelmente, da noite para o dia a batata nova fez-se velha, e pouco restou para servir aos clientes dessas sacas, só dava para fazer sopa.
Os bombeiros não têm mãos a medir para acorrer a todos os pedidos de socorro, aos milhares de inundações, e as pessoas são aconselhadas a não sair de casa em caso algum, quem tem água potável que a poupe, subam aos andares superiores, apelou a Protecção Civil.

Quem perdeu o telhado, pelo contrário, desça com precaução até um nível médio que considere seguro, livre das rajadas. Um prédio erguido em cima do caneiro de Odivelas abanou, cheirando a gás e a curto-circuito, e quinze famílias foram evacuadas por terem escolhido mal o sítio para viver.

Cortesia de librarythinkquest

Fugiram a chorar na imundície, velhos e bebés em lágrimas, mais água despejada na rua. Felizmente, e contra o que toda a gente receava, ao fim dumas horas a Protecção Civil anunciou não haver vítimas mortais a registar, por enquanto, ou a denúncia de qualquer desaparecimento, por enquanto, repetiu.
Tudo estava a acabar bem: a meio da madrugada, as rádios e televisões transmitiam o retrocesso das águas, e só mostravam, com o foco luminoso da câmara, alguns cães nadadores a passar, agarrados com os dentes a ramagens, mas, explicou uma testemunha, ainda há uma hora a água me chegaria ao pescoço, aqui mesmo onde estou. O Instituto de Meteorologia disse que as nuvens começavam a desaparecer, umas seguiram o caminho do mar, outras pareciam ter-se gasto ao tentar seguir para norte e para leste e inundar o resto do território. Boas perspectivas abriam-se para a manhã, talvez o próprio Sol.

Esperava-se o regresso do céu azul de Portugal. Os repórteres admitiram dormir uns minutos no carro de exteriores, por falta de novidades mas, por outro lado, se calhar era melhor continuar como toda a gente, em êxtase profissional. Usaram palavras como borbotões, bueiros e gorgolejo. As melhores imagens começavam a ser negociadas por cidadãos-jornalistas, e os seus telemóveis, numa enxurrada de envios para as televisões. Eram de fraca qualidade mas tinham a característica, muito apreciada, do homem no centro do perigo». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Leituras. Parte IX: Deixem Passar o Homem Invisível. «E logo a seguir, baralhada por súbitos ventos cruzados, quentes e frios, atiçados por relâmpagos metálicos, a chuva começou a escorrer com força pela cidade, mas sem saber por onde, e muito mais água chegava pelos veios que desciam das outras colinas, por arroios adormecidos e pelas calhas do eléctrico, numa competição de rios sem nome, acabados de nascer no meio das avenidas e praças»


Cortesia de domquixote e touaabarrotar

Um buraco no chão.
«O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele dum rato e, minutos depois, largou o peso na terra.
Alguns pescadores da Marginal, que durante a semana trabalhavam em repartições, lojas e oficinas da cidade, e se atrasaram no transporte para os subúrbios, bebendo mais uma cerveja nos cafés, já não o puderam fazer, e o que aconteceu a seguir lembrou-lhes as vagas gigantes das marés vivas do Inverno, que batem nas rochas altas dos mexilhões e perceves da costa, os mariscos aéreos, e esguicham com força, levando um ou outro homem para o mar salgado.
A onda bate na falésia e ergue pelos ares a cana de pesca e o balde das larvas de mosca, puxa o pescador no oleado, estrebuchando como o peixe no anzol, e afoga-o na espuma de iodo. Perdeu-se mais um bom chefe-de-família por aproximação a precipício, mordeu o isco que o mar lhe lançou, queria levar um robalinho para casa e descansar da vida, mas só o mexilhão e o perceve e os limos, e também a lapa, claro, conseguem agarrar-se nesses repuxos traiçoeiros do oceano, porque é ali mesmo que vivem.
No entanto, a chuva na capital nesse dia começou sem brutalidade. Só uma persistência pouco comum, não caíram primeiras gotas, caíram hectolitros de gotas no mesmo segundo, vaga de água doce, uma cascata vertical espremida das nuvens pretas nos telhados. Depressa cresceu para uma parede líquida sobre Lisboa como só uma vez ou duas em cada século.


Cortesia de aleteonocturno e domquixote

E logo a seguir, baralhada por súbitos ventos cruzados, quentes e frios, atiçados por relâmpagos metálicos, a chuva começou a escorrer com força pela cidade, mas sem saber por onde, e muito mais água chegava pelos veios que desciam das outras colinas, por arroios adormecidos e pelas calhas do eléctrico, numa competição de rios sem nome, acabados de nascer no meio das avenidas e praças.
Daí a pouco, os carros andavam com água pelo volante, abrindo sulcos no caminho, até que batiam nos passeios, ouvia-se um som pastoso no granito, os automobilistas abriam as comportas e pulavam pelas sarjetas como fuzileiros nos desembarques de praia, protegendo-se das saraivas.
As buzinas enrouqueceram e calaram-se, os motores fizeram bolhinhas fumarentas nos charcos de barro, antes de rebentarem pelo tubo de escape, no Cais do Sodré.
Muitas saídas estavam entupidas com prédios novos, betão, barracas e muros, outras cobertas de lixo, garagens subterrâneas escavadas à noite no leito dos riachos. Numa cave de Alcântara cem carros afogaram-se ao mesmo tempo, num pacto de morte mecânica.

Cortesia de librarythinkquest

Nos vales de Chelas, ao lado das hortas de couve e nabiça, dos talos submersos espetados no solo como bandeiras, afundavam-se viadutos e pilastras erguidos no sítio errado por ordem de alguém.
Nas zonas baixas, autocarros giravam agora em remoinhos e pareciam manadas de baleias desorientadas a dar à costa, para encalharem nos canteiros e morrer.
Jovens subiram aos jacarandás da Avenida da República e esperaram toda a noite aos gritos, como macacos. Mais de trinta árvores solitárias, muito velhas ou muito novas, caíram pela raiz nas matas e jardins, sopradas pelo ar.
Desconhecidos deram as mãos em corrente e salvaram uma senhora que não sabia nadar mas não largava a carteira, ao Campo Grande.
Um atleta fugiu a nado dum túnel e só o encontraram de manhã, embrulhado num casaco que não era dele e a dizer palavras sem sentido.
A linha verde do metropolitano entupiu e a carruagem fez de cobra-de-água, a maior anaconda da floresta perdida, até que parou por falha eléctrica.
Toda a gente na cidade deu cabo dos sapatos». In Rui Cardoso Martins, «Deixem Passar o Homem Invisível», Publicações Dom Quixote 2010, ISBN 978-972-20-3828-7.

(Continua).
Com a amizade da Isabel, Ana e João.
Cortesia de Dom Quixote/JDACT

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Fundação Gukbenkian: Falas da Terra no Século XXI ... «... nos mostra como a crise do ambiente é inseparável das representações e narrativas que constituem o núcleo central da literatura portuguesa contemporânea»

Cortesia de fcgulbenkian

Falas da Terra no Século XXI.
What do we see green?

No pf dia 7 de Junho, a conferência, organizada pelo Programa Gulbenkian Ambiente, mostra como a crise do ambiente é inseparável das representações e narrativas que constituem o núcleo central da literatura portuguesa contemporânea.
Participam, entre outros, Ana Paula Guimarães, Gonçalo M. Tavares, Rui Cardoso Martins, Mário de Carvalho (...).

Falas da Terra no Séc. XXI, What do we see green?, Terça-feira, 7 de Junho de 2011, 09h30, Sala 1.

Uma conferência de perfil único que nos mostra como a crise do ambiente é inseparável das representações e narrativas que constituem o núcleo central da literatura portuguesa contemporânea.
Cortesia da fcgulbenkian

Programa:
9:30 - Abertura,
Moderador: Ana Paula Guimarães
9:40 - Ser – dantes e ainda hoje, discretamente – verde, Ana Paula Guimarães
10:00 – Paisagem e Condição Humana. Breve meditação em três andamentos, Viriato Soromenho Marques.
10:20 – Intervenção convidada: Literature and ecocriticism as environmental activism, Cármen Flys Junquera.
10:50 – Intervenção convidada: Ursula Le Guin’s SF/Fantasy and the Environmental Paradigm Shift., Tonia Payne.
(Pausa)
Moderador: Nuno Júdice
11:30 – A tempestade e um copo de água , João Eduardo Ferreira, com Gonçalo M. Tavares.
12:00 – Planeta Lisboa, Ana Isabel Queiroz, com Rui Cardoso Martins.
(Pausa)
Moderador: Ana Paiva Morais
14:30 – Intervenção convidada: El cazador castigado por las bestias: del gigante Orión a La isla del doctor Moreau, José Manuel Pedrosa.
15:00 – Natureza, infância e sociedade nos “Contos da Mata dos Medos”, de Álvaro Magalhães, Carlos Nogueira, com Álvaro Magalhães.
15:30 – Humanos, Animais e Seus Iguais: Epítome de Uma Morte Anunciada, em Mário de Carvalho, Natália Constâncio, com Mário de Carvalho.
(Pausa)
Moderador: Inês de Ornellas e Castro, IELT
16:15 – A natureza na prosa de valter hugo mãe, Adolfo Luxúria Canibal, com Walter Hugo Mãe.
16:45 – O fim do mundo é vermelho – acerca de “Diálogos para o Fim do Mundo”, de Joana Bértholo, Carlos Augusto Ribeiro, com Joana Bértholo.
17:45 – Intervenção de encerramento e lançamento do livro, Inês de Ornellas e Castro.

Cortesia da Fundação C. Gulbenkian/JDACT