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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Ofegante, ele declara sua mensagem: os franj estão aí; novamente, eles atravessaram o Bósforo, ainda mais numerosos do que no ano anterior»

jdact e wikipedia

A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalém, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão a sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não está mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão. Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido a forca em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos.
Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pôde, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode-se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos. Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sabio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, e instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Ancara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedicão franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais.
Em Abril de 1097, o confronto parece inevitável. Kilij Arslan se prepara. O essencial de seu exército está reunido sob os muros de Malatya quando chega, defronte de sua tenda, um cavaleiro extenuado. Ofegante, ele declara sua mensagem: os franj estão aí; novamente, eles atravessaram o Bósforo, ainda mais numerosos do que no ano anterior. Kilij Arslan permanece calmo. Nada justifica tamanha preocupação. Ele já enfrentou os franj, e sabe portanto o que esperar deles. Finalmente, e apenas para tranquilizar os habitantes de Niceia, e em particular sua esposa, a jovem sultana que em breve daria à luz, que ele pede a alguns destacamentos de cavalaria para irem reforçar a guarnição da capital. Ele mesmo estará de volta assim que tiver terminado com Danishmend». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

sábado, 8 de outubro de 2016

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «… o doutor Ketabdar tinha de certo modo abusado dela, agira de uma maneira irresponsável e indigna, contrária a toda a ética médica, guiado apenas pelos seus baixos apetites...»

jdact

«(…) Tanto mais que ela nem sempre estava em estado de crise. Parecia mesmo dar, de vez em quando, sinais de lucidez. Oh, não de verdadeira lucidez! Conheci-a no fim da sua vida, e observei-a. Nunca esteve lúcida ao ponto de se aperceber do seu estado. E tanto melhor assim, pois teria sofrido demasiado. Mas atravessava longas horas de tranquilidade em que não gritava, não gemia, em que podia mostrar-se de uma grande ternura para com aqueles que a rodeavam. Por vezes, punha-se a cantar, numa voz vacilante e no entanto melodiosa. Ainda tenho no ouvido uma canção turca que falava das raparigas de Istambul passeando nas praias de Oskuder. E outra, de palavras obscuras, onde se falava de Trebizonde e da morte. Quando a minha avó cantava, toda a casa se punha em silêncio para ouvi-la. Ela conseguia ser tão enternecedora. Com um rosto sereno, e um andar gracioso, até aos seus últimos dias. Imagino facilmente que o marido tivesse desejo de abraçá-la. E que ela se encolhesse de encontro a ele com um risinho de menina bem comportada. Depois, para se justificar aos seus próprios olhos, o doutor teria elaborado as teorias adequadas. Com toda a boa-fé...
As quais teorias se mostraram inoperantes, poder-se-ia objectar, visto que na velhice a minha avó continuava sem se curar! As coisas não são assim tão simples. Ela não se curou, é certo, o choque salutar não se produziu. Mas soube ser para o filho uma mãe extremosa. E quando mais tarde viveu connosco na mesma casa, nunca sentimos a sua presença como um peso. As suas crises eram espaçadas, e sem consequências duráveis. Se é certo que a maternidade a não tinha curado, também não tinha certamente agravado o seu caso, e parece-me que lhe tinha feito bem. Mas poucas pessoas estavam dispostas a ver as coisas sob esta luz. O velho médico foi criticado... Que digo eu, criticado, ele foi arrastado na lama! Uma verdadeira fúria. De murmurações, imprecações, insultos, calúnias. É claro, ele era casado, o mais legalmente possível, e ninguém podia censurar aquele homem por ter concebido um filho com a sua esposa legítima. Mas não podiam deixar de pensar que, dadas as circunstâncias, existia uma espécie de contrato moral, e que ao engravidar aquela mulher que já não era senhora da sua razão, o doutor Ketabdar tinha de certo modo abusado dela, agira de uma maneira irresponsável e indigna, contrária a toda a ética médica, guiado apenas pelos seus baixos apetites...
E quando, para se defender, ele tentara expor as suas curiosas teorias, desconsiderou-se um pouco mais. Pois quê?, diziam os seus detractores, usar a esposa como um rato de laboratório? Mortificado pela hostilidade que o assaltava de todos os lados no entardecer de uma vida exemplar, o velho médico deixara-se invadir pelo sentimento de haver faltado ao seu dever, de haver traído a sua missão, e ter caído na indignidade. Nenhum dos seus colegas, nenhum membro da augusta família, nenhum notável de Adana queria já cruzar a porta da sua casa. O meu pai dizia-me: tratavam-nos como pestíferos! E ria muito alto!» In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «O choque brutal da vida viria compensar o choque brutal da morte. O sangue resgataria o sangue. Teorias... Teorias... Porque se podia muito bem imaginar o contrário»

jdact

«(…) Foi ao regressar a casa, nessa noite, no seu coche, através das ruas barulhentas de Galata, sacudido, meio ensonado, que o doutor Ketabdar deu consigo a sonhar com uma coisa insensata. Coisa que no entanto foi, no dia seguinte, propor à mãe de Iffett: visto que o estado da filha iria exigir cuidados permanentes durante anos, visto que não era possível interná-la, ele propunha-se levá-la para Adana, no sul da Anatólia, onde possuía uma casa; dedicar-se-ia a ela dia e noite, mês após mês, ano após ano, ela seria a sua única paciente, e pouco a pouco, se Deus quisesse, havia de voltar a si. Ocupar-se dela dia e noite, ano após ano? E na sua própria casa? A mãe teria achado o médico pretensioso e inconveniente se ele tivesse falado assim noutras circunstâncias. Porque aquilo que não era dito tal e qual, e, no entanto, claramente sugerido, era que o médico, viúvo, pensava em tomar Iffett por esposa. Noutras circunstâncias, dizia eu, a coisa teria sido impensável. Mas agora ninguém podia já pensar em casar a filha alienada do soberano caído com uma das altas personagens que ainda há pouco ambicionavam essa honra. portanto a mãe resignara-se. Em vez de deixar internar a filha até ao fim dos seus dias, mais valia confiá-la àquele homem respeitável que parecia querer-lhe bem, que a trataria, que a preservaria da vergonha e dos escândalos... Estranho lar, não é verdade? um marido velho que era antes de mais nada um médico assistente; uma jovem esposa demente que ele rodeava de cuidados e de afecto, mas que passava por vezes dias inteiros a gemer ou a gritar sem motivo aos ouvidos dos criados, uns extenuados, outros apiedados. Ninguém duvidava de que se tratava de um casamento fictício, destinado apenas a evitar a inconveniência da coabitação de um homem e de uma mulher sob o mesmo tecto, ao abrigo dos olhares. Casamento de conveniência, portanto, casamento de aparência; ou antes de complacência. Um acto de devoção, em suma. Sim, da parte do velho médico, uma acção caritativa. Mas, um dia, Iffett ficou grávida. Seria consequência de um momento de desvario? Ou o fruto de uma terapia audaciosa? Era caso para perguntar! A acreditar no filho do casal, que é nem mais nem menos que o meu pai, é a segunda a explicação a reter: o doutor Ketabdar tinha as suas teorias; pensava demonstrar que uma mulher como a sua, que perdera a razão em consequência de um choque, podia recuperá-la graças a outro choque. A gravidez, a maternidade... Mas principalmente o parto. O choque brutal da vida viria compensar o choque brutal da morte. O sangue resgataria o sangue. Teorias... Teorias... Porque se podia muito bem imaginar o contrário: o marido médico, constantemente ao lado da esposa, vestindo-a, despindo-a, dando-lhe banho todas as noites, uma bela e jovem mulher a quem adorava profundamente, a ponto de lhe consagrar todos os momentos da sua vida, como poderia ele contemplá-la sem se emocionar? Como poderia percorrer com as mãos e com os olhos a superfície lisa do seu corpo sem que crescesse nele o desejo?» In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «… reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, “o Sábio”, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências»

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A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no Inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalem, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não esta mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão.
Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido à força em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos. Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pode, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos.
Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sábio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Âncara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedição franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

sábado, 6 de agosto de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «É verdade que os “franj” perderam cerca de seis mil homens, mas os que restam são seis vezes mais numerosos, e esta é a única oportunidade para se livrarem deles»

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A Invasão. 1096-1100
«(…) Para os sitiados, começa um suplício atroz: eles chegam a beber o sangue de suas montarias e sua própria urina. Podem ser vistos, nesses primeiros dias de Outubro, olhando desesperadamente para o céu, mendigando algumas gotas de chuva. Em vão. Após uma semana um cavaleiro chamado Renaud, chefe da expedição, aceita a capitulação com a condição de que lhe seja poupada a vida. Kilij Arslan, que exigiu que os franj denunciem publicamente a sua religião, não fica pouco surpreso quando Renaud se diz pronto não só a converter-se ao islamismo, mas também a combater ao lado dos turcos contra seus próprios companheiros. Vários de seus amigos, que se prestaram às mesmas exigências, são enviados como prisioneiros para as cidades da Síria ou da Ásia Central. Os outros são mortos pela espada. O jovem sultão está orgulhoso de sua proeza, mantém-se ponderado. Após ter concedido a seus homens um prazo para a tradicional partilha dos bens restados da guerra, ele os coloca em alerta a partir do dia seguinte. É verdade que os franj perderam cerca de seis mil homens, mas os que restam são seis vezes mais numerosos, e esta é a única oportunidade para se livrarem deles. Para tanto, ele preferiu destacar dois espiões, gregos, para o acampamento de Citivot, afim de anunciar que os homens de Renaud estão em excelente condição, que conseguiram apoderar-se da própria Nicéia, e que estão firmemente decididos a não permitir que seus correligionários lhes disputem as riquezas. Enquanto isso, o exército turco preparará uma gigantesca emboscada. De facto, os rumores cuidadosamente propagados suscitam no acampamento de Citivot a confusão prevista. Formam-se grupos, injuria-se Renaud e seus homens. Logo tomam a decisão de pôr-se a caminho para participar do saque de Nicéia. Mas eis que, subitamente, não se sabe muito bem como, um homem que conseguiu escapar da expedição de Xerigordon chega, revelando a verdade quanto à sorte de seus companheiros. Os espiões de Kilij Arslan pensam ter fracassado em sua missão, já que os mais sábios entre os franj pregam a calma. Mas, passado o primeiro momento de consternação, a exaltação volta. A multidão se agita e brada, quer partir imediatamente e não mais para participar de meros saques, e sim vingar os mártires. Aqueles que hesitam são tratados de covardes. Finalmente, os mais enfurecidos obtêm ganho de causa, e a partida é fixada para o dia seguinte. Tendo seu artifício descoberto, ainda que o objectivo houvesse sido previamente atingido, os espiões do sultão triunfam e mandam dizer ao seu senhor que se prepare para o combate. Na madrugada de 21 de Outubro de 1096, os ocidentais deixam seu acampamento. Kilij Arslan não está longe. Ele passou a noite nas colinas próximas a Citivot. Seus homens estão nos seus lugares, bem escondidos. Ele mesmo, de onde está, pode avistar ao longe a coluna dos franj levantar uma nuvem de poeira. Algumas centenas de cavaleiros, a maioria sem armadura, andam na frente, seguidos por uma multidão de infantes em desordem. Estão andando há menos de uma hora quando o sultão ouve o clamor que se aproxima. O sol que se ergue atrás dele golpeia-os em pleno rosto. Prendendo a respiração, ele faz sinal aos seus emires comandados para que se mantenham alertas. O instante fatídico é chegado. Um gesto apenas perceptível, algumas ordens sussurradas aqui e ali, e eis os arqueiros retesando lentamente seus arcos. De repente, mil flechas jorram num único e longo assobio. A maioria dos cavaleiros desaba nos primeiros minutos. Depois, os infantes são dizimados por sua vez. Quando se travou o combate corpo-a-corpo, os franj já estavam derrotados. Aqueles que se encontravam na rectaguarda voltaram correndo para o acampamento, onde os que repousavam eram despertados. Um velho sacerdote celebra um ofício religioso, algumas mulheres preparam comida. A chegada dos fugitivos com os turcos no seu encalço espalha o terror. Alguns, que tentaram atingir os bosques vizinhos, são rapidamente alcançados. Outros, mais espertos, protegem-se numa fortaleza abandonada que apresenta a vantagem de ser encostada ao mar. Não querendo assumir riscos inúteis, o sultão renuncia a sitiá-los. A frota bizantina, rapidamente avisada, virá recuperá-los. Dois a três mil homens escaparão assim. Pierre, o Eremita, que se encontra há alguns dias em Constantinopla, tem dessa forma, ele também, a vida salva. Mas seus partidários têm menos sorte. As mulheres mais jovens foram raptadas pelos cavaleiros do sultão para serem distribuídas aos emires ou vendidas nos mercados de escravos. Alguns rapazes experimentam o mesmo destino. Os outros franj, cerca de vinte mil, sem dúvida, foram exterminados. Kilij Arslan jubila. Acaba por aniquilar esse exército franco que diziam tão temível, sendo que as perdas de suas próprias tropas são insignificantes. Contemplando a vasta destruição amontoada a seus pés, ele acredita viver um de seus mais belos triunfos. E, no entanto, raramente na História, uma vitória terá custado tão caro àqueles que a obtiveram». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

quarta-feira, 29 de junho de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Não tendo provavelmente mais nada que obter de sua vizinhança, eles tomaram, dizem, o rumo de Niceia, atravessando alguns vilarejos, todos cristãos, e apossaram-se das safras que acabavam de ser colocadas em celeiros»

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A Invasão. 1096-1100
«(…) Mesmo se o exército bizantino, dilacerado há anos por crises internas, fosse capaz de lançar-se sozinho numa Guerra de Reconquista, ninguém ignora que Alexis sempre pode apelar para auxiliares estrangeiros. Os bizantinos nunca hesitaram em recorrer aos serviços dos cavaleiros vindos do Ocidente. Mercenários com armaduras pesadas ou peregrinos a caminho da Palestina, são numerosos os franj que visitam o Oriente. Em 1096 eles não eram estranhos aos muçulmanos. Cerca de vinte anos antes, Kilij Arslan ainda não era nascido, mas os velhos emires lhe contaram, um desses aventureiros de cabelos louros, um tal de Roussel de Bailleul, que conseguira estabelecer um Estado autónomo na Asia Menor, marchou inclusive sobre Constantinopla. Apavorados, os bizantinos não tiveram outra escolha senão apelar para o pai de Kilij Arslan, que chegou a duvidar do que ouvia quando um enviado especial do basileu veio suplicando-lhe que voasse para socorrê-lo. Os cavaleiros turcos tinham-se então, de facto, dirigido para Constantinopla e conseguido vencer Roussel. Por isso, Suleiman fora generosamente recompensado em ouro, cavalos e terras.
Desde então, os bizantinos desconfiam dos franj, mas os exércitos imperiais, constantemente carentes de soldados experientes, veem-se obrigados a contratar mercenários. Não unicamente franj, aliás; os guerreiros turcos são numerosos sob as bandeiras do império cristão. E precisamente graças a compatriotas engajados no exército bizantino que Kilij Arslan fica sabendo, em Julho de 1096, que milhares de franj se aproximam de Constantinopla. O quadro pintado pelos informantes deixa-o perplexo. Esses ocidentais parecem-se muito pouco com os mercenários que se costuma ver. É verdade que há, entre eles, algumas centenas de cavaleiros e um número importante de infantes armados, mas também há milhares de mulheres, crianças, velhos em andrajos: parece um povo desalojado de suas terras por um invasor. Conta-se também que trazem todos, costuradas nas costas, faixas de tecido em forma de cruz. O jovem sultão, encontrando dificuldades em avaliar o perigo, pede aos seus agentes que dobrem a vigilância e que o deixem constantemente a par dos factos e condutas desses novos invasores. Como medida de precaução, ele manda verificar as fortificações de sua capital. As muralhas de Niceia, que tem mais de um farsakh (seis mil metros) de extensão, são coroadas por 240 torres. A sueste da cidade, as águas calmas do lago Ascanios constituem uma excelente protecção natural.
No entanto, nos primeiros dias de Agosto, a ameaça torna-se mais evidente. Os franj atravessam o Bósforo, escoltados por navios bizantinos e, mesmo sob um sol opressivo, avançam ao longo da costa. Apesar de terem sido vistos saqueando a caminho mais de uma igreja grega, pode-se ouvi-los bradar que vem exterminar os muçulmanos. Seu chefe seria um eremita chamado Pierre. Os informantes avaliam que sejam algumas dezenas de milhares, mas ninguém sabe dizer onde seus passos os levam. Parece que o imperador Alexis resolveu instalá-los em Citivot, um acampamento que ele acomodou anteriormente para outros mercenários, a menos de um dia de caminhada de Niceia. O palácio do sultão fica em estado de alerta. Enquanto os cavaleiros turcos preparam-se para alar seus cavalos a qualquer momento, assiste-se a um vaivém continuo de espiões e batedores que relatam os mínimos movimentos dos franj. Conta-se que cada manhã eles deixam o acampamento em hordas de vários milhares para explorar a vizinhança, onde saqueiam algumas fazendas e incendeiam outras, antes de voltar para Citivot, onde seus pares disputam os frutos da razia. Não há nada disso que possa realmente atemorizar os soldados do sultão. Nada também que possa preocupar seu senhor. Durante um mês, a rotina se repete. Mas eis que um dia, por volta de meados de Setembro, os franj modificam bruscamente seus hábitos. Não tendo provavelmente mais nada que obter de sua vizinhança, eles tomaram, dizem, o rumo de Niceia, atravessando alguns vilarejos, todos cristãos, e apossaram-se das safras que acabavam de ser colocadas em celeiros, nesse período de colheita, massacrando sem piedade os camponeses que tentavam resistir. Crianças de colo teriam sido queimadas vivas.
Kilij Arslan é apanhado de surpresa. Quando lhe chegam as primeiras noticias, os atacantes já estão sob os muros de sua capital; e o Sol ainda não atingia o horizonte quando os cidadãos veem subir a fumaça dos incêndios. Imediatamente, o sultão manda uma patrulha de cavaleiros, que se choca com os franj. Esmagados pelo número, os turcos são massacrados. Apenas raros sobreviventes voltam, ensanguentados, para Niceia. Vendo seu prestígio ameaçado, Kilij Arslan resolve começar a batalha imediatamente, mas os emires de seus exércitos o desaconselham. A noite já vai cair e os franj retiram-se às pressas para seu acampamento. A vingança terá que esperar. Contudo não por muito tempo. Aparentemente animados com seu sucesso, os ocidentais repetem a façanha duas semanas mais tarde. Dessa vez, o filho de Suleiman, avisado a tempo, segue passo a passo sua progressão. Uma tropa franca, compreendendo alguns cavaleiros, mas sobretudo milhares de saqueadores esfarrapados, pega a estrada de Niceia, depois, contornando a aglomeração, dirige-se para o leste e toma de surpresa a fortaleza de Xerigordon. O jovem sultão se decide. À frente de seus homens, cavalga rapidamente em direcção à pequena praça-forte onde, para comemorar sua vitória, os franj embebedam-se, incapazes de imaginar que seu destino já esteja selado. Pois Xerigordon apresenta uma armadilha que os soldados de Kilij Arslan conhecem bem, mas que esses estrangeiros inexperientes não foram capazes de descobrir: o abastecimento de água que se situava fora, bastante longe das muralhas. Então os turcos não precisam de muito tempo para interditar seu acesso. Basta-lhes tomar posição ao redor da fortaleza e não se mover mais. A sede luta por eles». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «O médico conhecia a paciente. Tinha-se encontrado com ela seis meses antes, a uma luz muito diferente. Tendo vindo tratar uma criada atacada de histeria, ouvira a princesa ao piano. Tocava uma ária vienense, e ele ficara a escutá-la…»

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«(…) Tinha-se encerrado no seu quarto. Sei que ninguém quer já obedecer-me, mas se alguém se lembra de penetrar aqui, estrangulo-o com as minhas próprias mãos! Tinham-no portanto deixado entregue a si mesmo toda a noite, e depois toda a manhã. Até à hora do almoço. Bateram então à sua porta. Ele nem sequer respondeu. Isso provocou inquietação; mas quem ousaria desafiar as suas ordens? Os criados conferenciaram. Só uma pessoa no mundo podia desobedecer-lhe sem incorrer na sua cólera. A filha, a sua filha bem-amada, Iffett. Estavam ligados por uma profunda afeição, ele não lhe recusava nada. Ela tinha professores de piano, de canto, de francês, de alemão. Ousava mesmo vestir-se à europeia na presença dele, com vestidos que trazia de Viena ou de Paris. Só ela podia cruzar sem risco a porta do soberano caído. Obtêm a autorização das novas autoridades, e chamam-na. Ela tenta primeiro rodar suavemente o puxador da porta. Mas a porta não se abre. Pede aos que a acompanham que se afastem, e chama: pai, sou eu, Iffett. Estou sozinha. Não há resposta. Toda a tremer, ordena aos guardas que arrombem a porta, jurando-lhes que assumirá sozinha toda a responsabilidade. Dois ombros vigorosos entram em acção. A porta cede. Os dois latagões fogem sem sequer lançarem uma olhadela para a sala. A filha entra. Volta a chamar. Pai! Dá dois passos. É então que ela solta esse grito que vai ressoar no quarto, no corredor, nos vestíbulos, repercutir-se nas ruas de Istambul, depois em todo o Império; e também, para lá do Império, nas chancelarias das Potências. O soberano caído tinha as veias cortadas e o pescoço enegrecido. As suas roupas haviam-lhe já bebido o sangue.
Um suicídio? Talvez. Mas talvez também um assassínio. Porque os assassinos podiam muito bem ter passado pelos jardins. Nunca se soube a verdade. De qualquer maneira, a questão não tem já importância, salvo para alguns historiadores... Iffett continuava ali, estática no seu horror; ao seu grito seguira-se uma espécie de arquejo. Muitos anos mais tarde, ainda se podia adivinhar esse horror nos seus olhos. Passadas as primeiras semanas de luto, como ela vagueasse ainda pelos corredores, com o mesmo olhar, o mesmo arquejo, tiveram que render-se à evidência: não se tratava já da aflição normal de quem lamenta um ser querido; Iffet, a filha preferida, a menina mimada, tão jovial e garrida, acabava de perder a razão. Talvez para sempre. A mãe não teve outro remédio senão recorrer ao velho doutor Ketabdar. Descendente de uma família de eruditos originária da Pérsia, era ele que tratava, nas grandes casas de Istambul, aqueles que davam sinais de alienação; recorrer a ele era já uma confissão de infortúnio.
O médico conhecia a paciente. Tinha-se encontrado com ela seis meses antes, a uma luz muito diferente. Tendo vindo tratar uma criada atacada de histeria, ouvira a princesa ao piano. Tocava uma ária vienense, e ele ficara a escutá-la, de pé, junto da porta. Quando ela parou, dirigira-lhe algumas palavras de encorajamento, em francês. Ela respondera-lhe, toda sorridente. Trocaram algumas frases, e o velho partira cheio de satisfação. Nunca esquecera aquele encontro, aquela música, aquelas mãos lisas, aquele rosto, aquela voz. E quando entrou de novo naquele dia na sala onde estava o piano, e viu a mesma rapariga caminhar de um lado para o outro numa grande agitação, a ouviu emitir roncos de demente, com os olhos alucinados, os dedos curvos, não pôde reter as lágrimas. A mãe de Iffett notou-o, e desfez-se em soluços. Ele censurara-se por isso, e pedira-lhe perdão; devia reconfortar as famílias dos seus pacientes, não alarmá-las ainda mais.
E se eu a levasse para longe de Istambul? perguntara a mãe. Para Montreux, por exemplo... Infelizmente, não, declarara o velho, desolado, uma viagem não resolveria nada. Embora fosse certamente necessário mudar-lhe as ideias, afastá-la de tudo o que pudesse recordar-lhe o drama, isso não era bastante. No estado em que estava, devia ser permanentemente acompanhada por pessoas qualificadas. A mãe cerrara os punhos contra o peito. Nunca deixarei encerrar a minha filha num asilo! Antes morrer! O médico prometeu reflectir sobre uma melhor solução». In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

O Rochedo de Tanios. Amin Maalouf. «De resto, muitas vezes, bofetada não era mais do que um diminutivo de ferros, chicote, trabalhos forçados... Nenhum senhor era sancionado por maltratar os seus súbditos…»

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«(…) Eram numerosos, todas as manhãs, os que percorriam o caminho do castelo para aguardar o seu despertar, acotovelando-se no corredor que conduzia ao seu quarto. E quando ele aparecia, acolhiam-no com centenas de fórmulas votivas, em voz alta e em voz baixa, cacofonia que acompanhava cada um dos seus passos. A maior parte deles estava vestido como ele, largo serual preto, camisa branca de riscas, boné cor de terra, e quase toda a gente arvorava os mesmos bigodes espessos e orgulhosamente enrolados para cima, num rosto glabro. O que é que distinguia o xeque? Apenas esse colete verde-maçã, enfeitado a fio de ouro, que ele usava em todas as estações, como outros usam uma capa de zibelina ou um ceptro. Dito isto, mesmo sem esse ornamento, nenhum visitante teria tido dificuldade em distinguir o senhor no meio da multidão, por causa dessas inclinações que todas as cabeças faziam umas após outras, para lhe beijar a mão, cerimonial que se prolongava até à sala dos Pilares, até ele ter tomado o lugar habitual sobre o sofá e ter levado aos lábios a ponta dourada do seu cachimbo de água.
Ao regressarem a casa, mais tarde, durante o dia, esses homens diriam às suas esposas: esta manhã, vi a mão do xeque. Não era beijei a mão... Faziam isso, é certo, e faziam-no em público, mas tinham pudor de o dizer. Também não era: vi o xeque, palavras pretensiosas, como se se tratasse de um encontro entre duas personagens de igual categoria! Não, vi a mão do xeque, era essa a expressão consagrada. Nenhuma outra mão tinha tanta importância. A mão de Deus e a do sultão não prodigalizavam senão calamidades globais; é a mão do xeque que espalha as desgraças quotidianas. E por vezes também migalhas de felicidade.
Na língua das gentes da região, a mesma palavra, kaff, designava por vezes a mão e a bofetada. Quantos senhores dela tinham feito símbolo de poder e instrumento de governo. Quando se encontravam entre eles, longe dos ouvidos dos seus sujeitos, havia sempre um adágio que lhes vinha à boca: é preciso que um camponês tenha sempre uma bofetada junto da nuca; tendo isso como significado que é necessário fazê-lo viver constantemente no temor, de ombros baixos. De resto, muitas vezes, bofetada não era mais do que um diminutivo de ferros, chicote, trabalhos forçados... Nenhum senhor era sancionado por maltratar os seus súbditos; se, algumas vezes, muito raramente, as autoridades superiores lhe chamavam a atenção, é porque estavam decididas a perdê-lo por razões totalmente diferentes, e procuravam o mínimo pretexto para dar cabo dele. Há séculos que se vivia no reino do arbitrário, e se outrora tinha havido uma época de equidade, já ninguém se lembrava dela.
Quando se tinha a sorte de ter um senhor menos ávido, menos cruel do que os outros, considerávamo-nos privilegiados, e agradecia-se a Deus ter demonstrado tanta solicitude, como se o considerássemos incapaz de fazer mais. Era o caso em Kfaryabda; lembro-me de ter ficado surpreendido, e mais do que uma vez indignado, com a maneira afectuosa pela qual os aldeões evocavam esse xeque e o seu reino. É verdade, diziam eles, que ele deixava que lhe beijassem a mão de boa vontade e, de vez em quando, aplicava a um dos seus sujeitos uma bofetada vigorosa, mas nunca se tratava de um vexame gratuito; como era ele que exercia a justiça no seu domínio, e que todos os diferendos, entre irmãos, entre vizinhos, entre marido e mulher, eram resolvidos perante ele, o xeque tinha o hábito de ouvir os queixosos, seguidamente algumas testemunhas, antes de propor um acordo; as partes eram obrigadas a conformar-se com ele, e a reconciliar-se imediatamente, através dos usuais beijos; se havia alguém mais teimoso, a bofetada do senhor intervinha como último argumento. Tal sanção era suficientemente rara para que os aldeões não pudessem falar de outra coisa durante semanas, aperfeiçoando-se na descrição do assobio da bofetada, inventando as marcas dos dedos que teriam ficado visíveis durante três dias, e as pálpebras do infeliz que nunca mais deixariam de piscar. Os conhecidos do homem esbofeteado vinham visitá-lo. Sentavam-se em círculo ao redor da sala, silenciosos como num luto. Depois havia um que levantava a voz para dizer que ele não se deveria sentir humilhado. Quem é que não tinha sido esbofeteado pelo pai?» In Amin Maalouf, O Rochedo de Tanios, 1993, tradução de Maria Sarmento, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-885-6.

Cortesia Difel/JDACT

terça-feira, 19 de abril de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «Naquele ano, começaram a chegar informações sucessivas sobre a aparição de tropas de franj vindas do mar de Mármara em grande multidão. As pessoas amedrontaram-se»

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Agosto de 1099. Bagdade
«(…) Em Bagdade, a decepção dos refugiados será tão grande quanto as suas esperanças. Antes de encarregar seis altos dignitários da corte para que efectuassem uma investigação sobre esses acontecimentos desagradáveis, o califa Mustazhit-billah expressa a sua simpatia pela causa. E preciso dizer que não se ouvira mais falar nesse comité de sabios? O saque a Jerusalém, ponto de partida de uma hostilidade milenar entre o Islão e o Ocidente, não provoca, na hora, nenhuma reacção. Foi preciso esperar cerca de meio século antes que o Oriente árabe se mobilize perante o invasor, e que a chamada ao jihad lancada pelo cádi de Damasco à tenda do califa seja celebrada como o primeiro acto solene de resistência. No inicio da invasão, poucos árabes medem imediatamente, como al-Harawi, a amplitude da ameaça vinda do Oeste. Alguns adaptam-se até rápido demais à nova situação. A maioria só procura sobreviver, amargurada e resignada. Alguns colocam-se como observadores mais ou menos lúcidos, tentando compreender esses acontecimentos tão imprevistos quanto novos. O mais cativante deles é o cronista de Damasco, Ibn al-Qalanissi, jovem letrado de uma família de notáveis. Testemunho ocular, ele tem 23 anos, em 1096, quando os franj chegam ao Oriente e se aplica em consignar por escrito os acontecimentos que chegam ao seu conhecimento. A sua crónica narra fielmente, sem envolvimento excessivo, a progressão dos invasores, tal como é vista na sua cidade. Para ele, tudo começou nesses dias de angústia em que chegam a Damasco os primeiros rumores...

A Invasão. 1096-1100
Olhem para os franj! Vejam com que fúria lutam por sua religião, enquanto nós, os muçulmanos, não demonstramos ardor algum em travar a Guerra Santa. In Saladino
Naquele ano, começaram a chegar informações sucessivas sobre a aparição de tropas de franj vindas do mar de Mármara em grande multidão. As pessoas amedrontaram-se. Essas noticias foram confirmadas pelo rei Kilij Arslan, cujo território era o mais próximo desses franj. O rei Kilij Arslan de quem fala aqui Ibn al-Qalanissi ainda não tem 17 anos quando os invasores chegam. Como primeiro dirigente muçulmano a ser informado da sua chegada, esse jovem sultão turco de olhos levemente puxados será o primeiro a infligir-lhes uma derrota e posteriormente o primeiro a ser vencido pelos seus temíveis cavaleiros. Desde Julho de 1096, Kilij Arslan sabe que uma imensa multidão de franj está a caminho de Constantinopla. Imediatamente, ele teme o pior. É claro que ele não tem ideia alguma dos objectivos reais perseguidos por essa gente, mas a vinda deles ao Oriente bastava para que se atemorizasse. O sultanato que ele governa abrange uma grande parte da Ásia Menor, um território que os turcos acabam apenas de arrancar aos gregos. Na verdade, o pai de Kilij Arslan, Suleiman, foi o primeiro a apossar-se dessa terra que se chamaria, muitos séculos mais tarde, Turquia. Em Niceia, capital desse jovem Estado muçulmano, as igrejas bizantinas continuam mais numerosas do que as mesquitas. Se a guarnição da cidade é formada por cavaleiros turcos, a maioria da população é grega, e Kilij Arslan não tem ilusões quanto aos verdadeiros sentimentos de seus súbditos, para os quais ele será sempre um chefe de bando bárbaro. O único soberano que eles reconhecem, aquele cujo nome é murmurado em todas as suas orações, e o basileu Aléxis Comneno, imperador dos romanos. Na realidade, Aléxis seria antes o imperador dos gregos, os quais se proclamam herdeiros do Imperio romano. Essa qualidade lhes é, aliás, reconhecida pelos árabes, que, no século XI como no século XX, designam os gregos pelo termo rum, romanos. O domínio conquistado pelo pai de Kilij Arslan em detrimento do Imperio grego é chamado, inclusive, de sultanato dos rum.
Na época, Aléxis e uma das figuras mais prestigiosas do Oriente. Esse quinquagenário de baixa estatura, olhos cintilantes de malícia, de barba bem cuidada, modos elegantes, sempre paramentado de ouro e ricas roupagens azuis, exerce um verdadeiro fascínio sobre Kilij Arslan. É ele quem reina sobre Constantinopla, a fabulosa Bizâncio, situada a menos de três dias de caminhada de Niceia. Uma proximidade que provoca no jovem sultão sentimentos mistos. Como todos os guerreiros nómadas, ele sonha com conquista e pilhagem. Não lhe desagrada sentir as riquezas legendárias de Bizâncio ao alcance da mão, mas ao mesmo tempo sente-se ameaçado: sabe que Aléxis nunca perdeu as esperanças de recuperar Niceia, não somente porque a cidade sempre foi grega, mas principalmente porque a presença de guerreiros turcos, a tão curta distância de Constantinopla, constitui um perigo permanente para a segurança do Imperio». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

Samarcanda. Amir Maalouf. «Omar fez sem dúvida mal em acompanhar o seu reparo de um gesto desdenhoso dirigido aos seus adversários. Estendem-se mãos, puxam-lhe pelas roupas, que se começam a rasgar»

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Poetas e Amantes
«(…) Uma questão de pró-forma; o homem não tem a mínima intenção de se apresentar. Está na sua cidade e é ele o inquiridor. Mais tarde, Ornar saberá a sua alcunha: chamam-lhe o Estudante da Cicatriz. De cacete na mão, com uma citação na boca, amanhã fará tremer Samarcanda. Por ora, a sua influência  não vai além destes jovens que o rodeiam, atentos à sua mais pequena palavra, ao mínimo sinal.  No seu olhar, um súbito clarão. Vira-se para os acólitos. Depois, triunfalmente, para a multidão. Exclama: por Deus, como pude não reconhecer Omar, filho de Ibraim Khayyam de Nichapur? Omar, a estrela do Khorassan, o génio da Pérsia e dos dois Iraques, o príncipe dos filósofos! Mima um profundo salamaleque, e faz rodopiar os dedos de ambos os lados do seu turbante, suscitando infalivelmente asgargalhadas dos basbaques. Como pude não reconhecer quem compôs este robai tão cheio de piedade e de devoção:

Acabas de quebrar o meu cântaro de vinho, Senhor.
Barraste-me a estrada do prazer, Senhor.
Derramaste no solo o meu vinho carmesin.
Deus me perdoe, estarás ébrio, Senhor?

Khayyam escuta, indignado, inquieto. Uma tal provocação é um apelo ao homicídio, ali mesmo. Sem perder um segundo, lança a sua resposta em voz alta e clara, para que ninguém na multidão se deixe enganar: ouço essa quadra da tua boca pela primeira vez, desconhecido. Mas eis um robai que realmente compus:

Nada, eles nada sabem, nada querem saber.
Repara nestes ignorantes, eles dominam o mundo.
Se não fores um deles, chamam-te incréu.
Não lhes ligues, Khayyam, segue o teu caminho.

Omar fez sem dúvida mal em acompanhar o seu reparo de um gesto desdenhoso dirigido aos seus adversários. Estendem-se mãos, puxam-lhe pelas roupas, que se começam a rasgar. Ele cambaleia. As suas costas embatem num joelho, depois na lisura de uma laje. Esmagado sob a turba, não se digna a debater-se, resigna-se a permitir que lhe retalhem o vestuário e que lhe deixem o corpo em frangalhos, entrega-se ao mole torpor da vítima imolada, nada sente, nada ouve, está fechado em si mesmo, muralha até ao céu e portões trancados.
E contempla como intrusos os dez homens armados que vêm interromper o sacrifício. Eles arvoram, nos seus barretes de feltro, a insígnia verde-clara dos ahdath, a milícia urbana de Samarcanda. Ao vê-los, os agressores afastaram-se de Khayyam; mas justificar a sua conduta, desataram a berrar, tomando a multidão como testemunha; alquimista! Alquimista! Aos olhos das autoridades, ser filósofo não é um crime; praticar a alquimia á passível de morte. Alquimista! Este forasteiro é um alquimista! Mas o chefe de patrulha não tenciona argumentar. Se este homem for de facto um alquimista, decide ele, é ao grande juiz Abu Taher que o devemos conduzir». In Amir Masalouf, Samarcanda, 1988, tradução de Paula Caetano, Editorial Presença, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-102-5.

Cortesia de EPresença/MarcadorE/JDACT

segunda-feira, 4 de abril de 2016

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «O mesmo ocorre com o espectáculo das cativas muçulmanas que trazem aos pés anéis de ferro. Os corações despedaçam-se a essa visão, mas piedade não lhes serve para nada»

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Agosto de 1099. Bagdade
«… Foi, de facto, na sexta-feira 22 do tempo de Chaaban, do ano de 492 da Hegira, que os franj se apossaram da Cidade Santa, após um cerco de quarenta dias. Os exilados ainda tremem cada vez que falam nisso, o seu olhar torna-se gélido como se eles ainda tivessem diante dos olhos, aqueles guerreiros louros, protegidos de armaduras, que espalham pelas ruas o sabre cortante, desembainhado, degolando homens, mulheres e crianças, pilhando as casas, saqueando as mesquitas. Dois dias depois, não havia um só muçulmano dentro das cidades. Alguns aproveitaram-se da confusão para fugir, pelas portas que os invasores haviam arrombado. Outros jaziam, aos milhares, em poças de sangue na soleira das suas casas ou nas proximidades das mesquitas. Entre eles, um grande número de imãs, e ascetas sufis que haviam deixado a sua terra para viver um retiro piedoso, nesses santos lugares. Os últimos sobreviventes forçados a cumprir a pior das tarefas: transportar os cadáveres dos seus, amontoando-os, sem sepultura, nos terrenos baldios para em seguida queimá-los. Os sobreviventes por sua vez deveriam proteger-se para não serem massacrados ou vendidos como escravos. O destino do judeus de Jerusalém foi igualmente atroz. Durante as primeiras horas da batalha, vários deles participaram da defesa do seu bairro, a Judiaria, situada ao norte da cidade. Mas quando a parte da muralha que delimitava as suas casas desmoronou, os judeus apavoraram-se, vendo que os louros cavaleiros começavam a invadir as ruas da cidade. A comunidade inteira, reproduzindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga principal para rezar. Os franj então bloquearam todos os acessos. Depois, empilhando feixes de lenha em torno, atearam fogo. Os que tentavam sair eram mortos nos becos vizinhos, os outros, queimados vivos. Alguns dias após o drama, os primeiros refugiados da Palestina chegaram a Damasco trazendo, com extremo cuidado, o Alcorão de Othman, um dos mais antigos exemplares do Livro Sagrado. Em seguida, os fugitivos de Jerusalém aproximaram-se da metrópole síria. Avistando de longe a silhueta dos três minaretes da mesquita omíada que se destacam acima da muralha quadrada, então estenderam o seu tapete de oração para agradecer ao Todo-Poderoso por ter assim prolongado as suas vidas que acreditavam ter chegado ao fim. Como grande cadi de Damasco, Abu-Saad al-Harawi acolheu os refugiados com benevolência. Esse magistrado de origem afegã era a personalidade mais respeitada da cidade, conselheiro e consolador dos palestinos. Segundo ele, um muçulmano não deveria envergonhar-se de ter tido que fugir da sua casa. O primeiro refugiado do Islão não fora o próprio profeta Maomé, que tivera que deixar a sua cidade natal, Meca, cuja população lhe era hostil, buscando refúgio em Medina, onde a nova religião era mais aceite? E não fora a partir de seu exílio que lançara a Guerra Santa, o jihad, para libertar a pátria da idolatria? Os refugiados devem considerar-se os combatentes da Guerra Santa, os mujahidins por excelência, tão honrados no Islão que a emigração do Profeta, a Hégira, foi escolhida como ponto de partida da era muçulmana. Para muitos crentes, o exílio era, no caso de ocupação, inclusive um dever imperativo. O viajante Ibn Jobair, um árabe da Espanha que visitara a Palestina (cerca de um século após o início da invasão franca), ficara escandalizado vendo que alguns muçulmanos, subjugados pelo amor da terra natal, aceitam viver em território ocupado. Não há, dizia ele, para muçulmano, desculpa alguma perante Deus para a sua estada numa cidade ímpia, a menos que esteja simplesmente de passagem. Em terra do Islão, encontrou abrigo contra os males a que estava submetido. Contrariamente, em paisagens estrangeiras era obrigado a ouvir ofensas dirigidas ao Profeta, sujeitar-se aos impedimentos de purificação, viver entre os porcos e a tantas outras licenciosidades. Abstenham-se, abstenham-se de penetrar nessas regiões! É preciso pedir perdão e misericórdia a Deus para evitar tal erro. Um dos horrores que saltam aos olhos de quem mora no território dos cristãos é o espectáculo dos prisioneiros muçulmanos tropeçando nos grilhões, usados para trabalhos forçados quando são tratados como escravos. O mesmo ocorre com o espectáculo das cativas muçulmanas que trazem aos pés anéis de ferro. Os corações despedaçam-se a essa visão, mas piedade não lhes serve para nada. Excessivas quanto à doutrina, as palavras de Ibn Jobair reflectem bem a atitude desses milhares de refugiados da Palestina e da Síria do Norte, reunidos em Damasco, nesse mês de Julho de 1099. Pois, se foi com consternação que deixaram as suas casas, eles se determinam a não voltar antes da partida definitiva do ocupante e decididos a despertar a consciência dos seus irmãos nas regiões do Islão. Senão, por que teriam vindo a Bagdade, conduzidos por al-Harawi? Nao é para o califa, o sucessor do Profeta, que se devem voltar os muçulmanos nas horas difíceis? Não é para o príncipe dos crentes que devem elevar as suas queixas e lamentações?» In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições70/JDACT

O Rochedo de Tanios. Amin Maalouf. «Nesse tempo, o céu era tão baixo que nenhum homem ousava levantar-se a toda a sua altura. No entanto, havia a vida, havia desejos e festas. E se nunca se esperava o melhor neste mundo…»

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«(…) Há três que citarei amiúde. Dois que provêem de personagens que conheceram Tanios de perto. E um terceiro mais recente. O seu autor é um religioso que morre no dia seguinte à I Guerra Mundial, o monge Elias de Kfaryabda, é o nome da minha aldeia, penso que ainda o não mencionei. A sua obra intitula-se da seguinte maneira: Crónica da Montanha ou a História da aldeia de Kfaryabda dos lugarejos e das quintas que dela dependem dos monumentos que aí se levantam dos costumes que aí se observam das pessoas notáveis que aí viveram e dos acontecimentos que aí se desenrolaram com a permissão do Altíssimo. Um livro estranho, desigual, desanimador. Em algumas páginas o tom é pessoal, a pena aquece e liberta-se, deixamo-nos levar por alguns voos, por alguns desvios audaciosos, e cremos estar na presença de um verdadeiro escritor. E depois repentinamente, como se temesse ter pecado por orgulho, o monge retracta-se, o seu tom baixa, inclina-se, como que para fazer penitência, sobre o seu papel de piedoso compilador, e acumula as alusões aos autores do passado e aos notáveis do seu tempo, de preferência em verso, esses versos árabes do tempo da Decadência, empestados de imagens convencionais e frios sentimentos.
Só me apercebi disso depois de ter terminado, pela segunda vez, de ler essas mil páginas, novecentas e noventa e sete, muito exactamente, desde o preâmbulo ao verso final, que diz tu que lerás o meu livro, mostra-te indulgente.... De início, quando tive entre as mãos essa obra de capa verde ornada simplesmente com um grande losango negro, e a abri pela primeira vez, não vi senão essa escrita apertada, sem vírgulas nem pontos, e também sem parágrafos, bando de carneiros caligráficos fechados nas suas margens, tal como uma tela no seu quadro, tendo de vez em quando uma palavra solta para recordar a página anterior ou anunciar a seguinte. Hesitando ainda em me enfronhar numa leitura que ameaçava ser repugnante, folheava o monstro com a ponta dos dedos, com a ponta dos olhos, quando se destacaram diante de mim estas linhas, que recopiei imediatamente e mais tarde traduzi e pontuei: de quatro de Novembro de 1840, data do enigmático desaparecimento de Tanios-kichk... No entanto ele tinha tudo, tudo o que um homem pode esperar da vida. O seu passado tinha-se desenrolado, o caminho do futuro tinha-se aplanado. Não pôde ter abandonado a aldeia de sua própria vontade. Ninguém pode duvidar de que há uma maldição no rochedo que tem o seu nome. De repente as mil páginas deixaram de me parecer opacas. Passei a olhar esse manuscrito de uma maneira completamente diferente. Como um guia, um companheiro. Ou talvez como uma montada. A minha viagem podia começar.

Nesse tempo, o céu era tão baixo que nenhum homem ousava levantar-se a toda a sua altura. No entanto, havia a vida, havia desejos e festas. E se nunca se esperava o melhor neste mundo, esperava-se todos os dias escapar ao pior. A aldeia inteira pertencia então a um único senhor feudal. Era o herdeiro de uma longa linha de xeques, mas quando hoje se fala da época do xeque sem mais qualquer outra precisão, ninguém se engana, trata-se daquele à sombra do qual viveu Lamia. Não era, longe disso, uma das personagens mais poderosas do país. Entre a planície oriental e o mar, havia dezenas de domínios mais vastos do que o seu. Ele apenas possuía Kfaryabda e algumas quintas em redor, deveria ter sob a sua autoridade uns trezentos lares, pouco mais. Acima dele e dos seus pares, havia o emir da Montanha, e acima do emir os paxás de província, os de Tripoli, de Damas, de Saïda ou de Acre. E ainda mais alto, muito mais alto, na vizinhança do Céu, havia o sultão de Istambul. Mas as pessoas da minha aldeia não olhavam para tão alto. Para eles, o seu xeque já era uma personagem considerável». In Amin Maalouf, O Rochedo de Tanios, 1993, tradução de Maria Sarmento, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-885-6.

Cortesia Difel/JDACT

Escalas do Levante. Amin Maalouf. «O homem estava perturbado. Melancólico, desvairado, como que aturdido. Já aniquilado. Alimentara grandes sonhos para o Império, sonhos de progresso, de grandeza recuperada»

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«(…) O que é que o levou a essa atitude? É difícil dizer. Mas é verdade que ele conheceu, nos seus primeiros anos, certas circunstâncias que podem ter alimentado o seu rancor... - Suponho que vinha de um meio desfavorecido... Pobre, quer o senhor dizer? Aí, engana-se, meu jovem amigo, engana-se completamente. A nossa família... Ao pronunciar estas palavras, baixou os olhos, como envergonhado. Mas acho que ele queria antes dissimular o seu orgulho. Sim, voltando hoje a pensar nisso, estou persuadido, era do seu orgulho que tinha vergonha quando me disse: venho de uma família que durante muito tempo governou o Oriente.
Nesse dia, falámos, falámos até alta noite. Primeiro no café; depois num passeio pela cidade iluminada; finalmente à noite, sentados à mesa de uma cervejaria, na Praça da Bastilha. Em que preciso momento tive eu a ideia de o fazer contar toda a sua vida, de ponta a ponta? Desde as primeiras palavras que trocámos, parece-me, fiquei seduzido por aquela maneira que ele tinha de evocar certos episódios, em meu entender notáveis, dando a impressão de querer desculpar-se. Essa modéstia não fingida era-me extremamente simpática. Tal como o era a fragilidade que transparecia em cada um dos seus sorrisos; e também no seu olhar, que mendigava a minha aprovação e se inquietava com os meus raros gestos de cansaço; tal como nas suas mãos que continuamente volteavam, rodopiavam, ou então entrelaçavam-se uma na outra, mãos compridas e lisas que se adivinhava nunca terem trabalhado, e que ele nem sempre sabia para que poderiam servir-lhe. Seria fastidioso dizer como obtive a sua concordância. Fastidioso e enganador, porque hoje sei que se ele aceitou prestar-se ao jogo, foi por uma razão que nada tem a ver com os meus argumentos ou as minhas habilidades.
Explico-me: essa famosa coisa que ele tinha que esperar quatro dias, e sobre a qual eu não ousara interrogá-lo, atormentava-o sem parar; não queria pensar nela, e ao mesmo tempo sentia-se incapaz de pensar noutra coisa. Fora esse medo de se encontrar a sós consigo mesmo, que, mais do que a nostalgia, o levara a percorrer assim as ruas consagradas aos heróis da Resistência. O encontro comigo oferecia-lhe um derivativo mais eficaz ainda. Eu ia ocupá-lo inteiramente ao longo desses dias de espera, sacudi-lo, fazer-lhe cócegas, inquietá-lo, obrigando-o a reviver hora a hora o seu passado, em vez de ruminar o futuro.
Deambulou em silêncio durante dois longos minutos. Depois respondeu com uma pergunta. Tem a certeza de que a vida de um homem começa com o nascimento? Não esperava resposta. Era simplesmente uma maneira de introduzir o seu relato. Deixei-lhe por isso a palavra, prometendo a mim mesmo intervir o menos possível. A minha vida começou, disse, meio século antes do meu nascimento, num quarto que nunca visitei, nas margens do Bósforo. Aconteceu um drama, soou um grito, propagou-se uma onda de loucura que se não interromperia nunca mais. De modo que quando eu vim ao mundo, a minha vida estava já largamente iniciada. Istambul tinha conhecido certos acontecimentos. Graves para os contemporâneos; irrisórios aos nossos olhos. Um monarca caiu, substituído pelo sobrinho. Meu pai falou-me disso umas vinte vezes, citando-me nomes, datas... Eu esqueci tudo, ou quase. Pouco importa, de resto. Para a minha própria história, só esse grito, esse urro lançado por uma jovem mulher naquele dia, conserva alguma importância.
O soberano derrubado foi colocado com residência fixa nos arredores da capital. Proibido de sair, proibido de receber visitas, salvo prévia autorização. Separado dos seus, com excepção de quatro criados. O homem estava perturbado. Melancólico, desvairado, como que aturdido. Já aniquilado. Alimentara grandes sonhos para o Império, sonhos de progresso, de grandeza recuperada; julgava-se amado por todos, não compreendia aquele silêncio que o rodeava. Repisava as suas amarguras: não soubera escolher os seus próximos, todos eles o tinham aconselhado mal, tinham abusado das suas liberalidades; sim, todos o tinham traído!» In Amin Maalouf, Escalas do Levante, Difel 82, Algés, 1997, ISBN 972-290-355-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Samarcanda. Amir Maalouf. «Não queremos mais nenhum filassuf em Samarcanda! Ouve-se um murmúrio de aprovação entre a multidão. Para esta gente, o termo filósofo designa qualquer pessoa que se interesse demasiado pelas ciências»

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Poetas e Amantes
«(…) Na praça dos mercadores de fumo, uma mulher grávida aborda Khayyam. De véu arregaçado, não aparenta ter mais de quinze anos. Sem uma palavra, sem um sorriso nos lábios ingénuos, rouba-lhe das mãos um punhado de amêndoas torradas que ele acabara de comprar. O passeante não se admira, é uma crença antiga de Samarcanda: quando uma futura mãe encontra na rua um forasteiro que lhe agrada, ela deve ousar partilhar da sua comida, pois assim a criança será tão bela como ele, com a mesma silhueta esguia, os mesmos traços nobres e regulares. O mar atarda-se a mastigar altivamente as amêndoas restantes, vendo a desconhecida a afastar-se, quando um clamor chega até ele, incitando-o a apressar-se. Dá consigo rapidamente no meio de uma multidão enfurecida. Um velho de longos membros esqueléticos já está no chão, de cabeça descoberta, cabelos brancos esparsos sobre um crânio curtido; de raiva, de pavor, os seus gritos já não são mais do que um prolongado soluço. Os seus olhos suplicam ao recém-chegado.
À volta do desgraçado, cerca de vinte indivíduos, de barbas erguidas, cacetes vingadores, e, à distância, um círculo de espectadores divertidos. Um deles, apercebendo-se da expressão escandalizada de Khayyam, lança-lhe no mais tranquilizador dos tons: não é nada, é apenas Jabel o Longo!, Omar estremece, um arrepio de vergonha trespassa-lhe a garganta, e murmura: Jaber, o companheiro de Abu Ali! Um nome dos mais comuns, Abu Ali. Mas, quando um homem letrado, em Bucara, Córdova, Balkh ou Bagdade, o menciona assim num tom de familiar deferência, não há confusão possível quanto ao personagem: trata-se de Abu Ali Ibn Sina, célebre no Ocidente sob o nome de Avicena. Omar não o conheceu, pois nasceu onze anos após a sua morte, mas venera-o como o mestre indiscutível da sua geração, o detentor de todas as ciências, o apóstolo da Razão.
Khayyam murmura de novo: Jaber, o discípulo preferido de Abu Ali!, Pois, ainda que esteja a vê-lo pela primeira vez, nada ignora do seu destino aflitivo e exemplar. Avicena via nele o continuador da sua medicina e da sua metafísica, admirava-lhe a força dos argumentos; censurava-o apenas pelo facto de ele professar demasiado alto e demasiado brutalmente as suas ideias. Este defeito valera a Jaber várias permanências na prisão e três flagelações públicas, a última na Praça Grande de Samarcanda, cento e cinquenta vergastadas na presença de todos os seus íntimos. Ele nunca se recompusera desta humilhação. Em que momento descambara da temeridade para a demência? Sem dúvida por ocasião da morte da mulher. Desde então, foi visto a vaguear em andrajos, titubeando, vociferando insanidades ímpias. Atrás dele, ranchos de miúdos na risota batiam as mãos, atiravam-lhe pedras aguçadas que o feriam até às lágrimas. Enquanto observa a cena, Omar não consegue deixar de pensar: se não tiver cuidado, um dia serei aquele farrapo. Não é tanto a embriaguez que ele receia; sabe que não se lhe entregará, ele e o vinho aprenderam a respeitar-se, nunca um dos dois derramaria o outro no chão. O que teme acima de tudo é a turba, e que ela destrua em si o muro da respeitabilidade. Sente-se ameaçado pelo espectáculo deste homem aviltado, avassalado, gostaria de se desviar, de se afastar. Mas sabe que não abandonará à multidão um companheiro de Avicena. Dá três passos lentos e dignos, adopta a postura mais desprendida, para dizer numa voz firme, acompanhada de um gesto soberano: deixai partir esse desgraçado!
O líder do bando está debruçado sobre Jaber; endireita-se, vem colocar-se pesadamente diante do intruso. Atravessa-lhe a barba uma profunda cicatriz, da orelha direita até à ponta do queixo, e é este lado, este lado marcado, que ele vira para o seu interlocutor, proferindo como uma sentença: este homem é um bêbado, um infiel, um filassuf! Silvou esta última palavra como um insulto. Não queremos mais nenhum filassuf em Samarcanda! Ouve-se um murmúrio de aprovação entre a multidão. Para esta gente, o termo filósofo designa qualquer pessoa que se interesse demasiado pelas ciências profanas dos gregos e, de modo geral, por tudo o que não é religião ou literatura. Apesar da sua juventude, Omar Khayyam é já um eminente flassuf, uma caça muito mais grossa do que o infeliz Jaber. O homem da cicatriz não deve tê-lo reconhecido, pois afasta-se dele, debruça-se de novo sobre o ancião, agora mudo, agarra-o pelos cabelos, sacode-lhe a cabeça três, quatro vezes, parecendo querer despedaçá-la contra a parede mais próxima, e depois desiste repentinamente. Embora brutal, o gesto fica suspenso, como se o homem, ainda que mostrando a sua determinação, hesitasse em ir até ao homicídio. Khayyam escolhe este momento para se intrometer outra vez. Larga o velho, é um viúvo, um doente, um alienado, não vês que mal consegue mexer os lábios? O líder reergue-se de um salto, avança para Khayyam, aponta-lhe o dedo até lhe rocar na barba: tu, que pareces conhecê-lo tão bem, quem és afinal? Não és de Samarcanda! Nunca ninguém te viu nesta cidade! Omar afasta a mão do seu interlocutor, com condescendência mas sem brusquidão, para manter o respeito sem lhe dar o pretexto de uma zaragata. O homem recua um passo, mas insiste: qual é o teu nome, estrangeiro? Khayyam hesita em revelar-se, procura um subterfúgio, ergue os olhos para o céu, onde uma nuvem ténue acaba de velar o crescente de lua. Um silêncio, um suspiro. Perder-se na contemplação, nomear uma a uma as estrelas, estar longe, ao abrigo das multidões! Já o bando o cerca, e algumas mãos o roçam, quando ele volta a cair em si. Sou Omar, filho de Ibraim de Nichapur. E tu, quem és?» In Amir Masalouf, Samarcanda, 1988, tradução de Paula Caetano, Editorial Presença, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-102-5.

Cortesia de EPresença/MarcadorE/JDACT

quarta-feira, 2 de março de 2016

Samarcanda. Amir Maalouf. «Omar Khayyam tem vinte e quatro anos, está desde há pouco em Samarcanda. Dirige-se à taberna, nesse entardecer, ou terá sido levado até ali por um passeio ao acaso?»

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«E agora passeia o teu olhar por Samarcanda! Não é a rainha da Terra? Altiva, acima de todas as cidades, e com os seus destinos nas suas mãos?» In Edgar Allan Poe (1809-l849)

«No fundo do Atlântico, há um livro. É a sua história que vou contar. Talvez lhe conheçais o desenlace; os jornais relataram-no na época, algumas obras mencionaram-no desde então: quando o Titanic se afundou, na noite de 14 para 15 de Abril de 1912, ao largo da Terra Nova, a mais prestigiosa das vítimas era um livro, um exemplar único de Robaïyal, de Omar Khayyam, sábio persa, poeta, astrónomo. Deste naufrágio pouco falarei. Outros que não eu pesaram a desgraça em dólares, outros que não eu recensearam devidamente cadáveres e derradeiras palavras. Seis anos depois, ainda só me obsidia esse ser de carne e de tinta do qual fui, por momentos, indigno depositário. Não fui eu, Benjamin Lesage, que o arranquei à sua Ásia natal? Não foi nas minhas bagagens que ele embarcou no Titanic? E o seu percurso milenário, quem o interrompeu senão a arrogância do meu século? Desde então, o mundo cobriu-se de sangue e de sombra, cada dia mais, e a mim nunca mais a vida me sorriu. Tive de me afastar dos homens para escutar apenas as vozes da recordação e acalentar uma ingénua esperança, uma visão insistente: amanhã, hão de encontrá-lo. Protegido pelo seu estojo de ouro, emergirá intacto das opacidades marinhas, com o destino enriquecido por uma nova odisseia. Dedos poderão aflorá-lo, abri-lo, engolfar-se nele; olhos cativos seguirão de margem a margem a crónica da sua aventura, descobrirão o poeta, os seus primeiros versos, os seus primeiros inebriamentos, os seus primeiros terrores. E a seita dos Assassinos. Depois, quedar-se-ão, incrédulos, diante de uma pintura cor de areia e verde-esmeralda. Ela não traz data nem assinatura, nada a não ser estas palavras, fervorosas ou desiludidas: Samarcanda, a mais bela face que a Terra alguma vez virou para o Sol.

Poetas e amantes
«Que homem nunca transgrediu a Tua Lei? Diz-me! Uma vida sem pecado, que gosto tem? Diz-me! Se punes com o mal o mal que eu fiz, qual é a diferença entre Tu e eu? Diz-me?» In Omar Khayyam
«Por vezes, em Samarcanda, ao entardecer de um dia lento e monótono, citadinos ociosos vêm rondar no beco sem saída das duas tabernas, perto do mercado das pimentas, não para provar o vinho almiscarado da Sogdiana, mas para espiar idas e vindas, ou atacar algum bebedor toldado. O homem é então arrastado na poeira, cumulado de insultos, condenado a um inferno cujo fogo lhe lembrará até ao fim dos séculos o avermelhado do vinho tentador. É de um tal incidente que irá nascer o manuscrito dos Robaïyat, no Verão de 1072. Omar Khayyam tem vinte e quatro anos, está desde há pouco em Samarcanda. Dirige-se à taberna, nesse entardecer, ou terá sido levado até ali por um passeio ao acaso? O prazer fresco de calcorrear uma cidade desconhecida, de olhos atentos às mil pinceladas do dia declinante: na rua do Campo de Ruibarbo, um rapazinho desembesta, de pés descalços sobre as largas pedras da calçada, apertando contra o pescoço uma maçã roubada nalgum expositor; no bazar dos mercadores de tecidos, dentro de uma barraca sobrelevada, ainda se disputa à luz de uma lamparina de azeite uma partida de nard, dois dados lançados, uma praga, um riso abafado; na arcada dos cordoeiros, um almocreve detém-se junto de uma fonte, deixa correr a água fresca na concha das palmas das mãos unidas, e depois debruça-se, de lábios estendidos, como que para beijar a testa de uma criança adormecida; depois de matar a sede, passa as palmas das mãos molhadas pelo rosto, resmoneia um agradecimento, apanha uma melancia vazada, enche-a de água, leva-a ao animal, para que também ele possa beber». In Amir Masalouf, Samarcanda, 1988, tradução de Paula Caetano, Editorial Presença, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-102-5.

Cortesia de EPresença/MarcadorE/JDACT