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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Virou o rosto para Milagros e viu-a andar erguida, arrogante, atenta a tudo e a todos. Como corresponde a uma cigana de raça, reconheceu então, sem poder evitar um esgar de satisfação. Como não iam reparar na sua menina?»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748
«(…) Em Triana todos sabem que sou sua neta. Riu. Os dentes brancos contrastaram com a tez escura, igual à de sua mãe, igual à de seu avô. Quem se atreveria? A luxúria é cega e ousada, menina. São muitos os que arriscariam a vida para ter-te. Eu só poderia vingar-te, e não haveria sangue suficiente com que remediar essa dor. Lembra-o sempre, acrescentou dirigindo-se à mãe. Sim, pai, respondeu esta. Ambas esperaram uma palavra de despedida, um gesto, um sinal, mas o cigano, hierático na sua esquina, não acrescentou nada mais. Ao final, Ana tomou a filha pelo braço e deixaram a casa. Era uma manhã fria. O céu estava fechado e ameaçava chuva, o que não parecia ser impedimento para que as pessoas de Triana se dirigissem à igreja de São Jacinto para celebrar a bênção das candeias. Também eram muitos os sevilhanos que queriam juntar-se à cerimónia e, com os seus círios às costas, cruzavam a ponte ou venciam o Guadalquivir a bordo de algum dos mais de vinte barcos dedicados a levar gente de uma margem à outra. A multidão prometia um dia proveitoso, pensou Ana antes de recordar os temores de seu pai. Virou o rosto para Milagros e viu-a andar erguida, arrogante, atenta a tudo e a todos. Como corresponde a uma cigana de raça, reconheceu então, sem poder evitar um esgar de satisfação. Como não iam reparar na sua menina? Seu abundante cabelo castanho caía-lhe pelas costas até misturar-se com as longas franjas verdes do lenço que levava sobre os ombros. Aqui e ali, entre o cabelo, uma fita colorida ou uma pérola; grandes brincos de prata pendiam das suas orelhas, e colares de contas ou de prata saltavam sobre os seus peitos jovens, presos no amplo e atrevido decote da camisa branca. A saia azul cingia-se à sua delicada cintura e chegava quase até ao chão, sobre o qual apareciam e desapareciam seus pés descalços. Um homem a olhou de soslaio. Milagros percebeu-o no mesmo instante, felina, e virou o rosto para ele; as cinzeladas feições da moça se suavizaram, e as suas bastas sobrancelhas pareceram arquear-se num sorriso. Começamos o dia, disse a mãe.
Leio-te a sorte, rapagão? O homem, forte, fez menção de seguir o seu caminho, mas Milagros lhe sorriu abertamente e se aproximou dele, tanto que os seus peitos quase o roçaram. Vejo uma mulher que te deseja, acrescentou a cigana, olhando-o fixamente nos olhos. Ana chegou à altura de sua filha a tempo de ouvir suas últimas palavras. Uma mulher… Que mais podia desejar um indivíduo como aquele, grande e sadio, mas evidentemente só, que levava nas mãos uma pequena vela? O homem hesitou alguns segundos antes de fixar-se na outra cigana que se havia aproximado dele: mais velha, mas tão atraente e altiva como a moça. Não queres saber mais? Milagros recuperou a atenção do homem ao mesmo tempo que se aprofundava nuns olhos em que já havia percebido interesse. Tentou pegar sua mão. Tu também desejas essa mulher, não é verdade?
A cigana notou que sua presa começava a ceder. Mãe e filha, em silêncio, coincidiram: trabalho fácil, concluíram ambas. Um carácter acanhado, tímido, o homem havia tentado esconder o seu olhar, enfiado num corpanzil. Certamente havia alguma mulher, sempre havia. Só tinham de animá-lo, insistir em que vencesse essa vergonha que o reprimia. Milagros esteve brilhante, convincente: percorreu com o dedo as linhas da palma da mão do homem como se efectivamente lhe anunciassem o futuro daquele ingénuo. A sua mãe contemplava-a entre sentir-se orgulhosa e divertir-se. Obtiveram um par de quartos de cobre pelos seus conselhos. Depois Ana tentou vender-lhe algum charuto de contrabando. Pela metade do preço das tabacarias de Sevilha, ofereceu-lhe. Se não queres charutos, também tenho pó de tabaco, da melhor qualidade, limpo, sem terra. Tentou convencê-lo abrindo a mantilha com que se cobria para mostrar-lhe a mercadoria que levava escondida, mas o homem limitou-se a esboçar um sorriso bobo, como se mentalmente já estivesse cortejando aquela a que nunca se havia atrevido a dirigir a palavra.
Durante todo o dia, mãe e filha moveram-se entre a multidão que se deslocava do Altozano, pelos arredores do castelo da Inquisição (maldita) e da igreja de São Jacinto, ainda em construção sobre a antiga ermida da Candelária, lendo a sorte e vendendo tabaco, sempre atentas aos oficiais de justiça e às ciganas que furtavam os desprevenidos, muitas delas pertencentes à sua própria família. Ela e a sua filha não necessitavam correr esses riscos e não desejavam ver-se envolvidas em alguma das muitas altercações que se produziam quando flagravam alguma: o tabaco já lhes proporcionava ganhos suficientes». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Todos, quase sem excepção, ofereciam humildes habitações de um ou no máximo dois quartos, num dos quais, quando não estava no próprio pátio ou ruela…»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748
«(…) O bairro sevilhano de Triana ficava do outro lado do rio Guadalquivir, fora das muralhas da cidade. Comunicava-se com a cidade através de uma velha ponte muçulmana construída sobre dez barcaças ancoradas no leito do rio e unidas a duas grossas correntes de ferro e vários cabos estendidos de margem a margem. Aquele arrabalde, que havia sido baptizado como guarda de Sevilha pela função defensiva que sempre havia tido, alcançou a sua época de esplendor quando Sevilha monopolizava o comércio com as Índias; os problemas de navegação pelo rio aconselharam, em inícios do século, trasladar a Casa de Contratação a Cádiz e implicaram uma considerável diminuição da sua população e o abandono de numerosos edifícios. Os seus dez mil habitantes concentravam-se numa limitada superfície de forma alongada na margem direita do rio, que se atravessava no seu outro limite pela Cava, o antigo fosso que em épocas de guerra constituía a primeira defesa da cidade e que se inundava com as águas do Guadalquivir para converter o arrabalde numa ilha. Para além da Cava viam-se alguns esporádicos conventos, ermidas, casas e a extensa e fértil veiga trianeira.
Um desses conventos, na Cava Nueva, era o de Nossa Senhora de la Salud, de monjas mínimas, uma humilde congregação de religiosas dedicada à contemplação e à oração através do silêncio e da vida quaresmal. Atrás das Mínimas, para a rua de San Jacinto, no pequeno beco sem saída de San Miguel, apinhavam-se treze cortiços em que por sua vez se amontoavam cerca de vinte e cinco famílias. Vinte e uma delas eram ciganas, compostas por avós, filhos, tias, primos, sobrinhas, netos e um que era bisneto; as vinte e uma se dedicavam à forja. Existiam outras ferrarias no arrabalde de Triana, a maioria em mãos ciganas, as mesmas mãos que já na Índia ou nas montanhas da Arménia, séculos antes de emigrar para a Europa, haviam convertido o seu ofício em arte. No entanto, San Miguel era o centro nevrálgico da ferraria e da caldeiraria trianeiras. No beco se abriam os antigos cortiços construídos durante a época de esplendor do arrabalde no século XVI: alguns não eram mais que simples ruelas sem saída de míseras casinhas alinhadas e defrontadas de um ou dois andares; outros eram edifícios, amiúde intrincados, de dois e três andares dispostos ao redor de um pátio central, cujos andares superiores se abriam para ele através de corredores altos e grades de ferro forjado ou de madeira. Todos, quase sem excepção, ofereciam humildes habitações de um ou no máximo dois quartos, num dos quais, quando não estava no próprio pátio ou ruela como serviço comum a todos os vizinhos do cortiço, havia um pequeno nicho para cozinhar com carvão. As pias para lavar e as latrinas, se as havia, estavam colocadas no pátio, à disposição de todos eles.
À diferença dos outros cortiços sevilhanos ocupados durante o dia só pelas mulheres e pelas crianças que brincavam nos pátios, os dos ferreiros trianeiros estavam durante toda a jornada de trabalho, pois tinham instaladas suas fráguas no térreo. O constante repicar do martelo sobre a bigorna escapava de cada uma das ferrarias e se unia na rua numa estranha algaravia metálica; a fumaça do carvão das fráguas, que amiúde saía pelo pátio dos cortiços ou pelas mesmas portas daquelas modestas oficinas sem chaminé, era visível de qualquer ponto de Triana. E ao longo do beco, envoltos na algaravia e na fumaça, homens, mulheres e crianças iam e vinham, brincavam, riam, conversavam, gritavam ou discutiam. Contudo e apesar do tumulto, muitos deles emudeciam e se detinham com os sentimentos à flor da pele às portas dessas fráguas. Às vezes se distinguiam um pai que retinha o filho pelos ombros, ou um velho de olhos entrefechados, ou várias mulheres que reprimiam um passo de dança ao ouvir os sons do martinete: um canto triste acompanhado apenas pelo monótono bater do martelo a cujo ritmo se compassava; um canto próprio que lhes havia seguido em todos os tempos e lugares. Então, por obra dos quejíos dos ferreiros, o martelar se convertia numa maravilhosa sinfonia capaz de arrepiar os pelos.
Naquele 2 de Fevereiro de 1748, festa da Purificação de Nossa Senhora, os ciganos não trabalhavam nas suas ferrarias. Poucos deles iriam à igreja de São Jacinto e da Virgem da Candelária para benzer as velas com que iluminavam o seu lar, mas, apesar disso, tampouco queriam problemas com os piedosos vizinhos de Triana e menos ainda com sacerdotes, frades e inquisidores; tratava-se de um dia de folga obrigatório.
Guarda a moça dos desejos dos payos, advertiu uma voz rouca. As palavras, em caló, a língua cigana, ressoaram no pátio que dava para o beco. Mãe e filha detiveram os seus passos. Nenhuma delas mostrou surpresa, embora não soubessem de onde vinha a voz. Percorreram o pátio com o olhar até que Milagros distinguiu na penumbra de uma esquina o reflexo prateado da abotoadura da jaquetinha curta azul-celeste do seu avô. Achava-se de pé, erguido e parado, com o cenho franzido e o olhar perdido, como era habitual nele; havia falado sem deixar de morder um pequeno charuto apagado. A moça, de catorze esplendorosos anos, sorriu-lhe e girou com graça; sua longa saia azul e a sua anágua, seus lenços verdes revolutearam no ar entre o tilintar de vários colares que lhe pendiam do pescoço». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «… faziam movimentos bruscos com a cintura e brincavam com a sensualidade do corpo ao som da guitarra e do canto»

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«(…) Nessa mesma noite, a festa prolongou-se no beco de San Miguel. Como se fosse uma competição, cada uma das famílias de ferreiros empenhou-se em demonstrar os seus dotes a dançar e a cantar, a tocar guitarra, castanholas ou pandeiretas. Fizeram-no os Garcías, os Camachos, os Flores, os Reyes, os Carmonas, os Vargas e muitos mais dos vinte e um apelidos que habitavam o beco. Romances, sarabandas, chaconas, xácaras, fandangos, seguidilhas ou sarambeques, todos se ouviram e se dançaram à 1uz de uma fogueira alimentada pelas mulheres à medida que as horas passavam. À volta do fogo, sentados na primeira fila, estavam os ciganos que compunham o conselho de anciãos, encabeçados por Rafael García. um homem que teria cerca de sessenta anos, enxuto, sério e seco. a quem chamavam conde.
O vinho e o tabaco não faltaram. As mulheres contribuíram com alimentos que tinham levado de casa: pão, queijo, sardinhas e camarões, frango e lebre, avelãs, bolotas, marmelada e fruta. As festas eram um local de partilha; quando se cantava e dançava esqueciam-se as desavenças e as inimizades atávicas, e lá estavam os anciãos para o garantir. Os ciganos ferreiros de Triana não eram ricos. Continuavam a pertencer a esse povo que desde a época dos Reis Católicos sofria perseguições em Espanha: não podiam vestir as suas coloridas vestimentas nem falar a sua gíria, contrabandear, ler a sina ou comerciar com cavalgaduras. Estavam proibidos de cantar e dançar, nem sequer tinham autorização para viver em Triana ou trabalhar como ferreiros. Em várias ocasiões, os grémios gadjé de ferreiros sevilhanos tinham tentado que os impedissem de trabalhar nas suas forjas rudimentares, e as pragmáticas reais e as ordens tinham insistido nisso, mas em vão: os ferreiros ciganos garantiam o fornecimento de milhares de ferraduras imprescindíveis para as cavalgaduras que trabalhavam os campos do reino de Sevilha, por isso, continuaram a e fabricar e a vender os seus produtos aos mesmos ferreiros gadjé que pretendiam acabar com as suas actividades, mas que não podiam enfrentar a enorme procura.
Enquanto as crianças, quase nuas, tentavam emular os seus progenitores no fundo do beco, Ana e Milagros começaram uma alegre sarabanda com dois parentes da família de José, os Carmonas. Mãe e filha, uma ao lado da outra, a sorrir quando os seus olhares se cruzavam, faziam movimentos bruscos com a cintura e brincavam com a sensualidade do corpo ao som da guitarra e do canto. José, como tantos outros, olhava, acompanhava com palmas e animava-as. Em cada movimento de dança, como se de um desafio se tratasse, as mulheres incitavam os homens, provocavam-nos com os olhos propondo-lhes um romance impossível. Aproximavam- se e afastavam se, e giravam à sua volta ao ritmo impudico das ancas, ostentando os seios, exuberantes os da mãe, jovens os da filha. As duas dançavam direitas, levantando os braços sobre a cabeça ou agitando-os para os lados; os lenços que Milagros levava atados aos pulsos ganhavam vida no ar». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Diante das costas de Chipiona, junto a outras tartanas e charangas, prepararam-se para esperar a préamar e ventos propícios para superar a perigosa barra de Sanlúcar»

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«(…) Don Damián se dirigia à catedral de Santa Cruz, do outro lado da estreita língua de terra em que se assentava a cidade amuralhada fechando a baía. Antes de entrar numa rua, virou o rosto e entreviu a figura de Caridad à passagem da multidão: havia-se afastado até dar com as costas num muro onde permanecia parada, alheia ao mundo. Vai arrumar-se, disse-se forçando o passo e entrando na rua. Cádiz era uma cidade rica em que podiam encontrar-se comerciantes e mercadores de toda a Europa e onde o dinheiro corria aos montes. Era uma mulher livre e portanto tinha de aprender a viver em liberdade e trabalhar. Percorreu um longo trecho e, quando chegou a um ponto em que as obras da nova catedral, perto da de Santa Cruz, se divisavam com nitidez, parou. Em que ia a trabalhar aquela pobre desgraçada? Não sabia fazer nada, além de labutar numa plantação de tabaco, onde havia vivido desde os dez anos, quando, procedente do reino dos lucumis, no golfo da Guiné, os mercadores de escravos ingleses a haviam comprado por cinco míseras varas de tecido para revendê-la no ávido e necessitado mercado cubano. Assim havia contado o próprio don José Fidalgo ao capelão quando este se interessou pela razão por que a havia escolhido para a viagem. É forte e desejável, acrescentou o dono de veiga piscando-lhe um olho. E ao que parece já não é fértil, o que sempre é uma vantagem uma vez fora da plantação. Depois de dar à luz aquele menino tonto… Don José lhe havia explicado também que era viúvo e que tinha um filho graduado que havia estudado em Madrid, aonde se dirigia para viver seus últimos dias. Em Cuba possuía uma rentável plantação de tabaco numa veiga perto de Havana que ele mesmo trabalhava com a ajuda de uma vintena de escravos. A solidão, a velhice e a pressão dos açucareiros por obter terras para aquela florescente indústria o haviam levado a vender sua propriedade e voltar à pátria, mas a peste o atacou aos vinte dias de navegação e se encarniçou com sanha em sua natureza débil e doentia. A febre, os edemas, a pele manchada e as gengivas sangrantes levaram o médico a desenganar o paciente. Então, como era obrigatório nas naus do rei, o capitão d’ A Rainha ordenou ao escrivão que fosse ao camarote de don José para dar fé de suas últimas vontades. Concedo a liberdade à minha escrava Caridad, sussurrou o enfermo depois de ordenar um par de doações piedosas e de dispor da totalidade de seus bens em favor daquele filho com que não se reencontraria.
A mulher nem sequer chegou a curvar seus grossos lábios numa menção de satisfação ao saber que estava livre, recordou o sacerdote parado na rua. Não falava! Don Damián recordou seus esforços por ouvir Caridad entre as centenas de vozes que rezavam nas missas dominicais no convés, ou seus tímidos sussurros nas noites, antes de deitar-se, quando ele a obrigava a rezar. Em que ia trabalhar aquela mulher? O capelão era consciente de que quase todos os escravos que obtinham a liberdade terminavam trabalhando para seus antigos senhores por um mísero salário com que dificilmente chegavam a cobrir necessidades que antes, como escravos, tinham garantidas, ou então acabavam condenados a pedir esmola nas ruas, brigando com milhares de mendigos. E estes haviam nascido na Espanha, conheciam a terra e sua gente, alguns eram espertos e inteligentes. Como poderia mover-se Caridad numa cidade grande como Cádiz?
Suspirou e passou a mão repetidas vezes no queixo e no pouco cabelo que lhe restava. Depois deu meia-volta, resfolegou ao levantar de novo o baú e, com ele às costas, se preparou para desfazer o caminho andado. Que fazer agora?, perguntou-se. Podia… podia intermediar para que trabalhasse na fábrica de tabaco, disso, sim, ele sabia. É muito boa com as folhas; trata-as com carinho e delicadeza, como deve fazer-se, e sabe reconhecer as melhores e torcer bons charutos, havia-lhe dito don José, mas isso significaria pedir favores e que se soubesse que ele… Não podia arriscar-se a que Caridad contasse o que acontecera na embarcação. Nos galpões da fábrica trabalhavam cerca de duzentas charuteiras que não paravam de cochichar e criticar enquanto faziam os pequenos charutos gaditanos. Encontrou Caridad ainda colada ao muro, parada, desamparada. Um grupo de pirralhos zombava dela, diante da passividade das pessoas que continuavam entrando e saindo do porto. Don Damián se aproximou justo quando um dos garotos se preparava para atirar-lhe uma pedra. Parado!, gritou.
Um rapaz deteve seu braço; a jovem se descobriu e baixou o olhar. Caridad se afastou do grupo de sete passageiros que haviam embarcado na nau que ia remontar o rio Guadalquivir até Sevilha e, cansada, tentou acomodar-se entre o monte de volumes dispostos a bordo. A nau era uma tartana de um só mastro e bom porte que havia arribado a Cádiz com um carregamento do valioso óleo da veiga sevilhana. Da baía de Cádiz navegaram em cabotagem até Sanlúcar de Barrameda, onde se encontra a desembocadura do Guadalquivir. Diante das costas de Chipiona, junto a outras tartanas e charangas, prepararam-se para esperar a préamar e ventos propícios para superar a perigosa barra de Sanlúcar, os temíveis baixios que haviam convertido a zona num cemitério de embarcações. Só quando coincidiam todas as circunstâncias precisas para enfrentar a barra, os capitães se atreviam a isso. Depois remontariam o rio aproveitando o impulso da maré, que se deixava sentir até às cercanias de Sevilha. Deu-se o caso de naus que tiveram de esperar até cem dias para cruzar a barra, dizia um marinheiro que conversava com um passageiro luxuosamente ataviado, o qual de imediato desviou um olhar preocupado para Sanlúcar e suas espectaculares marismas, como se suplicasse que não tivesse a mesma sorte». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Rosalía de Castro. Poema. «Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros, ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros, lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso»


jdact e wikipedia 

«Hora tras hora, día tras día,
entre el cielo y la tierra que quedan
eternos vigías,
como torrente que se despeña
pasa la vida.

Devolvedle a la flor su perfume
después de marchita;
de las ondas que besan la playa
y que una tras otra besándola expiran
recoged los rumores, las quejas,
y en planchas de bronce grabad su armonía.

Tiempos que fueron, llantos y risas,
negros tormentos, dulces mentiras,
ay!, en dónde su rastro dejaron,
en dónde, alma mía?»




«Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros,
lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso,
de mí murmuran y exclaman:
ahí va la loca soñando
con la eterna primavera de la vida y de los campos,
y ya bien pronto, bien pronto, tendrá los cabellos canos,
y ve temblando, aterida, que cubre la escarcha el prado.

Hay canas en mi cabeza, hay en los prados escarcha,
mas yo prosigo soñando, pobre, incurable sonámbula,
con la eterna primavera de la vida que se apaga
y la perenne frescura de los campos y las almas,
aunque los unos se agostan y aunque las otras se abrasan.

Astros y fuentes y flores, no murmuréis de mis sueños,
sin ellos, ¿cómo admiraros ni cómo vivir sin ellos?»
 

Adios, rios; adios, fontes
«Adios, ríos; adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,

prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña do meu contento,

muíño dos castañares,
noites craras de luar,
campaniñas trimbadoras
da igrexiña do lugar,

amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adios, para sempre adios!

¡Adios gloria! ¡Adios contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conozo
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
deixo a veiga polo mar,
deixo, enfin, canto ben quero...
¡Quen pudera non deixar!...

Mais son probe e, ¡mal pecado!,
a miña terra n'é miña,
que hastra lle dan de prestado
a beira por que camiña
ó que naceu desdichado.

Téñovos, pois, que deixar,
hortiña que tanto amei,
fogueiriña do meu lar,
arboriños que prantei,
fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Adios Virxe da Asunción,
branca como un serafín;
lévovos no corazón:
Pedídelle a Dios por min,
miña Virxe da Asunción.

Xa se oien lonxe, moi lonxe,
as campanas do Pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa se oien lonxe, máis lonxe
Cada balada é un dolor;
voume soio, sin arrimo...
Miña terra, ¡adios!, ¡adios!

¡Adios tamén, queridiña!...
¡Adios por sempre quizais!...
Dígoche este adios chorando
desde a beiriña do mar.

Non me olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!,¡meu lar!»
Rosalía de Castro, in “Cantares Gallegos” (1863)
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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «À diferença dos demais passageiros, Caridad não presenciou a difícil manobra náutica que requeria três mudanças de rumo no estreito canal. Ao longo da desembocadura do Guadalquivir…»

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Porto de Cádis, 7 de Janeiro de 1748
«(…) À lembrança de Marcelo, humedeceram-se-lhe os olhos. Tenteou em sua trouxa em busca da pederneira, do fuzil e da isca para fazer fogo. Permitiriam que fumasse? Na plantação podia fazê-lo, era algo habitual. Havia chorado Marcelo durante a travessia. Até…, até havia sentido a tentação de lançar-se ao mar para pôr fim àquele constante sofrimento. Afasta-te daí, negra! Queres cair na água?, advertiu-lhe um dos marinheiros. E ela obedeceu e se separou da borda. Haveria tido coragem para jogar-se se não houvesse aparecido aquele marinheiro? Não quis pensar no assunto uma vez mais; em lugar disso, observou os homens da tartana: via-os nervosos. A preia mar havia começado, mas os ventos não a acompanhavam. Alguns fumavam. Bateu com destreza o fuzil sobre a pederneira, e a isca não tardou a acender-se. Onde encontraria as árvores com cuja casca e fungos fabricava a isca? Acendeu o charuto, aspirou profundamente e pensou que tampouco sabia onde poderia conseguir tabaco. A primeira passa tranquilizou sua mente. As duas seguintes conseguiram que seus músculos se relaxassem, e caiu numa tênue tontura. Negra, convidas-me a fumar? Um grumete estava acocorado diante dela, tinha o rosto sujo mas vivaz e agradável. Por alguns instantes Caridad se deixou embalar pelo sorriso com que o rapaz esperava sua resposta e só viu seus dentes brancos, iguais aos de Marcelo quando se lançava em seus braços. Havia tido outro filho, um mulato nascido do senhor, mas José o vendeu assim que deixou de necessitar dos cuidados do par de velhas que se ocupavam dos filhos das escravas enquanto estas trabalhavam. Todos seguiam o mesmo caminho: o senhor não queria manter negrinhos. Marcelo, seu segundo filho, concebido com um negro do moinho, havia sido diferente: um parto difícil; um menino com problemas. Ninguém o comprará, afirmou o senhor quando, já criado, se manifestaram sua falta de habilidade e suas deficiências. Consentiu-se que ficasse na fazenda como se fosse um simples cão, uma galinha ou algum dos porcos que criavam atrás da cabana. Morrerá, auguravam todos. Mas Caridad não permitiu que isso sucedesse, muitas foram as pauladas e chicotadas que levou quando a descobriam alimentando-o. Nós te damos de comer para que trabalhes, não para que cries um imbecil, repetia-lhe o capataz. Negra, convidas-me a fumar?, insistiu o grumete. Porque não?, perguntou-se Caridad. Era o mesmo sorriso de seu Marcelo. Ofereceu-lhe o charuto. Excelente! De onde tiraste esta maravilha?, exclamou o rapaz depois de prová-lo e tossir. de Cuba? Sim, ouviu-se dizer Caridad enquanto voltava a pegar o charuto e o levava aos lábios. Como te chamas? Caridad, respondeu ela entre uma nuvem de fumo. Gosto de teu chapéu. O rapaz se movia inquieto sobre as pernas. Esperava outra passa, que afinal chegou. Já sopra! O grito do capitão da tartana rompeu a quietude. Das demais naus se ouviram exclamações similares. Soprava vento do sul, suficiente para enfrentar a barra. O grumete lhe devolveu o charuto e correu para unir-se aos outros marinheiros. Obrigado, pretinha, disse-lhe apressadamente.
À diferença dos demais passageiros, Caridad não presenciou a difícil manobra náutica que requeria três mudanças de rumo no estreito canal. Ao longo da desembocadura do Guadalquivir, em terra ou nas barcaças que se achavam amarradas em suas margens, acenderam-se sinais luminosos para guiar as embarcações. Tampouco viveu a tensão com que todos enfrentaram a travessia: se o vento amainava e ficavam no meio de caminho, existiam muitas possibilidades de encalhar. Permaneceu sentada contra a borda, fumando, a desfrutar de um agradável formigueiro em todos os seus músculos e deixando que o tabaco nublasse os sentidos. No momento em que a tartana se introduziu no temível Canal dos Ingleses, com a torre de São Jacinto iluminando seu rumo a bombordo, Caridad começou a cantarolar ao compasso da lembrança de suas festas dominicais, quando, depois de celebrar a missa no engenho de açúcar mais próximo que dispunha de sacerdote, os escravos das diversas fazendas se reuniam no barracão da fazenda a que haviam ido com seus senhores. Ali os brancos lhes permitiam cantar e dançar, como se fossem crianças que necessitassem espairecer e esquecer a dureza de seus trabalhos. Mas a cada som e a cada passo de dança, quando falavam os tambores batás, a mãe de todos eles, o grande tambor iyá, o itótele, ou o menor, o okónkolo, os negros rendiam culto a seus deuses, disfarçados de virgens e santos cristãos, e recordavam com nostalgia as suas origens africanas». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

domingo, 7 de agosto de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «O rapaz deteve seu braço; a jovem se descobriu e baixou o olhar. Caridad se afastou do grupo de sete passageiros que haviam embarcado na nau que ia remontar o rio Guadalquivir até Sevilha»

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Porto de Cádis, 7 de Janeiro de 1748
«(…) José lhe havia explicado também que era viúvo e que tinha um filho licenciado que havia estudado em Madri, aonde se dirigia para viver seus últimos dias. Em Cuba possuía uma rentável plantação de tabaco numa veiga perto de Havana que ele mesmo trabalhava com a ajuda de uma vintena de escravos. A solidão, a velhice e a pressão dos açucareiros por obter terras para aquela florescente indústria o haviam levado a vender sua propriedade e voltar à pátria, mas a peste o atacou aos vinte dias de navegação e se encarniçou com sanha em sua natureza débil e doentia. A febre, os edemas, a pele manchada e as gengivas sangrantes levaram o médico a desenganar o paciente. Então, como era obrigatório nas naus do rei, o capitão do La Reina ordenou ao escrivão que fosse ao camarote de José para dar fé de suas últimas vontades. Concedo a liberdade à minha escrava Caridad, sussurrou o enfermo depois de ordenar um par de doações piedosas e de dispor da totalidade de seus bens em favor daquele filho com que não se reencontraria. A mulher nem sequer chegou a curvar seus grossos lábios numa menção de satisfação ao saber que estava livre, recordou o sacerdote parado na rua. Não falava! O padre Damián recordou seus esforços por ouvir Caridad entre as centenas de vozes que rezavam nas missas dominicais no convés, ou seus tímidos sussurros nas noites, antes de deitar-se, quando ele a obrigava a rezar. Em que ia trabalhar aquela mulher? O capelão era consciente de que quase todos os escravos que obtinham a liberdade terminavam trabalhando para seus antigos senhores por um mísero salário com que dificilmente chegavam a cobrir necessidades que antes, como escravos, tinham garantidas, ou então acabavam condenados a pedir esmola nas ruas, brigando com milhares de mendigos. E estes haviam nascido na Espanha, conheciam a terra e sua gente, alguns eram espertos e inteligentes. Como poderia mover-se Caridad numa cidade grande como Cádiz?
Suspirou e passou a mão repetidas vezes no queixo e no pouco cabelo que lhe restava. Depois deu meia-volta, resfolegou ao levantar de novo o baú e, com ele às costas, se preparou para desfazer o caminho andado. Que fazer agora?, perguntou-se. Podia…, podia intermediar para quetrabalhasse na fábrica de tabaco, disso, sim, ele sabia. É muito boa com as folhas; trata-as com carinho e delicadeza, como deve fazer-se, e sabe reconhecer as melhores e torcer bons charutos, havia-lhe dito José, mas isso significaria pedir favores e que se soubesse que ele… Não podia arriscar-se a que Caridad contasse o que acontecera na embarcação. Nos barracões da fábrica trabalhavam cerca de duzentas charuteiras que não paravam de cochichar e criticar enquanto faziam os pequenos charutos gaditanos. Encontrou Caridad ainda colada ao muro, parada, desamparada. Um grupo de pirralhos zombava dela, diante da passividade das pessoas que continuavam entrando e saindo do porto. O padre Damián se aproximou justo quando um dos garotos se preparava para atirar-lhe uma pedra. Quieto!, gritou. O rapaz deteve seu braço; a jovem se descobriu e baixou o olhar. Caridad se afastou do grupo de sete passageiros que haviam embarcado na nau que ia remontar o rio Guadalquivir até Sevilha e, cansada, tentou acomodar-se entre o monte de volumes dispostos a bordo. A nau era uma tartana de um só mastro, mas com um tamanho razoável, que havia arribado a Cádiz com um carregamento do valioso óleo da várzea sevilhana. Da baía de Cádiz navegaram em cabotagem até Sanlúcar de Barrameda, onde se encontra a desembocadura do Guadalquivir. Diante das costas de Chipiona, junto a outras tartanas e charangas, prepararam-se para esperar a preia-mar e ventos propícios para superar a perigosa barra de Sanlúcar, os temíveis baixios que haviam convertido a zona num cemitério de embarcações.
Só quando coincidiam todas as circunstâncias precisas para enfrentar a barra, os capitães se atreviam a isso. Depois remontariam o rio aproveitando o impulso da maré, que se deixava sentir até às cercanias de Sevilha. Deu-se o caso de naus que tiveram de esperar até cem dias para cruzar a barra, dizia um marinheiro que conversava com um passageiro luxuosamente ataviado, o qual de imediato desviou um olhar preocupado para Sanlúcar e suas espectaculares marismas, como se suplicasse que não tivesse a mesma sorte. Caridad, sentada entre uns sacos, contra a borda da embarcação, deixou-se levar pelo cabeceio da tartana. O mar mostrava uma calma tensa, a mesma que a que se apreciava em todos os que se achavam na nau, igual à que imperava nas demais embarcações. Não era tão somente a espera, era também o temor de um ataque por parte de ingleses ou corsários. O sol começou a declinar ao mesmo tempo que as águas adquiriam uma ameaçadora cor metálica, e as inquietas conversas de tripulantes e passageiros decaíram até reduzir-se a sussurros. A crueza do Inverno se desatou com o ocaso, e a humidade invadiu Caridad, aumentando a sensação de frio. Tinha fome e estava cansada. Estava com o casaco, tão cinza e desbotado como seu vestido, ambos de flanela grosseira, em contraste com os demais passageiros que haviam embarcado com ela e que exibiam a seu bel-prazer luxuosas roupas de cores vivas. Notou que lhe batiam os dentes e que estava com a pele arrepiada, de modo que buscou a manta na trouxa. Seus dedos roçaram um charuto, e ela o apalpou com delicadeza recordando seu aroma, seus efeitos. Necessitava dele, ansiava perder os sentidos, esquecer o cansaço, a fome…, e até sua liberdade. Enrolou-se na manta. Livre? O padre Damián a havia subido àquela embarcação, a primeira que havia encontrado preparada para partir do porto de Cádiz. Vai para Sevilha, para Triana, disse-lhe depois de acertar o preço com o capitão e pagá-lo de seu bolso. Uma vez ali, procura o convento das Mínimas e diz que está ali de minha parte. Caridad haveria gostado de ter a coragem de perguntar-lhe o que era Triana ou como encontraria aquele convento, mas ele quase a empurrou para que embarcasse, nervoso, olhandopara um lado e para outro, como se temesse que alguém os visse juntos. Cheirou o charuto, e sua fragrância a transportou a Cuba. Ela só sabia onde estavam sua cabana, e a plantação, e o moinho a que ia todo domingo com os demais escravos para ouvir missa e depois cantar e dançar até a extenuação. Da cabana à plantação e da plantação à cabana, um dia após outro, um mês após outro, um ano após outro. Como ia encontrar um convento? Encolheu-se contra a borda e pressionou as costas contra a madeira em busca do contacto com uma realidade que havia desaparecido. Quem eram aqueles estranhos? E Marcelo? Que haveria sido dele? Como estaria sua amiga María, a mulata com quem fazia os coros? E os demais? Que fazia de noite numa embarcação estranha, num país desconhecido, a caminho a uma cidade que nem sequer sabia que existia? Triana? Nunca havia ousado perguntar nada aos brancos. Ela sempre sabia o que tinha de fazer! Não necessitava perguntar». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia BertrandE/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Porque me sinto culpado?, perguntou-se enquanto parava momentaneamente para mudar o baú de mão. Podia ter abusado dela, desculpou-se, como sempre que a culpa o torturava»

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Porto de Cádis, 7 de Janeiro de 1748
«(…) Assim que dom José faleceu, cumpriu-se o ritual do funeral: foram rezados três responsos e o seu cadáver foi atirado borda fora, dentro de um saco e com duas moringas de água atadas aos pés. O capitão ordenou que se desmontasse o beliche e que o escrivão registasse os bens do defunto. Dom José era o único passageiro; Caridad, a única mulher a bordo. Reverendo, disse para o capelão depois de transmitir aquela ordem, fica responsável por manter a negra afastada da tripulação. Mas eu..., tentou protestar o padre Damián. Embora não seja sua, pode aproveitar a comida que o senhor Hidalgo embarcou e alimentá-la com ela, sentenciou o oficia1 depois de ignorar o protesto. O padre Damián manteve Caridad fechada no seu diminuto camarote, onde só havia lugar para a rede que pendurava de lado a lado e que durante o dia recolhia e enrolava. A mulher dormia no chão, a seus pés, debaixo da rede. Nas primeiras noites, o capelão refugiou-se na leitura dos livros sagrados, mas pouco a pouco os seus olhos foram seguindo os raios do candil que, como se tivessem vontade própria, pareciam desviar-se das folhas dos pesados tomos para iluminar a mulher deitada e encolhida tão perto dele.
Lutou contra as fantasias que o assaltavam perante a visão das pernas de Caridad quando se escapavam por debaixo da manta com que se tapava, dos seus seios, que subiam e desciam ao ritmo da sua respiração, das suas nádegas. E, no entanto, quase involuntariamente, começou e tocar-se. Talvez tenha sido por causa do ranger das tábuas onde se prendia a rede, ou pela tensão que se fora acumulando num espaço tão reduzido, a verdade é que Caridad abriu os olhos e toda a luz do candil se centrou neles. O padre Damián corou e ficou quieto por um instante, mas o seu desejo multiplicou-se perante o olhar de Caridad, o mesmo olhar inexpressivo com que agora recebia as suas palavras. Ouve o que te digo, Caridad, insistiu. Procura trabalho. O padre Damián pegou no baú, virou-lhe as costas e seguiu o seu caminho.
Porque me sinto culpado?, perguntou-se enquanto parava momentaneamente para mudar o baú de mão. Podia ter abusado dela, desculpou-se, como sempre que a culpa o torturava. Era apenas uma escrava. Talvez..., talvez nem sequer tivesse sido necessário recorrer à violência. Acaso não eram dissolutas todas aqueles escravas negras? Dom José, o seu amo, reconhecera-o em confissão: deitava-se com todas. Tive um filho com a Caridad, revelou-lhe. Talvez dois, mas não, julgo que não; o segundo, aquele rapaz desajeitado e tontinho, era tão escuro como ela. Está arrependido?, perguntou-lhe o sacerdote. De ter filhos com as negras? O cultivador de tabaco empertigou-se. Padre, vendia os crioulinhos num moinho próximo da propriedade dos padres. Nunca se preocuparam com a minha alma pecadora no momento de mos comprar.
O padre Damián dirigia-se para a catedral de Santa cruz, do outro lado da estreita língua de terra onde se erguera a cidade amuralhada fechando a baía. Antes de virar por uma rua, voltou-se e vislumbrou a figura de Caridad entre a multidão: tinha-se afastado e encostara-se contra um muro onde permanecia quieta, alheia ao mundo. Conseguirá sobreviver, disse para consigo acelerando o passo e contornado a rua. Cádis era uma cidade rica com comerciantes e mercadores de toda a Europa e onde o dinheiro fluía em abundância. Era uma mulher livre e, portanto, aprenderia a viver em liberdade e a trabalhar. Continuou a andar, e quando chegou e um ponto onde as obras da noca catedral, perto da de Santa Cruz, se avistavam com nitidez, parou. Em que ia trabalhar aquela pobre desgraçada? Não sabia fazer nada senão andar de um lado para o outro na plantação de tabaco onde vivera desde os dez anos quando, procedente do reino do povo lucumi, no golfo da Guiné, os assentistas de escravos ingleses a tinham comprado por quatro míseras varas de tecido para a revender no ávido e necessitado mercado cubano. Assim o tinha relatado o próprio dom José Hidalgo ao capelão quando este quis saber a razão de a ter escolhido para a viagem. É forte e desejável, acrescentou o cultivador de tabaco piscando-lhe o olho. E ao que parece já não é fértil, o que é sempre uma vantagem quando saem da plantação. Depois de dar à luz aquele menino tonto…» In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia Bertrand/JDACT

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nostalgia na Segunda. Poesia. A Voz de Brel. «… é já uma legenda da sua época e da sua geração. … e que na ressaca da contra-revolução silenciosa continuou a batalhar, não sem amargura…»

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Cancão com lágrimas
«Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera».

Capa negra rosa negra
«Capa negra, rosa negra
rosa negra sem roseira
abre-te bem nos meus ombros
como o vento na bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
vira as costas à saudade
capa negra rosa negra
bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar».

Pedro soldado
«Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada
triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Onde não andas ceifando
já o campo se fez verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada
triste vai Pedro Soldado.

Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado».
Poemas de Manuel Alegre in “Trovas do vento que passa

Em memória do amigo Fernando José († 4/4/1992). Que estejas em paz.
Abraça o Filomeno e o Mateus. Eu vou ficando por cá…


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT

sábado, 26 de março de 2016

Luís Augusto. Narrativa. JDACT. «Caminhamos sobre cinco leitos de rio largos, vastos, secos, passeamos por aldeias de oleiros tecelões e por Castelo Novo, abandonada em protesto contra um presidente ganancioso… As crianças dizem olá e olham para os meus sapatos»

Luís Augusto Ruivo de Carvalho
(1938-2016)
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Com a devida vénia a Fernando Ruivo de Carvalho

Simples história do Luís
«Nome completo, Luís Augusto Ruivo de Carvalho. Nasceu na Quinta da Murgeira, freguesia de Unhais da Serra concelho da Covilhã, em 6 de Novembro de 1938, foi registado como nascido na Soalheira, concelho do Fundão. Teve uma paralisia infantil cerca dos cinco anos e ficou um tanto deficiente de uma perna Apesar de muita assistência e várias idas à praia por indicação médica, ficou mesmo cocho da perna direita. Foi fazer a instrução primária a Alpedrinha. Ficou em casa do tio padre Augusto, irmão da sua mãe que nessa altura foi paroquiar esta paróquia no concelho do Fundão, a sul da serra da Gardunha. O Luís evidenciou uma inteligência bastante acentuada. O seu professor, de nome Maia, informou o tio padre Augusto das suas faculdades, pelo que fez a admissão ao liceu de Castelo Branco, que frequentou sempre com notas que o dispensavam de pagar propina. Completou o sétimo ano com notas tais que o dispensaram de admissão à Universidade. Quando fez o 6º e 7º anos, o pai para lhe facilitar a vida, pois ele queria dar explicações, arrendou uma casa em Castelo Branco, para onde foi a Maria do Rosário como responsável. A casa era espaçosa e para facilitar o pagamento da renda foram lá admitidas duas familiares, que andavam a estudar em Castelo Branco. Entrou no Instituto Superior Técnico no ano lectivo de 1957/1958.4 casa foi entregue e a Maria do Rosário foi para a Soalheira. Com a morte do pai, muito prematura, em 18 de Agosto de 1958 com apenas 57 anos, desorientou-se um pouco nos estudos. Transitou para a Faculdade de Ciências e ao mesmo tempo começou a trabalhar no Serviço Meteorológico Nacional como Previsor Meteorológico, mantendo-se a estudar. Completou o curso de Físico-Química. Com as reestruturações ocorridas (Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica; Instituto de Meteorologia) passou para a carreira de Meteorologista (Ruivo de Carvalho). Trabalhou inicialmente no Aeroporto de Lisboa, transitando posteriormente para o edifício Sede do Instituto e integrando o Centro Nacional de Previsão do Tempo. Vivendo sozinho em quarto alugado e depois na parte final numa casa que adquiriu no Pinhal Novo, mantendo-se sempre solteiro, o que preocupava muito a mãe. Ouvi-a um dia dizer, poucos dias antes de morrer: “aquele teu irmão Luís sozinho lá para Lisboa!”. Entretanto fez uma comissão de serviço na colónia da Guiné, como Director da Meteorologia. Finda esta, regressou ao Aeroporto, e depois transitou para o Centro Nacional de Previsão, onde se reformou mm cerca de setenta anos. Foi fazendo algumas viagens nos aviões da TAP, como prémio do serviço que lhes prestava. Uma dela foi a Moçambique, onde foi assistir ao casamento da filha mais relha da Elvira, a Maria José (Zezita). Já reformado, quando andara numa pequena propriedade que comprara perto do Pinhal Novo, foi surpreendido por um AVC. Não foi socorrido em tempo útil, mas entrou no hospital ainda com vida. Depois de entrar no hospital recuperou com dificuldade, ficando com problemas que o colocaram numa cadeira de rodas. Foi deslocado para a sua terra natal, Soalheira, concelho do Fundão, mantendo-se na casa que entretanto passara para propriedade do padre Augusto na Soalheira onde era assistido pela Maria do Rosário e pelo padre Augusto. Após a morte do padre Augusto, foram contratados os serviços da Santa Casa da Misericórdia da Soalheira para o assistir, o que fez e bem. durante uns anos. Com o enfraquecimento físico da Maria do Rosário e consequente internamento no Lar da Santa Casa da Misericórdia local, ficou só em casa, apenas com a continuação da assistência da Santa Casa. Acabou por ser internado no Lar onde estivera a Maria do Rosário, instalado num quarto individual. Não aceitou bem a mudança, mas não havia outra hipótese. Quando se escreve a sua simples história, Julho de 2015, está instalado no Lar da Santa Casa da Soalheira, com enfraquecimento bastante acentuado. No fim do ano de 2015, começaram a surgir problemas de próstata e foi diagnosticado um cancro na próstata. As idas ao hospital eram frequentes e a debilitação acentuava-se. Em 2016, as coisas continuaram a piorar e as idas ao hospital mais frequentes. Confirmou-se o adágio popular. "O cântaro tantas vezes vai à fonte, que um dia lá deixa a asa". No dia 23 de Março de 2016 [(Dia Meteorológico Mundial) JDACT], após regressar do hospital dá o ultimo suspiro no Lar da Santa Casa da Misericórdia da Soalheira, sua terra natal».
In Soalheira, 23 de Março de 2016. Seu irmão Fernando, que escreveu esta simples história com as lágrimas a correr pelo rosto, lhe presta esta última homenagem e com ela encerra a sua história. Até um dia!!

Luís, descansa no sono eterno. O teu amigo e colega

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «… ficavam o La Reina, o navio de duas pontes e com mais de setenta canhões, onde tinham navegado desde Havana, e as seis embarcações mercantes, que ele escoltara, com os porões repletos de produtos das Índias»

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«(…) Antes de falecer, continuou o padre Damián, como é costume nos navios de Sua Majestade, dom José fez o testamento e ordenou a libertação da sua escrava Caridad. Aqui tem a escritura de alforria que o escrivão da capitania outorgou. Caridad Hidalgo, escrevera o escrivão tomando o apelido do amo falecido, também conhecida como Cachita; escrava negra da cor do ébano, saudável e de forte constituição, de cabelo preto encrespado e de, aproximadamente, vinte e cinco anos. O que levas nesse saco?, perguntou o alcaide depois de ler os documentos que certificavam a liberdade de Caridad. A mulher abriu a trouxa e mostrou-lha. Uma velha manta e um casaco de baeta... Tudo o que possuía, a roupa que o amo lhe dera nas últimas estações: o casaco, no Inverno anterior; a manta, dois Invernos antes. Escondidos entre as peças de roupa levava vários charutos que tinha conseguido racionar no barco depois de os roubar a Dom José. E se os descobrem?, temeu. O alcaide fez menção de inspecionar a trouxa, mas ao ver as roupas velhas torceu o nariz. Olha para mim, negra, exigiu. O tremor que percorreu o corpo de Caridad tornou-se evidente para alguns dos que presenciavam a cena. Nunca tinha olhado para um homem branco quando se lhe dirigia. Está assustada, intercedeu o padre Damián. Eu disse para olhar para mim. Fá-lo, pediu-lhe o capelão. Caridad levantou o rosto arredondado, de lábios grossos e carnudos, nariz achatado e pequenos olhos castanhos que tentaram olhar para lá do alcaide, para a cidade. O homem franziu o sobrolho e procurou em vão o olhar fugidio da mulher. Próximo!, cedeu de repente, quebrando a tensão e provocando uma avalanche de marinheiros.
O padre Damián, com Caridad colada às suas costas, atravessou a Porta do Mar, uma passagem flanqueada por duas torres com ameias, e embrenhou-se na cidade. Para trás, no Trocadero, ficavam o La Reina, o navio de duas pontes e com mais de setenta canhões, onde tinham navegado desde Havana, e as seis embarcações mercantes, que ele escoltara, com os porões repletos de produtos das Índias: açúcar, tabaco, cacau, gengibre, salsaparrilha, anil, cochinilha, seda, pérolas, carapaças de tartaruga..., prata. A viagem tinha sido um sucesso e Cádis recebera-os tocando os sinos. Espanha encontrava-se em guerra com a Inglaterra; as Frotas das Índias, que até há alguns anos atravessavam o oceano fortemente vigiadas por barcos da armada real, tinham deixado de operar, e o comércio desenvolveu-se com os navios registados, embarcações mercantes particulares que conseguiam uma autorização real para a travessia. Por isso, a chegada das mercadorias e do tesouro, tão necessário para os cofres da fazenda espanhola, despertara na cidade um ambiente festivo que se vivia em todos os seus recantos.
Ao chegar à rua do Juego de Pelota, deixando para trás a igreja de Nuestra Señora del Pópulo e a Porta do Mar, o padre Damián afastou-se das hordas de marinheiros, soldados e mercadores, e parou. Que Deus te acompanhe e te proteja, Caridad, desejou-lhe virando-se para ela depois de largar o baú no chão. A mulher não respondeu. Tinha o chapéu de palha enfiado até às orelhas e o capelão foi incapaz de lhe ver os olhos, mas imaginou-os fixos no baú, ou nas suas sandálias, ou... Tenho coisas para fazer, percebes? Tentou desculpar-se. Procura algum trabalho. Esta é uma cidade muito rica. O padre Damián acompanhou as suas palavras estendendo a mão direita e tocando levemente no antebraço de Caridad; e foi ele quem baixou o olhar durante um segundo. Ao levantá-lo deparou-se com os pequenos olhos castanhos de Caridad cravados nele, como nas noites de travessia quando, após a morre do seu amo, se tinha responsabilizado pela escrava e a escondera da marinhagem por ordem do capitão. O seu estômago começou a dar voltas. Não lhe toquei, repetiu para consigo sem parar. Nunca lhe tinha posto um dedo em cima, mas Caridad tinha-o observado com olhos inexpressivos e... Ele não conseguira evitar masturbar-se por debaixo da roupa diante da visão daquela fêmea esplendorosa». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia Bertrand/JDACT

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Algum contratempo na viagem?. perguntou o oficial sem olhar para ele, sopesando uma pequena barra de tabaco. Algum encontro com naus inimigas ou alheias à frota?»

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«(…) Quer que a açoite, dom José?, perguntou o capataz enquanto voltava a agarrar Caridad por um braço. Não, decidiu depois de pensar. Não a quero levar molestada para Espanha. E aquele negro enorme, chamado Cecilio, soltou-a e arrastou a criança para a cabana após um gesto severo do capataz. Caridad caiu de joelhos e o seu pranto misturou-se com o da criança. Foi a última vez que viu o filho. Não a deixaram despedir-se dele, não lhe permitiram... Caridad! O que estás a fazer aí parada, mulher? Ao ouvir o seu nome voltou à realidade e entre o bulício reconheceu a voz do padre Damián, o velho capelão do La Reina, que também desembarcara. Deixou cair de imediato a sua trouxa, tirou o chapéu, baixou o olhar e fixou-o na puída peça de palha que começou a apertar entre as mãos. Não podes ficar no cais, continuou o sacerdote, que se aproximou dela e lhe pegou no braço. O contacto durou um instante; o religioso quebrou-o enverÍgonhado. Vamos, acompanha-me, instou lhe com certo nervosismo. Percorreram a distância que os separava da Porta do Mar: o padre Damián carregado com um pequeno baú, Caridad com a sua trouxa e o chapéu nas mãos e sem tirar os olhos das sandálias do capelão. Deixem passar um homem de Deus, pediu o sacerdote aos marinheiros que se aglomeravam em frente da porta. Pouco a pouco, a multidão foi-se afastando para lhe dar passagem. Caridad seguia-o, arrastando os pés descalços, negra como o ébano, cabisbaixa. A simples camisa comprida e acinzentada que lhe servia de vestido, de pano grosseiro e áspero, não conseguia esconder uma mulher forte e bem constituída, tão alta como alguns dos marinheiros que levantaram o olhar para se fixar no seu espesso cabelo preto encrespado, enquanto outros o perdiam nos seus seios, grandes e firmes, ou nas suas voluptuosas ancas. O capelão, sempre a andar, limitou-se a levantar uma mão quando ouviu assobios, comentários desavergonhados e um ou outro convite atrevido.
Sou o padre Damián García, capelão do navio de guerra La Reina, da armada de Sua Majestade, apresentou-se o sacerdote estendendo os seus papéis a um dos alcaides depois de ter ultrapassado a marinhagem. O alcaide passou os olhos pelos documentos. Vossa Paternidade permite-me que inspeccione o baú? Bens pessoais..., respondeu o sacerdote enquanto o abria. As mercadorias encontram-se devidamente registadas nos documentos. O alcaide assentiu enquanto remexia no interior do baú. Algum contratempo na viagem?. perguntou o oficial sem olhar para ele, sopesando uma pequena barra de tabaco. Algum encontro com naus inimigas ou alheias à frota? Nenhum. Tudo como estava previsto. O alcaide assentiu. A sua escrava?, inquiriu apontando para Caridad depois de dar por concluída a inspecção. Não consta dos papéis. Ela? Não. É uma mulher livre. Não parece, afirmou o alcaide colocando-se à frente de Caridad, que se agarrou ainda mais à sua trouxa e ao seu chapéu de palha.
Olha para mim, negra!, resmungou o oficial. O que escondes? Alguns dos oficiais que inspecionavam a marinhagem interromperam o trabalho e viraram-se para o alcaide e para a mulher que permanecia cabisbaixa à frente dele. Os marinheiros que lhes tinham dado passagem aproximaram-se. Nada. Não esconde nada, replicou o padre Damián. Cale-se, padre. Todos os que não se atrevam a olhar para um alcaide nos olhos escondem algo.O que esta desgraçada há de ocultar?, insistiu o sacerdote. Caridad, dá-lhe os teus papéis. A mulher revolveu a trouxa em busca dos documentos que o escrivão do barco lhe entregara enquanto o padre Damián continuava a falar. Embarcou em Havana com o seu amo, dom José Hidalgo, que pretendia regressar à sua terra antes de morrer e que faleceu durante a travessia, que Deus o tenha na sua glória. Caridad entregou ao alcaide os seus documentos amachucados». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia Bertrand/JDACT

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Uma viagem a uma época apaixonante, marcada pelo preconceito e pela intolerância. De Sevilha a Madrid, desde o tumultuoso bulício dos ciganos até aos teatros senhoriais da capital…»

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Porto de Cádis, 7 de Janeiro de 1748
«Caridad hesitou no momento em que ia pôr o pé no cais de Cádis. Encontrava-se mesmo no fim da passarela da barcaça que os tinha desembarcado do La Reina, o navio da armada com valores que tinha acompanhado os seis navios mercantes registados com mercadorias preciosas desde o outro lado do oceano. A mulher levantou o olhar para o sol de inverno que iluminava o bulício e a agitação que se vivia no porto: estavam a descarregar um dos navios mercantes que viajara com eles desde Havana. O sol entrou pelas fendas do seu puído chapéu de palha e ofuscou-a. O alvoroço sobressaltou-a e encolheu-se assustada, como se os gritos fossem contra ela. Não fiques aí parada, pretinha!, disse-lhe o marinheiro que a seguia enquanto a ultrapassava sem cerimónia. Caridad desequilibrou-se e quase caiu à água. Outro homem que vinha atrás parecia disposto a ultrapassá-la, mas a mulher saltou desajeitadamente para o cais, afastou-se e parou de novo enquanto parte da marinhagem continuava a desembarcar entre risos, piadas e todo o tipo de apostas indecentes sobre a fêmea que os faria esquecer a longa travessia do oceano. Aproveita a tua liberdade, negra!, gritou outro homem quando passou perto dela, ao mesmo tempo que se permitia dar-lhe uma palmada surda nas nádegas. Alguns dos seus companheiros riram-se. Caridad nem se mexeu. Tinha o olhar fixo no rabo de cavalo comprido e sujo que, a dançar nas costas do marinheiro e a roçar a sua camisa esfarrapada ao ritmo de um andar irregular, se afastava em direcção à Porta do Mar.
Livre?, atreveu-se a perguntar-se. Que liberdade? Olhou para lá do cais, para as muralhas, onde a Porta do Mar dava acesso à cidade: grande parte dos mais de quinhentos homens que compunham a tripulação do La Reina iam-se amontoando em frente da entrada, onde um exército de funcionários, alcaides, cabos e fiscais, os inspeccionava à procura de mercadorias proibidas e os interrogava sobre a derrota das naus, caso alguma se tivesse desviado do comboio e da sua rota para contrabandear e burlar as finanças reais. Os homens esperavam impacientes que os trâmites rotineiros se cumprissem; os que estavam mais afastados dos funcionários, protegidos pela multidão, gritavam que os deixassem passar, mas os inspectores não cediam. O La Reina, majestosamente fundeado no canal do Trocadero, transportara nos seus porões mais de dois milhões de pesos e quase o mesmo número em marcos de prata lavrada, um dos tesouros das Índias, além de Caridad e de dom José, o seu amo. Maldito dom José! Caridad tinha cuidado dele durante a travessia. Peste das naus, disseram-lhe. Vai morrer, asseguraram-lhe. E na verdade chegou a sua hora após uma lenta agonia ao longo da qual o seu corpo se foi consumindo dia após dia entre tremendos inchaços, febres e hemorragias. Durante um mês, amo e escrava permaneceram fechados num pequeno e viciado camarote com apenas uma rede, à popa, que dom José, depois de pagar uma bela quantia, tinha conseguido que o capitão lhe construísse com tábuas, roubando espaço que era comummente utilizado pelos oficiais. Eleggua, que a sua alma nunca descanse, que vagueie errante, desejara Caridad apercebendo-se da poderosa presença do Ser Supremo, o Deus que rege o destino dos homens, no reduzido espaço. E como se o amo a tivesse ouvido, suplicou-lhe compaixão com os seus arrepiantes olhos biliosos enquanto lhe estendia a mão em busca do calor da vida que sabia que se lhe escapava. Sozinha com ele no camarote, Caridad negou-lhe esse consolo. Não lhe tinha ela estendido a mão quando a separaram do seu pequeno Marcelo? E o que fizera o amo? Ordenara ao capataz da plantação de tabaco que a segurasse e gritara ao escravo que levasse com ele o pequeno. E, fá-lo calar!, acrescentou no terreiro em frente da casa grande, onde os escravos se tinham reunido para saber quem seria o seu novo amo e que sorte os esperava a partir de então. Não suporto... O amo José calou-se de repente. O espanto dos escravos era evidente nos seus rostos. Caridad conseguira livrar-se do capataz com uma bofetada involuntária e fez menção de correr para o filho, mas rapidamente percebeu a sua imprudência e parou. Durante uns instantes só se ouviram os agudos e desesperados brados de Marcelo». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia Bertrand/JDACT