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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Arco da Aramenha em Castelo de Vide. Vasco Gil Mantas. «Na verdade, o edifício que aparece como sendo essa porta na foto antiga publicada por ‘Mantas 2000’, detém uns rasgos claramente posteriores (“da época barroca?”); se, de facto, se trata de uma das portas da “Ammaia”, deve ter sido amplamente restaurada»

A Porta da Aramenha, cerca de 1890, segundo postal de Martins Siva, Lisboa, 1904
jdact e wikipedia

«A reutilização de monumentos, no todo ou em parte, é uma prática antiquíssima, motivada fundamentalmente por motivos de economia ou por razões de ordem simbólica, mais ou menos relacionada com o imaginário cultural dominante num determinado momento histórico. Voltamos neste artigo a reflectir sobre um dos casos mais interessantes conhecidos em Portugal, o da chamada Porta da Aramenha, em Castelo de Vide, a qual teria sido transferida das ruínas da cidade luso-romana de Ammaia, situadas em S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, cumprem-se exactamente este ano (2010) três séculos. A razão que nos leva a retomar este assunto, acerca do qual a bibliografia, embora não sendo vasta, é concorde quanto à origem romana do arco da Porta da Aramenha, é a aparente dúvida agora suscitada por Armin Stylow a propósito da romanidade da porta, em função da iconografia da mesma. Eis o que o distinto epigrafista alemão escreveu sobre este desaparecido monumento de Castelo de Vide numa recentíssima publicação a propósito de documentação do tempo das Invasões Francesas relacionada com as antiguidades de S. Salvador de Aramenha: A porta foi demolida em 1891 e a inscrição conserva-se na Câmara Municipal de Castelo de Vide. Na verdade, o edifício que aparece como sendo essa porta na foto antiga publicada por Mantas 2000, detém uns rasgos claramente posteriores (da época barroca?); se, de facto, se trata de uma das portas da Ammaia, deve ter sido amplamente restaurada.
Stylow refere-se aqui à inscrição setecentista outrora colocada sobre a porta em questão, à qual voltaremos a seu tempo, e à referência que fizemos ao monumento numa comunicação apresentada à Mesa-Redonda Sociedad y Cultura en Lusitania Romana, que teve lugar em Mérida no último ano do milénio passado. Embora o comentário de Stylow seja pertinente quanto ao aspecto geral da Porta da Aramenha, julgamos que grande parte dos materiais terá sido realmente recuperada nas ruínas da cidade que no século XVIII se identificava como Medóbriga (Guerra 1996), as quais, durante séculos e até há bem poucos anos, forneceram materiais para construções muito diversas, por vezes significativamente afastadas do seu local de origem. Seja como for, cremos que o assunto merece ser retomado, no sentido de tentar precisar até que ponto houve reutilização de materiais romanos na obra da Porta da Aramenha, transformados ou não. Não podemos esquecer dois aspectos importantes desta problemática, que são a construção à antiga, imitando modelos romanos, que esteve tão em voga na época em que a porta foi edificada, assim como a intenção simbólica subjacente a muitas dessas construções numa fase de apogeu da afirmação do estado moderno, evidentemente inspirado pelo passado romano. A reutilização, numa construção do tempo de João V, do arco transportado da Aramenha insere-se perfeitamente nesta lógica de identificação, ao gosto dos responsáveis políticos do estado centralizado e absolutista.
Começa hoje a ser preciso algum esforço para compreender o fenómeno, que a formação das elites da época assentava sobretudo na cultura humanista, ainda que filtrada ou curiosamente associada à componente religiosa, fosse ela católica ou protestante. Naturalmente, o legado romano constituía o elemento principal dessa formação, resultando com frequência por parte das classes cultas uma vontade de ver como romano o que realmente nunca o foi, como aconteceu tantas vezes, por exemplo, com as pontes. O interesse pelos monumentos romanos levou muitas vezes à sua transferência, total ou parcial, ou à criação de falsas ruínas, por vezes incluindo um ou outro elemento autêntico (Choay 2009). Apenas a título de exemplo lembramos o projecto, felizmente não concretizado, de transferir a Maison Carrée de Nîmes para Versalhes, as ruínas nos jardins do palácio imperial de Schönbrunn, em Viena de Áustria, ou o Hornito de Santa Eulália, em Mérida. Esta característica da cultura dos séculos que correspondem à Época Moderna reflecte-se com muita frequência, de forma que podemos considerar normal e sem intenção que se afaste da reflexão própria de gente instruída, nos relatos de viagem da época, quer se trate de civis ou de militares. Assim aconteceu com o texto agora divulgado por Armin Stylow, extraído do diário redigido em 1810 por um oficial britânico, empenhado nas campanhas da Guerra Peninsular, o coronel Alexander Dickson (Stylow 2009). Eis o que nos interessa em relação ao arco de Aramenha: The gate by which we entered is called the gate of Aramenha, and has a inscription over it, stating that in the year 1710, the whole gate was brought from the ruins of the ancient city of Meidobriga, about a league from this, where it stood, by order of the then Governor of Castello de Vide, and re-erected as a gate on the fortifications of the place, being the entrance from the Spanish frontier and the side of Portalegre. The gateway is of large squared stones rough cut, is of massive construction, not high, but nevertheless handsome, evidently Roman, and is a perfect specimen of antiquity (Leslie 1905).
Ainda que esta breve alusão às características construtivas da porta não possa resolver de forma inquestionável a questão da origem romana do monumento não pode deixar de ser tomada em conta, tanto mais que o seu autor conhecia bem as fortificações da época e a referência que fez ao talhe dos blocos concorda com o que ainda hoje se pode ver no local das ruínas de S. Salvador de Aramenha. Como acontece noutros casos, tal como o do arco romano junto à Porta de Belcouce, em Coimbra, não temos, pelo menos que conheçamos, outra descrição da Porta da Aramenha. Cumpre aqui sublinhar que na narrativa do coronel Dickson, oficial de Artilharia habituado ao rigor dos cálculos matemáticos, nada encontramos que se aproxime das descrições delirantes que nos foram transmitidas noutras situações, como sucedeu, por exemplo, com o discutido arco romano da Praça do Giraldo, em Évora. Pena foi que José Cornide não tivesse oportunidade de passar por Castelo Vide, por falta de tempo, limitando-se a reconhecer que, ao contrário de Marvão, a vila não possuía uma posição militar favorável. Cornide, que conhecia muito bem as antiguidades romanas, não deixaria de acrescentar alguma coisa válida aos testemunhos sobre o arco da Porta da Aramenha, como fez a propósito de muitas outras antigualhas nos seus relatos de viagens por Espanha e Portugal (Abascal / Cebrián 2009)». In Vasco Gil Mantas, O Arco da Aramenha em Castelo de Vide, Revista Humanitas nº LXII, Universidade de Lisboa, 2010, ISSN 0871-1569.

Cortesia da ULisboa/JDACT

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tratado da Cidade de Portalegre. Diogo Pereira S. Maior. «… estas comarcas antre Alcântara e Portalegre, de que o bispo de Girona afirma ser a segunda de Espanha. Nos Comentários de Jútio César se lê que foi destruída por Cássio Longino, capitão romano, e que os moradores dela se recolheram ao monte Hermínio»

jdact

História dum manuscrito quase ignorado durante mais de três séculos. Relação da cidade de Portalegre e de como foi levantada por cidade pelo muito cristianíssimo rei Dom João triceiro e Dona Catherina sua molher, reis de Portugal
«(…) As terras que naquele tempo tinham nome de município eram terras priviligiadas pelos romanos, como o divia ser esta Ammaia, pois tinha nome de município, como terra de que os romanos faziam muita conta. E deste litreiro se pode coligir que esta terra foi já em tempos antigos florecente e tinha privilégio romano. Suposto que outros querem dizer que a cidade de que atrás falamos, chamada Medóbriga, se chamava naquele tempo Ammaia, e que este pé de coluna siria trazido daí, quando se edificou aquele templo onde ora está, como também veio outra muita pedraria pera com ela se edificar a santa sé desta cidade e o musteiro insigne da Virgem Nossa Senhora da Conceição da ordem do milífluo padre Sam Bernardo. Mas esta rezão não satisfaz, porque o André de Reisende, no primeiro livro De Antiquitatibus Lusitaniae, falando do Monte Hermínio, afirma chamar-se aquela cidade Medóbriga, cujas palavras, tiradas fielmente do latim em nosso português, dizem assi: Eu mostrei já, tempos há, em üa carta que escrevi a Manoel Sousa, alcaide-mor da vila de Arronches, homem nobre e bem entendido, e depois a João Vazeu, como a cidade de Portalegre, Arronches, Alegrete, Marvão e outros lugares de nome estão situados no circuito e redondeza do Monte Hermínio, e junto a ele parecem ainda hoje as ruinas da cidade de Medóbriga, perto da vila de Marvão, o qual monte é mui alto por extremo. E ainda hoje se conserva o nome antigo de Monte Hermínio, e também a cidade distruída se chama vulgarmente Aramenha, dirivada do monte a que está sujeita. Havia pelo circuito e pelas faldas deste monte muitas minas de chumbo, onde ainda agora se vêem muitas furnas e covas de donde os moradores da terra o tiiravam, e também se achava algum ouro. De maneira que, com muita rezão, chamou Plínio aos de Medóbriga chumbeiros. Até aqui é de Reisende.
Diz mais que dista esta cidade da cidade de Mérida sessenta e quatro mil passos, que são 16 léguas medidas das nossas de Espanha. Foi esta cidade mui célebre entre as da nossa Lusitânia, e muito grande, como suas ruinas o mostram, e muito rica. Nela parece ainda hoje üa porta inteira, defronte da qual estava üa ponte que eu ainda vi em pé, muito forte, onde ainda se parece o lastro que nunca o rio o pôde desfazer. Foi dirrubada e disfeita por cobiça de se dizer que furtavam por ela os direitos das mercadorias que passavam pera o reinode Castela. Em seu lugar se fez outra mais abaixo, sobre o mesmo rio, onde está üa torre que está mais abaixo da cidade, que se chama a Portagem.
Ali custumavam risidir os guardas do reino e se despachavam os direitos d’el-rei. Estão também em pé, nesta cidade de Medóbriga, uns edifícios que dizem servirem de capitólio ou consistório, que nunca com as injúrias dos tempos puderam ser arruinados. Teve esta cidade rei em tempos que os romanos senhoreavam a Espanha. Um se chamou Catélio e sua molher se chamava Cálgia, da qual nasceram nove filhas, todas de um ventre; que, enfadada sua mãe com tantas filhas, como era gintia, as mandou deitar no rio por üa criada sua que, compadecida da piadade natural, que faltara na mãi que as havia parido, as deu a criar em um bairrio onde vivia gente cristã, e foram baptizadas e instruídas em nossa santa fé católica. Foram depois santas e mártires; os nomes destas santas traz o Martirotógio Romano, e são os siguintes: Genebra, Liberata, Vitória, Eumélia, Germana, Márcia, Basília, Quitéria, Gema; as quais todas foram martirizadas em diversas partes. Afirma frei Bernardo Brito (liv. 5, cap. 18) que eram estas infantas portuguesas filhas de um rei de Lusitânia, que era senhor de üa cidade que caía por estas comarcas antre Alcântara e Portalegre, de que o bispo de Girona afirma ser a segunda de Espanha. Nos Comentários de Jútio César se lê que foi destruída por Cássio Longino, capitão romano, e que os moradores dela se recolheram ao monte Hermínio de quem atrás fica dito». In Diogo Pereira Sotto Maior, Tratado da Cidade de Portalegre, Temas Portugueses, INCM, CMP, Gráfica Maiadouro, Vila da Maia, 1984.

Cortesia de INCM/CMP/JDACT

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Tratado da Cidade de Portalegre. Diogo Pereira S Maior. «Em 1616 confessa-se velho, cansado, com dificuldade em escrever, porque já lhe tremia a mão. Da conjugação destes dados podemos concluir, com Luís Keil, que deve ter nascido por volta de 1550»


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História dum manuscrito quase ignorado durante mais de três séculos
«Em 1616, detrás das costas da capela de S. Tiago, concluía o padre Diogo Pereira Sotto Maior, indigno capelão em a Santa Sé, o seu Tratado da Cidade de Portalegre. Recolha de tradições e lendas, relato de factos de que teve conhecimento ou que ele próprio presenciou, de tudo foi guardando memória escrita em cadernos, borrões e cartapácios. Desses materiais dispersos, e satisfazendo o interesse manifestado pelo bispo Rodrigo Cunha, resultou o Tratado que lhe dedicou, e ofereceu pelo Natal desse ano de 1616. Este manuscrito fez parte da livraria do bispo Rodrigo Cunha e, no século XVIII, encontrava-se na cela do padre doutrineiro da Casa Professa de S. Roque. É citado por Barbosa Machado na sua Biblioteca Lusitana, quando se refere a Diogo Pereira Sotto Maior. Nos princípios deste século, Luís Keil, apaixonado investigador histórico, descobriu-o nas estantes dum alfarrabista em Lisboa, e, por uns algarismos recentes feitos a lápis na capa de pergaminho que o envolve, lembrou-se de lhe procurar o rasto em catálogos de antigas livrarias. Encontrou-o registado no catálogo da Livraria Pereira Merelo, com o n.º 5668 - PEREIRA (Padre Diogo). - Manuscrito - Tratado da Cidade de Portalegre e de suas antiguidades, brochado em pergaminho.
Natural da freguesia de Alegrete, nasceu, no monte dos Muchachos, (actualmente Muachos) freguesia de S. Tiago de Caiola, hoje fundida na freguesia da Urra. Ao falar do bispo Julião Alva, primeiro bispo de Portalegre, ele mesmo diz que procede de Aligreite, e era sobrinho do clérigo Manuel Rodrigues Miranda, primo irmão de seu pai. Este seu tio era homem muito rico e abastado, pelo que recusou vários benefícios  que o bispo Julião Alva lhe oferecia. Fez a capela de Santo António na igreja de Alegrete, onde está sepultado. Ternos, portanto, que o nosso tratadista era de boa família. Não se encontrou registo da data do seu nascimento, mas pode inferir-se, de indicações que nos dá no Tratado, que devia ter nascido entre 1550 e 1560. De facto, o bispo Julião Alva faleceu a 13 de Fevereiro de 1570, em Lisboa, e foi trasladado para Portalegre. Diogo Pereira Sotto Maior diz que se lembra que vinha ainda inteiro. Diz mais que, sendo minino de coro, ouvira pregar muitas vezes na sé o bispo André Noronha, que sucedeu ao bispo Julião Alva, em 1560, por renúncia deste. Sabe-se também que já era clérigo de missa antes de 1588. Em 1616 confessa-se velho, cansado, com dificuldade em escrever, porque já lhe tremia a mão. Da conjugação destes dados podemos concluir, com Luís Keil, que deve ter nascido por volta de 1550 (…)». In Leonel Cardoso Martins.

Relação da cidade de Portalegre e de como foi levantada por cidade pelo muito cristianíssimo rei Dom João triceiro e Dona Catherina sua molher, reis de Portugal
Do sítio e assento desta nobre cidade
«Muitas e diversas opiniões há, se esta cidade floresceu em tempo de gentilidade, ou se foi edificada por cristãos. Uns dizem que daquela antiga cidade que está ao pé da vila de Marvão, chamada Miróbriga ou Medóbriga, [daquela antiga cidade que está ao pé da vila de Marvão, chamada AMMAIA (JDACT)] foi edificada esta nossa de que vou tratando e que tomou por nome Ammaia, o que parece ter alguma cor de verdade, porque eu vi e li um litreiro que está em úa vasa de culuna, na ermida do Espírito Santo extra muros desta cidade, escrito em letras romanas, o qual, tresladado da maneira que está, diz assi:

IMP. CAES. L. AVRELIO
VERO. AG. DIVI. ANTO
NINI. F. PON. MAX.
CÕS. II. TRIB. PO.
PP. MVNICIP.
AMMAIA.

Quer dizer a exposição dos caracteres acima, segundo meu parecer, que Ammaia, sendo município, dedicou estátua ao Imperador Lúcio Aurélio César, verdadeiro Augusto, filho de Antonino, Pontifici Máximo, Tribuno do Povo, Cônsul duas vezes, Pai da Pátria». In Diogo Pereira Sotto Maior, Tratado da Cidade de Portalegre, Temas Portugueses, INCM, CMP, Gráfica Maiadouro, Vila da Maia, 1984.

Cortesia de INCM/CMP/JDACT

terça-feira, 17 de junho de 2014

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «… put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here»

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«(…) Ao contrário do que ocorreu com os seus estudos da epigrafia de Óstia, Wickert nunca conseguiu publicar tal Supplementum. Deixou a Academia e a Epigrafia e empenhou-se numa carreira universitária, na Universidade de Konigsberg, primeiro, e, depois, em 1939, na de Colónia, onde se dedicou aos estudos mommsenianos, de alma e coração. Mau grado, porém, todas essas mudanças e os transtornos causados pela II Guerra Mundial, logrou conservar aqueles materiais, que, por fim, depositou, em 1956, na Academia de Berlim, quando se voltou a vislumbrar a possibilidade de se realizar esse CIL II Suppl. 2, projecto que, infelizmente, também se malogrou.
Trinta anos mais tarde, avançados que estavam já os trabalhos de uma segunda edição do CIL II, a Academia de Berlim teve a gentileza de emprestar essa documentação, durante uns anos, à redacção central do CIL II, sediada então na Kommission für Alte Geschichte und Epigraphik des Deutschen Archaologischen Instituts de Munich, donde, sob minha direcção, Vedder retirou as informações nela contidas, integradas de seguida no Ficheiro Central do projecto. Os fascículos da nova edição já publicados dão fé, sem margem para dúvidas, da envergadura e da importância daquelas informações. Precioso exemplo disso é uma singela nota que, há mais de um século, a 11 de Maio de 1905, Francis Haverfield remeteu à Academia de Berlim, que diz textualmente:

Diary of Col. Dixon R. A. for 1809-10, now being edited by major Leslie, mentions that (while travelling in Portugal), Col. D(ixon) put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here.

Alexander Dickson, então coronel, mais tarde general Sir Alexander Dickson, 1777-1840, era oficial do Exército Britânico, onde prestava serviço na Artilharia Real. Participou, desde 1809 até 1813, nas Guerras Peninsulares contra as tropas napoleónicas, em que brilhantemente se distinguiu, a ponto de Sir Wellesley, mais tarde Lord Wellington, o encarregar do comando de toda a artilharia das tropas britânico-hispano-lusas aliadas, com que ainda participou na batalha de Waterloo. Durante todas essas e outras campanhas, Dickson permanecia fiel ao seu costume de ir escrevendo um diário, que, aquando da sua morte, foi entregue pelo filho, o general Sir Collingwood Dickson, juntamente com a sua correspondência militar e outros relevantes papéis, ao Royal Regiment of Artillery em Woolwich (Londres). Por fim, no ano de 1905, toda essa documentação foi editada em cinco tomos, a cargo da Royal Artillery Institution, pelo comandante John Leslie.
Esta é, evidentemente, a edição a que Haverfield alude, na sua missiva, como sendo de próxima publicação. O relato do episódio em questão, feito por Dickson no seu diário, encontra-se no segundo tomo do manuscrito editado, relativo ao ano de 1810, e mostra, por um lado, que Haverfield não reproduzia correctamente nem as circunstâncias do achado, supostamente fortuito: put up for the night at the foot of a Roman Monument nem o texto da inscrição. Refere, todavia, sem margem para dúvidas, o local onde o achado se produziu: São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre, que era para Dickson o sítio da antiga Meidobriga, reflectindo, assim, a communis opinio da erudição portuguesa da época, que localizava ali a cidade lusitana de Medobriga conquistada por Q. Cassius Longinus em 48 a. C. e os Medubrigenses qui et plumbari de Plínio, que como Meidubricenses aparecem na inscrição dos populi que dedicaram a Trajano o arco da ponte de Alcântara». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert…»

Pedestal de estátua encontrado em Aramenha
Esboços das inscrições feitas por Cornide
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«(…) Em 1797, três anos antes da chegada de Cornide, tinha o duque de Lafões, citado por Hübner, dado notícia dessas epígrafes à Academia Portuguesa. Hübner viu ali seis inscrições, pois ainda estava no lugar CIL II 160. Quando, em 1798, visitou a Quinta do Deão o médico alemão Langsdorff, já só identificou CIL II 159, 161, 162, 163 e 164, isto é, as mesmas cinco inscrições que Cornide vira em Agosto de 1800. Significa isso que, entre 1797 e 1798, saiu do lugar o monumento CIL II 160, que reapareceu depois e se expõe hoje no Museu de Ammaia aí instalado.
A ser assim, a História literaria de cada uma dessas cinco epígrafes é a seguinte:
  • CIL II, 159: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana I-III, Lisboa 1850-1851, citado por Hübner. Em 1984, a parte direita encontrava-se no Museu de Marvão e, em 1986, o fragmento esquerdo na Quinta do Deão. Hoje no Museu de Ammaia.
  • CIL II, 161: Editio princeps de Langsdorff 1798. Vista em 1996, numa casa de Gomes Esteves, no Largo de Camões, de Marvão. Hoje no Museu de Ammaia. 
  • CIL II, 162: Editio princeps de Langsdorff 1798. Em 1984 no Museu de Marvão. 
  • CIL II, 163: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Em 1984, na posse de José Cordeiro. 
  • CL II, 164: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Localiza-se a parte inferior, em 1982, na Quinta do Deão.
Quando o general Alexander Dickson visitou a Quinta do Deão, a 24 de Fevereiro de 1810, indica, no seu diário que In the yard are three or four broken stones with Roman inscriptions, que deveria ser o conjunto já descrito por Lafões, Langsdorff e Cornide. Pelas notas de E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana, que Hübner citou, ficamos a saber que o achamento deste grupo de epígrafes ocorreu em 1797, e que, até 1810, foram descritas pelo menos em quatro ocasiões.

O Estatuto Jurídico de Ammaia a propósito de uma Inscrição copiada em 1810
Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e simultaneamente um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert, encarregado pela Academia de Berlim de preparar um segundo suplemento ao CIL II de Emílio Hübner, reunira com essa finalidade. Esses materiais são um mixtum compositum: representam não apenes os resultados das viagens epigráficas de Wickert por Espanha e Portugal, levadas a cabo nos anos de 1928 e 1931, respectivamente, de que somente chegaria a publicar uma magra e aleatória selecção em dois artigos, enquanto que o resto permaneceu como work in progress, abarcando desde excertos de anteriores publicações, passando por fichas de trabalho de campo até fichas perfeitamente elaboradas para a publicação; incluem, além disso, um número imenso de cartas, folhetos e notas soltas, que foram remetidas à Academia de Berlim, posteriormente à morte de Hübner, em 1901, por colegas e por correspondentes seus tanto peninsulares como internacionais». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

quarta-feira, 18 de julho de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «O relato de Cornide do dia 8 de Agosto, com saída de Portalegre e chegada a Nisa. […] pudemos observar que os desenhos estavam ‘elaborados’, passados a limpo juntamente com o diário, no repouso de Lisboa ou de qualquer outra localidade portuguesa…»


Esboços das inscrições feitos por Cornide em 8AGO1800
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«Pensara ir nessa mesma tarde para Castelo de Vide, que está uma légua e meia a SW de Marvaom [Marvão], mas faltou-me o tempo e contentei-me com observar a sua posição, que não me pareceu tão vantajosa como aquela em que eu me encontrava porque, apesar de o castelo dominar a praça, também ele se encontra dominado pela serra. Castelo de Vide tem um regimento com o seu nome e apenas um destacamento de 20 ou 30 homens. Parti de Marvaom [Marvão] para Puerto Alegre [Portalegre], atravessando a serra oriental por um caminho péssimo até uma légua antes da cidade; passei pela deliciosa ribeira de Niza [Nisa], povoada de vinhas e de árvores de fruto, e cheguei finalmente à povoação uma hora após o anoitecer. Aí fui obsequiado pelo governador, o tenente--coronel Mateo de Pina, cavaleiro do país, que me ofereceu várias curiosidades das ruínas de Arameña [Aramenha] de barro e de vidro, que lhe pedi me enviasse para Lisboa, pois a pouca comodidade da minha equipagem não me permitia levá-las comigo sem risco de as partir.

Até aqui o relato de Cornide do dia 8 de Agosto, com saída de Portalegre e chegada a Nisa. Quando já conhecíamos este documento, pudemos observar que os desenhos estavam "elaborados", quer dizer, passados a limpo juntamente com o diário, no repouso de Lisboa ou de qualquer outra localidade portuguesa em que Cornide tivesse descansado nas jornadas seguintes ao dia 8 de Agosto de 1800.
Não se tratava dos desenhos originais, posto que, se assim fosse, não apareceriam já inseridos num cuidadoso diário. Tinha que haver algum rascunho prévio... E havia! Isto é; “há”. Junto ao diário da passagem por S. Salvador de Aramenha nessa data, conservam-se, por sorte, os esboços que Cornide realizou naquela manhã de 8 de Agosto na Quinta do Deão de Portalegre.
Encontram-se esses esboços noutro documento, que contém muitos apontamentos próprios e alheios, onde figura um folio in 4º intitulado “Aramenha”, e os rascunhos, por esta ordem, de CIL II 16I, 164, 163, 162 e 159, ou seja, na mesma ordem em que seriam depois incorporados no diário.
Os diários de Cornide de 1800 e do general Alexander Dickson em 1810 trazem novos dados para a “História Literária” das inscrições de “Ammaia” descobertas na Quinta do Deão, S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.


continua
Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

terça-feira, 3 de julho de 2012

Numismática Ammaiense. Notas preliminares. Sofia Borges, Joaquim Carvalho, Sérgio Pereira. «A importância e a singularidade das construções postas a descoberto, umas de carácter público […] a presença de um elevado número de moedas ou numismas exumadas, originárias das mais diversas oficinas de cunhagem do império romano»


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Introdução
«O testemunho mais representativo e extraordinário da romanização do Norte Alentejano é, certamente, a cidade romana de Ammaia. Localizada junto de importantes recursos hídricos, a antiga urbe cresceu e expandiu-se por uma área aproximada de 22 hectares, cuja área central é actualmente formada pela Quinta do Deão e Tapada de Aramenha, na freguesia de S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre.
Ignorada pelas autoridades competentes, a cidade permaneceu adormecida até 1994, ano em que ganhou vida um dos maiores projectos arqueológicos, a nível nacional, graças à determinação de Carlos Melancia, Jorge de Qliveira, não excluindo a colaboração de algumas instituições públicas, nomeadamente, a Câmara Municipal de Marvão e a Universidade de Évora. A constituição da “Fundação Cidade de Ammaia” foi o passo seguinte rumo à prossecução deste empreendimento turístico-arqueológico.
Concluído o levantamento topográfico e a imprescindível marcação das quadrículas, a partir de Outubro de 1994, iniciaram-se os primeiros trabalhos arqueológicos. Uma equipa qualificada, conjuntamente com alguns operários de arqueologia locais e muitos jovens nacionais e estrangeiros puseram mãos à obra e desde então têm escavado em diferentes áreas, criteriosamente seleccionadas.
A importância e a singularidade das construções postas a descoberto, umas de carácter público, outras simplesmente domésticas, é complementada pela recolha de vestígios móveis, resultantes da ocupação da cidade, na época romana. A quantidade e diversidade das cerâmicas recolhidas transmite-nos a importância funcional que teriam no quotidiano familiar. Porém, merece especial destaque a presença de um elevado número de moedas ou numismas exumadas, originárias das mais diversas oficinas de cunhagem do império romano.

Assim, com este contributo, pretendemos apresentar e divulgar o potencial numismático da actual colecção da “Fundação Cidade de Ammaia”, de ora em diante FCA, na sua vertente quantitativa, qualitativa e importância documental. Tentaremos, ainda, analisar a sua forte concentração, ou quase inexistência, em certas áreas específicas já escavadas. Assim, não tencionamos atribuir a este estudo um carácter exclusivamente científico. Em primeiro lugar consideramos pertinente elaborar uma breve síntese do trabalho efectuado, até ao momento, resultante do esforço e da boa vontade de muitos anónimos, aqui recordados, dignos amigos da “Ammaia”.


 
Áreas de intervenção
Privilegiando os sectores A, B e D, foram seleccionadas cinco áreas de intervenção:
  • a Porta Sul,
  • o Peristilo,
  • o Forum,
  • o Balneário do Forum,
  • o Edificio da Quinta do Deão.
A existência de vestígios à superfície, bem como questões de ordem técnica determinaram a preferência daquelas áreas. A intervenção na área, a que mais tarde denominámos Porta Sul, permitiu pôr a descoberto uma das portas da cidade, provavelmente, a mais importante, de onde seguiria uma via em direcção à capital da província, “Emerita Augusta (Mérida)”. Esta entrada terá sido, num dado momento, monumentalizada com a construção de duas torres circulares, um arco, conhecido por Arco da Aramenha, e uma imponente praça pública. As torres ladeavam uma das portas da cidade e eram, ao mesmo tempo, o ponto de partida da muralha, limite do perímetro urbano. Do arco que fora construído entre as duas torres, apenas se conservaram vestígios do arranque do mesmo e a soleira da porta. Daqui partia um dos eixos principais da cidade, o “cordus maximus”, que dividia em duas partes, simétricas, uma praça pública, pavimentada com lajes, de granito quadrangulares. Para nosso gáudio, o lado direito da praça, para quem entra na cidade, permaneceu praticamente intacto, do lado oposto apenas restaram algumas lajes “in situ”». In Sofia Borges, Joaquim Carvalho, Sérgio Pereira, Numismática Ammaiense, Notas preliminares, Ibn Maruán, Revista Cultural, nº 9/10, Marvão, 1999-2000, Edições Colibri, CM de Marvão.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

sexta-feira, 18 de maio de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «Fica compensada a vida dos de Marvaom [Marvão], por gozarem de permanente saúde e atingirem avançada idade, desfrutando das necessárias comodidades da vida, abundante em frutas e carnes de porco e de ovelha, ambas de excelente gosto»



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‘A parte do diário dedicada a S. Salvador de Aramenha, que motiva estas páginas, contém a descrição das epígrafes que Cornide viu na chamada "Quinta do Deão" ou "Horta do Deão", que sabemos, pelo diário, que é a «horta e casa do deão de Portalegre e outras terras de sua pertença. Transcrevemos integralmente esta parte do diário’

«Daí segui eu para Marvaom [Marvão], que, em linha recta, apenas distará meia légua, mas leva mais de hora e meia; esta pequena praça está assentada, como disse, no ponto mais elevado da serra do norte, sobre uma massa de pedra escarpada larga e estreita; a fortificação é irregular mas um tudo-nada moderna; da parte do poente tem o castelo, reforçado ultimamente com alguns baluartes; há nele una cisterna e, na parte exterior, em direcção à vila, outra muito capaz e bem edificada e de que dizem que pode dar água para a guarnição por mais de seis meses. A vila, que constará de uns 150 fogos, situa-se na parte oriental do castelo e as suas casas são de pouca monta; tem duas paróquias, uma antiga e outra mais moderna; vi junto a esta cinco ou seis colunas de mármore que me disseram terem sido trazidas das ruínas de Arameña [Aramenha], a qual, assim como outras duas ou três paróquias, pertence ao termo de Marvaom [Marvão].
Para subir a este castelo há dois caminhos, que, apesar da aspereza do cerro, são bastante suaves, pois se formaram vários giros e ziguezagues; começam no Sever, à saída de uma ponte de pedra que tem, do lado de Arameña [Aramenha], uma torre quadrada para lhe defender o acesso. Os dois caminhos, gira um pela parte oriental e outro pela ocidental e entram na vila pelas duas portas que dão para esses pontos; a oriente, e um tudo-nada mais abaixo da vila e das suas obras exteriores, há um convento de Capuchos.
Fica compensada a vida dos de Marvaom [Marvão], como que numa região aérea e separados do trato com os mais homens, por gozarem de permanente saúde e atingirem avançada idade, desfrutando das necessárias comodidades da vida, de que os provê o seu dilatado termo, abundante em frutas e carnes de porco e de ovelha, ambas de excelente gosto.
Quando cheguei ao ponto mais alto do castelo, tive a sensação de me encontrar elevado num balão: sob os meus pés, um extenso país, especialmente para oriente, norte e poente; reconheci, a olho nu, San Vicente, Valencia de Alcántara, El Carvajo [e] Herrera em Espanha, Montalbán [Montalvão] e Castelo de Vide em Portugal e, no tortuoso curso do Sever, a raia que separa os dois reinos até à sua confluência com o Tejo.
Todos estes terrenos inferiores, ainda que pareçam planos se se comparam com a elevação deste castelo, são, na realidade, mui escabrosos e ásperos, mas não deixam, por isso, de produzir excelentes plantas, algum centeio e, nas azinhagas, frondosos castanheiros, que, tal como as azinheiras e os sobreiros, são as árvores mais comuns e mais úteis da região; esta a defende a referida praça, que, pelas já aludidas circunstâncias, eu a contemplo como sendo a mais forte de Portugal, embora, para a defesa geral do reino, eu não saiba que utilidade possa ter a sua manutenção, pois é fácil evitá-la em qualquer entrada». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

continua
Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT