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terça-feira, 17 de junho de 2014

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Adolfo Bugalho, e do irmão (Francisco Bugalho), e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres…»

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«(…) Daquele aconchego agasalhante, dado a peregrino de longe que vinha pedir pousada, tomei boa nota para a vida, evocando, da memória, os versos de ouro de Pitágoras, quando impõem o dever de honrar os pais e de agradecer a hospitalidade do estalajadeiro. Agora, em triunvirato, o Garcia, eu e o Mário Rainho continuamos a nova rota traçada por via de destinos e de circunstâncias, enleados de redes de sentimentos e de olhares, que o andar dos passos mostraram ser comuns. O Mário Rainho aproveitou para me levar às Casas Amarelas, que mais não eram do que a sede do poder judicial, onde também estava instalada a Conservatória Registral, que ele próprio personalizava. De notável espírito de observação, era ali, por dentro daquelas janelas de guilhotina, o seu terreiro profissional, onde a sua vocação se professava, à lente, a analisar os documentos e cartas públicas do notário de Marvão, que, todas as semanas, desapiedadamente, lhe deixava, aos montes, fruto da sua exaração semanal, com letra miudinha, o que o obrigava a levantar, obliquamente, os óculos, para enxergar as certezas daquelas verdades declaradas.
Haveria eu de lembrar por muitos anos a sua assinatura, com uma grande cauda sobreposta e alongada, quase elíptica, a abranger o seu nome todo, que, com o andar dos anos, de elisão em elisão, se ia sintetizando, desnudando-se dos arredondamentos originários. No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Adolfo Bugalho, e do irmão (Francisco Bugalho), e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres, entretendo-se na discussão da lenda de misoginias, que acerca dele se cultivavam. Os dias futuros haviam de me mostrar a sua enorme e talentosa capacidade de interpretar papéis, de difícil tradução, na arte de representar.
Era ininterrupta a sua constância, no apelo aos elementos da sua equipa de teatro, que dirigia, exigindo-lhes presenças, que só a luta contra o cómodo da televisão vencia, deixando-as, livres, para o ensaio ou para a declamação. A militância por todos os valores da sua terra faziam dele um centro de atenções, que testemunhava a circum-navegação de todos os acontecimentos colectivos na Vila. O Mário Rainho não era qualquer pessoa subalterna a valores do espírito, sempre rente ao saber, sempre ao pé do sortilégio da beleza incandeante, que o motivara a ser quem é, formatado pelas circunstâncias da vida, marcada que foi, logo na infância, pelas letras que apreendera a colocar na tipografia, umas ao lado das outras, o que lhe propiciou o amanhecente gosto pela leitura. Era um caso típico de autodidaxia, no qual conseguiu forjar uma personalidade de vigores e robustecimentos, donde emergem virtudes e valências, que sobrepairam à vulgar mediania, onde, latentes, as mediocracias medram.
O Mário Rainho, agradecido ao acaso por aquele tão fortuito encontro, contente de mim, ao lado dele e do Garcia, ao seu lado, ia ilustrando a Vila dos seus varões ilustres, do passado e do presente, quando me sugeriu, por ali estarmos perto, dar uma saltada à Câmara da vila, onde o Presidente Carolino teria, com certeza, prazer em conhecer-me, e com quem eu gostaria de falar. Que sim, que era boa ideia, e lá fomos os três, ao mesmo tempo, ao mesmo lado, como que a gradar as ruas e os acontecimentos que se tinham rebolado sobre elas. Seguimos pelas Carreiras de Cima e fomos lá à frente, onde parámos, para entrar, subindo, uma grande escadaria, que se atingia, depois de ultrapassado um precioso portão de ferro forjado, como que a dizer do subido e superior ar daquela casa municipal, domicílio das respostas às solicitações dos cidadãos da vila e do seu termo. O Presidente apareceu, o Mário Rainho disse quem eu era, e com saudações contagiantes nos cumprimentámos, com delicadezas mútuas, que o tempo haveria de decretar duradoiras». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque…»

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«O Mário Rainho alongava-se em biografias e hagiografias, em dados contornos, enquanto eu, de espírito cada vez mais giratório, me espairecia na lonjura dos acontecimentos, para trás e para a frente dos carris do tempo, ora evocando Camilo Castelo Branco, que dizia que até os pardais se assustavam com aquele touro negro de ferro, a galgar as travessas, ora colocando o engenheiro Horta, na dianteira, a corrigir erros e cálculos do fidalgo João na estação de Caminho de Ferro da Beirã. No dissêncio dos dias, consegui pô-los a conversar acerca de cálculos, topografias e texturas de construção, conseguindo, com inegável sucesso, que o tempo se encurtasse para ser mais legível a história e mais fácil a construção dos amanhãs. Bom conhecedor do cadastro de Marvão, o Horta agradeceu a João da Câmara os seus ensinamentos, este louvou-lhe as simpatias e as referências da memória.
E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque, todo recheado de árvores frondosas, de cujos galhos os passarinhos faziam coreto, para aí entoarem seus trinados de alegria. Era um jardim cuidado e frequentado por gente, que dele fazia uso vivo. Pessoas sentadas nos bancos, com ar despreocupado e livre, conversavam amenamente com figurantes que passavam, e a quem davam dedos grandes de conversa, para terapia da monotonia ou da solidão da mesma mesmice dos dias.
E, enquanto ele me continuava a falar das rivalidades com Marvão, eu, a boiar em mim, ia estendendo o olhar gostoso para aquela natureza, ali trabalhada e ordenada, quando, ao subir a ladeira, nas suas calmas, me apontou para a estalagem, que se esquinava no encontro de duas ruas. Era a Casa Parque, de construção de meados do século, denotando qualidade bastante para compensar os meus depauperados aposentos, já com descrição acima.
Entrámos, a porta tilintou. À entrada, vindo a descer umas escadas, apareceu a dona, a Isabelinha. Pessoa graciosa e delicada, cumprimentou o Garcia e, adivinhando quem era, me desejou ali logo boa estada no Marvão. Que me sentisse bem ali na sua casa, informando-me de que, à esquerda, era o restaurante e, lá em cima, apontava para as escadas, donde tinha acabado de vir, eram os quartos. Agradou-me a ambiência e a arquitectura de interiores. Entretanto, conheci o marido da dona, o Guimarães, o estalajadeiro. Reservado e contido, senti, pela cara dele, prazer em me ter na sua casa. De ar circunspecto e respeitável, teceu considerações acerca de Marvão, falando-me também das suas origens do Minho, das bandas do Gerês.
Eu, agradado dele e dela, ia soletrando a vontade interior de ali fazer o meu domicílio, cercado que estava daquele bem-estar, e tendo, como vizinhança bucólica, aquela passarada chilreante, que, do alto dos seus estreitos palanques, diziam músicas melodiosas.
Os estalajadeiros, a Isabelinha e o Guimarães, foram o aconchego familiar, que logisticamente me suportaram a estada, orgulhosos de mim, e eu cioso do orgulho deles, dedicando-lhes, em silêncios, agrados, ficando à minha conta a dívida de afectos, que ainda perdura e que nunca prescreverá. Na sequência dos dias, dos meses e dos anos, sempre recebi deles tratamento especial, com louvores por eles publicados e de que amiúde me chegavam ecos frequentes, o que inventariava nos meus escaninhos, onde tenho instalado o culto da gratidão.
Foi naquela guarida e abrigo que me estalagei, na companhia daquela boa gente, que com o meu conforto se cuidava. À roda do fogão de lenha, no Inverno, todos em conclave, falávamos de tudo e de todos, sempre pela linguagem dos afectos, que, por lá, abundavam, como o frio». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «… esquina volvida, aparece o Mário Rainho, director de um grupo de teatro, um homem com quem havia de privar alguns anos, com um notável espírito de observação, supremamente evidenciado pelo anexim de “observa”, com que os homens da terra o marcaram»

jdact e joserodrigues

«O filósofo veio à janela, olhou, de dentro para fora, e de cima para baixo, e, ao ver o frade branco, insultou-o, com muitos ralhos, com imprecações intermináveis, com maldições eternas .E, em altos berros e espadaladas várias, aparece ali naquela cena, saído de trás do reposteiro do tempo, esparvoado, o franciscano inglês Roger Bacon, a tomar partido pelo dono da casa, a quem tutorava naquele trabalho de ópticas, por sua conta desde o século XII, que não era mais que negócio de óculos e lentes de contacto...
E palavra puxa palavra, doutrina puxa doutrina, frade não deve a frade, vamos à bulha e todos ao monte, e o dominicano com o seu manto branco, muito mais sujo da refrega que o hábito castanho do franciscano. Spinoza, o judeu filósofo, agradecido, ia virar as costas para continuar a lapidar, quando ,de repente e ofegante, chega o Richard Zimler do novo mundo, para fazer a acta do ali acontecido, trazendo como testemunha cientificadora o Alexandre Quintanilha, talvez para escrever agora sobre o último cabalista de Castelo de Vide, ensinando ao filósofo qual o melhor trajecto para a sinagoga portuguesa de Amesterdão.
João III, o piedoso, apiedou-se de si e, sentado no banco da Fonte, que era o suporte de cântaros e bilhas de água ou o poiso das apeias das azémolas, com a cara escondida entre as mãos, para não ver o que deixou para o futuro, soluçava com gritos de permeio, que se ouviam a séculos de distância.
O Garcia, impressionado com aquele espectáculo dramático, deitou-me o olhar com tons complacentes, a sustentar desculpas por aquela ocorrência, rogando-me, por instantes, compreensão, e foi-me afastando daquele território, daquela cena, que mais parecia teatro vicentino do que momento azíago de declamação ocasional de papéis, previamente estudados, nas intertelas do devir dos acontecimentos.
Falava-me ele de teatro, falava eu de tragédia, de fingimentos na arte de representar na vida e das máscaras gregas de Epidauro, quando, esquina volvida, aparece o Mário Rainho, director de um grupo de teatro, um homem com quem havia de privar alguns anos, com um notável espírito de observação, supremamente evidenciado pelo anexim de observa, com que os homens da terra o marcaram.
Era uma pessoa recheada de singularidades, de alto e belo espírito, que também se embevecia de belezas. De entretém, de oportunidade, ao ver-me ser solidário nesses afazeres da alma, com delicadeza nos conduziu para uma outra rua e, postando-se em frente a uma casa, de altos e baixos, disse-me que ali tinha vivido o grande dramaturgo João da Câmara, autor da comédia OS VELHOS, cuja génese tinha, como terreiro, a freguesia de Santo António das Areias e cuja acção se essenciava na reacção da população daquele povo à chegado do comboio.

Engenheiro civil, caiu-lhe, no trabalho da vida, a tarefa de ir dirigir a construção do caminho-de-ferro do ramal de Cáceres. E, nessa qualidade, tinha que retalhar os tapadões, as tapadas, as hortas e os currais, que a estrada de ferro tinha naturalmente de dividir, cabendo-lhe o odioso de ferir, com golpes de espada, as heranças avoengas ou as deixas testamentárias de muitas gerações e os códigos de honra, que o estatuto de posse foi criando no deambular dos séculos. De fina sensibilidade, o engenheiro de tudo ia tomando conta e nota, inventariando emoções e retratos de personagens, com que criou a comédia de costumes imortalizadora.
O Mário Rainho alongava-se em biografias e hagiografias, em dados contornos, enquanto eu, de espírito cada vez mais giratório, me espairecia na lonjura dos acontecimentos, para trás e para a frente dos carris do tempo, ora evocando Camilo Castelo Branco, que dizia que até os pardais se assustavam com aquele touro negro de ferro, a galgar as travessas, ora colocando o engenheiro Horta, na dianteira, a corrigir erros e cálculos do fidalgo João na estação de Caminho de Ferro da Beirã». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «E apontou-me, silencioso, para uma janela meio fechada, por dentro da qual se vislumbrava um vulto, de feições talmúdicas, que parecia estar a dar brilho, com denodo e afinco, talvez a vidros ou espelhos, tão grande o ar concentrado e esforçado do seu trabalho…»

jdact e armandapassos

«Ao ver-me assim tão enleado nestas coisas do passado e do futuro, o Garcia, adivinhador de que sou um seduzido encartado, estancou-se mais à frente ao lado doutra memória, erguida em monumento de granito, a Garcia de Orta. Estarrecido, lembrei-me da perseguição que fiz às suas pegadas, quando, levado pela mitologia individual e pela nostalgia, fui ter à Índia, na companhia do José Rodrigues, à procura dos ecos dos sinos da Sé da Velha Goa, onde as lágrimas e emoções se caldeavam para baixo e para cima, como feijões em panela fervida. Vimo-lo, com uma dianteira de quinhentos anos, lá ao fundo dos séculos, na sua Ilha de Bombaim, como botânico, a tentar analisar os botões das camélias locais, por achar apoucados os conhecimentos científicos das Universidades europeias, de que era mestre. E depois, numa curva da história, vimos a sua silhueta à entrada dos arcos dos Vice-Reis em Goa, com muita pressa para matar a ânsia de saber e, depois, na extensão do tempo, vimo-lo, ao longe, com o seu livro Colóquios dos Simples e das Drogas e Coisas Medicinais da India, debaixo do braço, a agradecer ao Luís de Camões a ode que lhe tinha dedicado, quando o José Rodrigues lhe assobiou, para lhe ver o tamanho das barbas para o esboço do retrato que ia ficar na galeria dos Vice-Reis. Ele olhou para trás, para a penumbra do tempo, onde estávamos instalados e, indignado, começou a insultar-nos e a culpar-nos pelos desvios dos acontecimentos nos mapas e nos anais, e o Camões a olhar-nos de esguelha, que de outro modo não podia, por causa da pala...
Assim oniricamente memoriado, quando vim a mim, agradeci à centelha do acaso que me levou àquele território, ali no Alentejo, mesmo bordado para as minhas costuras, e talhado para o tamanho das hordas dos meus sentimentos. Acrescentando uns passos em frente, sugeriu-me que eu o seguisse, de acordo com os calendários dos números das portas e com a topografia do terreno, e começou depois a descer uma rua estreita e empedrada, que desaguava numa fonte linda, de estilo manuelino, guinando, suavemente, para o começo duma outra, com um passadiço, e mostrou-me uma casa, caiada, como todas, de branco.
E apontou-me, silencioso, para uma janela meio fechada, por dentro da qual se vislumbrava um vulto, de feições talmúdicas, que parecia estar a dar brilho, com denodo e afinco, talvez a vidros ou espelhos, tão grande o ar concentrado e esforçado do seu trabalho, ali ao pé, nós a olhar para ele, ele a zunir, com lixas, as arestas das lentes e das ópticas, talvez para monóculos de diletantes pré-românticos. E, enquanto sanicava com as mãos e com os braços, num gesto de plaina ou goiva, em movimentos de vai-vem, meditava em Deus e na sua essência, na sua natureza, sem medo do seu pensamento.


Entrementes, um inquisidor, talvez o mor, não sei, agarrou o batente da porta e bateu três vezes, três pancadas de Molière, mas estas eram de ferro. O filósofo veio à janela, olhou, de dentro para fora, e de cima para baixo, e, ao ver o frade branco, insultou-o, com muitos ralhos, com imprecações intermináveis, com maldições eternas». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001). «Meta pelas "carreiras de baixo", veja ali aquela escultura branca, é de Pedro V, coitado, reinou pouco, daqui morreu, informava-me o meu narrador; vire agora à direita, para passarmos em frente daquele edifício, de portas de ferro forjado, obra de arte…»


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«Vê lá, no alto, aquela capelinha votiva, caiada de branco, com o seu miradouro de arrabalde? É Nossa Senhora da Penha, a contemplar, ao longe, Marvão, e a olhar, aqui mais para perto, para esta Vila, que lhe fica subalterna, e reverente se deita, de rendida, à sua padroeira, a quem oferece anualmente as suas gaudientes libações, rezando-lhe sempre fervidamente. Àquele ancoradouro alto vão os forasteiros e os que da vida têm subida nota, tomados da oferta generosa dos panoramas mais perfeitos e acabados.
De lá, queria o Alves dos Reis, famoso licenciado em falsidades e burlas ou em qualquer faculdade de mentiras, montar teleférico, que em constantes vaivéns traria a montanha à Vila e vice-versa, a ela trazendo vindas e levando idas, dizia-me o Garcia, parado e com ar de quem dá novidades. Eu aditava aquelas informações e mastigava-as,como mais valias.
Meta pelas "carreiras de baixo", veja ali aquela escultura branca, é de Pedro V, coitado, reinou pouco, daqui morreu, informava-me o meu narrador; vire agora à direita, para passarmos em frente daquele edifício, de portas de ferro forjado, obra de arte, a quem o fogo e a bigorna deram forma e desenho para séculos. Sabe, é a Câmara de Castelo de Vide, ousadamente enfrentada por aquele enorme volume, que a arquitectura religiosa ali construiu, em luta de poderes e de louros, teimosas apostas entre profanos e clérigos.
Repare ali, na Câmara, naquela torre civil, onde está o sino, que, para além de dar as ave-marias do entardecer, cantadas pela pintura de Milet, anuncia ,ainda hoje, de quinze em quinze dias, o toque do recolher, lembrando aos residentes que estivessem fora que os gonzos das portas da Vila iam rodar, encerrando-a para entradas e saídas. Saboreei ali mesmo o ressoar da história, a entidade tempo, os seus elos e as suas cadeias.
Repare aqui nesta casa, e eu freei todos os movimentos, para a atenção ser concentrada, aguçando a minha curiosidade, para dar resposta à diligência por ele solicitada. Era uma casa de construção granítica, neo-clássica, onde um grande vulto da nossa história do século XIX tinha nascido e vivido, Mouzinho da Silveira, juiz que foi de Marvão.
Então lembrei-me de quando, em tertúlia séria, adoptei, como pseudónimo,o nome daquele lutador e combatente liberal, acólito de Pedro IV, e que com ele vem da Ilha Terceira para a praia de Pampelido, para depois entrar a cavalo, atrás do seu rei, pelas portas do Carvalhido, sendo vitoriado pelas gentes do Porto e de Cedofeita.
Meditei no esquecimento dos cronistas, que deixaram ficar de fora dos seus livros de notas essa enorme figura, um dos maiores estadistas dos últimos séculos, o autor da última grande reforma do Estado e da sua administração, não narrando, para a posteridade, a sua desmedida coragem política e a sua incomparável capacidade legislativa, fazedor que foi, ou que queria ser, de um Estado moderno e civilizado, à maneira dos demais europeus.
Por via da minha profissão, tive acesso ao seu testamento cerrado, lavrado de azedumes e de mordências, escorregadio das dores das feridas da vida, de quem os caudatários, interesseiros e ocasionais, se afastaram, deixando-o só, pedernido de tantas tristezas, que lhe ditaram o desabafo, vertido para aquele documento de última vontade, de que aquilo que mais pretendia era que, ao menos, o seu filho não se envergonhasse do nome do pai.
De ressentimentos maiores que o seu tamanho, pediu préstimos ao notário, para que lhe desse voz, para além da sua morte, decretando que queria ser sepultado na 'Margem', obscura localidade lá para as bandas de Abrantes, não fosse algum inquisidor de restolho tentar localizá-lo e mandar queimar o que de si restava.
Em silêncio fúnebre, o Garcia conduziu-me ao Jardim pequeno para me mostrar, na eternidade do bronze, o seu busto, nascido da subscrição da Vila, que não era senão a amortização da culpa de outros no passado, assim resgatada. Ao ver-me assim tão enleado nestas coisas do passado e do futuro, o Garcia, adivinhador de que sou um seduzido encartado, estancou-se mais à frente ao lado doutra memória, erguida em monumento de granito, a Garcia de Orta». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo. «Olhe ali à esquerda, disse-me ele, em cima do monte, é lá que se esconde um enorme lençol de água saborosa e medicamentosa, que todo o Portugal conhece. Só então percebi que estava a chegar a outro território pátrio, digladiador e disfrutador de outros protagonismos»


jdact e cortesia de martabelo

«Diletante do espírito da estética, embebi-me da poética harmonias naquele painel que ali me inebriava. Louvado Deus, que criou tanta beleza! Ali, naquela leda paz de ideias e de sensações, eu me considerava, também, um ancião da eternidade, sem manhãs nem tardes. Mas, naquele dia enevoado e macio, a convidar às voluptuosidades da alma quente e fermentada que é a minha, quando os desejos se me tumultuavam uns sobre os outros, eu, enrodilhado em filosofias, deixei-me reclinar naqueles requebros de suma e extasiada mansidão.
Era um daqueles momentos em que a harpa me era melodiosa e em que podia cantar, afinado, o cântico da manhã e da tarde. Não há exercício de escrita que ao sabor de qualquer trote rimado transporte o perfume daquela divina cenografia, ou que evidencie, com fidelidade, aqueles suaves enleios e a doçura daquela aragem. Que manjar extra-celeste! Gritei...
E, num gesto interpelante à vida, em meditativa imobilidade, em arreigada e acerada prece, agradeci a Deus o destino amoroso que me tinha reservado e o prazer de participar, agora, na mesa dos contentes, nas festas dos alegres na vida.
Jesus, que permaneça a alegria! - citei o salmo bíblico.
Estremunhado daquele sono vivo, serenado, continuei na franciscana via de singelezas, entoando loas ao Santo de Assis, o inventor de um sentimento medieval de natureza, patrono ecológico da Humanidade, gestor dos mais íntimos equilíbrios ambientais, na sua montanha da Umbria.

E, misturando várias tintas ao mesmo tempo, lembrei Dante: ‘...cedo se verá a colheita do mau cultivo, quando o joio lamente achar a arca fechada’.
Como deve ser fecunda e fértil a força do pensamento e de todas as suas formas de expressão, na religião, na literatura, na arte!
À maneira dos cavaleiros da Távola Redonda ou de atleta de Deus ou como filho do 'Graal', imaginei-me a escudar todas as muralhas, para a defesa de todos os códigos de cortesias e de elegâncias, contra qualquer dúvida moral, tentando desmontar qualquer desvio ou entorse da história.
Teologando assim comigo, voltei à conversa com o escudeiro, deslumbrado ele também naquela linda serra, que os queirosianos querem que seja a do Zé Fernandes e do Jacinto e a que Pedro V baptizou de Sintra do Alentejo. Compreendi então ali o dedo do mesmo grande Arquitecto, a ordenar o universo, por via do compasso e do esquadro, a burilar a pedra dura para levantar colunas rosacrucianas naquele vale, ali naquele hermético arvoredo de densidades e de espiritualidades, tendo em vista a força, a sabedoria e a beleza.
Olhe ali à esquerda, disse-me ele, em cima do monte, é lá que se esconde um enorme lençol de água saborosa e medicamentosa, que todo o Portugal conhece. Só então percebi que estava a chegar a outro território pátrio, digladiador e disfrutador de outros protagonismos, com outras pendências locais, sempre em refrega, ontem como hoje, com o ponto de partida desta viagem, mas sem a casta nobre e grandiosa da minha predestinada terra, que me titulou de poderes institucionais e afectivos.
Tínhamos chegado a Castelo de Vide.



Vê lá, no alto, aquela capelinha votiva, caiada de branco, com o seu miradouro de arrabalde? É Nossa Senhora da Penha, a contemplar, ao longe, Marvão, e a olhar, aqui mais para perto, para esta Vila, que lhe fica subalterna, e reverente se deita, de rendida, à sua padroeira, a quem oferece anualmente as suas gaudientes libações, rezando-lhe sempre fervidamente. Àquele ancoradouro alto vão os forasteiros e os que da vida têm subida nota, tomados da oferta generosa dos panoramas mais perfeitos e acabados». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo. «A Tia Felícia, agradecida, depois, dos trabalhos e cuidados que lhe dispensei, devotou-me as afeições dos precisados e deu-me, em troca, uma galinha branca, com seis ovos, o melhor que tinha»



jdact e cortesia de joserodrigues

«Tantas vezes olhei aquela casa, a singeleza e a humildade, ali só sustentadas pelo salário da jorna, que apenas cobria o sustento e a parca vestimenta da sua habitada. Tantas vezes admirei esteticamente aquele branco, puramente caiado, aquele subtil jogo de volumes, sem delicado tratamento no remate da chaminé, aquele casebre a resumir pobreza de cela, tamanho dos teres e haveres da dona.
A Tia Felícia veio à porta cumprimentar o Garcia, e muitas recomendações para a sua senhora, disse. Vestida de luto carregado, com o lenço atado pela cabeça, com nó corrido debaixo do pescoço, a assinar a viuvez fresca do marido, que Deus lá tenha. De semblante muito triste, saudou-me com vossa mercê e, mais nada, que o tempo era dorido.

A Tia Felícia, agradecida, depois, dos trabalhos e cuidados que lhe dispensei, devotou-me as afeições dos precisados e deu-me, em troca, uma galinha branca, com seis ovos, o melhor que tinha, coitada, que quem dá o que pode a mais não é obrigado.
Chorou ela, chorei eu, comovido pela sublimidade daquele presente, franqueado da mais prateada dádiva, que as lágrimas quiseram testemunhar, vencendo os taludes das contenções, encarreiradas pelos sulcos da face, que com rapidez tentei secar, com o lenço da mão, que era branco, para a mortalha das emoções.
Galinha branca, o mais precioso que ela tinha para pôr no ofertório a Deus, em holocausto pela sua dor,  nunca o tributo, por qualquer patrocínio, grande que fosse, na fazenda pública, em cartório ou em tribunal.
Que apaziguamento, que agasalho para a alma, naquele lugar, naquela hora, onde houve nome o obrigado!
Vaidade de qualquer mãe, senti-me envaidecido da minha, da sua herança de recatamentos que me arquitectaram frugalidades nas minhas efusões espontâneas. Se ela me pudesse ver com aqueles vassalados engalamentos, como se comoveria dos merecimentos que ao filho eram assim reconhecidos, apertando-me ao calor do seu colo, de que nunca consegui afastar-me na vida.
O Garcia não me deixou resvalar outra vez e, amparando-me pelo braço, levou-me para o trilho certo, que era aquela estrada, ao meio, o caminho a seguir.
Com o peso desta dívida comigo, sempre que me cruzava com aquele luto, em pessoa, apitava-lhe sempre do carro, sinalizando-me, com saudações largas, desenhadas por generosos acenos de mão, que ela devolvia, com inclinações.
Na minha estada em Marvão, como foi referência aquela velhinha!
Sempre carpida de dores, alegrias ausentes, nem por festas, nem por aleluias, a alma se lhe abria.
Compenetrei-me aos poucos de que a minha passagem por Marvão não se podia esbater em sombras ou indiferenças, hasteadas em qualquer galeria de vulgaridades ou de pensamentos breves. Amassei-me na magia que a terra combinava com o encanto das pessoas e das amizades, seara onde não me foi difícil trabalhar.
Fixando o seu olhar no meu, por baixo dos óculos, a auscultar a minha amaragem, falando-me solidariedades, com silêncios, o Garcia disse para continuarmos em frente, a subir a encosta, entremeando as bermas, ladeadas agora de vegetação abundante, onde os vetustos carvalhos se deixam avizinhar de árvores mais moças e mais vistosas. Transbordavam sobre os muros os galhos dissidentes, a que a zelosa disciplina do cantoneiro ia impondo ordem paisagística, concursada na Primavera com os verdes e, no Verão e Outono, com os amarelos e castanhos». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo. «Navegando assim, o Garcia, impressionado, olhou-me e sugeriu adiantar caminho, não sem antes me apontar para uma casinha pequena, modesta, caiadinha de branco, com um postigo a um metro do chão, a servir de janelo…»


jdact e cortesia de joserodrigues

«Refeito e aconchegado, relaxado e repuxado para trás, as pernas bens separadas, para dar lugar e vez ao resto do corpo, o Garcia obrigava-me agora a guinar à esquerda, para me apontar as "caleiras", onde a cal era produzida, e, mais ao lado, os restolhos dos castelos de madeira, que, com terra, dava o picão, tições amortecidos ou acendalhas.
Olhei, parado, para a minha frente, para um conjunto de nodosos e enrugados troncos, agarrados à terra, rachados e esgalhados, quase desertos de roupagem, amputados, escaqueirados e desengonçados pelo peso da idade, como que a lamentarem-se da verdura dos meus anos e da inocência da minha juventude, que se deixava seduzir pela velhice daquelas árvores, que já tinham vivido o seu tempo, e agora ali estavam pousadas, ligadas à terra por alguma seiva restante.
Marcou-me aquela imagem, que me filosofava capacidades e valências dos que, tendo sido idos, ainda hoje nos estão expectantes, aos olhares das gerações, desafiadores à voragem dos tempos, provocadores extáticos de códigos de conduta, que sabem ser rigorosamente cumpridos.
E, ao vê-las assim tão venerandas, tão dignas da sua depauperada velhice, penou-se-me a alma, quando a lembrança me trouxe à minha presença a figura da minha mãe, estremosa, velhinha, ferida na asa da vida pelas resmas dos anos, cheia de suaves serenidades e de eternas perenidades, com o regaço sempre abundante de torrentes de ternuras, que lhe extravazavam todos os açudes de mercês e de reconfortos, dádivas que acolhia em delicado e especioso cesto fino, onde também se relicavam as arcas das virtudes e as emoções bordadas a fios de ouro, qual sacrário de intimidades filigranadas de linho, de que apenas as deusas podiam e sabiam fiar, em dobadouras rectangulares ou oitavadas. Ou, por via dos pedais e dos sons matraqueados do tear com que se fabrica a mnemónica das memórias ou, longe no tempo, a acidez plangente das saudades.

Grande era a saia da minha mãe, sempre preta e alongada, de bainha por ela costurada, como que remate em obra feita, decorada com silvas discretas e simples, por ela desenhadas, para o seu retém e resguardo. Lindo o seu avental, com que colhia e guardava, da natureza das coisas, os frutos amadurecidos da sabedoria e da beleza ou as afectuosidades generosas dos gestos. De blusa, à lavadeira, de corações ramalhados e refulgentes, à maneira da Bretanha ou da Irlanda, que os navegadores de Viana, das rotas a norte, trouxeram para as mondadeiras das veigas do Rio Lima .
Valendo mais, muito mais, a redacção superior que deixou escrita, em letras góticas ou ogivadas, pintadas de vermelho carmim a debruar a trinta preta da china, documento tão solene e nobre, que apenas o damasco e a seda podiam envolver, em invólucro policromado, pela mão de algum calígrafo poeta chinês.
Navegando assim, o Garcia, impressionado, olhou-me e sugeriu adiantar caminho, não sem antes me apontar para uma casinha pequena, modesta, caiadinha de branco, com um postigo a um metro do chão, a servir de janelo, ombreirado pelas largas faixas pinceladas de azul, como grosso caixilho, que lhe fazia o tamanho maior e que impedia, segundo os antropólogos, a entrada do espírito do mal.
Era uma construção simples, rectangular, com o telhado de duas águas, de meia cana, perpendicular à estrada, paradigma poético da arquitectura popular alentejana, que me seduzia pela beleza do simples, sem volumes a mais. Havia uma porta na outra ponta da casa, que eu, agora, de perto, admirava, também debruada do mesmo azulão, já desbotado». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

Carta de Marvão. Aníbal Belo. «E mais à frente, na Escusa, onde o Garcia decretou apeadeiro na venda do Curado para se delongar, entre copinhos pequenos, em filosofias e linguísticas, informando-me que o nome do lugarejo não era português, mas castelhano, pronunciado à açoriana, onde o “u” é falado em “iu”»



jdact e cortesia de joserodrigues

«Era a convergência para o zénite. Quem terá sido o arquitecto bem sucedido daquela paisagem assim produzida, carregada talvez de carga hermética e demandatária? Obra de algum inspirado de qualquer ordem iniciática, que queria fazer daquele vértice o ponto ómega, afinal o encontro das muitas verdades procuradas na vida? Ou de algum seduzido de Teilhard de Chardin, para quem tudo o que se eleva converge?
Aqui à esquerda, apontava, com o olhar, ou ali mais acima, nesta terra de semeadura, encontraram os lavradores muitas moedas antigas, romanas. E os homens da história, com escavações, descobriram uma cidade romana soterrada, com caboucos de palácios, e com inscrições do tempo em que o poder de Roma se estendia até aqui, terras de Viriato. Coisa, em importantíssimo, muito superior a Conímbriga, declarava. Eu, ignorante daquela geografia e do seu recheio arqueológico, ia debitando arrefecimentos ao entusiasmo quente do meu ajudante, interiormente desvalorizando os exageros daquelas informações tão encomiásticas ao que por baixo daquelas tapadas e courelas estaria submerso.
Terras de semeadura hoje, terras de Ammaia ontem, onde talvez algum governador romano, Pilatos ou Cláudio, imporia o seu jugo, detentor de monopólios na extracção mineira, com que fabricar lanças e dardos, para novas batalhas e novas conquistas, novas dominações. E, ali ao lado, eu vogava, em velocidades impetuosas, na reconstrução do passado cristão, judeu, árabe e moçárabe, chamando à grande liça a personalidade de Marvan, padrinho de nome da Vila e dissidente do culto califado de Córdova.
E, pondo e repondo aqueles dados ausentes, diafanavam-se os espíritos etéreos naquela contextualidade serena e mansa, alimentada de deleites, que só a magia pode orquestrar.
Olhei, com veemência e força penetrante, à procura da sombra de algum gladiador, que me confrontasse o êxtase, misturado da contumaz malvasia da aragem, que era apetecida. Ou à procura de alguma escavadora que me descaboucasse o projecto do grande arquitecto Vitrúvio, enterrado no esquecimento, se não fora este subalterno à lembrança.
E mais à frente, na Escusa, onde o Garcia decretou apeadeiro na venda do Curado para se delongar, entre copinhos pequenos, em filosofias e linguísticas, informando-me que o nome do lugarejo não era português, mas castelhano, pronunciado à açoriana, onde o “u” é falado em “iu”.
Que este sotaque era originário da Bretanha francesa, que colonizou ou povoou a ilha de São Miguel, dos Açores. Teria sido desta ilha que o Intendente Pina Manique teria importado duzentas famílias, que se foram ali instalar e em Castelo de Vide, para compensar a abolição dos escravos, que, com a libertação, preferiram outras terras, a permanecer no Alentejo.
Aquele povoado escondido debaixo dos grandes e majestosos carvalhos e castanheiros sabia-me a aldeia gaulesa, ou a território celta, onde algum druida cultuava os seus deuses, que os romanos, vencedores na Ammaia, não conseguiram vencer aqui, como nas Gálias.
Aqueles grandes espaços, protegidos pelo feitiço daquelas enormes e enigmáticas sombras, só eram maculados pela luz atrevida, que conseguia, em alguma aberta, escapar para o chão, nele desenhando setas. Era a floresta ancestral, que alcobitava debaixo das suas vestes frondosas segredos e mistérios, onde o deus Pã morava escondido para aterrorizar os humanos, com a sua flauta a medrar medos. Talvez terreiro de danças, aquelas sombras, onde ao som do silêncio se escalavam harmonias.
Muito impressionado, acenei ao Garcia que a viagem ainda durava e a procissão ainda estava na igreja, ou no adro, o muito. Com um estalinho final da boca, que comecei a decorar, o palato, reconfortado, fez um esforço para se levantar e, a custo, começou a diminuir a distância que nos separava». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Com a amizade de JCM
Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT