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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A Ficção de João Aguiar. A alquimia de uma escrita múltipla. Ana P Arnaut. «… porque a serem divulgadas lançariam a desordem entre os simples e a santa fé católica deve ser defendida a todo o custo, guardando-se contra cismas e traições heréticas»

jdact e wikipedia

«(…) Registem-se a propósito, dois exemplos que consideramos elucidativos: 1. no Terceiro Fragmento, Euménio de Rodes alude, sucintamente, às crises políticas que levam Cinna, Sertório e os outros chefes populares a fugir de Roma para Itália, onde organizam a resistência e a revolta que levará ao cerco e posterior capitulação de Roma. Se alguns pormenores sabemos acerca dos padecimentos na cidade cercada, praticamente nada é referido sobre o modo como os acontecimentos se precipitaram. A narrativa só é preenchida quando a voz de Euménio de Rodes cede lugar à voz de Lúcio Hirtuleio, fiel amigo e colaborador de Sertório, testemunha e participante dos acontecimentos que agora lhe cumpre relatar. 2. no capítulo intitulado A Corça, cabe a Medamo não só dar a sua versão sobre uma pequena parte do seu tempo de infância, como também, e sobretudo, continuar e concluir a narrativa sobre Sertório, não sem antes ter dado conta dos acontecimentos que cumprem a profecia da voz da deusa da Serra da Lua. Este procedimento pluridiscursivo havia já aparecido ensaiado em O Trono do Altíssimo, romance cuja trama gira à volta da evolução e declínio do Priscilianismo, doutrina de filiação gnóstica que durante cerca de dois séculos (IV e V d.C.) disputou terreno com a ortodoxia católica. Assim, neste romance o narrador heterodiegético, cada vez menos omnisciente, cede, por isso, temporariamente lugar a outros registos e a outras vozes. Deste modo, no Livro I, é Restituto quem faz o relato da viagem a Roma, onde uma embaixada de Priscilianitas se desloca com o duplo intuito de esclarecer Dâmaso, o santo papa romano, sobre aspectos fundamentais da doutrina, refutando as acusações de heresia, gnosticismo e maniqueísmo e de, na corte, obter a anulação do rescrito que desterrava alguns bispos priscilianitas.
No Livro II, é através do discurso epistolar entre Quintiano e Restituto (390-409 a.C.), cuja perícia como contador da verdade o primeiro atesta, que conhecemos os negros anos de 384 -385 em que, sob um império repartido por três Augustos, se intensificam as perseguições aos seguidores desta doutrina, que culminam com a execução em Treveris de Prisciliano e alguns companheiros.
No Livro III, novamente se ouve a voz do narrador, agora coadjuvado por Vitimer, noviço no mosteiro de Dume, cujos pensamentos e actos servem de trilho para conhecer umas últimas epístolas de Quintiano, religiosamente guardadas porque a serem divulgadas lançariam a desordem entre os simples e a santa fé católica deve ser defendida a todo o custo, guardando-se contra cismas e traições heréticas. Porque, acrescentamos nós, poriam em causa uma verdade construída de acordo com interesses particulares da instituição religiosa. Mantêm-se, em suma, as traves mestras da História, de resistência contra a opressão da República Romana, de lutas pelo poder em Roma, de tentativas de implementar novas doutrinas, sustentadas por traves de menor envergadura, mas não menos importantes, até porque representam o resultado de um aturado trabalho de investigação, que o autor não renega, mas que, tal como Garrett, sacrifica às musas de Homero, não às de Heródoto: e quem sabe, por fim, em qual dos dois altares arde o fogo de melhor verdade(Garrett,1973). Criam-se, afinal, pequenos mundos possíveis (Albaladejo, 1986) em que, e também porque as palavras e os actos das personagens não entram em conflito com as canónicas versões dos historiadores (Halsall,1984), é difícil destrinçar fronteiras nítidas entre a verdade histórica e a verdade ficcional, apesar de alguma clarificação ser facultada pelas Notas Finais. Sublinhamos alguma clarificação porque, segundo cremos, e já o dissemos por outras palavras, a investigação histórica é, à partida, viciada e selectiva, logo pretensamente objectiva. De acordo com Elisabeth Wesseling essa selectividade radica em três diferentes causas, a primeira das quais diz respeito ao facto de apenas se poder investigar o que conseguiu sobreviver até à nossa época; a segunda prende-se com as questões que se pretende ver respondidas, o que leva à selecção de certas fontes em detrimento de outras; a terceira é uma causa política, na medida em que a História apenas se preocupa em deixar os registos de indivíduos e colectividades que, num dado tempo, por obras e feitos se destacaram (Wesseling,1991). Julgamos, contudo, e para terminarmos esta breve incursão pelos romances históricos de João Aguiar, que nada melhor do que as palavras de um autor clássico para validar os processos de um autor contemporâneo cuja obra, não só mas também, revive e reescreve legados da cultura clássica». Ana Paula Arnaut, A Ficção de João Aguiar, A alquimia de uma escrita múltipla, Comunicação apresentada em Janeiro de 1997, Estudos Clássicos da FLU de Coimbra, revista HVMANITAS- Vol. XLIX (1997), ISSN 2183-1718.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A Ficção de João Aguiar. A alquimia de uma escrita múltipla. Ana P Arnaut. «Caio Vetílio, responsável pela corrupção de Audax, Ditalco e Minuro, assassinos do chefe lusitano, com personagens e acontecimentos fictícios, mas não inverosímeis, caso de Tongio, companheiro de Viriato e futuro sacerdote do templo de Endovélico»

jdact e cortesia de wikipedia

«… Concerne esta alegada multiplicidade não apenas a possibilidade de identificar as coordenadas estéticas por que se norteia a produção literária de João Aguiar, os caminhos da História e das Estórias. Diz outrossim respeito ao modo como, no grupo dos romances de temática histórica, o autor entretece dados históricos com elementos ficcionais; e como, nas narrativas de ficção, a sua capacidade imaginativa, aparece, por vezes, travestida por cores fantásticas, feéricas (O Homem Sem Nome); por laivos de realidade vivida ou sabida por outrem (O Canto dos Fantasmas); por características das narrativas policiais (Os Comedores de Pérolas); ou ainda ancorada no folclore popular e na realidade portuguesa (A Encomendação das Almas e Navegador Solitário). Da intromissão de elementos ficcionais na tessitura narrativa de carácter histórico, dá-nos João Aguiar conta na Advertência Prévia ao primeiro dos seus romances - A Voz dos Deuses, e igualmente válida, lato sensu, para os romances A Hora de Sertório e O Trono do Altíssimo: Boa, má ou simplesmente medíocre, A Voz dos Deuses é uma obra de ficção e não um ensaio histórico rigoroso. No entanto, estou sinceramente persuadido de que o Viriato que os leitores encontrarão nestas páginas está mais próximo do Viriato histórico e verdadeiro que a tradicional imagem do rude pastor dos Hermínios bravamente entrincheirado na sua cava, em Viseu; mesmo porque Viriato não nasceu nos Hermínios (...) a Cava é uma fortificação que nada tem a ver com o chefe lusitano. Entretanto, e parafraseando Eça de Queirós (...), foi necessário lançar sobre a nudez forte de uma verdade histórica insuficiente o manto diáfano de uma fantasia plausível ou, pelo menos, aceitável.(...)
É, pois, de acordo com este jogo entre História e ficção, cujas regras tacitamente se acordam com o leitor, que João Aguiar recua aos mais remotos tempos de Viriato, de Sertório e de Prisciliano. Destes, e da época era que se movimentam, aproveita, por um lado, alguns aspectos históricos, oficialmente tornados verdadeiros por todos os que, em diferentes espaços e tempos, foram investidos do poder de fazer crónica do passado. Por outro, o que o autor leva a cabo mais não é do que a consecução da noção Ingardiana de preenchimento de pontos de indeterminação provocados, e permitidos, pela pretensa objectividade dos relatos históricos ortodoxamente científicos, deste modo construindo verdades internas da ficção, tão didácticas e úteis como as verdades oficiais. O que John Woods designa por modalidades mistas de existência ocorre em A Voz dos Deuses, A Hora de Sertório e O Trono do Altíssimo, não apenas pela convivência no universo narrado de personagens, acontecimentos e lugares aceites como históricos, com personagens, acontecimentos e espaços ficcionais, mas também, e essencialmente, pelo facto de em cada uma dessas categorias coexistirem as duas linhas de força: a histórica e a ficcional.
Desta feita, por exemplo, coexistem em A Voz dos Deuses personagens, acontecimentos, tradições e modos de vida reais, Viriato, Sérvio Galba (governador da província Ulterior), Lúculo (governador da Citerior), Caio Vetílio, responsável pela corrupção de Audax, Ditalco e Minuro, assassinos do chefe lusitano, com personagens e acontecimentos fictícios, mas não inverosímeis, caso de Tongio, companheiro de Viriato e futuro sacerdote do templo de Endovélico; caso dos oráculos de Baikor e da Serra da Lua, cuja descrição, entre muitas outras, activa esquemas cognitivos conformes ao que o leitor julga ter sido o estado das coisas da época em causa. Cite-se, a título de ilustração, e no que diz respeito ao mundo das crenças, uma breve passagem alusiva à profecia da Serra da Lua: Relanceei um olhar alarmado à nossa volta e nesse instante ouvi uma espécie de silvo, como se fosse uma cobra, e logo a seguir a voz soou de novo, e saía da boca de Arduno, mas não era ele que falava nem era a sua voz; parecia a de uma mulher, embora o som fosse grave e a articulação dura e enérgica. - Tongio, filho de Tongétamo. Porque fazes perguntas sobre o destino se os deuses já te disseram o que podias ouvir? À vossa frente o caminho é longo. Há vitórias e derrotas, alegria e sangue, traição e glória. A águia está ferida mas este é o tempo do seu domínio. Depois do Touro virá a Corça. Porque fazes perguntas? Ε tempo de combater. Só tu verás a era da Corça. Mas os deuses querem-te, os deuses surgirão no teu caminho...
Depois do Touro virá a Corça... Depois de Viriato é A Hora de Sertório, é altura de encerrar o díptico, compondo, dez anos depois, as voltas ao mote dado pela profecia, numa narração a três vozes dos valores e das crises sociais, económicas e políticas do mundo romano do século I a.C.. A polifonia narrativa deixa de ser protagonizada pela voz dos deuses, até porque Os deuses calaram-se no céu e na terra, e passa a ser entabulada entre Euménio de Rodes, Lúcio Hirtuleio e Medamo. Narradores do trajecto pessoal e político de Quinto Sertório, estes são simultaneamente personagens, protagonistas por vezes, de pequenos quadros a partir dos quais é possível conhecer diversos aspectos da vida coetânea: cenários, usos e costumes da vida doméstica, cultural, social e política. Conhecemos e sabemos o que eles conhecem, sabem e testemunham; informações que, apesar de limitadas e parciais, validam os relatos feitos, porquanto estes se crêem tanto mais verídicos e credíveis quanto tiverem sido de facto vividos pela entidade que preside à narrativa. Além disso, aduza-se ao exposto que a mencionada limitação, de certo modo inerente aos narradores homodiegéticos, é colmatada pelo facto de cada voz ir progressivamente preenchendo vazios, momentos da narrativa deixados em aberto pela voz anterior». Ana Paula Arnaut, A Ficção de João Aguiar, A alquimia de uma escrita múltipla, Comunicação apresentada em Janeiro de 1997, Esrudos Clássicos da FLU de Coimbra, revista HVMANITAS- Vol. XLIX (1997), ISSN 2183-1718.

Cortesia da UCoimbra/JDACT