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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «A representação de uma actualidade em decomposição, dominada por uma sensualidade desorganizada, terá, num efeito de contraponto que já conhecemos, reconvocado em Eça a nostalgia de uma ordem ideal»


Cortesia de wikipedia e jdact 

«(…) Um tema tipicamente naturalista, a dominação do padre na família pela sua influência na mulher, surge nas suas crónicas de Londres, em Julho de 1877. Suscitado igualmente pela recensão literária, é particularmente revelador o juízo de Eça de Queirós sobre uma obra de divulgação de métodos anti-concepcionais: um manual cómodo e à mão de desmoralização e de deboche. A persistente tendência misógina; esta terminante condenação do amor não procriativo; as referências algo galhofeiras às criadas chantagistas londrinas e ao escândalo da prostituição; duas alusões jocosas (uma das quais bastante desenvolvida) ao lesbianismo, compõem, nestes textos jornalísticos, uma atitude de distância simultaneamente folgazã e moralista em relação ao prazer e à irregularidade erótica, inconsequentes mas sintomáticas anedotas de um quotidiano pré-catastrófico. A novidade é que este quotidiano seja o de uma Inglaterra que Eça, agora, sente conhecer do interior, tal como no tempo em que, falando de Lisboa, se dirigia aos seus leitores do Distrito de Évora. É agora Londres a cidade em véspera de catástrofe. Mesmo a mulher inglesa também desgosta Eça de Queirós, justamente pelo excesso daquela qualidade que, n’As Farpas, o atraía, a virilidade: basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela poderá ser tudo, uma hábil cavaleira, uma excelente atiradora à pistola, um óptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para uma partida de bacarat, tudo, menos uma esposa e uma mãe. (1 de Agosto de 1877)~
A tendência para a dissociação entre o prazer e a família, a emancipação institucional do prazer (os quais estiveram provavelmente na raiz da feroz condenação, por Eça, dos meios contraceptivos), que, para o autor, a mulher inglesa agora prefigura, torna-o aqui um crítico violento do vigor e da excessiva afirmatividade feminina, a desordem erótica da mulher é meio caminho andado para a catástrofe moral inglesa. Quando, nos Ecos de Paris, em 6 de Junho de 1880, a propósito da morte súbita de Flaubert (que ocorrera cerca de um mês antes), Eça de Queirós comenta Madame Bovary, é para sublinhar ainda esta identificação entre a decadência e o essencial desequilíbrio do eros feminino. E, da mesma forma, quando define o projecto de L’ Education Sentimentale, é fácil ler nesta representação uma projecção ideológica clara, encontrando numa geral síndrome feminizante da cultura pós-romântica a causa central de todas as instabilidades da vida social.
A representação de uma actualidade em decomposição, dominada por uma sensualidade desorganizada, terá, num efeito de contraponto que já conhecemos, reconvocado em Eça a nostalgia de uma ordem ideal e de uma harmonia superior, valores cuja rarefacção conceptual seja uma forma de pureza. E, por outro lado, o apego desiludido aos valores simples e humanos, como a solidariedade. Um agape democrático, eis a forma sucedânea, na sua última década de vida, desse amor natural, suavemente abençoado por Deus nas noites de S. João, evocada trinta anos antes. E o louvor irónico-lírico da doce atmosfera do sul, aqui, como já o fora no Distrito de Évora, pode igualmente integrar-se no esquema ascensional desta nostalgia da brandura, regida por uma instância superior e benfazeja. Esta tendência refluente da sua última fase determina, também, a evocação cada vez mais insistente dos primeiros românticos, e dos valores da naturalidade e simplicidade artísticas. Não se estranha, portanto que, chegado o momento crepuscular do Naturalismo, Eça de Queirós possa, com desenvoltura, recon­hecer em Positivismo e Idealismo que, provavelmente, o romance experimental nunca existiu. E, mais uma vez, as novas formas, já não as do decadentismo, mas do idealismo, primam pela irregularidade. Agora que a alma está na moda, a poesia e as artes plásticas diluem a representação da realidade física, esbatendo-lhe a consistência. Ou seja: mais uma vez, para Eça, a nova arte comunga do crepúsculo e do caos: os traços que ela privilegia, os do incorpóreo, resolvem-se numa global representação do inorgânico. A representação marcadamente virilizante do Positivismo-Razão vai adensar-se, sublinhando por contraste o cariz feminizante do polo oposto, o do Idealismo-Imaginação. A este regime exclusivo da oposição e da disjunção dos dois elementos, seguir-se-á agora, segundo Eça, uma espécie de conjunção alternada e regimental, que não parecerá deslocado designar por adultério ideal: a causa é patente, está toda no modo brutal e rigoroso com que o positivismo científico tratou a imagi­nação, que é uma tão inseparável e legítima companheira do homem como a razão. O homem de todos os tempos tem tido (se me permitem renovar essa alegoria neoplatónica) duas esposas, que são ambas ciumentas e exigentes, o arrastam cada uma, com lutas por vezes trágicas e por vezes cómicas, para o seu leito particular (…) O positivismo científico, porém, considerou a imaginação como uma concubina com­prometedora, de quem urgia separar o homem; e, apenas se apossou dele, expulsou duramente a pobre e gentil imaginação, fechou o homem num laboratório a sós com a sua esposa clara e fria, a razão. O resultado foi que o homem recomeçou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre, tão inventiva, tão cheia de graça e de luminosos ímpetos, que de longe lhe acenava ainda, lhe apontava para os céus da poesia e da metafísica, onde ambos tinham tentado voos tão deslumbrantes». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia.
Cortesia de ContraNatura/Wikipedia/JDACT

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «A sua exuberância e simetria simbólica, o reportório figurativo que mobiliza, revelarão o prodigioso efeito seminal da leitura do filósofo, e constituirão uma chave interpretativa que a leitura da ficção de Eça»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) A essencial perversidade do eros, intuída muito cedo por Eça, tem agora uma explicação positivista, a idealização do mal e da infracção pela criminosa poesia romântica. A devoção religiosa, cuja iniquidade na formação feminina foi já denunciada, e que convoca, aliás, aspectos semelhantes aos do erotismo, emotividade, imaginação, irracionalidade e ociosidade, é também visada n’ As Farpas através, por exemplo, da caricatura do sermão obsceno e pela intuição da recíproca contaminação entre o erotismo e o misticismo. A questão do casamento, associada à do adultério, surge logicamente num quadro de preocupações morais dominado pela questão feminina, e tão insolúvel, parece, como esta. Numa Farpa datada de Outubro de 1872, Eça dedica muitas páginas à análise minuciosa do traição conjugal, a que apenas a revolução, pela ciência de Proudhon, começa a dar uma solução racional e positiva. De qualquer forma, a disponibilidade das mulheres para o amor, disponibilidade orgânica e cultural, constitui o principal factor do adultério. A aprendizagem exclusiva da sedução, aliada à inacção física e à desocupação intelectual, desenvolve, nestas Circes quietas e perigosamente imaginativas, as pérfidas artes de adormecer e seduzir. E se, de facto, é na moral convencional um chique ter tido amantes casadas, e o sedutor se torna mais sedutor pela sua auréola perfumada, o autor apressa-se a declarar que, em Portugal, Satanás anda longe. Ou seja: a virilidade não tem, para sossego dos maridos, representantes condignos em Portugal. A visão genérica de uma cultura dominada pelo omnipresente erotismo feminino será justamente a súmula temática do opúsculo de Proudhon, publicado em 1875, La Pornocratie ou Les Femmes dans les Temps Modernes. A aliança da misoginia à reflexão política e social, no intuito justiceiro de farpear a tolice, com o seu Proudhon mal lido debaixo do braço, antecipa-se nestas Farpas de Eça. A sua exuberância e simetria simbólica, o reportório figurativo que mobiliza, revelarão o prodigioso efeito seminal da leitura do filósofo, e constituirão uma chave interpretativa que a leitura da ficção de Eça de Queirós não pode dispensar. No entanto, duas questões ficaram por responder: pela ciência de Proudhon, qual é a solução racional e positiva para o adultério? E, se o adultério acontecer e for descoberto pelo marido, como pode este reagir-lhe? A resposta à primeira pergunta é simples: colocar a mulher nas ocupações da família, eis o que achamos de mais genérico para evitar a dissolução do casamento. A actividade, mesmo lúdica, deserotiza a mulher, é um antídoto da idealização: toda a mulher que se não cansa, idealiza. Em todo o caso, ao desprevenido marido, resta a reacção mais conforme ao seu temperamento: todos estes infelizes se desesperaram; mas, com a lógica do seu carácter, o bárbaro generoso mata, o civilizado infame faz assinar a letra. Apraz-nos observar, nas várias representações de maridos enganados de Eça, a hegemonia absoluta de civilizados infames. Em suma: no adultério em Portugal, à inferioridade do sedutor e à debilidade da seduzida, corresponde a frouxidão do ofendido. Pelo menos durante os quinze anos seguintes às Farpas, praticamente todo o discurso não-ficcional de Eça reitera, especifica e dilata as teses de 1871, e as subsequentes aplicações nos dois romances que entretanto publica: O Crime do Padre Amaro (1875 e 1880) e O Primo Bazílio (1878). Da mesma forma, falando sobre o seu próprio casamento, em 1885, Eça não resiste a normalizá-lo ideologicamente, colocando-o sob o signo anti-romanesco do amor-amizade. A partir de 1872, o discurso crítico firma-se na opção ideológico-estética do Realismo-Positivismo, estabelecendo-o como um discurso da verdade, iluminador, justiceiro e redentor. Trata-se agora de entranhadamente investir o discurso literário de um mandato cívico: o de coadjuvar a Revolução, tudo revelar, para tudo mudar. E este tudo insidiosamente se especializa na verdade do sexo, uma verdade que o idealismo mascarou de sublimidade. Por outro lado, sendo o novo movimento progressivamente revestido dos valores fulgurantes da virilidade vigorosa, é, assim, perfeita a simetria com a feminizante e corruptora decadência literária, cuja temática amorosa, num curioso processo de denegação, exaspera sempre Eça de Queirós». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia. 
Cortesia de ContraNatura/Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Representações da Saúde e da Doença em Eça de Queirós. Ana Luísa Vilela. «Em 1871, o realismo significaria então para Eça de Queirós a apologia da razão e da luz, o fascínio pela ciência e pela sua potencialidade reveladora. E não escapa à inevitável isotopia da visão: na sua conferência no Casino Lisbonense»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Considera-se geralmente que a descrição não idealizada do corpo humano, da sua patologia e da sua fisiologia, do pormenor físico ou da perturbação psíquica, constitui uma conquista da literatura do século XIX e, em particular, das estéticas realistas. A promoção romanesca do corpo – a corporização e a sexualização das personagens – integra a instalação, na segunda metade do século XIX, da temática física no romance, e a consequente criação de uma poética romanesca do corpo. Segundo Peter Brooks, o realismo corresponde a duas tendências simétricas e complementares: a da semiotização do corpo e a da somatização da narrativa. Esta nova importância (dir-se-ia quase obsessiva) concedida à carnalização da personagem aparece associada a uma visão determinista e materialista da individualidade; e irá interagir com a própria modelização romanesca, implicando-lhe uma generalizada renovação e refiguração. Na verdade, o romance realista constitui, em muitos sentidos, uma totalidade orgânica, sistemática e coerente.
Na ficção de Eça de Queirós, quase sempre os protagonistas se caracterizam como detentores de doença ou de saúde (às vezes apenas mental). De facto, a saúde e a doença são traços relevantes na personagem queirosiana. Desde Prosas Bárbaras, os dois termos constituem referências axiais do autor, usadas no campo estético-literário. Em carta a Carlos Mayer, datada de 1867, Eça de Queirós divide os dois antigos bandos dos seus companheiros de Coimbra segundo a sua pertença aos campos da saúde ou da doença: havia nesse tempo, por um lado, os clássicos, os saudáveis; e havia, por outro, os românticos, os doentes. Os primeiros preferiam o real circunstancial, reproduzem costumes; aos segundos só interessava a alma humana universal. Eça declara-se em absoluto um romântico (tal como Ega reconhece a Carlos, n’Os Maias, em 1888) e exclama, então: qual vale mais, esta doença magnífica, ou a saúde vulgar e inútil que se goza no clima tépido que vai desde Racine até Scribe? Refere, nessa altura, que tivera uma cruz e versículos da Bíblia no seu quarto de estudante. Mas que tal decoração fora retirada pois, estando Eça constipado, um amigo defendera que o misticismo proibia o sol, o calor, os bens tépidos, a dilatação da molécula venturosa, a flanela, os melaços e que o ateísmo era para mim uma necessidade higiénica. Foi talvez isso mesmo que o realismo representou para Eça: uma necessidade higiénica, um sistema organizador, uma estrutura coerente, uma terapêutica reequilibrante e compensatória…
Em 1871, o realismo significaria então para Eça de Queirós a apologia da razão e da luz, o fascínio pela ciência e pela sua potencialidade reveladora. E não escapa à inevitável isotopia da visão: na sua conferência no Casino Lisbonense, Eça associa o realismo aos termos olhos, guia, roteiro, pintar, etc., que complementam as metáforas médicas. Assim, o escritor compartilharia com o anatomista e o fisiologista (como no romance fisiológico ou experimental de Zola), um olhar crítico, exterior, científico, que pesquisa e que sistematiza, no corpo, uma rede de indícios, sinais e sintomas. Ao seu conhecimento da intimidade corporal, frequentemente plasmado numa visão excremencial do corpo, alia-se no escritor realista a sua actividade de denúncia dos recalcamentos (censuras, inibições), sempre de um modo ou de outro manifestados na superfície do corpo. Na verdade, pressupõe-se o determinismo psicossomático, a ancoragem fatalmente física da personalidade e a analogia entre o corpo e a mente. E pressupõe-se, igualmente, uma inevitável apassivação do sujeito, presa das suas paixões e dos seus atavismos. A patologia e o seu diagnóstico, extensíveis ao corpo social, é figura central nas narrativas realistas e naturalistas.
Nas narrativas de Eça, como em outros autores realistas/naturalistas, o corpo revela o que está escondido, manifesta indícios, marcas, signos, o corpo é sintomático. Por isso, o corpo doente é, simultaneamente, mais interessante e mais decifrável: reduzido à sua disfuncionalidade, é mais expressivo, porque fala, acumulam-se-lhe sinais clínicos, constitui o mapa gráfico da personagem. E, assim, o retrato físico permite o diagnóstico da figura ficcional e do seu destino narrativo. Amaro (de O Crime do Padre Amaro, tem desde criança uma figura amarelada e magrita, é medroso, mono, muito encolhido, tem as mãos húmidas. Mimado e feminizado pelas criadas da madrinha, mostra uma sensualidade precoce, misturada com devoção religiosa. No seminário, com a puberdade, tem terríveis sonhos lúbricos, emagrece, tem suores hécticos e até uma febre nervosa» In Ana Luísa Vilela, Representações da Saúde e da Doença em Eça de Queirós, Universidade de Évora, CEL, Maux en Mots, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, 2015, ISBN 978-989-864-446-4.

Cortesia de UPorto/JDACT

domingo, 16 de outubro de 2016

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «Os folhetins d’As Farpas (1871-72), que Eça depois reuniu em Uma Campanha Alegre, fornecem uma explícita síntese daquilo que podemos considerar a fase seguinte da ideologia erótica queirosiana»


jdact e wikipedia

A Construção Ideológica
«(…) Finalmente, a representação queirosiana do erotismo integra ainda, neste período, associados a esta componente lírica e intimamente aliados a uma latente misoginia, dois outros campos de imagens: a representação idealizada da mulher e a apologia do amor natural. A sobrecarga simbólica da figura feminina acentua-se com a introdução, nos textos deste período, da fantasia erótica, inspirada quer pela mitologia germânica quer pela etnografia do Sul. Todo um sincretismo de figuras encantatórias e clandestinas incorpora subitamente a evocação saudosa de uma noite alentejana de S. João. São seres luminosos e etéreos, de beijos vampíricos, provocam encantamentos, delícias e mortes. Fulcro da tematização de um universo decadente, o erotismo, de cuja essencial desordem são sinais a prostituição, os audaciosos costumes femininos, a literatura da paixão, a ociosidade, a voluptuosidade aérea e luminosa, invoca insidiosamente a catástrofe. Uma catástrofe perversamente desejada como um beijo mortífero. Entre a abjecção da obscenidade e a sedução da fantasia, estrutura-se afinal, nestes textos do primeiro Eça, um discurso ideológico-erótico cujas raízes, profundamente afectivas, denunciam uma ambiguidade essencial: a ambiguidade constitutiva da figura feminina. A mulher queirosiana de 1867 é um ser irresistível e repulsivo: absolutamente romântico. O incessante processo que Eça lhe moverá será a resposta a uma intuição básica, a de que o desejo fluidifica e desvanece as fronteiras entre a realidade e a fantasia.
Os folhetins d’As Farpas (1871-72), que Eça depois reuniu em Uma Campanha Alegre, fornecem uma explícita síntese daquilo que podemos considerar a fase seguinte da ideologia erótica queirosiana, precisando e aprofundando noções que já vinham de 1867, e sobretudo reformulando-as no interior do paradigma que constituiu sempre para Eça a referência axial mais segura, a moral proudhoniana. As características fundamentais do erotismo positivista queirosiano, o discurso que, repitamo-lo, articulou a sua reflexão de forma mais estruturada e mais consistentemente formulada em termos ideológicos, cifram-se no desenvolvimento de duas noções nucleares que já conhecemos: a misoginia ambivalente e a angústia da decadência, que terão encontrado em Proudhon um eco tranquilizante, uma caução filosófica e um discurso organizado e convincente. Por um lado, os temas eróticos continuam a inscrever-se na ampla figuração decadente, servidos por um discurso que genericamente designámos por discurso da perda. Este discurso, agora, adquire uma espécie de consciência crítica e articula-se em ideologia: trata-se de responder à angústia pela indagação racional das causas objectivas da decadência, e, quanto possível, de lhes apontar soluções. Por outro lado, consideremos que uma das pretensões do Naturalismo é a de libertar o homem da mulher e do sentimento amoroso. O próprio eros positivista se enraíza assim na noção da perda. A supressão da dimensão transcendente da figura feminina, a tradução da paixão pela fisiologia e a redução do eros ao instinto, acompanham a recusa da poética romântica e definem a mulher pela sua exclusiva materialidade, equivalendo à sua proscrição.
No discurso assumidamente pedagógico d’As Farpas, esta tendência manifesta-se pela abordagem de quatro temas correlativos: a educação feminina, o problema do adultério, a concupiscência do discurso eclesiástico, a influência nefasta do sentimentalismo romântico. A languidez, a moleza, a preguiça, a debilidade, a fraqueza, a fadiga, são traços da imagem da menina lisboeta. Esta é a imagem dissolvente da feminilidade invertebrada, oposta precisamente às estruturas típicas do imaginário da virilidade, vigor, dureza, verticalidade, racionalidade, soberania. Uma virilidade física, justamente, com os seus traços solares de pureza e energia, é o que caracteriza a figura contrastiva da distante jovem anglo-saxónica: veja-se o andar de uma inglesa, elástico, firme, direito, sério: sente-se ali a saúde, a decisão, a coragem, a personalidade bem afirmada. Este regime figurativo dominado pela antítese, pela exclusão e pela disjunção, consignada no aforismo de Proudhon sobre a mulher: courtisane ou ménagère, constitui o núcleo duro da imaginação erótica queirosiana. De facto, assentando este regime discriminativo numa perfeita sistematização simbólica, em que os planos físico e moral se correspondem, resulta clara a construção de uma tendência racionalizante e positiva, de reforço e apologia da identidade viril, uma tendência que unirá Eça a, por exemplo, Ramalho Ortigão». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia.

Cortesia de ContraNatura/Wikipedia/JDACT

domingo, 18 de setembro de 2016

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «A quase totalidade da produção não-ficcional de Eça de Queirós, no início da sua actividade literária, materializou-se na sua colaboração n’ O Distrito de Évora»


jdact e wikipedia

A Construção Ideológica
«Da vasta publicação não-ficcional de Eça de Queirós pode emergir, dialogando com a obra romanesca, a construção simbólica de um imaginário erótico. Essa construção é veiculada pela abordagem de uma série temática, de motivação fortemente afectiva, que pode constituir um conglomerado de motivos e uma enunciação de princípios valorativos que terão um elevado poder estruturante, tanto na ficção como no discurso não-ficcional. Constituíram o material de análise os textos deliberadamente não ficcionais publicados na Imprensa, como as crónicas jornalísticas ou os prefácios, ou os textos não publicados pelo autor, como as cartas, recolhidas e publicadas sem a sua presença. Se a motivação jornalística é real em grande parte dos textos, o certo é que, na sua ampla diversidade, todos os textos analisados possuem uma mesma e singular condição de enunciação: a do lugar de mediação e interferência entre as instâncias disjuntas do homem e do autor, do escritor e do leitor. O registo não-ficcional queirosiano traduz, pois, nos seus diferentes modos, o fluente devir de uma subjectividade enunciativa, profunda e ostensivamente comprometida. Assim, a fixação e encadeamento de uma simbólica do eros nestes textos, que actualizam as transformações figurativas e retóricas da subjectividade, poderá mostrá-los, igualmente, como uma reorganização sintagmática de estados de alma, a tradução movente da competência passional de um sujeito enunciador. Também por isso, a análise destes textos integra uma geral indagação do processo queirosiano de enunciar o desejo.
Deste vasto conjunto textual, destacam-se, desde a década de 67, pela sua recorrência e global coerência, dois conjuntos temáticos cuja unicidade simbólica tentarei elucidar: a representação da figura feminina, caracterizada por uma saturação mítica e por uma central dissociação; e a representação da decadência, caracterizada pela perda de um sentido original, pela perturbação de uma ordem e pela aniquilação do vigor consciente. Ambos os conjuntos mantêm cingidas relações entre si e com a crítica literária e social; a desordem feminina e a decadência são as figuras em que, de forma sistemática, se encarna o investimento dos valores, quer estéticos, quer ideológicos. A quase totalidade da produção não-ficcional de Eça de Queirós, no início da sua actividade literária, materializou-se na sua colaboração n’ O Distrito de Évora, jornal de que foi, entre Janeiro e Agosto de 1867, director e principal redactor. Da variada temática desta sua extensa colaboração avulta, e talvez  predomine, o discurso do moralismo social, em que é insistente a referência reprobatória à prostituição e à obscenidade.
Integram a preocupação morigeradora três outros veios temáticos: a representação sarcástica das mulheres, a crítica à decadência literária e a rejeição da vida moderna. De facto, este último constitui o tema englobante e como que explicativo, contextual. Assim, prevalece desde logo uma aguda consciência da decadência que caracteriza o tempo presente. A leitura de Cheiros de Paris, de Louis Veuillot (simultânea aliás à de Taine e à de Victor Hugo) é talvez o ponto de partida factual para a sistemática representação da actualidade cultural como uma época crepuscular e degenerescente. Já presentes nesta época, a artificialidade da cultura urbana e o seu afastamento em relação à Natureza consubstanciam, neste momento, uma fusão curiosa de reflexões e leituras: o romantismo de Heine e Hugo, o áspero e apocalíptico catolicismo de Veuillot, o sentimento de indigenato e a aguda observação de Taine em Voyage en Italie. Será particularmente marcante a imagem de Paris, tipificação da vertiginosa e decadente cidade-civilização, à qual se opõe a doce, indolente e voluptuosa vida meridional. Assim, a representação de Lisboa recupera traços da vã agitação do Paris de Veuillot e traços da preguiça da Nápoles de Taine. A crítica literária constitui outro domínio íntima e explicitamente associado ao moralismo social. Um mesmo quadro da decadência, de que a literatura é um dos mais efectivos sintomas, integra tanto a banal e amaneirada literatura romântica como a literatura exclusivamente retórica de Mallarmé, de Baudelaire, Leconte de l’Isle, Catulle Mendès.
O sexo mercantil, a emancipação feminina, a desagregação dos valores matrimoniais (amor livre), o rebuscamento formal e a consagração literária da paixão ilícita constituem pois, desde 1867, motivos da representação da decadência, integrando uma série simbólica caracterizada pela inversão e artificialidade: isto é, pela perda. Inquieto e ressentido, o discurso da perda processa duas noções básicas: a noção de que o curso da História está inflectido por uma falsificação, uma perversão irremediável; e a noção da aproxima­ção assimptótica de uma catástrofe - que está sempre iminente, mas nunca mais chega: “Hoje em quase toda a Europa se dá o mesmo: na véspera de grandes factos sociais, de terríveis transformações, por toda a parte, na França, na Espanha, na Inglaterra, em Portugal, a literatura decai.
Enquanto a desejada catástrofe não chega, e Eça encenou, por várias maneiras, a sua chegada, a representação do presente enquanto véspera da catástrofe caracteriza-se pelas figuras da estagnação e do torpor que, sempre de uma forma ou de outra associado à languidez e à lascívia, atravessando como um leit-motiv toda a ficção queirosiana, está no Distrito de Évora já plenamente configurada. A reflexão sobre esse vazio interior abre de resto caminho à representação deliciada da influência do clima meridional, a qual, muito provavelmente, terá encontrado uma impressiva sugestão em Taine e nas suas descrições da indolência sensual dos lazzaroni napolitanos». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia.

Cortesia de ConttaNatura/Wikipedia/JDACT