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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) Isso é vida de freira. Uma luz forte entrava através das gelosias por onde se avistavam mastros de navios e o trapiche, roupas de cores vivas penduradas ao sol, sacadas e rótulas de treliças. Ouviam-se cavalos passando, gente gritando, crianças. Mariana animou-se com os ruídos da rua e as luzes que invadiam aquele aposento com cheiro de mofo. Sobre uma almofada, viu o caixote com letras douradas. Chegou na frota, não? Fernando abriu a caixa e retirou o pano, exibindo o retrato com veneração. Nosso rei! Mariana flexionou os joelhos, em cumprimento. Majestade. O rei!, em efígie. É como se estivesse presente entre nós. Mariana curvou-se de novo, agora com muito mais reverência. Os olhos do governador brilhavam. Sabeis o que significa a presença do rei no Rio de Janeiro?, disse Fernando, sem desviar a sua atenção do retrato. A graça real. O poder divino e humano, senhor da vida e da morte dos homens. Os únicos limites do rei são o próprio rei. Ele tem mesmo as sobrancelhas arqueadas. Dona Maria Clara o viu pessoalmente. Significa tenças, empregos, privilégios, benefícios, honra. Poder. Ele é tão jovem, disse Mariana.
Fernando cobriu o retrato. Sobre a mesa do governador havia papéis, tinteiro, areeiro e pena, lacre, um rolo de fita de veludo, relíquias, uma pequena escultura dourada de nereidas nuas entre serpentes marinhas. Quereis tomar algo? Porto? Não, disse Mariana. O governador fez sinal para que o mordomo se retirasse. Ficaram a sós. Como vai vossa mulher? Como sempre, ocupada com costuras ou bilros. E os mancebinhos? Estão todos bem. E vós? Tenho andado bastantemente cansado. É muito mais difícil governar o Rio de Janeiro que Pernambuco. Aqui há problemas imensos, serão mais dois anos de lutas sem tréguas. Fernando tinha que governar as armas e presidir às juntas da Justiça e da Fazenda, com inspecção sobre o estado político, conforme regimentos aprovados pelo rei. Mas como fazer isso se os provedores, ouvidores, tesoureiros, procuradores, escrivães se engalfinhavam?
Além das questões internas o governador devia enfrentar piratas que atacavam em Cabo Frio, franceses rondando e planeando assaltos pelo mar, espiões europeus, soldados que desertavam, o descaminho do ouro, rusgas, desinteligências, antagonismos, paixões, devassidão. Cruzei com o bispo no corredor. Fingiu não me ver. Não creio, prima. Devia estar mesmo cego. Depara-se com problemas terríveis, no momento. Está sem catedral. Espera esmolas do povo a fim de construir a nova Sé, pois o rei não lhe enviou o dinheiro de que precisa. Não podeis dar uns dez mil cruzados de esmola? Vou mandar o senhor Tenório verificar.
Mariana apalpou a bolsa de cintura. Sentiu o volume dos papéis com as contas feitas por Tenório. Desistiu de mostrá-los ao primo; era melhor ser roubada pelo amanuense. Uma dama, dizia sua mãe, não devia revelar nem a si mesma as suas fraquezas. Dona Mariana, soube que andastes vendendo propriedades. Estais com problemas de fazenda? Ah, Deus, não tendes nada que investigar a minha vida. Não vou dar a ninguém o prazer de saber-me arruinada. Uma chusma começou a berrar na rua. Um cortejo fúnebre, ao passar diante do Carmo, estava sendo dissolvido pelos padres que brandiam paus no ar, golpeando os acompanhantes do enterro que vingavam com murros, pontapés, pedradas. Os carmelitas não se conformam com o privilégio da Misericórdia de realizar funerais, disse Fernando. Sabeis quanto se lucra com um enterro? Porque estais sempre contra os padres?» In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

domingo, 5 de maio de 2019

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Um mordomo levou-a à sala de despacho de Fernando Lancastre. No corredor, cruzaram com o bispo. Francisco de São Jerónimo, conde de Santo Eulálio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) Fernando fora nomeado governador por dom Pedro, o mui poderoso rei, por influência da rainha dona Maria Sofia de Neuburgo, que o tivera como protegido. Ambos, rei e rainha, agora estavam mortos. Que Deus os tivesse. O conde de Ericeira, também seu protector junto à Coroa, tinha dado fim à própria vida; jogara-se de uma janela, arrebentando-se no chão. Quem poderia, agora, levá-lo às boas graças de sua majestade? Rendom? Frei Francisco? Seria o confessor do rei um franciscano? De que lado do clero o novo monarca estaria? Dos jesuítas? Dos dominicanos? Teriam os senhores de Belmonte, da família de Rendom, influência junto à nova Corte que se formava no palácio da Ribeira? Fernando sentiu um imenso cansaço. Membros do seu conselho tentavam persuadi-lo a conceder renovação do contrato a frei Francisco, certamente subornados pelo pérfido trinitário. Entretanto, o rei tinha dado mostra de estar ao lado dos descobridores paulistas, como seu real pai. Mandara, pela frota que acabara de chegar, uma caixa contendo um presente régio da maior magnificência e esplendor.
Está bem, senhores. Farei a carta de suspensão e a enviarei com urgência ao senhor Borba Gato. Os paulistas trocaram um olhar vitorioso. O governador dirigiu-se a uma câmara reservada. Entrai, senhores. Gostaria de mostrar-vos algo. Retirou um pano preto que encobria um quadro. A imagem apareceu diante dos olhos maravilhados dos homens: um jovem de olhar pacífico e resoluto. Sob a pintura, a inscrição. Johannes Portugallia e Reges.

Mariana desceu a ladeira até à várzea. Cruzou a rua Direita e entrou na casa do governador, um prédio alto, guardado por soldados à entrada principal. As pessoas que esperavam na antecâmara tinham o ar de pedinte astucioso ou humilde, com excepção de um franciscano, que andava de um lado a outro, impaciente, com as mãos nas costas e que de vez em quando parava e olhava em direcção à porta da sala onde desejava entrar. Num banco mais afastado, dois rapazes seguravam cestas de hortaliças. Num canto, um soldado vigiava um homem acorrentado. Mariana foi prontamente recebida após o anúncio da sua chegada, o que causou admiração entre os que aguardavam, certamente há longas horas, serem atendidos pelo governador. O padre lançou-lhe um esgar irritado. Um mordomo levou-a à sala de despacho de Fernando Lancastre. No corredor, cruzaram com o bispo. Francisco de São Jerónimo, conde de Santo Eulálio, em brocatel de seda carmim e fio de ouro laminado, passou pela fidalga com o cenho franzido v cabisbaixo, sem notá-la. Fernando esperava-a em pé, na posição de alguém prestes a servir de modelo a um pintor, o corpo erecto, a mão esquerda sobre a mesa e a direita na cintura. Dona Mariana, curvou-se. Na presença de mulheres, sentia olhos críticos sobre si. Há quanto tempo não nos vemos. Nunca mais vos encontrei na missa, abandonastes as aulas de música no palácio, não viestes, em Janeiro, à festa comemorativa da coroação de nosso rei. O que está acontecendo? Tenho ido à missa nos Jesuítas, que é mais perto. Gosto de ficar em casa, olhando gravuras e o movimento na várzea». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

sábado, 4 de maio de 2019

O Retrato do Rei. Ana Miranda. « Mas foram paulistas os que gastaram o seu dinheiro, e o seu sangue, para desbravar os sertões. O rei dom Pedro, que Deus tenha, havia prometido que os descobridores de ouro seriam donos do lugar»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) Um abuso contrário à profissão desses religiosos. Concordo, senhores, disse Fernando de Lancastre. No palácio, dois paulistas conversavam com o governador. Um deles, Rendom, vestido com roupas de fidalgo, batia impaciente com a bengala no joelho. Tinha o nariz recto e olhos negros herdados de seus ascendentes espanhóis. O contrato da carne tem que passar para as nossas mãos, disse Rendom. Talvez fosse melhor acabar com o monopólio. Seria mais justo que todos pudessem negociar a carne. Paulistas ou quem quer que seja. Isso para evitar muita ruína. O governador temia tomar partido. O contrato da carne era assunto embaraçoso, havia imensos interesses envolvidos. Precisava ser prudente. Mais ruínas do que já causaram os forasteiros?, disse Kendom. Foi um baiense quem investiu as suas riquezas para limpar o Caminho do Gado dos bandidos que o dominavam, argumentou o governador. E não um paulista. Mas foram paulistas os que gastaram o seu dinheiro, e o seu sangue, para desbravar os sertões. O rei dom Pedro, que Deus tenha, havia prometido que os descobridores de ouro seriam donos do lugar. Nós, paulistas, encontramos o ouro nos sertões. Sem que pudéssemos esperar por isso, o monarca abriu as minas para os estrangeiros. Respeitamos tudo que vem de alta majestade, é claro, mas já estamos sofrendo demasiadamente com a presença dos forasteiros, sejam reinóis, pernambucanos ou baienses. Se soubésseis o tipo de aventureiros que chegam de Portugal, ficaríeis horrorizado. Os sujeitos envolvidos no comércio da carne são facinorosos, homens de contrabando. Cobram o que querem por um quarto de boi. Com o contrato da carne em nossas mãos, poderemos ter maior controle sobre os desmandos do lugar. Não é no dinheiro que estamos interessados. Sei disso, disse Fernando. O senhor Rendom pretende partir na frota para Portugal, disse o outro homem, Júlio César, com agravo ao novo rei. Fernando dissimulou a sua aflição aspirando ar e elevando o rosto. Colocou as mãos sobre a mesa. Agravo? Sim, disse Rendom. Tenho apoio dos senhores de Belmonte em Portugal. O rei me receberá, vossa mercê sabe que faço parte da nobreza.
Vou dar a sua majestade notícias dos sofrimentos do povo. Levo também denúncias acerca de sonegamento dos impostos, e sobre o contrabando de ouro que os reinóis praticam à sombra das concessões. Evidentemente, não vou comprometer-vos diante do soberano ou do Conselho Ultramarino. Fernando sentiu os seus músculos se distenderem. Gostaria de ajudar-vos mais do que posso, disse o governador. O contrato da carne é privilégio concedido pelo rei, que Deus guarde. Sua majestade está assoberbada, começando o seu reinado com a terrível guerra da sucessão de Espanha pela frente. Não vai poder dar ouvidos a assuntos tão pequenos. E ainda não me decidi completamente sobre a matéria. Sabemos que apenas o rei pode conceder o contrato. Mas vossa mercê, como governador da capitania, pode suspendê-lo. O governador caminhou pela sala, com as mãos às costas. Media as possíveis consequências de um encontro do nobre paulista com o soberano. Quem seria aquele jovem que iria reinar sobre todas as terras de Portugal e das colónias? Dele, Fernando sabia apenas que era belo, apreciava a música e fazia alternarem-se no seu leito todas as mulheres que desejava, entre nobres e plebeias». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Houve alturas em que tive febre e o meu corpo cheirava a pus. Afastava-me das pessoas para evitar que dessem por isso. Três anos se passaram…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Raquel, concentrada naquilo que lhe contava, perguntou bruscamente porque lhe revelava isso agora. Ignorei a pergunta nesse instante, todavia, mais tarde, expliquei-lhe que depois de ter ouvido falar tanto, e tão mal, do Diabo, decidi que alguém devia combatê-lo. Senti-me investida dessa missão. Queria salvar o mundo. Toda a gente pensa nisso pelo menos uma vez. Atalha a minha amiga. Deixa-me contar, Raquel. E ela, dócil, ouvia. O caminho entre a casa e a escola era bastante longo. Atravessava sozinha, e a pé, um sítio ermo onde a vegetação crescia subjugada à lei do silvedo. Havia uma ordem, uma hierarquia neste local. O chão cobria-se de ervas rasteiras que no início do Verão, antes das férias, atingiam a minha altura. Depois, havia cardos cujas flores, rosa pálido, atraíam borboletas e abelhas. Havia olmos gigantes de troncos largos, abraçados por silvas novas de um verde sinuoso e reluzente, como pele de serpente, e havia trepadeiras com flores de cor branca ou lilás, e um silêncio sepulcral que me arrepiava quando o vento se apagava nos negrilhos. As urtigas bordejavam todo o caminho como sentinelas, trançando uma linha territorial que não poderia ser atravessada sem perigo. De pernas nuas, caminhava pelas urtigas como quem caminha pelas águas. Outras vezes, colhia um molhe de urtigas e ficava a ver o sangue irrigar a pele fustigada pelos açoites cadenciados que eu própria me infligia. Despia-me para açoitar as costas, o ventre e as pernas. Apenas zonas que estariam cobertas pela roupa, para não atrair a atenção. Os pêlos do caule e as folhas desencadeavam uma irritação avermelhada e uma coceira que devia aguentar. O ardor era intenso, mas aguentava. A inflamação e as bolhas demoravam a ir-se porque, nos prados e baldios, o tempo das urtigas era longo. A enfermidade do corpo, submisso à dor, correspondia ao tempo das urtigas. Ditava-me esta pena como um moral dever e, à semelhança dos restantes seres vivos, homens, animais e plantas, admitia a dor como lei universal. Tomava-a como um legado, uma transmissão, uma ordem irrevogável da natureza para me abrir os olhos, para me obrigar a querer ver os submundos em redor. A minha força, visto assim, deixara de suportar a minha fraqueza, fartou-se dela.
Mais tarde, experimentei o fogo. Depressa me familiarizei com um odor intenso de pele queimada pelos fósforos que roubava na zona da cozinha. A pele humana carbonizada tem o mesmo cheiro que a pele de porco contou-me um dia um jornalista que cobriu a guerra nos Balcãs, zona maldita, onde o Demónio se esconde, dizia ele. Eu conhecia esse cheiro. Daí à dilaceração da carne, em longos golpes lentos e pouco profundos, foi um passo. Mal uma ferida cicatrizava recomeçava outra no mesmo local. Ao fim de um certo tempo, acabei por abandonar o recurso a qualquer objecto, limitava-me a arrancar as crostas das feridas com as unhas, para que nenhuma tivesse tempo de sarar. Houve alturas em que tive febre e o meu corpo cheirava a pus. Afastava-me das pessoas para evitar que dessem por isso. Três anos se passaram sem que, na família, alguém se apercebesse, notasse ou desconfiasse de algo.
Inadvertidamente, numa dessas sessões de automutilação, acabei por atingir uma veia. Encontrava-me na casa de banho do colégio cujas paredes expunham, abertamente, o conteúdo das almas que por lá transitavam. Os rabiscos, os palavrões, os poemas ao cocó e ao chichi fazem crer, como Heraclito dizia, que o pior de todos os males seria a morte da palavra. Um segredo assim, como fizeste para guardá-lo tanto tempo? Era Raquel que se comovia na pergunta e se imprimia nela de forma desnecessariamente piedosa. Não sei, não sei Raquel. Deixa-me contar. E ela acenava que sim, cabeceando, sem produzir qualquer outro som ou ruído. Uma vez transportada do colégio ao hospital, tudo se descobriu. A freira, professora de português que me tirara da retrete, alertou os médicos para as cicatrizes do meu corpo. Tinha tentado antes, mas em vão, extorquir-me qualquer coisa. Nada obteve. Conservei o maior segredo sobre as práticas de martírio, e acabaram por acusar o meu pai de tortura e de sevícias, o que não surpreendeu ninguém. Na cidade, toda a gente conhecia o carácter do velho velhaco. Sobre o que realmente sucedera comigo, o enigma manteve-se. Nunca souberam a verdade. Deixei que o acusassem. O mal pago pelo mal constituía a minha vingança. O ódio que em mim o velho sempre despertara, falou mais alto.
E, agora, vejam bem! A primeira e única experiência como mártir acabou em vitória para Satanás. Sem pensar, tornara-me uma má pessoa. Ninguém é mais esperto do que o Diabo, garanto-vos. Digo-vos tudo isto para traçar, diante dos vossos olhos, o caminho encoberto que me levou a Jean e aos meandros do mal, que eu julgara bem. Os actos sejam eles quais forem só serão conhecidos pelos seus efeitos, e quase sempre, como que apiedados de nós mesmos, fazemos por ignorar as causas das coisas que nos sucedem. Comigo foi assim. Raquel escutava, e olhava-me como se me visse pela primeira vez. Encorajada pelo seu silêncio, continuei o relato desse período longínquo. Disse-lhe que o mal assume múltiplas formas e, pode mesmo, ser dissimulado em boas acções. Quem nunca conheceu um Diabo com cara de Anjo? Sim, claro, acabo de dizer uma grande banalidade. Pois, justamente. Falemos de banalidades sem artificialismos. O mal banalizado deixa de se ver, porque se fez aceitar. Contudo, o mais escabroso e ingrato, expliquei a Raquel, é o mal pequeno, o mal menor que, praticado em grande escala, faz de nós seres terríveis, tão terríveis e cruéis como o Sr. Veneno, a alcunha de um homem que eu conheci, na aldeia da minha avó.
O Sr.Veneno era um camponês, não muito alto, mas largo e forte, cujo vulto parecia agigantar-se quando se zangava. Vestia todos os dias a mesma roupa. Uma camisa vermelha de flanela aos quadrados cinzentos sob uma camisola de lã alaranjada com as mangas grosseiramente cosidas. Tinha a reputação de ser um homem cruel e avarento, que olhava os outros com olhos de gula, como se o mundo inteiro lhe devesse qualquer coisa ou tudo o que os outros possuíam lhe fosse devido. Há pessoas assim. Contava-se que dormia na horta no tempo das cerejas, para evitar que os pássaros viessem debicar os frutos e os legumes ao nascer do dia». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Disse a Raquel que Lara perdera nitidamente a batalha. Ela foi-se e ele continua vivo e a torturar outras tais que a minha irmã, iludidas de que o amor cura e salva»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quero ver cabra, deixa ver como as tens, minha cabra, xingava no corpo a corpo, escavando túneis de tecido com as mãos. Entre os móveis pardos da cozinha resistiria. Resistiria até ser ganha pela fraqueza, falta de solidez face à compleição do bicho. Arfava e largava sobre mim um hálito podre, embebido em cerveja e cigarros. Fui salva pelo carteiro que, nesse preciso instante, bateu à porta para lhe entregar um telegrama. Era a notícia da morte da minha irmã. Contei a Raquel que passei a ver em todos os homens a mesma malvadez. Pensamos, na família, que Lara morreu devido a lesões causadas pela violência do marido. Nunca se confirmou. Oficialmente tinha um tumor maligno. Não compreendia como depois de conhecer o pai que tinha, Lara não soubera escolher um homem melhor. Não percebes nada, Laura, não escolhemos a pessoa por quem nos apaixonamos, defendia ela. Respondia-lhe em revolta que comigo seria diferente, que jamais homem algum me poria as patas em cima. Disse a Raquel que o mal pertence ao género masculino e, ao lançar um olhar pela história do mundo, chego à conclusão de que os personagens mais terríveis são um fiel decalque uns dos outros. Déspotas, usurpadores, sicários, pérfidos, destruidores, sanguinários. Abundam os exemplos, através dos tempos, em todos os povos, em todas as terras, em todas as vilas, em todas as casas. O mal é um elemento do cromossoma constituído por um segmento de ADN que se transmite de pais para filhos, um gene que se multiplica, que se reproduz em silêncio e no silêncio dos cantos escuros.
Insistia com Raquel que contrariar a sua existência, eliminá-lo, será exterminar uma parte de nós mesmos, como amputar um braço ou uma perna. E, nisso, Jean tinha razão. Lembro-me do ano 1999. Fim de milénio. Poderia ter sido um ano de redenção. O Diabo é um Homem, e um Homem pode mudar. Houve tempos bárbaros, cruéis. Todos os povos da terra, em todos os tempos, tiveram os seus líderes malvados. No meu tempo, o mal somos todos e cada um de nós, porque temos consciência dele. Podemos aceitá-lo, compactuar com ele ou recusá-lo de forma objectiva e consciente. Se acreditasse nas histórias contadas pela minha avó, a primeira coisa que Jesus deveria ter feito quando chegou à Terra era ter salvado o Diabo de si mesmo, resgatá-lo do mal como qualquer outra criatura em perdição. São os seres maléficos, mais do que quaisquer outros, que precisam da salvação. Ora, não sei porque estratégia divina ou maligna, Jesus parece ter perdido essa batalha e acabou morto crucificado e o Diabo à solta no mundo. Contei a Raquel que, anos mais tarde, encontrei o diário de Lara e soube, ao contrário do que eu pensava, e do que a avó e a mãe diziam, que ela não vivia as penas do inferno com o marido, mas um amor cego, pleno de compaixão. No dia vinte e seis de Agosto de 1988 ela escreveu:

Ele sofre tanto, meu Deus! Fora esses momentos em que com o meu amor posso confortá-lo e aliviá-lo daquilo que o atormenta, nada posso, senão oferecer o meu corpo como receptáculo dos seus demónios. Depois de descarregar em mim essa violência, vejo que fica mais calmo e isso conforta-me. O meu corpo dorido, conta menos que o seu olhar apaziguado pousando sobre mim, como a pedir perdão. Ele carrega todo o mal que lhe fizeram e procura desesperadamente uma remissão. Dou-lhe o meu corpo em troca das nossas duas almas, porque sei que salvando-o salvar-me-ei. O mal não pode ganhar. Amo-te F.

Disse a Raquel que Lara perdera nitidamente a batalha. Ela foi-se e ele continua vivo e a torturar outras tais que a minha irmã, iludidas de que o amor cura e salva. A minha avó lia-nos, quando crianças, a História dos Santos Mártires cujos corpos, dizia ela, a terra não há-de comer. Ela repetia que para combater o mal há que compreender o sofrimento. É o que se lê nas Sagradas Escrituras, debatia para nos convencer. Durante esses serões, à volta de um livro grosso como a bíblia, a imensidão do mundo sentava-se connosco ao borralho. A avó Xoxota não se coibia de bizarrias. Tinha uma velha colecção em vinil de cantos da Idade Média, Josquin des Pres, John Dowland, G. Pierluigi da Palestrina, e à força de tanto os ouvir passei a detestá-los, mas nessa altura ainda me encantavam. Pus-me, em segredo, a analisar essa ideia vaga de sofrimento de que a avó falava, com a pretensão inocente de destruir o mal. Na enormidade dessa insipiência, quis acreditar que Deus precisava de ajuda. Ia seguir o exemplo dos Santos Mártires, como Santa Bárbara, uma jovem assassinada pelo pai que, pagão, quis obrigá-la a renunciar à fé. Diz a lenda que o homem morreu fulminado por um raio. Os Santos Mártires venceram o medo da dor física pela determinação e coragem da sua fé, dizia a avó. A partir deste pressuposto lancei-me, na experiência solitária de um longo ensaio sobre o sofrimento. Aos seis anos, mutilava partes do corpo, testava a dor física como meio de fortificação da alma». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Irónica escolha, a dela. O destino trocou-lhe as voltas e riu-se à farta na sua cara. Ao terceiro ano de casamento, recebeu a notícia de um tumor no fígado como uma carta de chamada ao paraíso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Contei-lhe, por isso, que no dia da morte da minha mãe, estava ausente e zangada com ela. Contei-lhe que, um ano depois, no dia da morte da minha irmã, estava igualmente longe, e soube que a mortalha fora preparada na cama que partilhámos durante a infância, na grande casa familiar construída pelo pai, no bairro clandestino das Searas. Contei-lhe que, meses mais tarde, a dois mil quilómetros de casa, recebi a notícia da morte da avó materna, já o seu corpo jazia entre vermes húmidos e madeira carcomida. Expliquei-lhe como as mulheres mais importantes da minha vida desapareceram, num curto espaço de tempo, umas atrás das outras, como se de uma maldição se tratasse. Da minha parte, nem um adeus, nem uma única lágrima. Ainda não tinha dezoito anos. Ninguém está preparado para tanta morte. Contei-lhe que vivi esses tempos, longe do meu corpo, sendo outra pessoa que não eu, divorciada do dever moral de chorar os mortos, de assistir ao funeral e de vestir o luto. Não experimentei tristeza, nem desespero, nem angústia, nem medo, nada. Apenas uma espécie de baque ensurdecedor, como quando a cabeça percute uma superfície dura e plana, um nó no estômago que com o tempo se transformou em qualquer coisa que nem sei definir. Uma a uma, todas se foram, e hoje já nem sei se um dia existiram, nem se a imagem que trago delas corresponde a um pedaço de vida real. Contei a Raquel que a minha irmã, Lara, tinha apenas vinte e dois anos quando morreu. Que de repente apareceu doente.
Apareceu. Antes nunca tinha tido notícias de qualquer fraqueza física. Que um dia entrou em casa com o ventre tão inchado que lhe perguntei a sorrir, estás outra vez de barriga? Lara casara com o seu primeiro e único namorado aos dezasseis anos. Desde logo alcançou, como dizia a avó, sendo este o único termo que usava para designar gravidez. Uns meses depois, e logo após o primeiro filho, teve um segundo. Duas filhas e um casamento infeliz. O marido, próprio das selvas, como dizia a avó, batia-lhe. Lara sempre o defendeu. A avó ainda tentara convencê-la a partir, a emigrar para França com as filhas, ele não saberia encontrá-la. Lara explicava pacientemente à avó que não podia fazer isso, que ele precisava de ajuda, que precisava dela e das filhas para se curar do mal que tinha. O que Lara não dizia, é que vira no casamento um meio para se libertar das garras do nosso pai, um homem rude e autoritário, e tão violento quanto o marido que arranjara.
Irónica escolha, a dela. O destino trocou-lhe as voltas e riu-se à farta na sua cara. Ao terceiro ano de casamento, recebeu a notícia de um tumor no fígado como uma carta de chamada ao paraíso. Não sabia ainda que tinha poucos meses de vida, percebeu, pelo menos, que seria afastada de casa para uma longa hospitalização. Uma bênção. Pensou a avó. Durante o período de internamento, calhou-me a tarefa de lhe cuidar das duas filhas. Um mês chegou, para sentir na pele o inferno que era o dela. Logo desde a primeira semana, o conjunto dos sentidos tocava a rebate. Perigo, perigo, gritavam-me de dentro sobressaltadas vozes, convocando as forças. Fugi, larguei a casa. O marido da minha irmã era um louco ignorado, o mal que não se via. Socialmente era um tipo afável, apreciado pela sua generosidade. Essa era a porção visível, patente aos outros. O resto, a parte oculta, não poderia ser interceptado a olho nu. Astucioso, maquiavélico, teria acabado por me beber a lucidez como fizera com Lara. Surgia-me, às vezes, à entrada da porta da cozinha, com um olhar gélido de bicho, como um animal de sangue frio, predador, determinado a fazer uma vítima. Enquanto me ocupava das crianças, costumava lançar obscenidades em palavras embrulhadas, dissimuladas e ambíguas. O marido de Lara entregava-se a esse jogo de prazer lento e prolongado, procurava, assim, atrair a minha atenção e desmanchar-me a rigidez. Era um homem de silêncios penetrantes e calculados ou, outras vezes, uma espécie de coisa em estado incerto, transbordante de cortesia e delicadeza. Injuriada, abandonei-lhe a casa, no dia em que avançou sobre mim com um ardor suíno, violando todas as convenções. Imobilizada contra a parede da cozinha, temi o pior». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Percebi-o numa tarde de Setembro, com prenúncio de fim de Verão. Sentei-me preparada para a habitual enxurrada de palavras sem fio condutor, mas enganei-me»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Compreendi que ela passara demasiado tempo calada. Ficámos amigas. No dia em que teve alta fui buscá-la de carro à entrada do hospital e fomos comemorar o seu regresso à vida, o seu renascimento como ela gostava de dizer. Ocupámos duas cadeiras numa esplanada de Montmartre, não longe da basílica do Sagrado Coração onde ela assistia religiosamente, todos os domingos, à missa das cinco, seguida de um concerto de música barroca. Ainda não vos disse que entre mim e Raquel não havia praticamente nada em comum. Éramos seres radicalmente opostos. No entanto, ambas apreciávamos com o mesmo deleite, a música do período barroco, todas as paixões de Bach. Ela adorava Haendel eu preferia as sinfonias de Hayden, o que não nos impedia de ir juntas aos concertos de ambos. Fora isso, desconhecíamos tudo sobre os compositores clássicos e, tanto uma como outra, confundíamos facilmente o romantismo de Brahms ou Dvorak com o modernismo de Prokofiev ou Debussy. Pouco interessa. A nossa amizade formou-se e consolidou-se de pequenas coisas, acrescentando o facto que lhe podia falar de mim e de Jean horas a fio, sem que ela pestanejasse. Percebi-o numa tarde de Setembro, com prenúncio de fim de Verão. Sentei-me preparada para a habitual enxurrada de palavras sem fio condutor, mas enganei-me. Acomodada, quieta, reconciliada, Raquel olhava em silêncio, respirava em silêncio e nesse não puxou conversa. A minha mãe dizia que somos todos iguais na morte, e no silêncio, devo acrescentar. O silêncio é a solidão do Diabo, o terreno fértil do maligno, defendia a minha mãe. Ela dizia que devemos rezar, rezar muito, porque o Diabo teme o verbo. É, talvez, devido a isso que amo as palavras. Um amor interesseiro que importa, todo o amor é interesseiro. Foi a inesperada mudez de Raquel que me desatou a língua. Uma crise de verborreia, fenómeno associado a certas doenças mentais, veio destampar o túmulo onde habitavam todos os meus mortos. Sim, porque os mortos vivem em nós e, mesmo contra nossa vontade, habitam-nos e resistem. Tive receio que Raquel me tomasse por uma aberração de contradições. Ela não devia saber que a obsessão pela pureza me corrompia e que a lógica do caos me exasperava até à demência. Seria isso a loucura? Um estado permanente de negação do real e de si mesmo? Seria eu louca como esses que ninguém vê? Louca como esses que ninguém viu até que a insanidade lhes rebentou nas ventas, em forma de bomba artesanal, também dita cocktail molotov que fazem depois a abertura dos telejornais e as capas da imprensa.
Como pode um louco passar despercebido a esse ponto?
Jean soube vê-lo, desde logo, na primeira correspondência que trocáramos. Face a esta Raquel muda e retirada, foi como se toda a loucura me viesse em vómito despejar-se à nossa mesa. O momento prestou-se a descarregar todas as velharias inúteis e outras que nunca conseguira contar a ninguém, nem ao meu psiquiatra. Nem ele saberia analisar essas teias de aranha, escondidas como segredos inconfessáveis, que eu julgava expulsas da memória graças à bulimia das imagens. Pura ilusão. A memória é eterna, tal como rezam os epitáfios à cabeceira das campas, nos cemitérios. Para tudo vos dizer, nunca fui de pequenas ou grandes confidências. Habituei-me a pagar sempre que necessitava de confiar-me a alguém. Ao meu psiquiatra dava sessenta euros por uma hora de consulta e nem sequer recebia conselhos.
Fazia sentar-me frente à secretária de mogno preta, e mandava que falasse sobre tudo o que me aborrecia, sobre o que era suposto perturbar-me. Depois ouvia, ou fingia que ouvia, sem dizer a mínima, e eu pagava e saía. Um dia, cansada de falar sozinha, despedi-o. O Nicolas Cornelius, que era consultado por muita da pequena burguesia parisiense deprimida pelos Media torceu o nariz ao saber que não voltaria a receber os meus sessenta euros. Era um belo homem e agradava-me passar uma hora a sós com ele, todos os quinze dias. Houve momentos em que pensei, que tantas horas no seu consultório, a sós, poderiam ter dado em caso. Mas não deu. Nunca gostei do seu cheiro. Usava com frequência perfumes diferentes, sendo que parecia não haver fragância que lhe ficasse bem. Troquei-o por Raquel. Ao menos Raquel não me deixava a falar sozinha. Fiz dela a minha confidente, não porque a sabia incapaz de quebrar o segredo de confissão mas, sobretudo, porque Raquel acertava sempre nas palavras. O olhar terno, a voz mansa, o calor da sua mão a afagar levemente o meu braço e as letras a saírem-lhe da boca para formar mensagens de reconforto, os verbos no tempo certo, e eu a apaziguar-me por dentro como se acostasse a uma ilha e me sentisse, enfim, segura, como uma filha ao lado de uma mãe». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Mariana mandava-lhes o que pediam apenas para se livrar deles. Agora a sua riqueza estava a ponto de se acabar. O que seria dela, pobre, sem marido, sem escravos?»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O dia surgiu com uma luz roxa; os sinos das igrejas tocaram em uníssono. Mariana quase não dormia. Ao acordar do sono curto daquela noite teve uma sensação de peso sobre o peito. Levantou-se da cama, sentindo-se indefesa. As toalhas haviam sido trocadas; a bacia estava cheia de água, as saias estendidas sobre uma cadeira, os sapatos ao pé da cama. Mariana abriu a arca de noiva. Um cheiro de mofo penetrou em seu nariz. Retirou os pós, os perfumes, as cabeleiras, que não usava mais, as roupas que tinham sido da sua avó, de sua mãe, depois suas. Estreitas, delicadas, com rendas e enfeites. Vestiu uma delas. As mulheres cultivavam a alicantina da falsa fragilidade. A sua mãe dizia que os seres masculinos eram muito vulneráveis e por esse motivo precisavam de pistolas. Nenhuma mulher devia temer um homem. Mariana foi tomada de um enorme ânimo; a possibilidade de um encontro com o pai a confortava; a ideia de retornar das Minas com uma grande herança lhe trazia alívio. Quando pensava em fazer uma viagem, a sua pulsação tornava-se mais intensa. Nos últimos meses ela andara cogitando demais sobre a morte. Era vista com reservas e mesmo censura pela gente principal. Dom Fernando tentara, por diversas vezes, fazê-la contrair novo matrimónio. Apresentava-lhe ridículos gentios da Corte, aos quais ela demonstrava indiferença ou desprezo. Se partisse para as Minas a sua reputação estaria, de vez, destruída.
Embora muitos a julgassem uma mulher de hábitos anormais, havia por ela um certo respeito, devido à sua posição. Doava dinheiro para as igrejas, recolhimentos, misericórdias e caridades, para os pobres e estrangeiros, vagabundos e poetas, e no Rio de Janeiro havia tantos poetas como carrapatos nas patas dos cavalos. Escrivãos, varredores de pó de casas de livraria, estudantes apaixonados, amanuenses, advogados confundiam a sua medíocre actividade de garranchar letras com engenho poético. Viviam a solicitar-lhe jantares, carruagens, passeios e caça, quando não dinheiro para ficarem taramelando por aí. Mariana mandava-lhes o que pediam apenas para se livrar deles. Agora a sua riqueza estava a ponto de se acabar. O que seria dela, pobre, sem marido, sem escravos?
Como seria o lugar das Minas, que o amanuense descrevera como povoado de mulheres nuas uivando e homens se atracando? O que significavam cinco arrobas de ouro? Todos sabiam como eram as histórias de Eldorados. O ouro demonstrara a sua poderosa força maléfica em Ofir na Arábia Feliz, e em Golconda da dinastia Kutb Chahi; nas ilhas de Crísis e Argira, de onde se esperavam arrancar rochas inteiras de ouro e prata. Eram conhecidas as proezas de Marco Polo em Xipangu, as lendas das cornucópias de Hispaniola onde índios adornavam os lóbulos das orelhas e narizes com argolas de ouro. As fábulas de cabo Ledo, cabo das Três Pontas; de Kantora, em Gâmbia; dos contrafortes de Fatu Jalón, onde ficava a esplendente jazida de ouro em pó da ilha de Tibar. Os homens estavam sempre a lavar tijolos. Mariana precisava ver o pai, fazer-lhe uma pergunta cuja resposta poderia mudar a sua vida. Assim, pediu a Tenório que avisasse a Valentim sobre a sua decisão: iria partir para os Sertões dos Cataguases, o El Dourado das serras mineiras». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Estivestes com dom Fernando no palácio? Tenório aquiesceu. Dissestes alguma coisa a ele, sobre meu pai? Não. Nada. Ele perguntou por mim? Sim, como sempre»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O lugar abrigava uma corja de errantes e vadios, de quadrilhas hostis, ferozes, gananciosas. Mesmo os principais viviam de lugar em lugar, como os filhos de Israel no deserto. Respeitavam apenas a força dos músculos ou da pólvora. Os paulistas que residiam nas Minas julgavam-se donos daquilo tudo ali, do ouro, das águas, das terras, das montanhas, das florestas, do céu e das nuvens. Até mesmo do ar que respiravam. Os portugueses, os baienses, os pernambucanos, que ali eram chamados de forasteiros, tinham que se contentar com as piores repartições dos riachos auríferos. Todos os chefes no lugar eram paulistas. Além de suportarem o domínio dos naturais de São Paulo, os portugueses, intimidados, tinham que ouvir calados as insolências dos bastardos e dos tapanhunas que andavam à proa dos potentados adversários. Os escravos tupis dos paulistas e os negros africanos dos portugueses brigavam nas ruas. Não só os pobres, mas também os ricos descompunham e contendiam com os seus inimigos. Todos andavam armados com pistolas, facas, clavinas. Os paulistas saíam em grupos, tocando caixa e trombeta, gritando contra os reinóis. Fora daqui! Para casa!
Os lusitanos amedrontavam-se e fugiam. Não é lugar para nenhum reinol, quanto mais uma fidalga, concluiu Tenório. Vossenhora é portuguesa, ireis sofrer com as opressões. Aqui todos brigam, também; todos se desentendem. Que diferença há entre o Sertão dos Cataguases e o resto do mundo, ao final? O ouro.E o que mais soubestes? Que o senhor Valentim é paulista. Paulista? Pode ser ladrão, violador de mulheres, falsário, judeu... Não, judeu, ele não é. Como sabeis? As rameiras conhecem. Tenório, agitado, pisava com as suas botas sujas no tapete de damasco. Pode ser uma cilada. Não acredito que o senhor Valentim seja mau, disse Mariana. Como posso aconselhar a vossa ida? Andar pelos matos com um natural da terra... Ele está ao serviço do meu pai. Parece uma onça de pernas compridas. O que há de mal em ser paulista? São selvagens, têm sangue misturado, vivem na desordem, cultivam o nomadismo e a crueza.
Ele tem bons modos, disse Mariana. Sabe falar. Com outras roupas, pareceria fidalgo. Ouvi dizer que há muitos paulistas de bons troncos, até mesmo aristocratas. São todos rudes e iletrados. Ficaram em silêncio. Tenório batia insistentemente a ponta do pé no chão. Estivestes com dom Fernando no palácio? Tenório aquiesceu. Dissestes alguma coisa a ele, sobre meu pai? Não. Nada. Ele perguntou por mim? Sim, como sempre. Mariana pegou nos papéis com as contas, que estavam sobre a mesa, e guardou-os. Essa história de herança deve ser mentira. Tenório insistiu. Vosso pai deserdou-vos. Conheço-o muito bem. As pessoas modificam-se com o tempo, senhor Tenório. Porque o senhor Valentim iria mentir? Porque motivo viria chamar-me? Como acreditais num sujeito que se chama Valentim e tem aquela triste cara de ovelha desgarrada? Pode ser até mesmo nome falso. Deve chamar-se Borrego. Mariana sorriu da tolice de seu amanuense.
Ouviram uma gritaria na rua e foram à varanda. Pessoas corriam pela rua Direita com tochas nas mãos. Sabeis quem fugiu para as Minas?, disse Tenório. Bento Amaral Coutinho. Matou um plantador de cana com sessenta estocadas, e dessa vez a sua família nada poderá fazer; nem sempre o dinheiro resolve. Os irmãos do morto juraram vingança. O povo está correndo para a casa de dom Fernando, exigindo a prisão do assassino. Não há ninguém mais agressivo no Rio de Janeiro do que Bento Amaral. Mas tenho uma dívida de gratidão para com ele, ajudou-nos quando da morte do meu marido. Gostaria de poder retribuir-lhe de alguma forma. Tarde demais, disse o amanuense e saiu, tropeçando nos próprios pés». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «O que dizer de um lugar onde uma cesta de biscoitos pode custar o mesmo que um cavalo?, disse Tenório. E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O rosto do barão continuava nítido na sua mente: bigodes e cabeleira farta, a testa estreita. Sob os olhos, bolsas membranosas, dobras e sulcos longitudinais como o dorso de uma lagarta. Uma rajada forte de vento fez bater a janela, assustando Mariana. Com um arrepio imaginou o seu pai irrompendo na sala; não parava de pensar nele e sentia o rosto em brasa. Quis conversar com alguém. Aurora adormecera numa poltrona. Ouviu o ranger do portão e foi à janela. Tenório cruzava o alpendre, pisando com leveza o chão xadrez de granitos. Nuvens pairavam no céu, prenunciando chuva. O mar parecia um enorme buraco sem fundo, cortado por rastos de pequenas embarcações de pesca. Luzes espaçadas tremulavam nas ruas. No jardim as boninas flutuavam com as suas grandes flores de corolas brancas abertas. Tenório viu a baronesa à janela e acenou. O que houve?, disse Mariana. Preciso falar-vos.
Tenório subiu as escadas. Mariana acordou Aurora e mandou-a deitar-se no quarto. A criada, sonolenta, cumpriu a ordem murmurando como uma cabeça falante do relojoeiro Gastão. Perdão pela hora, disse Tenório, ao entrar na sala, ofegante. Mas é que estive andando atrás de informações. Cheirava a perfumes femininos, suor. As botas estavam sujas de areia. Tinha os olhos cansados e um sorriso culposo que mostrava dentes velhos manchados de vinho. Tive muito trabalho, mas consegui, disse Tenório. Depois andei em palácio, nas tabernas e na alfândega. O seu hálito fétido causou em Mariana uma sensação de repugnância. Não deveis ir para as Minas, disse o amanuense. Eles estão matando os portugueses. Quem está a matar os portugueses? Andaste a beber novamente? O problema, disse Tenório, recompondo-se para ser mais persuasivo, desde que descobriram o ouro, de todos os lugares do mundo homens ambiciosos e sem escrúpulos partiram para o Sertão dos Cataguases. As pessoas que moram lá não prestam. E as que moram aqui? Quem presta? O homem é sempre o mesmo. Mas aqui há pessoas melhores.
Nas Minas habitavam soldados desertores, negros fugidos, homens que abandonaram as suas famílias, tripulações amotinadas, mulheres desonestas, frades desfradados, lavradores que largaram as suas terras. O lugar é muito perigoso, concluiu Tenório. E das três regiões, a mais inobediente é a das Gerais, onde está o vosso pai. Essa região assim era chamada por não estar sujeita às leis que disciplinavam a distribuição das datas de mineração. Estabelecia-se a propriedade de uma jazida por posse, ou por prioridade. Mas eu preciso ver o meu pai, disse Mariana. Se é pela herança, vossenhora não necessita partir, ela vos será entregue de qualquer maneira. Podemos mandar um procurador, com alguns escravos fortes. Eu mesmo posso ir. Ele está morrendo, senhor Tenório. Mariana sentou-se na poltrona, quase sem forças, dominada por uma sensação martirizante de que a sua vida agora dependia de um gesto, o qual não sabia se seria capaz de fazer.
O que dizer de um lugar onde uma cesta de biscoitos pode custar o mesmo que um cavalo?, disse Tenório. E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras. Avaliava-se uma pistola como um queijo. No Inverno trocava-se um par de meias de lã por uma data num riacho aurífero. É a loucura, dona Mariana, a loucura!
Os que acumulavam grande quantidade do metal precioso, minerando, vendendo, fazendo contrabando, na sua maioria entregavam-se a deleites e regozijos. Gastavam o seu dinheiro com mulheres, tabaco, aguardente, armas. Passavam os dias jogando e as noites a embriagarem-se. Andavam escoltados por tropas armadas cometendo actos violentos e impunes. Há mulheres nas Minas? Quero dizer, senhoras?, damas?, perguntou Mariana. O que mais se vê são índias, negras ou mestiças vagando seminuas pelos arraiais, cobertas de pele e ouro, com os cabelos soltos, carregando fachos e dando urros, entregando-se a toda sorte de excessos nos rituais de fornicação. Os homens sempre sabem onde achar essas mulheres, Tenório disse em tom confessional. Farejam-nas, assim como pressentem o ouro. Onde há ouro há mulheres de vida licenciosa». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

domingo, 26 de agosto de 2018

A Última Quimera. Ana Miranda. «Único! Extraordinário! Perfeito! O que diriam as alunas dos cursos de declamação? Foi o assunto da madrugada. Ouvi tudo, calado, bebendo vermute»

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«(…) O café que se tomava após as refeições era colhido na fazenda. Nunca havia aguardente à mesa, mas sempre um licor de cacau, ou de anis, importados. Na ceia, como no primeiro almoço, comíamos angu de caroço, broas de milho seco, canjica de milho verde, pamonha, raramente faltando macaxeira e inhame, e batata-doce, cozida ou assada. Ao lado da casa-grande ficava um pomar, rodeado por uma cerca viva de limoeiros. Dava laranja, banana-maçã, carambola, graviola, araticum, maçaranduba, jambo amarelo, abacaxi, jatobá, jenipapo, cajá, uma infinidade de frutas, lembro-me de todas elas, das cores das suas cascas, de seus perfumes, das épocas em que floresciam e frutificavam e de quais passarinhos gostavam de bicar essa ou aquela. Cultivadas apenas para os membros da família e os agregados, as frutas eram tantas que até as levávamos para serem vendidas nas feiras aos sábados, no povoado de Cachoeira, assim como farinha de mandioca, milho verde, fava, caldo de cana, mel, enfim, tudo que não era usado na alimentação dos moradores da casa-grande e dos cassacos. Em torno do pomar, ficavam as roças bem cuidadas, que produziam com fartura. A vida no engenho tinha como centro a mesa de mogno da cozinha.
Quando saí do sobrado do cais Mauá, respirei fundo. O céu tinha-se tornado cinza. Os meus encontros com Augusto eram cada vez mais sufocantes. Um ano depois dessa visita, Augusto publicou o seu livro de poesias, chamado desafiadoramente de Eu, apenas isso. Eu.
Soube da notícia quando entrei no Castellões, de madrugada, após um sarau. Boémios discutiam o livro de Augusto, poucos o defendiam, a maioria tinha asco, repulsa. Diziam frases irónicas, atiravam setas envenenadas de zombaria e remoque, pareciam ofendidos, destemperados, como se tivessem sido atacados pessoalmente na sua honra. Simbolista, dizia um; romântico, dizia outro; parnasiano, um terceiro. Um escrínio de ofensas ao bom gosto. Discípulo de Rimbaud? Jamais! Envergonharia Verlaine, causaria repugnância a Mallarmé. Vamos esperar as Causeries du Lundi do nosso Saint-Beuve, dizia alguém. Os olímpicos vão desferir pancadaria grossa.  Uma pedra no manso lago azul. Bilac vai odiá-lo, ele quebra a ogiva fúlgida e as colunatas do templo do santo pontífice. O título é escandaloso! Palavras plebeias, antipoéticas. Original! Único! Extraordinário! Perfeito! O que diriam as alunas dos cursos de declamação? Foi o assunto da madrugada. Ouvi tudo, calado, bebendo vermute.
No dia seguinte acordei antes do meio-dia para comprar O País. Quando abri a página na qual se escreviam tolices sobre a literatura de sorriso da sociedade, o meu coração palpitou: vi a crítica feita por Óscar Lopes. Era uma nota pequena, ao lado de um longo elogio ao livro do Nilo Peçanha e amáveis referências, também derramadas, aos poemas de Canto e Melo. Para muita gente, Augusto pareceria apenas um desequilibrado. Algumas das composições eram perfeitamente estranhas e caracterizadas por um descaso por tudo quanto constituía a moeda corrente, dizia o crítico. Chocado, após louvar a originalidade do livro, Óscar Lopes aconselhava Augusto a não se entregar a assuntos que repugnam o coração e desafiam as normas. Simbolistas decidiram apoiar Augusto, escrevendo notas simpáticas no Fon Fon, no Correio da Manhã. O grande Raul Pederneiras e Osório Duque Estrada, o ferrabrás da crítica, escreveram sobre o Eu, um facto digno de admiração, mesmo sabendo-se que eram conhecidos de Augusto pois tinham participado conjuntamente de uma comissão didáctica. Dizia Pederneiras que Augusto é um grande talento transviado pelo cientificismo. Mostrava a sua fotografia caminhando na rua, solitário, magro, de casaca e guarda-chuva preto, o velho chapéu-coco. Falava em extravagante volume de versos, em que não poucas pérolas se confundem com o grosso cascalho dos exotismos estapafúrdios. A cada passo minguava a poesia e avultavam as aberrações. Augusto era um poeta abortado do ventre da filosofia.
O que estaria ele sentindo diante daqueles comentários?, jogado entre os malditos, os inconformados. Aberrante! Inclassificável! Um caso patológico! Negra putrefação! Indigestão literária de um pantagruel das palavras! Electrizante! Assombroso! Teratológico! Desequilibradíssimo! Extravagante pirotecnia japonesa. Parece que o homem é doido! Aleijões abortados de uma fantasia delirante! Erros de linguagem. O terror como Leitmotivo Versos duros. Asquerosidade. Abstruso! Chulo! Abominações. Horror. Sorri no meu íntimo: finalmente Augusto estava trilhando o caminho dos grandes incompreendidos. Corri até à Garnier e comprei um exemplar do Eu. Conhecia de antemão alguns de seus poemas, mas quando me entreguei à leitura, ah, que cadência majestosa, que êxtase, a que elevadas esferas me levou o poeta, enquanto me jogava sem piedade nos precipícios dos sentimentos mais verdadeiros, nos enigmas do universo; que total negação da existência material, que mortificação moral, que inteligência capaz de grandes cometimentos!» In Ana Miranda, A Última Quimera, Companhia das Letras, 1995, ISBN 857-164-454-3.

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A Última Quimera. Ana Miranda. «Aos domingos comíamos sarapatel de porco, servido com farinha seca e pimenta malagueta, algumas gotas de limão sobre a carne. Bebíamos vinho verde português…»

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«(…) Quando a tia Alice retornou à sala, para avisar que o jantar seria servido na sala das refeições, notei um certo embaraço tanto nela como em Augusto. Nenhum deles me convidou a participar da refeição, o que era um contra-senso, tratando-ser de pessoas do Nordeste, acostumada a compartilhar as suas refeições com os visitantes. O assunto que me levara ali custou a aparecer. Eu queria saber quando Augusto iria publicar o seu livro. Tinha prometido a mim mesmo que se algum dia Augusto publicasse os seus poemas eu queimaria os meus. Naquela tarde ele fez diversos comentários sobre as suas dificuldades para publicar. Estava desiludido com o Rio de Janeiro, que pensara ser uma cidade cosmopolita, mas que até então lhe parecia uma aldeia, embora houvesse muitos franceses e ingleses, repleta de injustiças sociais, um espectáculo de miseráveis ao lado de caleças e automóveis que tornavam as ruas tristes corredores. O Rio de Janeiro é uma espécie de sereia falaciosa, pródiga unicamente em sonoridades traidoras para os que vêm pela primeira vez. Disse que o Rio era uma cidade que premiava as falcatruas. Os honestos, os sonhadores, eram considerados bestas idiotas. Dentre os poetas, grassava o convencionalismo imbecil de Aníbal Tavares, Teófilo Pacheco, a camarilha inteligente, competindo em bovarismo com os letrados de Buenos Aires e Paris. Os intelectuais só se preocupavam com futilidades, como a estátua a Eça de Queirós. Gente como Coelho Neto, João Rio, grandes homens da literatura, enchiam páginas e páginas das folhas com o assunto tão palpitante.
Estava ocorrendo a grita dos intelectuais para que se fizesse uma estátua do escritor português, o que Augusto criticou, dizendo ser uma tolice. Eu disse, citando Bilac, que viver no bronze era melhor do que não viver nem no bronze nem na carne, que não viver nem no bronze nem na carne era como não viver nem no céu nem no inferno, e nem viver em lugar nenhum. No Passeio Público, passeei aqui num entardecer com Augusto, logo que cheguei à capital, quando parei a nossa caminhada para admirar a estátua de Gonçalves Dias, ele prosseguiu o seu caminho dizendo as formas só têm valor se um espírito as anima. De madrugada, por vezes, quando espero o tílburi para Botafogo, fico admirando a estátua de José Alencar muito triste na sua cadeira de bronze; sinto vontade de acariciar as suas mãos. No Teatro São Pedro, mais do que ouvir a Bohème aprecio a estátua modelada em gesso por Almeida Reis; trata-se da imagem de António José, no sombrio vão de uma janela fechada, uma estátua suja, quebrada, faltando três dedos na mão, a ponta do nariz, a aba do gibão e um dos pés, coberta de pó; braços estendidos, peito estufado, olha para o alto como se declamasse um poema naquele lugar imundo ao lado de um piano preto entre garçons em mangas de camisa e o público do espectáculo, que solenemente a ignoram. Tem uma dignidade, uma altivez, um ar poético, uma espiritualidade que encantam.
As dificuldades de Augusto davam-me uma imensa angústia. Mas quando me deparei com a realidade de sua miséria fui tomado de uma verdadeira ternura e tive vontade de chorar. Ofereci-lhe como empréstimo uma boa quantia mas ele, como sempre orgulhoso, recusou quase ofendido. No momento em que me despedia dele, vi de relance a mesa da sala posta com apenas uma terrina de sopa e uma bandeja com fatias finas de pão. Isso devia ser humilhante para quem crescera num engenho de cana-de-açúcar. Talvez não fosse tão doloroso suportar o frio do Rio de Janeiro, a falta de espaço, a sujeira, a má vizinhança, o barulho. Mas a refeição de uma sopa rala devia ser para Augusto o maior de todos os insultos. No Engenho do Pau d'Arco servia-se a mesa mais farta em toda a Várzea do Paraíba. As comidas preparadas por Donata e Librada eram deliciosas, só de pensar nelas sinto minha boca se inundar de saliva, meu nariz captura no ar a lembrança dos odores vindos da cozinha.
Aos domingos comíamos sarapatel de porco, servido com farinha seca e pimenta malagueta, algumas gotas de limão sobre a carne. Bebíamos vinho verde português, comprado em pipa na mercearia de António Maia, na cidade da Paraíba. Mesmo criança eu já gostava de bebidas espirituosas. Até hoje perambulo pelos restaurantes do Rio de Janeiro em busca de um sarapatel parecido com aquele, mas em vão. Persigo pelas ruas a mágica impressão do odor, espalhado pela brisa, de carne fresca da chã-de-dentro, mocotó ou chambaril; ao fechar os olhos, na cama, vejo o pirão dourado; minha boca se enche de saliva quando penso no maxixe, quiabo ou jerimum-de-leite; passo a mão na seda de uma camisa e sinto a suavidade dos molhos de couve que cresciam no quintal da casa; verto lágrimas com saudades da bacalhoada das sextas-feiras; sinto meu estômago revirando-se, com desejo de um bredo cozinhado no azeite, feijão e peixe de coco, servidos na Quaresma. E não há nenhum Natal em casa luxuosa no Rio de Janeiro que ofereça algo tão delicioso como os pastéis de nata da Librada, ou os filhoses de palito embebidos em mel claro, feitos por Donata. As sobremesas do engenho também me deixaram impressão profunda. As frutas eram mais saborosas do que todas as que provei no Rio de Janeiro, mesmo as maçãs ou peras importadas não se igualam às bananas e laranjas que Donata preparava, em talhadas, misturadas com farinha, ou aos abacaxis, às perfumadas mangas, aos abacates». In Ana Miranda, A Última Quimera, Companhia das Letras, 1995, ISBN 857-164-454-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras. Sabeis ler, dona Sofia?»

Cortesia de wikipedia

O contrato da carne
«(…) No quarto da hospedaria, Valentim olhou a mulher deitada na cama. A visão do corpo nu da negra causou-lhe tes…e desejo. Tirou a roupa. Aproximou-se da meretriz.
Quantos anos tens? Dezasseis, senhor. Põe-te de joelhos, disse Valentim, virando-a de costas.
Escondido pela escuridão da noite, Bento Amaral Coutinho, a cavalo, atravessou os canaviais da família Gago. Avistou a casa do engenho ao longe. Tirou duas pistolas de pederneira dos talabartes e carregou-as, colocando a bala e a pólvora. Aproximou-se com cautela do solar. Luzes brilhavam no andar superior. Não havia guardas, ou escravos, ou sentinelas. Puxou as rédeas e o cavalo curveteou, relinchando. Um rosto surgiu à janela. Ouviu-se ruído de passos na casa. A porta abriu-se e um jovem magro, usando óculos de vidros grossos, apareceu na varanda. Era o filho do senhor das plantações. Quem está aí?, perguntou. Esquecestes de mim?, disse Bento, saltando do cavalo, já empunhando a sua espada. Vim cobrar o que me deveis. O homem desembainhou a espada e colocou-se em posição de guarda.
Bento aproximou-se, iniciando uma luta feroz. Feriu-o com muitas estocadas no peito, nos braços, até que o jovem deixou cair sua a arma. De joelhos, sacou uma faca e perfurou Bento na parte interna da coxa. Sangue escorreu, entrando pela bota. Bento deu o último golpe no peito do filho do plantador, matando-o. Dois escravos armados surgiram de trás da casa. Bento sacou uma das pistolas e disparou. Ele só sabia atirar com a mão direita, mas a sua pontaria era certeira. Empunhando a outra pistola, matou o segundo escravo. Com um puxão vigoroso, Bento arrancou a faca da perna, sentindo uma dor insuportável. O pé estava pegajoso dentro da bota. Rasgou a camisa e amarrou-a sobre o ferimento. Municiou novamente as suas pistolas. Arrastando a perna acutilada, entrou na casa e andou pelas salas, atento. Na cozinha duas negras escondiam-se agachadas atrás do fogão. Correi, correi daqui, cotias medrosas, disse Bento. As mulheres escaparam pela porta e desapareceram na escuridão.
Bento revistou a casa até encontrar o que procurava, um cofre de tamanho médio com o selo da família. Ao arrombá-lo verificou que continha barras de ouro. Foi buscar os alforjes no seu cavalo e voltou à casa, enchendo apressadamente os sacos com as barras de metal fundido. Com a chama das velas do candelabro, ateou fogo às cortinas, que se incendiaram num instante.
Bateu com força a vergasta no lombo do cavalo e partiu a galope. Na areia da praia, ao lado de uma canoa, um remador esperava-o. Bento embarcou rapidamente e a canoa partiu. Durante a travessia da enseada, Bento assistiu ao incêndio que se alastrara por toda a casa; o fogo tingia as nuvens de vermelho. O seu ódio foi substituído por sentimento de glória, que não ia durar muito, ele sabia, mas era agradável. Tinha que fugir. O homem que matara era de uma família importante. Poderia ir para as Minas, onde, diziam, não havia justiça nem governo. Apenas montanhas de ouro.
Sentada na poltrona da sala, na sua casa, Mariana ouvia o ruído do mar ao longe. Sentia no vento o aroma das flores. Imaginou o seu pai, velho, arrastando-se com uma bengala, coberto de ouro, cercado de criados e áulicos, a ironia de sempre, a engenhosa capacidade de ferir as pessoas, dando ordens, não cumprindo as determinações do cirurgião-barbeiro, blasfemando, esbravejando contra a morte. Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, Afonso, para que fosse à sala de biblioteca. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana baixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. O pai Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. Cuida-te com os teus desejos, dissera. Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno. No seu quarto, a velha aia Sofia esperava-a, com uma vara na mão. Tira a roupa, dissera a alemã. Essas meninas da colónia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras. Sabeis ler, dona Sofia? Cala-te, menina. Tira a roupa. Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara. Trata de gritar bem alto para que o teu pai ouça, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.
                                                                                 
Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

sábado, 20 de janeiro de 2018

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Ela deu uma gargalhada, revelando a sua garganta, a língua dentro da boca. Parou de rir tão subitamente como começara e pegou nas moedas»

Cortesia de wikipedia

O contrato da carne
«(…) Formavam-se imensas aglomerações diante das vendas e principalmente dos açougues. Os baienses preferem vender o boi no sertão, disse Tenório, pois lá custam por cabeça de quinze a trinta oitavas de ouro. Aqui só conseguem de três a cinco. Além do que, para trazer uma boiada ao Rio de Janeiro demora-se às vezes dois anos, enquanto que pelo São Francisco chega-se às Minas em apenas um mês. Vamos acabar comendo apenas carne de baleia, como nos primeiros tempos. Ninguém respeita o decreto da Coroa que estipula duzentos escravos anuais para serem vendidos nas Minas, os preços lá são muito melhores, não se vende mais nada por aqui, a não ser que um tonto se disponha a pagar como se fosse um minerador. Isso quer dizer que dentro de pouco tempo estarei arruinada? Tenório suspirou, fazendo um gesto com as mãos que significava impotência diante do irremediável. Não há nada a fazer, dona Mariana. Ela levantou-se num ímpeto. Alguma coisa pode ser feita. Vosso primo talvez possa fazer algo por vós, disse o amanuense. Ao final, ele é o governador. Dom Fernando? Não quero dever-lhe nada. Se eu pudesse ajudar-vos... Tenório andou pela sala, pensativo. Então, disse Mariana, tentando convencer a Tenório e a si mesma, se meu pai tem lavras nas Minas Gerais, casa, escravos, arrobas de ouro, retornarei rica. Poderei adquirir os doze cavalos malhados de Augusto para atrelá-los à minha estiva espanhola. Mariana devolveu ao amanuense o maço de folhas. Explicai-me o que está escrito nesses papéis. Enquanto Tenório decifrava as contas em voz alta, explicando os gastos, justificando as dívidas, trocando em números a ruína, Mariana andava de um lado a outro pensando no pai. Teria ele lhe perdoado? Quando partira, dissera-lhe que a deserdaria, que ela não era mais sua filha, que se tornara indigna de usar o nome da família.
O amanuense humedecia na língua a ponta do dedo antes de passar a página. Ele não podia estar roubando nas contas, pensou Mariana, mas talvez a bebida consumisse todos os seus esforços. Mês, Abril; balanço, mil e um; saldo positivo, seis contos de réis. Ajuste no preço de sete mil para sete mil e quinhentos réis. Isso significa; senhor Tenório. Ele parou com a leitura. Achais que ele me perdoou? Não posso afirmar, senhora. Vede isso aqui, três cavalos doentes. Gastos com estrebaria, selas. Nenhum cavalo vendido em Maio. Moscas no estrume. Será que vou encontrá-lo ainda vivo? Já vos decidistes? Pensai bem, senhora. De que servem as viandas se não nos engordam?

Tenório saiu. No pátio, conversou rapidamente com um escravo e descobriu que Valentim descera pela encosta meridional do morro do Alto, em direcção à zona agrícola do sul. Presumiu, imediatamente, onde o rapaz podia estar hospedado. O amanuense desceu a ladeira do Poço do Porteiro. Ao longe, viu um cavaleiro a trotar para o Cara de Cão, uma capa preta voando, a extremidade da arma iluminada pelo sol, o chapéu redondo à cabeça. Seguiu nessa direção. As botas de Tenório afundavam nas areias húmidas e fofas da praia; ele ofegava e suava. Para subir o morro teve que parar e descansar muitas vezes. O Cara de Cão, uma nesga de terra à entrada da barra, com edifícios velhos, uma ermida, guaritas, casa-forte, dava vista para uma grande porção da baía de São Salvador do Rio de Janeiro. Tenório parou à entrada de um edifício onde estava amarrado um cavalo com arreios de corda e mantas no lugar da sela. Maior e mais alta que as outras, a casa tinha as janelas todas fechadas e ramos na porta. Um lugar que Tenório conhecia muito bem. Entrou. Na sala havia uma rede, uma arca, uma imagem de Jesus crucificado, um candeeiro, um bufete, uma mísula, tamboretes. O chão era liso, varrido. Meretrizes, negras ou mestiças, em volta de uma mesa jogavam cartas de baralho. Tenório olhou uma a uma, rosto após rosto. Tinham algo de cansaço e tédio. Ao ver Tenório, uma delas sorriu, zombeteira. Olhai quem está aí, ela disse. As outras voltaram o rosto para ele. Que os demónios me levem, pois sou eu mesmo. Elas se desinteressaram e voltaram a jogar. Tenório aproximou-se de uma mulher bonita, de olhos amargurados, sentada numa cadeira taxeada, ao fundo da sala. Quero falar contigo, disse ele. Sem dinheiro novamente? Tenho isso aqui, Tenório mostrou umas moedas. Ela deu uma gargalhada, revelando a sua garganta, a língua dentro da boca. Parou de rir tão subitamente como começara e pegou nas moedas. Quero saber sobre um viajante que está hospedado aqui, disse Tenório». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.


Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Os trabalhadores, os negociantes, todos estavam passando às Minas. Até os holandeses dos engenhos. Os plantadores de cana…»

Cortesia de wikipedia

O contrato da carne
«(…) Tenório surgiu à porta, trazendo papéis nas mãos. Ele já foi? Sim. Ouvistes a conversa? Ouvi, dona Mariana. Meu pai sonhava um dia voltar a ficar rico, disse Mariana. Para comprar um navio e morrer no mar. Por isso foi para as Minas. E, em parte, parece que saiu-se vitorioso. Ele, que sempre fracassou em tudo. Tenório estendeu o maço de papéis, segurando-os com as suas mãos marcadas de veias. Tinha o ar derrotado. Terminei o trabalho, dona Mariana. Não são boas as notícias… Estou com pouco lucro? Pior. Quase sem dinheiro. Custa-me a crer nas notícias que me dais. Pois devíeis pedir a vosso primo que examine esses papéis com cuidado. Está tudo aí. Mariana passou as folhas uma após outra, cheias de números cuidadosamente alinhados em colunas. Não conseguia deter-se em nenhum detalhe, as garatujas giravam confusas diante de seus olhos. Odiou-se por não saber números, nem letras. Não é possível. Ainda tenho escravos, casas, cavalos... Tenório ajeitou o laço do pescoço. Disse que o Rio de Janeiro estava-se tornando um monte de notáveis destroços. As capitanias arruinavam-se, as cidades dos litorais serviam apenas de pousada, os portos se enchiam de estrangeiros que tratavam logo de seguir para o sertão bravo. Não é possível... Não é possível...
Os trabalhadores, os negociantes, todos estavam passando às Minas. Até os holandeses dos engenhos. Os plantadores de cana, os de fumo, os que produziam géneros naturais afligiam-se com a falta de força de braços. Vossos feitores, tratadores, mecânicos foram embora, disse Tenório. Queriam receber como califas. Nas Minas costumam pagar muito bem pelos trabalhos. Agora só há ânimo para o ouro. Não creio que estejais de olhos bem abertos. O que Mariana via, pela janela, eram novas construções e novos armamentos, a cidade crescendo para os lados do Boqueirão. Da gente que desembarcava, nem todos iam para as Minas, mas, ao contrário, ficavam, encantados com a pura claridade do ar do Rio de Janeiro, com a beleza das colinas, dos edifícios. Os nobres andavam com brocados de ouro e prata guarnecidos de fitas e franjas, as casas enchiam-se de sumptuosos móveis holandeses. Dizia-se que a última frota partira do Rio de Janeiro com duzentas arrobas de ouro. Além do que levaram escondido nas cavernas, disse Mariana. Tenório ouvia, sem muita coragem de contestar a sua senhora. Até as negras adornam os cabelos com ouro!, continuou Mariana. O bispo mandara uma carta ao rei reclamando da sumptuosidade dos enfeites que as escravas usavam para despertar lascívia nos homens. E as carruagens novas que passam nas ruas? E as frotas de comércio que aportam e despejam caixas e mais caixas de mercadorias? Isso significa dinheiro, todos estão prosperando, é o que se comenta na cidade.
Estão cegos, senhora, deliram. Se para alguns as coisas aparentam prosperidade, deve-se olhar atrás dos morros, nos recôncavos. Ide aos campos, ide ao Engenho d'Água, ide à Gamboa e tereis um retrato do que realmente ocorre. Esse era o equívoco dos ricos, pensou Tenório. Ficavam em suas casas, apáticos, indolentes, enquanto os amanuenses, as criadas, os cocheiros, os escravos andavam pelas ruas buscando suprir as necessidades dos senhores, resolvendo os seus problemas, fazendo as suas compras, os seus pagamentos, atracando-se na feira, aspirando o fedor dos becos e assistindo à calamidade com os próprios olhos. Começavam a faltar mercadorias. A cada dia tinha-se que pagar mais caro por géneros de menor qualidade. Muitos comerciantes não aceitavam senão ouro como pagamento». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Manda-o embora. Oh, o homem veio de tão longe, suplicou Aurora. Mariana hesitou. Fala-me mais sobre ele, disse à criada»

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O contrato da carne
«(…) A criada de quarto, Aurora, entrou na sala e anunciou a chegada de um visitante. Quereis que eu fique?, perguntou Tenório. Não, disse Mariana. O amanuense retirou-se para a sala onde trabalhava. O homem falou que tem um assunto muito importante a tratar, disse Aurora. Mariana sentiu um leve tremor. Como é ele? Descreve-o para mim. A senhora não há de acreditar. As roupas mais esquisitas que jamais vi: um chapelão de aba caída, camisa aberta no peito, cinto de couro, pistola, faca, botas grosseiras. É negro? Mestiço?, perguntou Mariana. Branco! Tem o peito e os braços peludos. Deve ser mascate. Garantiu que nada tem para vender, disse Aurora. De onde veio ele? Das Minas do Sertão, disse a criada. Talvez traga notícias de vosso pai, ou um presente mandado pelo barão. Se veio das Minas pode ser algo de ouro. Um anel, brincos, braceletes, disse Aurora, sonhando acordada. Quando um desconhecido nos traz um regalo, em seguida faz um pedido. Mariana recebera alguns estranhos em sua casa, quase todos trapaceiros, espiões, curandeiros, caçadores de heranças ou prerrogativas, advogados procurando clientes parvos ou coisas piores. Manda-o embora. Oh, o homem veio de tão longe, suplicou Aurora. Mariana hesitou. Fala-me mais sobre ele, disse à criada. Parece-me que tem todos os dentes na boca. Onde haveria de tê-los? Nas orelhas? Fale-o esperar um pouco, disse Mariana. E depois manda-o entrar. Decidiu receber o visitante ali mesmo, recostada na poltrona. Estava farta da preguiça, cansada da modorra do Rio de Janeiro. A solidão que escolhera agora a enfadava. Havia anos deixara de frequentar as assembleias familiares nos sobrados dos nobres, onde as maiores diversões eram a hipocrisia e a maledicência.
Valentim entrou. Tinha vinte anos, era magro e usava roupas sujas de poeira. Trazia o chapéu na mão. Observou, de maneira discreta, a dama de pele alva, cabelos negros, roupa escura; uma figura sepulcral. As mulheres nas Minas tinham a pele queimada pelo sol, mas aquela ali era marcada pela noite. Dona Mariana de Lancastre? Sim, sou eu. O que quereis? Vosso pai pede que vossenhora vá para as Minas Gerais encontrar-se com ele. Aurora tinha razão, pensou Mariana. Um mensageiro de dom Afonso. Porque pedir a uma dama que se mova para tão longe assim? Acaso meu pai está prisioneiro, ou inválido? Não poderia ele vir ao meu encontro? Compreendo os vossos sentimentos. Mas o barão tem um bom motivo para fazer-vos tal pedido. Sentai-vos, Mariana indicou a cadeira. Estou bem em pé. Agradeço. Meu pai passa por alguma dificuldade? Não, absolutamente, não se debate em tribulações. Porque ele mandou vós? Sois empregado dele? Somos amigos e ele confia em mim. Conheço bem os caminhos. Comigo estareis segura. Porque motivo, afinal, o barão de Lancastre deseja ver-me? Valentim fez uma pequena pausa. Vosso pai está à morte. Mariana sentiu-se empalidecer, como se o sangue tivesse parado de circular em seu corpo, embora o coração batesse descompassadamente. As suas mãos ficaram frias. Valentim aguardou uns instantes, antes de prosseguir na sua mensagem. Perdoai-me falar nisso neste momento, mas foi um desejo expresso de vosso pai: ele pretende deixar-vos uma herança. Possui uma boa casa, vinte e quatro escravos, datas demarcadas. Juntou cinco arrobas de ouro. Isso é muito, embora haja homens que possuem cinquenta arrobas.
Era intrigante a maneira correcta como Valentim se expressava. O domínio das palavras costumava ser circunscrito ao clero e a raros nobres e advogados. Em que arraial está o meu pai? No de Ouro Preto, na região das Minas Gerais. Podemos ir pelo mar até ao lugar de Parati, e depois... Podemos? Mas eu não disse que irei. Quero um dia para pensar. Como quiserdes. Valentim retirou-se. Mariana ouviu o canto de Aurora na cozinha; embora tudo permanecesse aparentemente igual, o dia não voltara à sua normalidade». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT