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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Torturado de Seide. Camilo Castelo Branco. Alberto Pimentel. «… á freira do convento da Ave Maria, transcreverei palavras, que eu muito aprecio porque as ditou um autorizadissimo camilianista»

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«Este livro não aspira a ser mais que uma leve conversação com o leitor sobre assuntos camilianos e, fundamentalmente, ainda um preito de veneração e saudade que eu venho render à memoria do imortal Torturado de Seide». In Alberto Pimentel, Trafaria, Maio de 1921.

«(…) Não me repugnaria acreditar que Camilo Castelo Branco, frequentando abadessados e grades, tivesse sido freirático por tradição ultraromantica e génio aventuroso, nem que as freiras que ainda fossem atraentes e as seculares que fossem belas pudessem ter colaborado com ele em algum escândalo conventual, como tantos houve, desde sempre, em todo este nosso país, tão fradesco e santeiro. Admitiria sem custo que o romancista fosse informado por dona Isabel Cândida quanto a episódios amorosos dos mosteiros do Porto, como a efémera Maria José, irmã mais nova de dona Ana Plácido, lhe contou a história de uma tentativa de rapto no Recolhimento de Nossa Senhora da Esperança. Mas o que eu não admitia era a possibilidade de Camilo se ter rendido aos encantos negativos de uma freira durázia e feia e de ela ter perdido a cabeça a ponto de quebrar os seus votos, quer introduzindo Camilo no convento ou saindo a ares para conviver clandestina e temporariamente com êle. E, porque não admitia a possibilidade destes factos, fiquei surpreendido quando, há alguns anos, o venerando homem de sciencia e de letras, que é o dr. Maximiano Lemos, me dava a conhecer a hipótese de ter havido mais do que quaisquer conversações de parlatorio entre Camilo e a freira dona Isabel Cândida.
Respondi que eu o não cria, porque a freira nem era bonita nem coquette, e que nunca tal coisa ouvira dizer a meu pai, que como médico assistente entrara muitas vezes no convento da Ave Maria, nem a qualquer outro velho portuense o ouvira jamais contar. Mas pedi ao dr. Maximiano Lemos que se dignasse comunicar me o que a tal respeito soubesse ou fosse descobrindo, como já tinha feito sobre certos achados camilianos que uma aturada investigação lhe facultava. Vou trasladar alguns trechos de cartas de s. exª especialmente reportados ao caso da freira dona Isabel Cândida. Ouvi dizer a pessoa que muito conviveu com o Camilo que o cónego Alves Mendes viu na camara eclesiástica um processo relativo ao encontro de Camilo dentro do convento da Ave Maria, e que esse facto se relacionava com essa freira. (Carta de 11 de Janeiro de 1917). Deve ter extranhado o meu silencio acerca da freira. O caso explica-se porque tenho tido empenho em satisfazer a nossa curiosidade, mas as minhas diligencias nenhum resultado teem dado. Na camara eclesiástica evidentemente não ha que pensar, os documentos do convento não tenho meio de lhe pôr a vista em cima por não conhecer o conservador do registo. De resto, a informação que recebi foi que o Alves Mendes tinha visto o processo na camara eclesiástica. Um colega meu é casado com uma senhora que esteve alguns dias no convento quando tinha 11 anos e disse ela ao marido que ali estava uma freira com quem se dizia que o Camilo tinha relações intimas em demasia. Não pode, porem, lembrar-se do nome dela. (Carta de 5 de Fevereiro de 1917).
Acerca desta ultima (a Freira) foi o Ricardo Jorge que me disse a informação colhida da boca do Alves Mendes. Não lhe será difícil encontra-lo em Lisboa donde me não consta que tenha saido. Quando mesmo a informação do Alves Mendes seja exacta, não vejo meio de se proceder a pesquisas na camara eclesiástica. (Carta de 17 de Março de 1917). Até hoje não pude descobrir o processo da camara eclesiástica. Em compensação encontrei o processo que lhe moveu o Novaes dos Óculos ou Novaes da Pátria. Também encontrei a coleção da Pátria em que o grande escritor, que ainda o não era, é violentamente atacado. Num dos artigos deste periódico ha referencias a uma ligação com uma freira que vivia enclausurada, o que talvez se refira a outra mulher que não a educadora da filha. (Carta de 11 de Novembro de 1917) Conquanto não digam respeito á freira do convento da Ave Maria, transcreverei desta mesma carta as seguintes palavras, que eu muito aprecio porque as ditou um autorizadissimo camilianista, sábio professor e plumitivo: se V. residisse no Porto e eu fosse a Lisboa, teriamos assuntos para cavaquear e que para mim seriam interessantíssimos, porque V. poderia valorizar o que vou encontrando. Penso que um trabalho sobre a mocidade de Camilo no Porto seria cheio de revelações pelas contradições, incoerências e hesitações do escritor. Ora isto só V. o pode fazer, pelo conhecimento do meio e pelo conhecimento do Camilo. O dr. Maximiano ainda relativamente á Freira me comunicou em carta de 1 de Dezembro daquele mesmo ano de 1917: o processo a que se referiu o Alves Mendes não existe na camara eclesiástica, onde dizia ao Ricardo Jorge que o tinha visto. Procurou se com vontade de o encontrar, mas a diligencia foi baldada. Ficamos apenas com o que escreveu o Novaes Vieira em 1856 acerca da freira enclausurada». In Alberto Pimentel, O Torturado de Seide, Camilo Castelo Branco, Livraria Manuel dos Santos, Lisboa, 1921.

Cortesia de LMSantos/JDACT

domingo, 18 de outubro de 2015

O Torturado de Seide. Camilo Castelo Branco. Alberto Pimentel. «Muitas vezes acompanhei minha mãe e irmãs em visita àquela nossa parenta, que nos recebia na grade com a freira e nos regalava com rebuçados e ‘bonbons’»

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Este livro não aspira a ser mais que uma leve conversação com o leitor sobre assuntos camilianos e, fundamentalmente, ainda um preito de veneração e saudade que eu venho render à memoria do imortal Torturado de Seide. In Alberto Pimentel, Trafaria, Maio de 1921.

«(…) Camilo viu-o levantar e demolir. Riu-se quando o dropp lhe parecia prejudicar a beleza do horizonte marítimo e o sorriso alegre da praia. Mas creio bem que, na hora em que o dropp foi a terra, Camilo se riria da sua própria intransigência estética no tempo em que, indignado, clamava: Aquelles paus são sinistros como o cavallo de Tróia; tudo aquillo é muito serio: tem não sei que de funéreo dos carroçoens do Lagoia. Julgo que este artigo poderá ter para a gente moça do Porto um duplo interesse: o de dar noticia de uma velharia extinta e o de ser comentário a uma sátira antiga.

A urna da prata
É já muito conhecida do público a carta dolorosa em que o romancista Camilo Castelo Branco, por intermédio de Francisco Castro Monteiro, propunha vender á senhora Camila Faria, viuva de João Albuquerque Melo Forbes e abastada proprietária, uma taça de prata que ao proponente havia sido oferida pela colónia portuguesa de Hongkong (?). A proposta, já o tem dito e redito a imprensa, não foi aceita. Falo nisto por dois motivos, mas apenas como quem passa de fugida por cima de brasas: Para informar de que o objecto de que se trata tinha o feitio de urna; e que a inscrição-dedicatória foi conservada por mim no livro Entre o café e o cognac, quando descrevo o gabinete de Camilo no Porto, em 1872, habitando ele então o prédio n.º 860 da rua do Bonjardim. Eis o teor da inscrição: Ao Ill.mo e Ex.mo Snr. Camillo Castello Branco, os sócios da Bibliotheca Portugueza De Hongkong 1869. Depois daquela época nunca vi na casa de Seide a urna de prata, nem me consta que outros a vissem. Ignoro que destino teria.

A Freira de S. Bento… e de Camilo
Desde os meus quinze anos conheci no convento da Ave Maria, no Porto, a freira Isabel Cândida, cujos apelidos de família eu então ignorava. Sabia apenas que ela tinha educado naquele convento a filha de Camilo, dona Bernardina Amélia Castelo Branco, a qual eu nunca vi porque alguns anos antes, em 1865, saira para casar. A freira Isabel Cândida foi, depois disso, professora de minha prima Aureliana Coelho Bragante ou sua mãezinha, como se dizia no jargão das meninas do coro. Muitas vezes acompanhei minha mãe e irmãs em visita àquela nossa parenta, que nos recebia na grade com a freira e nos regalava com rebuçados e bonbons. Outras vezes éramos convidados a ir lá almoçar e então também ia comnosco meu pai, que salvára minha prima em doenças graves e tinha mais clientes de partido naquela comunidade. Ah!, quanto me lembro ainda desses almóços freiráticos, em que a doceria era selecta, o café e o chocolate primorosos, especialmente o chocolate, consistente e aromático, bem espanhol, que tomávamos lardeando-o com um delicioso pão de ló fofo e loiro.
Minha prima estimava ver-se rodeada de parentes, ria de vontade com os ditos de meu pai, que fora sempre um homem dotado de bom humor, e a freira Isabel Cândida conversava com animação e espirito, contando casos do convento e casos da cidade, como se conhecesse estes tão bem como aqueles. Mas a freira era velha e feia, trigueira, angulosa e alta, tinha a voz forte, um nariz respeitável, e sombras de buço. Eu nunca pensei, nem o ouvi dizer a ninguém, que aquela mulher, tão balda de encantos feminis, pudesse haver inspirado atenções afectuosas a um homem vulgar, quanto mais a um homem superior, tal como Camilo Castelo Branco. Nem me quis parecer que dentro daquele hábito negro de beneditina tivesse palpitado um coração mundano e frágil. Quea freira Isabel Cândida conhecesse Camilo era de presumir, visto que lhe tutelára a filha no convento; e que conversasse com êle quando lhe levava a pupila á grade era bem natural, seria a coisa menos venenosa deste mundo.
Assim, pois, foi que eu interpretei as palavras de Camilo numa carta dirigida á mãe de sua filha e por mim publicada no Romance do romancista: As minhas relaçoens com a freira acabaram, e eu te direi os motivos que se deram. Supus que seriam apenas simples visitas no locutório, mais ou menos íntimas, sem julgar que pudessem ter sido relações inconfessáveis, até mesmo porque o romancista não as ocultava da mulher que apaixonadamente se deixara raptar por êle». In Alberto Pimentel, O Torturado de Seide, Camilo Castelo Branco, Livraria Manuel dos Santos, Lisboa, 1921.

Cortesia de LMSantos/JDACT

O Torturado de Seide. Camilo Castelo Branco. Alberto Pimentel. «Uma passagem da Vespa refere se à alcunha picaresca do ‘dropp’: “Já foi á Foz vêr o hidrópico”. Outra passagem chama-lhe a ‘asneira de pau’»

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Este livro não aspira a ser mais que uma leve conversação com o leitor sobre assuntos camilianos e, fundamentalmente, ainda um preito de veneração e saudade que eu venho render à memoria do imortal Torturado de Seide. In Alberto Pimentel, Trafaria, Maio de 1921.

«(…) Na famosa eleição da Povoa, em 1892, o conde de Móser, apesar de velho e adoentado, foi ali espontaneamente para que não me faltassem os votos de alguns pescadores seus protegidos. Tinha o dropp da Foz o aspecto da ossatura de um prédio de dois ou três andares, e estava situado entre o edifício do tempo do infante Miguel e a muralha da Meia-Laranja, correspondendo justamente á pancada da barra, segundo a linguagem dos homens do mar. No pavimento superior foram montados aparelhos de sauvetage, entre os quais um cabo de vai-vem, que não sei ao certo se funcionava pelo sistema dos canhões porta-amarras ou por qualquer outro de arremêsso. A giria popular deu a este dropp da Foz a designação irónica de hidrópico, certamente pelo volume da construção e por alguma semelhança fonética com o vocábulo inglês nas silabas finais daquele nosso adjectivo. No mesmo ano de 1854 em que saíram as Folhas caídas, de Camilo, apareceu, logo a seguir, a Vespa do Parnaso, que é de Faustino Xavier Novais. Uma passagem da Vespa refere se à alcunha picaresca do dropp: Já foi á Foz vêr o hidroppico. Outra passagem faz-lhe alusão por meio de uma crua perifrase; chama-lhe a asneira de pau. Vem a propósito dizer qual o facto, então recente, que determinou a publicação das Folhas caídas, da Vespa do Parnaso, e ainda de outros opúsculos satíricos.
Em torno das Folhas caídas, de Garrett fizera-se em 1853, ano da sua aparição, uma atmosfera de critica ruidosa. O poeta tinha a esse tempo 54 anos de idade e declarava-se apaixonado por uma Ignota Dea. E o caso é que os seus versos, bons como todos os seus, revelavam um inesperado regresso ao lirismo ardente da mocidade. Conta Gomes Amorim que, entrando Alexandre Herculano na livraria Bertrand, e vendo umas provas tipográficas sobre o balcão, as lera e, durante a leitura, arregalara os olhos com manifesta surpresa. De quem é isto?, perguntou. Não há senão um homem em Portugal capaz de fazer tais versos! São do Garrett? O velho Francisco Bertrand respondeu-lhe: São, sim, senhor. Que lhe parece? Penso que se Camões fizesse versos de amor, na idade em que está Garrett, não era capaz de o igualar. São belissimos! Aquele diabo não póde com o talento que Deus lhe deu! Parece que tem vinte anos! Este livro fará com que se lhe perdoe tudo… O certo é que as duas primeiras edições das Folhas caídas, de Garrett, foram avidamente consumidas no mercado.
Voaram, levadas de bons e de maus ventos. Como acontece sempre que um livro produz sensação, sucedeu-se ao de Garrett uma série de publicações, algumas das quais lhe parodiavam apenas o titulo ou também o texto e outras eram consequência daquelas, embora não tivessem relação com o texto nem com o titulo. Assim, Camilo abriu o caminho com as Folhas caídas, apanhadas na lama, que compreendem sátiras portuenses, estranhas ao livro de Garrett. É do mesmo género a Vespa do Parnaso, de Faustino, por um mordomo das almas de Campanhã que vem de colarinhos tezos meter a fala no bucho ao seu Juiz, autor das Folhas caídas. Outro opúsculo, também em verso, assinado com o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, e intitulado As folhas caídas apanhadas a dente e pescadas no Porto (1855), tem alguma intenção de paródia, até no texto. Sei que ainda há outro opúsculo, Folhas e cascas, mas não o vi nunca. O dropp da Foz esteve de pé durante annos. Quando começou a apodrecer, desmontaram-no, e os barrotes ainda aproveitáveis foram vendidos. Por tal modo acabou esse corpulento esqueleto de madeira, que um propósito altruísta construirá, mas que a mordacidade não poupou». In Alberto Pimentel, O Torturado de Seide, Camilo Castelo Branco, Livraria Manuel dos Santos, Lisboa, 1921.
                      
Cortesia de LMSantos/JDACT

O Torturado de Seide. Camilo Castelo Branco. Alberto Pimentel. «… resultou a urgência do governo de 1852 expropriar o antigo hospício dos náufragos, que o governo de 1835 tinha vendido por 800$00 réis. Custou a expropriação 5 contos. A história da administração pública em Portugal confunde-se com a dos manicómios…»

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Este livro não aspira a ser mais que uma leve conversação com o leitor sobre assuntos camilianos e, fundamentalmente, ainda um preito de veneração e saudade que eu venho render à memoria do imortal Torturado de Seide. In Alberto Pimentel, Trafaria, Maio de 1921.

«(…) Se consultar o Grande Dicionário de Larousse, encontrará que dropp, palavra inglesa, significa uma espécie de guindaste empregado em Inglaterra para meter a carga a bordo dos navios. A roldana deste guindaste está montada sobre uma plataforma de via-ferrea e suspende por um cabo a larga balança em que desce até á ponte do navio o vagonete carregado. Mas, como se entrevê da sátira de Camilo, o dropp não exercia na praia da Foz uma funcção comercial como em Inglaterra. Apenas por analogia se lhe dera aquele nome, e o seu fim era diferente. Historiemos, ligeiramente, os acontecimentos. Em 1830 o infante Miguel mandou construir junto à barra um hospício onde os náufragos pudessem receber prontos socorros. Esse edifício custou 6.400$000 réis. Poucos anos depois, em 1835, o governo vendeu-o a um particular por 800$00 réis. Custa a crer, mas é verdade.
Sucedeu, a 29 de março de 1852, o horroroso naufrágio do vapor Porto, que tanto emocionou todo o pais especialmente os portuenses, muitos dos quais presencearam a catástrofe em todos os seus angustiosíssimos episódios. Logo no dia seguinte a Associação Comercial se reuniu para ouvir lêr uma representação, redigida por Eduardo Móser, na qual aquela corporação chamava a atenção do governo para o estado perigoso da barra e falta de recursos de salvação em caso de naufrágio. Logo também, graças à iniciativa particular, em grande parte estimulada por Manuel Clamouse Browne, se tratou da fundação da Real Sociedade Humanitária, que teve a sua primeira sessão no paço episcopal e que se constituiu legalmente por um regulamento de 21 de abril do mesmo ano. O lugar de secretário foi confiado a Eduardo Móser (mais tarde 1.° conde de Móser). Os esforços reunidos da Associação Comercial, da Real Sociedade Humanitária e da opinião pública do Porto, obrigaram o governo de então a adoptar algumas providencias não só para investigar as causas da catástrofe e subsidiar as famílias pobres que nela tinham perdido os seus chefes, mas também para evitar ou pelo menos atenuar futuras catástrofes.
Entre estas ultimas providencias a de mais imediata vantagem foi certamente aquela que organizou a comissão directora do estabelecimento de salva-vidas, composta do governador civil, do intendente de marinha, de dois vogais da Real Sociedade Humanitária e dois da Associação Comercial. De todos estes factores resultou a urgência do governo de 1852 expropriar o antigo hospício dos náufragos, que o governo de 1835 tinha vendido por 800$00 réis. Custou a expropriação 5 contos. A história da administração pública em Portugal confunde-se com a dos manicómios. O feliz proprietário, que adquirira o edifício erigido pelo infante Miguel, gozou esse edifício durante 17 anos pela quantia de 800$000 réis, e, por fim, em virtude da expropriação, ainda lucrou 4:200$00 réis!
Foi a Real Sociedade Humanitária que, na sua primeira época, e no empenho de rapidamente obstar a que se repetisse uma tragedia maritima como a do vapor Porto, ingente e pavorosa tanto pelo numero das vitimas, como pelas condições de absoluto desamparo em que se encontraram, fez levantar junto à barra um alto palanque destinado ao salvamento de náufragos. Suponho que a ideia partiria de Eduardo Móser ou de Claraouse Browne, que não perderam nunca o seu caracter inglês durante uma longa residência no Porto. Tive com Eduardo Móser aproximações de boa amizade. Conheci-o no Jornal do Porto, onde me estreei, e onde ele tratava muitas vezes assuntos económicos, apoiando-se sempre nas pautas e estatísticas britânicas. Era um espirito ilustrado, trabalhador e progressivo. Na figura, lembrava Thiers. Pequenino como ele. A face também glabra. Normalmente vestido de preto, como todo o comerciante inglês daquela época. Uma fineza lhe devi que não posso esquecer». Por estas e outras quintilhas fica-se apenas percebendo vagamente que o dropp era um aparelho de pau, destinado a servir junto da barra do Porto para socorro dos navegantes». In Alberto Pimentel, O Torturado de Seide, Camilo Castelo Branco, Livraria Manuel dos Santos, Lisboa, 1921.
                      
Cortesia de LMSantos/JDACT

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Torturado de Seide. Camilo Castelo Branco. Alberto Pimentel. «Aranha de pau de pinho, caranguejola, que és? És o dropp; ora o dropp, é uma coisa (diz Pop) sem ter cabeça nem pés. Visto isso, temos dropp; ninguém tenha á barra medo»

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Este livro não aspira a ser mais que uma leve conversação com o leitor sobre assuntos camilianos e, fundamentalmente, ainda um preito de veneração e saudade que eu venho render à memoria do imortal Torturado de Seide. In Alberto Pimentel, Trafaria, Maio de 1921.

«Parece que alguém julgou vêr numa carta de D. Ana Plácido, ministrada ao meu estimável amigo Nunes Branco (cartas inéditas da segunda mulher de Camilo, Lisboa, 1916), um flagrante desmentido á afirmação, que eu fizera, de que aquela infeliz senhora mais desejava o titulo de esposa que o de viscondessa. Ainda hoje, não obstante a referida carta, penso do mesmo modo. Pois o que é que se lê no documento em questão? Até que emfim está visconde (Camilo)! Esta frase revela-nos que D. Ana Plácido bem sabia quanto de longe vinha o ressentimento do romancista por não ter sido considerado literariamente pelos governos do seu país, como o foram Garrett, Castilho, Benalcanfôr e Roussado, que receberam mercês honoríficas. A pobre senhora está satisfeita vendo realizado este ideal de Camilo, mas como lê muito bem na alma do seu atormentado companheiro, sabe que não era para a deixar viscondessa que êle desejava o título. Por sua parte nunca a deslumbraria um título a que tarde adquiriria direito pelo casamento legal em que o romancista falava de tempos a tempos para logo afastar essa fugaz ideia. E ainda que o casamento viesse a realizar-se, Ana Plácido esperava o arrependimento do seu antigo amante.
Só para não irritar Camilo foi que ela, assim o confessa, fingiu acreditar no programa de casamento... que tardou ainda três anos e a que, com uma ironia muito portuense, chama casório. Tudo o que então se passa lhe parece uma comedia hipócrita, porque uma coisa única devia ter-se feito muito antes do título, era o casamento, que seria a recompensa pública de longos e dolorosos sacrifícios, recompensa que tal mulher como D. Ana Plácido, inteligente, briosa e dedicada, não podia deixar de querer para se reabilitar, oficialmente, da sua estrondosa queda. Se ela não pensasse assim, pelo menos no seu foro íntimo, não seria D. Ana Plácido, mas apenas uma vulgar mulher, que a amante de Camilo nunca fora. De outra carta da mesma procedência talvez o destinatário quisesse inferir que eu divagara por longe da verdade, atribuindo a D. Ana Plácido o desaire de vestir mal e uma ignorância sistemática da evolução dos figurinos. Trata-se de lhe terem sido enviados dois chapéus para escolher um. … cá estão os 2 á escolha, escreveu ela textualmente ,e venha o diabo, como diz o povo, pôr-lhe o dedo! São 2 trastes próprios p.ª costureira reles. Um já muito velho, muito desbotado, com uma fita muito ordinária, é o da minha preferência! O outro, mais leve um pouco, mais fresco, tem umas flores canárias que atestam o bom gosto da tal modista. Emfim, cá fica um dos monos.
Toda a mulher, especialmente a dotada de senso estético e habituada a brilhar na sociedade, possui o bom gosto de vestir, que levou Ana Augusta a repelir, num gesto inconsciente, o chapéu de berrantes flores canárias. Mas, a autora da Luz coada por ferros, aborrecida do mundo, entediada de viver, ficou com o chapéu mais velho, mais desbotado, de fita mais ordinária. Se ambos os chapéus eram maus, uma senhora, que tivesse ainda exigências de antigo coquetismo, ou saudades dos seus dias opulentos, não escolheria nenhum deles, tanto mais que poucas vezes saía à rua, nem queria sair. Ora o que eu disse foi que a ilustre senhora, enquanto viveu no antigo lar conjugal, vestia com esmero e esplendor, mas que na longa expiação do adultério não quis nunca mascarar-se de mulher feliz. O trecho relativo aos chapéus plenamente confirma quanto a este respeito aventei. Venham a lume outras missivas, venham novas confidencias epistolares, para me confundir esmagadoramente, porque, as duas a que me tenho referido não produzem prova em contrário, antes ratificam as minhas afirmações, feitas aliás com escrupulosa segurança.

O Dropp
Nas Folhas caídas, apanhadas na lama, que são indubitavelmente de Camilo Castelo Branco, posto saíssem anónimas, há, entre outras, uma sátira intitulada O Dropp. As duas primeiras quintilhas enunciam o assunto por um modo nebuloso para a geração moderna:

Aranha de pau de pinho,
caranguejola, que és?
És o dropp; ora o dropp,
é uma coisa (diz Pop)
sem ter cabeça nem pés.

Visto isso, temos dropp;
ninguém tenha á barra medo.
A asneira não é tão calva;
a gente sempre se salva:
de que modo? Isso é segredo.

Por estas e outras quintilhas fica-se apenas percebendo vagamente que o dropp era um aparelho de pau, destinado a servir junto da barra do Porto para socorro dos navegantes». In Alberto Pimentel, O Torturado de Seide, Camilo Castelo Branco, Livraria Manuel dos Santos, Lisboa, 1921.

Cortesia de LMSantos/JDACT

sábado, 22 de janeiro de 2011

Camilo Castelo Branco: Teve uma vida atribulada, passional e impulsiva. Uma vida tipicamente romântica. De entre os vários romances, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poesias, ensaios, prefácios, traduções e cartas

(1825-1890)
Lisboa
Cortesia de escavaremruinas

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco foi romancista, além de cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor.

Teve uma vida atribulada que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários. Apesar de ter de escrever para um público, sujeitando-se os ditames da moda, conseguiu ter uma escrita muito original.
Entre 1851 e 1890, e durante quase 40 anos, escreveu mais de 260 obras, com a média superior a 6 por ano, redigidas à pena, logo sem qualquer ajuda mecânica. Prolífico e fecundo escritor deixa obras de referência na literatura lusitana.

Cortesia de citi
Apesar de toda essa fecundidade, Camilo Castelo Branco, não permitiu que a intensa produção prejudicasse a sua beleza idiomática ou mesmo a dimensão do seu vernáculo, transformando-o numa das maiores expressões artísticas e a sua figura num mestre da língua portuguesa. De entre os vários romances, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poesias, ensaios, prefácios, traduções e cartas – tudo com assinatura própria ou os menos conhecidos pseudónimos tais como:
  • Manoel Coco,
  • Saragoçano,
  • A.E.I.O.U.Y,
  • Árqui-Zero,
  • Anastácio das Lombrigas.
Camilo Castelo Branco teve uma vida atribulada, passional e impulsiva. Uma vida tipicamente romântica. Na sua adolescência formou-se lendo os clássicos portugueses e latinos, literatura eclesiástica e em contacto com a vida ao ar livre transmontana. Com apenas 16 anos (1841), Camilo casa com Joaquina Pereira de França e instala-se em Friúme (Ribeira de Pena). O casamento precoce parece ter sido resultado de uma mera paixão juvenil, não tendo resistido muito tempo.

Cortesia de casadecamilo
Apaixona-se por Ana Plácido, e quando esta se casa, tem, de 1850 a 1852, uma crise de misticismo, chegando a frequentar o seminário que depois abandona. Ana Plácido tornara-se mulher de um negociante de seu nome, Pinheiro Alves, um brasileiro que o inspira como personagem em algumas das suas novelas, muitas vezes com carácter depreciativo. Seduz e rapta Ana Plácido e, depois de algum tempo a monte, são capturados pelas autoridades e depois julgados. Naquela época o caso emocionou a opinião pública pelo seu conteúdo tipicamente romântico do amor contrariado, que se ergue à revelia das convenções e imposições sociais. Presos na cadeia da relação do Porto, escreveu Memórias do Cárcere, tendo conhecido o famoso delinquente Zé do Telhado. Depois de absolvidos do crime de adultério, Camilo e Ana Plácido passam a viver juntos, contando ele trinta e oito anos de idade.

Cortesia de quemousavence
Terá sido Camilo Castelo Branco, realista ou romântico?
A crítica tem apontado que se por um lado Camilo nos enredos das suas novelas, com as suas peripécias mais ou menos rocambolescas, está claramente numa filiação romântica por outro lado nas explicações psicológicas, na maneira como analisa os sentimentos e acções das personagens, pelas justificações e explicações dos acontecimentos, pela crítica a determinado tipo de educação, não pode ser considerado simplesmente como romântico.
http://www.gutenberg.org/browse/authors/c#a6699

Cortesia de CITI/Casa de Camilo/JDACT