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sábado, 23 de abril de 2016

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, onde esperei morrer, meus tão castos lençóis? Do meu jardim exíguo os altos girassóis quem foi que os arrancou e lançou no caminho?»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) Não quero tirar nenhum mérito a João Castro Osório pelo salvamento, da Clepsydra. Durante décadas lutou pela obra de Camilo Pessanha, procurando descobrir outros poemas, e a ele, entre o mais, se deve a publicação desse livro admirável que é China: Estudos e Traduções (1944), para o qual escreveu discretamente, sem revelar a autoria, uma introdutória Nota Explicativa. O volume contém as maravilhosas Oito Elegias Chinesas, e Vozes do Outono, traduzidas por Camilo Pessanha, além de uma Legenda Budista, (que parece um poema dele), conferências sobre a literatura e estética chinesas, um aterrador escrito sobre a China que conheceu, e de como era nesse país a justiça penal, os seus carrascos venais com uma tabela de reduções nas horripilantes atrocidades, públicas, para suavizar aos executados o suplício da lentíssima morte.
Todavia, no salvamento (é o termo) da Clepsydra, Ana Castro Osório teve um papel decisivo, impõe-se reconhecê-lo. Sabendo que o autor era, nas suas próprias palavras, um verdadeiro poeta, mas um tímido, um misantropo, um desiludido, foi ela que teceu, fiel ao prometido pacto de amizade, toda a teia que levou dois adolescentes, primeiro António, o sobrinho de catorze anos, e depois João, o filho de dezasseis, àquilo que parecia impossível, trazer Pessanha a sua casa, sacar-lhe da memória os poemas e publicá-los. Conhecendo-o, apostou no filho e no sobrinho para esse grandioso objectivo. O sobrinho trouxe-lho a casa; e o filho (não ela) pediu-lhe que aos serões recitasse os poemas para poderem ser publicados. O importante era que o livro aparecesse e lhe fosse parar às mãos, que ela o editaria... Conta João Castro Osório que, num desses serões, habilmente organizados pela mãe, foi para nós todos um encanto ouvir-lhe, na quase cantada, mas muito expressiva leitura, e na sua prosa admirável e cheia de poesia, as reflexões, profundas e subtis, de um Filósofo chinês da dinastia Tang, intituladas Vozes do Outono; pediu-lhe minha mãe, a escritora Ana Castro Osório, uma cópia dessas páginas, que tanto lhe agradavam, e autorização para, depois, as publicar.
Que fez Ana Castro Osório? Não perdeu tempo, enquanto aguardava que Camilo enviasse os outros prometidos poemas para a Clepsydra. Nesse mesmo ano de 1916, no primeiro (e único) número da revista Centauro, um prolongamento do Orpheu e de que era director Luís Montalvor, além dos catorze sonetos de Fernando Pessoa, Passos da Cruz, são publicados em lugar de honra dezasseis poemas inéditos, de Camilo Pessanha, entre os melhores da futura Clepsydra, sendo o primeiro Os Violoncelos, e o último aquela lamentação pela morte da mãe, uma das mais belas e pungentes elegias de todas as literaturas, e que o autor, escrevendo a Ana, diz constituir uma síntese trágica:

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco)
A mesa de eu cear, tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova,
olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
de noite a mendigar às portas dos casais.

Síntese trágica da sua poesia e fatalidades pessoais, transposição do estigma da bastardia, e da humilhação da mãe, amante e criada até ao fim (no velho casarão infamado da quinta de Braga). A escolha reflecte a sensibilidade da escritora, pois encontra-se aí o núcleo mais valioso dos poemas que viriam a fazer parte da Clepsydra, com excepção, claro, da Canção da Partida [esta elegia à morte da mãe levanta uma singular estranheza. Numa carta que escreveu a Alberto Osório Castro, datada de 8-9-1896 (dia dos meus trinta anos), Camilo Pessanha confessa ao amigo, estando em Setúbal, na casa do pai deste, que daí por seis meses, toca outra vez para o buraco; deve ser muito triste a segunda despedida; se o Alberto Osório visse por exemplo como minha mãe já está velhinha, toda branca, quer ver medonhos versos meus?; segue-se a primeira versão dessa sublime elegia à morte da mãe, afinal apenas velhinha e toda branca; não tem fundamento, pois, a opinião de que esta elegia teria sido escrita depois de ter conhecimento de que a mãe estaria moribunda, por carta que o pai lhe enviara poucos dias depois da chegada inicial a Macau (1894); foi escrita pelo menos dois anos depois, vendo o envelhecimento da infeliz, da sacrificada Maria do Espírito Santo, filha de louca, mãe de um louco (o filho Manue1 e governante de Conselheiro; que medonhos versos estes à mãe; alma penada, vagabunda, de noite a mendigar à porta dos casais; um destino ainda mais cruciante depois da morte]…
João Castro Osório revela que, autorizado pela mãe, diligenciou junto de Luís Montalvor a publicação desse núcleo extraordinário de poemas, do que não duvido». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da FOriente/LinhadeÁgua/JDACT

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «O jovem conta que Camilo Pessanha recitava, a seu lado, os versos pelas ruas de Lisboa, e a forma como o fazia: vivendo eu num meio de literatos, nunca tinha dado pela maravilha da poesia…»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) Assistia, quase sempre, aos seus almoços no hotel e dali começavam as peregrinações pela cidade, […] À tarde, o habitual encontro com os literatos, seus amigos, frequentemente no Café Martinho. Ali conheci Henrique Trindade Coelho, Carlos Amaro, etc. Camilo que, atento à minha idade, tinha o cuidado de me fazer merendar, preferia para si o bom café [...]. Naquela mesa de Camilo Pessanha a poesia era senhora absoluta e todos o escutavam com religioso silêncio e rendido entusiasmo […]. Contudo, o ópio, que foi a maldição da sua vida, não o deixava em paz: de vez em quando, parando nas nossas caminhadas, Camilo Pessanha, absorto, tirava do bolso do casaco uma pequena caixa de papelão, destas que as farmácias dão com as receitas coladas e, sem olhar com os seus finos dedos tacteando num pó amarelo, tirava um pequeno grânulo, não sei se mais do que um, muito escuro, e levava-o à boca. Só depois eu soube, por meu tio Alberto, que era a terrível droga que em Macau, fumada a longos haustos, lhe repunha as forças e o tornava à vida. O jovem conta que Camilo Pessanha recitava, a seu lado, os versos pelas ruas de Lisboa, e a forma como o fazia: vivendo eu num meio de literatos, nunca tinha dado pela maravilha da poesia em sua música própria. Só muitos anos depois o sentiria de novo, ouvindo poemas de Cecília Meireles por ela recitados. Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como que em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstracta melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos. Quando, senhor da minha missão, sentia, com orgulho, o braço de Camilo Pessanha apoiado no meu e o ouvia, talvez julgando-me desatento, recitar, recitar sempre e a pequenas pausas, que pena tinha ao pensar que a memória me não guardasse aqueles versos e aquela música! Felizmente, tanta vez lhe ouvi os poemas que um dia haviam de formar a Clepsydra que era quase perfeita a sua imitação. Durante anos, em muitas circunstâncias da minha vida, recitava poemas seus como ele.
Neste belíssimo testemunho, conta-se ainda, sem poder precisar, que numa revista ou jornal ilustrado, fora referido ter sido visto: Camilo Pessanha, já cego, caminhando nas ruas de Lisboa guiado por um rapazito loiro. Não posso garantir a exactidão dessa referência que nunca consegui encontrar. Fosse como fosse, fica feita agora a identificação do mocito loiro. Eram, efectivamente, dessa cor os meus cabelos. O que o poeta não estava era cego, isso não, embora lhe servissem os meus olhos para poder ele evadir-se com a sua poesia e caminhar sem usar os seus. Antes de publicada a evocação de Camilo Pessanha, António Osório Castro enviou o texto dactilografado para apreciação do seu primo e grande amigo João Castro Osório, a amizade que os unia era de irmãos verdadeiros. Conservo as seis páginas manuscritas nas quais João Castro Osório se pronuncia sobre esse trabalho: gostei muito do teu breve ensaio psicológico sobre Camilo Pessanha e sobre ti também. E vejo que a tanta distância, no tempo, o poeta foi uma profunda influência na tua alma (...). O que relembras está certíssimo e até me vem tirar algumas dúvidas, quanto a datas.
Por último, renova os agradecimentos comovidos por tudo, na referência a minha mãe (e bem posso dizer nossa) e ao meu esforço. E elucida o primo sobre a revista onde se refere que Camilo Pessanha cego era guiado pelos olhos de uma criança em que se apoiava: é a Portucale, 1931. Camilo Pessanha e Raul Brandão, duas grandes almas, também nisso próximas: gostavam de passear por Lisboa guiados pelos olhos de jovens amigos, como se fossem cegos, melhor, como se dependessem, andando, tão-só do afecto de alguém. Camilo deu um merecido prémio ao cedido pajem, fazendo-se retratar com ele, no dia 30 de Março de 1916. É uma das mais calmas (diria mesmo, felizes) fotografias de Pessanha, não falando, claro, no jovem, exultante. Além da missão de o levar a sua casa, o pajem satisfazia outro feminino cuidado: ser o companheiro, como escreve João Castro Osório, vigilante de Camilo Pessanha, em suas andanças diurnas, entre o almoço e o jantar, evitando que, na distracção frequente, [...] ele fosse atropelado ou se perdesse durante horas, pois, memória maravilhosa em tantas actividades mentais, não conseguia fixar qualquer caminho, com segurança, na cidade». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da FOriente/LdeÁgua/JDACT

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Uma história de amor única das nossas letras, mantida sob sigilo, e revelada um século depois. Em grande parte inéditas, cartas, dedicatórias, fotografias, os dois são evocados ao longo da vida…»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) E traz um pós-escrito de uma beleza tão impressionante como o pedido da sua amiga ao sugerir-lhe que fosse despedir-se dela, antes de partir para o Oriente: P.S., Seria uma iniquidade pedir-lhe que me escrevesse; mas, quando houver jornais, continuo a pedir-lhe que não se esqueça de me mandar um ou outro, de vez em quando, e que eu reconheça no endereço a sua letra. É também para mim uma doce evocação familiar.
Assim acabou a correspondência de Camilo para Ana. Infelizmente, a desta para ele, como as demais, perdeu-se na indescritível desordem da casa de Pessanha em Macau. Quando da última vinda de Camilo Pessanha a Portugal, em 1915, em gozo de licença, como se deu o encontro dos dois? De quem partiu a iniciativa? Ana de Castro Osório gozava de grande prestígio. A sua obra e actividade editorial eram publicamente reconhecidas, tendo sido os seus livros de leitura aprovados oficialmente e adoptados nas escolas do nosso país e do Brasil. Edições da Lusitânia, com sede na sua casa, em Lisboa, a editora da Clepsydra. Como então se dizia, recebia, às quintas-feiras os escritores, os jovens autores, os jornalistas. Sem nunca dele se servir, estava próxima do poder, era amiga pessoal de Afonso Costa e de outros dirigentes republicanos e, como disse-mos, em breve desempenharia um papel relevante, criando, após a Primeira Guerra Mundial, a Cruzada das Mulheres Portuguesas, com a finalidade de prestar apoio aos nossos soldados e às suas famílias sem recursos e, depois, aos feridos, mutilados e estropiados. No apogeu intelectual, tinha então quarenta e três anos.
Sabemos hoje que a iniciativa do reencontro partiu dela (nem outra coisa seria de esperar). Uma história encantadora pela discrição, pelo tacto e pelo afecto. Ana tinha um sobrinho de que gostava muito, António (António Pereira Osório de Castro (1901-1972), natural de Setúbal; ilustre advogado, foi director do Contencioso do Banco de Portugal e, depois, administrador; ele e sua mulher, a poetisa Maria Valupi, eram meus tios e padrinhos), e foi ele, que era, como a escritora dizia, o seu pajem, então com catorze anos, o incumbido de trazer Camilo de volta. Esse curioso episódio foi contado pelo próprio, cinquenta anos depois de ter conhecido Pessanha. Nessa altura, o jovem vivia com os avós e com a tia Ana Castro Osório, que me queria como a qualquer dos seus filhos e a quem eu amava como se fosse minha Mãe.
Numa manhã desse Outono de 1915, minha tia [...] disse-me que queria dar-me uma missão delicada: a de procurar, nessa manhã, no Hotel Francfort, do Rossio, e tentar trazer para almoçar em nossa casa o dr. Camilo Pessanha, chegado de Macau, grande artista e grande amigo da nossa família, velho e querido companheiro de Coimbra de meu tio Alberto Osório Castro. De posse da minha credencial, corri ao Francfort e, poucos minutos depois, estava junto à cama onde ainda se encontrava Camilo Pessanha [...]. Correspondeu, enternecido, aos meus cumprimentos, releu, na carta, o meu nome e aquele com que, familiarmente, me tratavam, [...] mostrou-me o mais bondoso sorriso quando lhe afirmei que poderia esperar, que o levaria comigo e pediu-me, então, que o aguardasse um pouco na sala do hotel, enquanto se aprontava. [...] Devo acrescentar que ao ver assim, criança que eu era, pela primeira vez o dr. Camilo Pessanha, [...] julguei ter visto alguém que me parecia um santo.
Não era um santo, mas um sofredor, um desesperado terrível. Levado pelo adolescente, assim regressou a casa de Ana, e aí, nesse mesmo dia, almoçou, como a sua amiga desejava e conseguiu! António Osório Castro recorda os intermináveis jantares e os serões, no Arco do Limoeiro, com Camilo Pessanha recitando os seus versos ou falando da arte chinesa! Intermináveis os jantares, não por abundância de pratos, mas porque não havia possível seguimento neles: Camilo falava, falava, esquecido de comer, nós ouvíamos... Terão sido estes quatro meses da última estada em Lisboa os mais felizes daquela atormentada vida? Ouçamos por ora o jovem pajem, de sua tia, que se transforma no de Pessanha, e que este familiarmente tratava por Antoneco. Passou a haver entre ambos um quotidiano convívio». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

sábado, 23 de agosto de 2014

Em Ferros d’El-Rei. Paulino Oliveira. «A sua obra é multímoda, espraiando-se por diversas áreas: o jornalismo, a poesia, a ênfase na recuperação de algumas personalidades de inequívoco mérito das letras nacionais, a pedagogia, a valorização dos 'ex-líbris' de Setúbal…»

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Prefácio
«(…) Em Setúbal, o seu quotidiano foi preenchido com o exercício da profissão, guarda-livros, o jornalismo e a divulgação dos princípios do republicanismo. Em 1893, por motivos políticos, conheceu as agruras do despedimento. Em Janeiro do ano seguinte, partiu para o Ambriz, Angola, em busca de um futuro mais risonho. O sonho africano foi obliterado, ao fim de alguns meses, pela doença. De regresso à sua terra natal, como recorda João Francisco Envia, foi industrial de colchoaria. Teve ainda oficina de mobiliário, instalada na Rua de Santo António, e estabelecimento de vendas, na Praça de Bocage, empregando numerosos operários. Mais tarde, fez parte dos quadros da fábrica de conservas Aurora, que pertencia a José Joaquim Fragoso.
No início da década de 90 do século XIX, o juiz João Baptista Castro veio exercer para Setúbal. Ficou nos anais da república portuguesa porque lhe coube assinar, em 1911, a directiva que estipulava a inclusão de Carolina Beatriz Ângelo nas listas de cidadãos que podiam exercer o seu voto para a eleição da Assembleia Constituinte. Esta tarefa ingente impunha-se porquanto era necessário erigir um regime estruturado e alternativo ao da monarquia, pouco antes derrubada. De acordo com a legislação promulgada pelo governo provisório, coordenado por Teófilo Braga, apenas os chefes de família podiam expressar nas urnas as suas opções políticas. Por ter enviuvado, aquela médica reivindicou essa prerrogativa, tornando-se a primeira mulher portuguesa a votar. Abra-se um parêntesis para recordar que, como é do domínio público, só em 1931, foi contemplado o direito de voto para as mulheres, desde que tivessem, no mínimo, o curso secundário completo.
O mencionado magistrado teve pelo menos dois filhos: o poeta e jurista Alberto Osório Castro, cuja obra está injustamente esquecida, e Ana de Castro Osório. A esta escritora muito deve a literatura, designadamente a infantil e a tradicional, a pedagogia, o movimento em prol do divórcio, a edição de obras de vulto e a propaganda republicana. A 10 de Março de 1898, casou-se, na freguesia da Anunciada, com Paulino Oliveira. A respectiva prole chegou pouco depois: João Osório Castro e José Osório Oliveira, nascidos em 1899 e em 1900. Ambos trilharam também a senda das letras, legando-nos uma extensa obra, nomeadamente o último.
Em 1908, Paulino Oliveira, vítima de perseguição política, foi forçado a demandar o exílio em terras brasileiras. O 5 de Outubro de 1910 constituiu um imperativo categórico para regressar ao país. Depois de uma experiência fugaz pelo jornalismo, foi nomeado, em Maio de 1911, cônsul em S. Paulo. A tuberculose, a doença da época, foi inexorável, tendo ali falecido a 13 de Março de 1914. Os seus restos mortais foram trasladados, em 1922, para um jazigo de família que se encontra no cemitério de Setúbal. A obra de Paulo Oliveira é multímoda, espraiando-se por diversas áreas: o jornalismo, a poesia, a ênfase na recuperação de algumas personalidades de inequívoco mérito das letras nacionais, a pedagogia, a valorização dos ex-líbris de Setúbal, bem como a afirmação e a divulgação dos princípios que enformavam o P.R.P., ou seja, o Partido Republicano Português.

O jornalismo
A actividade jornalística constituiu uma das paixões de Paulino Oliveira: estava em sincronia com a sua personalidade e o seu ideário. Dava-lhe, com efeito, a possibilidade de ensaiar os seus voos poéticos, de partilhar as suas crónicas, de manifestar as suas opções literárias, de intervir socialmente e de expressar os princípios do republicanismo, causa que abraçou com entusiasmo.
Na verdade, Paulino é um caso sui generis do jornalismo português. Foram da sua responsabilidade a fundação, edição ou redacção de sete periódicos:
  • A Estreia Literária, quinzenário literário e noticioso (1886), que, ao fim de 12 números, deu lugar à Semana Setubalense, folha independente, política, literária e noticiosa (1886-1887); 
  • A Opinião (9 Junho 1889-31 Agosto 1890); 
  • O Eco de Setúbal: semanário republicano (1893); 
  • O Mês: crónica da vida setubalense (Novembro 1894), que redigiu integralmente quando regressou de África; 
  • O Pregoeiro (1903); 
  • O Radical, na sequência do 5 de Outubro, em 1911, com o intuito de desmascarar os republicanos convertidos à última hora.
Tal como aconteceu com Ana de Castro Osório, a sua colaboração esporádica em jornais e revistas é extensa, sendo consequentemente árdua a respectiva inventariação integral. Recordemos alguns: Branco e Negro, O Perfume, Ave Azul, O Distrito, Gazeta Setubalense, O Elmano, Arrábida, Boémios, Comércio do Vez, Ilustração Portuguesa, Novo Aurora, A Crónica, A Pátria a Garrett, Sociedade Futuro, Garcia de Resende, Limiana e, postumamente, A Voz da Mocidade, Ideia Nova e Descobrimento».
In Paulino de Oliveira, Em Ferros d’El-Rei, Considerações acerca da minha prisão, Typ. Da Companhia Nacional Editora, Lisboa, 1893, Prefácio de Daniel Pires, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2012, ISBN 978-972-8361-45-7.

Cortesia de CEBocageanos/JDACT

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «O convite foi também enviado pelo correio ao próprio conferencista, então com vinte anos: foi esta a sua primeira conferência e intervenção crítica sobre a Clepsydra»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) Ele, o filho mais velho, conta como lhe recolheu, a poesia:
  • Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu, então, Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas.
Acrescenta João de Castro Osório que Camilo confiara a Ana o encargo da publicação, em livro, dos Poemas que [...] recolhera e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão. Por isso, Ana toma a iniciativa de publicar, em 1920, nas Edições Lusitânia (de que era a dona) esse livro esplêndido, único, dos mais dolorosos e perfeitos da poesia portuguesa. A obra despertou logo interesse e algum entusiasmo. Ana de Castro Osório é entrevistada por Fernanda de Castro, em 21 de Abril de 1921: De há muito que conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo. A entrevistadora lança a hipótese de Camilo Pessanha, animado pelo êxito dos seus versos, voltar a publicar. A entrevistada, conhecendo-o como conhecia, responde: Ah, isso sim! Camilo Pessanha está em Macau e não dá novas de si. Creia, nele não existe, nem mesmo [em] estado latente, o mais pequeno desejo de glória.

NOTA: Maria Fernanda [de Castro], Um Poeta Estranho: a Idiossincrasia de Camilo Pessanha. A Sra. D. Ana de Castro Osório narra ao Diário de Lisboa como conseguiu levar o poeta a publicar a Clepsydra (Diário de Lisboa, 21 de Abril de 1921. Na entrevista, Ana de Castro Osório rerá, nomeadamente, afirmado: sem dizer ao poeta os meus planos, pedi-lhe que fosse ditando versos seus, pois queria guardá-los num caderno. Camilo Pessanha ditou-me algumas belas poesias. E foi assim que nasceu a sua Clepsydra. Permito-me duvidar da fidedignidade da transcrição das palavras de Ana de Castro Osório pela ilustre entrevistadora, pois, como já se referiu, Camilo não ditou os seus versos a Ana, quem os escreveu foi João de Castro Osório: a ele coube esse importantíssimo papel, de acordo com o plano de sua mãe.

De resto, Camilo não dava novas de si, nem sequer depois de ter recebido a Clepsydra!
Só em 3 de Junho de 1921 é que se dirige à bondosa amiga, lamentando a sua anemia mental, e agradecendo a publicação do livro:
  • Mas não quero deixar de agradecer-lhe, penhoradíssimo, a publicação da esquecida Clepsydra, e os cuidados da disposição (que é como eu próprio a faria) e da ortografia. Igualmente me cativou a notícia da conferência feita pelo João, que tão meu amigo é e cujo fino e equilibrado talento eu tanto aprecio. Não haveria meio de eu a poder ler? Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus próprios olhos a minha pobre alma, há tantos anos morta... Muitas e muitas saudades para todos; e, por tudo, lhe beijo reconhecido a mão. Camilo Pessanha.
NOTA: Sobre a conferência feita pelo João, encontra-se no espólio de João de Castro Osório um documento: a Direcção da Société Amicale Franco-Portugaise enviou convites para o Serão Literário em que João de Castro fará a invocação da figura e da Arte do poeta Camilo Pessanha no salão nobre da Société Amicale (Rua do Século, 50) no próximo sábado 20 de Novembro de 1920. O convite foi também enviado pelo correio ao próprio conferencista, então com vinte anos: foi esta a sua primeira conferência e intervenção crítica sobre a Clepsydra.

A carta está à altura da generosidade de Ana». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «… não se encontra vestígio de correspondência com Camilo; esta só se reata dois anos depois da viuvez de Ana. Camilo escreve-lhe uma belíssima carta, de Macau, a 5 de Novembro de 1916»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) Lidas hoje, as duzentas e cinquenta páginas deste livro nada perderam da sua rebeldia, da contida indignação polémica, da veemência humanista, pondo a nu as resignações e as frivolidades, impostas às mulheres e por elas aceites, e preconizando um conjunto de reformas, desde a alteração da lei civil e fiscalização do trabalho das menores à criação de creches, escolas infantis e asilos-oficinas. O estilo é acessível, vibrante, eloquente, lembra o do seu mestre Garrett. Nesse tempo, deve ter sido também profundamente detestada: era incómoda, persistente e culta e, pior, provinha de um estrato aristocrata... Graças a Fátima Ribeiro Medeiros sabemos que quando começou, em 1901, a publicar os folhetos feministas, sendo o primeiro As Mães Devem Amamentar os Seus Filhos, era a autora quem os distribuía gratuitamente nas reuniões feministas e..., à porta das fábricas de conservas de Setúbal. A jovem filha do Meritíssimo Juiz de Direito devia ser, na pacata cidade, um verdadeiro escândalo.
Ao mesmo tempo que escrevia para as crianças e lutava pela melhoria da condição feminina, tal como hoje se luta contra a violência sobre as mulheres, Ana de Castro Osório publicava novelas e romances, aliás injustamente esquecidos; e foi também a pioneira autora de livros escolares, acessíveis e bem ilustrados, aprovados em Portugal e nas escolas públicas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais. O primeiro, A Minha Pátria (1906), foi adoptado oficialmente em plena monarquia. Pessoa de fibra e de carácter, graças à sua modesta, mas orgulhosa, independência económica como escritora, editora e distribuidora dos próprios livros, talvez a primeira mulher, entre nós, a viver da actividade literária, desdenhou sempre o poder. Exerceu um único cargo, o de subinspectora do trabalho feminino, e recusou aos amigos republicanos e maçons a Ordem de Santiago, aceitando apenas, mais tarde, a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial, que premiou uma propaganda de muitos anos em prol da arborização, da silvicultura e do ressurgimento das indústrias caseiras tradicionais, entre elas as rendas e os tapetes.
Em 1911 acompanhou ao Brasil o marido, Paulino Oliveira, que tinha sido nomeado Cônsul de Portugal em São Paulo, transferindo para esta cidade, na própria casa, conforme era seu hábito, a actividade editorial que sempre manteve conjuntamente com a criação literária e a intervenção cívica. Foi na capital paulista que Paulino Oliveira faleceu, em 1914. Até essa data, não se encontra vestígio de correspondência com Camilo; esta só se reata dois anos depois da viuvez de Ana. Camilo escreve-lhe uma belíssima carta, de Macau, a 5 de Novembro de 1916, ou seja, vinte e três anos depois da desafortunada declaração. A necessidade de confiar as velhas ulcerações incuráveis da minha alma, e o primeiro lugar que Ana ocupa nas suas afeições, são ditas com toda a veemência, e com paixão que se adivinha irreprimível:
  • É uma coisa curiosa como, sendo eu absolutamente incapaz, por uma abulia sem remédio, em parte congénita e em parte agravada (por culpa minha, por culpa alheia e por diversas razões de que ninguém tem culpa) de manter com as pessoas a quem mais amo uma correspondência assídua ou, ao menos, duradoura, toda a minha intensa vida afectiva se sustenta da lembrança e do amor de três ou quatro pessoas com quem eu me encontro de anos a anos, e entre as quais, desde a minha última estada em Portugal, V. Exa. ocupa o primeiro lugar.
Antes, dera-se algo importantíssimo. Depois da viuvez de Ana, dera-se em fins de 1915, princípios de 1916, o convívio pessoal entre os dois. Como escreve João de Castro Osório, Camilo, amigo de toda a minha família [...], jantava e seroava
em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «… e mantendo, a ‘Cruzada das Mulheres Portuguesas’. Antes disso colaborara com Afonso Costa na feitura da Lei do Divórcio, questão a que consagrou o volume intitulado ‘A Mulher no Casamento e no Divórcio’»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) E há jogos, como exercício de linguagem (um exemplo que refresca a nossa memória: ganha mais depressa quem disser: (...) o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia; ou Dão badalão / cabeça de cão / orelhas de gato / não tem coração. E há ainda os contos e casos da tradição popular ouvidos e recontados, de que o exemplo mais vivo deve ser porventura A história do macaco: Do meu rabo fiz navalha / da navalha fiz sardinha / da sardinha fiz farinha /, da farinha fiz menina /, da menina fiz viola /, Frum / fum-fum /, que eu vou para Angola!
O Lugar das Mães era para a pedagoga uma secção, que se destinava a auxiliar as mães na sua alta missão de educadoras e criadoras de verdadeiros portugueses pelo sangue e pela tradição, manifestando o seu reconhecimento pelas provas de interesse por este trabalho que tão útil nos parece à cultura nacional, aumentando o conhecimento do nosso já rico folclore coleccionado.
Por outro lado, Ana de Castro Osório foi uma das primeiras feministas, luando por causas indiscutivelmente justas, sendo uma delas (imagine-se!) a amamentação dos filhos..., pelas mães, a qual defendeu nos folhetos, de distribuição gratuita, A Bem da Pátria; fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e durante a guerra de 1914-18 teve um papel activo na propaganda patriótica e na assistência aos soldados portugueses, criando, e mantendo, a Cruzada das Mulheres Portuguesas. Antes disso colaborara com Afonso Costa na feitura da Lei do Divórcio, questão a que consagrou o volume intitulado A Mulher no Casamento e no Divórcio.

NOTA: Não foi em vão o amor de Ana de Castro Osório pelas crianças e a sua luta pela dignificação do lugar das Mães. Depois de encontrar nos papéis de família um embrulho com toda esta colaboração de uns centos de páginas no Diário de Coimbra, li a uma neta, com 6 anos, muitas das quadras aqui citadas, e ouvi-a gostosamente cantar o Papagaio loiro, O lagarto pintado quem te pintou? o Era uma vez um gato maltez..., e outras invenções do nosso povo que são repetidas (e glosadas) nos coros e divertimentos das escolas de hoje.

A sua actividade feminista não foi ainda objecto de uma obra que descreva essa corajosa e tenaz actividade, durante toda a vida, contra preceitos (não só preconceitos) enraizados inclusive na lei civil. Com 33 anos, Ana de Castro Osório escreve o manifesto da causa feminina, Às Mulheres Portuguesas (1905), depois traduzido para francês. Aí denuncia a condição dramática das nossas mulheres, do milhão de portugueses que sabem ler e escrever a sua língua, apenas um terço são mulheres!, e, não menos grave, o estatuto legal, pois segundo o Código Civil na mulher casada não pode negociar, exercer uma indústria ou uma profissão, inclusivamente escrever para público e publicar os seus livros, sem autorização do marido. Ana de Castro Osório deseja que a mulher deixe de ser ignorante e inferior (a rapariga portuguesa não tem opiniões, para não ser pedante; não lê, para não ser doutora e não ver espavoridos os noivos, que por acaso a procurassem; que passem, pelo contrário, a ser conscientes e autónomas, companheiras e aliadas do homem, as verdadeiras educadora dos seus filhos:

Ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligência e de razão, educadas útil e praticamente de modo a verem-se ao abrigo de qualquer dependência, sempre amarfanhante para a dignidade humana».

In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2013

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Porque os contos de fadas, citando Italo Calvino, não só são verdadeiros, não constituem apenas uma explicação geral de vida, oriunda de tempos remotos: exprimem sobretudo a substância unitária de tudo…»

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Canção da Partida
[…]
quem vai embarcar, que vai degredado,
as penas do amor não queria levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
lançai-o ao mar

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.
[…]
Camilo Pessanha

Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«Em suma, obra notável, pela amplitude da recolha e beleza do estilo, claro, imaginoso, cingido à inventiva e ao falar do nosso povo, que reaparece numa cadeia milenar de gerações, não perde no confronto com as Fiabe Italiane (1956) de Italo Calvino, há pouco traduzidas entre nós. Pena é que as nossas fiabe não se encontrem também disponíveis numa edição correspondente à sua importância de clássico da literatura portuguesa para as crianças e os jovens. Porque os contos de fadas, citando Italo Calvino, não só são verdadeiros, não constituem apenas uma explicação geral de vida, oriunda de tempos remotos: exprimem sobretudo a substância unitária de tudo, homens, animais, plantas e coisas, a infinita possibilidade de metamorfose do que existe. E eis o que faz deles mágicos, fascinantes e ainda, por essa via, proveitosas obras de arte, que encantam e ao mesmo tempo educam.

Depois de muitos anos de investigação, Fátima Ribeiro Medeiros, mestre em Literatura Comparada pela Universidade Nova de Lisboa, acaba de publicar Do Fruto à Raiz - Uma Introdução às Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa Recolhidas e Recontadas por Ana de Casto Osório, que constitui o melhor estudo sobre a sua obra para a infância. Embora antes dela outros autores tenham já tentado aproximar a criança do conto tradicional, esse foi o grande trabalho literário da sua vida; e fá-lo numa linguagem muito cuidada mas simples, com algumas expressões que continuam na boca do povo, e um saber que se vai transmitindo de geração em geração. As suas histórias tinham como objectivo, continua Fátima Ribeiro de Medeiros, educar e alegrar as crianças.
Sobre as rescritas literárias de Ana de Castro Osório, a investigadora usa a feliz metáfora da viagem:
  • Viajar... um sonho de todos. A criança sonha com a viagem, viaja sonhando... Os contos infantis transportam-na para paragens e épocas longínquas, são pontos de passagem de um itinerário que só vai terminar quando estiver concluído, isto é, quando o leitor perceber que já é adulto. A leitura é ela própria uma viagem. Viajando de página em página, o leitor vai descobrindo o prazer do texto. Terminado o livro, terminou a viagem.
Ouçamos a própria Ana de Castro Osório sobre a sua arte de contar para as crianças:
  • A criança não gosta que a não tomem a sério e se lhe contem histórias com o ar de quem diz uma coisa sem importância, e tudo vem a seu tempo. Como detesta a imposição duma noção pedantesca da moral, que para o ser tem de ressaltar dos próprios elementos da vida e seu corolário por ela própria tirado dos factos expostos.
No entanto, há outro aspecto praticamente desconhecido da actividade da escritora. Dedicou-se durante anos à recolha de rimas da primeira infância por ela coleccionadas e comentadas, no Diário de Coimbra, onde colaborava na coluna O Lugar das Mães. Essas rimas da primeira infância, por exemplo, Lagarto pintado / quem te pintou? - Foi uma velha/ que por aqui passou; Era uma vez / um gato maltez, tocava piano, falava fancês, educam o miúdo, comenta a pedagoga, disciplinam a memória e animam a criança num jogo alegre em que toma parte directa. A missão das educadoras da primeira infância, que em toda a parte onde a pedagogia é um estudo sério são apreciadas e pagas pelo justo valor, porque é quase um dom de Deus....
Entre estas criações orais, destaca as rimas para decorar e parlendas, para os meninos cantarem Papagaio loiro / do bico doirado /, leva-me esta carta / ao meu namorado /, Ele não é frade, nem homem casado/, é rapaz solteiro, lindo como um cravo. E também para fazer rir a criança, que necessita de sentir muita alegria e boa disposição em todos que a rodeiam; e não menos importantes, as rimas de jogos e danças, porquanto na sua necessidade de movimento, de alegria e de ritmo, que a criança reclama, têm papel muito importante os jogos, tanto os de movimento como os de palavras e danças de roda, que tanto as animam colectivamente...» In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.


Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

domingo, 5 de agosto de 2012

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Porque meditou Camilo durante tanto tempo? Porque se declarou depois de concorrer para Macau? Se fosse aceite, desistiria da nomeação? Fê-lo em desespero de causa? Íntimo como era da família e, sobretudo, de Alberto…»


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«Vejamos ainda outra intrigante questão relacionada com o mesmo assunto. Não tem fundamento, a meu ver, a hipótese de que foi pelo desgosto de a sua proposta não ter sido aceite que Camilo partiu para Macau. Na carta em que se declara, diz que meditou um ano antes de escrevê-la (Outubro de 1893) . Ora, já tinha concorrido antes (19-VIII-1893) a um lugar de professor de Liceu em Macau, e foi nomeado em 18 de Dezembro para a disciplina de Filosofia dessa mesma escola.
De resto, quando Ana responde em 20-X-1893 ‘recusando’, já sabia, ela e os seus familiares da ida para Macau:
  • «E como vai ficar longe esquecerá a mágoa que porventura lhe fará a minha recusa [...]».
Porque meditou Camilo durante tanto tempo? Porque se declarou depois de concorrer para Macau? Se fosse aceite, desistiria da nomeação? Fê-lo em desespero de causa? Íntimo como era da família e, sobretudo, de Alberto, junto de quem trabalhava na comarca de Óbidos cerca de um ano antes da partida para Macau em 17 de Março de 1894, permito-me pensar que Camilo saberia que Ana tinha namoro com Paulino de Oliveira.
Arriscou tudo por tudo. Perante a recusa, a outra alternativa era o Oriente. E escrever aquela dolorosa ‘Canção da Partida’, que João de Castro Osório, preocupado sempre, e compreende-se, em esconder a paixão de Camilo pela mãe, não resiste a comentar ser ‘sugestiva de irremediável desgosto’. Bem o sabia ele, com as provas na mão.

Ana de Castro e o ‘Salvamento’ da Clepsydra
Ana de Castro Osório começou a publicar por volta dos vinte e cinco anos. Tendo recolhido de início os contos da tradição popular que ouvira à sua velha rendeira, deu-lhes forma literária, realizando com eles o que Almeida Garrett, escritor que admirava profundamente, fizera com os romances tradicionais.
Ouvi a meu pai que a sua tia Ana passava em Setúbal um dia, todas as semanas, com uma internada do Asilo das Velhas (ainda hoje existe: é o Asilo Acácio Barradas, pertencente à Misericórdia). Recolhia as histórias que as ‘avós’, as mulheres do povo, guardavam na memória. Na falta de editor, resolveu publicar, a partir de 1897, em folhetos mensais de trinta e duas páginas, ilustrados por Leal da Câmara, os “Contos para as Crianças”, que enviava pelo correio aos ‘pequeninos assinantes’, mediante módica quantia, recebendo eles, no fim de cada série de seis números, as capas; além disso, no fim do ano distribuir-se-á um prémio que será o testemunho da minha gratidão. Assim nasceu entre nós a literatura infantil, constituindo esses contos, durante gerações, o modelo do imaginário das crianças portuguesas, para quem também traduziu Grimm e Andersen. ‘Branca-Flor’, ‘O Homem da Moca’, ‘O Esperto’ e tantas outras narrativas, reunidas em dezoito volumes, com muitas reedições, são autênticas obras-primas, num estilo simples e elegante, usando tanto quanto possível as criações verbais da tradição oral. Na década de 60, são editadas pela Sociedade de Expansão Cultural as “Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa”, em três volumosos tomos, num total de setenta e sete narrações e, a seguir, os “Contos, Fábulas, Facécias e Exemplos da Tradição Popular Portuguesa”, em quatro volumes, com setenta narrações, de acordo com a revisão definitiva, efectuada pela escritora, agrupando os textos nesses dois grandes conjuntos, que rapidamente se esgotaram.

Na década de 90, a obra de Ana de Castro Osório reaparece com êxito. Primeiro, a Terramar reedita “Branca-Flor e Outras Histórias” (1990 e 1998) e “O Esperto e Outras Histórias” (1991), livros primorosamente ilustrados por Luís Manuel Gaspar. Depois, o Instituto Piaget publica, a partir de 1995,seis volumes de contos infantis, ilustrados por Leal da Câmara, Roque Gameiro e A. Jourdain (os pintores preferidos de Ana de Castro) e, ainda, por Mily Possoz. A escritora volta a ser lida pelas crianças portuguesas. Fernando Vale pretendeu, com a reedição desses livros, satisfazer a necessidade de fazer chegar a cultura portuguesa aos luso-descendentes espalhados pelo mundo».

Canção da Partida
[…]
quem vai embarcar, que vai degredado,
as penas do amor não queria levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
lançai-o ao mar

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.
[…]
In Camilo Pessanha

In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.


Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «… há um elemento novo na que presumo ser essa segunda carta - Camilo refere ao amigo que Ana ‘não podia aceitar a minha proposta [...] e que eu não pudesse ter por ela uma amizade como pelo Alberto Osório ou pelos meus irmãos’»



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Canção da Partida
[…]
quem vai embarcar, que vai degredado,
as penas do amor não queria levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
lançai-o ao mar

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.
[…]
Camilo Pessanha

A declaração de amor e a resposta
«Perante a ’restituição’ da missiva de Ana, como explicar a carta, infelizmente sem data, de Pessanha para Alberto Osório de Castro, publicada por Maria José de Lancastre, e na qual se lê:
  • Devolvo-lhe a carta da Sra. D. Ana [...]. Eu tinha, desde a minha estada em Mangualde, além da minha amizade por toda a sua família, uma grande afeição pela Sra. D. Ana, que ainda conservo [...]. A Sra. D. Ana respondeu-me que não podia aceitar a minha proposta e [lacuna] que eu não pudesse ter por ela, uma amizade como pelo Alberto Osório ou pelos meus irmãos.
Suponho que além da carta de Ana de Castro Osório aqui publicada, houve outra para Camilo, na qual é reiterada a posição que conhecemos. Seria aquela, entretanto perdida, em que responde a segunda do poera e na qual ele lhe ‘restitui’, a missiva negativa. Atormentada com o desgosto que lhe causara, Ana não deixaria de responder a essa carta, além do mais por dever de cortesia, e na qual repetiu a dolorosa impossibilidade, em que de facto se encontrava, de aceitar ser sua mulher (‘que me alegraria se pudesse responder-lhe de outra maneira’). Em suma, Camilo ‘restitui’, a primeira carta à própria signatária; e ‘devolve’ a Alberto a segunda. Parece ser o mais provável. Além disso, há um elemento novo na que presumo ser essa segunda carta - Camilo refere ao amigo que Ana ‘não podia aceitar a minha proposta [...] e que eu não pudesse ter por ela uma amizade como pelo Alberto Osório ou pelos meus irmãos’. A última menção, por mim sublinhada, não consta no escrito aqui publicado, o que parece tornar crível a existência de outro, posterior, em resposta ao segundo de Camilo.

Uma coisa é certa: a correspondência não era conhecida na família de Ana. Não sei quando João de Castro Osório e José Osório de Oliveira, seus filhos, souberam dela. Os primos mais chegados, António, Henrique, Jerónimo e meu pai, Miguel, de nada suspeitavam; nem eu próprio, que fui um dos dois testamenteiros de João de Castro Osório. Era destino destas cartas, de todas, e não apenas a de Ana, ficarem, durante mais de um século, fechadas ‘a sete chaves’, como na “Canção da Partida”». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT