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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Nadja. André Breton. «É a minha própria experiência que me interessa, é ela e seu campo, eu próprio, que constituem para mim um motivo quase permanente de meditações e devaneios»

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«(…) Não esperem que vos dê contas do que me foi dado experimentar neste domínio. Aqui, limitar-me-ei a recordar sem esforço aquilo que, não correspondendo a qualquer iniciativa minha, algumas vezes me aconteceu, dando-me, ao vir ao meu encontro através de vias imprevisíveis, a medida da graça e da desgraça particulares de que sou objecto; falarei dessas coisas desordenadamente, segundo o capricho do momento que deixa vir à superfície o que consegue vir à superfície. Tomarei por ponto de partida o Hotel dos Grandes Homens, na praça do Panteão, minha morada em 1918, e por etapa a Mansão d’Ango, em Varengeville-sur-Mer, onde me encontro, decididamente sempre o mesmo, em Agosto de 1927. A Mansão d’Ango, onde me ofereceram alojamento, quando pretendia não ser incomodado, numa cabana artificialmente revestida de mato, na orla de um bosque, e de onde podia, dispondo do tempo à minha vontade, caçar aves nocturnas (seria possível que fosse de outro modo se pretendia escrever Nadja?). Não importa que erros ou omissões mínimas, mesmo alguma confusão ou sincero esquecimento, lancem por vezes uma sombra sobre o que descrevo, acontecimentos que não poderiam estar, no seu conjunto, sujeitos a caução. Enfim, gostaria que tais acidentes do pensamento não fossem reconduzidos à sua injusta proporção de factos anódinos; se eu digo, por exemplo, que em Paris a estátua de Etienne Dolet, na praça Maubert, sempre me atraiu e ao mesmo tempo causou um mal-estar insuportável, daí não se infere imediatamente que possa cair em absoluto sob a alçada da psicanálise, método que estimo e do qual penso não visar nada menos do que expulsar o homem de si próprio, o que equivale a dizer que espero dele, não proezas de meirinho, mas outros feitos. A psicanálise, aliás, não está em condições de abordar semelhantes fenómenos, a despeito dos seus grandes méritos, e já é conceder-lhe créditos excessivos admitir que esgota o problema do sonho ou que não ocasiona simplesmente novos falhanços de actos a partir da sua explicação dos actos falhados. É a minha própria experiência que me interessa, é ela e seu campo, eu próprio, que constituem para mim um motivo quase permanente de meditações e devaneios. No dia da estreia de Couleur du Temps, de Apollinaire, no Conservatório Renée Maubel, estava eu no balcão a conversar com Picasso durante o intervalo, aproximou-se de mim um jovem que começou por balbuciar algumas palavras e acabou por explicar ter-me tomado por um dos seus amigos, dado por morto na guerra. Como é natural, ficou por ali a nossa troca de palavras. Pouco tempo depois, por intermédio de Jean Paulhan, comecei a corresponder-me com Paul Éluard, sem que por essa altura tivéssemos a menor ideia do aspecto físico um do outro. Éluard teve uns dias de licença e veio ver-me: era ele quem tinha vindo ao meu encontro na estreia de Couleur du Temps.
As palavras bois-charbons (lenha-carvões) que se exibem na última página dos Campos Magnéticos valeram-me, todo um domingo em que andei ,a passear com Soupault, a possibilidade de exercer um talento extravagante de prospecção no que concerne as lojas que designam. Parece-me que podia dizer, fosse qual fosse a rua por onde enveredasse, a que altura à direita, à esquerda, essas lojas haviam de surgir, e afirmar que isso havia de verificar-se sempre. Sentia-me avisado, guiado, não pela imagem alucinatória das palavras em questão, mas antes pela de uma dessas tabuletas de madeira sumariamente pintadas, de cor uniforme com um sector mais sombrio, que se encontram de ambos os lados da entrada. Ao voltar para casa, esta imagem continuava a perseguir-me. A música de carrocel que vinha dos lados do largo Médicis evocava-me irresistivelmente a tabuleta. Da minha janela, o mesmo acontecia com o crânio de Jean-Jacques Rousseau, cuja estátua me aparecia de costas, dois ou três andares abaixo de mim. Recuei precipitadamente, tomado de pânico». In André Breton, Nadja, Editions Gallimard, 1964, Editorial Estampa, tradução de Ernesto Sampaio, Lisboa, 1971.

Cortesia EEstampa/JDACT

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nadja e a Anima de André Breton Surrealismo. Fabio Yabuschita. «Quando esteve no ‘Solar d’Ango’ para escrever “Nadja”, viu um pássaro morto cair no chão. No livro, é neste momento que ele anuncia a entrada em cena de Nadja, de forma simbólica, o trágico destino da personagem»

Cortesia de wikipedia

«(…) Estes factos, que no surrealismo são formas de desvelar o maravilhoso que subsiste no real, são condizentes com a ideia de sincronicidade, termo criado por Jung (1951/2007) para designar a ocorrência de eventos que se relacionam entre si de forma causal, sem o princípio da causalidade, porém, apresentando equivalência de significados. Inexplicável sob o ponto de vista lógico, a sincronicidade não depende da vontade consciente do indivíduo para ocorrer, nem pode ser provocada por uma acção deliberada. O que é preciso sim é uma sensibilidade, ou disposição interior, que nos permita percebê-la como um fenómeno de natureza inusitada e surpreendente, algo não muito diferente do maravilhamento provocado pelas petrificantes coincidências constatadas em Nadja. Nesse sentido, a deambulação pelas ruas, o espaço propício para as experiências surrealistas, seria uma forma de favorecer o acaso e o imprevisível, e, portanto, uma forma de se manter receptivo aos eventos sincronísticos. Além das coincidências e dos acasos objectivos, que ocorreram praticamente ao longo de todo o livro, há algumas passagens antecipando que algo maior estava a caminho de acontecer na vida de André Breton, ou seja, no campo da alma a terra já estava sendo preparada para receber a semente.
A atmosfera favorável para o encontro com o arquétipo da anima está indicada na passagem em que o autor discorre sobre o teatro, não por acaso o lugar privilegiado para dar corpo às fantasias e despertar na plateia sentimentos e reacções que de outra forma talvez não se manifestariam. Assim, ao discorrer sobre o Teatro Moderno, descrevendo as suas impressões sobre uma das suas salas, o autor evoca algumas lembranças que despertaram-lhe o desejo apaixonado de encontrar aquela que pode ser descrita como a Mulher da Floresta, o ser encantado comumente representado em lendas e contos de fada como uma pessoa bela e misteriosa, forma como também costuma aparecer nas fantasias masculinas. Sempre desejei incrivelmente encontrar à noite, num bosque, uma mulher bela e nua, ou antes, como tal desejo uma vez expresso perde seu significado, lamento incrivelmente não a haver encontrado. Não se trata, evidentemente, de uma pessoa qualquer, pois uma mulher que se apresente em tais condições só pode ser um espírito da natureza, uma entidade fantástica oriunda de outros mundos.
Como é alguém que se encontra no bosque, esse outro mundo é o inconsciente, pois ele também é representado em forma de bosques e florestas. O facto de ser à noite reforça a ideia de algo vindo do desconhecido. Para Breton, um encontro como este não seria delírio e poderia de facto acontecer. A mulher almejada por ele não estaria nos lugares comuns, e teria algo que a diferencia de todas as demais. Psicologicamente esta mulher, perigosamente sedutora, foi a projecção de alguma fantasia capaz de despertar os seus mais profundos desejos. Neste caso a projecção, uma das formas pelas quais a anima se manifesta, ocorreu numa figura da imaginação. Assim, a imagem de uma mulher nua no meio do bosque, despida de pudores e moral civilizadora, aponta para os aspectos instintivos da feminilidade, ou seja, à forma mais primitiva da anima, pela qual o autor já vinha sendo inconscientemente atraído.
Logo adiante Breton fala de uma peça que ele assistiu inúmeras vezes neste teatro, sentindo uma admiração especial pela atriz Blanche Derval, que na peça Les Détraquées representava uma personagem esculturalmente bela e perversa (anos mais tarde ele acrescentou em nota o seu arrependimento por não ter levado adiante a sua atracção passional pela actriz, que nunca mais vira). Este facto, que no livro está associado a uma coincidência envolvendo um antigo professor, que na peça auxiliou o autor a tecer o perfil psicológico das personagens, pode ser traduzido como uma disposição interna em se envolver afectivamente com alguém, neste caso uma actriz cujo papel ambivalente na peça despertou-lhe, por razões desconhecidas, uma atracção especial. Estes acontecimentos correspondem à primeira parte do livro, uma espécie de prólogo que apresenta em suas páginas iniciais um panorama do surrealismo até aquele momento, acrescidas de algumas reflexões e comentários sobre temas pertinentes ao movimento. A segunda parte, escrita em forma de diário, trata dos encontros com Nadja, que ocorreram ao longo de 10 dias, durante o mês de Outubro de 1926. A parte final, escrita quatro meses depois, traz novas reflexões do autor sobre esta sua experiência, que retrata um dos momentos mais inspirados e sublimes do surrealismo. Antes dos relatos, uma observação interessante que aproxima as experiências de Jung e André Breton a respeito do inconsciente. Quando esteve no Solar d’Ango para escrever Nadja, André Breton viu um pássaro morto cair no chão. No livro, é justamente neste momento que ele anuncia a entrada em cena de Nadja, antecipando, de forma simbólica, o trágico destino da personagem». In Fabio Massao Yabushita, Brasil, Wikipédia, 2012.

Cortesia de wikipédia/JDACT

Leitura. Nadja. André Breton. «À margem da narrativa que vou empreender, o meu único desígnio é relatar os episódios mais relevantes da minha vida ‘tal como posso concebe-la fora do seu plano orgânico’, ou seja, na medida exacta em que se abandona aos acasos»

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«(…) É certo que nada me subjuga tanto como o desaparecimento total de Lautréamont atrás da sua obra, que tenho sempre presente no meu espírito o seu inexorável; Tiques, tiques, tiques. Mas para mim há algo de sobrenatural nas circunstâncias de um apagamento humano tão completo. Seria demasiado vão aspirar a isso; aliás, convenço-me facilmente de que semelhante ambição, naqueles que se entrincheiram atrás dela, revela um ideal pouco honorável. À margem da narrativa que vou empreender, o meu único desígnio é relatar os episódios mais relevantes da minha vida tal como posso concebe-la fora do seu plano orgânico, ou seja, na medida exacta em que se abandona aos acasos, ao mais pequeno como ao maior, e me introduz recalcitrando contra a ideia comum que eu possa ter dele no mundo proibido das aproximações súbitas, das petrificantes coincidências, dos reflexos que se avantajam a qualquer outro impulso do espírito, dos relâmpagos que fariam ver, mas ver verdadeiramente, se não fossem mais rápidos ainda do que os outros. Trata-se, sem dúvida, de factos de valor intrínseco pouco controlável, de carácter absolutamente inesperado, violentamente incidente, que pelo género de associações de ideias suspeitas que despertam constituem um modo de nos fazer entrar na teia de aranha, quer dizer, na coisa que seria a mais cintilante e graciosa do mundo se a um canto, ou nas imediações, não estivesse a aranha; de factos que, pertencendo embora à ordem da constatação pura, tomam sempre a aparência de um sinal desconhecido e me obrigam a descobrir, em plena solidão, inverosímeis cumplicidades, convencendo-me estar iludido todas as vezes que me julgo sozinho ao leme do navio. Devia estabelecer-se a hierarquia destes factos, do mais simples ao mais complexo, desde o movimento especial, indefinível, provocado em nós pela visão de objectos muito raros ou pela chegada a certos lugares, movimento sempre acompanhado da sensação muito nítida de depender dele, para nós, qualquer coisa de grave, de essencial, até à ausência total de paz que nos valem certos encadeamentos, certos concursos de circunstâncias que ultrapassam largamente o nosso entendimento e só admitem que regressemos a uma actividade razoável quando apelamos na maioria dos casos, para o instinto de conservação. Seria possível estabelecer uma série de escalões intermediários entre estes factos-escorregadelas e estes factos-precipícios. Deles, destes factos de que só consigo ser a testemunha espantada, até aos outros, até àqueles de que me gabo ser capaz de discernir as relações e, em certa medida, presumir as interferências, vai provavelmente a mesma distância que separa uma dessas afirmações ou um desses conjuntos de afirmações que constituem a frase ou o texto automático e a afirmação, ou conjunto de afirmações, que constituem, para o mesmo observador, a frase ou o texto cujos termos foram por ele maduramente reflectidos e pesados. A sua responsabilidade, por assim dizer, não lhe parece comprometida no primeiro caso, mas afigura-se-lhe que o está no segundo. Em compensação, sente-se infinitamente mais surpreendido, mais fascinado pelo que se passa naquele do que pelo que acontece neste. E mais orgulhoso, mais livre, o que não deixa de ser singular. Assim acontece com essas sensações erectivas de que já falei, cujo quinhão de incomunicabilidade, também ele, é uma fonte de prazeres inigualáveis». In André Breton, Nadja, Editions Gallimard, 1964, Editorial Estampa, tradução de Ernesto Sampaio, Lisboa, 1971.

Cortesia E. Estampa/JDACT

Nadja e a Anima de André Breton. Surrealismo. Fabio Yabushita. «… o autor adverte-nos de que irá narrar episódios marcantes de sua vida, factos sobre os quais não teve controlo algum, sentindo-se diante dos mesmos como uma ‘testemunha assustada’…»

Cortesia de wikipedia

«Este artigo aborda o livro Nadja, de André Breton, um ícone do surrealismo, onde a personagem que lhe deu o título é interpretada como sendo a personificação da anima do seu autor. A anima, segundo a psicologia analítica, é o arquétipo do feminino no inconsciente do homem, e está relacionada aos aspectos irracionais e instintivos da psique, como a intuição e a emoção, sendo também a via de acesso para a sua interioridade. O encontro com ela permite o contacto com o inconsciente, algo de fundamental importância para o surrealismo, que o concebeu com um campo de inspiração a ser descoberto e explorado de forma profunda e irrestrita, como aconteceu em Nadja, personagem que encarnou não só o espírito do movimento surrealista, mas também a anima de André Breton. Nadja, livro de André Breton publicado em 1928, é considerado uma das principais obras do surrealismo, movimento de vanguarda que visava, através da exploração do inconsciente, dissolver as barreiras entre arte e vida, e assim promover a emancipação e liberdade do homem.
Considerado como um autêntico meio de conhecimento, o surrealismo foi um modo de pensar e viver voltado aos continentes até então inexplorados, como o sonho, a loucura, e tudo aquilo que fosse contrário ao cenário lógico. O livro, que atende às principais reivindicações do movimento, apresenta alguns recursos antiliterários inovadores, como o uso de ilustrações e fotografias, uma forma de privilegiar a subjectividade do olhar em detrimento da descrição meramente narrativa dos factos. As fotos, em sua maioria retratos de pessoas e lugares, conferem veracidade à história, conciliando assim fantasia e realidade, pois uma das propostas do surrealismo era justamente acabar com tais dicotomias, eliminando, por exemplo, as fronteiras entre realidade interior e exterior. Nesse sentido, Breton, em 2001, dizia acreditar na possibilidade de reunir estados aparentemente contraditórios, como sonho e realidade, em uma espécie de realidade absoluta, ou supra-realidade, que se manifestaria através do insólito e do maravilhoso.
Outra característica a ser destaca no livro foi a técnica chamada pelo autor de observação neuropsiquiátrica, onde tudo o que acontecia deveria ser detalhadamente relatado, sem preocupações com o estilo. Isso mostra que a sua escrita foi também uma experiência surrealista, ou seja, não se trata de um livro sobre o surrealismo, mas de um livro verdadeiramente surreal. Nele o autor relata seu breve romance com uma mulher misteriosa, chamada Nadja, que ele conheceu por acaso, caminhando pelas ruas de Paris. Esse ser errante e misterioso, dotado do mais elevado grau de liberdade, representa o espírito do surrealismo, cujo movimento ganhou forma nesta que é uma das mais inquietantes e enigmáticas personagens da literatura. Embora Nadja se apresente como a encarnação dos ideais surrealistas, principalmente em seus anseios de amor poesia e liberdade, ela também pode ser vista como a personificação da anima de André Breton.
A anima representa as tendências psicológicas femininas no homem. Está relacionada aos seus sentimentos e sensibilidade, conectando-o ao irracional, instintivo e intuitivo, tendo, portanto, a função de relação e conexão com o inconsciente. É através dela que o homem entra em contacto com sua interioridade, penetrando nos liames mais profundos da psique. O eros, considerado um princípio de ligação de natureza afectiva, é também um atributo da anima, que além de ligar o indivíduo ao mundo interior, tem a função de conectá-lo com as demais pessoas, formando laços afectivos de amor, amizade e fraternidade. Enquanto elemento feminino ela está relacionada à terra e à natureza, ao corpo e à matéria. Pode se manifestar de forma encantadora, como a deusa Afrodite, ou terrificante, como Lilith, a lua negra. Santa e meretriz, amável e perigosa, são termos comumente atribuídos à anima, que em suas mil faces é tanto a soror mystica dos alquimistas, quanto a bela dos contos de fadas. Incontáveis são os seus atributos, porém, assim como a alma, ela não pode ser definida, pois não se prende a nenhum conceito. O único meio de sabê-la, é vivê-la, estar em contacto e relacionar-se com ela, sentindo-a em todo seu encanto e fascinação.
Antes de descrever o seu encontro propriamente dito com Nadja, e os acontecimentos subsequentes, o autor adverte-nos de que irá narrar episódios marcantes de sua vida, factos sobre os quais não teve controlo algum, sentindo-se diante dos mesmos como uma testemunha assustada, à mercê daquilo que ele chamou de mundo proibido das aproximações repentinas e petrificantes coincidências». In Fabio Massao Yabushita, Brasil, Wikipédia, 2012.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 30 de março de 2013

Nadja. Leitura. André Breton. «Por mim, continuarei a habitar a minha casa de vidro, onde se pode ver a toda a hora quem vem visitar-me, onde tudo o que está suspenso dos tectos e das paredes perdura como por encanto…»

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«No que me diz respeito, mais importantes ainda do que para o espírito o encontro de certas disposições de coisas, me parecem ser as disposições de um espírito perante certas coisas; e acontece que estas duas espécies de disposições regem sozinhas todas as formas da sensibilidade. É assim que me descubro com Huysmans, o Huysmans de En Rade e de Là-bas, maneiras tão comuns de apreciar tudo o que se propõe, de escolher com a parcialidade do desespero entre o que existe, que se, com grande pesar meu, só pude conhecê-lo através da sua obra, nem por isso ele deixa de ser porventura o menos estranho dos meus amigos. Mas na verdade não terá ele, mais do que qualquer outro, levado ao seu termo extremo essa discriminação necessária, vital, entre o anel, de aparência tão frágil, que nos pode socorrer em todas as circunstâncias e o aparelho vertiginoso das forças que se conjuram para nos arrastar ao naufrágio?
Huysmans deu-me notícia desse tédio vibrante que lhe causaram quase todos os espectáculos; antes dele, ninguém soube, já não digo mostrar-me esse grande despertar do maquinal sobre o terreno devastado das possibilidades conscientes, mas pelo menos convencer-me humanamente da sua absoluta fatalidade e de quanto seria inútil ir aí procurar escapatórias para mim próprio. Como lhe estou agradecido por me ter posto ao corrente, sem cuidar do efeito a produzir, acerca de tudo o que lhe diz respeito, daquilo que o ocupa, das suas horas mais amargas e das outras, por não cantar absurdamente, como tantos poetas, essa amargura, mas enumerar com paciência, na sombra, as mínimas razões de ser, absolutamente involuntárias, que ainda consegue descobrir, e de ser, sem saber, bem para quem, aquele que fala! Ele é, também ele, o objecto de uma dessas solicitações perpétuas que parecem vir de fora e nos imobilizam por alguns instantes diante de certas ordenações fortuitas, de carácter mais ou menos novo, das quais, se nos interrogássemos porfiadamente, é provável que encontrássemos em nós o segredo. Distingo-o, será preciso dizê-lo?, de todos os empíricos do romance que pretendem pôr em cena personagens diferentes de si próprios e os arrumam física, moralmente, à sua maneira, só eles sabem porquê (nós preferimos não saber). De uma personagem real, de que julgam ter algum conhecimento, fazem duas personagens da sua história; de duas, sem qualquer embaraço, fazem uma. E ainda nos damos ao trabalho de discutir! Alguém sugeria a um autor meu conhecido, a propósito de uma obra sua que ia aparecer e cuja heroína podia ser facilmente reconhecida, que lhe mudasse ainda, pelo menos, a cor do cabelo. Loura, vá, lá, parece que teve sorte: a mulher que traiu não era morena. Não acho isto infantil acho-o escandaloso. Persisto em exigir os nomes, em só me interessar pelos livros rasgadamente abertos, como portas que não precisam de nenhuma chave. Estão felizmente contados os dias da literatura psicológica de efabulação romanesca, e certifico-me de que foi Huysmans a aplicar-lhe o golpe derradeiro. Por mim, continuarei a habitar a minha casa de vidro, onde se pode ver a toda a hora quem vem visitar-me, onde tudo o que está suspenso dos tectos e das paredes perdura como por encanto, onde repouso à noite entre os lençóis de vidro de uma cama de vidro, onde quem sou me aparecerá, mais tarde ou mais cedo, gravado a diamante». In André Breton, Nadja, Editions Gallimard, 1964, Editorial Estampa, tradução de Ernesto Sampaio, Lisboa, 1971.

Cortesia E. Estampa/JDACT

quarta-feira, 6 de março de 2013

Nadja. Leitura. André Breton. «É certo que a obra resultante dessa surpresa permanecia ligada por laços muito estreitos àquilo que provocara o seu nascimento, mas apenas se lhe assemelhava da maneira estranha como se parecem dois gémeos, ou melhor, a imagem em sonho de determinada pessoa e essa pessoa real»

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«Não será na medida exacta em que consiga tomar consciência desta diferença que hei-de descobrir o que vim fazer a este mundo e qual a mensagem única de que sou portador, ao ponto de só a minha cabeça responder pelo seu destino? A partir de tais reflexões, achava preferível que a crítica, renunciando, é certo, às suas mais caras prerrogativas, mas propondo-se sempre um objectivo menos vão que o do inventário mecânico das ideias, se limitasse a sábias incursões no domínio que julga ser-lhe mais interdito e que não é outro senão aquele, exterior à obra, onde a personalidade do autor, enredada nas mais ínfimas incidências da vida corrente, se exprime em absoluta independência, de maneira por vezes tão distintiva. A recordação desta anedota. Hugo, no fim da vida, a refazer com Julieta Drouet pela milésima vez o mesmo passeio sem interromper a sua meditação silenciosa, a não ser à passagem da caleça diante de uma propriedade com acesso por duas portas, uma grande, outra pequena, para designar a grande a Julieta: Porta de serviço, senhora, e ouvi-la responder, indicando a pequena: Porta principal, senhor; depois, um pouco mais adiante, em frente de duas árvores com os ramos entrelaçados: Filémon e,Baucis, sabendo que a isso Julieta não responderia, essa lembrança e a certeza de que uma cerimónia pungente como esta se repetiu diariamente durante anos, como é que o melhor estudo imaginável sobre a obra de Hugo nos daria a tal ponto a inteligência e a espantosa sensação de quem ele era, do que ele é? Nestas duas portas podemos ver os espelhos das suas força e fraqueza, e não se sabe qual lhe reflecte a mesquinhez, qual a grandeza.
Todo o génio do mundo seria inexequível para nós se não admitisse a seu lado o amor, essa adorável correcção que cabe inteira na réplica de Julieta. O mais subtil, o mais entusiasta comentador da obra de Hugo nunca me fará partilhar nada que valha este sentido da proporção. Como gostaria de possuir, sobre todos os ,homens que admiro, um documento privado do valor daquele. Na sua falta, já me havia de contentar com documentos de menor valia, pouco capazes de se bastar a si próprios do ponto de vista afectivo. Não pratico o culto de Flaubert e contudo se me garantem que, segundo ele próprio confessou, só pretendeu, com Salammbô, dar a impressão da cor amarela, com Madame Bovary fazer alguma coisa que fosse da cor do mofo que aparece nos recantos onde há bichos-de-conta, e que o resto lhe era absolutamente indiferente, estas preocupações, em última análise, extraliterárias, dispõem-me em seu favor. A magnífica luz dos quadros de Courbet, para mim, é a da praça Vendôme à hora em que a coluna ruiu.
Nos dias de hoje, se um homem como Chirico consentisse em revelar integralmente e, bem entendido, sem arte, o mais claro do que outrora o fez agir, disposto a entrar nos pormenores mais ínfimos e inquietantes, o passo que não faria avançar à exegese! Sem ele, que digo eu, apesar dele! Recorrendo unicamente ,às suas telas dessa época e a um caderno manuscrito que tenho entre mãos, só imperfeitamente se pode tentar a reconstituição do universo que foi o seu até 1917. É profundamente lamentável a impossibilidade de preencher essa lacuna e descortinar plenamente tudo o que, em semelhante universo, vai contra a ordem previsível e ergue uma nova escala das coisas. Nesse período, Chirico admitiu que só podia pintar surpreendido por certas disposições dos objectos e que todo o enigma da revelação se resumia, para ele, nesta palavra: surpreendido. É certo que a obra resultante dessa surpresa permanecia ligada por laços muito estreitos àquilo que provocara o seu nascimento, mas apenas se lhe assemelhava da maneira estranha como se parecem dois gémeos, ou melhor, a imagem em sonho de determinada pessoa e essa pessoa real. É, e ao mesmo tempo não é, a mesma pessoa; leve e misteriosa transfiguração lhe altera as feições.
Aquém destas disposições de objectos que para ele se revestiram de uma flagrância particular, também seria oportuno fixar a atenção crítica nos objectos considerados em si próprios e procurar saber por que razão foram chamados, aqueles, em número tão diminuto, e não outros, a ser dispostos assim. Sobre Chirico, nunca se dirá nada de importante enquanto não forem acuradamente dilucidados os seus pontos de vista mais subjectivos sobre a alcachofra, a luva, o bolo seco ou o carrinho de linhas. Pena é que em semelhante matéria não se possa contar com a sua colaboração!» In André Breton, Nadja, Editions Gallimard, 1964, Editorial Estampa, tradução de Ernesto Sampaio, Lisboa, 1971.

Cortesia E. Estampa/JDACT