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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

André de Resende. Vida do Infante D. Duarte: «Entre os filhos que delRey Dom Manoel, e da Serenissima, e Santissima Rainha Dona Maria sua molher ficaraõ, o mais moço foi o Illustrissimo Dom Duarte, o qual nasceo em Lisboa nos paços da Ribeira, aos sete dias do mez de Setembro...»

Cortesia de wikipedia e brownedu

NOTA. Texto na versão original

Vida do Infante D. Duarte
Dirigida ao senhor Dom Duarte, Duque de Guimarães, seu filho
Capítulo I
«Começarei pelos dotes da natureza corporaes, naõ como principaes, porque esses saõ os da Alma; mas como para gabar huma bem ordenada casa, a ordem do edificio parece que naturalmente precede o que das qualidades do hospede e morador della se pode dizer; assi para escreuer as virtudes do Illustrissimo vosso pay, começando pelo exterior, viremos a fallar quam nobre alma teue apousentada em este nobre e generoso domicilio corporal, de que Deos e natureza o ornaraõ. E daqui por diante deixarei de fallar com V. Excellencia, e irá o estylo somente como historiador, relatando as cousas em geral, até que seja tempo de epilogar, e concluir a liçaõ, que determinei de lhe ler.

Capítulo II
Entre os filhos que delRey Dom Manoel, e da Serenissima, e Santissima Rainha Dona Maria sua molher ficaraõ, o mais moço foi o Illustrissimo Dom Duarte, o qual nasceo em Lisboa nos paços da Ribeira, aos sete dias do mez de Setembro do anno de nosso Senhor Jesu Christo. Foi Principe dotado de perfeições corporaes, e tanto, que na idade de minino, e puericia se pode com razaõ chamar fermoso, porque era muito alvo e rozado; tinha os cabellos louros, voltados em anneis, os olhos vivos e penetrantes, e todas outras feições boas e muito proporcionadas.

E na idade ja crecida se podia contar entre os gentís e bem figurados homens, com a natural alvura mais temperada, e assás corada. Os cabellos castanhos, e a barba da mesma cor muito bem posta e povoada. A estatura meãa, a corporatura quadrada, e varonil, forçoso, e por isso muito fragueiro.

Cortesia de wikipedia e joaocutileiro

Capítulo III
Foi em todas as suas cousas aprazivel, e sem pezadume, e na puericia taõ gracioso, que até as mininisses, e trauessurinhas daquella idade lhe estauaõ bem, e tinhaõ graça. Estando ElRey que Deos tem na Chamusca, e o Iffante Cardeal Dom Affonso na Azinhaga, apousentavaõ-se os Infantes Dom Henrique e Dom Duarte com elle, como sempre até lhes darem casa. Ensinava os Infantes Gaspar Moreira bom Jurisconsulto, e meaõ latino, mas pouco pratico, e accomodado ao modo que se haõ tratar os engenhos sublimes e altiuos, e mais de Principes de taõ tenra idade; com o que os Infantes aproveitavaõ pouco, e elle lhes era enfadonho, que ouviaõ suas lições mais por reuerencia, e temor do Cardeal, que os constrangia, que por affeiçaõ do mestre. Aconteceo huma fésta estando o Cardeal com seu mestre Ayres Barbosa em liçaõ, e com elle seis ou sete, que nos ahi achámos, foraõ chamados os Infantes á sua liçaõ, onde os estaua seu mestre esperando. E passando o Infante Dom Duarte por onde eu acertei de estar no topo de huma escada, que hia para o lugar onde hauiaõ de ler, trauoume da capa, e acenoume que fosse lá, e eu dissimuladamente assi o fiz. Disse-me entaõ: Rogovos que digais ao mestre que naõ leamos, que faz grande calma. Fallei ao mestre, e elle se magoou tanto disso, e pôs tantas escusas por parte do Cardeal, que naõ aproveitou para naõ entrarem em liçaõ. Eu torneime á do Cardeal». In Luís de Sousa Rebelo, A Obra de André de Resende, Vida do Infante Dom Duarte, Fundação Calouste Gulbenkian, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Miscelânea, Século XVI, 2003, ISBN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

sábado, 1 de outubro de 2011

André de Resende. Vida do Infante D. Duarte: «Pardre mestre, eu sei bem o amor, que o Cardeal meu Senhor e Padre, vos tinha, e a lealdade com que vos o seruieis por o qual tenho para mi, que farei á sua bemauenturada Alma grande seruiço, em vos agazalhar a vos comigo…»

Cortesia de arqnet

NOTA. Texto na versão original

Vida do Infante D. Duarte
Dirigida ao senhor Dom Duarte, Duque de Guimarães, seu filho

Capítulo I
«Por falecimento do Infante Cardeal Dom Affonso Vosso Tio de gloriosa memoria, o Infante Dom Duarte Vosso Pay, que está em gloria, sabendo que eu era ido à Nossa Senhora de Guadalupe por seu mandado, pôs tanta diligencia em me mandar buscar, que em Merida me achou hum homem da estribeira, que a isso inuiou com huma carta, em que me dizia, que nenhuma cousa fizesse de mi, até me naõ ver com S.A., porque se temeo, que eu sabida a triste noua da morte do Principe, que com tanto amor seruia, naõ seria muito naõ tornar ao Reyno, como por ventura pela fantasia me passou. E auisado disso, o Enuiado naõ me largou mais, até ser em esta cidade, onde S. A. da volta do mosteiro de Penalonga, onde estiuera dando alguns dias ao nojo, e sentimento, me mandou chamar, e em aquelle primeiro aspecto deixou fazer aos olhos seu officio, des hi enxugandoos com huma Real e heroica humanidade, me disse assi.
  • Pardre mestre, eu sei bem o amor, que o Cardeal meu Senhor e Padre, vos tinha, e a lealdade com que vos o seruieis por o qual tenho para mi, que farei á sua bemauenturada Alma grande seruiço, em vos agazalhar a vos comigo, e a mi comuosco; ragouos que aceiteis assento em minha casa para meu mestre, o dos filhos que Deos me der, que o mais eu o prouerei como vos sejais contente”.
A isto lhe naõ respondi mais, nem estaua a tempo para poder responder mais, que beijar-lhe por isso a maõ: bem que o gosto do Paço eu o tinha já perdido; mas merce taõ liberal e honrosa com que a podia eu seruir, senaõ com me entregar ao que S. A. de mi mandasse.

Cortesia de brownedu

Fiquei entaõ em seu seruiço com nome e officio de seu mestre actualmente, e com direito de o ser de V. Excellencia, e das Senhoras suas irmans, tanto que o nosso Senhor trouxesse a idade competente para letras. Naõ possui muito tempo este bem, por ser Deos seruido leuar S. A. dahi a taõ poucos meses. Eu como já corrido de tamanhos embates da fortuna, me recolhi á minha patria, e liuraria, até que o Illustrissimo Cardeal Dom Henrique Vosso Tio se quiz servir de mi, as mais vezes em Evora, e algumas cá, sendo inda forçado ver corte, contra meu gosto.
O que foi causa de eu lançar maõ a requerer meu direito, tanto que V. Excellencia foi em idade para poder receber doutrina. Porem naõ fiz eu cá mingoa para isso: toda via para em alguma maneira hauer effeito o juro, que de S. A. me ficou, peço a V. Excellencia por merce, que em esta ida de sua, já louuores a Deos crecida, e florecente, me ouça sequer huma liçaõ, a qual espero em Deos, que se V. Excellencia tomar e guardar, delle poderaõ ficar exemplos aos filhos, que lhe nosso Senhor Deos dará, como do Illustrissimo seu Pay ficaraõ muitos, que V. Excellencia deue ter por espelhos, e em elles a miude se olhar.
Seja a base e fundamento da licaõ aquillo que Deos disse por Ifaias no cap. 51. [...]
  • Attentai, diz, para a pedra donde fostes cortados, e para a pedreira de que fostes arrancados. Attentai a a Abraham vosso padre, e a Sara que vos pario”.
Em os animos dociles e generosos grande impressaõ fazem os exemplos dos bons, mas nenhuns tanto, quanto os familiares e domesticos. Porque aquelles nos mouem, como actos annexos e produzidos da virtude; e estes álem de nos mouerem, ainda nos arrebataõ em hum certo amor, como possessaõ hereditaria de nossos maiores, a que fomos obrigados imitar.
Freio e esporas para os nobres filhos he a virtude de seus padres, e auôs. [...]

Bem podera eu aqui dar trela ao estylo, e deixalo esprayar pelo campo das Escrituras assi Sacras, como profanas; mas a cousa em geral está taõ recebida, e approuada, que lhe faria aggrauo quem inda quizesse gastar palauras em a persuadir.

Cortesia de cmevora

Antes tornando sobre a proposiçaõ, que he o que mais importa, peço a V. Excellencia por merce, que attente de que pedra foi cortado, e de que pedreira tirado, e trazido a luz desta vida, que ponha os olhos no Illustrissimo Dom Duarte Seu Pay, que santa gloria haja, e na Illustrissima Dona Isabel que o pario, que viua muitos annos. Porque dos actos, e vidas de ambos, pode fazer hum grande cabedal de virtudes para com Deos, e de humanidade, e modestia para com o mundo.
Posto que quanto a isto, o que a Illustrissima sua mãy lhe podia pôr ante os olhos, muito melhor o ve, e ouue V. Excellencia da boca e ensinos de S. A. nas lições quotidianas que della recebe, do que eu o posso escreuer, assi por naõ se dar licença aos Escritores comedidos de alargar a penna em louuores de pessoas vivas, como tambem por a propria condiçaõ de S. A. cuja muita odéstia naõ soffreria, nem tomaria bem estes gabos, inda que muy justos e devidos. Baste em summa, que Princeza filha de tal pay, e molher de tal Principe, taõ pouco tempo casada, na flor de sua idade, e ficou em castissima e perpetua viuvidade, criando seus filhos, gouernando sua familia, e muito mais pessoa em toda virtude, continencia, e Religiaõ feita hum vivo exemplo a todas as mulheres.

Naõ tenho este pejo acerca do Infante Voso Pay que está em gloria, porque já os louuores que lhe der, o naõ podem alterar, nem eu corro risco de lhe querer lisongiar, antes seria huma grande ingratidaõ aos beneficios de Deos, naõ se lhe pagar este devido tributo, maxime que o que delle escreuerei tem tantas testemunhas de vista, que nenhum receo tenho de cuidar alguem de mi, que o quero affeiçoar, e aformosentar mais do que na verdade foi.
Tomou Homero a cargo a valentia de Achilles, e prudencia de Ulysses; tomou Virgilio seu Eneas; tomou Xenofonte por argumento a Cyro, e excedendo muitas vezes os limites, e verdade da historia, e pintando-nos estes, naõ quaes elles foraõ, mas quaes deuem ser hum esforçado Caualleiro, hum prudente e sofrido Capitaõ, hum valeroso Principe e Rey. Naõ farei eu assi, que naõ ampliarei louuores declamatoriamente, nem proponho mostrar huma idea de santidade para todo genero de virtudes, que pode quadrar em Religiosos e Santos Prelados, sómente proporei hum Principe Christaõ, religioso na fé, virtuoso nas obras, modesto nos costumes, fácil na conuersaçaõ, e cortesaõ dentro dos limites da Real Corte, e cortesania, sem fumo de vaidade, e sem pendaõ de hypocresia». In Luís de Sousa Rebelo, A Obra de André de Resende, Vida do Infante Dom Duarte, Fundação Calouste Gulbenkian, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Miscelânea, Século XVI, 2003, ISBN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Luís de Sousa Rebelo. A Obra de André de Resende: «Trabalhador incansável, foi um polígrafo eminente que aliou à justeza do conceito a elegância e o rigor da forma, sempre do melhor timbre clássico. Deixou para cima de cem espécies literárias, nas quais abordou os géneros e os temas mais variados»

Francisco Bilou
Cortesia da CMÉvora

«Lúcio André de Resende (Évora, 1500-1573). Cedo manifestou vincada inclinação para o estudo das letras clássicas, nas quais se havia de distinguir como um dos maiores humanistas portugueses. Depois de ter frequentado a Universidade de Lisboa e professado na Ordem de S. Domingos, cursou as escolas mais afamadas da Europa renascentista, já na Península, Alcalá de Henares e Salamanca, onde foram seus mestre Nebrija e Aires Barbosa, já em Paris, seguindo a tradição do letrado itinerante que era comum no tempo. Conquistando a admiração e a estima dos grandes humanistas, entre os quais se contava Erasmo, Resende ganhou em breve certo prestígio em Lovaina (1529), onde escreveu o poema Encomium Lovanii. Data também deste ano o seu encontro com Nicolau Clenardo (v.), a quem havia de persuadir, por incumbência de D. João III, a aceitar o convite para mentor do irmão do rei, o Infante D. Henrique. O próprio Resende iria assumir funções idênticas junto dos Infantes D. Afonso, D. Henrique e D. Duarte no seu regresso a Portugal (1533). Ainda que adstrito à Corte, não confinou a sua actividade à educação dos príncipes e assim foi encarregado da Oração de Sapiência (Oratio pro Rostris) na sessão de abertura das aulas da Universidade de Lisboa (1534). Deste facto inferiram erradamente alguns dos seus biógrafos que Resende tivesse sido professor daquele estabelecimento de ensino.

 
Cortesia de algarvivo

Porém é só em 1551, como parece mostrar a Oração proferida, no Colégio das Artes, em louvor de D. João III, que o humanista ocupa uma cátedra oficial, paliativo com que se procuraria mitigar a sua decrescente influência na Corte, após a morte do cardeal D. Afonso. Mas, a aceitar-se tal hipótese, pouco tempo teria permanecido no lugar, pois em 1555 voltou à sua cidade natal e, a exemplo de muitos dos seus confrades, abriu uma escola pública a que o seu nome prestigioso atraiu alguns dos espíritos mais brilhantes da sociedade local. O seu vasto saber, uma erudição sólida, baseada no conhecimento profundo das letras clássicas, da teologia e história eclesiástica, o seu amor ao estudo e o zelo com que coleccionava achados arqueológicos criaram à sua volta uma atmosfera de fecunda fermentação intelectual, um pequeno cenáculo ou academia de reminiscência helénica, cujo influxo no movimento cultural do Renascimento português ainda não foi devidamente apreciado.

Outros aspectos e problemas continuam por esclarecer na biografia e na acção do humanista, desde os que implicam simples matéria informativa, como é para alguns o caso da lição exacta da inicial L. (Licenciado? Lúcio?), que precede o nome de Resende, aos que compreendem a importância do seu magistério intelectual. Sob o signo do tempo, André de Resende desprezou o uso do idioma nacional e, dentro da concepção do universalismo linguístico do humanismo, escreveu toda a sua obra, ou o que verdadeiramente conta como a sua obra literária, pois é diminuto o número dos seus escritos em português, na língua do Lácio, integrando-se assim na corrente europeia da literatura neolatina.

Cortesia de brownedu

Trabalhador incansável, foi um polígrafo eminente que aliou à justeza do conceito a elegância e o rigor da forma, sempre do melhor timbre clássico. Deixou para cima de cem espécies literárias, nas quais abordou os géneros e os temas mais variados. O estudo crítico e global da obra de André de Resende está ainda por fazer. No entanto podem apontar-se, desde já, algumas das linhas mestras do seu pensamento. Homem viajado, lido e curioso, aberto às novas ideias que se firmavam e discutiam na Europa, convivendo com os mais doutos representantes do humanismo, Resende foi naturalmente permeável às doutrinas alheias e elaborou-as de acordo com a sua reflexão individual.

Um dos seus trabalhos de erudição mais notáveis para o tempo, o De Antiquitatibus Lusitaniae (1593), desperta, entre nós, a atenção para os estudos arqueológicos. Para o historiador moderno esta obra enferma das limitações e do estado dos conhecimentos da época. A falta de caução crítica na utilização das fontes (a Bíblia e os escritos dos autores greco-romanos), as insuficiências da epigrafia e da filologia ainda numa fase embrionária, condicionaram o alcance e o valor das observações de Resende. Já outro é o interesse dos seus trabalhos exclusivamente literários, pois apresentam matizes diversos, por vezes até contraditórios, do seu pensamento. No poema Erasmi Encomium, escrito em hexâmetro dactílico e publicado em Basileia (1531), defende abertamente a posição erasmista e o livre exame do texto bíblico (v. Erasmismo.) A mesma atitude renovadora e inconformista perante a tradição ortodoxa do saber medieval vai afirmar-se noutro poema, De Vita aulica (1533), em que se abalança ao processo das falsas aparências da vida cortesã.
( … )

André de Resende, por João Cutileiro
Cortesia de arqnet

Dois admiráveis trabalhos, pela frescura da observação e pelo realismo descritivo dos pequenos quadros que os esmaltam, são os esboços biográficos intitulados Vida do Infante D. Duarte e A Santa Vida e Religiosa Conversação de Frei Pedro. No primeiro dá-nos o A., com traço fino e num estilo vivo, o ambiente cortesão e m que se cria um príncipe da Renascença, D. Duarte, filho de D. Manuel I, do qual foi professor. Não esconde aí as prepotências, que são privilégio de um grande deste mundo, com aqueles que não nasceram em berço dourado. No segundo, oferece-nos um retrato enternecido de uma figura do povo, talhada num retábulo de sereno fundo conventual e todo ele banhado de um forte calor humano. A Vida do Infante D. Duarte, redigida em 1567, só foi publicada, por ordem da Academia Real das Ciências, em 1789, o cuidado de José Correia da Serra. A Santa Vida de Frei Pedro (1510), que parece ter incorrido no descontentamento da censura religiosa, pois é um dos livros mais raros de A. de R., encontra-se hoje publicada, com outros escritos seus, numa edição acessível (A. de Resende, Obras Portuguesas, in «Col. de Clássicos Sá da Costa», Lisboa, 1963). Da mesma obra havia já Lima ed. fac-similada preparada por S. Silva Neto, Rio, 1947. Estes dois esbocetos biográficos contrastam, na lisura e contenção do estilo, com a prosa túmida e ponderosa que tanto abunda nos nossos Quinhentismo e Seiscentismo. De A. de R. existem ainda mss. inéditos, como a Crónica Lusitana, utilizada por frei Bernardo de Brito (v.). As obras de Resende, dispersas pelas bibliotecas da Europa, em edições raras e de difícil acesso ao investigador, constituem ainda hoje Lima província mal explorada das letras portuguesas. A crítica erudita tem estudado aspectos de pormenor, alguns deles curiosos, por vezes de valor meramente informativo, como o da criação do vocábulo «lusíada» registado no Erasmi Encomium; mas, por ora, ainda não é possível formular um juízo definitivo sobre a produção literária do humanista. Faltam as monografias. e os estudos parcelares que permtiriam um primeiro ensaio de interpretação e apreciação geral. V. Hagiografia». In Luís de Sousa Rebelo, A Obra de André de Resende, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, ISBN 1645-5169.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Maria de Lourdes Ganho: O Essencial sobre Francisco de Holanda. «O seu gosto pelas novas concepções de arte, o seu entusiasmo de jovem promissor nas artes, levam a que seja apelidado de Lusitanus Apelles, conforme já foi mencionado. D. João III, em Évora, é nesta altura claramente favorável à cultura humanística, que apenas será travada quando em 1555 entrega à Companhia de Jesus o ensino»

Cortesia de livroshorizonte 

«Traçar o perfil de um autor renascentista, quando não existem livros de assentos para tais factos, acaba por implicar proceder a uma pesquisa de modo indirecto. Contudo, à boa maneira renascentista, o culto da personalidade começa a emergir e, por isso mesmo, Francisco de Holanda fala de si na sua obra. É por esta razão que podemos apontar dados biográficos, enquanto artista, ficando o homem no seu quotidiano silenciado, embora alguns traços do seu carácter também possam ser apontados.
Quanto à sua obra, pictórica e literária, far-lhe-emos uma referência própria, embora tenhamos de reconhecer que é a obra Da Pintura Antiga que mais nos interessa analisar e que, ao mesmo tempo, emerge como a mais relevante na economia da sua produção literária e artística.
Como refere Jorge Segurado, «estamos perante o principal artista da nossa Renascença». Nas palavras de André de Resende, estamos perante o Apeles Lusitano.

Vida.
Nasceu na cidade de Lisboa, conforme refere na obra Da Pintura Antiga, tendo provavelmente nascido em 1517 ou 1518, portanto, no reinado de D. Manuel I. Faleceu também em Lisboa, em 1584. Seu pai terá nascido cerca de 1480 e falecido por volta de 1557. Artista ligado à corte portuguesa, a sua profissão exerceu clara influência na futura orientação deste seu filho, que desde muito novo, mostrou clara propensa para a arte da pintura.


Cortesia de wikipedia 

De facto, o artista frequentou a escola de seu pai, sendo este um período de aprendizagem fundamental, conforme ele próprio reconhece no prólogo de Da Pintura Antiga:
  • «E muito grandes  e infinitas graças dou eu primeiro ao Summo Mestre e imortal, e depois as dou a meu pai [ ... ] de me não desviar minha própria índole natural, e me deixou seguir a arte da Sabedoria a mi mais segura e excelente de quantas há n'este grão mundo».
Seu pai, instalado em Évora, na altura polo cultural e onde residia a corte portuguesa, deu-lhe a formação necessária para se iniciar nas artes figurativas. Além disso, estudou Humanidades. Durante alguns anos e até 1537, Évora foi a capital cultural de Portugal e centro onde os mais diferentes artistas trabalhavam, bem como homens de letras.
Nesta cidade, certamente, contactou com os mais eminentes humanistas que aí residiam, tendo sido amigo e discípulo de André de Resende, Miguel da Silva e Nicolau Clenardo. Sabe-se que estudou línguas clássicas na Escola Pública de Letras, de que foi fundador André de Resende. Até aos 20 anos temos o seu período de aprendizagem e de certo amadurecimento, de contacto em Évora com antiguidades, provenientes de ruínas romanas, e que lhe permite reconhecer que um aprofundamento do seu saber só é possível se se deslocar a Roma, o grande centro cultural da Europa culta de então, no que à arte diz respeito. 


Cortesia de wikipedia

O seu gosto pelas novas concepções de arte, o seu entusiasmo de jovem promissor nas artes, levam a que seja apelidado de Lusitanus Apelles, conforme já foi mencionado. D. João III, em Évora, é nesta altura claramente favorável à cultura humanística, que apenas será travada quando em 1555 entrega à Companhia de Jesus o ensino.
Com 20 anos dá-se o facto fundamental da vida de Francisco de Holanda como artista:
  • obtém uma bolsa a fim de se dirigir a Roma e contactar com os grandes vultos da arte renascentista. Mas quando vai pata Itália é já um pintor claramente vocacionado para a arte, ansioso por se encontrar com os grandes mestres do seu tempo, com os grandes monumentos da antiguidade e com as maiores referências da arte sua contemporânea.
Esta viagem, por ele tão ansiosamente esperada, e que teve a duração de 3 anos (1537-1540) é um marco central na sua vida, como ele mesmo menciona no agradecimento que faz a D. João III, no prólogo de Da Pintura Antiga:
  • «E a Vós, muito Glorioso e Augusto Rei e Senhor, dou eu outras tantas graças pola ajuda que ategora me tem dado (mandandome ir ver Itália) em bens que, inda quando se a náu alagasse, e a cidade saqueada steuesse ardendo, eu posso sem empedimento de carga leuemente comigo trazer a nado [ ... ] porque dizem que o saber é só de todos o que em nenhuma alhea patria é strangeiro».
Destinava-se esta viagem, segundo Jorge Segurado, a corrsponder ao desejo do rei D. João III, de o jovem artista se instruir em arquitectura e «adquirir técnica segura para construir castelos e fortalezas à maneira italiana, tendo em vista, sobretudo, a defesa e a soberania do património de além-mar. Apurámos e não resta dúvida, que a Arquitectura da Renascença italiana foi o alvo principal da viagem, o qual foi de facto atingido com êxito (7)». In Maria de Lourdes S. Ganho, O Essencial sobre Francisco de Holanda, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Cortesia de INCdaMoeda/JDACT

sábado, 9 de outubro de 2010

André de Resende: Um Intelectual humanista, teólogo, pioneiro da Arqueologia em Portugal. Um Eborense a quem se ficaram a dever os primeiros estudos sobre arqueologia da cidade

(1500-1573)
Évora
André de Resende, por João Cutileiro
Cortesia de arqnet

André de Resende foi um frade dominicano, um intelectual, um teólogo, um arqueólogo, um especialista da Grécia e da Roma antiga, em suma um grande pensador humanista. Foi também mestre de D. Duarte.

Filho da família eborense Resende, educou-o sua mãe, fazendo-o ingressar na ordem dominicana, em que os seus talentos ganharam a confiança dos superiores, que o mandaram completar os estudos superiores em universidades estrangeiras. Depois do doutoramento em Salamanca, seguiu para Paris, em cujos meios universitários tanta evidência tiveram seus talentos, que o diplomata D. Pedro de Mascarenhas, embaixador de Portugal junto de Carlos V, em Bruxelas, o chamou para o imperador o conhecer. Pouco demorou, porém, na capital brabantina e desconhece­-se‑lhe a causa da brusca partida inesperada, em 1534, de regresso ao Reino.

Cortesia de algarvivo
Falecimento da mãe? Ou um pedido de D. João III, já então ocupado com a reforma e restauração da Universidade em Coimbra, que havia de realizar‑se em 1537?
Foi-lhe confiada a Oratio pro rostris, a obra mais citada, que pronunciou, como Oração de Sapiência, na abertura do ano electivo da Universidade, ainda em Lisboa.


O humanista teve um desempenho admirável. Animado do espírito do século e pelos velhos mestres e com o próprio Erasmo.

Cortesia de brownedu
Nomeado, por D. João III, mestre do infante D. Duarte, seu irmão, e regendo ao mesmo tempo a cadeira de Humanidades na Universidade, com a qual seguiu para Coimbra, quando da transferência e sua reforma em 1537, obteve do papa a secularização, que lhe dava a maior liberdade.

Ignora-se o motivo da sua saída da Universidade. Talvez iniciativa dos colégios universitários. Não seria difícil de invocar, para determinar-lhe a demissão, certo destempero de temperamento, demonstrado na sua primeira «Oratio pro Rostris».
Regressado à sua cidade natal, ali vai regendo a aula de Humanidades, continuando pela pregação o seu múnus sacerdotal, e teria já começado a interessar-se por investigações arqueológicas da terra eborense, as quais, no fim da vida, foram sua exclusiva forma de actividade de espírito, quando o cardeal-infante D. Henrique fundou a sua Universidade católica de Évora.

Francisco Bilou
Cortesia da CMÉvora
E é então que, até à morte, se consagra intensivamente à Arqueologia. Como historiógrafo legou-nos, além de crónicas manuscritas, a obra De Antiquitatibus Lusitaniae, por que entre nós se inicia o estudo documentado do domínio romano na Lusitânia, e a História da Antiguidade da Cidade de Évora. Como agiólogo, A Santa Vida e Religiosa Conversão de frei Pedro, porteiro do Convento de S. Domingos, e a Vida de S. Domingos de Cuba. Como poeta, foram várias as poesias em português e latim, dentre as quais alguns poemas, um dedicado a São Vicente, impresso com mais composições, orações e cartas em Colónia, em 1545. Finalmente, ao gramático ficou-se devendo um Comentário da conjugação dos Verbos, e até o compositor deixou em seu espólio o Ofício de São Gonçalo e o Ofício de Santa Isabel. São numerosas as suas cartas.
Humanista do século XVI, a quem se ficaram a dever os primeiros estudos sobre arqueologia de Évora, e veio a morrer, já septuagenário.
Morre em Évora no ano de 1573. O túmulo que lhe guarda os restos mortais está na Sé Catedral.
Cortesia da CMÉvora
Notas:
  • Carlos Selvagem e Hernâni Cidade, Cultura Portuguesa, 5, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1971, págs. 42-46
Cortesia de O Portal da História/JDACT