Mostrar mensagens com a etiqueta Angola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Angola. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de setembro de 2018

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «… diria o quanto sinto a sua falta e quanto o amo acima de todas as coisas e como tento diariamente não me tornar prisioneira do meu passado embora isso se reflicta profundamente na essência do meu ser»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) A osmose estabelece-se entre os escritores que ficaram em Angola e os que, estando a estudar em Portugal, como Agostinho Neto, se voltam para a miséria e as inquietações dos seus povos.
O Centro de Estudos Africanos, crisol de discussões e de confrontações culturais, tinha sido criado em Lisboa em 1952, por iniciativa do Agostinho Neto, do Amílcar Cabral, secretário-geral do PAIGC. (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), de Francisco José Tenreiro e do autor deste texto.

A Voz dos Afectos. Carta sobre Mário de Andrade
(Henda Ducados Pinto Andrade)
Durante a maior parte da minha infância e adolescência Mário esteve ausente. O interessante da questão é que me fui acostumando desde muito cedo às suas constantes ausências. Ele ia e vinha o tempo todo, coisa que era normal para nós. Contudo, sempre que Sarah viajava, lembro-me de ter muitas saudades dela que ia ao quarto dela cheirar as suas roupas e chorava e chorava.
Ter saudades do Mário por outro lado era diferente e não tão doloroso porque sabíamos que as suas ausências tinham um propósito. Muito cedo tive que aprender a escrever de maneira a poder comunicar-me com ele onde quer que ele estivesse. O escrever e receber cartas dele até aos seus últimos dias, foi o que de mais bonito me poderia ter acontecido. O papel era belo e requintado assim como as palavras nele escritas. As suas cartas eram cheias de recomendações relativas à obtenção de um bom método de trabalho bem como a metodologias de investigação. Ele estava sempre preocupado acerca do meu pobre desempenho como estudante bem como ao meu fraco engajamento relativamente aos meus estudos assim como as minhas leituras. Esta preocupação sua serviu-me para mais tarde ultrapassar as minhas limitações. Interessante nisto é que o conteúdo complexo das cartas era o mesmo quer quando eu tinha 10 anos quer quando tinha 20 anos.
O que mais me surpreendia, e ainda continua a surpreender-me acerca dele, é que o Mário era extremamente organizado com tudo. Ele tinha regras que gostava de seguir em qualquer lado do mundo em que estivesse e ouvir noticiários era uma delas, que penso que ele teria adquirido quando muito jovem. O noticiário das 8 era qualquer coisa de obrigatório, e toda a casa deveria manter-se em silêncio vendo o noticiário da televisão. Ele dizia sempre que nos devíamos manter informados e paralelamente sabermos as origens das palavras pelo que tive que dedicar mais tempo (aos meus pobres conhecimentos de latim) para alcançar o sentido verdadeiro das palavras. Prendre un bol d’air por volta das seis era crucial para ele, deveríamos dar um passeio a essa hora para reflectir e respirar. Durante o passeio ele falava e eu ouvia sem no entanto prestar muita atenção. Durante muitos anos, eu ressenti-me do facto do Mário não fazer o que os outros pais faziam tal como levar-me à escola ou à piscina. De facto, Mário nunca esteve presente nos acontecimentos mais marcantes da minha vida, tal como cerimónia de fim dos estudos liceais.
Se o Mrário pudesse ouvir-me hoje, eu dir-lhe-ia que não restaram ressentimentos por não ter estado presente nos acontecimentos, aparentemente mais importantes dessa altura da minha vida porque eu ainda continuo a ver o noticiário das oito. Continuo a apreciar palavras bonitas escritas em papel requintado e, agora que ele partiu, gostaria muito que tivéssemos tido uma conversa em que lhe diria o quanto sinto a sua falta e quanto o amo acima de todas as coisas e como tento diariamente não me tornar prisioneira do meu passado embora isso se reflicta profundamente na essência do meu ser». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «Mas os jovens intelectuais organizam-se e inscrevem-se alvoroçadamente nas associações regionalistas que levavam, e levam ainda, uma actividade de carácter reformista»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) Face ao combate conduzido pelas autoridades portuguesas que, pelo primeiro quarto deste século, acabava a pacificação militar da colónia, jornalistas e homens de letras angolanos opunham uma resistência ao obscurantismo e à violência, por uma verdadeira campanha de imprensa. Os jornalistas que se ergueram contra as arbitrariedades da administração colonial, a qual procedia à expropriação sistemática das terras e dos bens das massas ditas indígenas, são os precursores da literatura nacionalista em Angola. A polémica e o ensaio eram os únicos géneros praticados pelas gerações do começo do século. Entre as figuras mais notórias devem evocar-se os nomes de Tadeu Bastos, Silvério Ferreira, Paixão Franco ou o cónego Pereira Nascimento. As novas gerações do pós-guerra vão, pois, alimentar-se destes exemplos. No decurso da sua procura de afirmação de um nacionalismo cultural, elas procedem à revalorização das obras destes precursores e reclamam-se da sua mensagem.
Aqui, a maturação da consciência nacional depende, Por um lado, da identificação com as figuras históricas da resistência e, por outro, da captação do real africano. Na busca de uma via autêntica para a criação literária, os jovens intelectuais lançam-se a estudar o desenvolvimento da cultura africana no Novo Mundo e em particular no Brasil. Vejo três razões para isso:

Em primeiro lugar, o laço histórico que une Angola ao Brasil através do importante tráfico de escravos capturados nas costas angolanas; depois, e como consequência deste laço histórico, a existência de um cultural pattern, devedor da contribuição desta parte de África; finalmente, esta larga abertura ao mundo que o Brasil permitia devido à livre expressão das ideias neste país.

Trata-se aí de um verdadeiro movimento de retorno da cultura brasileira a uma destas origens africanas. Um estudo aprofundado sobre o aspecto formal do conto e da poesia da jovem geração angolana revelaria o lugar importante ocupado pelo Brasil. Portanto, entre 1925 e o pós-guerra poucas obras são de lançar ao crédito da literatura angolana, salvo um romance de costumes Segredo da Morta, de António Assis Jr., publicado em Luanda em 1935. É apenas em 1948 que os jovens intelectuais, repensando, à medida das novas circunstâncias, o exemplo das gerações precedentes, fundam em Luanda um movimento cultural que adopta como palavra de ordem um apelo nacionalista Vamos descobrir Angola. Deste esforço de pensamento vão nascer o conto e a poesia angolanos. À volta de Viriato Cruz, que empreende um verdadeiro inquérito à vida das populações indígenas e sabe reproduzir de forma feliz a linguagem popular na sua poesia, outras vocações literárias manifestam-se. A poesia de Viriato Cruz inaugura a corrente nacionalista moderna, moldada por vezes, numa forma regional.
No momento em que ele aparece na cena literária, dois poetas de transição, Bessa Victor e Maurício Gomes, encontravam-se prisioneiros das velhas formas da poesia portuguesa e distanciados das aspirações populares, enquanto Óscar Ribas prosseguia o seu trabalho de fixação dos aspectos nitidamente folclóricos da vida angolana pelo romance e pelo conto e Castro Soromenho desmistificava já, nas suas obras, o comportamento pseudo-humanista do colonizador português em Angola.
Mas os jovens intelectuais organizam-se e inscrevem-se alvoroçadamente nas associações regionalistas que levavam, e levam ainda, uma actividade de carácter reformista. Logo de entrada, escolhem as tarefas mais directamente ligadas à elevação do nível das massas populares, como a campanha contra o analfabetismo. Pelo ardor nacionalista que põem nas suas actividades constituem um perigo para a administração colonial. Vários deles vêem-se expulsos dessas associações, não sem terem criado antes revistas culturais, como Mensagem, que data de 1951, assim como o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola. Depois foi a febre dos clubes literários. Poetas negros e brancos nascidos na colónia exaltam o nascimento de uma nova consciência ligada à terra, procuram um equilíbrio da linguagem, enriquecem a língua de dominação, dão à expressão do canto popular uma feição nova e introduzem, enfim, na sua mensagem um conteúdo social. Desenvolve-se uma literatura de emancipação nacional e social». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 29 de setembro de 2018

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «Todas as formas de criação literária procedentes desta região ficaram no estado oral e mantidas numa espécie de clandestinidade tribal»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) É evidente que as condições gerais da existência que foi imposta ao escritor nos países africanos sob dominação portuguesa explicam o estado actual de desenvolvimento da literatura nesses países e a ignorância do público internacional acerca do seu lugar no património cultural da África Negra. Isto tem a ver, em primeiro lugar, com as consequências de um sistema colonial particularmente opressor. Com efeito, uma estrutura social do tipo colonial não poderia de maneira nenhuma suscitar o desenvolvimento da cultura. Não é apenas uma classe que na situação colonial dispõe à vontade dos meios de produção espiritual, mas toda a sociedade dominante. Já se notou o suficiente como o colonizador manobra para reduzir os colonizados a simples consumidores da cultura dele, colonizador.
A política de assimilação espiritual praticada pelos portugueses é baseada num critério de superioridade cultural, porque se integra no quadro de uma ideologia colonial. Alguns, como o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, afirmam que os países tropicais colocados outrora ou actualmente sob a dominação de Portugal e sob a direcção do cristianismo (Brasil, África, Índia, Madeira, Açores) constituem ainda hoje uma unidade de sentimento e de cultura. A operação desta unidade seria, em sua opinião, um resultado lógico dos métodos e das condições da colonização portuguesa, da cordialidade e da simpatia características do povo português, o mais cristão dos colonizadores modernos nas suas relações com as pessoas ditas inferiores. O Português, pelos seus contactos com os árabes, possuiria uma aptidão hereditária para viver sob o sol dos trópicos e uma predisposição para as aventuras sexuais com as mulheres de cor, sob o signo da Vénus morena...
Freyre admite desde aí uma originalidade, uma forma de aptidão biológica e social do português, civilizador dos trópicos. Se por esta doutrina do luso-tropicalismo se devesse entender, como quer o sociólogo brasileiro, uma civilização e uma cultura próprias a todos os países tropicais de língua portuguesa teria sido preciso verificar em todas essas áreas formas de produção espiritual comuns a umas e outras. Ora não é nada assim. Não há tradições comuns vividas de uma maneira autêntica entre tal camponês de Angola e tal outro da província do Alentejo, entre o moçambicano e o brasileiro. Aliás, a percentagem de analfabetismo entre as populações negras da Guiné, de Angola e de Moçambique (99%) invalida a existência de uma civilização luso-tropical veiculada pela língua portuguesa.
No caso português, a assimilação é sempre traduzida praticamente por uma desestruturação dos quadros negro-africanos e a criação de uma elite quantitativamente reduzida. Ela apresenta-se como a receita mágica que conduziria o indígena das trevas da ignorância até à luz do saber. Uma forma de passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem hegeliana. Também os intelectuais dos países sob a dominação portuguesa se esforçaram por enfrentar e resolver correctamente o problema gerado pela assimilação: rejeição definitiva do substratum negro-africano? Diluição na cultura dominante? Aceitação da pseudo-condição de mestiço cultural?
Paralelamente a estas interrogações, e por vezes confundidos com elas, delineiam-se os gestos e as atitudes fundamentais que vão conduzir os intelectuais angolanos ao aprofundamento da sua própria consciência nacional. Os escritores que decidem rejeitar o estilo literário aprendido na escola portuguesa vão ajudar, através das suas obras, a cristalizar nos países o sentimento de independência nacional. Este esforço exercer-se-á primeiro sobre um meio restrito, o meio urbano, mas o povo entenderá os seus ecos. Em Angola como em Moçambique exerce-se uma das pressões coloniais mais fortes sobre todas as tentativas de afirmação cultural e particularmente literária dos criadores africanos. Assim, as culturas africanas, em geral bantas, nunca puderam encontrar um quadro para a fixação completa e o desenvolvimento de uma literatura escrita moderna. Todas as formas de criação literária procedentes desta região ficaram no estado oral e mantidas numa espécie de clandestinidade tribal.
À medida que os cidadãos saídos da comunidades africanas se elevavam até à tomada de consciência cultural, pelo jogo de uma administração que deixava alguns lugares vagos aos negros nos estabelecimentos escolares da colónia, eles exprimiam-se em português. Isso não impediu que em Angola espíritos clarividentes como Cordeiro Matta avaliassem a contribuição das culturas bantas e empreendessem a fixação da sua língua materna. Foi Cordeiro Matta quem, no fim do século XIX, estabeleceu o primeiro dicionário quimbundo-português e quem, além dos seus ensaios de análise histórica de conto e de poesia, realizou uma obra consequente no domínio do folclore angolano». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 7 de dezembro de 2014

Um Testemunho para a História de Angola. Do Huambo ao Huambo. Sócrates Dáskalos. «… o primeiro testemunho publicado até hoje por um nacionalista branco, espécie que muitos julgam nunca ter existido, por ignorância ou porque o pensamento ‘politicamente correcto’ nunca admitiu essa ideia estranha às cartilhas…»

jdact

«O livro de Sócrates Dáskalos, mais do que um livro de memórias constitui o relato vivo de uma fatia da história de Angola contada por um homem que esteve presente em muitos dos acontecimentos destes últimos 70 anos, e que participou directa e activamente nalgumas das ocorrências mais importantes dos anos 60 aos anos 90, nomeadamente do despertar do nacionalismo angolano à invasão de Angola pelas forças militares do regime do apartheid sul africano. Sócrates Dáskalos, jovem estudante de engenharia no Instituto Superior Técnico e um dos inspiradores da criação da Casa do Estudantes do Império, é já nos anos 40 um oposicionista ao regime de Salazar. Mais tarde em Angola como professor do Liceu de Benguela, dá expressão política à resistência anti-colonial. Conjuntamente com Fernando Falcão, Luís Portocarrero, Carlos Costa, Manuel Brazão Farinha, Carlos Morais e outros, funda em 1961 um movimento que ficará conhecido como Frente de Unidade Angolana (FUA), o que lhe valerá a prisão e em seguida a expulsão de Angola com residência fixa em Lisboa. A única maneira de evitar a asfixia política, e até pessoal, foi a fuga para o estrangeiro com outros companheiros. Vive no exílio durante vários anos, percorrendo sucessivamente a França, a Argélia, a China, a Costa do Marfim e a Guiné-Conacry. De regresso a Angola em 1974, é primeiro nomeado membro da Comissão de Descolonização nas Nações Unidas e, algum tempo depois, toma posse do cargo de Governador da Província de Benguela onde viverá momentos conturbados. Mais tarde assumirá finalmente a direcção dos estaleiros navais do Lobito e aí termina a sua carreira profissional activa.
São estas últimas quatro dezenas de anos que, a meu ver, constituem a parte politicamente mais significativa do seu texto, redigido com rigorosa economia de meios, a arte de um estilo fluente e o sentido da expressão adequada. Contrariamente a certos escritos do mesmo género, o autor não cai na armadilha da auto-complacência e menos ainda na auto-glorificação. O seu texto não é desprovido desse distanciamento bem humorado que só a idade e a experiência frequentemente permitem. Aliás o humor com que analisa certas situações é, por vezes, mais duro para consigo próprio do que para com terceiros, mesmo quando o comportamento destes mereceria talvez outra severidade. O livro é também o primeiro testemunho publicado até hoje por um nacionalista branco, espécie que muitos julgam nunca ter existido, por ignorância ou porque o pensamento politicamente correcto nunca admitiu essa ideia estranha às cartilhas deterministas. Demasiado lúcido para acalentar ilusões, Sócrates Dáskalos bateu-se à sua maneira pela independência de Angola, talvez menos como político stricto senso do que como poeta. Fê-lo sem ambições materiais ou sequer de carreira política pessoal, guiado sobretudo por um humanismo tolerante, um amor à terra, às suas gentes e ao seu ritmo, seria redutor chamar a isso apenas nacionalismo, que lhe serviram de regra de conduta a que permaneceu fiel ao longo da vida.
O texto tem importância pelo que diz, e é muito, mas também pelo que está implícito no relato, pelo que aconteceu e também pelo que poderia ter acontecido se… Diga-se desde já que este se não se refere a uma hipótese gratuita nem a uma utopia irrealizável. Um futuro promissor para Angola esteve em determinados momentos, entre 1961 e 1974, ao alcance da mão. Contudo os homens que tomavam as decisões em Portugal em nome dos portugueses ou, no exílio, em representação dos angolanos, não o decidiram assim, talvez porque lhes faltassem os meios ou porque não tivessem tido a clarividência que as circunstâncias exigiam. É justo reconhecer que uma transição faseada para a autonomia de Angola ou para a sua independência, numa palavra: reformista, que conciliasse interesses convergentes e atenuasse divergências mais gritantes, constituía uma tarefa enorme que o turbilhão ideológico vivido na Europa e no continente africano não facilitava. Nos anos 60 e 70 estávamos na era dos milenarismos e das dicotomias sem meio termo. Oscilava-se entre o bem e o mal, entre romantismo e descrença, entre exaltação e desânimos. Vivia-se sobretudo no zénite de um historicismo quase místico que Karl Popper condenou tão vigorosamente na sua obra. Em todo o caso era fácil perder o sentido da medida. Por toda a África ressoavam os tambores de guerra dos Damnés de la Terre de Franz Fanon, os ecos cáusticos dos escritos de Jean-Paul Sartre, a retórica messiânica vinda de leste envolta numa auréola de escritura sagrada leninista.
Do oriente provinha a febre maoista, algo inesperada e irracional, que galvanizava sectores estudantis europeus, minoritários mas aguerridos. Da América chegavam, mais atenuados ou menos perceptíveis, os sons estilhaçados da retórica dos Black Power. Nascidos na própria Europa, marxistas, neo-marxistas, católicos progressistas, anarquistas, trotskistas, bordiguistas, socialistas, gaullistas e extremistas de todos os horizontes, travavam duelos inconclusivos e sem fim. Num canteiro mais ou menos perdido florescia a negritude do presidente Léopold Senghor, em contra-corrente das ideias revolucionárias na moda, filosoficamente robusta, ainda que complexada, mas também mais difícil e exigente. Só hoje começa a ser pensada criticamente por novos filósofos africanos como A. Shutte, Kwasi Wiredu, Odera Oruka, K. Appiah, P. Bodunrin, etc. Nessa época de apogeu e declínio do Pan-Africanismo inspirado por Kwame Nkrumah, apareciam já então, muito distintos do projecto humanístico da negritude, os primeiros sinais de um afrocentrismo impregnado por essa mística obscurantista recentemente denunciada por Stephen Howe3, que enviesa o pensamento afroamericano nos Estados Unidos e que em África continua perigosamente num florescimento mítico, para desgraça dos africanos actuais e vindouros. A juventude dos anos 60 testemunhava igualmente, através de imagens dolorosas, do tratamento ignominioso infligido a um Patrice Lumunba humilhado e torturado. Tais desastres abalavam as consciências e marcavam a ferro e fogo um tempo a que Eric Hobsbawm chamou com propriedade a era dos extremos» In Sócrates Dáskalos, Um Testemunho para a História de Angola, Do Huambo ao Huambo, Editora Vega, Lisboa, 2000, ISBN 978-972-699-567-8.

Cortesia de Vega/Bulhosa/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Luandino Vieira. O Mineiro Angolano da Memória. Adriana Mello Guimarães. «’A Guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens’, que, relativamente ao sentido interno do tempo como princípio absoluto da liberdade, ‘só as crianças podem ser ao mesmo tempo vítima, testemunha, juiz e carrasco’»

Cortesia de wikipedia

«(…)
Arquitectura da criação
«Em João Vêncio: os seus amores, Luandino surpreende pela novidade: neste romance ele reúne, num processo de criação particular, a invenção de novas palavras, a destruição de estruturas linguísticas e a infracção das normas sintácticas. Suas estórias descrevem um mundo peculiar, criado, sem dúvida, a partir da memória, mas o próprio autor é impulsionado pelo desejo de uma nova estética em contraposição àquela imposta pelos colonizadores. Assim, o primeiro passo foi tentar romper com a linguagem institucional, subverter a sintaxe e o léxico na busca da reestruturação de uma nova expressividade, mais angolana e menos lusitana. Aqui a dor da infância revela um mundo de caos e destruição, um mundo onde é necessário começar tudo de novo. Pensamos que é neste sentido que devemos entender toda a obra de Luandino. Aqui fica consolidada a herança de múltiplas tradições, que perseguem o autor desde a infância e que se traduz numa obra densa e rica. João Vêncio é o testemunho da descoberta que caminha à procura de uma identidade. Neste caleidoscópio de emoções e pensamentos, voltamos à infância, aos oito anos da personagem principal. Encontramos um cruzamento de histórias: vizinhas espancadas, reflexões sobre a amizade, a língua, a religião. A educação de criança tive de mãe e de madrasta, afirma João Vêncio. O pai inicialmente pedreiro, acabou como industrial da padaria. Mas a maior alegria do nosso protagonista era encher o coração de ódio, furando os olhos aos pássaros e cometendo outras atrocidades.
Escravo das suas paixões, os seus amores desenham uma estrela de três pontas, e todos os amores pertencem às memórias da infância. Só a bailundina está fora. E é justamente a bailundina que João Vêncio tenta estrangular, logo no início da narrativa. Dividido entre vários amores (todos com um uma história trágica à mistura), na constelação amorosa tudo se confunde:

Eu é que sou escravo dos meus amores, a estrela de três pontas com o seu centro dela, a Florinha que não era minha. A Màristrêla e o Mimi, meu só amigo; a menina Tila, asila, doutora, o seu perfume torrado em baixo do céu de veludo, no quente das pernas.

Por linhas tortas, João Vêncio será também herói, palhaço, sábio e santo. João veio para confundir e fazer pensar, e nenhuma das suas facetas dá conta da sua personalidade e verdade. Pensamos que essa busca incessante de identidade, que força o nosso protagonista a crescer, representa uma reconstrução poética das memórias de Luandino.

Conclusão
Nos textos analisados, pretendemos demonstrar que na obra de Luandino não temos apenas uma visão nostálgica da infância, mas sim um projecto de criação literária em função do sentido interno do tempo. Ao assumir a imagem do velho contador de estórias, Luandino faz renascer a memória tradicional africana. Mas parece-nos que na estética de Luandino esta tradição é recriada em função de suas contradições internas permanentes, o que, em geral se encontra em autores brasileiros como José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos; ou ainda, em Guimarães Rosa, a propósito da recriação linguística. Por fim, parece-nos adequado concluir com Luandino, em seu texto A Guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens, que, relativamente ao sentido interno do tempo como princípio absoluto da liberdade, só as crianças podem ser ao mesmo tempo vítima, testemunha, juiz e carrasco». In Adriana Mello Guimarães, Luandino Vieira, O Mineiro Angolano da Memória, Artigos e Ensaios, Revista Crioula, nº 3, 2008.

Cortesia de Revista Crioula/JDACT

Luandino Vieira. O Mineiro Angolano da Memória. Adriana Mello Guimarães. «O papel de um escritor em qualquer sociedade é ser, realmente, a consciência crítica dessa sociedade (…) Portanto, a consciência crítica seria uma consciência que aponta os erros, as dificuldades, os defeitos…»

Cortesia de wikipedia

«(…)
A graça e a alegria da estória
A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota. In João Guimarães Rosa, Tutaméia, Aletria e Hermenêutica

«O livro Luuanda (1963) é constituído por três estórias. Aqui Luandino inova no uso da língua, criando uma linguagem que, embora não seja o português falado nos musseques em Luanda, tem esta marca. Das três estórias do livro, Vavó Xixi e seu Neto Zeca Santos, Estória do Ladrão e do Papagaio, Estória da Galinha e do Ovo, analisaremos a terceira. O enredo se desenvolve em torno da luta por um ovo que pode ser visto como um símbolo que representa a identidade dos habitantes de um musseque. Neste texto a infância surge na figura de duas crianças que traduzem a fala da natureza, neste caso a galinha. A estória começa na hora das quatro horas, quando começa a confusão entre duas vizinhas. Nga Zefa tem uma galinha, Cabíri, que insiste em ir alimentar-se no quintal de Nga Bina, uma personagem que, grávida, tem o grande desejo de comer um ovo. Levada pelo desejo, Nga Bina alimenta a galinha, que finalmente põe um ovo em seu quintal. As vizinhas discutem. Uma reclama o direito à propriedade da galinha e do ovo; a outra requisita o direito ao ovo enquanto produto da alimentação fornecida em seu quintal. Sem solução à vista, solicitam a mediação da mais velha do grupo, Vavó Bebeca. Nada se resolve; as mulheres, de forma a decidir o caso, pedem ajuda a várias pessoas: a um negociante branco, Sô Zé, que só quer tirar vantagem; ao inteligente seminarista João Pedro; a Sô Vitalino, que explora os pobres mediante o aluguer de cubatas; ao Artur Lemos, ex-notário e bêbado, símbolo da burocracia e da decadência do sistema. Todos tentam conseguir a propriedade do ovo.
Entretanto, duas crianças, Beto e Xico, entram em cena, aproximam-se da galinha e, em seguida, afirmam que aprenderam a língua das galinhas. Finalmente, aparece a autoridade policial, e um sargento diz que por não serem autorizadas reuniões com mais de duas pessoas, ele terá de ficar com a galinha e com o ovo da discórdia. Duas são, basicamente, as possibilidades de solução do problema: ou as duas mulheres mantêm o litígio e nenhuma das duas leva o ovo, ou elas se unem para defender o seu direito ao ovo. Neste momento de tensão, as duas crianças, Beto e Xico começam a utilizar a língua das galinhas e imitam um galo a chamar pela Cabíri:

Até a Cabíri deixou de se mexer, só a cabeça virava em todos os lados, revirando os olhos a procurar no meio do vento esse cantar conhecido que lhe chamava (…) E, então, sucedeu: Cabíri espetou com força as unhas dela no braço do sargento, arranhou fundo, fez toda a força nas asas, e as pessoas, batendo palmas, uatobando e rindo, fazendo pouco, viram a gorda galinha sair a voar por cima do quintal, direita e leve, com depressa, parecia era ainda um pássaro de voar todas as horas.

A solução, a saída (isto é, a libertação) se dá, evidentemente, pela união dos oprimidos. De facto, Luandino chama a atenção para a necessidade da existência de uma consciência crítica:

O papel de um escritor em qualquer sociedade é ser, realmente, a consciência crítica dessa sociedade (…) Portanto, a consciência crítica seria uma consciência que aponta os erros, as dificuldades, os defeitos; tudo quanto, na realidade, deve ser transformado para melhor.

Mas uma significação política da estória, pura e simples, configuraria apenas uma retórica ideológica; seria uma percepção superficial da dimensão estética da narrativa luandina, porque essa consciência é sempre uma conquista, e começa pela visão crítica de si mesmo como actor da História. Essa consciência outra coisa não é senão o saber contar a própria história como uma anedota, reinventando-a. Ora, isto não é possível sem uma apropriação da linguagem. O sentido da verdadeira libertação consiste exactamente nisso: o inventar, dentro da História, a própria história, com todos os recursos, com todas as novidades e particularidades que constituem a graça e a alegria anedótica da estória, sem o que não seria uma tarefa suportável. É o recuperar, urbano, de uma estória tradicional, passada com outros animais. Ou seja: mais uma vez o escritor vai buscar, na memória, as tradições herdadas para consolidar a sua obra singular». In Adriana Mello Guimarães, Luandino Vieira, O Mineiro Angolano da Memória, Artigos e Ensaios, Revista Crioula, nº 3, 2008.

Cortesia de Revista Crioula/JDACT

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Luandino Vieira. O Mineiro Angolano da Memória. Adriana Mello Guimarães. «A vida intelectual surge como um sonho de liberdade, mas esta liberdade não pode ser apenas idealizada. Torna-se necessário enfrentar o sofrimento e construir o futuro: seguiria e com as mãos pequenas, agora calosas das grades da prisão…»


Cortesia de wikipedia

«(…) No segundo conto, O despertar, a nota dominante é o sentido da liberdade. Apesar de a personagem principal se encontrar encarcerada, a detenção física não impede que o seu espírito se mova a procurar com maior intensidade a luz do entendimento e o restabelecimento moral:

A prisão foi para ele de grande utilidade. Nos longos momentos de solidão reviu o que passara e pensou muito. Acusou-se do que tinha culpas. Era a menor parte. E tirou de tudo a grande lição. Foi nessas noites de intensa vigília que readquiriu a confiança em si. E viu que o caminho não estava irremediavelmente escuro.

A vida intelectual surge como um sonho de liberdade, mas esta liberdade não pode ser apenas idealizada. Torna-se necessário enfrentar o sofrimento e construir o futuro: seguiria e com as mãos pequenas, agora calosas das grades da prisão, trabalharia. Tinha a Vida à sua frente. Tinha mãos para a possuir!.

Outro conto de grande impacto é A fronteira de asfalto, que narra a dor do preconceito: é a história de dois jovens, um rapaz negro e uma rapariga branca, Marina e Ricardo, que são proibidos de manter a amizade pela mãe da menina:

 - Marina, já não és nenhuma criança para que não compreendas que a tua amizade por esse (…) teu amigo Ricardo não pode continuar. Isso é muito bonito em criança. Duas crianças. Mas agora (…) um preto é um preto (…) As minhas amigas todas falam da minha negligência na tua educação. Que te deixei (…) Bem sabes que não é por mim!

A colocação do asfalto nas ruas delimita a divisão que existia entre dois territórios, entre o bairro branco e o musseque, entre dois mundos, funcionando como símbolo da implementação do sistema colonial e do progresso. No desfecho do conto, Ricardo, morador do musseque, morre ao tentar entrar em contacto com Marina, a menina de tranças loiras. A interdição do mundo branco ao negro africano e a impossibilidade de diálogo entre universos ideologicamente conflituantes constituem o fio condutor da narrativa. Os delírios de uma criança doente compõem o conto A cidade e a infância. Zizica é um miúdo loiro que se lembra das mudanças que ocorreram na cidade: Hoje muitos edifícios foram construídos. As casas de pau a pique e zinco foram substituídas por prédios de ferro e cimento, a areia vermelha coberta pelo asfalto negro e a rua deixou de ser a rua do limão. No meio das suas memórias, Zizica lembra do dia em que o pai o ensinou a ler a primeira palavra: guerra. Sonhando, voa num papagaio de seda e canta lenga-lengas típicas do universo lusófono. Neste caleidoscópio de emoções, acompanhamos a morte da melhor amiga, a primeira ida ao cinema, as visitas do médico. Tudo passa, tudo se acaba, ficando da doença, entretanto, a ideia do início da construção de uma identidade própria.
Nos últimos contos do livro, destacamos Faustino. Mais uma vez, ao sentido da dor se incorpora a denúncia do racismo. O conto é belo. A beleza não está na dor, nem na denúncia do racismo, senão no efeito do recurso utilizado para prender a atenção do leitor: a linguagem funciona como elemento potencial de captação estilística e uma espécie de mimetismo ou reprodução da oralidade, que começa da seguinte forma: Contarei agora a história do Faustino. Não foi a Don’Ana que me contou, não senhor, remetendo o leitor para o ambiente dos antigos contadores de histórias. Mais do que a evocação de um tempo feliz, mais do que a representação ideológica do vivido, A cidade e a infância exprime a consciência da dor como sendo princípio de criação da obra de arte. Em Luandino, a vivência da dor é matéria-prima de coisas de beleza que nos causam alegria». In Adriana Mello Guimarães, Luandino Vieira, O Mineiro Angolano da Memória, Artigos e Ensaios, Revista Crioula, nº 3, 2008.

Cortesia de Revista Crioula/JDACT

Luandino Vieira. O Mineiro Angolano da Memória. Adriana Mello Guimarães. «Como são dolorosas as recordações! Oh, quem me dera outra vez mergulhar o corpo em água suja e ter a alma limpa como nos tempos em que ele, eu, O Mimi, O Fernando Silva, o João Maluco, o Margaret e tantos outros éramos os reis da Grande Floresta»

Cortesia de wikipedia

«(…) Era a época do Estado Novo, regime autoritário. O que significava Angola no contexto político-económico do Estado Novo? O chefe do governo português, António de Oliveira Salazar, atribuiu aos territórios africanos uma função geográfica estratégica de exploração e de poder. José Freire Antunes resume assim essa época:

Sem surpresa, a África inspiradora de orgulhosa retórica era, nos anos 40 e 50, uma imagem reflexa da matriz ibérica: o Portugal pré-industrial, com um rendimento per capita de 250 dólares (o mais baixo da Europa), uma taxa de analfabetismo de 40%, o mais elevado índice de mortalidade infantil (…) Angola e Moçambique ficaram longamente condenados a baldios do Portugal Europeu.

E o que dizer da ambiência cultural do colono? Um outro escritor, António Cardoso, que compartilhou sua infância com Luandino e foi seu colega, traça um quadro da vida escolar que significa, em poucas palavras, uma formação opressiva: O liceu era o estabelecimento de ensino mais forte, onde havia o branco de segunda, um ou outro preto, alguns mestiços (…) Professores, angolanos, nunca tivemos nenhum. Parece-nos provável que, desde a infância, a formação escolar tenha gerado em Luandino o sentimento do oprimido que liga inexoravelmente o indivíduo ao povo da terra, o que explicaria a sua adopção, por livre escolha, da cidadania angolana. Ou seja, ao concentrarmo-nos na infância de Luandino, distinguimos uma criança que se torna adulta à força de percorrer um caminho semeado de contradições entre o colonizador e o colonizado; entre o branco e o negro; entre o rico e o pobre. O que o move nesse percurso senão o sentimento de colonizado, de cópia, de postiço, de híbrido? O que o torna criador senão o pensamento dessas contradições e desse sentimento?

Vivência da dor
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, abranda as rochas rígidas, torna água todo o fogo telúrico profundo e reduz, sem que, entanto, a desintegre, à condição de uma planície alegre, a aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento pelas razões do sentimento, sem os métodos da abstrusa ciência fria e os trovões gritadores da dialéctica, que a mais alta expressão da dor estética consiste essencialmente na alegria. In Augusto dos Anjos, Monólogo de uma Sombra
A cidade e a infância (contos, 1957), primeiro livro publicado por Luandino, remete o leitor para a década dos anos quarenta, altura do início da formação da identidade nacional angolana. A força e o poder são retratados por dentro, através de imagens do quotidiano. Neste livro, Luandino inicia um percurso de luta contra a injustiça e começa a criar a sua própria linguagem.
O livro chama a atenção das autoridades: afora três exemplares, as autoridades policiais apreenderam toda a edição, inclusive os originais, a composição e as provas. O livro é composto por dez narrativas breves, que descrevem os bairros pobres de Luanda, onde habitam meninos negros, brancos e mestiços. Ouvimos estas vozes como se estivéssemos a escutar alguém a ler em voz alta, e descobrimos dois mundos, um branco e um negro, que vivem na mesma infância. Logo no primeiro conto, Encontro de acaso, somos convidados a entrar na Grande Floresta acompanhados por miúdos de oito anos, de corpos escuros, de brancos que brincavam todo o dia nas areias vermelhas, que saboreavam iguarias como quicuerra, peixe frito e açúcar preto com jinguba; e que queriam conquistar o Kinaxixi, bairro operário contíguo ao Makulusu, que era um bairro novo que se ia construindo com o comércio do café. A narrativa recria a desigualdade do sistema colonial. Porém, acima de tudo, introduz a dor como elemento primordial da criação estética:

Como são dolorosas as recordações! Oh, quem me dera outra vez mergulhar o corpo em água suja e ter a alma limpa como nos tempos em que ele, eu, O Mimi, O Fernando Silva, o João Maluco, o Margaret e tantos outros éramos os reis da Grande Floresta.

O próprio narrador nos conduz a este entendimento, ao confidenciar que tudo se modificou e só a ferida feita pela memória persiste ainda. Neste conto estão presentes os valores permanentes internos da consciência e os imperativos históricos e externos da mudança e da transformação, tanto do ser humano como de um povo. Assim, numa sequência de cenas como cinematográficas, a narrativa suscita emoções que envolvem problemas de hoje e de sempre da existência humana». In Adriana Mello Guimarães, Luandino Vieira, O Mineiro Angolano da Memória, Artigos e Ensaios, Revista Crioula, nº 3, 2008.

A amizade de Adriana
Cortesia de Revista Crioula/JDACT

Luandino Vieira. O Mineiro Angolano da Memória. Adriana Mello Guimarães. «Aos onze anos, eu tinha um jornalzinho manuscrito, e neste jornal eu era o redactor e era o tipógrafo: a minha caligrafia é que constituía o tipo. Eu fazia também uns desenhos para ilustrar as crónicas de futebol…»


Cortesia de wikipedia

Pode-se assim dizer que do tempo nada se perde porque o passado é presente no presente; ou melhor, o presente não é senão o passado agindo. In Farias de Brito, O mundo interior.

«Quais são os sentimentos, valores e aspirações que emergem quando nos voltamos sobre o nosso vivido mais remoto? Experiência comum aos indivíduos da espécie humana, a vivência da infância só se tornou tema literário com a modernidade. Em À la recherche du temps perdu, como sabemos, o tema foi celebrizado por Proust. Em língua portuguesa, não são poucos os escritores que esse caminho percorreram. Por exemplo, António Nobre assume a memória sob a forma do lirismo: Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância, / que me enchiam de Lua o coração, outrora, / partiram e no Céu evolam-se, à distância!. Há várias possibilidades de trabalhar o tema. Casimiro Abreu, expressão do romantismo brasileiro, fala da dor inerente à consciência da transitoriedade e da finitude: Oh! Que saudades que tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!. Mais recentemente, Dante Milano fala do próprio tempo interno da consciência: Tempo, vais para trás ou para diante? / O passado carrega a minha vida/ Para trás e eu de mim fiquei distante, / ou existir é uma contínua ida / e eu me persigo nunca me alcançando? / A hora da despedida é a da partida.
Cumpre entender, como Agostinho e outros filósofos depois dele, e a exemplo de Bergson e de Husserl, que o tempo da consciência é um fluxo contínuo, uma correnteza em que pulsam simultaneamente o que foi, o que é e o que está vindo a ser. Daí o sentido da memória como modo de presença do que não mais existe; de coisas e de factos vividos que, embora pertencentes ao passado, fazem parte (tanto quanto o fazem as coisas e factos previstos, sonhados, planeados ou apenas imaginados, e que ainda não existem) do mundo real que experimentamos actualmente. Neste sentido, e considerando o contexto da colonização angolana, pretendemos descortinar a vivência da infância de Luandino Vieira, expressa nos contos de A cidade e a infância, nas estórias de Luuanda e no romance João Vêncio: os seus amores, como sendo a fonte e o verdadeiro motor de sua criação literária.

A memória como filão

Tenho minhas minas para garimpar. In Luandino

Numa entrevista ao jornal O Globo (17.11.2007), do Rio de Janeiro, Luandino Vieira afirmou que escrever sobre as barreiras de classes e as injustiças é uma opção comprometida com a sua própria vida, pois essas preocupações constituem uma espécie de aquário onde nadam as minhas memórias. Luandino definiu a si mesmo como um escritor que encontrou na memória o seu filão, a sua mina; uma espécie de mineiro do tempo interno da consciência:

Minha ficção sempre se alimentou da memória. É do que se inscreveu na memória que retiro o material que submeto a todos os maus-tratos possíveis até perceber se é válido para justificar meu trabalho sobre ele. Da actualidade conheço pouco. Mas revela-se-me permanente e com persistência o que em minhas memórias de mais de meio século se inscreveu, e não apaga. Tenho minhas minas para garimpar.

Cabe, então, perceber melhor quais são estas memórias no percurso da vida de José Vieira Mateus Graça, conhecido por Luandino Vieira. Em outra entrevista, ainda no Rio de Janeiro, ele explicou que o pseudónimo exprime o que foi a progressiva incorporação do seu ser no lugar:

Aos onze anos, eu tinha um jornalzinho manuscrito, e neste jornal eu era o redactor e era o tipógrafo: a minha caligrafia é que constituía o tipo. Eu fazia também uns desenhos para ilustrar as crónicas de futebol, e nestes desenhos eu assinava como Luandino. E também, porque me chamavam de Luandino, devido a minha mania de defender a cidade de Luanda acima de tudo.

De família pobre, Luandino nasceu em Portugal, a 4 de Maio de 1935. Três anos depois, a família foi viver para Angola, colónia portuguesa, onde ele passou a infância e a adolescência». In Adriana Mello Guimarães, Luandino Vieira, O Mineiro Angolano da Memória, Artigos e Ensaios, Revista Crioula, nº 3, 2008.

Cortesia de Revista Crioula/JDACT

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Bom Dia Camaradas. Leituras. Ondjaki. «A minha tia dava menos vontade de rir, porque ela falava muito devagar, tinha assim, como dizem os mais velhos, e o Cláudio não me pode ouvir a dizer isto, ela tinha uma ‘voz doce’»

jdact

Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra, coisa é o povo.
«(…) O telefone tocou. Fui a correr, estava convencido que era a tia Dada. Eu não lhe conhecia, mas já tinha falado com ela muitas vezes ao telefone, então era muito engraçado, porque eu só conhecia a voz dela. Uma vez ela pôs-me a falar com o filho dela, e passámos a tarde toda a rir, eu e as minhas irmãs, por causa da maneira como ele falava. Eu quase nem conseguia responder, estive quase p’ra me atirar no chão de tanto rir, até a minha mãe teve que dizer que eu estava com cólicas na casa de banho. A minha tia dava menos vontade de rir, porque ela falava muito devagar, tinha assim, como dizem os mais velhos, e o Cláudio não me pode ouvir a dizer isto, ela tinha uma voz doce. Mas não era ela ao telefone . Era a Paula da Rádio Nacional, queria falar com a minha mãe. Eu disse que ela estava no banho, mas ela quis esperar. A Paula também era outra pessoa que tinha uma voz doce, eu gostava muito de ouvir a voz dela na rádio, mas assustei-me na primeira vez que lhe vi, porque pensei que uma pessoa com a voz dela tinha que ser baixinha, e ela era alta. Quando ouvi a minha mãe dizer sim, vou perguntar se ele quer..., desconfiei que era qualquer coisa relacionada comigo.
 - Olha, a Paula vai fazer amanhã. um programa sobre o 1.º de Maio e queria recolher depoimentos de pioneiros…  - Tu queres ir? - Depoimentos, é ir lá falar, né? - eu, embora já soubesse. - Sim, preparas qualquer coisa e amanhã ela vem te buscar para irem fazer uma gravação. - Mas é para um programa? - Mais ou menos, acho que é para passar no noticiário, é uma mensagem das crianças para os trabalhadores. - Então vou ter que fazer uma redacção, mãe? Ai, isso já da muito trabalho... - Não, não tens que fazer urna redacção porque não te vão deixar ler a redacção, são só algumas palavras… - Tu podes me ajudar? - Com o texto não, filho... Tu escreves o que quiseres, eu posso e corrigir-te os erros, mas o texto tem que ser teu. - Tá bem. Quero ir conhecer a rádio. Se calhar ela deixa-me ver os instrumentos todos… - Sim, talvez, tens que lhe pedir.

Assim já era hora do almoço. As minhas irmãs chegavam da escola, o meu pai também chegava. A casa ficava mais barulhenta, mais o barulho do rádio na sala para ouvir as notícias, mais o rádio do camarada António ligado na cozinha, mais a minha irmã caçula que queria contar tudo o que se tinha passado na escola nessa manhã. Ela sabia que tinha que se despachar porque quando fosse uma hora em ponto ia ter que parar o relato para deixar os pais ouvirem as notícias. Nós ficávamos um bocado aborrecidos com as notícias, porque era sempre a mesma coisa: primeiro eram as notícias da guerra, que não eram diferentes quase nunca, só se tivesse havido alguma batalha mais importante, ou a UNITA tivesse partido uns postes. Aí dava risa, porque todo mundo ia dizer na mesa que o Savimbi era o Robin dos Postes. Depois tinha sempre algum ministro ou pessoa do birô político a dizer mais umas coisas. Depois vinha o intervalo com a propaganda das FAPLA. Ah, é verdade, às vezes também falavam da situação na África do Sul, lá do ANC, enfim, isso eram nomes que uma pessoa ia apanhando ao longo dos anos. Também se aprendia muita coisa, porque a propósito disso, por exemplo, do ANC, é que o meu pai nos explicou quem era o camarada Nelson Mandela, e eu fiquei a saber que havia um país chamado África do Sul onde as pessoas negras tinham que ir para casa quando tocava a campainha às seis da tarde, que elas não podiam andar no machimbombo com outras pessoas que não fossem negras também, e até fiquei bem espantado quando o meu pai me disse que esse camarada Mandela já estava preso há não sei quantos anos. Foi também assim que percebi porquê que os sul-africanos eram nossos inimigos, e que o facto de nós lutarmos contra os sul-africanos significava que nós estávamos a lutar contra alguns sul-africanos, porque de certeza que essas pessoas negras que tinham um machimbombo especial para elas não eram nossas inimigas. Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra coisa é o povo.
Depois destas notícias, e destas conversas, vinha o desporto. Mas também era sempre o Petro ou o D'Agosto que ganhava, bem, a Taag depois ainda melhorou uns coche, até deu 11 a 1 noutra equipa, coitados! O Cláudio estigou mal o Murtala no dia seguinte, acho que o Murtala até chorou. À uma e vinte, quando os meus pais tomavam café, desligaram o rádio. O telefone tocou e agora eu tinha a certeza que era a tia Dada». In Ondjaki, Bom Dia Camaradas, Editorial Caminho, Lisboa, 2003, ISBN 972-21-1524-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Bom Dia Camaradas. Leituras. Ondjaki. «O camarada António gostava de dizer vinte minuto pra tudo. A água já estava a ferver há vinte minuto, a mãe tinha saído há vinte minuto e faltava sempre vinte minuto para o almoço estar pronto»

jdact

Então também percebi que, num país, uma coisa é o governo, outra, coisa é o povo.
«(…) Se, quando me acordavam, eu me lembrasse do prazer do matabicho assim de manhãzinha, eu acordava bem-disposto. Matabichar cedo em Luanda, cuia! Há assim um fresquinho quase frio que dá vontade de beber leite com café e ficar à espera do cheiro da manhã. Às vezes mesmo com os meus pais na mesa, nós fazíamos um silêncio. Se calhar estávamos mesmo a cheirar a manhã, não sei, não sei.
O camarada António tinha chaves de casa, mas às vezes eu estava na varanda e via-lhe ali sentado na zona verde. A minha mãe já tinha lhe dito para ele não vir tão cedo, mas parece que os mais velhos têm pouco sono às vezes. Então ele ficava ali nos bancos, só assim sentado. Quando ouvisse movimentos aqui em casa, ele aparecia devagar. - Bom dia, menino. - Bom dia, camarada António eu esperava que ele fechasse o portão. - Hoje também estavas aí muito cedo, António... - É... eu fico mesmo aí sentado, menino… - sorrindo, ele. - A senhora já acordou?
O camarada António fazia aquela pergunta, mas eu não sei porquê. Ele sabia que a minha mãe era sempre a primeira a acordar. Se calhar não era para eu responder, mas eu só ia perceber isso muito mais tarde. - Hoje vieste de candongueiro, António? - Não, menino, vim a pé mesmo; esta hora está fresco… - Desde o Golf ate aqui, António? - eu, em espanto. - Vinte minuto, menino... Vinte minuto...
Mas não era verdade. O camarada António gostava de dizer vinte minuto pra tudo. A água já estava a ferver há vinte minuto, a mãe tinha saído há vinte minuto e faltava sempre vinte minuto para o almoço estar pronto. Fiquei na varanda. No jardim havia umas lesmas que deviam ser mais velhas porque sempre acordavam cedo. Eram muitas. Depois do matabicho, ficar assim na varanda com aquele fresquinho, ver as lesmas irem não sei aonde, aquilo dava-me sono outra vez. Adormeci mesmo.
Sempre era o sol que me acordava. Era muito impossível na minha varanda descobrir o sítio para onde ele ia a seguir. A perna estava quente e dormente, eu tinha uma comichão muito chata. Cocei. Depois ouvi a voz do António, vinda lá da cozinha. - Tava a chamar, camarada António? - cheguei à cozinha. - Telefonou a tia do menino, menino... - Qual tia, António? - A tia de Portugal. - Ó António, poças... e nem me acordaste... Eu queria falar com ela. - Ela queria falar com o pai, menino sorrindo. - Então..., queria falar com o pai mas falava comigo... E ela disse o quê? - Não disse, menino... Falou só era pra dizer no pai que ela tinha ligado, parece vai ligar mais, hora do almoço... - Mas telefonou a que horas, António, eu não ouvi o telefone... – Nem faz, vinte minuto, menino...
O cheiro da cozinha, o apito da panela, a movimentação do camarada António, tudo me dizia que deviam ser onze horas. Ainda não tinha feito as tarefas de Matemática e Química, e devíamos almoçar ao meio-dia e meia. Decidi que já não ia tomar banho, até porque havia Educação Física à tarde, assim o banho ficava já para a noitinha.
Subi, fui fazer os deveres, como dizíamos antigamente. A minha mãe tinha-me ensinado que primeiro estuda-se a matéria e depois é que se faz a tarefa, mas quando eu não tinha tempo ia ver a matéria e resolvia isso logo. O Cláudio, o Bruno e principalmente o Murtala sempre faziam assim os deveres, e diziam que funcionava. Já a Petra todos os dias estudava, metia raiva aquela miúda, no dia seguinte já sabia a matéria toda, nós quando tínhamos uma dúvida durante uma prova sempre lhe perguntávamos.
A minha mãe chegou. Primeiro vai à cozinha ver se o almoço está bem encaminhado, depois é que vai pendurar as chaves no chaveiro, vai subir, perguntar-me se tenho os deveres feitos e vai tomar banho. Só se eu estiver enganado, mas costuma ser assim. - Tu e que falaste com a tia Dada? - deu-me um beijinho, foi para a casa de banho, abriu a torneira. (Eu sabia!) - Não, eu tava, a fazer os deveres... Foi o camarada António. - Mas o António disse que tu estavas na varanda. - Sim, estava na varanda a fazer os deveres. - Mas já vos disse que quando o telefone toca, vocês atendem, não fazem o camarada António vir da cozinha para, atender o telefone... - era outro tom de voz. - Mas ele veio tão rápido, mãe, que eu nem tive tempo. Ela entrou no banho. O barulho da água interrompeu a conversa. Ainda bem».

In Ondjaki, Bom Dia Camaradas, Editorial Caminho, Lisboa, 2003, ISBN 972-21-1524-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Aquela Casa Triste… Camilo Castelo Branco. «Talvez que não. A riqueza não é sempre o estipêndio generoso dos homens cruéis. E, em corações afistulados por peçonha de cobiça…»

jdact

«A casa grande das quinze janelas branqueja no espinhaço do monte. As janelas fecharam-se há seis meses, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram. A sepultura do Africano, que chegava ao cemitério quando a filha expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos funerais do pai. Ao homem que morreu naquela casa triste chamavam o Africano. Estou-a vendo daqui. As vidraças reverberam o sol poente. Eu, há hoje dez anos, vi abrir os alicerces daquela casa. Lidavam operários a centenares. Entre os alvenéis estava um sujeito, na pujança dos anos, magro, macilento e tostado pelo sol da Africa. Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se chamava o Duque por apelido e o Africano por alcunha.
Avizinhei-me dele, com o semblante risonho de cortesias, para lhe perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edifício tão grandemente cimentado. Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andara viajando na Suíça. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. Gotardo, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo duma montanha, em casa imitante de outra onde pernoitara, e donde vira levantar-se o sol do seu leito de neve. E ele, pai extremoso, rico e saudoso da pátria, disse à filha que, por cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquíssimos. E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamara: - E quando vamos?
 - Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a capela os ossos de tua mãe. E eu descansarei desta labutação em que pude granjear mais que o preciso ao teu passadio, visto que preferes, a viver em Paris, uma casa nas serras de Portugal. E saiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso chalet que a filha fantasiara. Ora, os arquitectos do Minho, como não percebessem a planta do Africano, construíram-lhe um palácio aldeão, espécie de dormitório monástico, um leviatão de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas. Perto dali, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar torreado dos senhores de Farelães.
E eu, que, naquele tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio histórica dos Correias de Sá nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do Africano, dizia entre mim. O palácio cavaleiroso que desaba e o palácio industrial que se levanta. Aquele recorda as manhas épicas do peito ilustre lusitano, a indústria da lança que atirou da Índia para ali, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecute e Mombaça. Ergue-se o novo palácio para assinalar à posteridade que o peito moderno lusitano é ainda ilustre e empreendedor, diferençando-se do antigo somente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o índio pela frente ou verberar o etíope pelas costas.
Mas eu não sabia se aquele homem, tão entranhadamente pai, amealhara os seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza não é sempre o estipêndio generoso dos homens cruéis. E, em corações afistulados por peçonha de cobiça, sede execrável que se apaga em lágrimas, não cabe o exaltado e santíssimo sentimento do amor paternal. Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos dos braços de suas mães. Verdade é que os práticos destes ultrajes a Jesus, ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da consciência humana, dizem que lá, nas cubatas, não há mães, nem filhos: há indivíduos bestialmente rebanhados e inconscientes de laços de família. Se assim é, meu Deus, por que não destes à vossa criatura de epiderme negra o amor maternal que dulcifica as meiguices da hiena enroscada nos filhos?»

In Camilo Castelo Branco, Aquela Casa Triste, Brevíssima Portuguesa, Livraria Civilização Editora, Porto, 1995, ISBN 972-26-1214-X.

Cortesia da LCE/JDACT

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «… o essencial do debate aberto no decurso da primeira fase desta luta pelo reconhecimento universal dos valores negros foi considerado como ultrapassado. A independência dos países africanos, fazendo recuar as fronteiras do colonialismo»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) O combate pelo reconhecimento dos valores ditos negros, a reabilitação da cultura negro-africana aos olhos do mundo, a reivindicação do contributo do humanismo africano para o humanismo universal, foi travado com um ardor particular pelos intelectuais dos países antigamente colonizados pela França. Através da fundação de revistas, entre as quais ainda se mantém com mais prestígio a Présence Africaine, da organização de congressos internacionais de cultura, de debates sobre as condições da existência das literaturas nacionais em África, de ensaios de interpretação de uma filosofia africana ou da fundação de companhias teatrais, toda uma época se encheu de ruidosas manifestações de negritude. O primeiro congresso dos escritores e artistas negros reunido em Paris em 1956, ao qual tive o privilégio de estar intimamente associado, marcou uma mudança decisiva nas actividades de Présence Africaine. Este congresso, proclamando a necessidade de reabilitar e desenvolver as diversas culturas negras a fim de favorecer a sua integração no conjunto da cultura humana, pôs a tónica sobretudo na crise que as atinge, tendo em conta o sistema colonial. Convidando os intelectuais a trabalharem para a criação das condições concretas do renascimento e da expansão das culturas negras, os congressistas queriam sublinhar a pré-eminência da luta pela independência nacional.
Desde então, o compromisso do homem de cultura colonizado encontrava-se nitidamente politizado. Esse compromisso estava já assumido particularmente pelos jovens escritores de expressão europeia que tomavam como seu papel essencial despertar a consciência nacional nos seus respectivos países. Se bem que conscientes do facto de que os seus escritos não podiam atingir o grande público africano, iletrado na esmagadora maioria, estes criadores apresentaram-se a si mesmos como os perturbadores da ordem colonial. O lugar desta literatura no contexto da luta nacionalista é muito mais importante do que se julga. Mas é à luz do exemplo argelino que melhor se vai definir o compromisso do homem de cultura colonizado. Por ocasião do congresso dos escritores e artistas negros em 1959, Franz Fanon, no seu relatório Fondements réciproques de la cultura nationale et de la lutte de libération (Fundamentos recíprocos da cultura nacional e da luta de libertação), desvendou pela primeira vez ao público africano e internacional o sentido da mutação revolucionária das manifestações culturais no decurso da luta armada pela libertação nacional. Eis a ideia essencial que ilumina todo o seu relatório:
  • Nós pensamos que a luta organizada e consciente empreendida por um povo colonizado para restabelecer a soberania da Nação constitui a manifestação mais plenamente cultural que se pode imaginar.
De facto, faltava ao problema cultural levantado anteriormente pelos intelectuais africanos esta dimensão fornecida pela experiência de um povo colonizado em armas. Progressivamente, o essencial do debate aberto no decurso da primeira fase desta luta pelo reconhecimento universal dos valores negros foi considerado como ultrapassado. A independência dos países africanos, fazendo recuar as fronteiras do colonialismo europeu numa área muito importante do continente, veio levantar outras questões aos homens de cultura africanos enquanto senhores dos destinos dos seus países e responsáveis pela vida cultural. É assim que na hora actual, por pouco que se sigam as revistas culturais africanas, o centro do debate se ordena em torno de temas novos: como assegurar o renascimento cultural nos países antigamente colonizados, que lugar reservar à tradição, em suma: como elaborar uma cultura africana original que tenha em conta ao mesmo tempo a tradição e a aquisição da civilização moderna? Não nos aventuremos por estas discussões.
Evoquei estes problemas não para encontrar um esquema mas para tentar situar o tema que me proponho desenvolver num contexto geral bem conhecido. Não me vou demorar a demonstrar o mecanismo que conduziu ao aniquilamento das culturas tradicionais em Angola, mas tentarei antes mostrar como uma política de assimilação afeiçoada à maneira lusitana agravada por um regime fascista suscitou as reacções nacionalistas entre os escritores angolanos». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «A todos quantos entenderam, ou venham a entender, a mensagem de Paz, Tolerância e Humildade que quis passar aos homens e mulheres de Cultura, ‘ele’ que um dia definiu o intelectual como “aquele que mantém com o saber uma constante relação de cumplicidade...”»

jdact

A Voz ainda Presente
No Passatempo da tia Andreza
«Quis o destino que me encontrasse, nesta hora, entre os familiares e os numerosos amigos que vieram render-te uma última homenagem, Tia Andreza. Em tão dolorosa circunstância conforta-nos saber como és recordada aqui e noutras terras do vasto mundo por todos que tiveram a ventura de contigo privar ou de conhecer a espontaneidade da tua ternura e a generosidade do teu coração, irradiadas na rua Actor Vale. Rua que no código de fraternidade dos africanos estanciados em Lisboa ficou designada simplesmente e, por antonomásia, o 37.
Percurso singular o teu que se confundiu com um lar onde, a par da recriação da tradicional família alargada, asseguraste a continuidade do espírito de resistência e combate em que se distinguiram santomenses da estirpe de Ayres de Menezes e de Salustino Graça Espírito Santo. Ali, no 37, acolheste o Centro de Estudos Africanos. E, sob o teu olhar vigilante, ao longo dos anos, particularmente nas décadas de 40 a 60, cruzaram-se as gerações que iriam impulsionar as ideias amadurecidas do nacionalismo.
Cabe-me a responsabilidade e o dever, a que não me furto, de associar neste acto aqueles que te precederam na fatídica viagem: Francisco José Tenreiro, (…) Amílcar Cabral, (…) Agostinho Neto, nossos companheiros do Centro que, de certo, estariam entre nós, para junto chorarmos a tua partida. Mas esta breve evocação do passado só alcança o seu pleno sentido se a projectarmos no futuro. Neste mês de Fevereiro, recheado de trágicos acontecimentos na história do povo de São Tomé, fica também o registo do teu nome, no grande livro das nossas lutas de libertação nacional. Não permitiremos que o exemplo da tua vida se perca na desmemória do tempo. Que o chão húmido e quente da tua ilha te proteja na sua imensa generosidade, Tia Andreza! In Mário Pinto Andrade, Lisboa, Fevereiro de 1989.

Canção para a Julieta
Louvemos, louvemos a nossa filha
a filha do nosso amor
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Já veio, esteve muito longe
veio para nos encontrar
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Está crescida, sabe outras coisas
vinde ouvir essas coisas
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Todos nós, cantamos,
com os rios, com os pássaros
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Entoemos a nossa canção
entoemos a nossa canção
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

In Mário Pinto Andrade, Abril de 1953.

Literatura e Nacionalismo em Angola
Desde o último pós-guerra que o problema das condições para uma expansão da cultura nacional se encontra no centro das preocupações tanto dos intelectuais como dos políticos africanos. Com efeito, no decurso das lutas de libertação travadas nas diversas partes do continente, sempre a questão cultural se articulou com as fases do desenvolvimento do nacionalismo. De resto, não é raro verificar-se o papel de vanguarda desempenhado em África por intelectuais desdobrados em homens políticos». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT