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terça-feira, 12 de março de 2019

A Filha do Sangue. Anne Bishop. « Estaria imaginando coisas ou a voz dela tinha mudado? Continuava parecendo a voz de uma menininha, mas nela havia trovões, cavernas e céus de meia-noite. Estava sofrendo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Terreille
«(…)Olá! Lucivar voltou-se lentamente, desenhando um círculo, os sentidos físicos alertas, a mente investigando a origem daquele pensamento. A comunicação psíquica podia ser difundida a todos numa determinada área, como gritar num quarto cheio de gente, ou restringida a uma única categoria de Jóias, ou, mais ainda, a uma única mente. Aquele pensamento parecia dirigido directamente a ele. Não existia nada ali para além do que seria de esperar. O que quer que fosse, tinha desaparecido. Lucivar balançou a cabeça. Estava ficando tão assustado como os plebeus, aqueles que, qualquer que seja a raça, não fazem parte dos Sangue, com suas superstições sobre o mal que espreita durante a noite. Olá! Lucivar girou sobre si próprio, as asas negras abertas para manter o equilíbrio enquanto colocava os pés em posição de combate. Sentiu-se ridículo ao ver a menina que o fitava, de olhos arregalados. Não passava de uma coisinha magra, com cerca de sete anos. Descrevê-la como comum seria bondade. Contudo, mesmo ao luar, possuía olhos extraordinários, que faziam-no lembrar do céu ao crepúsculo ou um lago profundo da montanha. Suas roupas eram de boa qualidade, certamente melhores do que as que usaria um pedinte. Os cabelos louros tinham cachos que indicavam carinho e cuidado, mesmo que parecessem ridículos no seu rostinho pontiagudo. O que está fazendo aqui?, perguntou abruptamente.
Ela entrelaçou os dedos e encolheu os ombros. Eu..., ouvi. Queria uma amiga. Me ouviu? Lucivar olhou-a fixamente. Mas como diabo o tinha ouvido? De facto, tinha transmitido esse desejo para o exterior, mas por um fio Cinza-Ébano. Era o único Cinza-Ébano no Reino de Terreille. A única Jóia mais escura que a sua era a Negra, e a única pessoa que usava essa Jóia era Daemon Sadi. A não ser... Não. Não podia ser. Nesse preciso momento, os olhos da menina saltaram de Lucivar para o homem morto no barco e de volta para ele. Preciso ir, murmurou, afastando-se. Não, não precisa. Foi até ela sem fazer barulho, como um caçador no encalço da sua presa. A menina esquivou-se. Em segundos, a tinha apanhado, indiferente ao barulho dos grilhões. Enrolando uma corrente em volta dela, envolveu-lhe a cintura com um braço e levantou-a do chão, soltando um gemido quando ela lhe bateu com o calcanhar no joelho. Ignorou as suas tentativas de arranhá-lo, e os pontapés. Embora o machucassem, não tinham o mesmo efeito de um pontapé dado no lugar certo. Quando começou a gritar, tapou-lhe a boca com uma das mãos. Na mesma hora, ela cravou os dentes no seu dedo.
Lucivar engoliu um grito e praguejou baixinho. Caiu de joelhos, levando a menina com ele. Não faça barulho, murmurou, furioso. Quer que os guardas nos apanhem? Provavelmente era o que ela queria, e Lucivar esperava que a menina lutasse com alento ainda maior sabendo que a ajuda estava por perto. Em vez disso, ficou petrificada. Lucivar encostou a sua face à cabeça da menina e inspirou. É uma menina danada, afirmou com serenidade, lutando para manter o riso longe da voz. Porque o matou? Estaria imaginando coisas ou a voz dela tinha mudado? Continuava parecendo a voz de uma menininha, mas nela havia trovões, cavernas e céus de meia-noite. Estava sofrendo. Não podia tê-lo levado a uma curandeira? As curandeiras não se interessam pelos escravos, vociferou. Além do mais, as ratazanas deixaram pouco para curar. Encostou-a com mais força ao seu peito, na esperança de que, ao aquecê-la com o seu corpo, ela parasse de tremer. Parecia pálida demais contra a pele castanho-clara de Lucivar, e ele sabia que não era simplesmente porque tinha a pele clara. Desculpa. Isso foi cruel.
Quando a menina começou a lutar contra o seu abraço, levantou os braços para que pudesse deslizar sob a corrente entre os seus pulsos. Ela correu atabalhoadamente para longe do alcance de Lucivar, girou sobre si mesma e caiu de joelhos. Analisaram-se. Qual é o seu nome?, perguntou finalmente. Me chamo Yasi. Riu ao vê-la torcer o nariz. Não me culpe por isso. Não fui eu que escolhi. É uma palavra ridícula para alguém como você. Qual é o seu nome verdadeiro? Lucivar hesitou. Os eyrienos eram umas das raças de longevidade prolongada. Ao longo de 1.700 anos, ele tinha adquirido a reputação de ser depravado e violento. Se ela tivesse ouvido alguma das histórias sobre ele... Respirou fundo e deixou sair lentamente: Lucivar Yaslana». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

A Filha do Sangue. Anne Bishop. «Ainda que uma única vez, gostaria de servir uma Rainha que respeitasse, alguém em quem realmente pudesse acreditar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Terreille
«(…) No entanto, Askavi já não era tão fértil como antes, pois fora pilhada durante séculos por aqueles que a esgotaram mas nunca retribuíram com o que quer que fosse. Ainda assim, era a sua terra, e os séculos de exílio em escravidão provocavam um desejo ardente pelo cheiro do ar puro da montanha, pelo sabor de um riacho fresco e doce, pelo silêncio dos bosques e, acima de tudo, pelas montanhas sobrevoadas pela raça eyriena. No entanto, encontrava-se em Pruul, aquela terra árida, quente, deserta e estéril, a serviço da devassa Zuultah, por não conseguir ocultar a aversão que sentia por Prythian, a Sacerdotisa Suprema de Askavi, por não conseguir domar o temperamento enquanto servia feiticeiras que desprezava. Entre os Sangue, os machos deveriam servir, não dominar. Lucivar jamais tinha desafiado essa ordem, apesar das várias feiticeiras que matara ao longo dos séculos. Tinha feito isso pois seria um insulto servi-las; ele era um Príncipe Eyrieno dos Senhores da Guerra que usava Jóias Cinza-Ébano e se recusava a acreditar que servir e ser servil eram sinónimos. Sendo um bastardo mestiço, não acalentava qualquer esperança de atingir posições de autoridade numa corte, apesar da categoria das suas Jóias. Sendo um guerreiro eyrieno experiente e dono de um temperamento explosivo mesmo para um Príncipe dos Senhores da Guerra, tinha ainda menos esperanças de que lhe fosse permitido viver fora das correntes sociais de uma corte. E fora capturado da mesma forma que todos os machos dos Sangue são capturados. Havia algo no seu interior que os fazia ansiar ardentemente por servir, que os impelia a se interligar, de alguma forma, a fêmeas ornadas com Jóias dos Sangue.

Lucivar contraiu o ombro e inspirou através dos dentes no preciso momento em que uma ferida infligida pelo chicote voltou a se abrir. Ao tocar com cuidado na ferida, sua mão ficou encharcada em sangue fresco. Sorriu amargamente, revelando os dentes. Como era aquele velho ditado? Um desejo, ofertado com sangue, é uma prece às Trevas. Fechou os olhos, ergueu a mão em direcção ao negro do céu e iniciou a interiorização, descendo ao abismo psíquico na profundidade das suas Jóias Cinza-Ébano para que o desejo se mantivesse secreto, para que ninguém na corte de Zuultah pudesse ouvir a transmissão do seu pensamento. Ainda que uma única vez, gostaria de servir uma Rainha que respeitasse, alguém em quem realmente pudesse acreditar. Uma Rainha poderosa que não temesse a minha força. Uma Rainha a quem pudesse também chamar amiga. Friamente divertido pela própria tolice, Lucivar limpou a mão na calça larga de algodão e suspirou. Era uma pena que a declaração de Tersa, enunciada setecentos anos antes, não tivesse passado de simples e louca ilusão. Por algum tempo, foi a sua fonte de esperança. Demorou muito até que ele percebesse que a esperança é amarga. Olá! Lucivar olhou em direcção aos estábulos onde se alojavam os escravos. Logo os guardas fariam a ronda nocturna. Ainda que pairasse no ar um cheiro quente e poeirento, ele desfrutaria da aragem da noite por mais um minuto, antes de regressar à cela imunda com a cama feita de palha, suja e infestada de bichos, antes de regressar ao fedor do medo, de corpos sujos e dejectos humanos». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2019

A Filha do Sangue. Anne Bishop. «Poderia ter dito a eles. Entretanto, quando se aproximaram dele, tímidos, cautelosos, ansiosos por questionar um homem que ao longo dos séculos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Terreille
«(…) E onde estão os bons entre nós?, perguntou o homem, com sonolência. Lucivar beijou-o na cabeça. — Foram destruídos ou escravizados. Ofereceu a taça. Beba até ao fim, Irmãozinho, e estará tudo terminado. Assim que o homem sorveu o último gole, Lucivar usou a Arte para fazer desaparecer a taça. O homem no barco riu. Me sinto bastante corajoso, Yasi. Você é muito corajoso. As ratazanas... Já não tenho cul… Eu sei. Chorei, Yasi. Perante todos eles, chorei. Não importa. Sou um Senhor da Guerra. Não deveria ter chorado. Não revelou nada a eles. Teve coragem quando foi necessário. De qualquer maneira, Zuultah matou os outros. Irá pagar por isso, Irmãozinho. Um dia, ela e os outros como ela irão pagar por tudo. Lucivar massageou suavemente o pescoço do homem. Yasi. Eu... Foi um movimento repentino, acompanhado de um som agudo. Lucivar recostou com cuidado a cabeça desfalecida e levantou lentamente. Poderia ter dito a eles que o plano não daria certo, que o Anel de Obediência poderia ser ajustado o suficiente para alertar o seu possuidor de um chamado interior de força e resolução. Poderia ter dito a eles que as garras malignas que os mantinham escravizados já se haviam alastrado a territórios demasiado longínquos e que, para libertá-los, seria necessária uma selvageria mais apurada do que aquela de que o homem é capaz. Poderia ter dito a eles que, para manter um homem obediente, existiam armas mais cruéis do que o Anel, que a sua preocupação uns com os outros seria a sua destruição, que a única forma de escapar, mesmo que por pouco tempo, era não se preocupar com ninguém, estar sozinho. Poderia ter dito a eles. Entretanto, quando se aproximaram dele, tímidos, cautelosos, ansiosos por questionar um homem que ao longo dos séculos tinha-se libertado repetidas vezes mas continuava escravizado, tudo o que disse foi: sacrifiquem tudo.
Eles foram embora, desapontados, incapazes de compreender que ele estava falando a sério. Sacrifiquem tudo. Mas havia uma coisa que ele não podia, não queria, sacrificar. Quantas vezes, depois de rendido e novamente aprisionado por aquele implacável anel de ouro em torno do seu órgão, Daemon tinha-o encontrado e encostado na parede, irado, chamando-o de louco e covarde por se ter entregado? Mentiroso. Mentiroso melífluo e experiente nos assuntos da corte. Certa vez, Dorothea SaDiablo procurou Daemon Sadi desesperadamente depois de ele ter desaparecido de uma corte sem deixar rasto. Para encontrá-lo foram necessários cem anos, e dois mil Senhores da Guerra pereceram ao tentar recapturá-lo. Ele poderia ter usado aquele pequeno e selvagem Território sob seu domínio e conquistado metade do Reino de Terreille, poderia ter-se tornado uma ameaça tangível a usurpação e absorção que Hayll provocava em todos que tocava. Em vez disso, leu uma carta enviada por Dorothea, que lhe chegou pelas mãos de um mensageiro. Leu-a e entregou-se. A carta dizia apenas: entregue-se até à lua nova. Cada dia que passar além disso, arrancarei um pedaço do corpo do seu irmão como pagamento pela sua arrogância. Lucivar sacudiu-se, tentando expulsar os pensamentos indesejáveis. De certa forma, as memórias revelavam-se piores do que o chicote, uma vez que o faziam pensar em Askavi, com as suas montanhas altaneiras a cortar o céu e vales repletos de cidades, fazendas e florestas». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A Filha do Sangue. Anne Bishop. «Beba, disse, a sua voz não mais do que um murmúrio, misturando-se na noite. Não, gemeu o homem. Não. Começou a chorar, um som seco e gutural arrancado à sua garganta arruinada»

Cortesia de wikipedia e jdact

Terreille
«(…) Lucivar Yaslana, o mestiço eyrieno, observava os guardas que arrastavam o homem em soluços para o barco. Não sentia qualquer compaixão pelo condenado que comandara a fracassada revolta de escravos. No Território denominado Pruul, a compaixão era um luxo a que nenhum escravo podia aspirar. Tinha-se recusado a participar da revolta. Os líderes eram homens bons, mas não possuíam a força, a determinação ou a coragem para fazer o que era necessário. Não gostavam de ver derramamento de sangue. Ele não tinha participado. Apesar disso, Zuultah, a Rainha de Pruul, o castigara. Os pesados grilhões em volta do pescoço e dos pulsos já tinham deixado a sua pele em carne viva, e as costas latejavam com a dor causada pelo chicote. Ele abriu as asas negras, membranosas, numa tentativa de diminuir a dor que sentia. Na mesma hora, um guarda acertou-lhe com um porrete, recuando logo em seguida, amedrontado pelo débil silvo de raiva emitido por Lucivar. Ao contrário dos outros escravos, incapazes de ocultar a aflição ou o medo, os olhos dourados de Lucivar não demonstravam qualquer expressão, nenhuma pista psíquica de emoções com as quais os guardas poderiam jogar enquanto forçavam o homem em soluços a entrar no velho barco, com espaço somente para um homem. Sem condições de navegar, a embarcação apresentava grandes buracos na madeira apodrecida, o que, dado o seu propósito actual, apenas a valorizava. O condenado era pequeno e subnutrido. Contudo, foram necessários seis guardas para metê-lo no barco. Cinco deles agarraram-lhe a cabeça, os braços e as pernas. O sexto untou os órgãos genitais do homem com gordura de bacon antes de pôr sobre o barco uma tampa de madeira, que se encaixou perfeitamente. Tinha orifícios talhados para a cabeça e as mãos. Assim que as mãos do homem foram agrilhoadas a argolas de ferro na parte exterior do barco, a tampa foi fechada de modo que ninguém, a não ser os guardas, a pudesse remover. Um dos guardas escrutinou o homem aprisionado e balançou a cabeça, com uma falsa consternação. Dirigiu-se aos outros: deveríamos lhe dar uma última refeição antes de jogá-lo ao mar.
Os guardas riram. O homem gritou, suplicando por ajuda. Um a um, os guardas foram enfiando comida, zelosamente, na boca do homem, encaminhando depois os outros escravos, como um rebanho, para os estábulos onde estavam instalados. Hoje à noite terão diversão, rapazes, gritou um guarda, às gargalhadas. Lembrem-se disso da próxima vez que decidirem deixar de servir a Senhora Zuultah. Lucivar olhou por cima do ombro para, logo em seguida, desviar o olhar. Atraídas pelo cheiro da comida, as ratazanas enfiaram-se pelos buracos abertos na embarcação. O homem no barco gritou. As nuvens deslocavam-se rapidamente sobre a lua, mantos cinzentos que ocultavam o luar. O homem no barco não se moveu. Os seus joelhos eram feridas abertas, e sangravam devido aos chutos que dava sem parar na cobertura do barco, num esforço para manter as ratazanas à distância. As suas cordas vocais ficaram destruídas de tanto gritar. Lucivar ajoelhou-se atrás do barco, com movimentos cuidadosos para abafar o som das correntes. Não revelei nada a eles, Yasi, disse o homem, com a voz rouca. Tentaram obrigar-me a falar, mas não falei. Restava-me um pouco de honra. Lucivar levou uma taça aos lábios do homem.
Beba, disse, a sua voz não mais do que um murmúrio, misturando-se na noite. Não, gemeu o homem. Não. Começou a chorar, um som seco e gutural arrancado à sua garganta arruinada. Vamos, depressa. Depressa. Vai ajudar. Apoiando a cabeça do homem, Lucivar levou a taça aos lábios inchados. Depois de dois goles, Lucivar pousou a taça e afagou a cabeça do homem suavemente com as pontas dos dedos. Vai ajudar, sussurrou. Sou um Senhor da Guerra dos Sangue. Lucivar ofereceu-lhe novamente a taça e o homem bebeu mais um gole. À medida que sua voz se tornava mais forte, as palavras começaram a perder clareza. Você é um Príncipe dos Senhores da Guerra. Por que fazem isso com a gente, Yasi? Porque neles não existe qualquer honra. Porque neles não existe qualquer lembrança do que é ser Sangue. A influência da Sacerdotisa Suprema de Hayll é uma praga que se vem espalhando pelo Reino durante séculos, consumindo lentamente todos os Territórios que toca. Então, talvez os plebeus tenham razão. Talvez os Sangue sejam o mal. Lucivar continuou a afagar a testa e as têmporas do homem. Não. Somos o que somos. Nem mais, nem menos. O bem e o mal existem em todos os povos. Actualmente, quem domina é o mal que existe entre nós». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

domingo, 6 de janeiro de 2019

A Filha do Sangue. Anne Bishop. «O mundo rodopia e se desfaz em estilhaços. Nos seus fragmentos, vislumbro aquelas que foram minhas Irmãs precipitando-se das mesas, aterrorizadas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Terreille
«(…) Já faz alguns dias que venho ouvindo um tipo estranho de trovão, um chamado distante. Ontem à noite, rendi-me à loucura para poder recuperar a minha Arte de Viúva Negra, uma feiticeira das assembleias da Ampulheta. Ontem à noite, teci uma teia emaranhada para ver os sonhos e visões. Hoje, os destinos não serão revelados. Só tenho forças para dizer isto uma única vez. Mas, antes de falar, preciso ter a certeza de que aqueles que precisam ouvir estão na sala. Aguardo. Não reparam. Os copos se enchem e voltam a se encher enquanto luto para me manter nos limites do Reino Distorcido. Ah, ali está ele. Daemon Sadi, do Território denominado Hayll. É lindo, frio, cruel. Tem um sorriso sedutor e um corpo que as mulheres desejam tocar e pelo qual desejam ser acariciadas, mas é dominado por uma raiva fria e insaciável. Quando falam sobre o seu desempenho no quarto, as palavras que as Senhoras murmuram são prazer excruciante. Não duvido que seja sádico o suficiente para misturar dor e prazer em partes iguais, mas foi sempre gentil comigo, e esta noite envio-lhe um pequeno raio de esperança. Mais do que qualquer um jamais ofereceu a ele.
Os Senhores e Senhoras estão inquietos. Não costumo demorar tanto para começar a falar. A agitação e o aborrecimento estão instalados, mas eu aguardo. Depois desta noite, não fará qualquer diferença. Ali está o outro, no canto oposto da sala. Lucivar Yaslana, o mestiço eyrieno do Território denominado Askavi. Hayll não tem qualquer afecto por Askavi, nem Askavi por Hayll, mas Daemon e Lucivar são atraídos um pelo outro sem compreenderem o motivo, tão enredadas estão as suas vidas que não se podem separar. Amigos inquietos, combateram batalhas lendárias e destruíram tantas cortes que os Sangue ficam receosos quando estão juntos, não importa por quanto tempo.
Levanto as mãos e deixo-as cair no colo. Daemon observa-me. Não mudou nada, mas sei que aguarda e ouve. E, uma vez que ele ouve, Lucivar também ouve. Ela está chegando. A princípio, não percebem que falei. Quando entendem as palavras, começam os sussurros irritados. Vagabunda estúpida, grita alguém. Diga-me quem irei amar esta noite. O que importa?, respondo. Ela está chegando. O Reino de Terreille será dilacerado pela sua própria e estúpida ganância. Os que sobreviverem irão tornar-se servos, mas serão poucos. Estou afastando-me dos limites. Pelo meu rosto escorrem lágrimas de frustração. Ainda não, doces Trevas, ainda não. Tenho que dizer isso.
Daemon ajoelha-se a meu lado, as suas mãos sobre as minhas. Dirijo-me a ele, somente a ele, e, através dele, a Lucivar. Os Sangue de Terreille corrompem as antigas tradições, zombam de tudo o que somos. Com um gesto, indico aqueles actualmente no poder. Distorcem os factos como lhes convém. Vestem-se de maneira elegante e fingem. Enfeitam-se com Jóias dos Sangue, mas não compreendem o que significa ser Sangue. Dizem que honram as Trevas, mas não é verdade. Não honram nada, a não ser as próprias ambições. Os Sangue foram criados para servir como protectores dos Reinos. Por isso recebemos o nosso poder. Por isso descendemos dos povos de todos os Territórios, ainda que deles estejamos separados. A corrupção da nossa essência não pode continuar. Chegará o dia em que a dívida será cobrada e os Sangue terão de responder por aquilo que se tornaram.
São estes Sangue que reinam, Tersa, diz Daemon com tristeza. Quem resta para cobrar a dívida? Escravos bastardos como eu? Estou-me afastando rapidamente. As minhas unhas cravam-se nas mãos de Daemon até tirar sangue, mas ele não me repele. Baixo a voz. Ele se esforça para me ouvir. Há muito, muito tempo as Trevas têm um Príncipe. Agora, a Rainha está a caminho. Pode levar décadas, até séculos, mas está a caminho. Com o queixo, aponto os Senhores e Senhoras sentados às mesas. Quando isso acontecer, eles já serão pó, mas você e o eyrieno estarão aqui para servir. Seus olhos dourados enchem-se de frustração. Que Rainha? Quem está a caminho? O mito vivo, murmuro. Os sonhos tornados realidade. O choque é substituído por um desejo intenso. Tem certeza? A sala é um turbilhão de névoa. Só Daemon continua nítido a meus olhos. Mas ele é a única coisa de que preciso. Eu a vi na teia emaranhada, Daemon. Eu a vi.
Estou cansada demais para me manter no mundo real, mas, obstinadamente, continuo agarrando as suas mãos para uma última revelação: o eyrieno, Daemon. Ele olha de relance para Lucivar. O que é que tem? É seu irmão. Vocês são filhos do mesmo pai. Não conseguindo mais aguentar, mergulho na loucura apelidada de Reino Distorcido. Vou caindo por entre os fragmentos de mim mesma. O mundo rodopia e se desfaz em estilhaços. Nos seus fragmentos, vislumbro aquelas que foram minhas Irmãs precipitando-se das mesas, aterrorizadas e decididas, e a mão de Daemon estendida, casualmente, destruindo o frágil fio de seda de aranha de minha teia emaranhada.
Não é possível reconstruir uma teia emaranhada. As Viúvas Negras de Terreille podem passar anos assustadores tentando, mas será em vão. A teia não será a mesma e não conseguirão ver o que vi. No mundo cinza, lá em cima, posso ouvir-me uivando, numa gargalhada. Muito abaixo de mim, no abismo psíquico que faz parte das Trevas, ouço um outro uivo, repleto de alegria e de dor, de raiva e de celebração. Não é mais uma feiticeira que está a caminho, minhas tolas Irmãs, é a Feiticeira». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT

A Filha do Sangue. Anne Bishop. «Cabe a três homens, três príncipes do Sangue que carregam o sobrenome SaDiablo, protegê-la: são eles Saetan, Senhor Supremo do Inferno, e seus filhos, Daemon e Lucivar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A Filha do Sangue é uma viagem inesquecível num mundo estranho e assombroso dominado pela magia. Essa magia é proveniente de jóias que são atribuídas a cada indivíduo em complexas cerimónias, e é em torno delas que existem os Sangue. Eles vivem para honrar as Trevas. São o produto de uma sociedade dividida por castas que se tornou cruel. No início, eles eram os protectores do Reino, mas com o tempo a essência dos Sangue foi corrompida. Agora os machos são brutalizados desde a infância e se tornam escravos dos caprichos de rainhas maquiavélicas. Durante muito tempo as Trevas tiveram um Príncipe, mas a chegada de uma Feiticeira com um poder inimaginável foi profetizada. É então que nos é apresentada Jaenelle, o centro do universo negro e sensual. Ela ainda é jovem, vulnerável, inocente, sujeita a influências corruptas. Quem a controlar terá domínio sobre as Trevas. Cabe a três homens, três príncipes do Sangue que carregam o sobrenome SaDiablo, protegê-la: são eles Saetan, Senhor Supremo do Inferno, e seus filhos, Daemon e Lucivar.
Esses três homens são muito diferentes entre si, mas partilham algumas características: muito poderosos, são profundamente atormentados, e as suas vidas serão alteradas para sempre por Jaenelle. O mais velho, Saetan, sabe que ela é a filha que lhe foi prometida em visões e terá que protegê-la contra a violência das castas. Daemon tem grande fama pela sua beleza, mas a sua elegância e sensualidade são manchadas pelo seu enorme cinismo e frieza. Trata-se de um príncipe de imenso poder, mas ele é usado como mero escravo de prazer. Incapaz de se subjugar à tirania das rainhas, Lucivar não consegue controlar a sua raiva e é condenado a um encarceramento cruel.
Apesar do enredo arrebatador e complexo do universo das Jóias Negras, A Filha do Sangue é, no fundo, uma bela história de amor em que uma mulher é quase destruída por um mundo cruel, até ao momento em que é salva (será mesmo?) por homens com almas desfiguradas pelo passado. Em Jaenelle está concentrada a força que permite aos três SaDiablo combater os seus demónios interiores. Mas que preço cada um deles está disposto a pagar para realizar o seu desejo mais profundo?

Terreille
Sou Tersa, a Tecelã, Tersa, a Mentirosa, Tersa, a Louca.
Sempre que os Senhores e Senhoras dos Sangue com Jóias dão um banquete, sou a diversão que vem depois que os músicos tocaram, os rapazes e moças dançaram e os Senhores já beberam vinho demais e exigem que a sorte lhes seja lida. Conte-nos uma história, Tecelã, gritam, enquanto tocam as coxas das moças que os servem e as Senhoras observam os jovens, a decidir quais deles terão o doloroso prazer de servi-las à noite, na cama. Houve um tempo em que fui parte deles, tão Sangue quanto eles. Não, não é verdade. Eu não era Sangue como eles. Por isso fui quebrada pela lança de um Senhor da Guerra, tornando-me vidro estilhaçado que reflecte apenas o que poderia ter sido. É difícil quebrar um macho com Jóias dos Sangue, mas a vida de uma Feiticeira está suspensa pelo fio himenal, e o que acontece na sua Noite da Virgem determina se ela permanecerá intacta para exercer a Arte ou se irá tornar-se um receptáculo partido, restando-lhe o sofrimento eterno pela parte de si mesma que se esvaeceu. Ah, alguma magia permanece, o suficiente para a vida do dia-a-dia e truques de salão, mas não a Arte, o sangue da vida para a nossa espécie. A Arte, porém, pode ser recuperada, caso se esteja disposto a pagar o preço. Na minha juventude, lutei contra esse último declive que leva ao Reino Distorcido. É melhor ser quebrada e continuar sã do que ser quebrada e enlouquecer. É melhor olhar para o mundo e reconhecer uma árvore como uma árvore, uma flor como uma flor, do que olhar através de uma névoa para formas cinzentas e fantasmagóricas, vislumbrando claramente apenas os fragmentos de si mesmo. Pelo menos era o que eu pensava na época.
Enquanto me arrasto para o pequeno banco, luto para me manter nos limites do Reino Distorcido e para ver, uma última vez, o mundo físico. Com cuidado, coloco na pequena mesa junto ao banquinho a estrutura de madeira que segura a minha teia emaranhada, a teia de sonhos e visões. Os Senhores e Senhoras esperam que eu lhes leia a sorte, e isso eu sempre fiz, não através de mágica, mas mantendo os olhos e ouvidos atentos, e então lhes dizendo o que querem ouvir. Simples. Sem mágica. Mas hoje é diferente». In Anne Bishop, A Filha do Sangue, Jóias Negras, 1998, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-972-883-977-2.

Cortesia de SaídadeEmergência/JDACT