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sábado, 22 de dezembro de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Mas as duas continuavam vivas. Haviam sobrevivido à pestilência e agora também ao deserto. Dali em diante, as coisas só poderiam melhorar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…) Sem dizer nada, Mirina a puxou mais para perto. Ela parecia feliz, continuou Lilli. Quis me abraçar, mas aí viu você e acho que teve medo de você ficar chateada com ela por me levar embora... então não levou. As duas passaram um tempo deitadas em silêncio. Sua antiga vida agora parecia muito distante. No entanto, a lembrança dos amigos e pessoas queridas que tinham perdido ainda era forte o suficiente para fazer ambas engasgarem e se calarem, assim como Mirina sabia que continuaria a sentir aquele fedor horrível da doença e da morte para sempre. Depois de sair do povoado, as duas haviam passado muito mal, com tremores e convulsões. Mirina tivera certeza de que iriam morrer; na verdade, quase se alegrara com isso. No entanto, aos poucos havia começado a melhorar, e Lilli também, embora a febre da irmã tivesse durado o suficiente para prejudicar os seus olhos. Durante várias terríveis manhãs, a menina havia acordado do seu sono agitado vendo cada vez menos, até por fim perder completamente a visão. O dia já vai raiar?, perguntara Lilli no último dia, olhando para o sol sem nada ver. Não falta muito, não, respondera Mirina com um sussurro, abraçando a irmã e soluçando enquanto a beijava repetidamente e a verdade dolorosa dava um nó na sua garganta.
Mas as duas continuavam vivas. Haviam sobrevivido à pestilência e agora também ao deserto. Dali em diante, as coisas só poderiam melhorar. Mirina recusava-se a pensar de outra forma. Tem certeza de que..., começou a perguntar Lilli, como fazia todas as noites. Só que dessa vez não terminou a frase, apenas mordeu o lábio e virou o rosto. Ambas sabiam que só haveria resposta para a grande questão de Lilli quando chegassem à cidade. Será que a Deusa da Lua conseguiria reverter os danos da febre e fazê-la recuperar a visão? Só a Deusa sabia. De uma coisa eu tenho certeza, falou Mirina, polindo a pulseira da mãe na túnica. Por baixo do insistente resíduo de fuligem, a serpente com cabeça de chacal de que ela tão bem se lembrava a encarava com os olhos enegrecidos. Mãe sentiria orgulho se visse agora. Lilli ergueu o rosto com uma expressão intrigada na direcção da irmã. Não acha que ela ficaria zangada comigo por estar inútil? Mirina a puxou mais para junto de si.
Inúteis são agricultores que não plantam e pastores que não pastoreiam. Lembre-se que é uma irmã. Uma irmã não precisa de olhos para ser útil, só de um sorriso e de um coração valoroso. Lilli deu um suspiro pesado e os seus ombros afundaram quando ela se recostou na bolsa das duas. Eu sou só sua meia-irmã. Talvez por isso não tenha a mesma coragem. Se o meu pai fosse o mesmo que o seu, talvez eu também tivesse um coração de caçadora. Shh! Os pais vêm e vão, mas a Terra permanece a mesma. Assim como não existe meio coração, não existe meia-irmã. É, pode ser, murmurou Lilli. Mas eu ainda não tenho certeza se um dia vou conseguir voltar a sorrir. Bom, pois eu tenho, retrucou Mirina, pousando o queixo sobre a cabeça da irmã. Lembre-se: quem enfrenta o leão se torna o leão. Nós vamos enfrentá-lo e vamos voltar a sorrir. Mas leões não sabem sorrir, balbuciou Lilli, abraçando a bolsa. Mirina deu um rugido e começou a mordiscar o pescoço da menina até as duas rirem. Então nós vamos ensinar». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Era um pássaro!, gritou Lilli, esfregando a perna com fúria. Ele me bicou! Onde está? Não deixe ele me morder de novo. Mirina ergueu uma das mãos para proteger os olhos do sol…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África
«(…)Conseguimos, Lilli! Mirina cambaleou nas pedras instáveis do leito do rio. Não havia muita água; o que outrora devia ter sido um curso d’água caudaloso não passava agora de uma fenda comprida e estreita na paisagem desértica. Mas ela estava animada demais para se decepcionar e exausta demais para sentir algo além de um débil latejar quando as pedras irregulares esfolaram os últimos pedaços de pele intacta dos seus pés cansados. O rio! Finalmente caindo de joelhos à beira d’água, soltou de seu pescoço os braços finos de Lilli, que o enlaçavam desde o raiar do dia. Está ouvindo? É o rio! Ela desceu a irmã inerte até ao chão e começou a despejar água nos lábios que tinham passado o dia inteiro calados. Vamos, beba. O deserto fora maior do que ela imaginava. Os seus cantis de bexiga de cabra haviam secado antes mesmo de elas chegarem à metade da travessia. Ela tranquilizava Lilli dizendo ver árvores no horizonte, além da planície escaldante. Torcia para as próprias palavras virarem realidade. No entanto, à medida que as horas passavam sem nenhuma sombra ou água, as conversas entre as irmãs foram se tornando mais e mais breves, até não restar mais palavras a serem ditas.
Nos últimos dias de viagem, Mirina não havia parado de escutar a voz paciente e firme da mãe instando-a a prosseguir, prosseguir. Precisa chegar ao rio, dizia a voz, num sussurro urgente. Não pode parar. Precisa seguir em frente. As palavras nunca falhavam nem enfraqueciam. Da mesma forma que a mãe jamais havia deixado a sua cabeceira durante todas as noites de doença e medo na infância, também permaneceu fiel ao seu lado naquelas últimas horas cambaleantes, quando não havia mais nada a que se agarrar excepto algumas palavras insistentes na sua cabeça. Preciso chegar ao rio. No final do rio fica o mar. Junto ao mar, a cidade. Na cidade vive a Deusa da Lua. Só ela tem o poder de curar a minha irmã.
Quando Lilli finalmente recobrou os sentidos, virou o rosto em todas as direcções, com os olhos frágeis quase fechados e sem nada ver. Então começou a chorar, os ombros estreitos tremendo de tanto desespero. Aqui não é o rio, soluçou ela. Você só está dizendo isso para me reconfortar. Mas é, sim! Sinta só. Mirina guiou as mãos da irmã até à água rasa. Eu juro que é. Ela correu os olhos pela paisagem desolada e poeirenta. Antigamente, muitas árvores deviam margear aquele curso d’água, mas agora eram apenas esqueletos tombando em busca de apoio, tristes resquícios de um mundo de viço havia muito desaparecido. Tem que ser aqui. Mas eu não estou ouvindo nenhum barulho de água, falou Lilli, enxugando corajosamente as lágrimas e inclinando a cabeça na tentativa de escutar. Deve ser um rio bem silencioso.
É, sim, reconheceu Mirina. Um rio velho e cansado. Mas ele ainda está vivo e vai nos levar até ao mar. Vamos, agora beba. As duas passaram algum tempo em silêncio, saciando a sede. No início, foi como se a garganta de Mirina tivesse esquecido o que fazer para engolir, mas depois de conseguir forçar os primeiros goles ela pôde sentir o líquido fresco descer pelo corpo e restaurar a vida por onde passava. Depois de matar a sede, recostou-se nas pedras e fechou os olhos. Tantos dias sem descanso e aquele último trecho sem água... Por quanto tempo havia carregado Lilli no colo? Dois dias inteiros? Não, não era possível. Um grito assustado e um súbito bater de asas a fizeram levantar-se. Ao ver a irmã aterrorizada sacudindo os braços para afugentar o inimigo que não via, ela sacou na mesma hora a faca do cinto.
Era um pássaro!, gritou Lilli, esfregando a perna com fúria. Ele me bicou! Onde está? Não deixe ele me morder de novo. Mirina ergueu uma das mãos para proteger os olhos do sol e viu dois abutres magros voando em círculos no céu. Praga maldita!, balbuciou, guardando a faca e pegando o arco. Estavam querendo banquetear-se com osco hoje... Porque os deuses nos desprezam tanto?, questionou a mais nova, segurando os próprios joelhos e começando a balançar-se para a frente e para trás. Por que eles querem a nossa morte? Eu não perderia o meu tempo pensando no que os deuses querem ou não. Mirina tirou da aljava a sua melhor seta para aves. Se eles quisessem, mesmo, nos matar, poderiam ter feito isso quarenta vezes. Apoiou a seta na corda, pôs-se de pé devagar e a puxou para trás. Está claro, que algum poder nos quer manter vivas. Mais tarde, quando estavam deitadas junto à pequena fogueira de gravetos sob um céu estrelado, digerindo a refeição sem gosto, Lilli se aconchegou junto à irmã e disse: a mãe veio falar comigo, sabia? Eu a vi muito bem...» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Diana!, exclamara a mãe, acenando impaciente para mim. Venha cumprimentar a avó. Olá, balbuciara, embora na mesma hora sentisse que o cumprimento era inadequado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Assim, da mesma forma que as crianças aprendem a agradar aos pais andando de bicicleta e indo para a cama quando eles mandam, elas desenvolvem furtivamente habilidades mais sombrias, em geral relacionadas a latas de biscoito guardadas em lugares arriscados; no meu caso, foi a capacidade de abrir e fechar a velha porta do sótão sem fazer barulho. Embora eu não precisasse daquele truque havia muitos anos, fiquei satisfeita ao constatar que ainda o dominava. Parei um instante na soleira e fiquei escutando por alguns instantes os ruídos lá de baixo, mas tudo o que captei foi o tilintar ocasional de xícaras. No dia inteiro, os meus pais na verdade só tinham um hábito previsível, que era ler juntos o jornal depois do almoço. Era inútil tentar envolvê-los numa conversa a três nessa hora; uma vez guardada a louça e feito o café, eles perdiam-se felizes num mundo feito de críquete e políticos corruptos.
Mesmo assim, não consegui parar de pensar que os dois estavam lá em baixo quando acendi a única lâmpada do sótão, que parecia pendurada no tecto por grossas teias de aranha. Ao avançar pelo piso, tentei lembrar-me de qual das tábuas rangiam e quais eram seguras..., mas logo percebi que muitos anos se haviam intrometido entre mim e o caminho que eu conhecia tão bem. Imprensado debaixo de nosso íngreme telhado, o sótão era basicamente um vão triangular sem luz natural, excepto a que entrava pela janela em formato de meia-lua junto à cumeeira norte. Apesar de empoeirado e deserto, aquele cómodo sempre exercera um estranho fascínio sobre mim. Quando criança, sempre que espiava dentro de uma velha mala de couro ou baú de madeira ali, eu esperava encontrar algo mágico. Talvez fosse uma caixa de jóias esquecida, ou então uma bandeira pirata esfarrapada, ou ainda um maço de cartas de amor ressecadas..., aquele recinto e seu cheiro esquisito de cedro e naftalina continham sempre a promessa de segredos de família e portais para outros mundos. Então, um belo dia, quando eu tinha 9 anos, a porta mágica finalmente se abriu.
Avó. Eu ainda podia vê-la ali em pé, de costas, olhando por horas a fio pela janela em formato de meia-lua..., não com a resignação saudosa que se poderia esperar de alguém trancado a sete chaves, mas com determinação, como se estivesse à espreita de um ataque inevitável. Até então, tudo o que eu sabia sobre a mãe do meu pai era que ela estava doente num hospital de um país distante. A parte do país distante era invenção minha, decerto para explicar o facto de nunca a visitarmos como íamos visitar a avó durante a sua doença longa e inexplicada. Sem pensar muito no assunto, imaginava-a acamada como ele, com tubos de plástico a entrar e sair pelas roupas, mas em algum lugar no estrangeiro, com paredes caiadas e um crucifixo pendurado acima da cabeceira.
Mas do nada, numa tarde de chuvinha fina, eu tinha chegado do colégio e encontrado uma mulher alta em pé no meio da nossa sala, com uma pequena mala no chão ao seu lado e uma expressão de rara serenidade no rosto. Diana!, exclamara a mãe, acenando impaciente para mim. Venha cumprimentar a avó. Olá, balbuciara, embora na mesma hora sentisse que o cumprimento era inadequado. Mesmo então dava para sentir que algo não se encaixava a respeito daquela desconhecida de braços e pernas compridos, mas me lembro de ser incapaz de identificar o quê.
Talvez fosse o facto de ela ainda estar vestida com a capa para chuva, o que lhe dava o aspecto de uma simples transeunte à espera de um autocarro ou alguém que sairia a qualquer instante. Ou talvez eu estivesse confusa, pois, na minha experiência obviamente um tanto limitada, aquela mulher não se parecia em nada com uma avó. Em vez do cabelo enroladinho com permanente das senhoras da cidade, usava uma trança grisalha que descia pelas costas e o seu rosto quase não exibia rugas. Na verdade, o seu rosto quase não tinha expressão». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Quando éramos pequenas, Rebecca e eu tínhamos uma pequena caixa de recordações num dos cantos do sótão escuro, escondida debaixo da janela, e entrávamos ali de fininho para examinar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi só depois de se aposentar que meu pai passou a dedicar-se ao jardim. Ele, que nunca fora muito afeito a mudanças, ainda contava histórias nostálgicas sobre aquele pequeno pedaço de terra que estivera por tantos anos na família. As maçãs nunca tinham o sabor tão autêntico quanto as que ele recordava da infância, tampouco as framboesas eram tão abundantes quanto no tempo em que ele era pequeno, quando colhia cestos e mais cestos, que levava para a sra. Winterbottom na cozinha. Essas imagens românticas eram sempre editadas com cuidado de modo a excluir os detalhes inoportunos. O pai que vivia para o trabalho e a mãe hospitalizada não eram citados. Desaparecia também o facto de que a sra. Winterbottom, a governanta, era uma mulher sisuda e sempre paramentada com luvas de plástico, muito eficiente no quesito higiene, porém incapaz no que fosse relacionado a ternura. Sobravam apenas um menininho e o seu jardim, emoldurados pela folhagem da época e salpicados por uma levíssima camada de purpurina.
Enfiei a cabeça para dentro do porão e vi, conforme esperado, um punhado de mulheres sentadas em bicicletas ergométricas posicionadas de frente para um vídeo de exercícios. Olá, mãe! E olá, senhoras! Olá, meu bem! A minha mãe estava usando a camiseta de manga comprida amarela que eu lhe havia dado de Natal e uma bandolete segurava os seus cabelos curtos e grisalhos. Ela era uma das únicas mulheres que eu conhecia que não temia ficar suada e, por esse facto ser fonte de imenso constrangimento, ao longo dos anos havia-se transformado numa das coisas que eu mais admirava nela. Faltam dez minutos!
Enquanto eu tornava a subir a escada, vi o meu pai ainda mexendo no comedouro de pássaros e senti um súbito calor de nervosismo brotar no estômago. Dez minutos. Justo o que eu precisava. O escritório do meu pai era um cubículo empoeirado provido de todo o aparato de um cavalheiro vitoriano. As paredes eram cobertas de alto-a-baixo por estantes arqueadas pelo peso e, espalhados entre os livros, havia tesouros especiais: insectos dentro de caixas de madeira, vermes e cobras preservados em vidros, pássaros extintos com olhos de vidro brilhantes a observar do alto das prateleiras, feito predadores, em uma saliência rochosa. Até onde a minha memória alcançava, o cheiro daquele espaço tinha um perigoso poder de atracção, um aroma de história, conhecimento e transgressão infantil.
Eu estava mais velha, porém não menos nervosa, então esbarrei por acidente numa caneca mal posicionada sobre a mesa. Por alguns segundos de aflição, canetas, réguas e clipes espalharam-se por todo o lado. Atabalhoada e nervosa de culpa, recoloquei tudo de volta na caneca e tornei a posicioná-la sobre as contas do mês, onde era o seu lugar. Meu pai apareceu na porta. Olá!, exclamou ele, unindo as duas sobrancelhas peludas. Será que eu deveria ficar lisonjeado por achar a minha correspondência tão interessante? Mil desculpas, balbuciei. Estava procurando a minha certidão de nascimento. Ele desfez o cenho franzido. Ah! Deixe-me ver... Sentando-se pesadamente na cadeira de escritório, ele abriu e fechou algumas gavetas antes de encontrar o que procurava. Voilà! Pegou uma pasta novinha com o meu nome escrito. Os seus documentos estão aqui. Andei fazendo uma arrumação. Por fim, o meu pai sorriu. Pensei que seria bom poupá-la da bagunça. Encarei-o, tentando decifrar o que havia por trás do sorriso. O senhor não andou...,jogando coisas fora, andou? Ele piscou algumas vezes, sem entender o meu súbito interesse pelos seus projectos. Nada importante, eu acho. Pus quase tudo dentro de uma caixa. Os documentos de família, essas coisas. Talvez queira queimar, mas..., vou deixar a decisão por sua conta. A porta do sótão rangia. Sempre fora quase impossível visitar aquele espaço em segredo.
Quando éramos pequenas, Rebecca e eu tínhamos uma pequena caixa de recordações num dos cantos do sótão escuro, escondida debaixo da janela, e entrávamos ali de fininho para examinar o seu conteúdo sempre que nos atrevíamos. Havia um sabonetinho de um hotel em Paris, uma rosa seca de um buquê de noiva, uma bola de golfe da propriedade dos Moselanes, além de alguns outros tesouros que não podiam cair em mãos erradas. O que as duas andam a fazer no sótão?, perguntara a minha mãe certo dia durante o almoço, fazendo Rebecca derramar limonada na mesa da cozinha. Nada, respondera eu, com uma inocência forçada. Então brinquem lá fora. A minha mãe precisara de quase um rolo de toalha de papel para limpar a bagunça de Rebecca, mas não fizera nenhum comentário. Afinal de contas, minha amiga era filha do pároco. Não gosto que fiquem naquele lugar empoeirado». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «… que sempre fui alta para a minha idade, sempre parecera apertada e, quando era criança, muitas vezes fantasiei ser uma gigante aprisionada por dois “trolls” numa colina na floresta»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mirina seguiu adiante e, para onde quer que olhasse, tudo o que via era doença e tristeza. Homens, mulheres e crianças amontoados na sombra tremiam de medo e de febre; outros, ajoelhados junto a fogueiras já apagadas, esfregavam cinzas no corpo em silêncio. E o local onde antes ficava o casebre da sua mãe não passava agora de um leito de carvões negros com objectos conhecidos espalhados por cima sem o menor cuidado. Sem conseguir entender direito o que via, a moça ajoelhou-se e viu um pequeno círculo enegrecido que despontava das cinzas: era a pulseira de bronze que a sua mãe usava, e que havia jurado jamais tirar até ao dia da sua morte. Eu sinto muito, querida, disse uma voz débil. Ao virar-se, Mirina viu que era o senhor vizinho da mãe ali de pé, apoiado numa bengala, com feridas abertas em volta da boca. É melhor ir embora, falou ele. Estão procurando alguém para culpar. Tentei fazê-los ouvir a voz da razão, mas ninguém deu ouvidos. Com uma das mãos cobrindo a boca, Mirina começou a se afastar, ignorando os comentários que a seguiam pelo povoado conforme avançava. Pu…!, gritavam os homens, não porque houvesse dormido com eles, mas porque jamais o fizera. Bruxa!, gritavam as mulheres, esquecendo que fora a mãe de Mirina quem as amparara à noite durante o parto de cada um dos seus filhos..., e esquecendo que fora Mirina quem fabricara com ossos de animais os brinquedos desses mesmos bebés.
Quando finalmente voltou para junto da irmã, encontrou-a sentada numa pedra na beira da estrada, rígida de medo e de raiva. Porque não me deixou ir?, perguntou, balançando-se para a frente e para trás com os braços cruzados. Demorou muito. Mirina cravou a lança no chão e sentou-se ao lado dela. Lembra o que a mãe nos disse quando fomos embora? Que, acontecesse o que acontecesse, precisava sempre confiar em mim? Lilli ergueu o rosto retorcido por um mau pressentimento. Estão todos mortos, não é?, sussurrou. Igual às pessoas do meu sonho. Mirina não respondeu. A garotinha começou a soluçar. Eu quero ver a mãe. Por favor! Mirina envolveu a irmã num abraço apertado. Não há mais nada para ver.

Região de Cotswolds, Inglaterra
Meu pai foi-me buscar na estação de comboio de Moreton-in-Marsh vestido com uma elegância surpreendente, apesar da hora. Eu esperava encontrar um homem ranzinza e mal barbeado. Fiquei comovida ao vê-lo com uma calça de veludo bastante decente em vez do pijama que costumava usar em casa nos fins-de-semana. Eu começara a temer que fosse apenas questão de tempo para aquela roupa de dormir se aventurar sozinha até ao quintal para buscar o jornal e muito possivelmente acabar dando umas voltinhas de carro. Não quero ser enxerido, mas... Meu pai não achou necessário completar a frase. Era o seu modo de dizer: por que cargas-d’água quis sair de Oxford às sete da manhã? Ah... Olhei pela janela para nada em especial, lutando contra uma ânsia infantil de contar o verdadeiro motivo da minha visita. Achei que já estava na hora de ser um pouquinho inconveniente. Privilégios de filha única. Meus pais moravam num antigo chalé construído com pedras douradas por algum antepassado distante que, a julgar pelas maçanetas na altura dos joelhos, não devia ter muito mais de 1,5 metro. Para ele, a casa devia ser uma mansão espaçosa; para mim, que sempre fui alta para a minha idade, sempre parecera apertada e, quando era criança, muitas vezes fantasiei ser uma gigante aprisionada por dois trolls numa colina na floresta.
Depois que fui morar sozinha, é claro que até mesmo as frustrações da infância tinham ganhado brilho e encantamento, pois sempre que eu voltava descobria ter ficado um pouco mais cega para as limitações da casa..., a ponto de até me deliciar com a sua exiguidade reconfortante. Entramos na casa pela garagem, como sempre, e paramos num quartinho para tirar os sapatos. O recinto transbordava casacos, flores já ressequidas e um estoque de castanhas pendurado no tecto; sem dúvida era o mais bagunçado da casa. No entanto, eu gostava de me demorar ali, pois o cheiro era familiar e relaxante: de capas de chuva e camomila e, mesmo anos depois, do cesto de maçãs que certa vez esqueceramos em cima do braseiro. Assim que calçou os chinelos, o meu pai prosseguiu em direcção à cozinha e, de lá, para a sala de jantar. Um pouco intrigada com esse trajecto, fui atrás e o vi aproximar-se da janela de forma um tanto furtiva.
No jardim havia um novo comedouro para aves, posto ali para os passarinhos de que o meu pai tanto gostava. Sobre a sua plataforma, porém, estava aboletado um esquilo preto que se refestelava com as sementes destinadas aos passarinhos. Ele outra vez! Meu pai mal parou para pedir licença antes de irromper porta-fora, de chinelos e tudo, e pôr fim àquele terrível plano da natureza. Ao vê-lo daquele jeito, correndo pelo quintal dos fundos com o cardigã vestido de trás para frente, era quase impossível pensar que aquele homem, Vincent Morgan, tivesse sido até recentemente o director da escola da cidade, onde, durante muitos anos, havia instilado terror nos corações de meninos e meninas. Por toda a região, o meu pai era conhecido como Morgan, o Górgona, e sempre que eu saía de casa sozinha quando era pequena, corria o risco de ser seguida na rua por um bando de meninos a entoar Morgan, a Minigórgona até o açougueiro sair com o seu avental sujo de sangue e botá-los para correr». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                                                                      
Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Ela lançou outro olhar aflito na direcção das casas silenciosas à frente. Enquanto eu vou ver se está tudo bem. Mirina entrou no povoado segurando firme a lança com as duas mãos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A ideia, porém, tinha esbarrado na resistência visceral da mãe, que nunca deixara de considerar Lilli o seu bebé e ainda cantava à noite para ela dormir. Agora, caminhando de volta para casa junto com Lilli e vendo o orgulho recém-adquirido na sua postura, Mirina mal podia esperar para pôr tudo aos pés da mãe: a caça farta, as muitas histórias, além da filha mais nova de volta dos confins selvagens ilesa e sorridente, com a marca de sangue da caçadora na testa. Acha que elas vão assar tudo ao mesmo tempo?, perguntou Lilli, interrompendo os pensamentos da irmã. Seria um banquete e tanto. Apesar de algumas coisas serem tão pequenas que talvez nem valham a pena, completou ela, baixando os olhos para um punhado de peixes minúsculos pendurados no seu cinto por um fio de lã.
Na minha experiência, as menores são as mais gostosas..., falou Mirina. Ela parou. As duas tinham feito a curva perto do pasto, e o povoado de Tamash ficava logo à frente. Era ali que os cachorros sempre vinham recebê-la, pois sabiam que a sua chegada anunciava ossos e restos de carne. Só que nesse dia nenhum cachorro apareceu e, quando Mirina parou para escutar, não ouviu nenhum dos barulhos habituais do povoado, apenas os gritos roucos dos pássaros e um zumbido estranho e persistente, como milhares de abelhas em volta de um arbusto de flores. Os únicos sinais de vida eram algumas grossas colunas de fumaça a se erguer de algum lugar entre os casebres rumo ao azul infinito. O que aconteceu?, indagou Lilli, arregalando os olhos. O que ouviu? Não sei bem..., respondeu Mirina, sentindo cada pelinho do corpo a se eriçar de apreensão. Porque não fica aqui? Ela segurou a irmã pelos ombros e impediu-a de seguir em frente. Porquê? O que houve?
A voz da menina saiu esganiçada e, quando Mirina começou a andar, ela foi atrás. Por favor, diga-me! Então Mirina finalmente viu um dos cachorros. Era o filhote malhado que sempre vinha dormir enrodilhado junto a seus pés durante os temporais, o filhote que ela havia salvado e que às vezes a fitava com olhos quase humanos. Bastou uma olhada no cachorro, na sua atitude arredia e ao mesmo tempo obsequiosa, nos seus ganidos nervosos, para Mirina entender tudo. Não toque nele!, gritou quando Lilli deu um passo à frente com os braços estendidos. Mas era tarde demais. Sua irmã já segurava o filhote pelo pescoço e o afagava com afecto. Lilli!, Mirina pôs a irmã de pé com um puxão brusco. Não ouviu o que eu falei? Não toque em nada.
Só então a expressão da menina demonstrou que ela começava a entender o que acontecera. Por favor, falou Mirina, suavizando tanto a voz que ela chegou a falhar. Seja boazinha e fique aqui enquanto eu... Ela lançou outro olhar aflito na direcção das casas silenciosas à frente. Enquanto eu vou ver se está tudo bem. Mirina entrou no povoado segurando firme a lança com as duas mãos e olhando para todos os lados em busca de sinais de violência. Estava certa de que o lugar tinha sido atacado por alguma tribo rival ou por animais selvagens. Preparou-se para imagens horrendas, mas não podia ter previsto o que encontrou. Uma voz rouca e cheia de ódio chegou aos seus ouvidos vinda de um dos casebres e, um segundo depois, uma mulher corcunda emergiu de lá com o corpo coberto de suor. Foi a sua mãe quem fez isso... Ela cuspiu no chão, a saliva vermelha de sangue. A bruxa da sua mãe! Nena, amiga... Mirina deu alguns passos para trás. O que aconteceu aqui? A mulher tornou a cuspir. Não ouviu o que eu disse? A sua mãe amaldiçoou-nos. Ela invocou uma peste e disse que mataria todo aquele que não aprovasse o seu comportamento de pu…». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.
                         
Cortesia de EArqueiro/JDACT

domingo, 21 de janeiro de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto esperava o tempo de Rebecca receber a imagem, fiz-lhe um pequeno resumo da situação, sem deixar de fora a desconfiança de James Moselane de que eu tinha sido vítima de um trote ou talvez até corresse perigo. É claro que eu não vou, mas estou morrendo de curiosidade para saber onde essa foto foi tirada, falei. Como pode ver, parece que a inscrição faz parte de uma parede maior, onde o texto se organiza em colunas verticais. Quanto ao alfabeto em si... Cheguei mais perto e tentei posicionar melhor a luminária da escrivaninha. Estou com uma sensação estranha...,mas, por mais que eu tente, não consigo... Um ruído sugeriu que Rebecca mastigava um punhado de castanhas, sinal de que estava intrigada. E o que quer que eu faça?, perguntou ela. Posso garantir que essa foto não foi tirada na minha escavação. Se alguém tivesse deparado com algo assim aqui, em Creta, eu saberia, pode acreditar. Quero que faça o seguinte: dê uma boa olhadela na inscrição e diga-me onde viu esses símbolos antes. Eu sabia que era um tiro no escuro, mas precisava tentar. Rebecca sempre tivera talento para enxergar além do óbvio. Fora ela quem havia descoberto o esconderijo de barras de chocolate do meu pai quando éramos crianças, dentro de uma velha caixa de apetrechos de pesca na garagem. Mesmo nessa ocasião, apesar de adorar doces, não tinha sugerido que comêssemos uma das barras: para ela, o simples triunfo da descoberta e de poder contar-me uma coisa sobre o meu pai que eu não soubesse já era um prémio.
Vou dar-lhe mais um minuto..., falei. Que tal me dar uns dias para perguntar por aí?, retrucou Rebecca. Posso mandar a foto para o sr. Telemakhos... Não! Não mostre essa foto a ninguém. Porquê?
Hesitei, consciente de que estava sendo irracional. Porque tem alguma coisa nessa escrita que me é muito familiar..., de um jeito meio esquisito. É como se eu enxergasse uma inscrição invisível... A verdade nos ocorreu ao mesmo tempo. O caderno da sua avó!, exclamou Rebecca com um arquejo, movimentando-se freneticamente do outro lado. Aquele que lhe deu pelo Natal... Estremeci, alarmada. Não, é impossível. Loucura. Porquê? Rebecca conhecia bem o meu calcanhar de Aquiles, mas estava agitada demais para pisar com delicadeza nele. Ela sempre disse que lhe deixaria instruções, não foi? E que as receberia quando menos esperasse. Bom, talvez seja isso. A grande chamada da avó. Quem sabe... A voz de Rebecca ergueu-se num tom desafiador quando ela com certeza se deu conta do absurdo da sugestão. Quem sabe se ela estará esperando em Amsterdão?
Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada e não se conseguia distinguir um do outro. No entanto, bem devagar, à medida que avançavam pela salina plana, as duas formas tremeluzentes se materializaram em duas mulheres, uma adulta; a outra, nem tanto. Mirina e Lilli tinham passado muitos dias fora, só as duas. O objectivo da viagem era óbvio, pois todo o tipo de caça e arma se balançava nos seus ombros preso em correias de couro, e os seus passos ficavam mais velozes conforme elas se aproximavam do povoado à frente. Como a mãe vai ficar orgulhosa!, exclamou Lilli. Espero que conte a ela como eu peguei aquele coelho na arapuca. Não vou omitir nenhum detalhe, prometeu Mirina, afagando os cabelos embaraçados da irmã caçula. Talvez só aquela parte em que quase quebrou o pescoço. É..., Lilli encolheu os ombros e deu aquela danadinha lenta e engraçada que sempre dava quando ficava constrangida. É melhor não falar nisso, senão nunca mais vou poder sair convosco. Seria uma pena, não é?, indagou ela, erguendo os olhos para Mirina com um sorriso esperançoso.
Mirina aquiesceu com firmeza. Uma pena enorme. Você tem potencial para ser uma grande caçadora. Além do mais... Ela não conseguiu conter uma risadinha. É uma fonte inesgotável de diversão. Lilli fechou a cara, mas Mirina sabia que no fundo estava contente. Pequena para uma menina de 12 anos, sua irmã passara a viagem inteira tentando desesperadamente provar o próprio valor, e Mirina tivera uma grata surpresa com a sua capacidade de lidar com as dificuldades. Mesmo com fome ou cansada, Lilli nunca se recusara a cumprir nenhuma tarefa e nunca derramara uma só lágrima. Pelo menos não na sua frente. Com seis anos a mais do que Lilli e tão hábil quanto qualquer homem da mesma idade, Mirina havia considerado o seu dever ensinar à irmãzinha a arte da caça». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Segundo a maioria dos estudiosos, as amazonas jamais tinham existido em lugar algum a não ser na mitologia grega. Quem afirmasse o contrário, no melhor dos casos, era um romântico incurável. Sim, de facto, era totalmente concebível que o mundo pré-histórico tivesse sido povoado em parte por guerreiras do sexo feminino, mas os mitos sobre amazonas sitiando Atenas ou participando da Guerra de Tróia sem dúvida eram invenções de contadores de histórias na tentativa de fascinar os seus ouvintes com relatos fantásticos. Eu sempre explicava aos meus alunos que as amazonas da literatura clássica deviam ser vistas como predecessoras dos vampiros e zumbis que povoam as estantes de hoje em dia: criaturas imaginárias, terríveis e sobrenaturais, que tinham por hábito treinar as filhas nas artes da guerra e acasalar com machos aleatórios uma vez por ano. Ao mesmo tempo, contudo, essas mulheres selvagens tinham características humanas atraentes o bastante para despertar as nossas paixões secretas, nem que fosse aos olhos dos antigos escultores e pintores de vasos. Eu sempre tomava cuidado para não deixar transparecer os meus próprios sentimentos em relação ao tema; interessar-se pelo folclore das amazonas já era ruim, mas revelar que acreditava na existência delas seria pura e simplesmente um suicídio académico.
Assim que o meu chá ficou pronto, sentei-me para estudar a foto do sr. Ludwig com o auxílio de uma lupa. Tinha quase certeza de que conseguiria identificar os caracteres inscritos na parede como pertencentes a algum dos alfabetos antigos mais comuns; quando isso não aconteceu, permiti-me sentir um leve frisson de animação. Após mais alguns minutos de investigação atenta e incompreensão crescente, as possibilidades tornaram-se um arrepio a correr pela minha espinha com a mesma urgência de mensageiros num campo de batalha. O que mais me intrigou foi a universalidade dos símbolos; tinham características que tornavam quase impossível vinculá-los a algum lugar ou período específicos. Eles poderiam ser uma fraude feita naquela parede de gesso rachado logo antes de a foto ser tirada ou poderiam ter milhares de anos. Ainda assim..., quanto mais eu os olhava, mais percebia em mim uma estranha sensação de familiaridade. Era como se em algum lugar, num canto remoto do meu subconsciente, uma fera adormecida estivesse despertando. Será que eu já tinha visto aqueles símbolos antes? Caso sim, não conseguia contextualizá-los, o que me causava grande frustração. Por coincidência, uma amiga de infância, Rebecca, trabalhava havia três anos num sítio arqueológico em Creta, e eu tinha quase a certeza de que ela sabia quais organizações estavam escavando onde e em busca de quê. Com certeza, se alguém tivesse deparado com aquele tipo de inscrição em algum lugar da região mediterrânea e houvesse estabelecido qualquer vínculo com as amazonas, a dra. Rebecca Wharton teria sido a primeira a saber.
Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha, percebi quanto sentia saudades dela. Eu reconheceria aquele riso em qualquer lugar: soava como alguém com ressaca de uísque, mas, no caso da curiosa Rebecca, era a consequência um tanto prosaica de ter passado o dia inteiro com a cabeça enfiada em algum buraco cheio de poeira. Estava pensando em você agorinha mesmo!, exclamou ela. Estou aqui com um coro de gregos gatos servindo-me uvas e me besuntando de azeite. A imagem fez-me rir. A probabilidade de a linda Rebecca ter intimidades com qualquer outra coisa que não fossem fragmentos de cerâmica antiga, infelizmente, era quase nula. Ela era do estilo rebelde, de viseira e short jeans cortado, ficava o dia todo de quatro no meio de um formigueiro de arqueólogos..., mas não tinha olhos para nada além do passado. Embora fosse do tipo que se vangloriava, eu sabia que, por baixo das sardas, continuava sendo a filha do pároco. Foi por isso que não teve tempo para me ligar e contar a grande novidade? Um breve farfalhar sugeriu que Rebecca estava tentando segurar o telefone entre a orelha e o ombro. Que grande novidade? É isso que me vai dizer. Quem está escavando amazonas aí na sua área? Ela soltou um de seus gritinhos estridentes de ave selvagem. O quê? Dê uma olhadela. Inclinei-me para a frente e conferi a imagem na tela do meu computador. Acabei de lhe mandar uma foto por e-mail». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «No rosto de um amigo verdadeiro um homem vê, por assim dizer, um segundo eu. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade»

 Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ansiosa para recuperar nosso tom descontraído, ri e falei: eu não ficaria nada espantada se fosse um dos meus alunos preguiçosos... James encarou-me, sério. Não estou vendo graça nenhuma nessa situação. Foi escolhida como alvo, e não estou falando de um trote universitário qualquer. Não se esqueça de trancar a porta hoje à noite.
Ainda chovia quando James me acompanhou até aos meus aposentos do outro lado do pátio, ambos nos esquivando com cuidado das poças escuras na calçada. Era a primeira vez que ele me levava a casa; pelo menos esse agradável desdobramento eu teria que agradecer ao sr. Ludwig. Então, Morg... Ele ergueu um braço para me proteger da chuva quando parei para apanhar a chave. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade. Pelo menos não sozinha. Nunca se sabe... Encarei-o, sem conseguir acreditar na sua sinceridade. Deixe de ser ridículo. Se quiser sair, ligue-me que eu vou convosco, completou ele, com a chuva a pingar dos seus cabelos e a escorrer pelo seu nobre rosto. Não foram só as palavras: o tom grave da sua voz penetrou fundo nos meus ouvidos e reverberou nas cavernas de minhas esperanças hibernadas. Ávida por mais, cravei os olhos nos dele..., mas a chuva e a escuridão nublaram o momento. Após uma pausa constrangida, por fim consegui responder, tensa: é muita gentileza sua. Que parvoíce, retrucou James, no tom casual de sempre. Temos que tomar conta de você, não é? E ele afastou-se com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia alegre, enquanto eu me recolhia aos meus aposentos. Ou, melhor dizendo, ao apartamento luxuoso e mobiliado com bom gosto que tecnicamente não era meu, mas do distinto professor Larkin, que, para minha sorte, fora convidado a passar o ano em Yale. Eu não fora a única candidata à vaga de um ano que surgira com a sua ausência, mas eu era mulher, e o corpo docente da faculdade carecia havia muito dessa variedade específica de pessoa. Ou pelo menos fora esse o argumento usado por Katherine Kent para convencê-los a contratarem-me.
Eu não recebia o mesmo salário do professor Larkin, mas, ao assumir o seu cargo, pude abandonar o meu apartamento húmido e mudar-me para o interior da faculdade. O único, porém, era a carga de trabalho. Os meus dias eram tão abarrotados de orientações que quase não sobrava tempo para as minhas próprias pesquisas. Além disso, a menos que eu publicasse uma lista quilométrica de artigos novos e interessantes, com certeza não haveria um cargo permanente à minha espera no final do ano e eu teria de voltar ao meu porão na sinistra Cowley Road para distribuir o meu currículo sem o menor ânimo e espantar camundongos do meu café da manhã. Enquanto enchia a chaleira para fazer um chá antes de ir dormir, fiquei pensando nos acontecimentos do dia e acabei, como era de esperar, com a cabeça no sr. Ludwig. Em poucos minutos, aquele estranho homem havia-me apresentado um ofuscante rol de tentações: glória académica, aventura e dinheiro suficiente para comprar seis meses de liberdade e me dedicar apenas à minha pesquisa. Quem sabe até conseguisse encaixar uma ida a Istambul para procurar Grigor Reznik pessoalmente e convencê-lo a deixar-me ler o Historia Amazonum, único documento original sobre as amazonas ao qual eu não tivera acesso. A minha cabeça fervilhava diante das possibilidades.
Em troca, porém, o sr. Ludwig tinha pedido uma semana do meu precioso tempo e, mesmo que eu tivesse sido doida o suficiente para considerar a sua proposta, não havia como justificar essa ausência, estando apenas um mês no cargo novo. Teria sido outra história se ele me tivesse mostrado algum documento oficial carimbado e assinado, dizendo com precisão o que a sua fundação estava pedindo para fazer e como aquilo ficaria incrível no meu currículo..., mas, do jeito que o convite fora feito, era tudo vago e arriscado demais. De facto, como tanto Katherine Kent quanto James tinham deixado bem claro durante o jantar, seria preciso ser louca da cabeça para apanhar um avião, rumo ao desconhecido. Se ao menos o sr. Ludwig não tivesse dito a palavra mágica. Amazonas. Era óbvio que ele sabia da minha obsessão académica por esse tema, do contrário sequer teria falado comigo. Mas como interpretar a sua afirmação de que eu estava ansiosa por uma prova de que as amazonas tinham mesmo existido? Ele não podia saber quanto eu estava certa nisso. Ou podia?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Quando repeti a afirmação do sr. Ludwig sobre o alfabeto amazónico ainda não decifrado, porém, James recostou-se na cadeira e grunhiu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu só estava admirando a estátua, falara eu, depressa. A pessoa que a encontrou e trouxe para a Inglaterra deve ter sofrido uma senhora maldição dos faraós... Um antepassado meu. O primeiro lorde Moselane. Para meu espanto, James parecia ter-se esquecido por completo do nosso encontro anterior. Na realidade, o seu sorriso sugeria que eu era exactamente o tipo de mulher que ele esperava conhecer naquela noite. Morreu tranquilo, dormindo, aos 92 anos. Pelo menos gostamos de pensar assim. Ele apertara a minha mão e não se apressara em largá-la. Muito prazer. Na verdade... Recolhera a mão com relutância. Nós nos encontrámos no ano passado. Em frente à Blackwell’s. Antes mesmo de as palavras saírem da minha boca, a minha honestidade traiçoeira havia-me arrancado uma careta. Poucos segundos bastaram para as peças se encaixarem na cabeça de James, e não foi algo bonito de se ver. Ah, sim, dissera ele devagar. Sim, sim, sim...
Mas a palavra escrita nos seus olhos cor de mel era justamente o contrário. De facto, nos meses subsequentes, toda a vez que nos encontrávamos obedientemente para um café, sempre convocados por Katherine Kent, a primeira pergunta de James E sua mãe, como vai?, dava o tom da nossa conversa e me fazia lembrar por que os nossos cafés nunca se transformavam em almoços. Ele era atencioso, sim, e de vez em quando olhava-me de um jeito que fazia o meu corpo estremecer de esperança. Mas de modo geral continuava a tratar-me com todo o cavalheirismo, como se eu fosse uma donzela intocável que ele houvesse jurado proteger. Talvez fosse por causa da minha mãe. Ou talvez fosse por James ter nascido, como o meu pai certa vez descrevera tão bem, com um berço de ouro enfiado no cu. Para manter a pureza do sangue azul, essas coisas. Nesse caso, eu poderia refinar o meu estilo quanto quisesse, mas o filho de lorde Moselane jamais pensaria que éramos da mesma espécie.
Fui despertada do meu devaneio na mesa dos docentes pela mão de alguém levando embora o prato com minha entrada intacta. Ao meu lado, sentado com a cabeça baixa como quem reza, James conferia o telefone móvel por baixo do guardanapo engomado. Enfiei a mão na bolsa com discrição, peguei na foto do sr. Ludwig e estendi para ele. O que acha disto aqui? James inclinou-se para olhar. Datação aproximada? Uns dez dias, eu diria, a julgar pelo canto amassado e pelas bordas roídas, brinquei. Quanto à inscrição..., eu não sei nada. Ele estreitou os olhos; era óbvio que estava intrigado. Quem lhe deu isso? Um homem misterioso. Ele disse-me que essa foto é uma prova de que as amazonas existiram mesmo..., falei, com um tom dramático deliberado. O que é isso? Katherine Kent esticou o braço, arrancou a foto da minha mão e a examinou à luz de uma vela. Onde esta foto foi tirada? Não tenho a menor ideia.
Surpresa e feliz com o interesse dela, relatei depressa os pontos altos do meu bizarro encontro daquela tarde. Quando repeti a afirmação do sr. Ludwig sobre o alfabeto amazónico ainda não decifrado, porém, James recostou-se na cadeira e grunhiu. Que irritante! Katherine devolveu-me a foto com o cenho franzido, contrariada. Isso pode ser em qualquer lugar. Se pelo menos a gente soubesse o nome da fundação desse sujeito... Encolhi-me diante do seu olhar raivoso. Estava claro que ela me culpava por não ter extraído mais informações do sr. Ludwig, e tinha razão. Acho que o escritório deles fica em Amsterdão, falei. Porque é para lá que ele queria que eu fosse. E isso tem alguma importância?, interrompeu James. Porque é lógico que você não vai...
Na verdade, eu quase disse sim, contrapus, incapaz de resistir à tentação de implicar com ele. Não é todos os dias que um desconhecido na rua me oferece 5 mil dólares... Exacto. Ele encarou-me com um olhar de censura. Um desconhecido na rua. E isso faz de você o quê? Sorri, lisonjeada por ele levar a história tão a sério. Uma curiosa, respondi. James balançou a cabeça, e decerto teria feito mais algum comentário negativo não fosse Katherine ter exercido o privilégio dos génios e levantado a mão para nos silenciar. E ele disse que a encontraria no aeroporto? Perplexa com a gravidade do seu tom, limpei a garganta com um pigarro. Creio que sim. James não conseguiu mais permanecer calado. Não está incentivando Morg a pegar um avião com esse tal... sr. Ludwig, está?, perguntou, embolando o guardanapo na mão. Só Deus sabe o que ele está tramando... Katherine recostou-se na cadeira com um movimento brusco. É claro que não! Deixe de ser bobo. Só estou tentando entender o que está acontecendo..., quem são essas pessoas». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Está gostando de Oxford?, perguntara, ainda equilibrando o café em cima dos livros. Desculpe, como é mesmo o seu nome?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Por algum motivo, nunca notei como era sistemática a nossa movimentação pela cidade e como minha mãe parecia decidida a mapear as nossas rotas com antecedência e se ligar a elas, mesmo quando o clima era desencorajador..., só no dia em que ela me segurou pelo braço e, com a mesma voz de um cavaleiro cruzado que finalmente se depara com o santo graal, exclamou: olhe ele ali! E, de facto, ali estava ele, saindo da livraria Blackwell’s da Broad Street, equilibrando uma pilha de livros e uma xícara de café. Se não fosse pela minha mãe, eu jamais o teria reconhecido, mas não havia passado a última década acompanhando o crescimento de nosso alvo com o auxílio de um binóculo e de revistas cor de rosa. Para mim, James Moselane continuava sendo um príncipe adolescente numa floresta encantada, mas a pessoa que tinha saído da livraria era um adulto de proporções perfeitas, alto, atlético, porém inteiramente despreparado para a cilada que o aguardava.
Que coincidência!, falara minha mãe, que atravessara a Broad Street a passos largos e o interceptara antes mesmo que ele a visse. Nem sabia que estudava em Oxford! Não deve ter reconhecido Diana... Só então minha mãe reparara que eu não estava do seu lado. Ela virou-se para mim com uma careta que já dizia tudo. Eu nunca tinha sido uma pessoa covarde, mas o terror que senti ao entender de repente que era aquilo, exactamente aquilo, que tínhamos passado tanto tempo perseguindo quase me fez virar as costas e sair correndo. Embora James não pudesse ver a expressão lívida de minha mãe, com certeza percebera o seu aceno frenético e a minha consternação. Somente alguém de raciocínio muito lento não teria interpretado aquela situação num piscar de olhos, mas, verdade seja dita, James cumprimentara nós duas com uma cordialidade perfeita.
Está gostando de Oxford?, perguntara, ainda equilibrando o café em cima dos livros. Desculpe, como é mesmo o seu nome? Diana Morgan, respondera a minha mãe. Igual à princesa Diana. Deixe-me anotar. Ignorando meus cutucões e súplicas sussurradas, ela remexera dentro da bolsa e tirara um pedaço de papel. E a faculdade em que ela estuda... Mãe! Foi preciso toda a minha força de vontade para impedi-la de escrever também meu telefone, e ela ficara muito zangada comigo por puxá-la para longe antes de ter exaurido sua bajulação descarada. James não aparecera mais depois disso, o que não foi nenhuma surpresa. Eu provavelmente nunca mais o encontraria não fosse por Katherine Kent. No ano seguinte, pouco antes do Natal, ela me convidara para uma recepção no museu Ashmolean, e acabei descobrindo que o evento era em homenagem à recente doação de artefactos antigos da Colecção Moselane.
Venha cá!, dissera ela, puxando-me de perto de uma linda estátua da deusa egípcia Ísis e abrindo caminho pela multidão de gente importante. Quero apresentar você. Os Moselanes são muito úteis. Katherine era uma mulher de pouca paciência e havia aperfeiçoado a arte de se intrometer em conversas e roubar a presa que lhe interessasse. James! Esta é Diana. Talentosíssima. Ela quer saber quem limpou a sua Ísis. Depois de quase engasgar com o champanhe, James se virara para nós, tão lindo de fato e gravata que as minhas fantasias de menina voltaram a galope num segundo». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Julieta. Anne Fortier. «Chegavam inevitavelmente ao clímax quando Umberto a repreendia por ter roubado a minha parte de ovos de Páscoa, e Janice, com os dentes cheios de chocolate, respondia sibilando, debaixo da cama…»

jdact e wikipedia

«(…) Desde as minhas mais remotas lembranças Janice sempre fora assim: insaciável. Quando éramos pequenas, a tia Rose costumava rir, encantada, e, exclamar: se essa menina estivesse numa prisão feita de biscoitos, fugiria de lá abrindo caminho às dentadas, como se a voracidade de Janice fosse motivo de orgulho. Mas, afinal, a tia Rose estava no topo da cadeia alimentar e, ao contrário de mim, não tinha nada a temer. Até onde eu podia me lembrar, Janice sempre havia conseguido descobrir os meus doces, não importava onde eu os escondesse, e as manhãs de Páscoa em nossa família eram desagradáveis, meio brutas e curtas. Chegavam inevitavelmente ao clímax quando Umberto a repreendia por ter roubado a minha parte de ovos de Páscoa, e Janice, com os dentes cheios de chocolate, respondia sibilando, debaixo da cama, que ele não era seu pai e não lhe podia dizer o que fazer. O frustrante era que o seu físico não a denunciava. Sua pele recusava-se obstinadamente a revelar os seus segredos; era lisa como a cobertura acetinada de um bolo de noiva, as feições moldadas com a mesma delicadeza das frutinhas e florezinhas de marzipão criadas pelas mãos de um mestre confeiteiro. Nem gim nem café nem vergonha nem remorso, nada havia conseguido abrir uma abertura naquela fachada vitrificada. Era como se Janice tivesse dentro de si uma fonte perene de vida, como se se levantasse todas as manhãs rejuvenescida no poço da eternidade, nem um dia mais velha, nem um grama mais gorda e ainda sedenta do mundo. Para minha infelicidade, não éramos gémeas idênticas. Uma vez, no pátio da escola, entreouvi alguém se referir a mim como um Bambi de pernas de pau e, embora Umberto tivesse rido e dito que aquilo era um elogio, não foi o que me pareceu. Mesmo depois de ultrapassar a idade em que tinha sido mais desajeitada, eu sabia que, perto de Janice, continuava parecendo magrela, desengonçada e anémica; onde quer que fossemos ou o que quer que fizéssemos, ela era tão morena e efusiva quanto eu era pálida e reservada. Sempre que entravamos juntas numa sala, todos os reflectores viravam-se imediatamente para ela e, mesmo estando bem a seu lado, eu era apenas mais uma pessoa na plateia. Com o tempo, entretanto, fiquei à vontade no meu papel. Nunca precisava de me preocupar com a conclusão das minhas falas, porque Janice concluía por mim. E, nas raras ocasiões em que alguém perguntava sobre as minhas esperanças e meus sonhos, em geral, quando eu tomava uma chávena de chá com um dos vizinhos da tia Rose, Janice me puxava para o piano, que tentava tocar enquanto eu virava as páginas da partitura para ela. Mesmo agora, aos 25 anos, eu ainda me agitava e acabava envergonhada nas conversas com estranhos, torcendo desesperadamente para ser interrompida antes de ter que combinar um verbo com um objecto.
Sepultámos a tia Rose debaixo de uma chuva forte e o cemitério parecia quase tão imundo quanto eu me sentia por dentro. Parada junto ao seu túmulo, senti as gotas pesadas de água caírem de meu cabelo e se misturarem com as lágrimas que me escorriam pelas faces; os lenços de papel que eu levara de casa há muito tempo que se tinham transformado numa pasta nos meus bolsos. Apesar de ter chorado a noite inteira, nem de longe eu estava preparada para a triste sensação de fim que experimentei quando o caixão foi para a terra, meio de lado. Um caixão tão grande para a estrutura longa e esguia de tia Rose!... De repente me arrependi de não ter pedido para ver o corpo, mesmo que não fizesse diferença para ela. Ou será que faria? Talvez ela estivesse nos observando de algum lugar muito distante, querendo poder dizer-nos que tinha chegado em segurança. Foi uma ideia consoladora, uma bem-vinda distracção da realidade, e desejei poder acreditar nela. No fim do enterro, a única pessoa que não parecia um roedor afogado era Janice, que usava botas de plástico com saltos de 10 centímetros e um chapéu preto que expressava tudo, menos luto. Em contraste, eu estava usando o que um dia Umberto havia rotulado de meu traje de freira; se as botas e o decote de Janice diziam venha, meus sapatos pesadões e o vestido abotoado até o pescoço com certeza diziam não apareça. Algumas pessoas apareceram junto à sepultura, mas somente o sr. Gallagher, o advogado da família, ficou para conversar. Nem Janice nem eu jamais o tínhamos encontrado, mas a tia Rose falara dele com tanta frequência e tamanho carinho que o homem estava fadado a ser uma decepção». In Anne Fortier, Julieta, Editorial Planeta, ISBN 978-989-657-127-6, Sextante, 2010, ISBN 978-859-929-691-2.

Cortesia de EPlaneta/Sextante/JDACT

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Julieta. Anne Fortier. «Nem Janice nem eu jamais o tínhamos encontrado, mas tia Rose falara dele com tanta frequência e tamanho carinho que o homem estava fadado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Desde minhas mais remotas lembranças Janice sempre fora assim: insaciável. Quando éramos pequenas, tia Rose costumava rir, encantada, e a exclamar: se essa menina estivesse numa prisão feita de biscoitos, fugiria de lá abrindo caminho à dentada, como se a voracidade de Janice fosse motivo de orgulho. Mas, afinal, tia Rose estava no topo da cadeia alimentar e, ao contrário de mim, não tinha nada a temer. Até onde eu podia me lembrar, Janice sempre havia conseguido descobrir meus doces, não importava onde eu os escondesse, e as manhãs de Páscoa em nossa família eram desagradáveis, meio brutas e curtas. Chegavam inevitavelmente ao clímax quando Umberto a repreendia por ter roubado o meu número de ovos de Páscoa, e Janice, com os dentes cheios de chocolate, respondia sibilando, debaixo da cama, que ele não era seu pai e não podia lhe dizer o que fazer. O frustrante era que o seu físico não a denunciava. Sua pele recusava-se obstinadamente a revelar seus segredos; era lisa como a cobertura acetinada de um bolo de noiva, as feições moldadas com a mesma delicadeza das frutinhas e florezinhas de marzipã criadas pelas mãos de um mestre confeiteiro. Nem gim nem café nem vergonha nem remorso, nada havia conseguido abrir uma rachadura naquela fachada vitrificada. Era como se Janice tivesse dentro de si uma fonte perene de vida, como se levantasse todas as manhãs rejuvenescida no poço da eternidade, nem um dia mais velha, nem um grama mais gorda e ainda sedenta do mundo.
Para minha infelicidade, não éramos gémeas idênticas. Uma vez, no pátio da escola, entreouvi alguém referir-se a mim como um Bambi de pernas de pau e, embora Umberto tivesse rido e dito que aquilo era um elogio, não foi o que me pareceu. Mesmo depois de ultrapassar a idade em que tinha sido mais desajeitada, eu sabia que, perto de Janice, continuava parecendo magrizela, desengonçada e anémica; aonde quer que fossemos ou o que quer que fizéssemos, ela era tão morena e efusiva quanto eu era pálida e reservada. Sempre que entravamos juntas num bar, todos os reflectores viravam-se imediatamente para ela e, mesmo estando bem a seu lado, eu era apenas mais uma pessoa no local. Com o tempo, entretanto, fiquei à vontade no meu papel. Nunca precisava preocupar-me com a conclusão de minhas falas, porque Janice concluía por mim. E, nas raras ocasiões em que alguém perguntava sobre minhas esperanças e meus sonhos, em geral, quando eu tomava xícara de chá com um dos vizinhos de tia Rose, Janice me puxava para o piano, que tentava tocar enquanto eu virava as páginas da partitura para ela. Mesmo agora, aos 25 anos, eu ainda me agitava e acabava bloqueando nas conversas com estranhos, torcendo desesperadamente para ser interrompida antes de ter que combinar um verbo com um objecto.
Sepultámos a tia Rose debaixo de uma chuva forte e o cemitério parecia quase tão imundo quanto eu me sentia por dentro. Parada junto ao seu túmulo, senti as gotas pesadas de água caírem do meu cabelo e se misturarem com as lágrimas que me escorriam pelas faces; os lenços de papel que eu levara de casa havia muito tinham-se transformado numa pasta em meus bolsos. Apesar de ter chorado a noite inteira, nem de longe eu estava preparada para a triste sensação de fim que experimentei quando o caixão foi baixado à terra, meio de lado. Um caixão tão grande para a estrutura longa e esguia de tia Rose!.. De repente me arrependi de não ter pedido para ver o corpo, mesmo que não fizesse diferença para ela. Ou será que faria? Talvez ela estivesse nos observando de algum lugar muito distante, querendo poder nos dizer que havia chegado em segurança. Foi uma ideia consoladora, uma bem-vinda distracção da realidade, e desejei poder acreditar nela. Ao fim do enterro, a única pessoa que não parecia um roedor afogado era Janice, que usava botas de plástico com saltos de 10 centímetros e um chapéu preto que expressava tudo, menos luto. Em contraste, eu estava usando o que um dia Umberto havia rotulado de meu traje de freira; se as botas e o decote de Janice diziam venha, meus sapatos pesadões e o vestido abotoado até ao pescoço com certeza diziam fora. Algumas pessoas apareceram junto à sepultura, mas somente o Senhor. Gallagher, o advogado da família, ficou para conversar. Nem Janice nem eu jamais o tínhamos encontrado, mas tia Rose falara dele com tanta frequência e tamanho carinho que o homem estava fadado a ser uma decepção». In Anne Fortier, Julieta, Editorial Planeta, ISBN 978-989-657-127-6, Sextante, 2010, ISBN 978-859-929-691-2.

Cortesia de EPlaneta/Sextante/JDACT

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Julieta. Anne Fortier. «Perdão, senhoras, disse Umberto, colocando-se educadamente entre nós, como já fizera inúmeras vezes, mas posso sugerir que terminem esse diálogo cativante na biblioteca?»

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«(…) Lamento decepcioná-la, respondi, largando a mochila no chão com um baque. Posso ajudá-la a despojar a casa dos objectos de valor ou você prefere trabalhar sozinha? A risada de Janice era como um mensageiro dos ventos na varanda do vizinho, instalado ali exclusivamente para chatear. Este é o Archie, informou ela, em seu tom ao mesmo tempo profissional e casual. Ele vai nos dar 20 mil por essa tralha toda. Olhei para os dois enojada ao se aproximarem de mim: quanta generosidade da parte dele! É óbvio que ele tem paixão por lixo. Janice lançou-me um olhar gelado, mas logo se conteve sabia muito bem que eu não dava a mínima para sua opinião e que sua raiva apenas me divertia. Nasci quatro minutos antes dela. Não importa o que ela fizesse ou dissesse, eu sempre seria quatro minutos mais velha. Ainda que, em sua cabeça, Janice fosse a lebre hipersónica, e eu, a tartaruga que se arrastava, ambas sabíamos que ela podia dar quantas voltinhas arrogantes à minha volta quisesse que nunca me alcançaria de verdade, jamais cobriria aquela distância minúscula que nos separava. Bem, disse Archie, com uma olhadela para a porta aberta, estou de saída. Prazer em conhecê-la, Julie..., é Julie, não é? Janice me falou tudo a seu respeito, acrescentou, com um risinho nervoso. Parabéns pelo bom trabalho, continue firme! Faça a paz e não amor, como dizem. Janice acenou com meiguice quando Archie saiu, deixando a porta de tela bater. Porém, assim que ele se afastou e ela já não podia ser ouvida, seu rosto angelical se tornou demoníaco, como um holograma do Dia das Bruxas: não se atreva a me olhar desse jeito!, disse, em tom zombeteiro. Estou tentando ganhar algum dinheiro para nós. Não me parece que você esteja ganhando nenhum, está? Mas também não tenho o seu tipo de..., despesas, falei, apontando com a cabeça para suas recauchutagens mais recentes, claramente visíveis sob o vestido colante. Diga-me, Janice, como é que eles enfiam isso tudo ai dentro? Pelo umbigo? Diga-me, Julie, imitou minha irmã, como é não ter nada enfiado aí? Nunca! Perdão, senhoras, disse Umberto, colocando-se educadamente entre nós, como já fizera inúmeras vezes, mas posso sugerir que terminem esse diálogo cativante na biblioteca? Quando alcançamos Janice, ela já se acomodara na poltrona favorita de tia Rose, com um gim tónico aninhado na almofada da cena de caça a raposa que eu tinha feito em ponto de cruz no último ano do ensino médio, enquanto minha irmã caçava presas erectas. O que foi?, perguntou, olhando-nos com mal disfarçada repulsa. Vocês não acham que ela deixou metade da birita pra mim? Era típico de Janice procurar briga sobre o cadáver de alguém, então lhe dei as costas e fui até à porta envidraçada. Lá fora, no terraço, os amados vasos de terracota de tia Rose pareciam uma fileira de carpideiras, com as corolas das flores pendendo, inconsoláveis. Foi uma visão inusitada. Umberto sempre mantivera o jardim sob perfeito controle, mas talvez já não encontrasse prazer nesse trabalho agora que aquela que fora sua patroa e plateia agradecida existia mais. Fico surpresa por você ainda estar aqui, Birdie, comentou Janice, girando a bebida. Se eu fosse você, está altura já estaria em Las Vegas. Com a prataria. Umberto não respondeu. Fazia anos que parara de falar directamente com Janice. Em vez disso, olhou para mim: o enterro será amanhã. Não acredito que você tenha planeado tudo sem nos consultar, disse Janice, balançando uma das pernas sobre um braço da poltrona. Era o que ela queria. Há mais alguma coisa que devamos saber?, indagou minha irmã, soltando-se do abraço da poltrona e endireitando o vestido. Presumo que cada um de nós vá receber a sua parte, certo? Ela não se apaixonou por nenhuma fundação estapafúrdia de protecção aos animais ou coisa parecida, não é? Você quer dar um tempo?, retruquei com rispidez e, por um ou dois segundos, Janice pareceu realmente sem jeito. Mas depois deu de ombros, como sempre fazia, e tornou a estender a mão para a garrafa de gim. Nem me dei ao trabalho de olhar para seu fingido jeito estabanado, erguendo as sobrancelhas feitas à perfeição num ar assombrado, para mostrar que não tivera a intenção de servir toda aquela quantidade. Assim como o sol se derretia lentamente no horizonte, Janice logo se derreteria numa chaise longue, deixando as grandes questões da vida a serem respondidas pelos outros, desde que garantissem que sua bebida continuasse chegando». ». In Anne Fortier, Julieta, Editorial Planeta, ISBN 978-989-657-127-6, Sextante, 2010, ISBN 978-859-929-691-2.

Cortesia de EPlaneta/Sextante/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Apesar de ser pouco mais do que um chumaço de cabelos ruivos na primeira fila da missa natalina anual, na minha imaginação o filho e herdeiro de lorde Moselane tinha uma vida muito real»

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«(…) Baixei os olhos para disfarçar minha consternação. Aquelas palavras não eram novidade para mim, mas, vindas dele, apunhalavam em cheio meu coração. Óptimo. James girou o vinho algumas vezes antes de beber. Jovem demais, sentenciou ao baixar a taça. Carece de complexidade. Que desperdício. Ele e eu tínhamos nascido praticamente um ao lado do outro, mas em mundos completamente distintos. A única coisa que nós, mortais, conseguíamos ver da família Moselane eram os carros luxuosos com janelas de vidro escuro que passavam depressa pelas ruas de nossa tranquila cidadezinha, parando só alguns segundos para esperar o portão automático de sua imensa entrada de garagem se abrir. Isso e, de vez em quando, por entre os arbustos densos e espinhosos que cercavam esse éden particular, um vislumbre de pessoas distantes jogando ténis na relva da propriedade e suas risadas carregadas pela brisa como papéis de bala vazios. Embora quase todas as pessoas na cidade soubesse o nome e a idade dos filhos de lorde e lady Moselane, eles eram tão distantes de nós quanto os personagens de um livro. Como todos estudavam em colégios internos, os melhores do país, é claro, o jovem James e suas irmãs nunca eram vistos durante o ano lectivo, e quase todas as suas férias pareciam ser passadas com amigos de escola em castelos isolados na Escócia.
Apesar de ser pouco mais do que um chumaço de cabelos ruivos na primeira fila da missa natalina anual, na minha imaginação o filho e herdeiro de lorde Moselane tinha uma vida muito real. Sempre que eu saía aos domingos com meus pais e, por algum tempo, também com minha avó, ia saltitando na frente pela floresta na esperança de encontrá-lo a cavalo, com sua capa flutuando à brisa como um nobre de verdade..., mesmo sabendo muito bem que ele era aluno interno em Eton, depois em Oxford, e que não havia ninguém ali a não ser eu e minhas ideias ridículas. Mas eu não estava totalmente sozinha nesse mundo imaginário. Isso porque, pelo que me lembrava, minha mãe ansiava por se tornar íntima dos Moselanes, que afinal de contas eram nossos vizinhos. Pelos seus cálculos, o facto de meu pai ser director da escola da cidade deveria ter nos colocado numa posição de grande estima e, portanto, nos tornado visíveis até mesmo do casarão no alto do morro. Mas depois de passar a maior parte da vida de casada esperando em vão um convite para jantar encimado por aquele brasão em relevo, ela por fim foi obrigada a reconhecer que nosso lorde e sua esposa seguiam uma cartilha social bem diferente da sua. Eu nunca entendi por que minha mãe, norte-americana até à raiz dos cabelos, nunca perdeu essa ânsia pelo belo casarão, mesmo depois de tantas amargas decepções. Todos aqueles anos de voluntariado nos eventos beneficentes de milady na esperança de ser reconhecida; todos aqueles anos aparando com esmero os 7 metros de sebe que separavam o canto mais remoto da propriedade dos Moselanes da horta no fundo de nosso quintal..., tudo em vão.
Quando me mudei para Oxford para fazer o doutoramento, tinha tanta certeza de que ela e eu já estávamos curadas de nossas bobagens sem propósito que levei mais de um ano para entender o que de facto fazia minha mãe me visitar quase que a cada três semanas e insistir para explorarmos juntas as maravilhas da cidade. Tínhamos começado visitando cada uma das várias faculdades, o que se revelara muito divertido. Minha mãe não se cansava daqueles pátios e campanários góticos tão diferentes do que via quando era pequena. Sempre que ela pensava que eu não estava olhando, eu a via se abaixar e enfiar discretamente na bolsa pequenos souvenires: uma pedrinha qualquer, um lápis largado sobre um degrau de pedra, um ramo de tomilho de um jardim de ervas, e eu ficava quase constrangida ao constatar que, depois de tantos anos, ainda sabia muito pouco sobre seu universo. Depois do passeio pelas faculdades, começamos a frequentar concertos e eventos, entre os quais um ou outro desportivo. Minha mãe de repente desenvolveu um estranho interesse pelo críquete, depois pelo ragbi, e enfim pelo ténis. Eu deveria ter percebido, é claro, que esses interesses aparentemente impulsivos eram na verdade parte de uma campanha que sempre tivera um único objectivo. James». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT