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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

António Aleixo. Poesia: «Às vezes até suponho que vejo através dum sonho, um mundo onde não vivi. Porque vivi outrora a vida que vivo agora desde a hora em que te vi»

Cortesia de wikipedia 

Que Feliz Destino o Meu

Mote
«Que feliz destino o meu
Desde a hora em que te vi;
Julgo até que estou no céu
Quando estou ao pé de ti.»

Glosas
Se Deus te deu, com certeza,
Tanta luz, tanta pureza,
P'rò meu destino ser teu,
Deu-me tudo quanto eu queria
E nem tanto eu merecia...
Que feliz destino o meu!

Às vezes até suponho
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.

Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que 'stou no céu.

É no teu olhar tão puro
Que vou lendo o meu futuro,
Pois o passado esqueci;
E fico recompensado
Da perda desse passado
Quando estou ao pé de ti.
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

JDACT

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Bela Poesia: António Aleixo. «Por medo ao tal satanás, já não adora bonecos que, se os fazem em canecos, nem dão estrume capaz»


Cortesia de belgiumtugadois

Porque o Povo Diz Verdades
Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.
António Aleixo
 
JDACT

terça-feira, 5 de outubro de 2010

António Aleixo: «Eu não tenho vistas largas nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas lições de Filosofia». Não sendo um revoltado, acaba por desabafar na sua poesia todo o sofrimento provocado por certas injustiças

Cortesia de ssebastiaowordpress

A Gentil Camponesa

MOTE
Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza;
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

GLOSAS
És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão:
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora;
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno;
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste;
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela;
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!...
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

JDACT

quinta-feira, 15 de julho de 2010

António Aleixo: Poemas. Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo. Famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos. Recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto. Deixou, como legado, uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX

(1899-1949)
Poeta popular
Cortesia de somaletra

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!
Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

A Torpe Sociedade onde Nasci
I
Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.
II
Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!
III
Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...
IV
E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!
V
Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

Desporto e Pedagogia
I
Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.
II
P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!
III
Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.
IV
Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.
V
E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.
VI
Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.
VII
Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.
VIII
E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.
António Aleixo, in «Este Livro que Vos Deixo...»

Desabafo dum amigo, que não encontra justificação para o seu pecado mortal, que é viver. Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da vida é tudo nela ter justificação. É, da mais rasteira erva ao mais nojento bicho, não haver presença no mundo que não seja necessária e insubstituível. In Miguel Torga  

Cortesia ao Citador/JDACT

segunda-feira, 12 de abril de 2010

António Aleixo: O maior poeta popular. O poeta que vendia lotaria

casoseacasosdavida
(1899-1949)
António Fernandes Aleixo foi um poeta popular português. Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos. António Aleixo é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto e ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.

louletania
Obra plástica de António Santos (Tóssan)
Uma vida recheada de momentos maus, quiçá, mesmo alguma pobreza, emigração, tragédias familiares e doenças. No entanto, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo.
Depois de regressar a Loulé passou a vender lotaria, as «cautelas» como diz o povo, a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividade que se juntou às suas inúmeras profissões para sustento da família. Este facto deu-lhe o cognome de «poeta-cauteleiro».
Morre aos 50 anos de idade, vítima de tuberculose.




Poeta possuidor de uma rara espontaneidade, de um apurado sentido filosófico e notável pela «capacidade de expressão sintética de conceitos com conteúdo de pensamento moral», António Aleixo tinha por motivos de inspiração desde as brincadeiras dirigidas aos amigos até à crítica sofrida das injustiças da vida. Na sua poesia está contida a expressão concisa e original de uma «amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida».
A sua obra poética é uma parte mínima de um vasto repertório literário. António Aleixo, que escrevia usando a métrica mais comum na língua portuguesa, heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como «quadras ou trovas», nunca teve a preocupação de registar as suas composições. O primeiro volume de suas poesias, Quando Começo a Cantar (1943), editado pelo Círculo Cultural do Algarve, foi compilado pelo professor Joaquim Magalhães.
A opinião pública aceitou a primeira obra de António Aleixo com bom agrado e bem acolhida pela crítica. O livro esgotou-se em poucos dias.
Os últimos anos de vida do poeta foram passados, ora no sanatório em Coimbra, ora no Algarve, em Loulé.
cobre.olx
Este Livro Que Vos Deixo, reune toda a sua obra poética. Foi editado em 1969.
Wikipédia/Joaquim Magalhães/JDACT