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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

António Arroyo: A Viagem de Antero de Quental à América do Norte. Parte VI. «Deste conjunto de qualidades e da sensatez do seu lúcido espírito resultou a confiança que nele depositava Antero. No convívio dum tal companheiro, adquiria ele uma constante e harmoniosa serenidade. Via-o com os mesmos olhos com que observava o público das suas conferências»

Cortesia de mundolusiada

«Chegados ao Porto, (O Carolina entrou a barra do Douro a 19 de Novembro de 1869, como se lê no Primeiro de Janeiro do dia 20; e completou a sua descarga no 1º de Dezembro seguinte, Jornal do Porto). Antero desembarcou e ali ficou. Negrão seguia por terra para Lisboa. E o «Carolina» descarregava o trigo ensacado que nada sofrera com a viagem. O aparecimento do barco surpreendeu porém em alto grau o nosso meio marítimo. Viera notícia da data em que ele saiu de Brooklyn; pouco depois chegavam ao Porto outras notícias assustadoras acerca da grande tormenta em que, nos quatro dias seguintes ao da partida, haviam naufragado, na costa da América, 132 embarcações, entre grandes, pequenas e de pesca. E todos imaginaram que o nosso «patacho» se perdera. Por isso, quando chegou a Lisboa, Joaquim Negrão não estranhou, embora muito o contrariasse, a carta que ali veio encontrar e em que seu pai, com a máxima energia, lhe ordenava a venda do navio e a desistência da vida do mar.

O «patacho» foi vendido por mil libras esterlinas, dois contos de reis de lucro. Para Negrão grande foi porém o desgosto de se ver coagido a renunciar a uma vida que tão bem quadrava ao seu feitio e às suas aspirações de viajante. Ainda assim só desistiu após alguns dias de luta; porque teve, ao mesmo tempo, de abandonar o transporte dum carregamento de carne salgada, que contratara da América do Sul para a Índia e, graças ao qual, havia sonhado visitar mais tarde a China e Japão! ...
Os fretes deram-lhe sempre largamente para as despesas de viagem… E, entretanto, acabou-se a história.

Cortesia de trintaanosdepois

Joaquim Negrão, nessa época, continuou a encontrar-se em Lisboa com Antero de Quental que, até um dia, lhe fez uma confidência deveras interessante. Saía Negrão do Martinho e, em sentido contrário, vinha o poeta pelo ‘Rocio’. Mas vinha furioso.
Fora, com o João de Deus, a um tasco comer feijão encarnado. Conversaram ambos muito e este último, com a vivíssima intuição que possuía, achava rapidamente, para certos problemas que preocupavam Antero, soluções que este nunca entrevira. E, depois de afirmar a Negrão que não poderia encontrar-se mais com João de Deus, Antero acabou por dizer:
- Quero evitar o domínio do espírito de outra pessoa sobre o meu. Tanta rapidez de percepção incomoda-me.
Com Negrão é que ele nunca teve a menor questiúncula. Concorria para isso a grande serenidade, o ânimo simples, bondoso, atraente e jovial do capitão do ‘Carolina’. Homem sóbrio e equilibrado, destituído do menor exagero em todo o seu modo de sei, mas possuindo o segredo da decisão oportuna e calma, Negrão era o companheiro ideal para o nevrótico, para o dispéptico irritável que sempre foi Antero. Depois, sem nunca ser perdulário, gostava de viver bem, com largueza. E finalmente impunha-se, sem violência alguma, a toda a tripulação, sendo aliás afectuoso e delicado para com todos. Deste conjunto de qualidades e da sensatez do seu lúcido espírito resultou a confiança que nele depositava Antero. No convívio dum tal companheiro, adquiria ele uma constante e harmoniosa serenidade. Via-o com os mesmos olhos com que observava o público das suas conferências; e falava-lhe correntemente, sem nunca gesticular, conservando na mão um lápis ou uma varinha feita de papel, em que de continuo passavam os seus dedos. Diz-me ainda o snr. Mariano Machado de Faria e Maia que Antero tinha na mais alta estima o carácter direito, ousado e aventureiro até, de Joaquim Negrão.


Cortesia de antoniocarneiro e lutadoresdarepublica

Qual porém teria sido, para Antero, o resultado da sua viagem à América? Suponho. que excelente sob qualquer dos dois aspectos porque a encaremos: o da saúde. física e o do conhecimento da língua alemã.

Quanto ao primeiro, recordo-me de ver Antero durante talvez uma hora inteira, poucos meses depois do seu regresso de Nova York, e de lhe não notar sintoma algum da fadiga e da fraqueza que o acompanharam em toda a viagem transatlântica. Ele examinou-me em ‘Historia’, no liceu do Porto, aí por Junho ou Julho de 1870. Lembro-me até que me interrogou sobre a invasão mourisca da Espanha; e que, enquanto eu toscamente lhe despejava em cima o ‘Eurico’ do Herculano, ele me observava com a máxima atenção e me prendia no puro e raro azul, sereno, profundo, dos seus olhos (A página 147 do “In Memoriam”, de João Machado de Faria e Maia refere-se aos «claros olhos verdes» de Antero. Eu não tenho porém apenas razões particulares para sustentar a cor azul; tenho a confirmação de muitas pessoas que o conheceram, entre os quais a do snr Mariano Augusto Machado de Faria e Maia, tio do João, a página 438 também do “In Memoriam: «os seus belos olhos azues como o céu»). E pode ser que, naquele momento, estivesse pensando se a romântica narrativa que eu procurava reproduzir não era tão verdadeira como o mais bem documentado dos tratados, a mais autêntica das crónicas. Facto é que nem um só instante me interrompeu; e que me aprovou.

Nunca mais o vi; mas nessa ocasião fiquei convencido de que ele não era um doente. A sua maior vida mental realizou-se efectivamente depois dessa data,. E a viagem teria porventura produzido nele, em todo o seu organismo, uma reacção salutar, uma vitalidade geral superior à que revelava no ano da ida à América.nNegrão pensa também que ele melhorou bastante depois da viagem. Mas a plena confirmação do que eu afirmo é dada por Alberto Sampaio nas seguintes palavras que se encontram a página 21 do “In Memoriam”:
  • «Esta viagem, num meio todo familiar, com os milhares de incidentes e vagares da navegação à vela, que lhe davam opportunidade de philosophar, tirandn-o durante alguns, me-es d'estes estreitos horisontes, fez-lhe sem duvida um effeito saudável (62)».
In António Arroyo, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2.

Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

António Arroyo: A Viagem de Antero de Quental à América do Norte. Parte V. «...a maior dificuldade que teve a vencer resultaria pois da distância relativamente pequena a que estava do banco, quando o mau tempo o alcançou. Segundo a «Lei das tempestades», o navio, enquanto pudesse, devia fugir a sotavento para se afastar do centro do ciclone»

Cortesia de mundolusiada

«Mas um outro episodio, semelhante a este, porque ao primeiro aspecto, o trágico, sucedera um segundo agradável, deu-se com o cão de bordo, um terranova comprado em Halifax, e que Halifax se ficou chamando. Numa volta de mar, que o arrastara, desaparecia o lindo bicho; uma outra devia porém tê-lo posto a bordo, porque mais tarde foram encontrá-lo, muito escondido com susto, no fundo do virador colhido. Negrão, quase ao findar do temporal, desconfiando, pela altura da vaga, que o navio tivesse caído muito e se achasse próximo do banco, foi ter com Antero para lho dizer.
Este continuava impassível a ler e a consultar os livros alemães, e olhou para o amigo na mais completa indiferença, sem ideia de qualquer coisa a recear. Apesar de isso o capitão preveniu-o de que talvez se achassem sobre o banco.
— E se lá chegarmos?... perguntou Antero.
— Desfaz-se tudo, não escapa nada.
— Pois então, quando você vir que isso está vai não vai para acontecer, venha dizer-mo, ou mande cá. Verdade, verdade, eu não ganho nada com isso. Mas venha sempre; talvez até eu -lá chegue acima. Depois resolverei conforme me achar.
E continuou a ler.
Negrão subiu ao convés. Vinha nesse momento tomar o leme um velho marinheiro que andara já à pesca do bacalhau e conhecia aquelas paragens. Quando passou pelo capitão, disse-lhe:
— Quem vê partir este mar há-de dizer que o fundo não está muito longe.
—Você está doido! bradou Negrão.
Qual fundo nem meio fundo! Quando eu julgar preciso, logo aviso.
— Peço perdão, senhor capitão.

Mas o desânimo já ia lavrando entre a marinhagem que até pensou em oferecer a vela grande à Senhora da Conceição. Pelas duas horas da manhã começou porém a abater o vento e a abonançar. Foram largando algum pano para impedir que o navio continuasse a cair. Por fim, virando o vento, meteram de todo ao mar e viram-se livres de perigo. Negrão descia novamente à câmara de Antero para lhe comunicar a boa nova.
—Amigo, desta escapamos nós.
—Está bem.
Tais foram as únicas palavras que o poeta pronunciou. «Evidentemente ele não tinha o menor receio da morte, como mais tarde demonstrou», diz-me Joaquim Negrão.

Nova York
Cortesia de artgeist

Parece que o nosso «patacho» atravessou de feito um ciclone, mas no seu ramo menos violento. Por quarenta graus de latitude, penso eu que essas tempestades não conservam já a energia atingida no seu ponto de formação, a zona tórrida, visto como ganham em amplitude à maneira que avançam. Mas a viagem realizou-se em Setembro e, nesse mês, mais ainda em Agosto e bastante menos em Outubro, é que as estatísticas registam maior numero de ciclones no hemisfério boreal. Além de isso, a descrição do capitão do navio parece concordar com o que o estudo da «Lei das tempestades» nos ensina a tal respeito. Julgo porém necessário dizer em breves palavras como se constitui um ciclone para se compreender a situação em que se encontrou o «Carolina».
Os ciclones, segundo se pensa, formam-se geralmente por 10 graus de latitude e são constituídos por uma espécie de furacão giratório, animado de grande velocidade, cujo centro segue uma trajectória parabólica, com vértice voltado a oeste, entre 20 e 30 graus de latitude. O movimento de rotação, no hemisfério boreal, faz-se por norte, oeste e sul, isto é, em sentido inverso do dos ponteiros dum relógio. O temporal em questão tem pois dois lados: o perigoso, ou da direita, para o observador que olha no sentido da sua marcha, no qual se adicionam as duas velocidades, de translação e de rotação; o «manobrável», (no tempo da navegação á vela o lado que hoje se designa por manobrável, era, ao que parece, chamado lado velejável), ou da esquerda, em que as duas velocidades se subtraem.
Ora, atendendo ao que nos diz o capitão do «Carolina», este achava-se no lado «manobrável»; a maior dificuldade que teve a vencer resultaria pois da distância relativamente pequena a que estava do banco, quando o mau tempo o alcançou. Segundo a «Lei das tempestades», o navio, enquanto pudesse, devia fugir a sotavento para se afastar do centro do ciclone. Mas, nesse caso, era lançado sobre o banco onde fatalmente naufragava. Viu-se pois forçado a receber o vento por estibordo, e a aguentar-se por forma que caísse o menos possível para oeste, sem contudo fugir do temporal.

Joaquim Negrão

Antero de Quental
Cortesia de antoniocarneiro e lutadoresdarepublica

Eis o que parece depreender-se dos dados colhidos na narrativa do capitão e do pouco que se sabe acerca destes meteoros, que ainda assim vai muito além do que eu sei.
É certo que a extrema violência e a natureza desse temporal parecem confirmar-se pela seguinte noticia que encontro no «The Illustrated London News» de 23 de Outubro de 1869: On the 2nd and 3rd inst. a tremendous storm of wind and rain visited a large área of the United States. There were floods in all directions, from Washington to Philadelphia, Albany, and Syracuse. Landslips are also reported, and great damage has been done, bridges broken down, lines of railway urecked and swamped at different points, and houses and workshops thrown down».
Dir-se-ia que, conforme acontece muitas vezes com os verdadeiros ciclones, em terra e a certa distância do centro principal, se formou um centro ciclónico secundário que, desde Washington, caminhou também para norte até Albany e Syracuse, portanto entre 39 e 44 graus de latitude, ganhando sucessivamente em amplidão e perdendo-se por fim.
O enciclopédico «Larousse» diz-nos que, nas zonas temperadas, os ciclones perdem, a maior parte das vezes, os seus caracteres especiais, confundindo-se então com as tempestades dos respectivos países; á maneira que avançam, acrescenta, vão alargando e enfraquecendo. Não deixa porém de lembrar que eles pertencem aos fenómenos meteorológicos regionais e dependentes das estações. Por outro lado, é certo que o «Carolina» se encontrava na região percorrida por esses temporais e na estação em que eles mais se produzem.
Interessante, portanto, seria apurar, nos registos dos observatórios, nos diários de bordo, nos relatos de viagens e até nos jornais da América do Norte, tudo quanto se relacione com este temporal em que, por um triz, não naufragou o «patacho Carolina», capitão Joaquim de Almeida Negrão, levando a seu bordo Antero Tarquínio de Quental.

A partir desse momento, a viagem fez-se sem perigo, sem nada de maior, mas sempre com ventos contrários, o que a tornou muito longa e incómoda. Gastaram nela 52 dias ao todo. Em virtude da deslocação do trigo, inevitável apesar da divisória longitudinal do porão, o meio fio, e das precauções tomadas, o navio adornou, (O meu sempre modesto dicionário parece considerar, neste caso, o verbo adornar como corruptela de adernar, que define: meter-se debaixo de agua. Quero crer que assim seja e até gosto mais da segunda forma. A significação é que me parece trágica de mais. O navio, quando aderna ou adorna, apenas tomba para um lado, mas nem a borda mete dentro de água. Pelo menos, com estes ares é que tenho visto empregado o termo em questão) sempre um pouco para bombordo.
Antero continuava enjoado na câmara a estudar alemão. Só se levantou em Portugal, a não ser quando tomava banho. Chegara a tal magreza, por nunca reter os alimentos, que Negrão temeu um desenlace fatal. Recorreram por isso aos banhos rápidos de imersão em água salgada fria que lhe davam dois homens de bordo. Pegavam nele e levavam-no nos braços, completamente nu, até á banheira improvisada e, logo que o tiravam de dentro, davam-lhe uma fricção em todo o corpo «com mão de marinheiro».
Antero achava muita graça ao caso que parece ter-lhe aproveitado; de facto, ele só retinha a refeição, leite ou farinha, que tomava sobre o banho. Repunha todas as outras (56)». In António Arroyo, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2.

Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

António Arroyo: A Viagem de Antero de Quental à América do Norte. Parte IV. «...o vento acalmava completamente, mas o barómetro descia sempre e o aspecto do céu era cada vez pior. ...Perderam a gávea logo no começo, mais tarde foi-se a vela grande e descoseu-se o estai; mas iam-nas substituindo como podiam...»

Cortesia de mundolusiada

«Entretanto o navio contratava em Brooklyn carga completa de trigo ensacado para o Porto e, concluído o carregamento, fazia-se de vela em direcção à invicta cidade da Virgem. Foi isto em fins de Setembro.
Ora, paralelamente à costa oriental da América e a menos de um grau, corre um banco de areia submersível, cortado, proximamente a meio, no espaço duma milha. Navegaram pois para o Norte, ao longo da costa e á distancia dumas 5 ou 6 milhas, com o fim de contornar o banco nesse ponto e aí tomarem o mar alto. O vento era firme, da terra; mas o barómetro pôr-se a descer dum modo assustador. No horizonte, a sueste, pequenas nuvens acobreadas, anunciando forte tempestade. Era de tarde, quase ao sol posto.

Joaquim Negrão
Cortesia de antoniocarneiro

Negrão disse então ao piloto:
  • Se venta de sueste ficamos sem nos poder safar da costa.
  • O caso não me parece sério, objectou o piloto. Não vê todos esses navios que seguem connosco no mesmo sentido?...Viam-se efectivamente uns vinte barcos, entre grandes e pequenos. Negrão, entretanto observou-lhe:
  • Talvez você tenha razão. Mas eles são de aqui, conhecem os buracos da costa e sabem onde se abrigar, se precisarem. Nós é que não estamos no mesmo caso.
E, debaixo desta impressão, afastaram-se mais de terra, sondando sempre á procura do intervalo existente entre os dois troços do banco. Não havia arrebentação. Ao cabo de certo tempo encontraram o ponto desejado e meteram para fora, saíram para o mar alto. E, como quem foge. foge quanto pode pondera Negrão, mandou largar todo o pano. Foi fugir a valer, aproveitando o vento de terra que continuava soprando. Para a noite até refrescou um pouco. E correram para fora quanto puderam, conseguindo, aí da uma para as duas horas da madrugada, achar-se a mais de sessenta milhas do banco.
Foi o que lhes valeu.

Nova York
Cortesia de artgeist

Nesse instante o vento acalmava completamente, mas o barómetro descia sempre e o aspecto do céu era cada vez pior. Ferraram todo o pano, ficando apenas em panos reais. Até que o navio de todo parou.
De repente ouvia-se porém ao longe um ruído estranho. Era a entrada do novo vento de sueste que lhes caía em cima «como uma trombada». O patacho que, como se sabe, era um magnífico barco, resistiu sem contudo lhe dar a popa. Temiam ficar a sotavento. E assim se aguentaram umas setenta horas, que foi quanto durou o ciclone. O vento conservou constantemente a mesma força e impetuosidade. Como é de supor, a tormenta veio acompanhada do habitual cortejo de raios, chuva e remoinhos de vento que rondava, repetidas vezes durante um quarto de hora, por oeste e sul. Perderam a gávea logo no começo, mais tarde foi-se a vela grande e descoseu-se o estai; mas iam-nas substituindo como podiam. A vaga, que era enorme, varria, de quando em quando o convés, e até o arrombou por cima da câmara do capitão, inundando-a; como já havia arrombado uma caixa que fora trazida do porão, onde, imitando o celebre canhão de Victor Hugo, andava dum lado para o outro, a fazer das suas. A caixa, que ficara desde então fortemente amarrada ao convés, deu lugar a um valente susto por que se passou a bordo.

Cortesia de trintaanosdepois

As bombas, como é natural, funcionavam sempre; e, num dado momento, vieram dizer ao capitão que aágua trazia trigo consigo. Parecia pois que o mar por completo invadira o barco. Mas Negrão pôs-se a observar detidamente o trabalho das bombas e reparou, ao cabo dum certo tempo, que já não saía trigo. Foi o caso que, depois de se proceder ao carregamento das sacas, um marinheiro, ou mais, tendo varrido e apanhado o grão que sempre cai nessa ocasião, o havia guardado, para dar ás galinhas de bordo e juntamente com outros objectos, na caixa que trouxeram para o convés e que uma pancada de mar reduzira a bastilhas. E foram os grãos que lá estavam, espalhados novamente na coberta, que as bombas expulsavam de envolta com a água do temporal». In António Arroyo, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto.


Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

António Arroyo: A Viagem de Antero de Quental à América do Norte. Parte III. Enquanto esteve em Nova York teve por vezes ensejo de manifestar a sua timidez

Joaquim Negrão
Cortesia de antoniocarneiro

«... Foram directamente a Halifax, gastando 28 dias até lá, sem um só instante terem vento favorável (1).
Antero foi quase todo o tempo enjoado, apesar do navio ser muito estável, de dançar pouco. Não lhe foi possível habituar-se ao balanço e, por via de regra, estava deitado (2).
________________

(1) Leio no Comércio do Porto, ano de 1869, que o Carolina chegara ao Porto a 3 de Junho, completando a descarga a 15; e que partiu para Nova York a 7 de Julho, com vários géneros. Isto confirma a narrativa de Joaquim Negrão e o que Alberto Sampaio disse a pág. 21 do In Memoriam. «Por equívoco de datas tão natural nele, (Antero) colocou-a (a viagem à América) na auto-biografia em 1868, mas a verdade é que teve lugar em 1869».
(2) A pág. 446 do In Memoriam, o snr. Batalha Reis fala-nos deste mesmo estado de fraqueza : « O Antero já então (de 1868 para 1869) caminhava pouco, cedendo gradualmente a um estado mórbido intermitente ainda, mas que às vezes, por dias, o impedia de bem se alimentar, e o conservava invalido, deitado de costas sobre a cama, a ler, a cismar, a conversar, a discutir, puxando incessantemente pelos cabelos das barbas, ... e os olhos cerrados, dirigidos vagamente ao tecto, como que perdidos numa visão longínqua». E o snr. dr. Manuel de Arriaga, a pág. 106 da mesma obra, referindo-se a uma noite por ele passada com Antero nas alturas do Cabo Mondego, a bordo duma lancha de pesca, com um mar calmo, duma ardência excepcional, conta como «Antero sucumbiu. A ondulação repetida da vaga, o cheiro nauseabundo do peixe, a debilidade pertinaz do estômago, o frio da noite, prostraram-no completamente. As ânsias do enjoo que por vezes o acometeram, obrigaram-nos a instar com os barqueiros para voltarmos a terra». Mas Antero opõe-se e não o consentiu. Suportou muitas horas de tortura com perfeita serenidade, até ao romper da alvorada!
_____________
A cabeça, porém, sempre livre. De propósito nada levara para trabalhar, nem queria escrever coisa alguma. Negrão é que possuía alguns livros, comprados em Hamburgo, no ano anterior, e destinados ao estudo da língua alemã: gramática, selectas, dicionários. Antero viu-os e perguntou-lhe se se utilizava deles. E, como a resposta fosse negativa, levou-os para a sua câmara e, durante toda a viagem, estudou-os, tomando notas de quando em quando. Dizia que esse estudo não era fatigante porque o não obrigava a pensar. Os seus nervos vibravam contudo duma forma agudíssima, e o seguinte facto demonstra-o bem. Toda a península da Nova Escócia é uma região baixa, coberta de densas florestas de pinheiros, abetos e outras árvores semelhantes. Ora, num dado momento, como soprasse vento de terra, Negrão sentiu o aroma dos pinhais e disse que deviam estar perto da costa. O que Antero se apressou a confirmar:
  • —Já ha muito tempo que me cheira a resina. Não há dúvida.
Todavia só quatro horas depois é que avistaram terra.

Cortesia de mundolusiada
A chegada do Carolina a Halifax coincidiu com a estada ali de uma alta personagem oficial que muito deu que fazer às gentes da terra. Havia grandes festejos, muita tropa nas ruas, muito tiro a bordo dos navios de guerra e multidões por toda a parte. Tudo isto irritava Antero que não gostava de festas, nem de, barulho. Passaram pois alguns dias a bordo, onde sempre tiveram câmaras confortáveis e bom passadio. Apesar de isso Antero continuava a alimentar-se mal e a ter digestões dificílimas.
Partido o figurão e sossegada a terra, começaram os dois companheiros de viagem a passear pela cidade, dando-se então um episódio curioso com o poeta, momento único de mau humor durante mais de quatro meses, desde a abalada da Foz até ao regresso. Passou-se o caso com uma espécie de cicerone, Mr. X, que lhes havia sido recomendado pelo consulado.

Halifax
Cortesia de membersvirtualtourist
Este homem, às primeiras entradas, era todo facilidades fosse para o que fosse. Assim, falava-se uma vez do veado gigante das regiões do norte, o alce, e alguém disse que, em certo lugar próximo de Halifax, havia muitos desses animais. Negrão que, como já se viu atrás, era grande caçador, sentiu logo desejos de ir caçá-lo e Mr. X apressou-se a assegurar-lhe que podia arranjar uma partida e reunir índios para os acompanharem; e até se ofereceu para os levar ao ponto indicado.

Assente o dia do passeio. Negrão e o cicerone meteram-se numa carruagem e seguiram para lá. Antero não ia porque detestava tais divertimentos. Ora, a meio caminho, já Mr. X prevenia Negrão de que aquela caça era muito perigosa; ao que este respondeu:
  • —Não tem dúvida, eu atiro. E, demais, sou eu que caço; se não quiser, não venha.
Chegados ao local em que deveriam encontrar os alces, encontraram mas foi um índio vestido à europeia com o qual Mr. X esteve falando, provavelmente na língua autóctone. Negrão não entendeu a conversa. Pouco depois vinha porém o cicerone, assaz pesaroso, dizer-lhe que os alces se tinham retirado e que não podia haver caçada …
Negrão, a troco de duas garrafas de brandy, comprou ao índio um arco com suas flechas e um tomahawk.
E voltaram para Halifax.

Cortesia de lutadoresdarepublica
De outra vez, os dois amigos passeavam em companhia de Mr. X, quando se cruzou com eles uma mulher elegantíssima, moça e formosa, que olhou para Antero com insistente simpatia, talvez seduzida pelo seu aspecto verdadeiramente insinuante. E é para notar que também ele ficou impressionado: achou a mulher encantadora, mostrando desejos de saber quem era. Mr. X afirmou desde logo que a conhecia pessoalmente e que, se o poeta quisesse, poderia apresentá-lo. E combinaram a apresentação. Mas, quase à hora aprazada, aparecia Mr. X muito consternado, desculpando-se de não poder acompanhar Antero: a linda moça era sobrinha dum amigo seu, o grão mestre da Maçonaria, e o nosso homem não queria comprometê-la.
Antero, cuja admiração pela mais bela metade do género humano não pecava por frequência, ficou todavia furioso e com vontade de dar duas bofetadas no aldrabão do cicerone.
Não as deu contudo. Sossegava pouco depois e de todo esquecia a linda senhora.
Da sua estada na Nova Escócia reteve porém Antero uma recordação luminosa e doce que Eça de Queiroz assim descreve a pág. 499 do In Memoriam:
  • «Percorre a costa da América até á Nova Escócia; e aí, um domingo, tem uma visão que nunca esquece, a duma cidade puritana (Halifax ou Lunenberg), silenciosa, como adormecida no Senhor, toda de tijolo cor de rosa sob um céu cor de pérola, com fundas avenidas mais pensativas que as dos Elyseos onde os namorados passeiam, numa mudez de sombras, de dedos enlaçados, de pálpebras baixas, respirando sem outro desejo a flor da sua emoção. Quantas vezes Antero me contava dessa piedosa e suave cidade, e do longo apetite que ela repentinamente lhe dera de quietação eterna!»
Alberto Sampaio, a pág. 21 do mesmo livro, atribui à passagem por Halifax e Nova York, onde Antero «viu a grande democracia americana», e à «exuberância da sociedade que acabava de visitar», as disposições em que meses depois ele se encontrou para se lançar na propaganda socialista.
Em Halifax, o navio meteu gesso para Nova York, e ali chegou com uma viagem de sete a nove dias.

Nova York
Cortesia de artgeist
Antero sentia-se algum tanto melhor; ficava porém quase sempre a bordo. Por vezes gostava de passear no Central Park que, embora nesse tempo distasse da cidade mais dum quilómetro, já tinha esse mesmo nome. Sabia-se que ele em breve havia de ser, como foi ou é, o ponto central da localidade. Estava então ali instalada uma exposição industrial, onde funcionavam e produziam todas as máquinas expostas. Antero passava horas esquecidas entretidíssimo a observar os vários trabalhos.
Enquanto esteve em Nova York teve por vezes ensejo de manifestar os seus constantes escrúpulos e a sua timidez.

Uma tarde, na Exposição, o seu amigo e companheiro pensou em adquirir uma máquina de fazer café, que o fazia efectivamente delicioso. Mas a máquina era muito cara. Negrão e Antero provaram contudo a excelente bebida, fornecida gratuitamente ao público numas xícaras pequeninas. Voltaram no dia seguinte e repetiram a prova. Ao terceiro dia, porém, Antero imaginou que o homem olhava para ele atentamente. É porque já devia conhecê-lo. E não tomou mais café. Negrão, contudo, verificou que era impossível, dada a multidão que diariamente passava por ali, conhecer o homem todas as pessoas que se lhe dirigiam e a quem ele explicava a teoria da máquina. Porque lhe explicou várias vezes, sem nunca se recordar de que já o havia feito. E Negrão provava sempre o café.

Cortesia de trintaanosdepois
De ali em diante rarearam os passeios de Antero, e Negrão começou a suspeitar que se lhe teria acabado o dinheiro trazido do Porto. Foi pois ter com ele e, humanamente, pôs a sua bolsa à disposição do poeta. Mas Antero negou-se a aceitar: não sabendo se lhe poderia pagar, suspeitando até que morreria em breve, só aceitava a hospedagem a bordo. Essa sim, dinheiro por forma alguma. E não houve meio de o demover de tal resolução.

Ele ... desejara fixar-se na América, trabalhando fosse no que fosse; e chegou a proporcionar-se-lhe forma de o conseguir em termos razoáveis. Por intermédio dum empregado do nosso consulado, veio a saber da existência, em Nova York, dum banqueiro riquíssimo que tinha importantes negócios no Brasil e queria dar a dois filhos seus o completo conhecimento da língua portuguesa. O milionário receberia em sua casa o professor, com o ordenado que combinassem; a demora era de dois para três anos e Antero, se quisesse aceitar a oferta, podia marcar um preço elevado. Disse ao principio que sim, que aceitava e que iria, de ali a pouco, combinar as condições do contracto. Mas, dias depois, como se achasse mais doente e receasse não ter forças para bem desempenhar o cargo de professor, declarou que desistia, que declinava a oferta. Sentia-se ao mesmo tempo irascível e impaciente, sem a necessária serenidade para aturar rapazes.

E, já por falta de dinheiro, já por falta de forças, deixou de visitar Nova York, onde pouco viu. Resignado, ficava a bordo, todo entregue ao alemão». In António Arroyo, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto.

Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

António Arroyo: A viagem de Antero Quental à América do Norte. Parte II

Cortesia de mundolusiada

A Viagem de Antero de Quental à América do Norte
A António Sérgio, filosofo, poeta e lobo do mar

.... Os seus temperamentos eram muito dessemelhantes. Antero ingénuo, leal e arrebatado; Germano por vezes áspero, mas sempre penetrante, e aproveitando cruamente as fraquezas ou ingenuidades do adversário. Entre o cajado de Antero e o florete de Germano, aparecia porém a Senhora da Graça, o João de Deus, a serenar os combatentes.
À mesa do hotel as questões eram de outro género e intensidade. Entre os comensais encontrava-se o snr. Mateus, homem muito eloquente e possuidor de copiosos conhecimentos, sofregamente absorvidos no celebre Manual enciclopédico de Monteverde. Sabia-o todo de cór. Este estranho personagem, de tão intensa madureza, respeitava enormemente o Antero, tinha por ele verdadeira veneração e, sempre que se lhe dirigia, tratava-o por V. Exa, snr. dr. Antero. Não fazia porém o menor caso de João de Deus, que morria a rir de prazer. Na ausência, chamava-lhe: «O outro, o que faz versos. Aquilo não rende nada». E, voltando-se para Negrão, acrescentava:
- Se o snr. quer fazer fortuna, eu dou-lhe uma carta para um primo que tenho em Africa e verá o que aquilo é. Versos, não caia nessa, isso não rende nada.
Quando alguém, quasi sempre de propósito, fazia uma afirmação absurda, ele intervinha logo:
- Perdão, perdão, isso não vem no Manual.
Mas ás vezes não saía espontaneamente e era necessário chamá-lo a debate, encargo este que competia a Negrão. Porque, como o homem não tomava João de Deus a serio, e Antero, na sua qualidade de centro nobre, estava naturalmente reservado para as grandes soluções finais, só restava em actividade armada o Joaquim Negrão.

Joaquim de Almeida Negrão
Retrato feito em Londres em 1870, meses depois da viagem à America do Norte
António Carneiro


O homem falava um dia no movimento da Terra e este objectou-lhe que isso era uma mentira empregada para facilitar o ensino na escola.
- A verdade, que aliás toda a gente sabe, continuou Negrão, é que a Terra está imóvel. Se ela andasse com a velocidade que você diz, nem as aves se atreveriam a levantar vôo, porque não poderiam regressar ao ninho, nem a pedra que você deitasse ao ar voltaria ao sitio de onde fora lançada.
O pobre diabo embatocou com o velho e fradesco argumento. Antero porém acudiu era seu auxilio:
- Não se perturbe com a observação.
Em garoto atirava eu ao ar muitas pedras que vinham sempre cair no mesmo ponto de onde eu as arremessava. É certo porém que este mundo se compõe de muitos garotos e que se não pode saber ao certo de qual era a pedra. Ha sempre duvidas a este respeito.
- Perdão, snr. Doutor, peço perdão desta vez, apressou-se o homem a observar, se bem que muito a custo. É que eu tinlia uma tia que me dava todas as suas luvas velhas; e, quando atirava pedras ao ar, envolvia-as primeiramente na pele das luvas, cosia-as e escrevia-lhe o meu nome por fora. E elas vinham cair-me aos pés.
- E o senhor afiança que a pedra tinha sempre o seu nome? perguntou Antero solene e aparentemente surpreendido pela singular objecção.
- Sim snr., afirma o homem, categórico e preciso.
- Nesse caso, confessa por fim Antero depois de reflectir um momento, não sei o que hei-de responder! ...

Cortesia de paulocampos

Mas o mais interessante de todos esses episódios deu-se entre os três escritores : - Germano, Antero e João de Deus. O redactor do Janeiro, necessitou de passar alguns dias numa aldeia próxima do Porto e pediu a João de Deus que o substituísse no serviço da redacção. Este anuiu, mas aproveitou o ensejo para aplicar uma tareia no Bispo, cujo partido politico Germano defendia nas colunas do jornal.
Então só se pensava em dar cabo do deficit, reduzindo os ordenados aos funcionários públicos e lançando novos tributos. E João de Deus, indignado com a forma que havia sido empregada na aplicação de certas contribuições, dizia ao Alves Martins que ele poupara os abades e os seus passais porque lhe tocava pela port ; que só fora rigoroso com o alheio.
Volta Germano e zanga-se com o poeta «que o entalára»; ao mesmo tempo, passa o encargo ao Antero e parte de novo para a aldeia. Mas este tratou. logo de escrever um artigo pavoroso, de caráter pelo menos  francamente socialista, no qual zurzia todos os .bandos políticos.
Germano regressou de vez, riu-se e reconheceu que não podia sair do Porto.

Cortesia de lutadoresdarepublica 

Terminado o carregamento. Negrão foi ao Governo Civil declarar que levava um passageiro a bordo. Não deu porém o nome. Naquele tempo, as prescrições que se observavam em tais casos eram menos rigorosas do que as de hoje.
O patacho estava ancorado defronte da Alfandega Velha. Mas, como a maré fosse tarde, levou-o o rebocador para fora da barra, fundeando o navio ali, á espera da entrada do capitão e do passageiro no dia seguinte. Em terra, na Cantareira, ficara um escaler para os levar a bordo.

No dia seguinte, de manhã cedo, João de Deus, Antero de Quental e Joaquim Negrão, com a bagagem do primeiro, tomavam uma carruagem e mandavam bater para a Cantareira. O mar estava o mais chão possível e na foz do rio notava-se apenas uma suave ondulação. Entretanto João de Deus, fitando-a atentamente, perguntou:
- Mas olha lá, o escaler tem de transpor aquelas ondas?
- De certo, não pode deixar de ser, respondia Negrão, algo surpreendido.
- Pois então, meu amigo, não vou!

Cortesia de trintanosdepois

O capitão ainda teimou com ele. Mas, como Antero lhe fizesse vêr o estado do João, nervoso, pálido e com o olhar espantado, e lhe pedisse para não insistir, calou-se. E ia voltar ao Porto, a dizer que o passageiro não seguia a bordo, quando Antero lhe perguntou se ele, no Governo Civil, dera o nome de João de Deus.
- Que não; indicara apenas um passageiro.
- Nesse caso, se você não tem duvida, vou eu em logar do João.
Negrão anuiu e os dous poetas regressaram juntos ao Porto. Antero, logo em seguida, voltava só para a Foz, com a sua bagagem ... e embarcava.
In António Arroyo, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto.

Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

António Arroyo: A Viagem de Antero de Quental à América do Norte. Parte I

(1856-1934)
Cortesia de mundolusiada

A Viagem de Antero de Quental à América do Norte

A António Sérgio, filosofo, poeta e lobo do mar.
Muitas vezes ouvira referencias à viagem que, na companhia dum amigo seu, capitão de navios, Antero de Quental fizera aos Estados Unidos, quando esta designação apenas se aplicava á grande republica norte-americana. E, ha alguns anos, sucedeu-me até ser apresentado a «O homem que levou o Antero á America».
 - Aqui o tem você ! ...
Após a intimativa destas duas frases curtas e sugestivas, fiquei-me a olhar para ele, enleado pela bondade jovial e simples com que me recebia; e quando, seguidamente a esta apresentação, nos encontrávamos os dois, conversávamos sempre dos amigos comuns, assim como de Antero e João de Deus. Vai porém em trez ou quatro mezes fez-me ele um primeiro relato da viagem a que tanta vez haviam aludido deante de mim. Mas não pude, nessa ocasião, tomar nota alguma; porque estávamos no Rocio e eram as horas excitantes, genesiacas, em que a chusma da burocracia esmagada pelo trabalho e a onda do madamismo trabalhado pela burocracia se cruzam nos passeios da capital. Pedi-lhe pois que me permitisse ir a sua casa, a fim de colher os elementos indispensáveis para uma descrição exacta dos sucessos ocorridos nessa ida e volta transatlântica. Acedeu desde logo; e ontem lá fui bater à sua porta, na Rua de S. Paulo. Recebeu-me afectuosamente e contou-me o que eu agora confio aos meus estimáveis leitores, procurando comunicar à prosa o sabor salgadio que toda a narrativa marítima deve ter, e que de facto tinha a que ele me fez.
Não vão porém lançar á conta de abuso a pormenorisada exposição de casos anteriores à viagem de Antero propriamente dita, embora na aparência pouco ligados com ela. É indispensável fazê-la para bem caracterisar as cousas e as pessoas de que aqui devo ocupar-me. Porque, embora se não trate de fenómenos sobrenaturais, certo é que quasi tudo quanto vou expôr contrasta acentuadamente com a soma e nada interessante monotonia nacional.

Joaquim de Almeida Negrão
Retrato feito em Londres em 1870, meses depois da viagem à America do Norte.
António Carneiro

Em fins de 1867 arribou a Portimão um patacho americano que vinha da Sicilia com fogo a bordo. Era um excelente barco, ainda novo, construido no Canadá quatro ou cinco anos antes e medindo 273 metros cúbicos de arqueação, umas quatrocentas toneladas métricas. Como fosse de enxofre toda a carga, meteram-no no fundo, logo que ele entrou a barra. Mas, uma vez extinto o incêndio, levantou-se questão entre as companhias de seguros e os donos do navio, ou os consignatários da carga, em virtude da qual foi esta retirada para outro barco, a fim de se vender o patacho em hasta publica.
Realizou-se a praça em principios de 1868, sendo na opinião geral muito baixa a base de licitação. E realisou-se no ponto onde tinham depositado o espolio e mais pertences do navio, no antigo Largo do Cais, hoje Praça do Visconde de Bivar, que já então era um centro de reunião e passeio muito concorrido.
Ao principio haviam sido formados vários lotes, de entre os quasi chegara a ser adjudicado um composto da roda do leme e de vários pertences pequenos. Pensou-se porém que este processo não daria bons resultados; e, como alguém sugerisse a ideia de se reunirem todos os restantes lotes num só, assim o fizeram, julgando preferível.
E tudo isso foi posto em praça pela quantia de 2.500$000 réis aproximadamente.
Durante uma boa meia hora não apareceram licitantes. Dir-se-ia que ninguém ousava abrir os lanços. Mas evidentemente era necessário abri-los, fosse como fosse, sem o que poderia eternisar-se a arrematação.
Estava ali, por acaso, conversando com varias pessoas e com o juiz que presidia à praça, a quem conhecia pessoalmente, o snr. Joaquim de Almeida Negrão que, ao tempo, era um moço de 28 anos, solteiro, grande pescador, marinheiro por atavismo e caçador. Vivia em casa de seu pae, proprietário local e rendeiro do conhecido capitalista José Maria Eugénio de Almeida; auxiliava-o nos seus trabalhos, levando aliás vida folgada e divertindo-se á larga (1).
Joaquim Negrão, despedindo-se do juiz, e quando ia ter com uns amigos que passeavam no largo,  sugestionado por alguém que lhe disse: «lance você», intendeu cobrir com cem reis a base da licitação; mas fê-lo convencido de que apenas abria a serie dos lanços.
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(1) No In Memoriam, a pag. 454, escreve o snr. Jayme Batalha Reis: «N'esses tempos (1868 a 1872) que, esteve em Lisboa, ia muitas vezes comnosco, ao João de Deus, o Joaquim Negrão, - o pescador de atum, artista, negociante, aventureiro, romântico, e capitão de navios com quem o Anthero fez a viagem de
Nova York.
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Ficou portanto muito surpreendido quando, decorrida outra meia hora, veiu um oficial de deligencias procurá-lo ao passeio, «da parte do snr. dr. Juiz», e dizer-lhe que este o esperava para assinar o termo da arrematação.
Havia-lhe sido ajudicado o lote inteiro! . .
E atrapalhou-se um pouco: já porque não tinha dinheiro para satisfazer o compromisso, contraido de mais a mais sem autorisação paterna, já porque, não pagando dentro das vinte e quatro horas, era fatalmente capturado. E, naquele primeiro momento, nem se lembrou de que, dias antes, em casa de seu pai, ouvira dizer que a avaliação do navio tinha sido muito baixa. Dirigiu-se porém imediatamente ao juiz e pediu-lhe que anulasse o lanço. Mas era impossível : tratava-se dum facto publico e notório. Teve pois de contar o caso ao pai, suavisando todavia o golpe com um certo numero de considerações: afinal o barco era bom e barato, e, quando convenientemente reparado e arranjado, poderia vender-se sem perda alguma, senão até com lucro. O pai concordou; pagava o navio no dia seguinte e, logo depois, mandava proceder a concertos.
Comprador é que não aparecia. Resolveu-se por isso levar o patacho aos nossos portos maiores o vendê-lo aí. Mas, a fim de evitar despezas, o navio metia carga de figo para o Porto e para lá seguia com José da Silva Ribeiro por capitão. A bordo ia também Joaquim Negrão, matriculado como sobrecarga.
O patacho nacionalisára-se, passando a chamar-se Carolina, não se sabe bem porquê.
No Porto entregaram a carga ao destinatário, sem contudo poderem encontrar comprador para o navio. Sucedia o mesmo que no Algarve. O que, todavia, não contrariava Negrão, que de lá partira com a idea fisgada de gozar o barco em proveito próprio.

Cortesia de paulocampos

Entretanto ele não perdia o seu tempo:  - tomava lições particulares com um preparador de náutica. Deve dizer-se que Negrão não era noviço em pilotagem quando ali chegou. Quatorze ou quinze anos antes, tendo já o 3.° ano dos liceus, havia viajado a bordo dum outro navio, também pertencente a seu pai, e visitado, entre outras terras, a Madeira, Barbados e Demerara. O piloto de então, por nome Mascarenhas, era um empirico boçal e indolente. O rapaz foi aprendendo todo o serviço de marinheiro e seguidamente o de piloto. Além de isto, graças ao conhecimento que tinha de Aritmética e Geometria, e da Geografia, conseguiu sem dificuldade trabalhar com as Taboas de Norie, em cuja introdução, consagrada á arte de navegar, adquiria conhecimentos profissionais muito superiores aos do piloto Mascarenhas. E, durante o regresso a Portugal, foi já ele que fez todas as observações de bordo.
Sucedia ainda que, havendo sido educado no colégio dos Inglezinhos, em Lisboa, falava correntemente a lingua franceza e a ingleza, ensinadas por professores dos respectivos paizes.
Com uma tal preparação e com as lições particulares de náutica a que me referi, apresentou-se a fazer exame de piloto perante a Intendência de marinha, o que era permitido ao tempo. Para este facto concorreram ainda dois outros motivos: em primeiro lugar, Negrão estava descontente com o capitão de bordo, o Silva Ribeiro; além de isso conhecia pessoalmente o intendente de marinha e poude expôr-lhe francamente a necessidade em que se achava de despedir o homem. E assim fez, logo que o aprovaram no exame e lhe passaram carta provisória de pilotagem. A tripulação ficou porém toda com ele.

Antero de Quental
Cortesia de lutadoresdarepublica

Mas, como disse, no Porto não se encontrou comprador para o barco, sendo novamente preciso tomar carga. E, aparecendo em Viana do Castelo um carregamento de madeira com destino a Málaga, para lá se dirigiu Negrão capitaniando o Carolina. De Málaga voltou em lastro a Portimão; mas logo aí metia carga de cortiça preparada, para Rotterdam e Hamburgo. Visitou a Holanda. Seguiu depois para o porto alemão e percorreu uma grande parte da região do Elba. De ali, com um carregamento de garrafas, garrafões e outros vidros, foi a Newcastle-on-Tyne, de onde regressou a Lisboa com carvão.
Fez ainda duas viagens pequenas: uma, de Lisboa para Portimão, com cortiça em bruto; outra, de Portimão para o Porto, com carga de figo. E foi então que empreendeu a sua maior viagem. Já de todo lhe passara a ideia de vender o Carolina. No Porto, em meados de 1869, recebia carga de sal, cebola, etc, para Halifax, na Nova Escócia, costa oriental do Canadá.

João de Deus
Cortesia de trintanosdepois

Ora, desde Maio ou Junho desse mesmo ano de 1869, João de Deus achava-se em Lisboa, num estado que hoje se diria de neurastenia. Necessitava mudar de ares e de vida. Negrão, que era seu amigo de tu ha muitos anos, e que também viera a Lisboa enquanto o navio no Porto metia carga, viu-o e convidou-o a acompanhá-lo á America. O poeta sempre desejou visitar os Estados Unidos. E, como o capitão do Carolina esperasse, com as recomendações que tinha para o nosso cônsul em Halifax, obter carga deste ponto para os portos da grande republica norte-americana, aceitou o convite.
Negrão regressou ao Porto e, quando se aproximava o dia da partida, escreveu. João de Deus foi para a capital do norte em companhia de Antero de Quental, alojando-se ambos no Hotel do Estanislau, à praça da Batalha, onde residia Germano Vieira de Meireles, redactor do Primeiro de Janeiro e grande amigo de Antero dos tempos de Coimbra.

Cortesia de caxinasafreguesia

Foi de algumas semanas a sua estada no  Porto. Vários amigos vinham, de quando em quando, passar uns dias com os dois poetas ao hotel; entre eles, Negrão lembra-se do Alberto Sampaio, de Guimarães, o futuro autor das Vilas do norte de Portugal, já hoje falecido como quasi todos os demais. Durante essas semanas passaram-se porém com uns e outros as scenas mais divertidas.
Rara era a noite em que Antero e Germano não tinham uma discussão violentíssima que terminava duma forma sempre engraçada. Dormiam ambos no mesmo quarto e davam-se como irmãos (2). Chegados ao quarto, começavam conversando tranquilamente; mas a pouco e pouco iam perdendo a serenidade, já altercavam com calor. Do tu cá, tu lá, passavam ao você, até terminarem, no auge da contenda, em V. Exa. diz, faz ou acontece.
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(2) As filhas de Germano Vieira de Meireles, como se sabe foram as herdeiras dos bens de Antero de Quental.
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Nesse ponto intervinha João de Deus:

- Oh! menino, Oh! menino!...
Antero metia-se então na cama, apagava a luz e dizia sacudidamente:
- Boa noite.
E Germano, sentando-se á mesa, punha-se a encher linguados para o jornal. In António Arroyo, University of Califórnia Libraries, PQ 9261 Q34Z5ar, AA 000 453 081 2, A Viagem de Antero de Quental à América do Norte, Edição da Renascença Portuguesa, Porto.

Cortesia de University of Califórnia Libraries/JDACT

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

António Arroyo: «O caso do monumento ao Marquês de Pombal».

Cortesia de Paulo Campos

António ArroyoO caso do monumento ao Marquez de Pombal, Lisboa, Tipographia «A Editora Limitada», 1914.

Com a devida vénia ao Arquivo Histórico (Madeira) de Paulo Campos.

«O Marquez alterou esse modo de ser e deu á cidade um caracter civil. Já algures disse que a Razão d'Estado domina toda a sua obra, E isso vê-se desde logo no traçado da nova cidade. A entrada é pelo caes das columnas. Grandiosa praça regular, quasi quadrada e lançada ortogonalmente sobre a margem do rio, na parte mais avançada para o sul. É a antiga plaza miayor peninsular, a grande place de francezes e flamengos, que agora podemos chamar máxima porque aparece consagrada, não ao municipio, mas ao Estado que se reorganisa e ás suas mais altas estações dirigentes. A Arcada procede desse tipo.

De sul a norte da cidade correm as três ruas eguaes e equidistantes que incidem sobre ela; mas na central, ao entestar com a praça, pousa um grande arco de triunfo. A meio do terreiro central ergue-se a estatua do Rei. Toda a arquitectura é simples, de linhas rectas e de caracter solene. O monumento a meio do terreiro, notável jóia de arte, é de um equilibrio e de uma linha fina inexcediveis. Não muito alto, mas admiravelmente proporcionado ao conjuncto que ele incontestavelmente completa, esse monumento é porventura o mais notável exemplar do género do mundo inteiro. Nâo me refiro como é natural á estatua equestre que o coroa; mas sómente á totalidade da obra, ao seu arranjo, á sua excelência arquitectónica, e á relação em que essa obra está para com tudo quanto a cerca. E, sendo fria e académica toda a escultura ornamental, esse arranjo é tão feliz, e tão superior a beleza do traçado arquitectural, que o pormenor decorativo não lhe diminue em nada o forte e nobre sentimento que o anima.

Cortesia de Paulo Campos
A impressão dessa praça é pois de grande solenidade, mas é ao mesmo tempo isenta da frieza que em geral
caracterisa a obra d'arte oficial; mas é certo também que todo esse arranjo de ordem civil que toma agora a
cidade nova devia contrastar singularmente com o aspecto anterior ao terramoto. Assim se devolveu a cidade de Lisboa, levada pelo impulso pombalino para as terras altas da Avenida; e da rotunda superior, irradia ela novamente em todos os sentidos para, na qualidade de cidade de mármore que é, se integrar constantemente na formula de Pombal e na formula de HerculanoA mais bela de todas as cidades.
 
António Arroyo continua com o seu desenvolvimento:
O monumento tinha necessariamente de encerrar o conjunto dos três temas expressivos a que atrás me referi: ser um organismo forte e valioso, simbolisar o trabalho productor do nosso povo e coroar dignamente a bela cidade reconstruída pelo marquez, no ponto culminante d'onde a vemos desenrolar-se até á borda do Tejo, até ao logar em que ele levantou, ao rei que lhe deu força para realisar a sua obra, um monumento de inexcedivel beleza.
 
Mas emfim o júri, na sua alta sabedoria, não discutiu. Não discutiu e enganou-se. E' incontestável. Porque, ao passo que todos encontram uma enorme superioridade ao monumento que obteve o 2.° premio sobre o primeiro premiado, que verbalmente e por escripto o afirmam sem a menor hesitação, ninguém se apresenta a defender a obra que o júri preferiu. O monumento que obteve o 1º premio é uma obra mal concebida e concebida a frio, sem caracter, sem significação, feita principalmente de bocados ligados apenas materialmente uns aos outros. Mais afirma António Arroyo na capa do livro: Errare humanum est, perseverare autem diabolicum (Errar é humano, perseverar, porém, é diabólico).
 
O 2.° premio encerra uma ideia que julgo absolutamente pombalina. A estatua do terrível marquez aparece bem á frente, em atitude independente, erecta e forte, dominando de cima o conjunto da sua obra, com uma decisão no aspecto que se não desmente nem se esquece um só instante, mas num plano inferior á estatua da Pátria, colocada no vértice mais alto do monumento.
 
Cortesia de Paulo Campos
«O monumento de Marques da Silva e Alves de Sousa é belo e tudo nele é belo. Dir-se-ia nascido dum jacto, como Minerva da cabeça de Júpiter, ou que as mãos dos artistas o moldaram febrilmente, nalguns segundos. Ha nele uma unidade impressionante. Eu não gosto de vêr simbolisar a grandesa magnânima dos heróis na ferocidade bruta do leão. Mas Alves de Sousa não aproveitou os leões como simples elemento decorativo. Humanisou-os um pouco. Eles simbolisam também, e admiravelmente. Pombal, a sua ferocidade, a sua energia, a sua grandeza imponente e brutal. E quantas coisas belas realisou na inconsciência criadora do génio e que a critica depois descobre pacientemente. Colocando a figura de Pombal á grande sombra da Pátria, reduziu essa figura ás suas justas proporções. Pombal regou com sangue a sua obra, que por isso não frutificou. E como é grande e admirável a figura da Pátria. Como sâo injustas e estreitas as criticas que para ahi se ouvem, em palestras! A figura da Pátria é pombalina, solene, robusta, majestosa e friamente convencional. Modifiquem-na um pouco, dê-se um pouco mais de originalidade e de veemência a essa matrona pomposa e ela será o digno coroamento daquela obra sublime». In António Arroyo, «O caso do monumento ao Marquês de Pombal».
 
Cortesia de Paulo Campos

Cortesia de