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domingo, 31 de dezembro de 2017

No 31. Sonetos. Antero de Quental. «E a mim, a quem deu olhos para ver-te, sem poder mais... A mim o que me há dado? Voz que te cante e uma alma para amar-te!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
o que fada o poeta e o soldado
volveu a ti o olhar, de amor velado,
e disse-te: vai, filha, sê formosa!

E tu, descendo na onda harmoniosa,
pousaste neste solo angustiado,
estrela envolta num clarão sagrado,
do teu límpido olhar na luz radiosa...

Mas eu... Posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! O que é vedado,
anjo! Deu-te o Senhor um mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
sem poder mais... A mim o que me há dado?
Voz que te cante e uma alma para amar-te!»

«Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvário?
Porque deixas que, aos poucos, do sudário
te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugiu, que assim perdida
buscas em vão neste ermo solitário?
Que signo obscuro de cruel fadário
te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! Intacto o bem em si assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura:
bênçãos te manda o Céu em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,
que só no teu olhar leio a ventura,
se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?»

«No Céu, se existe um céu para quem chora,
céu para as mágoas de quem sofre tanto...
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
chama que brilha, mas que não devora...

No Céu, se uma alma nesse espaço mora,
que a prece escuta e enxuta o nosso pranto...
Se há pai, que estenda sobre nós o manto
do amor piedoso... Que eu não sinto agora...

No Céu, ó virgem! Findarão meus males:
hei-de lá renascer, eu que pareço
aqui ter só nascido para dores.

Ali, ó lírio dos celestes vales!
Tendo seu fim, terão o seu começo,
para não mais findar, nossos amores»

«Aquela que eu adoro não é feita
de lírios nem de rosas purpurinas,
não tem as formas lânguidas, divinas,
da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
compõe filtros mortais entre ruínas,
mem a Amazonas, que se agarra às crinas
dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
com o nome que dê a essa visão,
que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
ideal, que nasceu na solidão,
nuvem, sonho impalpável do Desejo...»

Sonetos de Antero de Quental, in “Farol das Letras

JDACT

terça-feira, 21 de março de 2017

Odes Modernas. Dia Mundial. «Impulso universal!, forte e divino, aonde quer que irrompa!, e belo e augusto. Quer se equilibre em paz no mudo hino…»


jdact


Antologia. Panteísmo
«Aspiração..., desejo aberto todo
numa ânsia insofrida e misteriosa...
A isto chamo eu vida: e, d’este modo,

que mais importa a forma? Silenciosa
uma mesma alma aspira à luz e ao espaço
em homem igualmente e astro e rosa!

A própria fera, cujo incerto passo
lá vaga nos algares da deveza,
por certo entrevê Deus, seu olho baço

foi feito para ver brilho e beleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
tia alma turva, ó grande natureza!

Sim, no rugido há uma vida ardente,
uma energia íntima, tão santa
como a que faz trinar ave inocente...

Há um desejo intenso, que alevanta
ao mesmo tempo o coração ferino,
e o do ingénuo cantor que nos encanta...

Impulso universal!, forte e divino,
aonde quer que irrompa!, e belo e augusto.
Quer se equilibre em paz no mudo hino

dos astros imortais, quer no robusto
seio do mar tumultuando brade,
com um furor que se domina a custo;

quer durma na fatal obscuridade
da massa inerte, quer na mente humana
sereno ascenda à luz da liberdade...

É sempre eterna vida, que dimana
do centro universal, do foco intenso,
que ora brilha sem véus, ora se empana...

É sempre o eterno gérmen, que suspenso
no oceano do Ser, em turbilhões
de ardor e luz, evolve, ínfimo e imenso!

Através de mil formas, mil visões,
o universal espírito palpita
subindo na espiral das criações!

Ó formas!, vidas!, misteriosa escrita
do poema indecifrável que na Terra
faz de sombras e luz a Alma infinita!

Surgi, por céu, por mar, por vale e serra!
Rolai, ondas sem praia, confundindo
a paz eterna com a eterna guerra!

Rasgando o seio imenso, ide saindo
do fundo tenebroso do Possível,
onde as formas do Ser se estão fundindo...

Abre teu cálix, rosa inalterável!
Rocha, deixa banhar-te a onda clara!
Ergue tu, águia, o voo inacessível!
[…]

In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas

JDACT

domingo, 22 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (V)
«(…) O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso..., tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras, ideal.
Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal.
Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas lettras; para merecer os encomios dos grammaticões e o assombro dos burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrucção publica, um Christo, um Socrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal, mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm idêas, mas têm palavras quantas bastem para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são methaphysicos, não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se compreenderem, e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas ha uma falta tão completa d'essas incomprehensibilidades, que deve pôr muito á sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem idêas, boa, excellente receita para não cahir nas nebulosidades do ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos, menos as idêas: e é v. ex.ª um grande homem, menos o ideal.
Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo, mas é amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro, o espirito e a consciencia humana triumphando da matéria e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é que isto é sublime...
Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª.»
Coimbra, 2 de Novembro de 1865
Nem admirador nem respeitador
Anthero do Quental.

In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

sábado, 21 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos..., decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!»

Cortesia de wikipedia, bnp e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (IV)
«(…) Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma; requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos semsabores; não é com idyllios grotescos sem expressão nem originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos avós; com phrases e sentimentos postiços de academico e rhetorico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias mysticas de frades estonteados; com banalidades; com ninharias; não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e as pessimas idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a ignorancia e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o methaphysico, é o inatingível, diz v. ex.ª.
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de Berlim, são as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incomprehensiveis e ridiculas, são methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes são risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes genios modernos são grotescos e despreziveis aos olhos baços do banal metrificador portuguez.
O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação original, immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a philosophia allemã, a critica franceza, o positivismo, o naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creações da alma moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma semcerimonia com que elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do Gremio, da Revista Contemporanea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova eschola historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com os sabios; com os genios; vai com a França; vai com a Allemanha, mas que importa?, não vai com o sr. Castilho!, não vai com o novo methodo repentista!, não vai com o moderno folhetim portuguez!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da natureza, tira-te do meu sol! O mythologo do diccionario da fabula diz ao profundo descubridor da Symbolica, és um ignorante! A rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno, cala-te d'ahi, papelão!
É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir..., é a methaphysica..., é o ideal...
O ideal! palavra mystica; de gothica configuração; quasi impalpavel; espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e que enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra pessima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos..., decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (III)
«(…) As grandes, as bellas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, bello e grande. Mas a condição da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira e indispensavel condição, não é o talento, nem a sciencia, nem a experiencia: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como illustres, nem á opinião, á critica sem sciencia nem consciencia das turbas, do maior numero, deve pedir conselhos e approvação, mas só ao seu entendimento, á sua meditação, ás suas crenças. Nesta eschola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sêde de verdade, de consolações, de ensinos para a intelligencia e confortos para o coração.
No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa de incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não pulpito aonde se suba com respeito e amor, no peito d'esses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e miseria. Esses lisongeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. Lisongeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum applauso de momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vicio humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em que dão que falar ás gazetas, aos botequins, aos gremios, a todos os vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo quanto não seja a satisfação do que ha no homem de mais pequeno, a vaidade e o interesse.
Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez, mas a estima dos melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse d'uma consciencia superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As idêas serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a augmentar o seu bem proprio. Vivem na região das bençãos, escutando as palavras da bôcca invisivel, e com os echos d'essa voz celeste compõem os hymnos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; não incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram honrados. Foram simples.
A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originaes e dizem sempre alguma cousa nova á nossa curiosidade de saber. Porque dão com a elevação das vidas confirmação á sublimidade dos escriptos. Porque são tão poeticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo á luz e ao amor novos horisontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do genio e o coração da innocencia. É por isso tudo que lhes chamo poetas.
Os outros adoram a palavra, que illude o vulgo, e desprezam a idêa, que custa muito e nada luz. São apostolos do diccionario, e têm por evangelho um tractado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção litteraria, porque se presta á declamação poetica, mas practicam o egoísmo por indole e por vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sophismas que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as apparencias são todas de nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dicto ha mil annos, e fazem-nos duvidar se o espirito humano será uma estéril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os idolos litterarios da multidão que mal sabe ler. São os philosophos queridos da turba que nunca pensou. São, emfim, genios no Brasil como v. ex.ª.
Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril para o espirito. Sôa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessarias outras e melhores obras.
Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do eu ás tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da edade de transformação dolorosa, de scepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso seculo. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas idêas. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações da consciencia. Ha toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir uma humanidade viva, sã, crente e formosa.
Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras opulentas? dos corrilhos do  elogiomutuo? Sahirão as aguias das capoeiras? Saltarão as idêas salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horacio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das prebendas, das explorações?
Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano». In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. « Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?»

Cortesia de wikipedia, bnp e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (II)
«(…) Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime, commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as idêas: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas: e essas taes são imperdoaveis. Innovar é dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos. Isto, sim, que é intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás armas, ergamonos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!...
V. ex.ª fez-se chefe d'esta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pezames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprézo e esqueço, como escriptor é que não posso calar-me; porque atacar a independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos, é não só offender o que ha de mais sancto nos individuos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade, o futuro. É seccar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e socego. E atrophiar as idêas e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.
O contrario d'isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. É um sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independencia de espirito, toda a despreoccupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da náo por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior d'uma alma que só vê e busca o bem, o bello, o verdadeiro.
Este é o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre, ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força propria, servo de alheias idêas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma. Como se havia elle pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua bocca cahissem sobre as cabeças como uma chuva benefica e fecundante? Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no gremio dos senhores, seria um aleijão e não gigante, um aborto em vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a todos com a fronte, andaria sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Elle, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia elle allumiar o dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam, nós só lhe queremos puchar as orelhas!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (I)
«Exmo Sr.
Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes ilustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso. Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.
Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias, ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.
A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, accresce um outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque é um dever, uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ella que me manda fallar. Não que a justiça e a verdade se offendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.
Não é isso o que as offende. Mas as idéas que estão por de trás dos homens; o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma grande doença moral accusada por uma pequenez intellectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, d'esta terra, reveladas pelas miserias, tão merecedoras de despreso, dos que cuidam dominal-a; isso é que afflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para a elevar até á altura d'uma questão de principios, e que dá ás ridiculas chufas, que entre si trocam uns tristes litteratos, todo o valor d'uma discussão de philosophia e de historia.
Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos espertissimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes, a boa-fé. Á luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima acção, digna de toda a importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a deshonesta acção de v. ex.ª.
Porque é uma acção deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idêa. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsavel por seus actos e palavras...
Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam, nós só lhe queremos puchar as orelhas!» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «A sua primeira obra, Phebus Moniz, data de 1876 e é nitidamente influenciada pelo primeiro romantismo, em especial pelo estilo romance histórico à la manière de Herculano»

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Antero de Quental ou o Mestre Metafísico
«(…) O satanismo pode dizer-se que é o realismo no mundo da poesia. É a consciência moderna (a turva e agitada consciência do homem contemporâneo!) revendo-se no espectáculo das suas próprias misérias e abaixamentos, e extraindo dessa observação uma psicologia sinistra, toda de mal, contradição e frio desespero. É o coração do homem torturado e desmoralizado, erigindo o seu estado em lei do Universo... Antero evoca então Baudelaire como símbolo de um século fantasma, tão sábio que é ateu. Estava, assim, a condenar o conhecimento. No entanto, é em nome do conhecimento, e do conhecimento activo, aberto ao maior número, que Antero profere, a 22 de Maio de 1871, a conferência inaugural das Conferências do Casino e ainda, a 27, outra sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
Esta fase activa de Antero prolonga-se até 1873, ano da morte do pai. Antero, que passara já por uma fase de depressão após a queda da Comuna de Paris e a consolidação em Portugal da corrente republicana contra a corrente socialista, regressa aos Açores. A partir de então, cessa o seu militantismo, à parte uma breve e decepcionante adesão à Liga Patriótica do Norte, fundada após o Ultimatum inglês de 1890. Recorramos ainda a Eça para melhor compreender esta última fase da vida de Antero. O artista, o fidalgo, o filósofo, que em Antero coexistiam, não se entenderam bem com a plebe operária. Sempre sincero, lavou as suas mãos e proclamou que só os Proletários eram competentes para exprimir o pensamento e reivindicar o direito dos Proletários. E, amando ainda os homens, mas desistindo de os conduzir a Canaã subiu com passos desafogados para a sua alta torre bem-amada, a torre da Metafísica.
O mestre da Geração de 70 torna-se então, definitivamente, um mestre metafísico. E também um grande mestre do soneto, forma que, sendo estrita, tão plenamente acompanha o tumulto íntimo da derradeira fase da vida do poeta. Nesses sonetos, Antero concentrou não só as contradições da sua obra (acrescentada ainda pelo ensaio Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX, 1890) mas também as da sua vida, à qual, após um isolamento voluntário em Vila do Conde, pôs termo, com um tiro de pistola, num banco de jardim de Ponta Delgada, numa noite sombria, a 11 de Setembro de 1891.

Oliveira Martins ou o teórico da decadência
Se há geração cultural portuguesa para a qual a história representou um absoluto, e precisamente um absoluto antes de mais cultural, foi a Geração de 70. Dela teria, portanto, de nascer um historiador. Esse historiador foi Oliveira Martins, ainda que ele nada tenha, como veremos, de historiador de formação científica no sentido moderno do termo. E, no entanto, como veremos também, a sua actualidade é incontestável. É mesmo, talvez, maior do que a do seu mestre, Alexandre Herculano, de longe mais sistemático do que Oliveira Martins.
Autodidacta, Oliveira Martins, nascido em Lisboa (1845) de uma família burguesa intelectualizada, não teve como Antero e Eça uma vida de boémia universitária nem a sua obra partiu de uma revolta contra as instituições em que tivesse sido educado. Ainda muito novo, com quinze anos, após a morte do pai, Oliveira Martins teve de começar a trabalhar como empregado do comércio. A sua primeira obra, Phebus Moniz, data de 1876 e é nitidamente influenciada pelo primeiro romantismo, em especial pelo estilo romance histórico à la manière de Herculano. E digo à la manière porque só mais tarde Oliveira Martins assimilou esse romantismo histórico de Herculano em profundidade, fundindo-o com outras tendências culturais e libertando-se da mera imitação dramática.
Para esta evolução da sua obra contribuiu de uma maneira decisiva o contacto que Oliveira Martins teve com o grupo do Cenáculo. Ao princípio, interessa-se mais por Teófilo Braga e pelas suas teorias comtianas, publicando um opúsculo que lhe é consagrado: Teófilo Braga e o Cancioneiro (1869). Mas acaba por se ligar intimamente a Antero de Quental, quer como amigo quer como investigador da história, optando assim por uma tendência ideológica socialista contra o jacobinismo. Um texto de 1870, A Teoria do Mosarabismo revela-nos bem esta viragem. Criticando a História da Literatura Portuguesa de Teófilo Braga, Oliveira Martins escreve, atacando, como Nietzsche, o espírito germanófilo-prussiano, mas, afinal, defendendo aquilo que na Alemanha de Goethe permanece essencial para toda a Europa do século XIX: Entre os moços espíritos que o germanismo conquistou está o Sr. Teófilo Braga. Teutómano, tomou para si o papel de representar entre nós principalmente os defeitos da Alemanha contemporânea. Como publicista as suas ideias resultam da impressão vaga e nebulosa da demagogia académica do símbolo de Hambach: acabar com a monarquia e com o fisco (!) eis a revolução política; como filósofo e como historiador, as conclusões deste ensaio são a sua condenação; como crítico e como moralista talvez ainda um dia pegue na pena para o estudar; como erudito, finalmente, todos os seus trabalhos estão profundamente viciados por esse grande defeito que, segundo nos diz Renan, ataca a ciência alemã, a febre de anunciar descobertas, de ir além e contra os mestres, e por isso se reduzem a um dilúvio de teses temerárias e paradoxais.
A colaboração íntima com Antero de Quental manifesta-se ainda na organização do movimento socialista em Portugal e na redacção dos jornais O Pensamento Social e A República (1870-1873). São da mesma altura e do mesmo teor doutrinário os livros: Teoria do Socialismo, evolução política e económica das sociedades na Europa e Portugal e o Socialismo, ambos de 1873». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do ICamões/JDACT

A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «Para citar ainda Eça a propósito de Antero, o protesto do poeta açoriano “foi moral, não literário, um desforço da Consciência e da Liberdade”, contra o déspota do purismo e do léxicon. Pouco depois da publicação do folheto “Bom senso e bom gosto…”»

jdact

Antero de Quental ou o Mestre Metafísico
«(…) Ou ainda neste soneto, datado de 1872 e igualmente inserido posteriormente nos Sonetos Completos. O título, Mais luz!, sendo uma referência evidente às últimas palavras que se supõe ter pronunciado Goethe antes de morrer, confirma a influência predominante da cultura romântica alemã em Antero:

«Amem a noite os magros crapulosos,
e os que sonham com virgens impossíveis,
e os que se inclinam, mudos e impassíveis,
à borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
e o meio-dia, em vida refervendo,
e a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
seja-me dado ainda ver, morrendo,
o claro Sol, amigo dos heróis!»

Esta forma de romantismo, em especial a influência de Heine e uma outra que se lhe sobrepõe em alguns poemas, a de Baudelaire, vai notar-se ainda mais nas Primaveras românticas (1872), da mesma maneira que as teorias filosóficas básicas de Hegel, já evidentes em textos como Tese e antítese, se manifestam ao longo de todo o volume dos Sonetos Completos, publicado em 1885. Entretanto, esta poesia moderna que para Antero é a voz da Revolução, sendo essa voz não só a mais alta mas também a mais poética, fere os sentidos poéticos do pontífice máximo das letras da Coimbra de então, António Feliciano Castilho, mentor dos ultra-românticos. Tendo Castilho condenado formalmente os livros de Teófilo Braga e de Antero, o poeta das Odes Modernas lança-se numa polémica que ficou famosa com a publicação do opúsculo Bom senso e bom gosto, em 1865.
Para citar ainda Eça a propósito de Antero, o protesto do poeta açoriano foi moral, não literário, um desforço da Consciência e da Liberdade, contra o déspota do purismo e do léxicon. Pouco depois da publicação do folheto Bom senso e bom gosto, tendo-se formado em Direito, Antero, nada feito para estas polémicas meramente literárias, deixa Coimbra. Andava então ansiosamente procurando um emprego para a sua grande alma. E julgou encontrá-lo numa aprendizagem da vida de operário, num contacto directo com a realidade social, tendo primeiro trabalhado alguns meses nas oficinas da Imprensa Nacional e partindo depois, em fins de 1866, para Paris. Segundo António Sérgio, Antero escrevia a um amigo na véspera de partir: eu, por mim, vou mais com o ânimo sossegado de quem cumpre um dever do que com o coração alegre de quem segue uma esperança. Cumprir um dever foi para Antero, em Paris, trabalhar como tipógrafo e contactar directamente com um clima revolucionário em que as ideias se punham em prática, preparando a Comuna.
Mas, porque as ideias em Antero sempre suplantaram a prática, e porque o exílio, ainda que voluntário, não era nada propício ao seu temperamento nevrótico, a experiência de Paris e da vida dura do operário anónimo não durou mais que alguns meses. Em Agosto de 1867, Antero regressou a Lisboa e de Lisboa partiu para os Açores. Segue-se um período de funda depressão a que não será estranha a consciência de não poder conciliar pensamento e acção. Antero viaja até à América e, em fins de 1868, novamente em Lisboa, recomeça as tentativas de acção doutrinária. Ainda segundo Eça, tendo desembarcado em Lisboa como um apóstolo do Socialismo, Antero apareceu no Cenáculo da Travessa do Guarda-Mor numa fria manhã, e foi aclamado. Assim nasceram, no Cenáculo e sob a influência de Antero, que levava Eça e os seus companheiros a estudar Proudhon noite fora, as célebres Conferências do Casino, momento culminante da revolução cultural da Geração de 70. Além da preparação das Conferências, Antero lançava-se numa actividade política intensa: em colaboração com José Fontana, funda a Associação Fraternidade Operária, que representa em Portugal a I Internacional Operária; funda e dirige o jornal O Pensamento Social; luta pela separação socialistas-republicanos.
Mas, a par de tudo isto, deve notar-se a publicação de textos dessa época que nada têm a ver com o militantismo, e que reflectem bem as contradições de Antero ao longo de toda a sua vida. Refiro-me às pouco conhecidas poesias de Carlos Fradique Mendes, pseudónimo (ou melhor, verdadeiro heterónimo prépessoano) inventado por Antero e Eça. A primeira dessas poesias foi publicada no folhetim de A Revolução de Setembro de 29 de Agosto de 1869 e, como já foi provado, é sem dúvida da autoria de Antero. Note-se sobretudo o primeiro dos quatro Poemas do Macadam, atribuido por Antero a Fradique Mendes, dedicado a Baudelaire e publicado no Primeiro de Janeiro de 5 de Dezembro de 1869 (depois incluso na edição de 1943 das Primaveras Românticas). Eis como Antero, apresentando-o, define o satanismo». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do ICamões/JDACT

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sonetos. Antero Quental. «Ah! Se Deus a seus filhos dá ventura nesta hora santa… E eu só posso ser triste… Serei filho, mas filho abandonado!»

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Lamento (1860-1862)
«Um dilúvio de luz cai da montanha:
eis o dia! Eis o Sol! O esposo amado!
Onde há por toda a Terra num só cuidado
que não dissipe a luz que o mundo banha?

Flor a custo medrada em erma penha.
Revolto mar ou golfo congelado,
aonde há ser de Deus tão olvidado
para quem paz e alívio o Céu não tenha?

Deus é Pai de toda a criatura:
e a todo o ser o seu amor assiste:
de seus filhos o mal sempre lembrado…

Ah! Se Deus a seus filhos dá ventura
nesta hora santa… E eu só posso ser triste…
Serei filho, mas filho abandonado!»
Soneto de Antero de Quental, in ‘Sonetos Completos


In Antero de Quental, Sonetos Completos, 1886, Grandes Clássicos da Poesia, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT