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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Mundo na Era da Globalização: Parte V. «Contudo, onde as formas tradicionais de fazer as coisas se estão a diluir, há a sensação de que as pessoas não sabem o que estão a fazer; e isto porque o casamento e a família são instituições profundamente alteradas. Por isso, os indivíduos estão a partir do zero, como os pioneiros»

Cortesia de interpsic

«A nossa sociedade vive para lá do fim da natureza. O fim da natureza não significa, como é óbvio, que o mundo físico e os processos físicos tenham deixado de existir. Refere-se ao facto de agora existirem poucos aspectos do ambiente material que nos rodeia que não tenham sido afectados pela intervenção humana. Muitas das coisas que costumavam ser naturais já não são inteiramente naturais, embora nem sempre tenhamos possibilidade de distinguir onde acaba um dos estados e se inicia o outro. Em 1998, houve grandes inundações na China, nas quais se perderam muitas vidas. As enchentes dos maiores rios chineses têm-se repetido ao longo de toda a história do país. As cheias de 1998 foram normais ou foram influenciadas pelas mudanças climáticas a nível global? Ninguém sabe, mas estas cheias revelaram algumas características que não eram habituais e que sugerem que talvez estejamos perante causas não inteiramente naturais.
O risco criado não afecta apenas a Natureza, ou aquilo que costumava ser a natureza. Também se vai imiscuir em outras áreas da vida. Falemos, a título de exemplo, do casamento e da família, instituições que estão a sofrer transformações profundas em todos os países industrializados e, em certa medida, noutras partes do mundo. Há duas ou três gerações, quando as pessoas se casavam sabiam o que estavam a fazer; o casamento era, em grande parte, regulado pela tradição e pelos costumes, tinha semelhanças com um estado da natureza, o que de resto continua a ser verdadeiro em muitos países. Contudo, onde as formas tradicionais de fazer as coisas se estão a diluir, há a sensação de que as pessoas não sabem o que estão a fazer; e isto porque o casamento e a família são instituições profundamente alteradas. Por isso, os indivíduos estão a partir do zero, como os pioneiros.

Cortesia de wikipedia 

Nestas condições, quer eles tenham ou não consciência disso, começam a pensar mais e mais em termos de risco. Têm de se confrontar com futuros cada vez mais abertos do que no passado, com todas as oportunidades e incertezas que eles comportam.
À medida que o risco provocado pelo homem se expande, o risco torna-se mais «arriscado». O nascimento da noção de risco, como já afirmei, esteve estreitamente relacionado com a capacidade de cálculo. Muitos ramos de seguro baseiam-se directamente nesta correlação. Por exemplo: podemos calcular as hipóteses de uma pessoa sofrer um acidente de cada vez que ela entra num automóvel. É uma predição actuarial, baseada em estatísticas de muitos anos. As situações de risco provocado não são assim. Não conhecemos, nem por sombras, qual o nível de risco que enfrentamos e em muitos casos só conseguimos ter a certeza quando já é demasiado tarde.
O vigésimo quinto aniversário do acidente na central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, (comemora-se em Abril o 26º aniversário), foi um acontecimento não muito longínquo na memória. Ninguém conhece as consequências a longo prazo deste acidente. No futuro, curto ou médio prazo, numa data qualquer pode ou não vir a originar um desastre de saúde pública. Em termos de influência na saúde dos seres humanos, passa-se exactamente o mesmo em relação ao episódio da BSE no Reino Unido, ao aparecimento da chamada doença das vacas loucas. De momento, não temos a certeza de que a doença não vá provocar mais vítimas do que as já conhecidas.

Cortesia de wikipedia

Ou consideremos em que pé nos encontramos em relação às mudanças climáticas a nível mundial. Muitos cientistas versados na matéria acreditam que está a acontecer um aquecimento global e que são necessárias medidas para o contrariar. Todavia, há pouco tempo, em meados da década de 1970, a ciência ortodoxa dizia-nos que a Terra estava numa fase de arrefecimento global. Muitas das provas que serviram para apoiar a hipótese de arrefecimento da Terra, ondas de calor, seguidas de vagas de frio, condições de tempo não habituais, foram agora chamadas em defesa da tese do aquecimento global. Há um aquecimento global em desenvolvimento? Terá origens humanas? É provável, mas não sabemos ao certo e só teremos a certeza absoluta quando já for demasiado tarde.
Estas circunstâncias fizeram aparecer um novo clima moral na política, caracterizado por um jogo de puxa e empurra, por acusações de alarmismo, de um lado, e de ocultação de factos, do outro.
Se alguém, funcionário público, cientista ou investigador, considerar um risco como grave, o facto tem de ser dado a conhecer. Tem de ser intensamente publicitado para que as pessoas se convençam de que o perigo é, real, tem de haver espalhafato. Mas se houver muito barulho e depois se concluir que o risco é mínimo, as pessoas envolvidas serão rotuladas de alarmistas.
Mas suponhamos, pelo contrário, que as autoridades decidem inicialmente que o risco não é muito grande, como aconteceu com o Governo britânico no caso da carne de vaca contaminada. Neste caso, o Governo começou por dizer: estamos escudados na opinião dos cientistas; o risco não é significativo, qualquer pessoa que goste de carne de vaca pode continuar a comê-la sem preocupações. Nestas situações, se o caso muda de figura, como de facto aconteceu, as autoridades serão acusadas de ocultação de provas, como, na verdade, veio a suceder.

As coisas são ainda mais complexas do que podemos pensar depois de analisados estes dois exemplos. Paradoxalmente, o alarmismo pode tornar-se necessário para reduzir os riscos que enfrentamos mas, se for bem sucedido, parecerá exactamente isso: alarmismo. O caso da Sida é um exemplo. Para tentar que as pessoas alterassem os comportamentos sexuais, os governos e os especialistas fizeram muito barulho sobre os riscos em que incorre quem se entrega a práticas sexuais sem protecção». In Anthony Giddens, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 2ª edição, 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte IV. «… há que admitir que a ideia de risco sempre andou associada à modernidade, mas, na minha opinião, na época actual ela assume uma importância nova e peculiar. O risco era considerado um meio de regular o futuro, de o normalizar e de o colocar sob o nosso domínio. Mas as coisas não se passaram assim»

Cortesia de interpsic

Risco
«Mas a aceitação do risco é também um dos requisitos da excitação e da aventura. Pensemos no prazer que as sentem a jogar, a conduzir a alta velocidade, nas aventuras sexuais ou a mergulhar na montanha-russa de qualquer feira Além do mais, a aceitação positiva do risco é, a própria fonte de energia criadora de riqueza numa economia moderna.

As duas faces do risco, os seus lados positivo e negativo, apareceram durante a primeira fase da sociedade industrial moderna. O risco é a dinâmica estimuladora de uma sociedade empenhada na mudança, apostada em determinar o seu próprio futuro, em vez de depender da religião, da tradição ou dos caprichos da natureza. A atitude em relação ao futuro é o que distingue o capitalismo moderno de todas as formas anteriores de organização económica. As empresas e os sistemas de mercados eram de tipo irregular ou parcial. As actividades dos mercadores e dos que se empenhavam em trocas com o exterior nunca fez grandes mossas nas estruturas das civilizações tradicionais, que se mantiveram profundamente agrícolas e rurais. Ao calcular possíveis ganhos e perdas e, portanto, o risco, num processo contínuo, o capitalismo moderno coloca-se no futuro. Isto não era possível antes da introdução do sistema de partidas dobra das na contabilidade, que só se verificou na Europa do século XV; este sistema tornou possível definir a forma precisa de investir dinheiro para conseguir o maior lucro.

Cortesia de luisaleilamonteiro

Sem dúvida que há muitos riscos, os riscos de saúde, por exemplo, que pretendemos reduzir até onde podemos. É por isso que, desde as origens, a noção de risco deu origem à criação de seguros. E não devemos pensar apenas em termos de seguros privados ou comerciais. O Estado-providência, cuja evolução podemos seguir até à origem, às leis dos pobres da Inglaterra de Isabel I, é, na sua essência, um sistema de gestão de riscos. Destina-se a proteger as pessoas contra riscos que antes eram considerados como dependentes da vontade dos deuses: doença, invalidez, perda do emprego e velhice.
O seguro é a base a partir da qual as pessoas se preparam para assumir riscos. E uma base de segurança de onde o destino foi expulso por um contrato activo com o futuro. Como aconteceu com a noção de risco, os sistemas modernos de seguros começaram com a navegação. As primeiras apólices de seguros marítimos datam do século XVI. Uma companhia de Londres aceitou o primeiro seguro marítimo em 1782. A Lloyds, de Londres, adquiriu rapidamente uma posição dominante no negócio emergente dos seguros, uma posição que tem conseguido manter nos últimos dois séculos.

Cortesia de ordemnocaos

O seguro só tem razão de ser quando se acredita num futuro construído pelo homem. E um dos alicerces dessa construção. A actividade seguradora, como o próprio nome indica, serve para proporcionar segurança, mas, na realidade, alimenta-se do risco e das atitudes das pessoas em relação a ele. As instituições que proporcionam segurança, quer os seguros privados quer a assistência social, não fazem mais do que redistribuir o risco. Quando alguém faz um contrato de seguro para se proteger do fogo que lhe pode queimar a casa, o risco não desaparece. Por um prémio ajustado, o dono da casa transfere o risco para a seguradora. Esta transferência não é apenas mais uma característica da economia capitalista. Na verdade, sem ela, o capitalismo é impensável e não tem condições de funcionamento.

Por estas razões, há que admitir que a ideia de risco sempre andou associada à modernidade, mas, na minha opinião, na época actual ela assume uma importância nova e peculiar. O risco era considerado um meio de regular o futuro, de o normalizar e de o colocar sob o nosso domínio. Mas as coisas não se passaram assim.

As tentativas que fazemos para controlar o futuro acabam por se voltar contra nós, forçando-nos a procurar novas formas de viver com a incerteza. A melhor maneira de explicar o que está a acontecer é estabelecer uma distinção entre dois tipos de risco. A um, chamarei risco exterior. O risco exterior é o que nos chega de fora, das imposições da tradição ou da natureza. Quero distingui-lo do risco provocado que, para mim, é o risco resultante do impacte do nosso desenvolvimento tecnológico sobre o meio ambiente». In Anthony Giddens, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 2ª edição, 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte III. «A noção de risco, devo acentuar, é inseparável das ideias de probabilidade e de incerteza. O risco refere-se a perigos calculados em função de possibilidades futuras. Só tem uso corrente numa sociedade orientada para o futuro. O risco implica a existência de uma sociedade que tenta activamente desligar-se do passado - na realidade, a primeira característica da civilização industrial da era moderna...»

Cortesia de ordemnocaos

Risco.
«Serão as flutuações de temperatura (cai neve em áreas afectadas por "ondas de calor", neva em zonas onde nunca tinha ocorrido queda de neve) o resultado da interferência do homem com o clima mundial? Não podemos ter a certeza, mas temos de admitir essa possibilidade. Uma das consequências do desenvolvimento industrial global pode ter sido a alteração do clima, que também terá provocado bastantes mais estragos no nosso habitat terrestre. Não sabemos que outras mudanças teremos de suportar, ou os perigos que elas arrastarão consigo.
Podemos compreender estas questões se considerarmos que todas elas envolvem risco. Espero persuadi-los de que esta ideia, simples na aparência, põe a descoberto algumas das características fundamentais do mundo em que estamos a viver. À primeira vista, e quando comparamos a nossa situação com a que se viveu em épocas mais remotas, o conceito de risco pode parecer irrelevante. Ao cabo e ao resto, as pessoas sempre tiveram de enfrentar a sua quota-parte de riscos, não é verdade?

Cortesia de luisaleilamonteiro

Durante a Idade Média a vida da maioria dos europeus era sórdida, rude e breve, como ainda acontece em muitas das zonas mais pobres do mundo actual. Chegados a este ponto, deparamo-nos com algo verdadeiramente interessante. Postos de lado alguns contextos marginais, na Idade Média não existia o conceito de risco. E nunca existiu na maioria das culturas mais tradicionais, tanto quanto me é dado saber. A noção de risco parece ter adquirido expressão durante os séculos XVI e XVII, e começou por ser usada pelos exploradores ocidentais quando partiam para as viagens que os levaram a todas as partes do mundo. A palavra «risco» parece ter chegado ao inglês através do espanhol ou do português, línguas em que era utilizada para caracterizar a navegação em mares ainda desconhecidos, ainda não descritos nas cartas de navegação. Por outras palavras, na origem, a palavra incluía a noção de espaço. Mais tarde, quando usada pelo sistema bancário e em investimentos, passou a incluir a noção de tempo, indispensável para o cálculo das consequências prováveis de determinado investimento, tanto para os credores como para os devedores. Acabou por se referir a uma enorme diversidade de situações onde existe incerteza.

Cortesia de interpsic

A noção de risco, devo acentuar, é inseparável das ideias de probabilidade e de incerteza. Não se pode dizer que alguém enfrenta um risco quando o resultado da acção está totalmente garantido. As culturas tradicionais não dispõem do conceito de risco porque não precisam dele. Risco não é, o mesmo que acaso ou perigo. O risco refere-se a perigos calculados em função de possibilidades futuras. Só tem uso corrente numa sociedade orientada para o futuro, uma sociedade que vê o futuro precisamente como um território a ser conquistado ou colonizado. O risco implica a existência de uma sociedade que tenta activamente desligar-se do passado - na realidade, a primeira característica da civilização industrial da era moderna.
Todas as culturas antigas, incluindo as grandes civilizações da História, como as de Roma ou da China tradicional, viveram, antes de mais, com base no passado. Utilizaram as ideias de destino, ou da vontade dos deuses, em situações que nós agora tendemos a considerar casos de risco. Na cultura tradicional, se alguém sofre um acidente ou, pelo contrário, se alguém prospera, bem, são coisas que acontecem, ou fez-se a vontade de Deus. Houve culturas que negaram pura e simplesmente que o acaso pudesse existir. Os Azande, membros de uma tribo africana, acreditam que qualquer desgraça é sempre o resultado de um bruxedo. Se uma pessoa cai, por exemplo, a queda foi provocada por alguém que lhe fez magia negra». In Anthony Giddens, 1999, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 2ª edição, 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte II. «Poderemos voltar a impor-lhes a nossa vontade? Creio que sim. A impotência que sentimos não é sinal de qualquer fracasso pessoal, reflecte apenas a incapacidade das nossas instituições. Precisamos de reconstruir as que temos, ou de as substituir por outras. Porque a globalização não é um incidente passageiro nas nossas vidas»

Cortesia de grupoescolar

«Será a globalização uma força promotora do bem geral? Dada a complexidade do fenómeno, a resposta não é simples. As pessoas que fazem a pergunta, e que culpam a globalização pelo aprofundamento das desigualdades entre países, estão geralmente a pensar apenas em termos de globalização económica e, dentro desta, na liberalização do comércio mundial. Ora, como é óbvio, a liberalização do comércio mundial não é um benefício ingénuo, especialmente quando estão em causa os países menos desenvolvidos. A abertura de um país, ou apenas de parte dele, ao comércio sem barreiras pode destruir a economia local de subsistência. Uma zona tornada dependente de uns quantos produtos negociados nos mercados mundiais torna-se muito vulnerável às flutuações dos preços, bem como às transformações tecnológicas.
O comércio internacional carece de um quadro institucional, o mesmo acontecendo com outros tipos de desenvolvimento económico. Os mercados não podem ser criados por meios puramente económicos, e o nível de exposição de uma determinada economia às vicissitudes do comércio mundial tem de depender de todo um leque de critérios. contudo, opor-se à globalização económica e optar pelo proteccionismo económico seria uma táctica desajustada tanto para os países ricos como para os pobres. 

Cortesia de umsonhochamadomatilde
O proteccionismo pode ser uma estratégia necessária, mas só em determinadas alturas e em certos países. Mas formas mais permanentes de proteccionismo não serão uma ajuda ao desenvolvimento dos países pobres e, entre as nações ricas, podem conduzir à guerra entre blocos económicos. Será que os Estados-nações, e por consequência os líderes políticos nacionais, ainda são poderosos ou estão a tornar-se largamente irrelevantes para as forças que estão a transformar o mundo? Os Estados-nações são, com certeza, ainda poderosos e os líderes políticos ainda têm papéis importantes a desempenhar no mundo.
Mas, ao mesmo tempo, o Estado-nação está a transformar-se diante dos nossos olhos. A política económica nacional não consegue ser tão eficiente como já foi. E, ainda mais importante, agora que as velhas formas de geopolítica se estão a tornar obsoletas, as nações vêem-se obrigadas a repensar as próprias identidades.
Mais do que inimigos, os países actuais enfrentam riscos e perigos, uma transformação profunda da sua própria natureza. E estes comentários não se aplicam apenas aos países. para qualquer lado que olhemos, vemos instituições que, por fora, parecem as mesmas de sempre, até usam os mesmos nomes, mas, por dentro, modificaram-se completamente. Continuamos a falar da nação, da família, do trabalho, da tradição, da natureza, como se todas estas instituições se mantivessem iguais ao que eram.

Cortesia de portalwebmarketing
Mas isso não é verdade. A carapaça exterior mantém-se, mas no interior houve modificações. À medida que vão adquirindo massa suficiente, as instituições estão a criar algo que nunca existiu antes:
  • uma sociedade cosmopolita global.
Somos a primeira geração a viver nesta sociedade, cujos contornos ainda mal conseguimos vislumbrar. É ela que está a agitar a nossa actual forma de viver, qualquer que seja o local em que habitamos. Ainda não se trata, pelo menos de momento, de uma ordem global conduzida por uma vontade humana colectiva. Em vez disso, está a emergir de forma anárquica, ao acaso, movida por uma mistura de influências.
Não está firme nem segura, carrega muitas angústias e está ferida por divisões profundas. Muitos de nós sentimo-nos agarrados por forças que não dominamos. Poderemos voltar a impor-lhes a nossa vontade? Creio que sim. A impotência que sentimos não é sinal de qualquer fracasso pessoal, reflecte apenas a incapacidade das nossas instituições. Precisamos de reconstruir as que temos, ou de as substituir por outras. Porque a globalização não é um incidente passageiro nas nossas vidas. É uma mudança das próprias circunstâncias em que vivemos. É a nossa maneira de viver actual». In Anthony Giddens, 1999, O Mundo na Era da Globalização, Editorial Presença, 2ª edição, 2000, ISBN 972-23-2573-6.   
 
Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte I. «...para ambos os grupos trata-se, antes de tudo, de um fenómeno de natureza económica. O que é um erro. A globalização é política, tecnológica e cultural, além de económica»

Cortesia de globalizacao83geo  

Globalização
«Os mercados financeiros movimentam mais de um trilião de dólares por dia. É um aumento maciço em relação aos inícios da década de 1990, sem falarmos de anos mais distantes. O valor do dinheiro que temos no bolso, ou nas nossas contas bancárias, muda de momento a momento, de acordo com as flutuações registadas nestes mercados.

Deste modo, eu diria sem hesitar que a globalização, tal como estamos a vivê-la, a muitos respeitos não é apenas uma coisa nova, é também algo de revolucionário. Porém, creio que nem os cépticos nem os radicais compreenderam inteiramente o que é a globalização ou quais são as suas implicações em relação às nossas vidas. Para ambos os grupos trata-se, antes de tudo, de um fenómeno de natureza económica. O que é um erro. A globalização é política, tecnológica e cultural, além de económica. Acima de tudo, tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunicação, registado a partir do final da década de 1960.


Cortesia de novasoportunidadesesctturmap 
Em meados do século XIX, um pintor de retratos de Massachusetts, chamado Samuel Morse, transmitiu a primeira mensagem através do telégrafo eléctrico: «Qual é a vontade de Deus?». Ao fazê-lo deu início a uma nova fase da História Mundial. Nunca tinha sido enviada uma mensagem sem que uma pessoa a transportasse ao seu destino. Porém, o advento das comunicações por satélite representa uma ruptura da mesma dimensão com o passado. O primeiro satélite comercial foi lançado em 1969. Agora há mais de 200 destes satélites em órbita, cada um carregado com uma enorme diversidade de informações.
Pela primeira vez na História podemos estabelecer comunicação instantânea com o outro lado do mundo. Outros tipos de comunicação electrónica, cada vez mais integrados com as transmissões via satélite, têm acelerado a evolução nos anos mais recentes. Até final da década de 1950, não existia nenhum cabo directo transatlântico ou transpacífico. O primeiro transportava menos de 100 comunicações simultâneas. Os actuais transportam mais de 1 milhão.
A 1 de Fevereiro de 1999, cerca de 150 anos depois de Morse ter inventado o seu sistema de pontos e traços, o Código de Morse, enquanto meio de comunicação no mar, desapareceu finalmente da cena mundial. Foi substituído por um sistema que utiliza a tecnologia dos satélites e permite localizar imediatamente qualquer navio em perigo. A maioria dos países preparou a transição com alguma antecedência. A França, por exemplo, deixou de usar o Código Morse nas águas costeiras em 1997, desligando-o com um floreado tipicamente gaulês: «Atenção a todos. Esta é a nossa última chamada antes do silêncio eterno».

Cortesia de notapositiva 
A comunicação electrónica instantânea não é apenas um meio de transmitir informações com maior rapidez. A sua existência altera o próprio quadro das nossas vidas, ricos ou pobres. Quando a imagem de Nelson Mandela nos pode ser mais familiar do que ado vizinho que mora na porta ao lado da nossa, é porque qualquer coisa mudou na nossa vida corrente.
Nelson Mandela é uma celebridade a nível global e a celebridade é, em grande parte, o produto da nova tecnologia das comunicações. O alcance das novas tecnologias de comunicação aumenta com cada vaga de inovações. Nos USA, a rádio levou 40 anos para atingir os 50 milhões de ouvintes. O mesmo número de pessoas usava um computador pessoal, apenas 15 anos depois de a máquina ter sido inventada. Só foram precisos uns meros 4 anos, para haver 50 milhões de americanos que usam a Internet com regularidade». In O Mundo na Era da Globalização, Anthony Giddens 1999, Editorial Presença 2ª edição, Abril 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia da Editorial Presença/JDACT

segunda-feira, 14 de março de 2011

O Mundo na Era da Globalização: «Dada esta popularidade súbita, não é de surpreender que o significado do termo nem sempre seja claro, como não devemos estranhar que houvesse uma reacção intelectual contra ele. A globalização tem algo a ver com a tese de que agora vivemos todos num único mundo»

Cortesia de jcnomundoatua

Globalização
«Tenho uma amiga que estuda a vida comunitária na África central. Há alguns anos, visitou pela primeira vez uma região remota, onde queria começar a fazer trabalhos de campo. No dia da chegada, foi convidada para uma festa em casa de uma família local. Foi, na esperança de descobrir qualquer coisa sobre a forma de passar o tempo daquela comunidade isolada. Em vez disso, tudo se resumiu a ver o filme Basic Instinct num vídeo. Na altura, o filme ainda nem sequer estava a ser exibido nos cinemas de Londres.

Estas situações revelam qualquer coisa acerca do mundo em que vivemos. E o que revelam não tem nada de trivial. Não se trata apenas de as pessoas incluírem aparelhagens moderna, vídeos, televisores, computadores pessoais e coisas do género, na suas maneiras habituais de viver. Vivemos num mundo de transformações, que afectam quase tudo o que fazemos. Para o melhor ou para o pior, estamos a ser empurrados para uma ordem global que ainda não compreendemos na sua totalidade, mas cujos efeitos já se fazem sentir em nós.

A palavra «globalização» pode até nem ser muito elegante ou atractiva. Mas ninguém, absolutamente ninguém, que pretenda progredir neste início de século a pode ignorar. Nestes tempos mais recentes, não estive em nenhum país em que a globalização não estivesse a ser discutida. Na França, a palavra é mondialisation. Na Espanha e na América Latina, globarización. Na Alemanha dizem grobalisierung.

Cortesia de lofs9
A divulgação da palavra por toda a parte é a melhor prova da evolução que ela representa. Nenhum guru da gestão a dispensa. Nenhum discurso político fica completo sem se referir a ela. Contudo, até finais dos anos 80, o termo quase não era usado, nem na literatura académica nem na linguagem corrente. Apareceu não se sabe de onde, para chegar a quase todos os sítios.

Dada esta popularidade súbita, não é de surpreender que o significado do termo nem sempre seja claro, como não devemos estranhar que houvesse uma reacção intelectual contra ele. A globalização tem algo a ver com a tese de que agora vivemos todos num único mundo.
Mas como, exactamente?
E será a ideia realmente válida?
Nos debates que irromperam nestes anos mais recentes, o conceito de globalização tem sido definido em termos contraditórios por diversos pensadores. Há quem renegue totalmente o conceito. A estes, darei o nome de cépticos.

Cortesia de globalizacaoetecnologia 
De acordo com os cépticos, toda esta conversa acerca da globalização não passa disso mesmo, de conversa. Quaisquer que sejam os seus benefícios, preocupações ou dificuldades, a economia global não é assim tão diferente da que existia em períodos antecedentes. O mundo continua o mesmo, está assim desde há muitos anos.
Para a maioria dos países, argumentam os cépticos, o comércio externo representa apenas uma pequena percentagem do rendimento nacional. Além disso, uma boa parte das trocas económicas é feita entre regiões, sem implicar a existência de um verdadeiro sistema de comércio a nível mundial. Por exemplo:
  • a maior parte do comércio dos países da União Europeia é feita com os outros países membros. O mesmo se pode dizer de outros blocos económicos, como os da Ásia-Pacífico ou da América do Norte.
Há outras pessoas que adoptam posições muito diferentes. Vou chamar-lhes radicais. Para os radicais a globalização é um facto bem concreto, cujos efeitos se fazem sentir por toda a parte. O mercado global está, segundo eles dizem, muito mais desenvolvido do que estava em épocas recentes, nos anos 60 e70, por exemplo, e é indiferente às fronteiras nacionais. As nações perderam uma boa parte da soberania que detinham e os políticos perderam muita da sua capacidade de influenciar os acontecimentos». In O Mundo na Era da Globalização, Anthony Giddens 1999, Editorial Presença 2ª edição, Abril 2000, ISBN 972-23-2573-6.
Cortesia da Editorial Presença/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2011

Anthony Giddens: O Mundo na Era da Globalização. «O século XXI será o campo de batalha em que o fundamentalismo se vai defrontar com a tolerância cosmopolita. Num mundo em processo de globalização, em que a transmissão de imagens através de todo o globo se tornou rotineira, estamos todos em contacto regular com outros que pensam de maneira diferente, que vivem de maneira diferente»

Cortesia de celeirobmd

«O mundo está a aproximar-se velozmente do fim», assim disse o arcebispo Wulfstan, num sermão proferido em York, no ano 1014. Nos tempos que corïem, é fácil que haja pessoas a pensarem o mesmo:
  • Será que as esperanças e as angústias de cada período não passam de meras cópias a papel químico das eras precedentes?
  • Este mundo em que vivemos, no início do século XXI, será realmente diferente do que foi em outras épocas?
É. Temos boas razões, razões objectivas, para pensar que estamos a viver um período histórico de transição muito importante.
Além do mais, as mudanças que nos afectam não estão confinadas a nenhuma zona do globo, fazem-se sentir um pouco por toda a parte.

Cortesia de editorapresença
A nossa época evoluiu sob o impacte da ciência, da tecnologia e do pensamento racionalista, que tiveram origem na Europa setecentista e oitocentista. A cultura industrial do ocidente foi moldada pelas ideias do Iluminismo, pelos escritos de pensadores que rejeitavam a influência da religião e do dogma, e que, na prática, queriam substituí-los por formas mais racionais de encarar a vida.
Os filósofos do Iluminismo serviram-se de um preceito simples mas aparentemente muito poderoso: quanto mais capazes formos de usar a razão para entenderïnos o mundo e para nos entendermos a nós próprios, mais capazes seremos de moldar a História à nossa medida. Para controlarmos o futuro, é necessário que nos libertemos dos hábitos e dos preconceitos do passado.
Karl Marx, cujas ideias devem muito ao pensamento iluminista, expôs o conceito de forma muito simples. Para fazermos a História, sustentava, temos de compreender a História. Graças a esta noção, Marx e o marxismo tiveram uma influência tremenda no século XX.
De acordo com esta visão, com o desenvolvimento sucessivo da ciência e da tecnologia, o mundo tornar-se-ia mais estável e mais ordenado. A ideia foi aceite mesmo por diversos pensadores que se opunham a Marx. O romancista George Orwell, por exemplo, anteviu uma sociedade com demasiada estabilidade e previsibilidade, na qual todas as pessoas se tornariam simples peças de uma vasta máquina económica e social. E aconteceu o mesmo com vários pensadores sociais, como o famoso sociólogo germânico Max Weber.

Cortesia de itsnoon
Contudo, o mundo em que agora vivemos não se parece muito com aquele que foi previsto, nem o vemos como tal. Em vez de estar cada vez mais dominado por nós, parece totalmente descontrolado - um mundo virado do avesso. Além disso, algumas das razões que levaram o homem a pensar que a vida se tornaria mais estável e previsível, incluindo os progressos da ciência e da tecnologia, tiveram por vezes efeitos totalmente opostos. As mudanças do clima e os riscos que transportam consigo, por exemplo, resultam provavelmente das nossas intervenções no meio ambiente. Não são fenómenos naturais. É inevitável que a ciência e a tecnologia tenham de estar envolvidas nas tentativas que fazemos de enfrentar os riscos ambientais, mas também temos de reconhecer que ambas tiveram papéis importantes na origem de muitos deles.
Enfrentamos situações de risco, de que o aquecimento global é apenas um exemplo, que nenhuma geração anterior teve de enfrentar. Muitos dos novos riscos e incertezas afectam-nos qualquer que seja o lugar em que vivamos, pouco importando que sejamos privilegiados ou pertencentes às classes mais desfavorecidas. Também a ciência e a tecnologia se estão a globalizar Já alguém calculou que o número de cientistas a trabalhar nesta altura é superior à totalidade dos que trabalharam durante toda a história da ciência. Mas a globalização é um fenómeno diversificado, tem outras dimensões. Está a trazer para a ribalta outras formas de risco e novas ìncertezas, em especial as que se relacionam com a economia electrónica globar, ela própria de criação muito recente. Como acontece com a ciência, também neste caso o risco tem duas faces. O risco está estreitamente ligado à inovação. E existe sempre a tendência para o minimizar; o enlace activo entre o risco financeiro e o empresarial é a verdadeira locomotiva da globalização da economia.

Cortesia de ogerente
A globalização também afecta a vida corrente, da mesma forma que determina eventos que se passam à escala planetária. É por isso que este livro inclui discussões alargadas acerca da sexualidade, do casamento e da família. Em muitas partes do mundo, as mulheres estão a exigir maior autonomia em relação ao passado e a entrar no mundo laborar em grande número. Estes aspectos da globalização são pelo menos tão importantes como os que afectam os mercados. Contribuem para o stress e para as tensões que afectam as maneira de viver tradicionais e as culturas da maioria das regiões do mundo. A família tradicionar está ameaçada, está a mudar, e vai mudar ainda mais. outras tradições, como as que têm a ver com a religião, também estão a passar por transformações de importância enorme. Um mundo de tradiçoes em desmoronamento alimenta o fundamentalismo.
O século XXI será o campo de batalha em que o fundamentalismo se vai defrontar com a tolerância cosmopolita. Num mundo em processo de globalização, em que a transmissão de imagens através de todo o globo se tornou rotineira, estamos todos em contacto regular com outros que pensam de maneira diferente, que vivem de maneira diferente». In O Mundo na Era da Globalização, Anthony Giddens 1999, Editorial Presença 2ª edição, Abril 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia da  Editora Presença/JDACT