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domingo, 3 de dezembro de 2017

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «O decoro era diferente da contenção georgiana de Inglaterra. As senhoras exaltavam e pregavam a virtude, com vestidos de inspiração clássica»

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1805 - 1806
«(…) Por essa altura, sentados ao canto no Café do Comércio, já travavam longos diálogos sobre os avanços de Napoleão, assim como discorriam argumentos sobre as derrotas e vitórias das forças navais britânicas e espanholas, a subexploração dos territórios coloniais e a proliferação dos caminhos-de-ferro e suas vantagens na Inglaterra. Conversavam no inglês que João adquirira durante anos a travar contacto com britânicos na Índia, e Daniel progredia a olhos vistos com o português. Dizia ter interesse em tudo o que lhe parecia exótico, e um país na periferia de um continente, de costas voltadas para a Europa, com África aos pés, e pelas ruas, e a América a acenar-lhe de frente, soava-lhe exótico o suficiente. Não sabia responder se pretendia ficar. Muitos outros ingleses haviam-no feito, e adivinhava-se uma aliança militar entre as duas nações imperiais. A velhaca Espanha, muito provavelmente, voltar-se-ia de novo contra Portugal, a pretexto de ganhar terreno na Península. A pressão de Napoleão na Europa, contudo, teria de ser travada, mais cedo ou mais tarde. Uma pena que a Inglaterra não pudesse esmagá-lo no mar. Nesse caso não tinha dúvidas de que engoliria os seus ideais revolucionários.
Em suma, Daniel comia e bebia bem no país do porto, gostava da vista sobre o rio, das paisagens pitorescas da cidade e da sua herança árabe. Fazia tempo para partir para o Norte, por terra, momentaneamente entretido nos círculos intelectuais do país. Nem a quantidade inesperada de mosquitos o demovia de se banhar no Tejo nas tardes mais quentes desse estio de 1802. Já se apaixonara fugazmente algumas vezes, uma delas por uma padeira cujo perfume a pão e a feno se mesclava pecaminosamente com o sabor salgado da pele. O decoro era diferente da contenção georgiana de Inglaterra. As senhoras exaltavam e pregavam a virtude, com vestidos de inspiração clássica, e cultivavam os seus talentos mais do que nunca. Sabiam falar várias línguas, desenhar, tocar vários instrumentos, bordar, tinham vastos conhecimentos de literatura e filosofia, flutuavam ao dançar e eram afáveis ao trato. Em tudo opostas ao entusiasmo mal-contido das portuguesas, que se aproximavam demasiado e se insinuavam descaradamente, ou pelo menos as dos estratos mais baixos, habituadas a deitar-se com marinheiros. A moda também estava alguns anos atrasada por essas terras do Sul. As mulheres ainda usavam o espartilho ditatorialmente apertado ao tórax, o rosto esbranquiçado e as perucas não tinham desaparecido de todo. Alguns nobres de pior gosto ainda trocavam de cabelo várias vezes ao dia. Sobretudo os homens, pareciam relutantes em deixar que se lhes visse a cabeleira rala após anos de cabelo farto e encaracolado preso com fita de seda. João era um dos que tinham assumido os seus trejeitos capilares, apenas disfarçados pelos chapéus. Era educado, actualizado, humilde, jovem e, dir-se-ia, vigoroso se não fosse a tosse que por vezes o tomava e vergava e que, no final de 1803, quando Daniel finalmente partiu para o Porto, era já mais do que evidente que o conduziria à cova.
Estava também subentendido entre os dois homens que Daniel precisava de uma quinta no Douro, e João tinha ali um casario e em redor uma propriedade com razoáveis hectares adequados à plantação de vinha. Em contrapartida, João precisava de casar uma filha e, por graça divina, Daniel era solteiro, bem estabelecido e ganhara o afecto do futuro sogro. Dona Sofia não se perdoaria por não ter conseguido elevar a filha a condessa ou até, nos seus sonhos mais íntimos, a duquesa. Abriu os olhos para descobrir Mariana, reclinada no assento, a respirar para o vidro da janela. Apertou os lábios e apercebeu-se de que perdera um fio de baba. Limpou-o discretamente ao ombro e endireitou-se no seu canto do veículo. Qualquer coisa que fugisse ao seu controlo cerrado era um gesto de fraqueza imperdoável. O tijolo estava frio, as pontas dos dedos enregeladas e o dia continuava cinzento. Mariana tinha posto aquela cara tão sua de rapariga infeliz. Ingrata, seria mais adequado. O sacrifício maior era o da mãe, cuja vida terminara, e que seria encerrada no Douro devido ao casamento dela com um zé-ninguém inglês. A vida de Mariana começava aí, onde a sua terminava. Porque é que uma coisa tinha de implicar a outra? Puxai o reposteiro, Mariana. A luz acordou-me. Não era verdade, mas era o caminho mais curro para poupar a vista à luz macilenta daquele início de tarde». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 2 de dezembro de 2017

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Ficou encantado com as seges que percorriam a distância entre a Praça do Comércio, onde se situava o café que frequentava, e Belém»

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1805 - 1806
«(…) Estava rodeado de outros investidores, como ele próprio, que falavam dos caminhos-de-ferro como o negócio do futuro e das guerras ultramarinas com uma amargura crescente. Odiavam Napoleão, mas concediam-lhe cada entrelinha das suas conversas. Na realidade, invejavam-lhe era as vitórias. Daniel não era patriota de gema, sentia-se tomado pelos ventos dos quatro cantos do mundo e só não levantava amarras porque tinha os negócios pendentes e não confiava em ninguém para os gerir. Muito menos no cretino do marido da irmã mais velha, que, mal deitasse as mãos aos seus pertences, desviaria o que conseguisse. Pudera, com um rendimento anual de setecentas libras, as seis mil de Daniel deixavam-no em alvoroço. Esperara um dote generoso da parte do cunhado, mas o filho de Humphrey Turner não se deixava intimidar por caras feias. Tão-pouco lhe importava ser o objecto de bajulação de toda a família. A irmã Sarah era honesta e não atribuía aos fundos do pai, com que Daniel primeiramente investira, a construção do seu pequeno império. Sabia que nas mãos do senhor Turner nunca se teriam multiplicado daquele modo. E havia Lizzie, que era a irmã mais nova e que o amava incondicionalmente.
Era um feito admirável ter ascendido praticamente do nada para o patamar que atingira. E tinha apenas vinte e quatro anos quando adquirira a adega em Portugal, tendo feito as bagagens e rumado àquelas latitudes, nesse primeiro ano do novo século. Passara os primeiros meses na capital, correspondendo-se com os portugueses que lhe tinham entregado o espaço onde criaria a adega. Nesse ano de 1805 já era um transportador e armazenador de vinhos de renome na área, trazendo-os Douro abaixo e mantendo-os durante o tempo necessário na humidade granítica de Vila Nova de Gaia. Ambicioso como era, não tencionava ficar-se por aí. Ia começar a produzir, transportar e armazenar o seu próprio vinho do Porto. Ia monopolizar o seu negócio para lhe garantir rentabilidade. Para isso unira-se a João Albuquerque, barão de Arraiais, que conhecera no Café do Comércio, em Lisboa.
João era ali cliente habitual, e Daniel Turner, pouco ambientado com o sol e a diversidade cultural de uma cidade como Lisboa, não sabia ao certo aonde dirigir-se e por onde começar a averiguar. Tendo desembarcado em Lisboa, não ia desperdiçar a oportunidade de conhecer a capital de um outro império que não o britânico, plena de oportunidades de negócio como era a cidade branca, à qual chegavam e partiam semanalmente embarcações de tantos cantos do mundo civilizado. A diversidade cultural era arrebatadora; ia de negros libertos vindos de África, que calcorreavam a cidade descalços, até homens que faziam parte de núcleos de elite no Brasil e estavam de visita à terra mãe com histórias de selvagens, feras e chuvas tropicais. Viam-se alimentos invulgares em Portugal, frutos incomuns como a laranja surgiam nos pomares de todos os quintais, comia-se caça, mas também muito peixe fresco, o milho era frequente nos pratos tradicionais e encorpava o pão. Ele tivera mesmo a sorte de frequentar os melhores círculos e ficou espantado com a proliferação de ingleses por este território no Sudoeste da Europa continental.
Ficou encantado com as seges que percorriam a distância entre a Praça do Comércio, onde se situava o café que frequentava, e Belém.
À porta do café juntavam-se as meninas afectadas, em idade casadoira, que esperavam nas carruagens pelas criadas que lhes traziam os sorvetes. Mariana Albuquerque era uma delas, em tudo diferente das crianças inglesas, de rostos angelicais e olhos claros. os cabelos das crianças portuguesas eram escuros como os dos ciganos que percorriam a Inglaterra nas suas tendas de nómadas, e a filha de João, postada fora da liteira com uma criada, à espera que o pai regressasse com o sorvete de cacau açucarado, não diferia das restantes. Quando a vira na companhia do pai, achara-a sempre uma réplica de cigana inglesa, de pele tocada pelo sol que reflectia no Tejo, olhos negros e cabelos cor de ébano. Era baixa, o peito liso como uma planície sob o espartilho e nem as rendas delicadas do decote baixo aliviavam essa impressão de saltimbanca. Das únicas duas vezes que fora abordada por João na sua presença, limitara-se a encaminhar o sorvete para as beiças de menina gulosa e a ignorá-lo. Tudo o resto, das gaivotas às vendedoras que equilibravam tripas sobre a cabeça, lhe parecia mais digno da sua honrosa atenção. O pai gabava-lhe o inglês, mas a fidalga de onze anos não lhe dedicara um bom-dia que fosse. João desculpara-se em seu nome. Pai algum inglês se desculpava em nome da filha mimada». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Em 1801, ouvira falar do negócio do “vinho do Porto”. Chegavam enormes carregamentos à Inglaterra desde que, quase cem anos antes, as duas nações tinham tomado disposições nesse sentido em Methuen»

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1805 - 1806
«(…) Estava escrita num inglês impecável, adquirido pelo barão em dez anos de estabelecimento de relações comerciais nas Índias Orientais. Lidara com outros cônsules, a maioria deles britânicos, e estabelecera relações de amizade e cooperação que o tinham ajudado a estender o seu império dos móveis. Daniel Turner, a quem dirigia aquela missiva cuidada, não era um desses homens. Daniel Turner não tinha qualquer explicação elaborada para o facto de ter adquirido, havia quatro anos, uma adega em Vila Nova de Gaia, à semelhança de muitos dos seus compatriotas ingleses. Sabia que o vinho do Porto era mundialmente apreciado, correndo os continentes por via marítima. A Europa, a América do Norte e do Sul, a África e a Ásia inclusive adquiriam aquele vinho licoroso como se de barras de ouro se tratasse. Havia relatórios sobre navios com vinho do Porto despachados para a Nova Zelândia, um ponto distante e exuberante no Hemisfério Sul. Quanto a ter-se decidido a arregaçar as mangas e a apanhar um navio para Lisboa a fim de administrar pessoalmente o movimento dessa adega, ainda menos explicações encontrava. Fora uma espécie de chamamento, esse do investimento no negócio do vinho. O intelecto de Daniel funcionava sobretudo à base de números, e cedo compreendeu que tinha jeito para multiplicar fundos.
O pai deixara-o administrar os seus negócios desde jovem, aplicando pequenas parcelas de dinheiro em sociedades locais. Devido ao entusiasmo de Daniel pelo dinheiro a circular, o pai deu por si dono de parte do jornal local, de uma pequena empresa de embarcações de pesca na Cornualha e co-proprietário de uma tipografia em Southampton. As edições bem orientadas por um Daniel de vinte anos e empreendedor, tinham voado da prateleira da pequena livraria que, dois anos depois, adquirira. Colocava os volumes da sua tipografia na montra, a reluzir atrás do vidro fosco, e não se espantava por serem os mais vendidos. Agregava-os a outras publicações, a preços especiais, e ia vendo-os a escoar.
Em 1801, ouvira falar do negócio do vinho do Porto. Chegavam enormes carregamentos do mesmo à Inglaterra desde que, quase cem anos antes, as duas nações tinham tomado disposições nesse sentido em Methuen. Portugal absorvia os panos ingleses e, em troca, Inglaterra moderava as taxas sobre os vinhos lusos que chegavam aos seus portos. Rapidamente se tornara um vinho de elite, elevado ao estatuto de licor, infiltrara-se nos círculos intelectuais de uma Inglaterra fulgurante, acendera discussões filosóficas e humedecera os lábios à fanfarronice da nobreza. Provinha de um pequeno trecho geográfico que seria facilmente tomado pelos visionários. Daí e para o mundo, garantiria estabilidade financeira a quem estivesse disposto a sujar as mãos desde o início. Daniel tomara a decisão com o olhar preso ao conteúdo amadurecido de um copo de porto. O travo a madeira de carvalho e a nozes inspirava-o, instigava-lhe a mente a rebuscar novos nichos de negócio, e a sua última ideia reluzia à sua frente, num café inglês, em rons de âmbar. O fumo dos charutos envolvia-o e, sentindo-se isolado, como, aliás, sempre se sentiria em relação a toda a classe de cavalheiros ingleses de sangue azul à qual não pertencia, decidiu ir ao encontro das raízes desse vinho e da terra que dava apoio àqueles pés de vinha». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «A mãe adormeceu no primeiro quarto de hora, de boca deselegantemente aberta, e pôs-se a soltar uma respiração ruidosa que muito a distraía dos seus pensamentos. Não despertara sequer quando, antecedido de um ‘lá vai água’»

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1805 - 1806
«(…) Como a ordem do patriarca eta para cumprir, Mariana voltou ao seu lugar dentro da berlinda, de frente para a mãe, e apoiou os pés no tijolo que lhe fora designado. Nuna, que lhe sorria compreensivamente, viajaria no interior da carruagem, com as outras mulheres. Seria de uma extrema crueldade obrigá-la a enfrentar o frio do exterior seguindo ao lado do cocheiro. As outras três criadas tinham sido entretanto chamadas da cavalariça, ligada à rua por um pequeno pátio. Tinham-se posto aos cochichos desde a notícia da partida. Aida chorara por causa do seu namorico tolo com o açougueiro, Gracinda guinchara de excitação assim que se apanhara sozinha e Maria uivara de dor por causa dos pais, tudo convenientemente afogado no isolamento da copa, por entre selhas de roupa para tingir e tinas de água fumegante. Seguiriam num veículo mais pequeno e menos seguro, conduzido por um cocheiro mais velho, que trabalhara para o pai de João, e que tinha a incumbência de ficar com elas no Douro. João contrataria outro cocheiro para substituir o jovem e robusto Jaime, prematuramente desdentado, que conduziria as suas preciosidades até ao Porto. Seria uma brutalidade exigir que o velho Moisés regressasse com a carruagem, que ia carregada com os pertences das fidalgas. O velho apartar-se-ia da única filha, que vivia com o traste do marido sobre uma taberna, e findaria os seus dias nos socalcos das vinhas a norte. A tristeza era-lhe tamanha que respirava pesadamente, como se escorregasse já para uma morte solitária.
Pegou nas rédeas e esperou, pacientemente, que Jaime recebesse a ordem de avançar com o primeiro veículo. Mais adiante, quando sairdes de Lisboa, deixai o Moisés seguir à frente. Desse modo evitais emboscadas para as senhoras, entendeis? Sim, vossa graça. O resto da criadagem exibia-se alinhada na soleira que dava para o pátio, com as mãos enroladas nos aventais devido ao frio, e acenavam às senhoras da casa. Tudo perderia agora o seu encanto. Seriam serviçais de um enfermo. Com uma palmada na lateral do veículo, João virou o rosto às lágrimas que Sofia se esforçava por esconder atrás de um delicado lenço de linho bordado e à expressão pasmada de Mariana, que não interiorizara realmente que não voltaria a ver o pai. Os seus olhos assustados poderiam ser a última coisa que veria dela.
Quase três horas depois, à saída de Lisboa, a atrelagem de quatro cavalos conduzida por Moisés passou-lhes à frente e a sua carcaça de madeira preta com motivos dourados vegetalistas passou a ser o seu ponto de referência durante as desconfortáveis horas que se seguiram. Nem o veludo negro que forrava o transporte tornava o bambolear da caixa menos incomodativo. A mãe adormeceu no primeiro quarto de hora, de boca deselegantemente aberta, e pôs-se a soltar uma respiração ruidosa que muito a distraía dos seus pensamentos. Não despertara sequer quando, antecedido de um lá vai água, um jacto caiu ruidosamente sobre o tejadilho do veículo ao passar por uma rua do Rossio, escorrendo em seguida pelo vidro onde a mãe tinha o rosto encostado sem a sobressaltar. Parecia que Sofia arranjava sempre forma de se imiscuir na sua liberdade, quer fosse impedindo-a de descer a escadaria de madeira maciça da sua casa à velocidade que pretendia, porque podia partir o pescoço e o seu casamento tornar-se-ia estéril, quer fosse porque queria pôr as ideias em ordem e a senhora delicada e de trato impecável que se apresentava nas reuniões sociais punha-se a ressonar como um velho pescador ao sol. Observou-lhe as mãos cruzadas no regaço e os pés abotinados, pousados no tijolo que esfriara há muito. Sabia que, nesse primeiro dia, teriam de se acomodar como pudessem. No segundo dia seriam recebidas por uma prima, no Buçaco. Melancólica, enregelada e vazia por dentro, por se ter separado não só
do pai como de Lisboa, quis que o sono a tomasse com felicidade com que fizera a mãe sucumbir-lhe. Doía-lhe o peito devido ao aperto do espartilho, ainda que a sua mãe tivesse sofrido muito mais na juventude, quando o mesmo tinha tantos cordões que era praticamente impossível que uma mulher respirasse. O seu olhar, contudo, não conseguia desviar-se da carta que o pai entregara a Sofia e que se insinuava na sua sacola de mão. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria acesso àquelas palavras e, sem mais, estendeu a mão agilmente e cingiu o papel nos dedos. Com um único olhar dirigido à mãe, que se contorcia num sono atribulado, abriu a folha que o pai dobrara e depositara num envelope». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Os olhos dóceis do barão João, escuros como os de Mariana, não viam mais nada desde que aquela menina nascera. A vaidade inicial de dona Sofia, por julgar que os três perfaziam um bonito retrato de família, desfez-se…»

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1805 - 1806
«(…) A rapariga viera sentar-se numa cama de folhas velhas de jornal, abrigada da frente ribeirinha numa daquelas ruelas interiores da cidade. A menina que geralmente se sentava ali a estender castanhas assadas sobre uma pequena fogueira improvisada começava por volta daquela hora e só regressava a casa quando escurecia. Durante todo o dia não comia mais do que três castanhas assadas, a fim de não prejudicar o negócio. A mãe assim a instruíra e ela obedecia, porque as irmãs, bem mais pequenas, comiam apenas um caldo aguado a meio do dia, e ela apiedava-se da sua fome. Teria dois ou três anos a menos que Mariana e um aspecto bem menos cuidado. Aquecia as mãos na chama antes de recolher as castanhas com gestos rápidos, e o cabelo apresentava-se gorduroso sob um xaile puído, enrolado em torno do pescoço e das costas. Tinha os pés envoltos em tiras de pano sujas e as unhas encardidas, as mesmas com que assou as castanhas que o barão João recebeu para entregar à filha, envoltas num pequeno pedaço de jornal. Fechou-lhe a mão em concha sobre três castanhas quentes, após estender uma pequena moeda à criança. Mariana arquejou ante o inesperado prazer que a sensação de algo quente na mão lhe causou naquela manhã de orvalho. O sorriu-lhe uma última vez, paternalmente: para vos manter aquecida durante a viagem.
Mariana arriscou um olhar à berlinda, apenas para descobrir que a voz da mãe guinchava contidamente ordens à criada para que posicionasse correctamente o tijolo quente, envolto em lã, sob os seus pés enregelados. Dona Sofia tinha ciúmes da relação afectuosa da filha com o pai. Tratando-se de uma mulher fria e de criação brusca, empurrada às pressas para um barão à época falido, antes passar fome ao lado de um barão do que refastelar-se em abundância com um ourives, não conhecera outro carinho que não o do casamento. E vira-se rapidamente preterida em favor da filha. Era por isso que dizia ter-se valido dos conhecimentos dos pretos libertos que povoavam os recantos mais obscuros da cidade para se precaver de uma nova gravidez. Uma filha fora mais do que suficiente para lhe roubar inevitavelmente o amor do marido, teria de ser tola para o afastar ainda mais.
Os olhos dóceis do barão João, escuros como os de Mariana, não viam mais nada desde que aquela menina nascera. A vaidade inicial de dona Sofia, por julgar que os três perfaziam um bonito retrato de família, desfez-se com prontidão. Era raro ver-se um homem tão apegado a uma criança, ainda para mais se a mesma era do sexo feminino. Acabou por achar a filha indigna de tantas atenções e aborrecia-se com os seus mimos e caprichos, que não passavam de um espelho dos seus. A comunicação recente de que seria obrigada a acompanhar Mariana ao Douro e a não regressar, porque o marido estava condenado a uma morte lenta, enchera-a de lágrimas difíceis de tragar. Mesmo nas suas últimas horas, o marido estava mais preocupado com o bem-estar daquela fedelha mimada do que consigo próprio. Tentara convencê-lo de que deveriam ficar e olhar pela sua saúde, prometera isso perante a Igreja, mas o barão metera-lhe uma carta por entre os dedos e reafirmara as suas intenções de que rumassem a Arraiais, entregassem a propriedade por casamento a um inglês qualquer que pretendia tirar proveito da região vinícola do Douro e não voltassem ao sul a não ser que ele lhes desse ordens nesse sentido». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de Marcador/JDACT

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Mariana torcia desde já o nariz a esse mesmo cheiro; ao do couro dos arreios e ao odor intenso dos cavalos em esforço. O pai sabia que detestava sentir-se enjaulada, mas, sabendo-a apenas com catorze anos, quis que desse algum valor à aventura»

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1805 - 1806
«(…) Sentiria também saudade de ter à vista os vendedores de mel, as aguadeiras, os homens que percorriam a Praça do Comércio com fusos e rocas, os sapateiros nas esquinas, os ferreiros a equipar cavalos para viagens mais longas, os vendedores de tripas. Havia ainda a emoção dos sobressaltos à porra da Casa da Gazeta, no Terreiro, as bostas das bestas espalhadas pelo chão, quase como armadilhas a que deveriam esquivar-se quando caminhavam com os seus elegantes sapatinhos rasos, e a necessidade de se acautelar nas esquinas, pois nem todos os cocheiros eram prudentes ao dobrar um edifício. Geralmente, dona Sofia e Nuna, a criada sexagenária da casa, não a deixavam aproximar-se daquele género de gente. Mariana, impressionada com os seus odores e pés descalços, não tinha interesse, fosse como fosse, em aproximar-se. Falavam demasiado alto, por vezes com sotaques estranhos que se afastavam daquilo que era o círculo culto da cidade e, numa única frase, tropeçavam incontáveis vezes no português correcto que a régua de madeira do professor Manuel Jardim a ajudara a interiorizar. Não se deixava tentar pelos caramelos e desviava o olhar dos rosários de madeira tosca que tentavam impingir-lhe quando atravessava as galerias da Praça em direcção ao edifício onde o pai se debruçava diariamente sobre os livros de contas. Só se detinha nos meses logo após o Verão, em que as castanhas a assar no chão enchiam os ares da capital do Império com uma fragrância irresistível.
Dona Sofia aperrou melhor o xaile de veludo verde-seco, preso com alfinetes sobre a gola rendada do vestido que trajava para a viagem. O facto de ainda não chuviscar, nessa madrugada de meados de Novembro, não significava que, a qualquer momento, a lama e os ventos não fossem desestabilizar a berlinda no longo caminho que tinham pela frente. Dona Sofia despedira-se do marido com um beijo terno no rosto, suficientemente discreta para que as três criadas e a mestra que as acompanhariam não se sentissem tentadas a dirigir o olhar aos seus senhores. Continuaram a carregar baús de porcelana da dinastia Qianlong, do século ultrapassado, embalada em jornais, bem como linhos, lãs e cobertores, a fim de enfrentarem o Inverno no Douro. As suas salvas de prata, os seus aquários de porcelana, potes, chaleiras, bacias e candelabros apinhavam-se em monos maciços que seguiriam em chocalho constante ao longo de toda a viagem. Sem mencionar os baús com uma enorme quantidade de vestidos da baronesa e da menina, que tinham sido aferrados com correias de couro à rectaguarda da berlinda, assim como ao topo da carruagem dos serventes.
Mariana torcia desde já o nariz a esse mesmo cheiro; ao do couro dos arreios e ao odor intenso dos cavalos em esforço. O pai sabia que detestava sentir-se enjaulada, mas, sabendo-a apenas com catorze anos, quis que desse algum valor à aventura. Sem a aprovação de dona Sofia, que não gostava de ser ignorada, instigou a filha a descer novamente da berlinda. Mariana fê-lo de imediato, animada pela perspectiva de que, talvez, o pai tivesse mudado de ideias. O pai, barão João, apoiou-a sob o braço, ajeitou-lhe melhor o capuz preto que a protegia e encaminhou-a para a esquina, a cinquenta passos de distância da berlinda e da carruagem que eram carregadas. O dia mal despontara e, por conseguinte, estava suficientemente escuro em Lisboa para que um pai e uma filha pudessem trocar algum carinho com discrição. O barão acariciou-lhe o rosto com a mão, onde a tinta da pena deixara manchas difíceis de disfarçar, e sorriu-lhe já com saudade. Levou o lenço à boca ao ser acometido por um ataque de tosse, para evitar a transmissão da doença, e Mariana entristeceu ante aquele gesto que pretendia protegê-la. O seu pai era um nobre tão digno, envolto numa capa de lã escura, que ela não resistiu ao impulso de o cingir pela cintura. Era um homem na flor da idade e de constituição forte, que por um instante a apertou sem dificuldade contra o peito. Depois, evocando uma vez mais a doença, afastou-a com firmeza.
Fitou os seus olhos redondos, escuros como a noite no campo, e a inocência que as longas pestanas lhes emprestavam. O vulto de velas e embarcações ao longe no Tejo pareceu distraí-lo dessa promessa de beleza e feminilidade, mas Mariana soube que a fitava porque lhe era difícil prender o olhar no seu durante mais tempo. A despedida doía a ambos. Procurou-lhe a mão e apertou-lha, descobrindo-lha trémula. Não vos preocupeis, paizinho. Eu cuido da mãe. Sabeis que a vossa mãe é uma criatura difícil, filha. Tende paciência com ela. Afagou-lhe os ombros, com o olhar posto no assador de castanhas». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de Marcador/JDACT

domingo, 12 de abril de 2015

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Quando João tece a união da sua única filha Mariana Albuquerque com um inglês que investiga o potencial comercial do vinho do Porto, não prevê a espiral de desenganos… Mariana tem catorze anos…»

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1805 - 1806
«João Albuquerque, barão de Arraiais, apoiou a mão da sua única filha conforme esta subia para a berlinda. Manteve os olhos baixos para evitar que ela vislumbrasse a tristeza do adeus no seu olhar. Trazia um lenço no bolso do colete, sujo da sua doença do peito. Sabia que não teria disponível o tempo de que necessitava, e não estava disposto a sacrificar a segurança da mulher nem a de Mariana. Sendo dono e senhor de uma extensa companhia de extracção e transporte de madeiras, estava profundamente dependente do negócio com o Oriente. Era daí que vinham contadores e baús indo-portugueses, importados para utilização da nobreza e realeza, para fins de decoração nas suas residências com madeiras exóticas e madrepérola. Ele conseguia concebê-los na sua fábrica de São Domingos a partir das madeiras que importava, em modelos semelhantes aos orientais. Como barão de uma pequena extensão de terra nos socalcos do Douro, pois que um dos seus antepassados fora um dia de valia a João V, não era suposto ter de passar as suas horas metido numa pequena casinha na alfândega, junto ao Tejo, de onde controlava a chegada e a partida de mercadorias. No entanto, e devido à má gestão do seu bisavô, que provavelmente se achara tão enriquecido pela exploração de ouro no Brasil quanto a própria Majestade Fidelíssima, gravitando ao seu redor na corte, vira-se obrigado a investir os parcos meios da família em algo que lhes permitisse viver com dignidade. E acabara por descobrir que, por muito desonroso que fosse para um nobre trabalhar, tinha talento para os negócios e que os números eram o seu dom. Enriquecera pecaminosamente com o negócio a que se dedicara. Desse modo, o colo de Mariana nunca fora obrigado a cruzar a rua sob o sol do meridiano e dona Sofia nunca tivera precisão de criados nem de jóias. Era bem guarnecida de ambos, ainda que isso não a trouxesse menos amarga. O olhar escuro como ébano de Mariana dirigiu-se-lhe, levemente angustiado. Procurou o dele, exigiu que se prendessem um no outro por um breve momento. Talvez, perspicaz como era, suspeitasse que aquela poderia ser a última vez que veria o pai. João Albuquerque estava certo de que assim era; a sua saúde deteriorava-se a olhos vistos, a tísica era contagiosa e, ao entardecer, era geralmente tomado por febres que o enfraqueciam. As noites arrastavam-se com uma tosse aflitiva que mantinha a mulher igualmente acordada, e era olhado de lado pelos homens que, como ele, dividiam o espaço na sua salinha na alfândega. Tinha, contudo, sido demasiado apreciado pela rainha, para que se opusessem à sua presença junto aos seus cadernos de números. Era um homem tido em certa conta e, se não fosse a doença que havia meses lhe corroía os pulmões, teria um aspecto ainda jovem para os seus trinta e quatro anos. Ultimamente, parecia que a pele adquirira um tom macilento e que a cavidade toráxica se tornava mais evidente. Emagrecia no esforço por trazer algum ar ao seu interior. A peste cinzenta reclamava-o para o outro lado e ele, como bom cristão, assegurara-se de que encaminhava as duas almas que tinha a seu encargo para a costa.
Dona Sofia, de trinta e três anos, dedicou um último olhar ao patamar que antevia as escadas para a casa onde circulara nos últimos vinte anos. Teria saudades dos candelabros a iluminar-lhe os corredores à noite, bem como da tapeçaria de Aubusson que tanto se esforçara por adquirir, e que ilustrava episódios das famosas Fábulas de La Fontaine, e da cozinha com os recipientes de cobre pendurados nas paredes caiadas. A construção era recente, pós-terramoto, munida da melhor mobília adquirível em Portugal. Não fosse o seu marido também chefe de quinze artesãos que a trabalhavam ao gosto oriental, como estava em voga. A residência situava-se logo ali, na nova baixa de Lisboa, paredes-meias com a Igreja de São Nicolau. Ainda não tinham cedido ao capricho de adquirir uma propriedade mais opulenta para os lados da Ajuda, e agora que podiam facilmente fazê-lo, a família era desmantelada. Dona Sofia contorcia-se interiormente de revolta ante aquela última disposição do marido. Deixara claro que ganharia sempre qualquer discussão, mas ela não se conformava em abandonar o conforto da sua casa. Também Mariana tinha dificuldade em compreender o porquê daquela decisão do pai, mas ele garantira-lhe que, quando tivesse filhos, seria capaz de descobrir a resposta por si só. Sentiria saudades da vida na cidade onde sempre vivera; do Teatro Italiano, apelidado de São Carlos a pedido da princesa Carlota Joaquina de Bourbon, com o qual só fora autorizada a sonhar, do Rossio, com a sua azáfama de comerciantes e as suas mercadorias de cheiros característicos, da frente ribeirinha, onde se apinhavam varinas, e de toda a restante panóplia de gente que povoava as ruas de Lisboa, e ainda do passeio de caleche até Belém ao domingo de manhã, quando os abastados do bairro assistiam à missa nos Jerónimos. Nessas ocasiões, ela estendia as pernas no discreto areal acompanhada da sua mestra, a jovem Maria, que era também dama de companhia, das não muito faladeiras». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

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