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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «A vida havia-os separado. Vettori vive uma vida prestigiada, cortesã, despreocupada, lamentando apenas a ociosidade e o ter de autoconter-se na sua postura que, não fossem as conveniências»

jdact

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Para que os de Medici saibam que, nada o ligando aos conjurados, a execução destes não lhe afecta sequer a consciência, faz-lhes chegar às mãos aquele verso cínico: vadin in buona ora. Sofrido o cárcere, eis uma natureza que a privação da liberdade moldara e que se vai refinar agora, lançado ao desprezo, o ócio dando-lhe oportunidade, os áureos tempos antigos apontando-lhe o horizonte, o imaginário de grandeza passada tornando-o paradigma do cinismo na acção, a mofa uma forma de mentir com a verdade, de confundir o mal que aconselha com a maldade de que parece mero observador. Tudo surge a seu tempo. De homem de acção transforma-se em pensador, sendo a maioria dos seus escritos anteriores relatórios das actividades diplomáticas. Publicara, é certo, o que poderia passar por poesia pura, as suas primeiras Decenais, sob o título de Nicolai Maclavelli florentini compendium rerum decennio in Italia gestarum, 183 tercetos escritos em quinze dias, obra que era uma narrativa laudatória dos acontecimentos vividos entre 1494 e 1504, estando o autor ao serviço do governo de Soderini e do seu projecto de Ordinanza fiorentina.
O mundo mudara. A política que servira não o quer. A pena é a sua companhia, a necessidade a sua única virtude. Ante a tragédia, o sorriso. Há que escrever, mas, a anteceder qualquer outra escrita. a que permita viver. É pela necessidade que, logo no dia 13, escreve ao seu amigo Francesco Vettori (nasceu em 1474 e faleceu em 1139, sendo mais novo do que Maquiavel. Conheceram-se no quadro da actividade diplomática de ambos e tornaram-se amigos; trocaram uma longa série de epísto1as, sobretudo a partir do momento em que o secretário caiu em desgraça; A leitura deste epistolário permite reconstruir o perfil psicológico e o ambiente histórico em que o nosso autor viveu; cartas de aparência severa e grave, elas escondem, como diria Maquiavel numa delas, escrita a 31 de Janeiro de 1515, duas criaturas que, tal como a natureza, são variadas na essência do seu ser), designado, desde 30 de Dezembro de 1512, embaixador (oratore) da República junto da Cúria, em Roma, rogando-lhe que interceda por si e pelo irmão Totto.
A vida havia-os separado. Vettori vive uma vida prestigiada, cortesã, despreocupada, lamentando apenas a ociosidade e o ter de autoconter-se na sua postura que, não fossem as conveniências, seria libertina e irresponsável; Machiavelli conhece agora a penúria, o confinamento, a luta pelo pão, a ausência dos círculos onde se morrera e de meios para gozar a boa vida, em breve estará retirado para a pobreza rural, local onde tenta, escondendo a sua diminuída pessoa, salvar-se do desdém com que outros o possam olhar. A carta é um acto de contrição, um lamento, uma forma submissa de pedir. Maquiavel promete ser mais cauteloso e espera que os tempos novos sejam mais liberais e menos suspeitosos. Roga que o irmão seja colocado entre os familiares do papa de Medici e com isso beneficiado. Para si próprio suplica que o sumo pontífice, ou os seus, o possam aproveitar em qualche cose. A humildade no estender da mão mostra a que ponto a necessidade já enfraquece o orgulho. Escreve de novo, cinco dias volvidos, ao seu amigo Magnifice Orator, respondendo à missiva que, entretanto, recebera daquele a quem rogara ajuda e que, cauteloso, se mostra parco em prometer (a carta de Francesco é um exemplo acabado de refinada subtileza ante o infortúnio que não pode socorrer. Por um lado anima-o, por outro distancia-se; Maquiavel, inteligente e habituado ao género, deve ter compreendido a indisponibilidade do amigo e a hostilidade do meio em que este se movia, mas responde, considerando a carta gratíssima, e amorosa, e, num assomo de dignidade, deixa claro que viverá como puder, com os poucos meios de que dispõe).
Sem possibilidade de subsistir na cidade, jogando na prudência de não espicaçar a sorte, Maquiavel retira-se para a sua modesta propriedade em Sant’Andrea, localidade de La Strada, na Percussina, junto a San Casciano in Val di Pesa, na Toscana, enfrentando a paz agreste do exílio. Dali escreve, a 9 de Abril, uma nova carta a Francesco, a qual assina, contristado, como Niccolò Machiavelli, quondam Secret, (outrora secretário). É um Maquiavel desalentado, que se conformou com não desejar coisa alguma com paixão, mas que tenta, com afectuosa cortesia, não se mostrar excessivamente decaído na sua desgraçada fortuna». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 16 de março de 2016

Interpretações. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «… a demonstração do que sente quando pensa, é o modo como se refere ao momento em que o carrasco leva para a morte os seus companheiros de infortúnio»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Preso por ter traído os de Medici, Maquiavel vai ver os seus tormentos terem fim, paradoxalmente, ironia do destino, por causa do aumento de poder da poderosa família dos Palleschi, nome que lhes adveio por causa das bolas que ornam a sua cota de armas, símbolo heráldico dos seus: com a aproximação da Primavera, a 12 de Março do ano de 1513, a cidade comemora a eleição de mais um papa, mais um de Medici, Giovanni, segundo filho de Lorenzo, o Magnífico, que ascende com o nome de Leão X, substituindo Júlio II no trono de São Pedro.
A cidade entra em festa para celebrar o evento, um autêntico carnaval vive-se por cinco dias nas ruas, nas casas e nos palácios, muitos no sonho delirante da paz perpétua, outros pelo simples gozo venal do contentamento pagão. Os Florentinos imaginam já as benesses que podem cair-lhes do céu com um papa a que podem chamar seu. As prisões abrem entretanto as portas, a velha superstição de que dar liberdade liberta. Maquiavel é solto. Salvo da má fortuna, este homem sabe que os corredores do poder, de que fora funcionário, estão para trás. Expulso da cena palaciana, resta-lhe, por cautela, retirar-se. Mas não desiste. Servir os grandes, tornando-se-lhes útil, é, afinal, a sua biografia. Usa, para tanto, a única força que tem ao seu dispor, escrever, e a única forma como o sabe fazer, a ironia.
Ainda na cadeia, Maquiavel não baixara o nível da esperança. Estudiosos da sua controversa vida situam dois sonetos, uma canção (Se avessi arco) e um Capítulo Pastoral, como tendo sido escritos naquelas adversas condições carcetárias, na ânsia de obter a graça do Magnífico Giuliano, irmão do papa. Textos inesperados, eles são a melhor demonstração de uma ambígua personalidade em que, naquele ambiente de incerteza, diminuído pelo medo, minado pelo sofrimento, não o abandona o riso de altivez que o aproxima, aos olhos de tantos, do velhaco calculista e do lisonjeador interesseiro. A poesia, com a sua capacidade de concentrar em imagens conceitos extensos, é, por ventura, o melhor autorretrato da sua pessoa. E o que escreveu sobre a sua condição de preso, o que deixou sobre a execução de Boscoli e Capponi, é a demonstração do que sente quando pensa, é o modo como se refere ao momento em que o carrasco leva para a morte os seus companheiros de infortúnio». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Interpretações. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «Ausente de casa, as autoridades tinham lançado editais ameaçando com pena de confisco e por rebelião os que, sabendo onde ele estivesse, não o denunciassem em uma hora e conseguiram assim…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Maquiavel conhece o terreno que pisa e tenta seguir os seus próprios conselhos, serve-se da lisonja, essa perfídia dos fracos. É por isso que, astuto, mesmo já apeado e com a desgraça a bater-lhe à porta, tenta manifestar o seu obsequioso respeito pelos novos senhores, manifestar a esperança abonatória em que a quietíssima cidade pudesse continuar a viver tão honrada agora que era governada por estes magníficos de Medici, como sucedera quando fora governada pelo antecessor dos novos senhores, o excelente Lorenzo, falecido em 1492. Só que é tempo de perseguição e nem a adulação lhe vale como escudo ou como espada. No dia 10, o secretário fica a saber que lhe é proibido ausentar-se do domínio florentino e que fora condenado a uma multa de mil florins; uma semana depois, a17, é vedada durante um ano a sua entrada no Palazzo Vecchio, onde servira; até 10 de Dezembro sofre ainda uma ignominiosa investigação ao modo como administrara o dinheiro destinado ao pagamento da milícia florentina. A justiça sempre gostou de se mostrar forte com os fortes enfraquecidos.
Inicia-se assim um tempo de exílio, que virá a agravar-se no ano seguinte: as ideias deste homem irão castigá-lo através da penitência física, pela dor e pela privação. Aquilo que havia sido a hipocrisia ao serviço da vida diplomática e da manutenção da sua carreira, como servidor dos interesses de Sua Senhoria, tornar-se-á razão e sistema, a vida sofrida, mestra. Uma conjura, em que são dados como envolvidos Agostino di Luca Capponi, Pietro Paolo Boscoli, Niccolò Valori e Giovanni Folchi, move-se contra os de Medici, o assassínio do cardeal Giovanne pensado pelo bando como um meio cristão de livrar a cidade do que consideram ser um dos fundamentos da tirania.
As autoridades descobrem-na e o nome de Maquiavel é encontrado numa lista que um dos presos supostamente teria perdido. À demissão, à fixação de residência, à condenação em multa, segue-se agora a prisão.
Ausente de casa, as autoridades tinham lançado editais ameaçando com pena de confisco e por rebelião os que, sabendo  onde ele estivesse, não o denunciassem em uma hora e conseguiram assim, pelo medo, que não pela recompensa, deitar-lhe a mão. Tudo se lhe muda do dia para a noite. Perdido o conforto das antecâmaras do poder, segue-se agora o sofrimento da cadeia e, com ela, vinte e dois dias de cárcere e de tortura, dias horrendos, de ferros e correntes, passado pelas cordas várias vezes, temendo pela própria vida, como escreveu a 26 de Junho, numa carta ao sobrinho, o mercador Giovanni Vernacci, filho de sua irmã Primavera, na altura comerciante em Istambul. Pietro Boscoli e Agostino Capponi são condenados, pelos Otto (di Guardia), à morte por decapitação, sofrida a 23 de Fevereiro. Da sua cela, as pernas atadas, Maquiavel segue-lhes os últimos momentos, os cânticos fúnebres, intui o golpe de machado que arrancou a cabeça a Pietro, as duas machadadas que foram necessárias para a separar do corpo do infeliz Agostino, como se a vida quisesse demonstrar, simbolicamente, aos seus ineptos carrascos, quanto essa incapacidade de o matarem era sintoma de uma inocência que até ao fim proclamara.
Incerta a sua responsabilidade, Maquiavel continua preso e é sujeito a tortura para que confesse. Sofre o suplício de seis tratos de corda, o polé, içado e solto em queda livre, quase a pontos de se desmembrar, as costelas se lhe rasgarem, a dor o fazer vergar, dizendo assim a verdade ou a mentira, qualquer coisa que satisfizesse, enfim, os juízes, sossegando-lhes a consciência punitiva pré-formada. Porém, resiste, ironizando com a miserável condição em que se encontra, loca infecta, a que ele por ironia chama, num verso entretanto escrito, a poesia como companheira, o sì delicato ostello». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Interpretações no 31. O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «… que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra ‘é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos’…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Envolto num ambiente de contenda, Maquiavel acabou por ficar atado ao pelourinho da infâmia, as suas ideias, tanto no linguajar popular como na conceitualização erudita, associadas a uma acepção pecaminosa, simbolizando a palavra maquiavélico a urdidura do enredo enganador, a vileza da traição aleivosa, a perfídia desapiedada, em suma, o principado da amoralidade, em resumo, o(a) diabólico(a). Papini, que tem o condão de resumir grandes reflexões em pequenas frases, sintetizou: … Maquiavel ficou com fama de porco por causa de La Mandragola e de canalha por causa de O Príncipe. E, no entanto, poder-se-á dizer, como escreveu Sena, que ...ele foi, antes de mais, um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a sua Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras? Poder-se-á dizer, acompanhando de novo Jorge de Sena, um engenheiro a quem a literatura tanto deve, que foi, e é, um dos maiores escritores da literatura italiana, e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas? Talvez, ou nem tanto. Eis do que se trata: de amar, odiar ou compreender este livro. Lê-lo não basta. Ele pode ser um produto do riso irónico sobre os poderosos ou o fruto de uma raiva contida sobre as suas vítimas. Manual de política ou novela alegórica? Vejamos pois, começando pelo seu autor, aproximando-nos do momento em que o escreveu.

Escrever para parecer vivo
Estamos no dia 7 de Novembro de 1512, em Florença. O secretário da Segunda Chancelaria, cumulativamente secretário dos Dieci di Libertà, organismo incumbido da defesa da cidade, Niccolò Machiavegli, como assinava então, é informado pela Senhoria de que perdeu os seus lugares, estando deles exonerado, sendo substituído por um também Niccolò, mas Michelozzi, de quem não reza hoje a História. Mudara o regime que governava a cidade, os de Medici haviam regressado em força, depois de dezoito anos de exílio. Piero Soderini, o gonfaloniere vitalício, (o governo de Florença era então confiado bimestralmente a nove cidadãos eleitos com o título de gonfaloniere, gonfaloneiro em português; Piero Soderini (1452-1522) sê-lo-ia por designação vitalícia, mas o seu mandato acabou por durar apenas oito anos) cabeça da ordem política agora caída, vira ser-lhe retirado, num primeiro momento, essa perenidade do cargo, para ser depois substituído por Giovan Battista Ridolfi. A sua tibieza, a incapacidade de lidar com os graves problemas do seu tempo, o facto de ter consentido a realização do concílio cismático de Pisa, evento animado pelo rei Luís XII de França e que levou à queda do papa Júlio II, foram a causa da sua desgraça. Niccolò, considerado um mannerino do deposto, um instrumento da sua política, teria de seguir-lhe os passos.
A estrutura do mando é profundamente alterada. Tanto Maquiavel como o seu dilecto coadjuctor, Biagio Buonaccorsi, sabem que a sua posição está em causa. Aqueles que haviam servido estão apeados. Para o autor de O Príncipe nasce aqui a grande lição de vida, a confirmação do essencial da sua filosofia, o que faz dele, séculos volvidos, o mestre observador da arte da política: a bondade, a generosidade, a tibieza, o escrúpulo moral são, na política, instrumentos inúteis. Comentando, em um dos seus Discorsi, o comportamento daquele seu senhor agora caído, censura-lhe a paciência e a bondade de alma e, sobretudo, o ter seguido os humores da multidão, preterindo os conselhos dos homens sábios, franqueando as portas aos seus adversários; ao não ter tomado as medidas extraordinárias que a situação exigia, perdera a pátria, o Estado e a sua própria reputação. O regime que servira caíra ante a sua incapacidade de fazer mal: eis, nesta apologia do mal instrumental, neste desprezo pela inocência do bem absoluto, nesta ênfase do conselho da aristocracia dos sábios, neste relegar dos humores da multidão, a estrutura resumida do que pensava Maquiavel sobre o modo como deve agir o político, para que possa conseguir sucesso, no meio hostil em que tem de sobreviver». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 6 de junho de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. «Ainda em 1913, ao enfrentar o pensamento positivista que ameaçava agora fazer escola nas cátedras e na prática judiciária, apelando em seu socorro para o valor ético do direito natural, um modesto estudo»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Mas mais: é que há quem esqueça, ou por sistema pareça não querer lembrar, que se Maquiavel não escreveu O Príncipe exactamente ao mesmo tempo (a questão da cronologia nas obras de Maquiavel é controversa e a da articulação destas duas obras ainda o é mais; a tese tradicional, segundo a qual a partir de 1513 Maquiavel se teria desdobrado na escrita de ambas, terminando os Discorsi em 1519, encontra hoje cada vez menor apoio, apesar de Gilbert, em 1953, ter sustentado que pudesse ter existido um tratado sobre as repúblicas escrito por Maquiavel anteriormente à redacção de O Príncipe, pois no início do segundo capítulo desta obra refere que sobre as repúblicas não falará aqui pois que já discorri demoradamente numa outra vez; mais recentemente, uma outra teoria tentou, acentuando o caráter incompleto e fragmentário dos Discorsi, demonstrar que a sua preexistência relativamente a O Príncipe não exclui que Maquiavel, após a sua redacção, não tivesse continuado a trabalhar naqueles, uma vez que não parece curial que a menção com que se inaugura o referido capítulo II fosse ao texto dos Discorsi tal como o conhecemos actualmente; mais, as condições de penúria em que Maquiavel escreveu O Príncipe e o carácter instrumental da obra como tentativa de obter apoio dos de Medici são pouco compatíveis com a ideia de que ele se afadigasse, com ou sem Lívio, com um belo tratado sobre as repúblicas) em que foi redigindo os seus Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, obra dedicada ao estudo da República romana, parecendo inseguro que tenha interrompido um livro para continuar o outro, a verdade é que é o pai dos dois tomos, nos quais discorre respectivamente sobre principados e sobre repúblicas: claro que o antimaquiavelismo tosco só sobrevive pelo eclipse desta dualidade e pela crucificação de Niccolò Machiavelli à sua obra politicamente incorreta, como agora passou a ser moda dizer-se, e, assim, quase obnubila os Discorsi para focar, como se do seu cérebro perverso só tivesse saído ruindade, O Príncipe.
Além disso, Maquiavel entrou no panorama editorial português pela porta errada. Logo no princípio tudo lhe correu mal. Livro proibido desde o final do século em que surgiu, antes de ser conhecida a sua obra foram conhecidas as dos seus críticos: a censura dá liberdade aos detractores, garantindo-lhes a impunidade de não permitir que outros aquilatem directamente o que eles vituperam. O antimaquiavelismo teve, assim, o beneplácito do imprimatur que a Maquiavel foi negado. Quando finalmente O Príncipe foi dado à estampa, traduzido por Francisco Morais e editado em Coimbra, pela Atlântida, em 1935,viria antecedido com um comprometedor artigo de Mussolini a servir de introdução, precisamente Benito Mussolini, o Ducce da Itália fascista. Não haveria pior chaga a marcá-lo, para a posteridade, de gafa intelectual.
A obra seria recolhida das bibliografias oficiais e lançadas as hostes do pensamento de raiz católica no seu encalço. O estudo de Vergílio Taborda, difundido em 1939, com a II Guerra Mundial no seu alvor e as sombras nazi-fascistas a ocuparem o seu espaço vital na cultura europeia, é disso concludente exemplo. Mas não ficaria por aí a forte corrente contra as suas ideias. Também no campus do jurídico se travaria estrénua pugna, que passou dos corredores das elites do pensamento para o combate de rua, ao nível mesmo das insignificantes publicações. Ainda em 1913, ao enfrentar o pensamento positivista que ameaçava agora fazer escola nas cátedras e na prática judiciária, apelando em seu socorro para o valor ético do direito natural, um modesto estudo, oferecido pelo autor aos alunos do Colégio de João de Deus, no Porto, ante os dias sombrios que vivemos, lembrava que Maquiavel fez aquilo que nos nossos dias estava reservado ao positivismo jurídico: interessou-se apenas pelo direito positivo, pelo direito observável e apreensível em certo momento e em determinado lugar, relegando para o campo da moral tudo o mais que existe no mundo normativo. Ignorou portanto o verdadeiro sentido ontológico do direito que visa a realização da Justiça. Escreveu-o Manuel José Carvalho Martins Almeida». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «… a ‘baixeza moral’ dos que traduziram em falta de dignidade o pensamento daquele que teve “a coragem de colocar a política no plano de uma filosofia de acção, independentemente dos ditames e da autoridade de qualquer poder constituído…»

jdact e wikipedia

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Ciente da impossibilidade de abarcar esta labiríntica literatura, em que já florescem estudos sobre os estudos maquiavelistas, coube-me, por gentileza do editor, o pesado encargo de escrever umas linhas de apresentação de O Príncipe. Ao fazê-lo, tive de convencer-me de duas coisas. Primeira, eue Niccolò Machiavelli não é coutada privativa de historiadores ou de cientistas políticos, que são a grande multidão que dele se ocupa, pois a multiplicidade do seu ser e o polimorfismo do seu pensamento tornam-no um espelho da própria vida. Há uma frase de Giovanni Papini que resume tudo: acusar Maquiavel é acusar o próprio espelho, o mesmo é dizer, nele está a totalidade de todos nós e cada um em alguma particularidade do seu ser. Segunda, que, tendo sido dito tanto e, sobretudo, tanto contra Maquiavel, era tempo de lê-lo e ousar dizer, como se pela primeira vez: a cada um o seu Maquiavel, pois todo o homem é livre de se rever no Maquiavel que haja em si e nos outros que o cercam, sendo a vida o combate com o demónio que possui o irrequietismo de cada criatura. Devo ao acaso da leirura de um pequeno texto, de Henrique Barrilaro Ruas (cito o seu pequeno artigo sobre maquiavelismo publicado na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, volume 18, 1999; nele, Ruas resume o seu pensamento quanto à distinção que julga dever ser feita também em relação a Karl Marx entre o teorético e o doutrinário; Maquiavel foi vítima de uma cilada que ele próprio montou; já Veríssimo Serrão anotara, ao prefaciar a obra de Martim Albuquerque, Foi voga desde o século XVI citar Nicolau Maquiavel e abusar do seu nome e mensagem para explicar situações que nada têm de maquiavelismo. As correntes ideológicas levaram à deficiente aplicação desse conceito, criando uma perigosa vizinhança com interpretações que não promanam da fonte autêntica de Maquiavel), ter-me sido possível levar os olhos um pouco mais alto do que a vulgaridade com que entendia a obra que agora apresento e ter sido capaz de compreender a necessidade ou conveniência científica de distinguir e destacar o maquiavelista [...] do maquiavélico. Foi por aí que comecei o meu estudo.
Sem isso seria mais um que faria à obra a injustiça de tomar partido. Como Maquiavel põe na boca de Calímaco, na sua notável peça de teatro La Mandragola: uma coisa gera outra e o tempo gera todas. No momento em que escrevo sinto o conforto de saber que muito se evoluiu na percepção e na avaliação deste controverso autor e haver assim espaço para outras visões pessoais que não tenham de se inserir nas trincheiras onde se tem travado o combate ideológico em torno da interpretação e aplicação de O Príncipe. O aprofundado conhecimento da integralidade da sua obra, não apenas dos escritos políticos, mas os do comediógrafo, do poeta, do simples escritor de cartas, a contextualização da mesma na época do Renascimento que a ditou, e tudo quanto tal significa de ruptura com a visão teocêntrica da vida e do homem, a ponderação da situação política que lhe foi dado viver, a ânsia da unificação de uma Itália pulverizada, traumatizada por sonhos de glória passada, enfim, um levantamento biográfico exaustivo sobre a triste misantropia e a gaia ironia da sua conturbada vida, tudo isso permite uma nova visão, mais abrangente e, sobretudo, mais enriquecedora porque mais realista. Há hoje, no fluir contínuo do pensamento e do sentir, que são a fonte da inteligibilidade de todas as coisas, ao lado de um revisionismo salvador do pior que se retirou de maquiavélico do maquiavelismo, parte do processo histórico de branqueamento dos horrores da História e da malignidade filosófica, um esforço bravo de libertar a filosofia da ideologia, o pensamento dos preconceitos, compreender sobretudo o que ditou a perenidade multissecular deste pequeno livro.
Como disse, vibrante, Jorge de Sena, num estudo vindo a público em 1963, do que se trata ao estudar Maquiavel é da condenação das hipocrisias dos moralismos e dos legalismos, simultaneamente com o amoralismo total, as grandezas e misérias do poder político, em suma, a baixeza moral dos que traduziram em falta de dignidade o pensamento daquele que teve a coragem de colocar a política no plano de uma filosofia de acção, independentemente dos ditames e da autoridade de qualquer poder constituído, religioso ou não». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 18 de janeiro de 2015

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «… amado ou odiado, ele teve o condão de, ‘secula seculorum’, não deixar ninguém indiferente e muitos tomaram partido em seu favor. Croce considera-o um homem de uma austera e dolorosa consciência moral, Ridolfi acha-o um cristão especial»

Cortesia de wikipedia

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Mas foi no campo da política que a obra sofreu as mais diversas interpretações e serviu para legitimar as mais distintas ideologias: caucionou tiranias e foi tida como expoente de democracia, apontada como exemplo de realismo político e como manifesto de resistência amarga de uma vítima do poder. O marxista Antonio Gramsci (1891- 1937) leu apreciativamente o livro na frieza do cárcere, o fascista Benito Amilcare Andrea Mussolini (1383-1945) citou-o, como exemplo, nos seus histriónicos discursos. O Príncipe é, pois, uma excelente demonstração de que no devir da História cada coisa contém em si própria o ridículo do seu contrário. Antonio Gramsci, Note sul Machiavelli sulla Politica e sullo Stato Moderno, 1971. A visão apreciativa de O Príncipe havia sido considerada criminosa na União Soviética; Lev Kamenev (1883-1936) traduziu em 1934 o livro para russo, citando-o como um precursor das análises de Marx, Engels, Lenine e Estaline. Tal ousadia e outras afins custar-lhe-iam a vida, acusado em 22 de Agosto de 1936 por Andrei Vyshinsky, o procurador soviético, aquando do seu julgamento no quadro das grandes purgas estalinistas. … que os cães enraivecidos sejam mortos a tiro!, pediu Vyshinsky nas suas alegações finais! E foram. Livro herético, ele moveu, logo desde o século XVI, uma cruzada antimaquiavelista, que levantou pendão nos campos de batalha do pensamento filosófico, histórico, político e ético, mobilizando forças para o enfrentar, como se contra o próprio Demónio se travasse esse combate. Curiosamente, parte substancial dessa peleja passou por Portugal como uma decorrência do mandato ingente da propagação do império através da fé.
Espanha e Portugal colocam-se desde a primeira hora em oposição política a O Príncipe, escreveu, em 1939, Vergílio Taborda, professor da Faculdade de Letras de Coimbra (… falecido com pouco mais de trinta anos, Vergílio Taborda escreveu, ainda como estudante, um estudo intitulado Maquiavel e Antimaquiavel, que a editora Atlântida editaria em 1939 e que mereceria uma nota prévia de Francisco Morais, Manuel Lopes d'Almeida e Paulo Quintela. Citando como seu mestre Gonçalves Cerejeira, cardeal-patriarca desde 1929, e que é um dos mais lídimos pensadores da doutrina católica, Taborda regista que desde a segunda parte do século XVI e por todo o século XVII os contraditores de Maquiavel são aqui legião, da rosa dos ventos do saber: teólogos, canonistas, filósofos, políticos, juristas, diplomatas, clérigos, laicos, nobres e plebeus), quatro anos depois de ter surgido, pela mesma editora, a primeira versão do livro em língua portuguesa. E porquê? Porque, escreve Taborda, defendendo a cidadela da fé em todos os campos, a Península não deixaria de fazê-Lo também no da política. O maquiavelismo era a expressão máxima da política nova, realista e pagã: combatendo-a, as nações peninsulares não se afastavam do caminho que se haviam proposto percorrer. Eis, encontrada no espírito do seu tempo, a bandeira intemporal de um exército que ainda hoje se não desbaratou e cuja linha da frente é encabeçada pela defesa da moral religiosa enquanto conceito ético do poder justo, contra a visão pessimista da realidade humana, contra a política de força, a política de dissimulação e de perfídia.
No ano passado (2007), Martim Albuquerque, um historiador de pensamento filosófico conservador e de inspiração religiosa, dedicado à história das ideias políticas, publicou um livro em que defende a tese segundo a qual o pensamento maquiavélico, eis como o trata, é incompatível com o que chama a ética tradicional portuguesa, a mesma que, segundo ele, criou a figura do fidalgo, seu antagonista e da sua moral prática. O livro amplia um outro, escrito em 1973 e publicado em 1974 pelo Instituto Histórico Infante Dom Henrique, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que se inspirara num trabalho sobre o mesmo tema e, curiosamente, com o mesmo título escrito por Mário Albuquerque, em 1954. Trata-se de uma obra de fôlego, profundamente documentada, que permite ao autor concluir que o pensamento tradicional português é antimaquiavélico (?) e que o maquiavelismo é incompatível com a necessidade da expansão e com a psicologia de um povo sonhador de quinto-impérios e criador do tipo ideal do fidalgo. O Príncipe é, pois, um pequeno livro que ainda hoje suscita grandes paixões na delimitação da fronteira entre a virtude e o pecado no campo da política e da própria filosofia do comum viver. Sucedeu assim porque o autor e a obra, uma vida e um livro, uma narrativa e uma doutrina, se confundiram numa mistura sincrética, pela qual se condenou à maldição eterna este opúsculo que, numa fórmula de Bertrand Russell, é um livro para gangsters. Mas não pense o leitor que tem em mãos páginas que apenas suscitaram censura e concitaram contra si detractores e maldizentes. Fazendo contemporânea recensão do muito que se escreveu sobre Maquiavel, Isaiah Berlin, um espírito lúcido e erudito, acumularia um tão vasto acervo de epítetos, tão pitorescos quanto entre si contraditórios, a propósito do secretário, tudo a mostrar que, amado ou odiado, ele teve o condão de, secula seculorum, não deixar ninguém indiferente e muitos tomaram mesmo partido em seu favor. Benedetto Croce considera-o um homem de uma austera e dolorosa consciência moral, Ridolfi  acha-o um cristão especial». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Tradução de Maria Jorge Figueiredo. «Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos»

jdact

Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«(…) Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer. Circula, entre a lenda e o possível, a narrativa do sonho blasfemo de Maquiavel que, no leito de morte, teria, em onírica fantasia, visto um mundo em que a turba dos pobres e dos simples caminhava para o Céu, os filósofos antigos, Platão, Plutarco, Tácito, e outras graves figuras da cidadania condenadas ao Inferno, porque estava escrito: Sapitentia huius saeculi inimica est Dei. Posta em dúvida a sua autenticidade, o sonho tem servido como instrumento de cristianização do ímpio Maquiavel, que ante o momento de prestar contas ante um Deus que, com a sua obra, ofendera, blasfemando-o pelas conveniências da política, terminara a vida mandando os políticos, de que fora conselheiro, arder nas fogueiras infernais. Trata-se de um sonho análogo, embora de sinal diverso, ao sonho de Cipião, que Cícero relata no seu tratado sobre as repúblicas: para todos os que conservaram, ajudaram e engrandeceram a pátria, está guardado no céu um lugar especial. Mas não basta conhecer o homem e a sua circunstância, importa também ter a percepção dos variados contextos pelos quais a obra passou ao longo do tempo e as mais antagónicas leituras que proporcionou, sempre sem esquecer em que estado se encontrava a península itálica onde foi escrita e encontrada a crueza do poder e a malícia interesseira generalizada, afinal o cenário desta encenação, O Grande Teatro do Mundo.
Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos. O livro foi aceite primeiro com indiferente contemporização por um papado corrompido e em promíscua relação com o poder temporal, destinatário natural de muitos destes pensamentos; no capítulo XI, dedicado aos principados eclesiásticos, o papa Leão X vê o seu pontificado retratado como potentíssimo e Maquiavel a augurar que, erigido com armas pelos seus santíssimos antecessores, seja agora grandíssimo e venerando através da sua bondade e infinitas outras virtudes. Não poderia haver maior lisonja. O modelo monárquico do papado, com a transformação do chamado património de São Pedro num principado, tendo à cabeça um sumo pontífice, foi levado a cabo a partir da segunda metade do século XV quando o papa Eugénio IV se estabelece definitivamente em Roma, em 1443,vitorioso sobre quantos pretendiam a supremacia da autoridade dos concílios sobre o papa. A queda de Constantinopla em 29 de Maio de 1453, às mãos do turco Maomé II, veio abrir a porta para a supremacia da IgrejaCatólica Apostólica Romana. Dotado de exército próprio, de cerca de dez mil homens, a que acresciam mercenários, o Estado Pontifício em pouco se distinguia das outras potências temporais. Pouco mais de quarenta anos volvidos, em 1519, por decreto do papa Paulo IV (nascido Gian Pietro Caraffa), O Príncipe entrava, porém, na lista dos livros amaldiçoados pela doutrina católica e, a partir daí, ler Maquiavel passou a significar estar em pecado de heresia, o autor queimado em efígie, os teólogos a clamarem pela fogueira como argumento final contra o seu pensar. Paulo IV procedeu à reorganização do Tribunal do Santo Ofício (maldito), incumbido da polícia da fé e do combate às heresias, criando a Congregação da Sacra Romana e Universal Inquisição (maldita), e lançou o Index dos livros proibidos, por decreto de 30 de Dezembro de 1518, publicado no ano seguinte. Nele todas as obras de Maquiavel, de Rabelais e de Erasmo de Roterdão eram referidas como de leitura vedada. Com o Concílio de Trento, em 1564, foi elaborado um segundo catálogo de livros proibidos (Index librorum probibitmum a Summo Pontifice) e mantida a interdição sobre a obra de Maquiavel». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história…»

jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula. Privada de conhecimento consciente, privada de acesso aos dispositivos de deliberação bizantinos presentes no nosso cérebro, a célula isolada revela uma atitude: quer viver por inteiro o tempo que lhe foi geneticamente atribuído. Por estranho que pareça, torna-se óbvio que esse querer, e tudo o que é necessário para o implementar, precedem o conhecimento explícito e a deliberação quanto às condições de vida, uma vez que a célula claramente não os possui. O núcleo e o citoplasma interagem e levam a cabo cálculos complexos destinados a manter a célula viva. Lidam com os problemas que a cada instante surgem a um ser vivo e adaptam a célula à situação, de forma a sobreviver. Reorganizam a posição e a distribuição das moléculas no seu interior, dependendo das condições ambientais, e alteram a forma dos subcomponentes, tais como os microtúbulos, numa exibição de precisão espantosa. Reagem a condições negativas e também às condições favoráveis. Como é óbvio, os componentes que levam a cabo essas adaptações foram colocados na sua posição pelo material genético da célula, de quem recebem ordens.
É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de conceber a história de tal progresso quando a observamos do topo da pirâmide e nas nossas circunstâncias presentes. Contudo, a verdade é que a mente consciente se limitou a tornar o conhecimento da gestão básica da vida conhecível.
As contribuições decisivas da mente consciente para a evolução vêm a ser introduzidas a um nível muito superior. Têm a ver com tomadas de decisão deliberativas e com criações culturais. Não estou, de todo, a menosprezar a importância desse nível elevado de gestão da vida. Com efeito, uma das principais ideias defende que a mente consciente humana deu um novo rumo à evolução precisamente por nos dotar de opções, por tornar possível uma regulação sociocultural relativamente flexível, bem para além da organização social complexa que os insectos, por exemplo, exibem de forma tão espectacular. Estou, isso sim, a inverter a sequência narrativa do relato tradicional sobre a consciência, fazendo com que o conhecimento oculto da gestão da vida preceda a experiência consciente de tal conhecimento. Estou igualmente a dizer que esse conhecimento oculto é bastante sofisticado e não deve ser tomado como primitivo. A sua complexidade é enorme e a inteligência nele implícita espantosa.


Não estou a menosprezar a consciência, mas estou, garantidamente, a acentuar a importância da gestão não-consciente da vida e a sugerir que ela constitui o esquema-base para as atitudes e intenções das mentes conscientes. Será que o nosso desejo consciente de viver, tão humano, a nossa vontade de prevalecer, teve início numa agregação silenciosa dos desejos rudimentares de todas as células do nosso corpo, uma voz colectiva libertada num canto de afirmação?» In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Livro da Consciência. António Damásio. «Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem»


jdact e cortesia da wikipedia

Vontade natural
«A grande diferença entre as células que se encontraram nos organismos multicelulares, ou metazoários, e as células isoladas têm de se bastar a si próprias, as células que constituem o nosso organismo vivem em sociedades extremamente diversas e complexas. Muitas das tarefas que as células dos organismos unicelulares têm de desempenhar sozinhas são atribuídas a tipos especializados de células nos organismos multicelulares. No entanto, a organização geral é comparável à atribuição distinta de papéis funcionais que cada célula individual incorpora na sua própria estrutura. Os organismos multicelulares são compostos por múltiplos organismos unicelulares organizados de forma colaborativa, algo que teve origem na combinação de organismos individuais ainda mais reduzidos. A economia de um organismo multicelular apresenta inúmeros sectores e as células que compõem cada um desses sectores colaboram entre si. Se tudo isto parece familiar e leva o leitor a pensar nas sociedades humanas, tem toda a razão. As semelhanças são espantosas.
A regência do sistema de um organismo multicelular é extremamente descentralizada, embora apresente centros de liderança com poderes avançados de análise e decisão, como, por exemplo, o sistema endócrino e, claro está, o cérebro. Mesmo assim, com raras excepções, rodas as células dos organismos multicelulares, incluindo o nosso, têm os mesmos componentes de um organismo unicelular:
  • membrana, citoesqueleto, citoplasma e núcleo, os glóbulos vermelhos, cuja breve vida de cento e vinte dias é dedicada ao transporte de hemoglobina, são a excepção, pois não possuem um núcleo.
Além disso, todas essas células apresentam um ciclo de vida semelhante, nascimento, desenvolvimento, envelhecimento, morte, ao de um organismo complexo. A vida de um organismo humano é composta por multitudes de vidas simultâneas e bem articuladas. Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem. A regência da sua vida incluía uma insistência obstinada em existir e prevalecer até que alguns dos genes do núcleo suspendessem essa vontade de viver e permitissem que a célula morresse.
Sei que é difícil imaginar que os conceitos de ‘desejo’ e ‘vontade’ possam ser aplicáveis a uma célula única e isolada. Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão, seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da célula». In António Damásio, O Livro da Consciência, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010, ISBN 978-989-644-120-3.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Computador Interior. Malcolm Gladwell. «A mente funciona com mais eficiência se relegar para o inconsciente uma boa quantidade de pensamentos sofisticados de alto nível, tais como o facto de um jacto poder voar com o piloto automático e pouca ou nenhuma informação do piloto humano ‘consciente’»

Cortesia de domquixote 

«A parte do nosso cérebro que atinge conclusões dessas é chamada “inconsciente adaptável”, e o estudo deste tipo de decisões é um dos novos domínios da psicologia considerados mais importantes. O inconsciente adaptável não deve ser confundido com o inconsciente descrito por Sigmund Freud, que ela um sítio esconso e obscuro, repleto de desejos, recordações e fantasias demasiado perturbadoras para que pensássemos nelas conscientemente. Em vez disso, considera-se esta nova noção de inconsciente adaptável como sendo uma espécie de grande computador que discreta e silenciosamente processa uma grande quantidade dos dados de que precisamos para funcionar como seres humanos. Quando uma pessoa atravessa a rua e de repente vê que vem um camião na sua direcção, será que tem tempo de pensar em todas as suas opções? Claro que não. A única maneira de o ser humano ter sobrevivido como espécie durante tanto tempo foi ter desenvolvido um outro sistema de decisão, capaz de fazer avaliações rápidas baseadas em poucas informações. Tal como escreve o psicólogo Timothy Wilson no seu livro ‘Strangers to Ourselves [Desconhecemo-nos a nós próprios]:
  • "A mente funciona com mais eficiência se relegar para o inconsciente uma boa quantidade de pensamentos sofisticados de alto nível, tais como o facto de um jacto poder voar com o piloto automático e pouca ou nenhuma informação do piloto humano ‘consciente’. O inconsciente adaptável é excelente a avaliar o mundo, a avisar as pessoas do perigo, a determinar objectivos e a iniciar acções, de um modo complexo e eficiente”.

Cortesia de expressodoinconsciente

Wilson afirma que alternamos o pensamento entre o estado consciente e o estado inconsciente, dependendo da situação. A decisão de convidar um colega para jantar é consciente. Pensa-se nela. Acha-se que poderá ser divertido. E convida-se a pessoa. A decisão espontânea de conviver com esse camarada de trabalho faz-se inconscientemente, através de uma outra parte do cérebro e motivada por uma outra parte da personalidade.

Sempre que conhecemos uma pessoa, quando entrevistamos alguém para um emprego, sempre que reagimos a uma ideia nova ou sempre que temos de tomar uma decisão rápida e sob pressão, usamos essa segunda parte do cérebro. Por exemplo, de quanto tempo é que precisou, quando estava na universidade, para saber se o seu professor era bom a ensinar? Uma aula? Duas aulas? Um semestre? Uma vez, o psicólogo Nalini Ambady mostrou três vídeos de dez segundos, com o som desligado, de três professores a um grupo de estudantes, e descobriu que eles não tinham nenhuma dificuldade em fazer uma avaliação da eficácia dos professores. Depois, Ambady fez uma montagem com cinco segundos, e as avaliações mantiveram-se iguais.

E mantiveram a mesma consistência de uma maneira impressionante quando mostrou aos alunos apenas ‘dois segundos’ de vídeo. A seguir, Ambady comparou essas opiniões instantâneas acerca da eficiência dos professores com as avaliações dos mesmos professores feitas pelos seus alunos, ao fim de um semestre inteiro de aulas, e verificou que elas continuavam a ser essencialmente as mesmas. Uma pessoa que observa um vídeo mudo de dois segundos de um professor que nunca viu chegará a conclusões sobre a qualidade do professor muito parecidas com as do estudante que frequentou as suas aulas durante um semestre inteiro. É esse' o poder do nosso inconsciente adaptável». In Malcolm Gladwell, Blink, Publicações Dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-20-4079-2.

Cortesia D. Quixote/JDACT

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Estátua que não Parecia Bem. Malcolm Gladwell. «Decidir num piscar de olhos. Deram apenas uma olhadela à estátua, uma secção do seu cérebro efectuou uma série de cálculos instantâneos e, antes de que um pensamento consciente ocorresse, sentiram alguma coisa, precisamente o repentino aparecimento de suor nas palmas da mão…»

Cortesia de domquixote e businessinsider

«Em Setembro de 1983, um negociante de arte que dava pelo nome de Gianfranco Becchina entrou em contacto com o Museu J. Paul Getty da Califórnia. Disse estar na posse de uma estátua de mármore datada do século VI a.C. Era aquilo a que se chama um “kouros”, a escultura de um jovem de pé com a perna direita à frente e os braços caídos. Só se conhece a existência de cerca de 200 “kouros”, a maioria dos quais foi encontrada muito estragada ou fragmentada em túmulos e escavações arqueológicas. Porém, este estava quase perfeito e tinha uma altura de cerca de dois metros.
Apresentava um brilho claro que o distinguia das outras peças antigas. Era uma descoberta extraordinária. O preço pedido por Becchina chegava quase aos dez milhões de dólares.
Os responsáveis do museu agiram com cuidado.
Tudo indicava tratar-se de obra genuína. O estilo da escultura lembrava o “kouros” Anavyssos que se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, o que significava fazer parte de uma determinada época e localização.
Quando e onde fora a estátua encontrada? Ninguém sabia ao certo, mas Becchina deu ao departamento jurídico do Getty uma pilha de documentos relacionados com a sua história mais recente. Segundo os registos, desde a década de1930 que o “kouros” fazia parte da colecção particular de um médico suíço chamado Lauffenberger, que o teria comprado a um conhecido negociante de arte grego de nome Roussos.
Contudo, havia um problema com o “kouros”. Havia qualquer coisa nele que não parecia bem. O primeiro a reparar foi o historiador de arte italiano Federico Zeri. Quando, em Dezembro de 1983, Zeri foi levado ao estúdio de restauro do museu para ver o “kouros”, reparou nas unhas da escultura. Pareciam-lhe erradas, mas não sabia muito bem porquê.

Cortesia de flick

Evelyn Harrison foi a pessoa que se lhe seguiu.
Bem, ainda não é nosso, mas sê-lo-á dentro de poucas semanas. Evelyn respondeu-lhe: «Lamento saber isso». O que é que Evelyn Harrison viu? Ela própria não sabia…
[…]
Rápido e Frugal
Imagine que eu lhe pedia para entrar num jogo de cartas muito simples. Tem à sua frente quatro baralhos de cartas - dois encarnados e dois azuis. Cada carta nesses quatro baralhos dá-lhe a ganhar uma certa quantia, ou então fá-lo perder uma outra quantia, e o que tem a fazer é virar as caras de qualquer um dos baralhos, uma de cada vez, de tal maneira que ganhe o mais possível. No entanto, ao princípio, o leitor ainda não sabe que os baralhos encarnados são autênticos campos de minas. Com as cartas encarnadas, a recompensa é alta, mas pode perder-se muito. Na realidade, só consegue ganhar tirando cartas dos baralhos azuis, que oferecem continuamente prémios muito apetecíveis de 50 dólares e só levam a perdas modestas. A questão é saber de quanto tempo uma pessoa precisa para descobrir a diferença entre os baralhos encarnados e os azuis.
Há alguns anos, um grupo de cientistas da Universidade do Iowa fez esta experiência e concluiu que ao fim de virar 50 cartas a maioria das pessoas começava a perceber como é que a coisa funcionava. Não sabiam porque é que preferiam os baralhos azuis, mas a certa altura estavam convencidas de que era melhor apostar neles. Depois de virar cerca de 8o cartas, a maioria percebia o jogo e conseguia explicar com precisão porque é que os dois primeiros baralhos eram uma má aposta. Até aí, a coisa é muito simples:
  • fazemos algumas experiências;
  • pensamos nelas;
  • elaboramos uma teoria;
  • e depois, somamos dois mais dois.
É assim que se aprende.
Porém, os cientistas do Iowa fizeram outra coisa, e é aí que começa a parte estranha da experiência. Ligaram cada jogador a uma máquina que media a actividade das glândulas sudoríparas localizadas na palma da mão. Tal como a maioria das nossas glândulas sudoríparas, as das palmas respondem tanto à tensão como à temperatura, e é por isso que ficamos com as mãos suadas quando estamos nervosos. Os cientistas do Iowa descobriram que os jogadores começavam a dar respostas sob tensão, em relação aos baralhos vermelhos a partir das 10 cartas, 40 cartas antes de serem capazes de dizer que havia algo errado com esses dois baralhos. Mais importante ainda, na altura em que as mãos começavam a suar, o seu comportamento também mudava.
Começavam a preferir as cartas azuis e a retirar cada vez menos cartas dos baralhos encarnados. Por outras palavras, os jogadores apercebiam-se do sistema do jogo, antes de perceberem que já se tinham apercebido; começavam a fazer os ajustamentos necessários antes de estarem conscientes dos ajustamentos que supostamente deveriam ter feito.

É óbvio que a experiência do Iowa não passa disso, um simples jogo de cartas envolvendo algumas pessoas e um detector de stress. Contudo, ilustra de um modo muito claro a maneira como a nossa mente funciona. Eis uma situação em que há muito em jogo, em que as coisas acontecem depressa e em que os participantes têm de processar muita informação nova e confusa num período de tempo muito curto.

Kouros
Cortesia de ebaliceit

E o que é que a experiência do Iowa nos diz? Diz-nos que nestas alturas o nosso cérebro usa duas estratégias muito diferentes para avaliar a situação. A primeira é a que conhecemos melhor: a estratégia consciente. Pensamos no que aprendemos e acabamos por dar a resposta certa.

É uma estratégia lógica e definitiva. Porém, precisamos de 80 cartas para lá chegar. É lenta e requer muita informação. No entanto, há outra estratégia, que funciona muito mais depressa. Começa a actuar ao fim de dez cartas e é realmente uma esperteza, pois percebe o problema das cartas encarnadas quase imediatamente. Contudo, tem uma desvantagem, que é funcionar, pelo menos ao princípio, completamente abaixo do nível da consciência. Envia as suas mensagens através de canais estranhamente indirectos, tais como as glândulas sudoríparas na palma da mão. É um sistema em que o nosso cérebro chega a conclusões, sem nos dizer imediatamente que está a chegar a conclusões.
A segunda estratégia foi o percurso feito por Zeri e Evelyn. Não levaram em consideração todos os indícios possíveis. Detiveram-se apenas naquilo que podia ser apreendido numa olhadela. O pensamento deles é aquilo a que o psicólogo do conhecimento Gerd Gigerenzer chama «rápido e frugal». Deram apenas uma olhadela à estátua, uma secção do seu cérebro efectuou uma série de cálculos instantâneos e, antes de que um pensamento consciente ocorresse, sentiram alguma coisa, precisamente o repentino aparecimento de suor nas palmas da mão dos jogadores.
Será que sabiam porque é que sabiam? De maneira nenhuma. No entanto, “sabiam”».
In Malcolm Gladwell, Blink, Publicações Dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-20-4079-2.

Cortesia D. Quixote/JDACT