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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Na Romagna. Paul Strathern. «No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia?»

jdact

Traição e Bluff
«(…) Soderini conteve-se, mas estava sem sombra de dúvida perturbado. Maquiavel pode ter ficado também perturbado, mas além disso sentiu-se impressionado e não deixaria de o transmitir no despacho que enviou para Florença: este senhor é verdadeiramente esplêndido e magnificente e, na guerra, não há empreendimento por maior que seja que não lhe pareça pequeno; é incessante na busca de glória e de território e não conhece perigos nem fadiga. Chega a um lugar antes que qualquer pessoa se aperceba de que saiu do lugar onde estava antes. É amado pelos seus soldados e tem ao seu serviço os melhores homens de Itália. Tudo isto lhe permite ser vitorioso e formidável, particularmente à luz da sua boa fortuna permanente. A notícia de que Bórgia tinha tomado Urbino de súbito, a chegada de noite, fatigado, após longa e dura cavalgada pelas montanhas, o ter sido levado apressadamente para o palácio mal acabara de desmontar, os guardas armados e o trancar das portas depois de terem entrado, e por fim o aparecimento teatral de Bórgia com a luz das velas atrás de si num salão às escuras, tudo isto deve ter contribuído para baixar as defesas de Maquiavel. Este tinha na altura 33 anos e já se encontrara com várias figuras importantes, e, no entanto, esta fortíssima primeira impressão permaneceria com ele para o resto da vida, afectando todos os seus posteriores pensamentos acerca de Bórgia.
Durante este encontro em Urbino, as aptidões políticas de Maquiavel levá-lo-iam a suspeitar de que havia um certo bluff no estilo bombástico de Bórgia. Mas nem isso podia já perturbar a imagem ideal de um conquistador enérgico e sem escrúpulos, que tão fortemente tinha ficado gravada na sua mente. Soderini e Maquiavel não o sabiam ainda, mas a situação de Bórgia tinha sofrido uma modificação drástica nos dias anteriores. Luís XII, que se encontrava prestes a estabelecer a sua corte em Asti, no Norte de Itália, não estivera tão distraído como parecia por causa da sua disputa com a Espanha. Observara a terceira campanha de César na Romagna e estava bem ciente do que ele era capaz. Mas isso ainda não era tudo. Como resultado da tomada traiçoeira de Urbino por Bórgia, os seus inimigos na região tinham fugido e iam a caminho para expor o seu caso a Luís XII, que, ao que constava, tinha ficado em particular aborrecido com o movimento ostensivo de Bórgia sobre Arezzo, em território florentino. Contudo, esta acção de Vitellozzo não era inteiramente da responsabilidade de Bórgia, e este estava bem consciente de que, na melhor das hipóteses, o seu comandante só estava parcialmente sob o seu controlo. Como se isto já não fosse mau o suficiente, Bórgia ouvira falar de uma conspiração contra si, que estaria a ser montada entre os seus comandantes Vitellozzo, Baglioni e Liverotto da Fermo. Muitos dos castelos e domínios que lhes pertenciam situavam-se ao longo das fronteiras ocidental e meridional do ducado da Romagna de Bórgia, e eles acabavam de compreender a sua vulnerabilidade face às contínuas intenções expansionistas de Bórgia. Só virando-se contra ele tinham probabilidades de sobreviver. Mesmo Paolo e Giulio Orsini, que se encontravam com Bórgia em Urbino, tinham, segundo os boatos, sido contactados para se juntarem à conspiração. No momento, ajudavam Bórgia a intimidar a delegação florentina, informando confidencialmente Soderini e Maquiavel de que a conquista de Arezzo por Vitellozzo contara com o apoio encoberto de Luís XII, o que significava que Bórgia podia agora com facilidade desencadear uma acção sobre a própria Florença, se assim o decidisse.
No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia? Estas eram as últimas famílias aristocráticas poderosas de Roma que ainda conservavam as suas terras e os seus castelos. Alexandre VI tinha anulado o poder das outras famílias notáveis uma a uma, quando surgia a oportunidade, acabando por confiscar os castelos e as terras da família Colonna escassos meses antes, quando esta cometera o erro de alinhar ao lado de Nápoles contra os franceses e os espanhóis. Os Orsini tinham evidentemente começado a pensar quanto tempo demoraria até eles próprios serem eliminados e as suas terras passarem a fazer parte do crescente domínio de Bórgia». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

domingo, 24 de julho de 2016

Na Romagna. Paul Strathern. «Após a primeira campanha de Bórgia na Romagna, ele deixara o seu fiável comandante Lorqua encarregado do território conquistado e, desde então, começara a ser criada uma espécie de administração pública»

jdact

Traição e Bluff
«(…) Tal como se esperava, os batedores das forças de Bórgia avistaram Urbino ao início do dia 21 de Junho e não comunicaram nenhuma resistência. Ao final desse dia, após ter percorrido perto de 65 quilómetros em apenas 24 horas, Bórgia entrou em Urbino sem encontrar resistência, acompanhado apenas pela sua guarda pessoal. A tomada de Urbino, e a maneira traiçoeira como ele a levara a cabo, causou indignação generalizada. A família Montefeltro, de Urbino, era tida em grande consideração
por toda a Itália. O pai condottiere de Guidobaldo dirigira campanhas bem-sucedidas em nome de todos os grandes poderes, e a transformação de Urbino em cidade do Renascimento, por ele levada a cabo, era amplamente admirada. A família Montefeltro estava ligada a figuras notáveis de todo o país, tanto a nível cultural como por casamento. O pai de Guidobaldo fora feito duque pelo papa Sisto IV; a esposa de Guidobaldo era uma Gonzaga; ele próprio era próximo do poderoso cardeal Giuliano della Rovere e amigo de Luca Pacioli, o matemático amigo de Leonardo da Vinci.
Com desdém, Bórgia justificou os seus actos traiçoeiros insistindo em que o próprio Guidobaldo é que era o traiçoeiro. Bórgia alegou ter interceptado provas de que Guidobaldo enviara para Camerino ajuda para a cidade se defender do iminente ataque de Bórgia, e é bem possível que isso fosse verdade. De qualquer maneira, não fazia diferença. Guidobaldo, de 30 anos, era um fraco, tanto física como psicologicamente: um político tão inexperiente teria grande dificuldade em opôr-se a César Bórgia, fossem quais fossem as circunstâncias. O facto é que Bórgia seria obrigado a tomar Urbino se tencionava fazer da Romagna um território viável e defensável. Geograficamente, Urbino era a cidade-chave da região. De um só golpe, podia separar a Romagna do Norte da região de Le Marche a sul, assim como cortar as ligações da Romagna a Roma através da Via Flaminia. Controlava também as passagens através dos Apeninos, que ligavam o Adriático à Toscana. As ligações de Florença com a costa ocidental, já tinham sido cortadas com a perda de Pisa e a tomada de Piombino. As suas rotas através dos Apeninos até ao Adriático estavam igualmente cortadas, o que representava uma grave perda para uma cidade cuja riqueza dependia tanto do comércio. Assim que Bórgia tomou Urbino, começou a pilhá-la de forma sistemática, sendo os seus valores transportados por mula para Cesena, a norte, cidade que ele designara como a capital do seu novo ducado. Quando concluiu esta operação, tinha retirado de Urbino obras de arte no valor de 150 000 ducados (quase 1000 vezes do que o salário anual de um funcionário público sénior como Maquiavel), bem como a maior parte da famosa biblioteca e quantidades de jóias e tesouros vendáveis. parte destes valores seria usada para pagar a campanha de Bórgia, mas outra destinava-se a criar a sua administração pública. Ironicamente, o saque a Urbino feito por Bórgia indicava que este via no seu ducado da Romagna muito mais do que uma simples conquista territorial. Ele desejava estabelecer aí a sua governação numa base permanente: iria ser uma potência italiana civilizada.
Após a primeira campanha de Bórgia na Romagna, ele deixara o seu fiável comandante Lorqua encarregado do território conquistado e, desde então, começara a ser criada uma espécie de administração pública. O governo de Bórgia tinha, na maior parte dos casos, substituído pequenas tiranias que eram detestadas pelas populações, e esta conquista fora amplamente saudada. No entanto, como Maquiavel declarara, esta era uma região sem lei, um terreno fértil para os piores crimes, e Lorqua vira-se obrigado a tomar medidas duras para impor a sua autoridade. Se Bórgia pretendia estabelecer um mínimo de vida cívica pacífica no seu novo ducado, isso exigia dinheiro e, por isso, o que representava perda para Urbino representava ganho para a Romagna. Tal como vimos, antes do seu movimento fulminante sobre Urbino, Bórgia tinha mandado uma mensagem à Signoria em Florença, dizendo que pretendia um encontro e que eles deveriam enviar de imediato alguém que estivesse autorizado a discutir um assunto de grande importância. Como resultado, o bispo Soderini e Maquiavel tiveram de atravessar rapidamente as montanhas a cavalo (seguindo em grande parte os mesmos trilhos que Guidobaldo usara na sua fuga), chegando a Urbino ao final do dia 24 de Junho , após o que foram apressadamente conduzidos ao palácio ducal, onde Bórgia os esperava. Desta vez, tinha Florença à sua mercê e, nas palavras de Maquiavel, a cidade tremia de alma e coração em suspenso com a perspectiva de o ver unir forças com Vitellozzo, e, em conjunto com ele, infligir grande infortúnio aos seus cidadãos. Bórgia lançou um discurso veemente e irritado contra a infeliz delegação florentina». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Na Romagna. Paul Strathern. «Então, a 4 de Junho, a cidade florentina de Arezzo, no Sul da Toscana, revoltou-se, com os seus cidadãos a afluir às ruas e a apelar abertamente ao regresso dos Medici. Como preparativo para a campanha de Bórgia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Traição e Bluff
«Nos começos de Junho de 1502, César Bórgia dava em Roma os retoques finais nos seus planos de invasão, com os seus comandantes já reunidos no terreno: Lorqua em Cesena, Vitellozzo e Baglioni perto da Romagna sudoeste, junto à fronteira com a Toscana. Tal como Maquiavel previra, assistira-se a um aumento da tensão entre os franceses e os espanhóis por causa da decisão de tomarem Nápoles em conjunto. Luís XII tinha grande necessidade do apoio de Bórgia, sob a forma do poder diplomático do papa e do potencial apoio de Bórgia e dos seus comandantes. Bórgia estava decidido a tirar partido disso, em especial no que se referia a Florença, onde os gastos com a guerra aparentemente interminável contra Pisa e o crescente fardo fiscal imposto pela Signoria às cidades da república tinham provocado uma agitação generalizada. Então, a 4 de Junho, a cidade florentina de Arezzo, no Sul da Toscana, revoltou-se, com os seus cidadãos a afluir às ruas e a apelar abertamente ao regresso dos Medici. Como preparativo para a campanha de Bórgia, o seu comandante Vitellozzo encontrava-se com uma força de 3500 homens do outro lado da fronteira. Aproveitando a oportunidade, Vitellozzo avançou para Arezzo, onde os cidadãos lhe abriram os portões de par em par e saudaram a sua entrada na cidade. Não se sabe até que ponto tudo isto foi encenado por Vitellozzo, com o conhecimento prévio de Bórgia. No entanto, a velocidade dos acontecimentos, assim como o oportunismo rapidamente concretizado de Vitellozzo, decerto apanhou Bórgia de surpresa. Se ele tivesse o controlo pleno dos acontecimentos, talvez este avanço se tivesse dado quando produzisse o máximo de efeito possível, ou seja, quando Bórgia tivesse já saído de Roma e desencadeado a sua invasão da parte sul da Romagna. Assim, ocorreu ainda antes de Bórgia sair de Roma. Depois, chegou até ele a notícia de que Piero del Medici se encontrava em Arezzo, acompanhado pelo comandante de Bórgia Baglioni, enquanto Vitellozzo avançava para ocidente, para o Val di Chiana, sem encontrar quase nenhuma resistência por parte das cidades que foi cruzando pelo caminho. Os acontecimentos avançavam rapidamente, mas sob o controlo de quem? Vitellozzo estava empenhado em vingar-se dos florentinos por causa do assassínio (como ele o via) do irmão Paolo, após a sua traição no cerco de Pisa, três anos antes. De facto, quando Bórgia negou qualquer envolvimento na invasão de Vitellozzo, insistiu em que esta teria sido de certeza a única razão para a acção do seu comandante.
No dia 10 de Junho, Bórgia saiu tarde de Roma, com os seus outros comandantes, Liverotto Fermo, Paolo e Giulio Orsini, e 7000 homens. Encaminharam-se para norte pela Via Flaminia, a antiga estrada romana que conduzia à Romagna, com o objectivo aparente de tomarem Camerino e depois continuarem na direcção da costa para conquistarem Sinigallia. Como gesto de cortesia, Bórgia informou previamente Guidobaldo, duque de Urbino, pedindo-lhe autorização para atravessar o seu território, ao mesmo tempo que Vitellozzo solicitava a Guidobaldo que enviasse 1000 dos seus soldados para o ajudar na conquista do Val di Chiana. De início apreensivo com as movimentações de tropas de Bórgia tão perto do seu território, ao saber que Bórgia e as suas forças tinham inflectido para leste, saindo da Via Flaminia em direcção a Camerino, Guidobaldo enviou as suas saudações a César e, no dia 20 de Junho, saiu de Urbino para participar num jantar de festa com os seus amigos numa zona campestre próxima. Os gentis acordes da música dos alaúdes sob as estrelas foram de repente interrompidos pela chegada de uma série de mensageiros sem fôlego. O ataque de César a Camerino tinha sido apenas uma manobra para desviar as atenções. As suas tropas surgiram do nada e naquele momento avançavam em direcção a sul a partir de San Marino, a leste da costa, e para norte a partir da via Flaminia, convergindo todas para a cidade de Urbino, onde se esperava que chegassem pela manhã.
Guidobaldo fugiu o mais rápido que o seu cavalo conseguia transportá-lo, procurando segurança nas montanhas. Os dias que se seguiram passou-os a tentar desesperadamente iludir as patrulhas que Bórgia mandara à sua procura: escolhendo um trajecto em ziguezague pelos trilhos da fronteira dos altos Apeninos, dependendo da hospitalidade que encontrava em casas isoladas de camponeses, aventurando-se por fim a descer ao vale do Pó. Oito dias mais tarde, depois de ter percorrido quase 320 quilómetros, alcançou a segurança da cidade de Mântua, governada pela família da esposa, tendo chegado num estado de grande perturbação depois de ter fugido apenas com a minha vida e com o gibão e a camisa que tinha no corpo». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT