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terça-feira, 4 de julho de 2017

O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «Tratava-se de alguma carta para a noiva ou a mãe?, perguntou Koch ao ébrio sacerdote. Não, respondeu acalorado. Não, não, não. Ora essa!»

Cortesia de wikipedia

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) O assassino deixou alguma pista?, quebrou finalmente o silêncio Steiner. Quer dizer, cabelos, um botão, um pedaço de roupa... Absolutamente nada, respondeu o médico. Quase..., quase dá a impressão de que se preocupou em apagar qualquer pista depois de matar e sodomizar o rapaz. Ou então era um fantasma... Ora, vamos!, protestou o juiz quando ouviu as últimas palavras. Tudo isso já é bastante complicado em si para que o senhor se dedique a brincar com as palavras. Um fantasma, repetiu mentalmente Steiner. Definitivamente, nada daquilo iria agradar a Koch.

Baviera, 1787
Mais de uma vez, mais de duas, mais de uma centena, Koch tinha-se perguntado por que Lebendig e, principalmente, a casa de Lebendig não lhe provocavam nenhuma sensação de mal-estar. E isso apesar de que, sem nenhuma espécie de dúvida, nunca tinha conhecido ninguém tão desorganizado quanto ele. Não, nem antes nem depois que cruzara o seu caminho ele tinha tido a oportunidade de ver alguém semelhante. Era curioso mas, para dizer a verdade, as suas vidas nunca teriam se cruzado se não fosse por aquele padre bêbado. Sim, bendito padre bêbado. Tinha chegado numa manhã, fazia nove anos, sufocado e furioso, afirmando que desejava recuperar alguns papéis pessoais que andavam em poder de um tal Lebendig. Durante alguns minutos, o polícia que o atendia o ouvira com enorme interesse, quase com devoção, se fosse possível usar essa expressão de uma forma que não soasse imprópria, mas não tinha demorado a perceber que aquele homem dizia apenas incoerências e que nada indicava que tivesse sido objecto de algum acto punido pela lei. Foi nesse momento que, alegando que o caso que lhe expunha requeria uma pessoa mais importante, tinham-no encaminhado para ele.
Koch tinha precisado apenas de dois minutos para compreender que o clérigo em questão se sentia enormemente ofendido e que transpirava desejos de vingança por cada poro da pele. O máximo que podia se perceber, no entanto, era que um sujeito chamado Lebendig tinha dado dinheiro ao padre em troca de que escrevesse em alguns papéis. Pensou imediatamente que devia se tratar de um analfabeto necessitado de um copista. Havia-os, tanto uns quanto outros, aos montes em Ingolstadt.
Tratava-se de alguma carta para a noiva ou a mãe?, perguntou Koch ao ébrio sacerdote. Não, respondeu acalorado. Não, não, não. Ora essa! Ele me fazia escrever..., só isso. Ah, sim, disse Koch respirando fundo, mas isso, padre, se me permite dizer, não é um crime. O sacerdote passou os dedos pelo rosto como se quisesse arrancar alguma coisa muito grave que tivesse ficado agarrada à sua pele. Calma, calma, é que... Bem, primeiro, ele me fez escrever. Nada em especial. O que eu quisesse. E eu escrevi. Eu escrevi! Modéstia à parte, posso dizer que desde meus tempos de seminário poucas pessoas tiveram uma letra melhor do que a minha. E assim era. Não ficaria bem eu negar isso... Koch concordou com a cabeça, enquanto se perguntava mentalmente quanto tempo seria capaz de suportar aquela história.
Então ele me manteve escrevendo um tempinho. Não muito. Um tempinho. Um tempinho, repetiu Koch, procurando lhe dar segurança. Mas depois começou a me dar bebida, continuou o padre com uma mistura de arrependimento e raiva na voz. À força?, perguntou Koch, embora tivesse consciência de que a pergunta era totalmente desnecessária. À força? Bem, não..., não acho que se possa dizer que ele tenha me forçado. Não, na verdade ele não fez isso mas...» In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «Sentiam-se surpresos diante de uma manifestação da maldade humana que ultrapassava aquilo a que estavam acostumados a presenciar no seu papel de médico, juiz…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) O problema era que, quando se encontrava cara a cara com um cadáver, os seus sentidos viam-se tão invadidos pelo cheiro de morte, pela visão da morte e pelo toque da morte, que a fé numa vida duradoura era, talvez, não aniquilada, mas ofuscada como o sol encoberto por um mar de nuvens cinzas e algodoadas. E, justamente quando chegava a esse ponto, uma mistura de repugnância e mal-estar, de repúdio e desagrado, apoderava-se dele, provocando-lhe suor nas mãos e angústia no peito. De boa vontade ele ter-se-ia desligado da investigação dos homicídios, mas semelhante graça não lhe foi concedida. Koch sentia-se tão satisfeito com a sua maneira de trabalhar, uma faca de dois gumes, sem dúvida, que não apenas se tinha transformado num ajudante privilegiado para o seu trabalho de resolução, mas também, em algumas ocasiões, insistia em que fosse encarregado de dar os primeiros passos. Exactamente por causa disso, tinha agora que examinar aquele despojo sujo e carcomido que um caçador infeliz tinha encontrado. O homem tinha chegado tremendo ao posto de polícia e, num primeiro momento, os agentes que o viram pensaram que ele tinha acabado de sofrer alguma desgraça. E, até certo ponto, era verdade. Enquanto passava por terras que não eram suas, tinha encontrado um cadáver. Noutras circunstâncias, o peso da lei teria caído sobre ele, acusando-o de caçar furtivamente ou, pelo menos, de invasão de propriedade privada. Agora, no entanto, aqueles detalhes estavam amenizados pela gravidade de um homicídio. Bem, sucedera assim porque Koch tinha enviado Steiner para examinar o corpo e ele tinha decidido que era uma perda de tempo atacar um pobre homem que caçava lebres de forma ilegal, quando graças a ele se podia botar as mãos num delinquente de muito maior envergadura. Koch nunca teria aprovado essa maneira de agir. Por acaso devemos perdoar o transgressor menor porque existe outro maior?, teria perguntado de forma retórica, para depois acrescentar indignado: de forma alguma, Steiner, de forma alguma. Mas ele encarava isso de outra maneira, e agia de acordo com isso. Agradeceu ao homem, disse-lhe num aparte discreto que não deveria dizer a ninguém o que estava fazendo naquele território de caça e, acto contínuo, mandou-o ir descansar em casa. Levantaram o cadáver na presença de um dos juízes mais experientes de Ingolstadt, que pensava em se aposentar em menos de um ano, mas, no momento, insistia em se manter no activo. Coisa ruim, disse quando passou os olhos sobre o morto. Alimentaram-se do rapaz. Não era nenhum exagero. A pancada que lhe tinham aplicado na cabeça e que, quase com certeza, tinha ocasionado a sua morte não era nada do outro mundo. Tratava-se do típico traumatismo que deixa claro e manifesto como é fácil obrigar um pobre infeliz a cruzar o umbral que separa a vida da morte. Até aí, tudo estava dentro dos limites da normalidade. O problema era quando se examinava o restante do corpo. O pescoço, o peito e o rosto apresentavam arranhões nada desprezíveis, mas o pior era a região que se estendia pela frente do umbigo até o início das coxas e por trás em torno do ânus. Os animais tinham-se fartado, não havia dúvida, mas tudo parecia indicar que alguém se tinha antecipado a eles. Qual a sua opinião, herr doktor?, perguntou o juiz quando o galeno terminou o exame do cadáver sob os olhares atentos dos presentes. Pobre rapaz..., murmurou de forma quase inaudível o médico. Ninguém podia negar a justeza daquelas palavras, mas, para falar a verdade, não esclareciam muito a situação. Pobre rapaz, sim, mas porquê? Poderia ser um pouco mais..., explícito?, atreveu-se a dizer Steiner. O médico respirou fundo e, sem afastar os olhos do cadáver, começou a nutrir um cachimbo de tubo longo. Era um bonito exemplar de artesanato bávaro, com um bocal de madeira entalhada primorosamente e um fornilho alongado de porcelana. Devia ter-lhe custado bem caro, pensou Steiner. Bitte, algum de vocês tem lume?, perguntou o médico depois de ter a certeza de que o tabaco estava bem prensado no interior do cachimbo. Foi o juiz quem atendeu à sua solicitação e, imediatamente, o ambiente se encheu de uma fumaça azulada que desprendia um cheiro agradável de uma substância que Steiner não conseguiu identificar, mas que ele agradeceu porque encobria, pelo menos em parte, o fedor da morte. Eles mataram-no de um só golpe. Isso é indubitável, mas..., interrompeu a explicação para dar uma nova sugada no cachimbo, mas o mais terrível é que o crime veio acompanhado de um comportamento..., bem, recuso-me até a qualificá-lo. Um pouco antes ou um pouco depois da morte, a vítima foi sodomizada. Desculpe?..., exclamou Steiner, que não tinha certeza de ter escutado direito. Ele foi sodomizado, disse o médico, com a mesma serenidade com que teria comentado que as nuvens anunciavam chuva. Está querendo dizer..., começou a dizer Steiner, que não conseguia dar crédito às palavras do galeno. Estou querendo dizer que o assassino cometeu com este infeliz o pecado pelo qual Deus destruiu as cidades ímpias de Sodoma e Gomorra. Mas não foi uma acção voluntária. Violentaram o rapaz. O alargamento do ânus não deixa margem a dúvidas. Desde já, espero que o tenham matado antes. E as feridas no púbis?, perguntou Steiner. Algumas podem ter sido ocasionadas por animais, mas tenho a impressão de que já encontraram o trabalho bem adiantado. O assassino fartou-se com as partes do rapaz. O senhor acha que pode ter sido uma vingança por ele se ter recusado a se entregar?, perguntou Steiner. O doutor encolheu os ombros, deu uma nova sugada no cachimbo e lançou no ar uma baforada de fumaça azulada. Desta vez não foi uma sequência de gestos prazerosos, mas um encadeamento de movimentos cansados, quase dolorosos. Talvez..., talvez..., disse. Em todo o caso, depois de o matar, parece que se deleitou em profanar o cadáver. Um silêncio incómodo desceu sobre o aposento. Dava a impressão de que nenhum dos presentes queria estar ali, de que teriam dado alguma coisa valiosa para se poderem livrar da obrigação de examinar o cadáver. Sentiam-se surpresos diante de uma manifestação da maldade humana que ultrapassava aquilo a que estavam acostumados a presenciar no seu papel de médico, juiz ou policial». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

31 no Século XVIII. O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «À resistência a esse plano revolucionário, libertador e cidadão, teriam dito em Paris, eles chamavam ‘zecutar’ justiça. Com certeza, nem Marat, nem Danton nem Robespierre estariam de acordo com aquele julgamento…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) Demoraram apenas alguns minutos para reunir as cordas, fazer um nó corrediço e colocá-las no pescoço dos presos. Antes que Karl conseguisse ver o que estava acontecendo, os homens eram arrastados como se fossem cães levados pela coleira. Levantando uma poeirada seca e amarela, saíram do povoado, enquanto cuspiam ameaças e insultos sobre os revolucionários. Parem! Parem! Karl tentou ver quem tinha dado a ordem detendo aquela massa no meio da qual ele se movia procurando não se ver envolvido. Não conseguiu. Saia aí do meio, monsieur Blondel, escutou o homem seco dizer. O povoado vai zecutar justiça. O povoado vai zecutar justiça... Sim, a gramática era deplorável, mas as ideias não poderiam ser mais claras. Eles, a mulher bonita, a velha, o homem seco, os que tinham fornecido as cordas, o rapaz que tinha desejado ter uma guilhotina..., todos eles representavam o povoado e não iam permitir que os homens de Paris lhes impusessem a sua revolução, essa revolução que começava levando os produtos do campo e em seguida queimava igrejas e plantava uma guilhotina na praça do lugar. À resistência a esse plano revolucionário, libertador e cidadão, teriam dito em Paris, eles chamavam zecutar justiça. Com certeza, nem Marat, nem Danton nem Robespierre estariam de acordo com aquele julgamento e, certamente, teriam sérias restrições em considerar povo aqueles que estavam dispostos a enfrentá-los. Reiniciaram a caminhada. Karl então reparou num homem vestido de maneira modesta, embora melhor do que o resto dos camponeses, afastado à beira da estrada. Tinha os olhos avermelhados e o horror estampado no rosto. Devia ser o tal Blondel. Bem que ele gostaria de sair do tumulto e lhe dizer que não se preocupasse, que tinha feito o possível, que até tinha chegado às raias do heroísmo com o seu comportamento. Não fez isso, porque a vontade de saber onde aquilo ia dar era mais poderosa naquele momento do que qualquer outra consideração.
Ali... Ali! A multidão acelerou o passo como se tivesse acabado de ouvir um ensalmo. Karl também apertou o passo para evitar ver-se envolvido. Foi assim que chegou, suarento e sufocado, até uma esplanada. Com certeza, aquele terreno devia ser bonito em circunstâncias normais. Era uma pradaria branda e suave que ficava muito perto de uma pequena floresta, Sim, seguramente os aldeões deviam-se reunir ali em dias de festa para beber e se divertir. Era o lugar ideal. Venham! Ali mesmo! Karl viu agora com toda a nitidez o lugar que o outro apontava. Tratava-se de um pequeno grupo de árvores robustas, circunspectas, transpirando dignidade. Pareciam estar ali desde a aurora dos tempos para cumprirem a sua missão solene e especial, de servirem de patíbulos aos que se tinham atrevido a arrasar o que aqueles que arrancavam o sustento da mãe Terra consideravam mais sagrado. Quase como se fossem um só homem, meia dúzia de lavradores atiraram as cordas até à copa das árvores. As sogas não chegaram a tocar o chão. Antes que terminassem de cair, seis grupos de pessoas, orquestrados como se tivessem ensaiado a execução dezenas de vezes, apoderaram-se da ponta e começaram a puxar com todas as suas forças. Karl observou horrorizado a maneira como os corpos dos soldados se elevavam no ar enquanto os seus rostos se congestionavam pela pressão que a soga exercia nas suas gargantas. Era duvidoso que os enforcassem. Seguramente, em vez dessa morte quase rápida que vem determinada pela fractura da nuca, sofriam os estertores do estrangulamento. De facto, eles retorciam-se como peixes tirados da água, enquanto os seus pés se separavam do chão.
Teve a sensação de que a agonia se prolongava eternamente, mas, na verdade, ela foi rápida. Apenas um deles, o que parecia mais jovem, a vida pareceu resistir à ideia de abandonar um corpo que tinha vivido pouco. A batalha estava perdida de antemão e, além do mais, a conclusão acelerou-se quando uma anciã se agarrou aos pés do réu e puxou. Não conseguia entender a dureza daquelas mulheres que tinham ultrapassado a casa dos sessenta anos. A que poderia obedecer aquela insensibilidade, aquela ânsia, aquela falta de piedade? Talvez não fosse possível generalizar e cada caso acabasse sendo diferente. Para as mulheres, que tinha visto em Paris entusiasmadas com os estragos causados pela guilhotina, talvez aquelas execuções fossem apenas uma confirmação de que a injustiça, real ou imaginária, estava sendo punida: aplaudiam uma espécie de equidade cósmica implantada sobre rios de sangue. Para as mulheres daquele povoado, o motivo certamente era diferente: deviam estar convencidas de que quem se atrevesse a destruir a religião, o fruto do duro trabalho quotidiano, a família e a paz só poderia ser digno de uma morte rápida. Contemplou por um instante os seis corpos. Sim, estavam mortos. Quanto a isso, não havia a menor dúvida. Mesmo porque pelas pernas das suas calças, como um testemunho sujo e humilhante, escorriam fios de urina e excrementos.

Os Filhos da Luz. Baviera 1775
Steiner inclinou-se sobre os restos mortais do jovem. Custou-lhe muito reprimir uma mistura de asco e mal-estar que tinha-se agarrado ao seu pescoço como se fosse um cachecol de lã. Apesar dos anos de serviço que já tinha na polícia de Ingolstadt, não conseguia controlar uma certa aversão por cadáveres. Descobrir ladrões, vigiar suspeitos, estabelecer a cada passo seguido para urdir uma fraude engenhosa e mesmo redigir relatórios e instruir processos lhe pareciam tarefas toleráveis, aceitáveis, até divertidas. No entanto, não conseguia acostumar-se ao exame de um cadáver. Já se tinha perguntado mil vezes qual era o motivo de sua aversão e nunca conseguia elucidá-lo completamente. Por certo, havia o aspecto físico da decomposição da carne. Por mais que o catecismo se referisse a ela ou a lembrasse pontualmente na celebração da quarta-feira de cinzas, Steiner não conseguia familiarizar-se com o facto de que um corpo que ontem respirava, que até se mostrava viçoso e saudável, acabasse reduzido à condição de carniça pestilenta. Sentia isso, sentia-o na alma, mas não conseguia acostumar-se. No entanto, o seu desconforto asfixiante e indesejável não se limitava ao aspecto da decomposição de órgãos e músculos. Não, de forma alguma, quem lhe dera fosse assim. Na verdade, o que lhe causava mais desgosto era a inegável evidência de que a morte significa um final realmente terrível e que não existia a certeza de que tudo não terminasse no meio de vermes e de putrefacção. Certamente, havia os ensinamentos religiosos, e a afirmação do Credo sobre a ressurreição da carne, e até os diferentes meios oferecidos pela Santa Madre Igreja para facilitar a sorte dos condenados ao purgatório. Tudo aquilo ele conhecia e, é claro, acreditava». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «… na verdade, dava-lhe uma sensação de inquietude muito parecida com a angústia. Dá no mesmo. Dá no mesmo!, começou a dizer um homenzinho de uns quarenta anos, calvo e usando um calção ridiculamente amarelo. Se os matarmos..., se os matarmos...»

Cortesia de wikipedia

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) Aqueles que possuem este conhecimento são certamente Illuminati, tornou a ler. Hiram é nosso Grão-Mestre fictício, morto pela redenção dos escravos; os Nove Mestres são os Fundadores da Ordem. A Maçonaria é a Arte Real, na medida em que nos ensina a caminhar sem travas, e a governar a nós mesmos. O olhar de Koch desceu até ao fim da página e deu com uma assinatura na qual, com toda a nitidez, podia se ler Espartaco. Espartaco... Veja só. Nada menos do que Espartaco. Serviu outro café e o tomou em pequenos goles enquanto cruzava o aposento com passos tranquilos e pausados. Estava mergulhado nas reflexões mais profundas e, quando ocorria tal eventualidade, a rapidez com que sua mente funcionava contrastava com a lentidão que impunha a seus gestos. Finalmente, parou, respirou fundo e murmurou: Lebendig, Lebendig...

Os Filhos da Luz. França, Maio de 1793
Enforquem-nos! Enforquem-nos! Quem lançava os gritos era um homem cujo rosto parecia cinzelado pelo sol do norte da França. Avermelhado, seco, enrugado, toda a força de seu corpo endurecido parecia se concentrar em volta de seus lábios, uns lábios fendidos que pediam morte. Sim, enforquem-nos!, repetiu como um eco uma anciã. Enforcá-los?, respondeu outra voz. À paulada! Deviam ser mortos à paulada! Pena não termos uma..., uma daquelas máquinas que eles têm em Paris, lamentou-se um rapaz de no máximo quinze anos. Karl deu uma olhada nos prisioneiros. Era óbvio que estavam tomados por uma insuportável sensação de pânico. Quantos eram. Um, dois..., seis. Nada menos do que seis. E era com seis homens que o governo republicano de Paris pretendia impor seu programa político? Com certeza, ou eles se valorizavam em excesso ou tinham uma ideia muito pobre dos camponeses franceses. É verdade que eles impressionavam com aquelas casacas azuis, com aquelas divisas enormes presas aos chapéus e, principalmente, com os sabres e as pistolas, mas como lhes tinha ocorrido pisotear de forma tão ousada os sentimentos daquelas pessoas?
Acabem com eles! Acabem..., com máquinas. As pedradas. Vocês têm alguma coisa a dizer, perguntou o que assumia o comando. Alguma declaração a fazer? Não, não dava a impressão de que os detidos estivessem para muitas declarações. Os cinco soldados estavam realmente apavorados, e não era para menos, e quanto ao mais graduado..., era óbvio que tentava manter o ânimo, mas seu bigode tremia de maneira incómoda. Estava, no mínimo, tão apavorado quanto os seus subordinados. Pobre infeliz! Dá para saber, por exemplo, continuou o chefe improvisado, pru 'quê tinham que vir neste povoado p’ra queimar a igreja? Karl teve que intuir as últimas palavras. A pergunta mal tinha chegado ao verbo queimar quando um clamor irado, feroz, com ressonâncias de morte, preencheu o ar espesso e quente que os envolvia. Sim, pru'guê?. Pru'quê?, gritavam num francês áspero, mastigado e sombrio os habitantes do povoado.
Karl disse a si mesmo que, provavelmente, a única resposta era: por uma mistura de defeitos humanos..., soberba, orgulho, sectarismo, nevoeiro mental, ressentimento... Tudo aquilo tinha-se misturado nos corações dos soldados e, como resultado directo, tinham decidido proclamar a liberdade universal ateando fogo na modesta igreja do povoado. Era preciso reconhecer que não deixava de ser uma ideia peculiar do que significava ajudar a liberdade. Para assegurá-la, acabavam com a liberdade de culto. Era, não havia como duvidar, um dos muitos paradoxos daquela revolução que parecia não terminar nunca. Certamente, os homens de Paris, e seus executores de províncias, podiam emitir uma argumentação para justificar aquele acto de destruição. Como a Igreja Católica era um instrumento de opressão, a sua pulverização, a sua incineração, melhor dizendo, acabaria tendo como resultado imediato a liberdade do género humano. Talvez, mas aquela liberdade conseguida a golpes de tocha e tiros de pistola não conseguia convencer Karl. Pior: na verdade, dava-lhe uma sensação de inquietude muito parecida com a angústia. Dá no mesmo. Dá no mesmo!, começou a dizer um homenzinho de uns quarenta anos, calvo e usando um calção ridiculamente amarelo. Se os matarmos..., se os matarmos... Nada de se, Pierre, interrompeu o que tinha defendido que os enforcassem. Vamos matá-los. Vamos fazer com que esse pessoal de Paris receba um castigo. Mas..., o que é que eles estão pensando? Eles acham que podem vir até aqui e nos tirar o trigo e levar o nosso vinho e ainda cag… na Virgem? É isso o que eles acham? Ah, isso não, isso não. Vamos, uma corda.
Em outras circunstâncias, Karl teria tentado argumentar com aquelas pessoas que se tinham transformado numa massa enfurecida que gritava os seus desejos de morte. Sim, sem dúvida, teria feito isso, mas naquele povoado do norte da França... Durante meses, um pequeno grupo de advogados e jornalistas, de nobres progressistas, de maçons, tinha empurrado a velha monarquia dos Capeto para o aniquilamento. Mas o que tinha acontecido depois era muito diferente daquilo que a Inglaterra tinha vivido um século antes. Não havia chegado ao poder um revolucionário piedoso como Cromwell ou uma rainha religiosa e prudente como Ana. Não. Os novos governantes da França estavam convencidos de que podiam mudar o país com a mesma facilidade com que um oleiro dá a um pedaço de barro a forma que quer. Bem, talvez pudessem fazer isso em Paris, e Karl tinha suas dúvidas, mas no campo... Aqui está a corda, gritou uma mulher bonita, viçosa, alta. Precisamos de mais, disse o homem seco com um tom de voz que oscilava entre a reprovação pela escassez e a pressa em corrigir isso». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

O Crime dos Illuminati. 1787. César Vidal. «G é a Graça, a Estrela flamífera é a Tocha da Razão. Aqueles que possuem este conhecimento são certamente Illuminati... Illuminati? Koch esfregou o queixo com uma expressão pensativa»

Cortesia de wikipedia

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) Respirou fundo, verificou com enfado que não restava café na xícara e lançando mão de uma sineta que se erguia marcialmente a algumas polegadas da sua mão esquerda tocou-a com força. Passaram-se apenas alguns instantes e na porta maciça do aposento se ouviram algumas pancadas curtas, como se temessem incomodar. Entre, disse Koch com uma voz que soou fria e carregada de autoridade. Um rapagão de barba loura e eriçada enfiou seu rosto avermelhado pela fresta aberta entre o umbral e a porta. Alguma ordem, senhor?, perguntou com uma voz que pretendia aparentar uma atitude serviçal mas que pouco conseguia. Mais café, respondeu Koch apontando com o indicador a xícara vazia. Uma xícara, senhor?, indagou o jovem. Uma jarra, respondeu Koch, e não se demore, Steiner. Tinha que reconhecer que a advertência carecia de sentido. Na verdade, Steiner, apesar da juventude, constituía um verdadeiro exemplo de ordem e delicadeza. Uma ordem que lhe dava era obedecida de maneira imediata e eficiente. Com certeza, não tinha se enganado quando permitiu a sua entrada na corporação, e ao colocá-lo perto dele.
Quando Steiner fechou a porta, Koch se felicitou pela contribuição à ordem que o agente representava. Bem que gostaria de dedicar alguns instantes à autocomplacência, mas teria que ser mais tarde. No momento..., no momento, existiam prioridades. Jesus de Nazaré, o Grão-Mestre de nossa ordem, apareceu numa época em que o mundo se encontrava na mais absoluta Desordem, e entre pessoas que durante séculos tinham gemido sob o jugo da Escravidão. Ensinou-lhes as lições da razão. Para agir de uma forma mais eficaz, serviu-se da Religião, das opiniões que eram correntes naquela época, e, de uma forma muito astuta, combinou as suas doutrinas secretas com a religião popular, e com os costumes que tinha a seu alcance. Foi justamente neles que envolveu as suas lições: ensinou através de parábolas. Parábolas..., nunca lhe teria ocorrido pensar que as parábolas contivessem um ensinamento secreto vinculado a causas políticas. Sem dúvida, tinha que reconhecer que a carta era, além de disparatada, substanciosa. Jesus escondeu o significado valioso e as consequências das suas doutrinas, mas as revelou com cuidado a alguns poucos eleitos. Fala do reino dos justos e dos fiéis, do reino de seu Pai, de quem somos filhos. Limitemo-nos a tomar a liberdade e a igualdade como os grandes objectivos de sua doutrina, e a Moralidade como o caminho para os alcançar, e todo o Novo Testamento será compreensível; e Jesus aparecerá como o redentor dos escravos.
Koch não era um homem especialmente religioso. Certamente, acreditava em tudo o que a Santa Madre Igreja ensinava e guardava minuciosamente os dias santos, mas não poderia determinar que o que o impelia a isso era a devoção ou o desejo de que a ordem não se rompesse. Contudo, apesar de seu pouco entusiasmo, tinha suficiente conhecimento da religião para chegar à conclusão de que aquilo que tinha acabado de ler não passava de puro disparate. Então, pensou com ironia, católicos e protestantes passaram dois séculos se enfrentando em terras alemãs, em metade da Europa, do outro lado do oceano, simplesmente porque não tinham compreendido que o cristianismo se limitava a impelir a liberdade dos escravos... Que ridículo! Que idiota poderia acreditar em semelhante tolice? Bem, precisava concluir aquela leitura o quanto antes. Sim, entre, disse quando ouviu que batiam na porta. Steiner depositou um bule de café fumegante sobre a mesa. Quer que eu o sirva, senhor?, perguntou solícito o rapaz de rosto avermelhado.
Koch fez um gesto com a mão indicando-lhe que deveria sair do aposento. Um tanto surpreso, o jovem inclinou a cabeça e cochichou algumas palavras de cortesia antes de sair. Pousou a carta sobre a escrivaninha, impulsionou com um movimento a poltrona para poder se afastar do móvel em que se apoiava e ficou de pé. Notou então que estava com as articulações inchadas, cansadas, como que dormentes. Levou as duas mãos aos rins e esticou o tórax para trás. Noutra ocasião, teria produzido um estalo na altura das vértebras lombares, mas agora sentiu apenas um alívio agradável e rápido. Sorriu satisfeito quando constatou que as costas respondiam devidamente. Deu alguns passos para contornar a mesa, colocou-se diante da jarra e serviu-se de uma nova xícara do líquido amargo. Segurou-a com as duas mãos como se sustentasse um cálice e, por um momento, permitiu que seu olhar divagasse pela espuma do café. Finalmente, aproximou o recipiente dos lábios e bebeu um gole longo, quente e electrizante que o levou a fechar os olhos para aproveitá-lo melhor.
Bem, disse em voz baixa. Terminemos com isto o quanto antes. Alguns poucos eleitos receberam as doutrinas em segredo, e elas nos foram transmitidas, embora frequentemente quase soterradas sob o lixo da invenção humana, pelos maçons. As três condições da sociedade humana estão expressas pela pedra bruta, pela pedra lascada e pela pedra polida. A pedra bruta e a pedra lascada expressam nossa condição sob o governo. É bruta por causa da terrível desigualdade de condição, e lascada porque já não somos uma família e além disso nos encontramos divididos por diferenças de governo, de classe, de propriedade e de religião; mas quando nos vemos reunidos numa família nos vemos representados pela pedra polida. G é a Graça, a Estrela flamífera é a Tocha da Razão. Aqueles que possuem este conhecimento são certamente Illuminati... Illuminati? Koch esfregou o queixo com uma expressão pensativa. Era uma palavra latina ou italiana? Illuminati..., sim, claro, respondeu com um sorriso. Os iluminados! Só podia ser isso. Aqueles que têm a luz que não atinge a outros e que mostra os conhecimentos secretos são iluminados! Que coisa óbvia! Tinha custado a encontrar o significado, mas a culpa era desse pessoal. Empenhavam-se em ser tão retumbantes, tão pedantes, tão rebuscados que acabavam obscurecendo o trivial». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

sábado, 31 de outubro de 2015

Os Filhos da Luz no 31. 1787. O Crime dos Illuminati. César Vidal. «Certamente, podem ocorrer alguns distúrbios; mas, pouco a pouco, os desiguais chegarão a ser iguais; e depois da tempestade, virá a calmaria. Acaso as consequências mais lamentáveis irão permanecer…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
«(…) Um pai que não se comportava de acordo com a moral, uma mãe que esquecia suas obrigações, filhos que passavam por cima de seus deveres filiais..., e com o que nos deparávamos? Um desfalque, um adultério, ou até um assassinato. Sim, na verdade, o trabalho de Koch consistia em algo muito parecido com os encanamentos. Justamente por isso, incomodava-lhe que suas camisas não estivessem devidamente passadas, as botas impecavelmente lustradas ou o rosto perfeitamente barbeado. O que tinha agora diante dos olhos dava a sensação de ser outro vazamento intolerável no âmago do edifício social. Tinha-se deparado com ela pedindo os processos atrasados para rever o que estava pendente. Tudo já se achava canalizado num aqueduto de ordem que garantia, mais cedo ou mais tarde, que acabaria sendo resolvido de maneira segura. Tudo, a não ser o processo que agora estava aberto diante de seus olhos. Este, em resumo, de forma intolerável, não trazia número de referência, nem menção ao agente que o tinha começado, nem data de entrada. Era uma pasta nua, perdida no arquivo, era cujo interior jazia o que não deixava de ser uma carta como tantas outras, escrita com tinta preta, com traços regulares, sobre um papel grosso embora não necessariamente caro. Mas o conteúdo era uma outra questão. Nada nos seria mais útil do que uma história da Humanidade que fosse adequada. O despotismo roubou a liberdade. Como os fracos se podem defender? Só através da união, mas esta no fim das contas é rara...
Até ali, a carta apenas repetia os lugares-comuns de tantos inimigos da monarquia e da religião. Todos aqueles disparates sobre a liberdade, o despotismo e os fracos. Inclusive o chamamento em busca da união. No entanto, quando se chegava a esse ponto, aquela carta dava uma guinada importante, totalmente reveladora: Nada pode ajudar a conseguir tudo isto além das sociedades secretas... As sociedades secretas..., repetiu Koch num sussurro enquanto estendia a mão direita até uma xícara de café que repousava sobre a sua limpa e organizada escrivaninha. Por um instante, limitou-se a saborear aquela bebida preta, forte e amarga. Não suportava o café com mel ou com açúcar. Achava que adoçá-lo era uma forma de privar o líquido da sua força, de um vigor que acabava sendo indispensável para aclarar a sua mente. Procurou com a língua qualquer resto de café que pudesse ter ficado no interior da boca e continuou a leitura. As escolas secretas de sabedoria são os meios que um dia libertarão os homens de seus grilhões. Em todas as épocas, foram os arquivos da natureza e dos direitos do homem; e graças a elas a natureza humana se erguerá desse seu estado ruinoso.
Koch bebeu outro gole de café e, enquanto sua boca se franzia num esgar de desprezo, disse: O que é que você sabe, seu pateta, sobre o estado ruinoso da natureza humana? Os príncipes e as nações desaparecerão da face da terra. A raça humana se transformará então numa família, e o mundo será a morada dos Homens racionais. Da face da terra..., disse Koch, que se tinha detido naqueles parágrafos e os repetia várias vezes como se quisesse ruminá-los. Certamente, podem ocorrer alguns distúrbios; mas, pouco a pouco, os desiguais chegarão a ser iguais; e depois da tempestade, virá a calmaria. Acaso as consequências mais lamentáveis irão permanecer justamente quanto os motivos de discórdia tiverem desaparecido? Homens, erguei-vos! Koch passou a mão pela parte de seu rosto em que o barbeiro não tinha demonstrado exactamente um excesso de eficiência. Franziu os lábios com fastio, porque determinou que não ia se deixar distrair. Não podia se permitir isso, sem dúvida. Talvez aquele personagem fosse simplesmente um louco, nunca se podia descartar essa hipótese, mas a experiência lhe dizia que a falta de juízo não só não garantia a segurança como, não poucas vezes, era seu pior inimigo. A Moralidade é que conseguirá tudo isto; e a Moralidade é fruto da Iluminação. Os direitos e os deveres são recíprocos. Se Octávio não tem direito, Catão não tem nenhuma obrigação em relação a ele.
Koch pousou a xicrinha no pires, procurando fazer com que a posição ficasse simétrica. Em seguida, pegou numa pena de ganso que repousava, branca e inflexível, na escrivaninha polida, e a molhou com suave energia num tinteiro gordo de prata. Depois, escreveu numa folha de papel os nomes de Octávio e Catão. Pelo que lhe constava, eram referências ao imperador dos romanos e ao famoso censor, não se tratava de nomes verdadeiros, mas, ao mesmo tempo, sabia que podiam ser pseudónimos de personagens tão tangíveis quanto a poltrona em que se encontrava sentado. A Iluminação nos mostra quais são nossos direitos, e a Moralidade a segue; essa Moralidade nos ensina a crescer, a nos libertarmos, a amadurecer e caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes. Koch segurou agora a carta com as duas mãos e cravou o olhar na última frase, ...caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes..., caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes..., caminhar sem as amarras de sacerdotes e príncipes. Quando se quer dominar uma sociedade, é preciso aniquilar primeiro aqueles que a governam...» In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Crime dos Illuminati. César Vidal. «Deu um novo pulinho e, agora sim, começou a correr para se afastar daquele ser que ele não tinha visto antes mas que parecia representar um verdadeiro perigo. Com as orelhas transformadas em antenas que o avisavam da proximidade do seu inimigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Filhos da Luz. Baviera, 1775
«(…) Conseguiu dar dois passos antes que o animalzinho se precavesse do perigo que avançava em sua direcção. Sem dúvida, tinha contemplado como sua mãe ficara presa e como tinha perdido a vida no curso de um ritual que nunca tivera antes a oportunidade de contemplar. Agora, o medo e o espanto o impediram de reagir a tempo. No entanto, de qualquer forma conseguiu mexer-se. Deu um salto instintivo à direita para evitar aquelas manoplas que se lançaram sobre ele e depois, ainda presa do estupor, começou a correr. Foi uma corrida inexperiente, desajeitada e lenta. Típica de alguém que até aquele momento não sabia o que era ter que se salvar de um agressor. Impelido mais pelo susto do que por um medo suficiente para activar seu instinto de autopreservação, o filhote de lebre tratou de se esconder entre uns arbustos. O caçador se lançou sobre os arbustos convencido de que pegaria aquele animalzinho. Estava enganado. A sombra daquela massa se precipitando sobre ele acabou tirando do estupor aquele infeliz filhote de lebre. Deu um novo pulinho e, agora sim, começou a correr para se afastar daquele ser que ele não tinha visto antes mas que parecia representar um verdadeiro perigo.
Com as orelhas transformadas em antenas que o avisavam da proximidade do seu inimigo, o filhote de lebre descreveu uma corrida em ziguezague que não o afastou da cilada persistente, mas pelo menos impediu que ela se transformasse numa realidade letal. Ofegante, o caçador procurava se aproximar do animalzinho e prendê-lo entre o vazio ameaçador que suas mãos formavam, mas, repetidas vezes, aquele ser miúdo evitou a tenaz. Com o instinto que só a experiência proporciona, compreendeu que a sua única oportunidade de encurtar distâncias e alcançar o animalzinho era enganá-lo. Deu uma passada com a perna direita que assustou o filhote de lebre e fez com que saltasse para a esquerda e, justo nesse momento, precipitou-se sobre ele. Ele lhe escapou por duas míseras polegadas, mas era óbvio que o caçador tinha encontrado o método que lhe permitiria sair com sucesso daquela missão. Bem, era só uma questão de repetir a jogada no momento exacto em que o animalzinho estivesse suficientemente próximo.
Não fez isso. Enquanto o filhote de lebre corria para se pôr a salvo à maior distância possível, o caçador vislumbrou algo que distraiu sua atenção. No início, só chegou até seu corpo uma soma de sensações fortes e absorventes. Um cheiro penetrante de carne em decomposição, o zumbido irrequieto do que pareciam ser centenas de moscas, os raios de sol descendo entrecortados sobre um tronco de árvore para se atirar depois pela casca e, revolta, rutilante e avermelhada, uma cabeleira que só podia pertencer a um ser humano. Ele parou, inalou uma golfada de ar, passou a mão pela testa suarenta e, por alguns instantes, procurou compreender o que significava tudo aquilo que se oferecia, agressivo e pujante, aos seus sentidos. Não conseguiu àquela distância e, tendo já relaxado a perseguição ao filhote de lebre, deu alguns passos na direcção da inesperada descoberta. O fedor de podridão arranhou suas fossas nasais, mas não o deteve. Espantou com furiosos golpes de mão o bando de moscas e conseguiu distinguir uma imagem diferente de qualquer outra que já tinha se oferecido ante as suas pupilas.
Tratava-se de um homem jovem, sem dúvida. Era até possível que não tivesse ultrapassado a casa dos vinte anos. No entanto, agora não passava de um despojo fétido e coberto de insectos verde-azulados. O rosto parecia destruído, esmigalhado, esvaído, como se tivessem tentado desmanchá-lo até torná-lo irreconhecível. No entanto, o caçador disse a si mesmo que o mais certo era que aquela terrível abrasão se devesse à acção combinada das feras e das moscas. Quanto ao resto do corpo... As meias estavam destruídas, mas enquanto o pé direito conservava um sapato, no esquerdo os dedos, avermelhados e roídos, do morto sobressaíam no meio do tecido. As calças, sujas e cobertas de lama, estavam espantosamente rasgadas na altura das virilhas, embora os rasgões se encontrassem quase totalmente cobertos por espessas nuvens de moscas que se movimentavam febrilmente em busca de uma presa que o caçador não sabia ao certo qual era. Finalmente, as folhas pareciam ter ajudado a cobrir pudicamente as mãos, os braços e o peito do defunto. Por um instante, contemplou aquele ser humano, agora à mercê de alguns predadores que, por serem menores, não eram mais compassivos ou menos eficazes do que ele. Então, de forma inesperada, sem qualquer aviso prévio, sentiu um enjoo cálido e incontrolável que subia desde o ventre. Teve, primeiro, um espasmo seco que lhe arrancou algumas lágrimas e impregnou sua testa de suor. Titubeante, aproximou-se de uma árvore em que se apoiou subitamente mareado. Antes que tivesse apoiado os dedos da mão sobre o tronco, começou a vomitar, tomado por irresistíveis espasmos. Podia-se dizer que, ao expulsar todo o conteúdo de seus espasmos, se abrisse diante dele a possibilidade de reter a vida.

Os Filhos da Luz. Baviera, 1787
Wilhelm Koch passou a mão pelo queixo. Sentiu então um pequeno tufo de pêlos mal barbeados, localizado duas ou três polegadas abaixo da têmpora. Aqueles hóspedes inesperados e, sobretudo, indesejados arrancaram dele um mal-estar que saltitou de seus lábios. Por alguma razão que não era fácil de descobrir, as regras familiares, a educação com os jesuítas, um motivo cósmico etc., não podia tolerar a desordem nem a falta de harmonia. Era uma atitude extensiva tanto ao traçado de uma rua quanto à limpeza de suas camisas, a uma operação aritmética bem resolvida ou à luta implacável contra o crime. Não suportava nada que parecesse dissonante, torto, feio ou ruim. Talvez por isso poderia ter sido arquitecto, músico ou matemático. Certamente por isso era um polícia. Ele era, e dos melhores. Dificilmente se poderia encontrar, em toda a Baviera, um outro igual. Ao longo de vinte anos de serviço, tudo tinha corrido bem, ou seja, de maneira ordenada. Roubos, fraudes, violações, assassinatos..., raras foram as transgressões da lei que não soubera enfrentar com sucesso. E tudo, absolutamente tudo, era devido ao seu método. Na opinião de Koch, a questão limitava-se a encontrar o ponto exacto em que a harmonia que governava o cosmos era quebrada. Da mesma forma como uma tubulação quebrada só pode ser consertada quando se descobre o lugar onde ocorre o vazamento, o crime exigia que se detectasse a partir de quando a ordem social foi rompida». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

O Crime dos Illuminati. César Vidal. «… recuperar a juventude, o vigor e a alegria gastos naquele incidente longo, o mais longo de sua existência. Um incidente que tinha começado anos atrás, em outro lugar e em outra época»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Filhos da Luz. Paris, 21 de Janeiro de 1793
«(…) Um dos carrascos, alto, corpulento, com aparência brutal, aproximou-se da cesta e, agarrando a cabeça pelos cabelos, levantou-a para que a multidão a visse. Durante alguns momentos, deixou que o sangue jorrasse abundante do pedaço de corpo já sem vida. No entanto, aquela exibição de força triunfal não pareceu comover os presentes, talvez impressionados demais com o que tinha acontecido durante os minutos anteriores. Foi então que o carrasco jogou a cabeça no cesto com um gesto depreciativo e de uma só puxada apanhou a casaca branca que estava caída no chão do cadafalso. Agitou-a por um instante no ar como se fosse uma bandeirola e depois a atirou com violência sobre a multidão. Por um breve instante, a peça de roupa descreveu um voo curto que foi abortado por um oceano de mãos que se lançaram para dela se apoderar. Entre rugidos e gritos, uivos e clamores, aquela brancura desapareceu completamente no meio da massa. Como a vida daquele homem que tinha acabado de ser guilhotinado, Luís XVI, o cidadão Capeto, um monarca de trinta e oito anos com que se encerravam oito séculos de dinastia bourbónica na França. Nada restava daquela dinastia que um dia tinha dominado metade da Europa. Num sentido nada metafórico, tinha sido cortada de um golpe só. Enquanto assim pensava, Karl observou como o terceiro sacerdote, o que não parecia francês, o que tinha tentado consolar o rei, descia agora do cadafalso, ultrapassava a primeira linha de soldados e se perdia no meio da multidão. Parecia atordoado, exausto, submetido a um impacto que não podia suportar. Ninguém, absolutamente ninguém, prestou atenção nele. Karl enfiou a mão no bolso e tirou do colete desbotado um relógio dourado. Eram pouco mais de dez e quinze. E então, exactamente quando afastou o olhar da esfera branca, ele o viu. Era ele, sim, era ele. Sem nenhuma sombra de dúvida. Talvez estivesse um pouco mais magro, embora não muito, e seus cabelos estivessem mais ralos e grisalhos, mas era ele. E o olhava. Olhava-o com aqueles olhos inquisitivos que pretendiam, e quase sempre conseguiam, esconder o que corria pelo fundo de seu coração.
O coração de Karl começou a bater com mais força do que a que os tamborileiros tinham empregado para bater nos instrumentos. Sabia que o encontraria ali. Sempre soubera disso. Não poderia ser de outra maneira. E agora, enfim, encontrava-o. Ali, no mesmo lugar onde acabava de desaparecer a monarquia mais importante da Europa. Apertou os punhos, respirou e tentou abrir caminho até o lugar onde ele se encontrava. Deu dois, três, quatro empurrões para alcançá-lo. Mas, de repente, desapareceu. Angustiado, movimentou a cabeça para um lado e para o outro, até que seu pescoço doeu, enquanto procurava encontrá-lo. Empenhava-se nisso quando uma das abas da casaca ficou agarrada entre duas matronas que conversavam animadamente, ainda que sem muito critério, sobre a execução do Capeto. Conseguiu recuperá-la, suja e amarrotada, de um puxão, e, seguindo um impulso instintivo, tentou-lhe devolver uma elegância que talvez tivesse perdido para sempre. Foi então, quando levantou a vista, com a desolação embargando seu rosto, que ele o viu novamente. De maneira incrível, tinha conseguido livrar-se daquele imenso mar de corpos malcheirosos, e se colocar na outra extremidade da praça abarrotada. Mas como ele tinha conseguido isso? Karl cravava os cotovelos, os punhos, os antebraços em qualquer ser vivo que se interpusesse em seu caminho. Não, agora não podia tornar a escapar. Tinha que agarrá-lo.
O fugitivo, porque ele era isso, de facto, livrou-se daquele pesado espartilho humano entretecido com milhares de corpos quando Karl estava a quase duzentos passos dele. Arfando, suando por todos os poros, reprimindo as maldições que lutavam para brotar de seus lábios, contemplou desesperado como a sua presa inatingível apertava o passo e, quando chegou a uma esquina, começava a correr. Demorou ainda alguns minutos para se livrar daquela maré, em que não eram poucos os que já se vangloriavam de contar com um retalho da casaca branca do Capeto. Quando conseguiu, começou a correr, embora estivesse consciente de que não tinha rumo certo nem sabia em que direcção seguir. Não poderia dizer o tempo que durou aquela corrida, mas, por fim, o esgotamento o obrigou a encerrá-la e Karl teve que se apoiar contra o muro gelado de uma rua desconhecida tossindo violentamente e tentando recuperar o ritmo da respiração. Inalou gulosamente o vento frio da manhã, como se disso dependesse a sua vida, como se num instante só pudesse conduzir aquele oxigénio indispensável até o último lugar de seus pulmões, como se lhe fosse dado recuperar a juventude, o vigor e a alegria gastos naquele incidente longo, o mais longo de sua existência. Um incidente que tinha começado anos atrás, em outro lugar e em outra época.

Os Filhos da Luz. Baviera, 1775
Como é bonita, disse a si mesmo enquanto calculava na mão esquerda o peso do animal. Sim, e como é gorda. E olhe que era raro neste tipo de animal. Mas a lebre..., bem, a lebre era uma delícia. Pele suave, cor deliciosa e aparência opulenta. Não deveria ter sofrido muito. Tinha-se emaranhado no laço na altura do pescoço e pelejando para se libertar só tinha conseguido se estrangular mais rapidamente. Acontecia de vez em quando com estes animaizinhos. Dava um pouco de pena, mas precisava comer. Balançou a cabeça como se quisesse arrancar dela qualquer vislumbre de compaixão e, com um gesto rápido, soltou o animal da armadilha que tinha lhe arrancado a vida, e o jogou no bornal. Foi nesse momento que o viu. Foi apenas um instante e, com toda a certeza, não teria percebido nada se não tivesse sacudido o cangote justo nesse mesmo momento em que seu olhar se entrecruzou com o que saía de uns olhinhos miúdos, redondos e pretos, incrustados no rosto assustado e trêmulo de um filhote de coelho. Com gesto rápido, o caçador ficou de pé de um salto e se precipitou sobre a presa inesperada. Sem dúvida, era uma cria da lebre enorme que tinha acabado de apanhar. Tinha que ficar com ela». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

O Crime dos Illuminati. César Vidal. «Depois, com passos inusitadamente firmes, cruzou o espaço que havia entre o fim da escada e a guilhotina. Fez isso com tanta calma, com tanta segurança, com tanta serenidade que qualquer pessoa teria dito que ele passeava por um jardim desfrutando do bom tempo»

Cortesia de wikipedia

Os Filhos da Luz. Paris, 21 de Janeiro de 1793
«(…) O carro parou, finalmente, no meio de um espaço amplo e vazio que rodeava o cadafalso. Sim, amplo e vazio, mas não desprotegido. Estava rodeado por canhões e pessoas portando as mais diferentes armas. Piques (lança antiga), lanças, mosquetes... O condenado desceu do carro. Totalmente enfeitado de branco, levava nas mãos um livrinho que Karl tentou em vão identificar e que acabou achando que fosse um missal, um livro de salmos ou talvez um Novo Testamento. Assim que o réu pisou no chão, três dos carrascos, daqueles carrascos que se vestiam tentando esconder a sua origem burguesa, rodearam-no e fizeram o gesto de lhe tirar a casaca. Com uma dignidade que quase se poderia tocar como se fosse alguma coisa sólida, o homem fez um gesto para afastá-los e se livrou ele mesmo da peça de roupa. Por um momento, os carrascos pareceram totalmente desconcertados. Parecia óbvio que não estavam acostumados à semelhante demonstração de dignidade, principalmente de aprumo, por parte de alguém a quem iriam separar a cabeça do corpo dentro de alguns minutos. No entanto, a atitude deles durou apenas um instante. De maneira imediata, como se impelidos por uma mola, aproximaram-se do réu e tentaram segurá-lo pelos pulsos. Karl não pôde escutar o que o condenado respondeu, mas captou sem dúvida a firmeza, não empertigada mas natural, com que jogou o corpo para trás para impedir que os carrascos fizessem aquilo com ele. O grande filho-da-pu… não se deixa amarrar... Karl escutou uma velha colérica a seu lado resmungar. Se fosse por mim, não iriam colocar a corda propriamente nas mãos. Mas além daquela mulher, que talvez não tivesse tantos anos quanto as infinitas rugas que sulcavam seu rosto aparentavam, ninguém disse nada. Ninguém a não ser os carrascos, que tinham começado a se agitar como se impelidos pelo ventinho que soprava na praça. De repente, um deles levou a mão à boca como se fosse uma trombeta e gritou algo que Karl não chegou a entender. Dois soldados que usavam o gorro frígio vermelho se apressaram em atender o seu chamamento.
Foi então que os olhos de Karl se detiveram, de forma casual, no terceiro sacerdote, aquele que parecia profundamente triste. Pela primeira vez reparou que, quase com toda a certeza, não era francês. Não, ele não era. Seus traços e suas feições indicavam alguém de origem nórdica. Poderia se tratar de um alemão, de um holandês, inclusive de um inglês. Em todo caso, não era uma circunstância tão relevante. O significativo era que ele tinha-se inclinado respeitosamente sobre o condenado e se dirigia a ele num tom que, pelos gestos, poderia ser qualificado de submisso, até de suplicante. Devem ter trocado apenas duas ou três frases, mas foram suficientes para que o réu elevasse os olhos para o céu, sussurrasse alguma coisa e estendesse as mãos. Fez isso justo no momento em que os soldados chegavam perto dele. Ele não poderia garantir, mas Karl teve a impressão de que um dos carrascos amarrava o réu com uma expressão de triunfo insolente, como se fosse a consumação de um longo processo iniciado talvez muitos anos antes. Como se pretendessem sublinhar aquele gesto pleno de significado, os doze tamborileiros localizados ao lado do cadafalso começaram a tocar os seus instrumentos com mais energia e vontade do que arte.
Quando o réu começou a subir a escadinha que levava até à guilhotina, Karl percebeu que os degraus eram inclinados demais. Conteve nessa hora a respiração desejando que o condenado não escorregasse, caísse ou tropeçasse naquela subida sinistra para a morte. Se não aconteceu nada disso, talvez se deva ao facto de que o terceiro sacerdote, o que não parecia francês, agarrou-o pelo braço com a intenção de ajudá-lo. No entanto, aquela colaboração piedosa durou apenas o tempo de subida. Quando os dois atingiram a plataforma sobre a qual a guilhotina repousava, o réu se soltou com um gesto seguro. Depois, com passos inusitadamente firmes, cruzou o espaço que havia entre o fim da escada e a guilhotina. Fez isso com tanta calma, com tanta segurança, com tanta serenidade que qualquer pessoa teria dito que ele passeava por um jardim desfrutando do bom tempo. Achava-se a ponto de alcançar a lâmina, quando parou e olhou para os tamborileiros. À distância em que Karl se encontrava não lhe permitiu captar a carga exacta que o condenado colocou naquela expressão, mas o certo é que as mãos deles ficaram suspensas no ar sem permitir que as baquetas sequer roçassem a pele dos instrumentos.
Morro inocente de todos os crimes de que me acusam. disse o réu com uma voz sossegada, clara e suficientemente forte para que o escutassem com clareza mais além da praça. Perdoo os autores de minha morte, e rogo a Deus para que o sangue que vocês estão prestes a derramar não caia nunca sobre a França. Nem uma palavra, nem um grito, nem um silvo, nem um assobio repercutiram depois que o condenado pronunciou aquelas últimas frases. Por um instante pareceu que o mundo, aquele mundo extraordinariamente convulso, tinha parado, que a terra tinha deixado de girar, que o Sol se fixara no firmamento. Então, uma mão, que parecia saída do nada, cravou-se no antebraço daquele homem vestido de branco e o puxou para a guilhotina. Não houve nenhuma resistência. O réu parecia reconciliado com seu destino como poucos teriam estado. Documente, quase com mansidão, permitiu que dois dos carrascos, que continuavam com os chapéus na cabeça, estendessem-no sob a lâmina. A execução durou alguns instantes mas, ao contrário do que Karl tinha temido, a cabeça não saltou até o chão, mas caiu na cesta. Talvez, pensou, a pequenez da lâmina tenha evitado aquela profanação extra». In César Vidal, O Crime dos Illuminati, 1958, tradução de António Borges, Relume Dumará, Ediouro Publicações S.A., 2006, ISBN 857-316-6491-3.

Cortesia de RDumará/JDACT

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Crime dos Illuminati. César Vidal. «Um murmúrio, inegável mas reprimido, avisou-o de que tudo iria começar em alguns instantes. Não se enganou. Em meio de um silêncio sepulcral, uma carroça desgastada, puxada por cavalos, entrou na praça e se dirigiu para o cadafalso»

Cortesia de wikipedia

Os Filhos da Luz. Paris, 21 de Janeiro de 1793
«Realmente é muito curiosa a maneira como as impressões ficam gravadas no nosso cérebro, para depois emergirem, de vez em quando, graças ao efeito quase mágico da memória. De um desfile demorado, recordamos não a aparência marcial do elegante capitão ou as palavras piedosas pronunciadas de maneira emotiva pelo capelão ao abençoar as tropas, nem mesmo a variedade de cores dos uniformes. O que fica retido na nossa mente, pelo contrário, é o semblante acalorado de um soldado camponês, suarento e avermelhado, a quem o uniforme de gala atormentava como se o estivesse submetendo a uma tortura. De um ‘te-déum’ solene esquecemos a pregação sentida do Evangelho, o grande número de fiéis e até o motivo transcendental da cerimónia impressionante, mas no coração fica impressa a aparência sonolenta de um sacristão barbeado com descuido ou da anciã que cochichava durante a homília. Assim age a memória, e a de Karl não era uma excepção entre as de outros tantos integrantes do género humano. Daquela manhã, ele se lembraria de muitas coisas, mas, principalmente, ficaria inscrita nas suas lembranças a colocação assimétrica do patíbulo.
Tratando-se de uma praça e levando-se em conta a quantidade nada desprezível de espectadores, podia-se dizer que metade de Paris estava concentrada naquele lugar, o mais lógico teria sido instalar aquele ambiente de morte no centro, procurando a equidistância, para que o maior número possível de espectadores contemplasse, talvez até com deleite, quase sempre com curiosidade, o que iria acontecer dentro de alguns segundos. No entanto, no fim das contas, os guardiães da revolução, os defensores da liberdade, os impulsionadores da igualdade tinham optado por colocá-lo quase numa esquina.
O patíbulo erguia-se assim, entre o caminho que levava aos Champs Eliseés e um curioso... pedestal? Sim, tudo parecia indicar que aquele volume enorme e quase amorfo tinha sido um pedestal em algum momento de um passado talvez não distante.
Se bem que, a ser assim, para que estátua exactamente ele tinha servido de plataforma? Devia ter sido uma escultura odiada, porque a tinham arrancado quase pela raiz. Nem mesmo o pedestal tinha-se salvado da acção daquelas multidões que os dirigentes da revolução chamavam com vigor de "cidadãos" e de "o povo". Karl achou inclusive que, em outros tempos, o pedestal devia ter contado com um revestimento de mármore e bronze, mas desses materiais tão nobres só restavam agora fragmentos em mau estado.
Até a pedra, que agora aparecia, riscada e triste, a descoberto, como uma mulher que tivessem tirado da cama para lhe arrancar a roupa em seguida, tinha um aspecto deplorável, como se alguém tivesse tido prazer em espancá-la e, no final, enfadado e exausto, tivesse desistido da tarefa extenuante.
O cadafalso tinha sido erguido a poucos passos daquele vestígio lastimável de um passado que, de tão próximo, quase parecia presente e que os "cidadãos" desejavam arrancar pela raiz. Tinha sido coberto por tábuas compridas, colocadas de maneira transversal, que serviam para esconder uma complicada estrutura que parecia proveniente do Garde-Meuble. Exactamente no extremo oposto ficava a escada sórdida que terminava na parte alta do cadafalso, desprovida de corrimão.
Karl sentiu como se uma bola de metal o atingisse violenta e inesperadamente na boca do estômago, quando contemplou um objecto de forma cilíndrica colocado sobre o patíbulo. Estava coberto de couro e, sim, não restava dúvida, era a cesta onde a cabeça do condenado deveria cair. Claro que não se tinha certeza de que fosse acontecer assim.
De saída, a lâmina da guilhotina não parecia muito pesada. Na verdade, era pequena e tinha uma forma curva, quase como um daqueles gorros frígios que muitos dos presentes usavam. Como não se via nenhum dispositivo que pudesse segurar a cabeça do réu uma vez que tivesse sido separada do corpo, podia-se imaginar que ela saltaria do cadafalso e talvez chegasse até à multidão. Os servidores da liberdade teriam preparado tudo dessa maneira ou, pelo contrário, tratava-se de mais uma demonstração de incompetência, que por ser grosseira não era menos soberba, e da qual davam mostras com tanta frequência? Karl não sabia e, para falar a verdade, também não tinha nesses momentos um espírito suficientemente forte para se dispor a investigar isso.
De maneira inesperada, uma rajada de vento percorreu a praça, arrancando-o daquelas reflexões. Não serviu, no entanto, para aliviar o mal-estar que tinha tomado conta dele. Pelo contrário: arrastou até seu nariz, mais forte e vigorosa, uma mistura repugnante e variada de cheiros. Roupa suja, suor acumulado em axilas e pés, baforadas de álcool mal digerido... tudo aquilo o envolveu com seu fedor espesso e, por um momento, ele pensou que não conseguiria conter a ânsia de vómito. Mas conseguiu.
Custara-lhe muito chegar até ali e não estava disposto a perder o espetáculo por culpa do asco. Um murmúrio, inegável mas reprimido, avisou-o de que tudo iria começar em alguns instantes. Não se enganou. Em meio de um silêncio sepulcral, uma carroça desgastada, puxada por cavalos, entrou na praça e se dirigiu para o cadafalso. Se não fosse pelas pessoas que ficaram na ponta dos pés para poder observar melhor a cena, e que se espezinharam, e que amaldiçoaram, e que blasfemaram, quase teria parecido que não havia ninguém naquele lugar.
O carro chegou, lenta mas inexoravelmente, até ao patíbulo, e Karl pôde ver que os carrascos eram quatro. Se não fosse pelas divisas, tricolores e desproporcionalmente grandes, que usavam nos modestos chapéus de três pontas, qualquer um teria dito que pertenciam ao antigo regime. As mesmas calças, as mesmas casacas, os mesmos penteados... bem, no fim das contas, também executavam o mesmo ofício realizado tantas vezes ao longo dos séculos.
O réu estava acompanhado por três sacerdotes, era evidente, mas o comportamento deles não poderia ser mais dessemelhante. Dois deles estavam vivendo, sem qualquer sombra de dúvida, um momento extraordinariamente divertido. Karl pestanejou para ter certeza de que o que estava vendo era real, e, claro, não teve dúvida alguma: aqueles dois clérigos brincavam como se estivessem desfrutando de uma alegre romaria. Engoliu a saliva. A praça transbordava de inimigos do condenado, mas ninguém se tinha atrevido a se mostrar alegre naquelas circunstâncias. Aqueles dois eram a excepção. Inclusive, um deles tinha começado a apontar a barriga e os quadris do réu e a zombar de suas formas. O terceiro, pelo contrário, demonstrava um comportamento diametralmente oposto. Da distância em que se encontrava, Karl não podia distinguir suas feições com clareza, mas tudo parecia indicar que era vítima de um forte retesamento que talvez pudesse ser atribuído à tristeza. Não, aquele sacerdote não apenas não se divertia com a cena como, de facto, ela devia estar-lhe causando uma dor insuportável». César Vidal, O Crime dos Illuminati, Relume Dumarã, 1958, Ediouro Publicações S.A., 2006.

Cortesia de Relume Dumarã/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Los Masones. La sociedade secreta más influyente de la historia. César Vidal. «A Maçonaria, em geral, e os maçons, em particular, são desconhecidos do grande público. É lógico que assim seja na medida em que nos estamos a referir a uma ‘sociedade secreta’ e aos seus membros. Todavia, semelhante ignorância carece de sentido e de justificação já que estamos perante um fenómeno de especial importância na história universal»


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NOTA: De acordo com o original
Reyes, innovaciones e iluminados
La masonería entra en la alta sociedad
«Las primeras logias masónicas de Inglaterra estaban formadas por artesanos, que sólo de vez en cuando eran albañiles, y burgueses, pero, no tardaron en entrar a formar parte de ellas miembros de la nobleza. En el caso inglés, el 24 de junio de 1721, el duque de Montagu fue elegido Gran Maestro, lo que significó un verdadero punto de inflexión. Durante los três siglos siguientes, el Gran Maestro sería siempre un miembro de la nobleza o incluso de la familia real.

Las razones de la expansión de la masonería fueron diversas. Por un lado, para la gente que pertenecía a clases inferiores, el hecho de poder codearse con miembros de la aristocracia constituía, desde luego, un aliciente nada baladí a la hora de buscar la iniciación en la masonería. Por si fuera poco, era una circunstancia que no se veía opacada por la pertenencia a confesiones diferentes de la anglicana, como la católica o la judía. Por otro, tanto los hermanos de extracción más humilde como los aristócratas contaban ahora con la posibilidad, siquiera teórica, de recibir un conocimiento supuestamente oculto y mistérico. Finalmente, el conocimiento establecido en el seno de la logia propiciaba la creación de relaciones privilegiadas en terrenos tan sugestivos como los negocios, la política o la influencia social. De manera bastante natural en ciertos colectivos, la búsqueda de personas a las que favorecer, ayudar o con las que contratar se realizaba en el seno de la logia. Ciertamente, los masones eran objeto de burlas por sus. atavíos peculiares, o se veían censurados por su negativa a admitir mujeres en sus lógias, desde luego, mucho menos de lo que sucedería en el día de hoy, pero ninguna de esas circunstancias impidió su expansión.


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Durante la cuarta década del siglo XVIII ya existían logias en Holanda, Francia, Alemania, el Imperio austríaco, algunos de los estados italianos y Suecia. Su crecimiento se debía, en parte, a la atracción que ejercía la supuesta entrega de un conocimiento esotérico, que además contaba con el marchamo de algunos aristocratas, y, en parte, a una admiración hacia Inglaterra como Estado constitucional, que se basaba más en la imaginación que en un conocimiento real del país. En 1737, en lo que resultó un enorme êxito para las lógias, incluso el príncipe de Gales fue iniciado en la masonería.

Semejante avance no dejó de provocar recelos. La protestante Holanda, que se había enfrentado en el siglo anterior con Inglaterra por el dominio del mar, fue la primera en reaccionar contra la presencia de logias en su território. Así fue, en parte, porque captaban el contenido espiritual de sus enseñanzas y su absoluta incompatibilidad con el cristianismo y, en parte, porque no se le escapaba lo ideal que podía ser para una conspiración el disponer de una red de celulas secretas como eran las logias.

En 1737,fue Luis XV de Francia el que proscribió la masonería en Francia porque captaba su entramado doctrinal nada compatible com el del catolicismo y, por añaditura, porque tampoco se le escapaba el potencial subversivo que se oculta en cualquier sociedad secreta». In César Vidal, Los Masones, la sociedad secreta más influyente de la historia, Editorial Planeta, 2005, ISBN 84-08-05699-9.




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