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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Leituras. Parte XXXIII. César Videira: Memória Histórica de Castelo de Vide. «Os visigodos abraçaram o cristianismo, e, pela liberdade individual, que era uma característica profunda da sua raça, deram origem ao sistema feudal, depois de terminada a sua vida errante como primitivamente fora a dos celtas, e fixaram-se no solo, entrando por esta forma na vida civilizada»

(1848-1917)
Castelo de Vide
jdact

A Vila Antiga
«Foi vária a influência destes povos na península; sobreleva, porém, a todas a dos romanos pelo génio colonizador deste povo, que quase se identificara com os celtiberos, impondo-lhes a adopção dos seus costumes, deuses, língua e legislação. A ocupação romana, que durou duzentos anos, baniu do território peninsular todos os elementos dominadores, que precederam os seus. Para dizer tudo, as províncias hispânicas bem podiam considerar-se, por fim, províncias italianas. Tanto elas reflectiam a vida social da metrópole, a culta Roma. Entre essas províncias, em que os romanos dividiram a península, conta-se a Lusitânia, cujos contornos topográficos não correspondem exactamente aos que na idade média circunscreveram o reino de Portugal, nem os respectivos habitantes desta moderna nacionalidade podem com exacção histórica considerar-se os representantes dos antigos lusitanos. A ideia contrária, posto que errónea, nasceu e vingou com a erudição clássica da Renascenç4, em fins do século XV, lisonjeando a vaidade nacional, que, por este modo, viu entroncada a ascendência portuguesa na primitiva raça céltica.

O certo é, porém, que os valentes guerreiros do Hermínio (Serra da Estrela), que tanto deram que fazer aos generais romanos, estanciaram em vários outros pontos do actual território português, do que ficaram vestígios incontestáveis. Um deles, foi, sem dúvida, a povoação, que se chamou Medóbriga, engrandecida pelos romanos, que denominaram a cidade de Aramenha. Como ainda hoje os seus vestígios testemunham, existia ela ao sopé da serra de Marvão (Hermínio menor) no sítio conhecido na actualidade pela freguesia do Salvador, termo daquela antiga vila.

Cortesia de wikiworldflicks

Entretanto outros acontecimentos importantes se manifestaram na Espanha, alterando a sociedade céltico-romana. Nova camada de população estranha veio sobrepor-se à já existente, confundindo-se, mais ou menos, com ela através dos tempos, vencido o primitivo antagonismo que separava os vencidos dos vencedores. Refiro-me à invasão dos bárbaros do Norte. Esta realizou-se nos primeiros anos do século V, operando uma revolução imensa na sociedade antiga, representada pelo império romano. Este colosso, aluído nos seus fundamentos pela vaga impetuosa, constituída pelos vândalos, suevos e alanos, que do norte se despenhou contra ele, vacilou e caiu, arrastando na queda todo o passado glorioso da sua civilização assombrosa. Dos seus escombros, revolvidos pelas mãos dos bárbaros, surgiram as sociedades modernas. O abalo foi tremendo, e a Espanha não pôde evitá-lo. Galgando os Pirinéus, a onda dos visigodos espraiou-se na península, onde, durante três séculos, firmou a sua influência dominadora. Por fim, vencida a separação das duas raças pelo consórcio e unificação do direito gótico e romano, nos meados do século VII, vieram elas com a acção do tempo a constituir uma nação única no território peninsular.

Os visigodos abraçaram o cristianismo, e, pela liberdade individual, que era uma característica profunda da sua raça, deram origem ao sistema feudal, depois de terminada a sua vida errante como primitivamente fora a dos celtas, e fixaram-se no solo, entrando por esta forma na vida civilizada. Vencedores, receberam a influência dos vencidos, que escaparam à acção destruidora da sua espada implacável.

Cortesia de fontedavila

Mas outra, não menos terrível, veio, volvidos os três séculos do domínio godo, perturbar a sociedade peninsular, restabelecida dos ímpetos assoladores de Ataulfo, chefe dos visigodos. Agora, no século VIII, o tufão devastador sopra rijo e abrasador de outro lado: vem da África. Eram os árabes, ou, segundo a denominação mais vulgarmente conhecida, os mouros, que, em migrações sucessivas, golfam a sua população sobre a da península, dando feição diferente à sua civilização pelos elementos novos, que lhe trouxe. Vencido Rodrigo, o último rei godo, na célebre batalha de Guadalete, ficou franca a passagem aos sarracenos, que inundaram a península, apossando-se do seu território. No entanto, Pelágio, acolhendo-se às asperezas das Astúrias, de aí caiu, como águia, sobre os vencedores das Espanhas, forçando-os em parte à retirada. Isto contribuiu para o ressurgimento da pátria goda, que, com o tempo, se foi alargando, dando lugar às monarquias cristãs da península. Entre elas distingue-se o nosso Portugal, nascido de um simples condado leonez, cujo governo Afonso VI de Castela confiara a D. Henrique, que casou com sua filha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.

Apenas investido na posse do Condado Portucalense (entre 1094 e 1095), o qual se estendia das margens do Minho ao Tejo, acariciou logo na mente a ideia da independência, a qual em todos os actos da sua vida o preocupou, trabalhando incessantemente a favor dela. A viúva do ilustre cavaleiro francês, D. Teresa, não adormeceu nos intentos do marido, antes procurou levá-los a efeito durante a menoridade de seu filho, que pôs o remate à empresa dos pais pelo esforço do seu braço, talentos militares e hábil política, de que usou para o conseguimento dos seus altos intuitos». In César Videira, Memória Histórica da Muito Notável Vila de Castelo de Vide, Edições Colibri e CIDEHUS-EU, 3ª edição 2008, ISBN 978-972-772-802-2.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Evocação dos 150 anos da visita régia de D. Pedro V a Castelo de Vide. Amigos de Castelo de Vide. «Esperado à Porta da Aramenha, onde entrou, o rei relanceando a vista para a vila e cortejo, que o aguardava, exclamou surpreendido: “Mas isto tem o aspecto de uma cidade”!...»

Após ter recebido o amável convite de estar presente na conferência (no pf dia 7 de Outubro) integrada na evocação dos 150 anos da visita de D. Pedro V a Castelo de Vide, recorri a uns dos livros que “residem” na minha mesa de cabeceira, César Videira. Será orador o amigo António Ventura, professor catedrático.

Cortesia de flunl

«Que eu saiba, nenhuma outra visita régia houve em Castelo de Vide, além da de D. Pedro V, realizada em 7 de Outubro de 1861. É dos nossos dias o fausto acontecimento, para que não esteja ainda na lembrança de muitos. Tão grata foi ela que a terra, denominada por ele a Sintra do Alentejo, lhe perpetuou a memória no mármore, levantando-lhe uma estátua após a sua morte tão sentida, como desejada e apreciada fora a sua visita.
Nunca, em parte alguma, sentimento mais espontâneo, veemente e sincero, tomou corpo e se volveu em monumento, que o transmitisse à posteridade. Ele aí está, pois, singelo e elegante, a atestar, num dos melhores largos da vila, quanto pode e vale o amor de um povo pelas virtudes preclaras de um rei justo e bom. Os sorrisos de alegria, a breve trecho seguidos das lágrimas da saudade, fundiram-se nesse pedaço de mármore, artisticamente cinzelado, como recordação indestrutível daqueles sentimentos opostos, despertados pela visita do saudoso monarca.
Percorrendo o Alentejo, D. Pedro V visitara Portalegre, contando antecipadamente Castelo de Vide com honra igual. Mas parece que, segundo se dizia então com ou sem fundamento, mal entendidas rivalidades daquela cidade desvaneceram o intento do monarca, apoucando-lhe o valor desta vila, reduzida no seu conceito a pouco menos que uma aldeia.
Deste modo, as esperanças de Castelo de Vide esfriaram, desesperando de receber o hóspede real, conforme o projecto estabelecido. Acompanhando-o, porém, na qualidade de engenheiro fiscal das linhas férreas, Luís Victor Le Cocq, filho do proprietário da notável Quinta do Prado, conseguiu este vencer, ao que constava, as dificuldades postas, levando o monarca a persistir no seu primitivo propósito. E cerca da meia-noite de 6 de Outubro chegou realmente a Castelo de Vide a participação da régia visita no dia seguinte. Alvoroçaram-se de contentamento os seus moradores, que, em tão curto prazo, mal podiam preparar-se para o receber condignamente. Contudo, o júbilo e o brio próprio redobraram os esforços de todos, e todos com afã meteram ombros à empresa dos preparativos da recepção, que foi carinhosa e digna.

D. Pedro, mal prevenido, como estava, a respeito de Castelo de Vide, saiu de Portalegre para a visitar mais que modestamente, sem fausto nem aparato algum que denunciasse a sua alta categoria social. Veio a cavalo, acompanhado de um ministro apenas, e alguns soldados, poucos. Esperado à Porta da Aramenha, onde entrou, o rei relanceando a vista para a vila e cortejo, que o aguardava, exclamou surpreendido:
  • “Mas isto tem o aspecto de uma cidade”!... E, desculpando-se da simplicidade com que vinha, recusou-se a entrar debaixo do palio. Instado, porém, cedeu, e, assim, se dirigiu à igreja matriz, donde, após a adequada cerimónia religiosa, saiu para visitar a Câmara e os estabelecimentos de caridade.
Depois disto, o rei seguiu para o Prado, onde almoçou, apesar de preparado para o receber o instituidor do Asilo dos Cegos, João Diogo J. S. Sameiro. O almoço valeu ao proprietário da quinta, João José Le Cocq, uma comenda, distinção merecida não tanto pela refeição dada, como pela sua incontestável competência agrícola, de que era testemunho insuspeito o local, em que ela se realizara. E vista a quinta, que o rei, sem dúvida, apreciou como merecia, regressou a Portalegre. Assim terminou este dia, singularmente festivo, para Castelo de Vide.

Cortesia de adecdev

A impressão de agrado, que ele deixou no ânimo do povo e do rei, foi a um tempo grande e profunda:
  • a afabilidade deste, apoiada na fama justa dos seus méritos, correspondeu ao entusiasmo delirante, que animava aquele, ovacionando-o.
Por isso, quando a notícia infausta do seu passamento rebentou inesperada em Castelo de Vide, a consternação foi geral. As alegrias, ainda mal apagadas no rosto dos que, há pouco, o festejavam, esperançados na larga duração de um reinado feliz, se transmudaram em lágrimas de pesar e luto por tão prematura morte, que assim vinha ceifar as esperanças cimentadas nas virtudes reconhecidas do desditoso monarca. Tão funda e geral foi a mágoa, que, alanceando os corações dos filhos desta terra, para logo lhes despertar a ideia simpática de perpetuarem a sua memória no mármore com o levantamento de uma estátua. Partiu ela de um médico distintíssimo, que então tinha Castelo de Vide, João António dos Santos Silva, mas aceite por todos com entusiasmo sincero, como o mostrou a sua tão pronta, quanto possível realização.

No entanto, para esta se levar a cabo, nomeou-se uma comissão, presidida pelo próprio iniciador da ideia do monumento. Dissolvida ela por qualquer motivo, que ignoro, foi substituída por outra, a que presidiu o comendador Le Cocq. Foi esta nova comissão, que, aproveitando embora os trabalhos da anterior, pôs o remate à empresa. Mas, levantada a estátua, não cuidou da inauguração dela:
  • deu por concluída a sua missão. E até 1 Julho de 1873 não se pensou em inaugurar o monumento, ou, se se pensou, não se empregaram os meios precisos para o conseguir.
Sucedeu isso, como disse, em Julho de 1873. Em reunião pública, nos paços do concelho, à qual presidiu o mesmo comendador Le Cocq, se resolveu, com efeito, a inauguração da estátua em Setembro próximo. Nomearam-se para isso duas comissões, que se denominaram, uma directora e a outra executiva. Aquela de pura homenagem a certas personalidades, presidida por João António M. Leote; e esta por quem isto escreve, tendo como vice-presidente José Frederico Laranjo e secretário José António Serrano. E os respectivos trabalhos começaram com actividade e entusiasmo.
Foram, porém, entravados por um acontecimento tão inesperado, como doloroso para mim. A doença grave de uma irmã muito querida, que bastante tempo lutara com a morte, afastou-me do convívio dos meus camaradas. Quando, terminada com felicidade a causa do afastamento, retomei o meu lugar, vim no conhecimento de que coisa alguma se adiantara durante ele. Ponderando, por isso, a dificuldade de, no curto prazo que restava, nos desempenharmos dignamente da delicada missão, que nos fora confiada, propus o adiamento dos festejos. O Sr. Laranjo, que a esse tempo ia já rasgando o caminho, que o havia de levar a S. Bento, combateu-o, julgando suficiente para si esse curto prazo. Declinei, então, voluntariamente o encargo, tomando daqui por diante o sr. Laranjo a direcção dos preparativos da inauguração.

Assim veio esta, com efeito, a realizar-se no dia aprazado, que fora o de 29 de Setembro de 1879. Ainda que feita, no conjunto, com brilho, não foi, a meu juízo, isenta das máculas, que previra, além de outras, devidas em parte à estreiteza do tempo. A discussão pública delas pela imprensa, ainda muito pouco vulgarizada em Castelo de Vide, provocou ao tempo ressentimentos, que não cabe aqui apreciar. E que coubesse, não seria eu que o fizesse com receio de parecer suspeito, atento o papel que desempenhei nesta questão de importância mais que duvidosa, mesmo ao tempo em que se ventilou. Direi apenas aos que se sentirem dominados por invencível curiosidade que a podem satisfazer com a leitura de um opúsculo, por mim publicado então, no qual se encontram compendiadas todas as peças desse esquisito processo. Pouco mais ou menos o que foi, no fundo, a questão do teatro modernamente, e como seria a do relógio em 1498, guardada a diferença dos tempos:
  • Um molho indigesto de ingredientes vários, como ingenuidades, boa fé, ambições, ignorância, vaidades, etc.
Não aprovo, nem aconselho a receita. Cada qual fique com o que tem e cozinhe a seu modo.
Tal é, a traços largos, a história da estátua de D. Pedro V, a qual aí vemos altear-se na praça, a que ela deu o nome». In César Videira, Memória Histórica, Castelo de Vide, Edições Colibri, CIDEHUS, 2ª edição, 2008, ISBN 978-972-772-802-2.


Cortesia de E. Colibri/JDACT

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Leituras. Parte XII: César Videira: Memória Histórica de Castelo de Vide. «O fixar precisamente os territórios e povoações possuídos no Alentejo por cristãos ou sarracenos, durante os últimos anos do governo de Afonso Henriques e os primeiros do de seu filho é impossível. À falta de monumentos juntam-se as mudanças contínuas que deviam resultar de uma guerra assoladora, quase nunca interrompida»

(1848-1917)
Castelo de Vide
jdact

A Vila Antiga
«O certo é, porém, que os valentes guerreiros do Hermínio (Serra da Estrela), que tanto deram que fazer aos generais romanos, estanciaram em vários outros pontos do actual território português, do que ficaram vestígios incontestáveis. Um deles, foi, sem dúvida, a povoação, que se chamou Medóbriga, engrandecida pelos romanos, que denominaram a cidade de Aramenha. Como ainda hoje os seus vestígios testemunham, existia ela ao sopé da serra de Marvão (Hermínio menor) no sítio conhecido na actualidade pela freguesia do Salvador, termo daquela antiga vila.

NOTA: A povoação romana a que se faz referência é, na realidade, a cidade romana de Ammaia, cujos vestígios se localizam em S. Salvador de Aramenha, Marvão. A denominação Medóbriga, surgiu, pela primeira vez, na obra de André de Resende, em pleno século XVI. Foi apenas neste século, e com o aparecimento do movimento renascentista, que a antiga urbe despertou o interesse de alguns humanistas como André de Resende e Frei Amador Arrais que, provavelmente, a visitaram e descreveram o que ainda era observável. O primeiro, tendo como base a inscrição da ponte de Alcântara, identificou as ruínas da Aramenha com Medóbriga. No séc. XVII, Diogo Sotto Maior (1619), na sua obra «Tratado da Cidade de Portalegre», reconheceu um pedestal dedicado a Lúcio Vero pelo município da Ammaia, na ermida do Espírito Santo em Portalegre, e, partindo dessa epígrafe, localizou erradamente a cidade romana em Portalegre, adensando ainda mais a confusão da sua localização precisa, facto que apenas foi rectificado em 1935. Nesta data, José Leite de Vasconcelos publicou o aparecimento de uma inscrição dedicada ao Imperador Cláudio, pela CÍVITAS AMMAIENSIS, o que permitiu resolver de uma vez por todas o problema da localização da Ammaia, em S. Salvador da Aramenha. Esta epígrafe encontra-se actualmente depositada no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa.

Entretanto outros acontecimentos importantes se manifestaram na Espanha, alterando a sociedade céltico-romana. Nova camada de população estranha veio sobrepor-se à já existente, confundindo-se, mais ou menos, com ela através dos tempos, vencido o primitivo antagonismo que, separava os vencidos dos vencedores.

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Refiro-me à invasão dos bárbaros do Norte. Esta realizou-se nos primeiros anos do século V, operando uma revolução imensa na sociedade antiga, representada pelo império romano.
Este colosso, aluído nos seus fundamentos pela vaga impetuosa, constituída pelos vândalos, suevos e alanos, que do norte se despenhou contra ele, vacilou e caiu, arrastando na queda todo o passado glorioso da sua civilização assombrosa. Dos seus escombros, revolvidos pelas mãos dos bárbaros, surgiram as sociedades modernas. O abalo foi tremendo, e a Espanha não pôde evitá-lo. Galgando os Pirinéus, a onda dos visigodos espraiou-se na península, onde, durante três séculos, firmou a sua influência dominadora. Por fim, vencida a separação das duas raças pelo consórcio e unificação do direito gótico e romano, nos meados do século VII, vieram elas com a acção do tempo a constituir uma nação única no território peninsular.
Os visigodos abraçaram o cristianismo, e, pela liberdade individual, que era uma característica profunda da sua raça, deram origem ao sistema feudal, depois de terminada a sua vida errante como primitivamente fora a dos celtas, e fixaram-se no solo, entrando por esta forma na vida civilizada. Vencedores, receberam a influência dos vencidos, que escaparam à acção destruidora da sua espada implacável.
Mas outra, não menos terrível, veio, volvidos os três séculos do domínio godo, perturbar a sociedade peninsular, restabelecida dos ímpetos assoladores de Ataulfo, chefe dos visigodos. Agora, no século VIII, o tufão devastador sopra rijo e abrasador de outro lado: vem da África. Eram os árabes, ou, segundo a denominação mais vulgarmente conhecida, os mouros, que, em migrações sucessivas, golfam a sua população sobre a da península, dando feição diferente à sua civilização pelos elementos novos, que lhe trouxe. Vencido Rodrigo, o último rei godo, na célebre batalha de Guadalete, ficou franca a passagem aos sarracenos, que inundaram a península, apossando-se do seu tenitório.

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No entanto, Pelágio, acolhendo-se às asperezas das Astúrias, de aí caiu, como águia, sobre os vencedores das Espanhas, forçando-os em parte à retirada. Isto contribuiu para o ressurgimento da pátria goda, que, com o tempo, se foi alargando, dando lugar às monarquias cristãs da península. Entre elas distingue-se o nosso Portugal, nascido de um simples condado leonez, cujo governo Afonso VI de Castela confiara a D. Henrique, que casou com sua filha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.
Apenas investido na posse do Condado Portucalense (entre 1094 e 1095), o qual se estendia das margens do Minho ao Tejo, acariciou logo na mente a ideia da independência, a qual em todos os actos da sua vida o preocupou, trabalhando incessantemente a favor dela. A viúva do ilustre cavaleiro francês, D. Teresa, não adormeceu nos intentos do marido, antes procurou levá-los a efeito durante a menoridade de seu filho, que pôs o remate à empresa dos pais pelo esforço do seu braço, talentos militares e hábil política, de que usou para o conseguimento dos seus altos intuitos. Posta de parte a lenda de Ourique, pode assegurar-se que aí por 1145 a independência de Portugal era um facto consumado.
Mas nem por isso esfriaram os brios guerreiros do seu primeiro rei, D. Afonso Henriques. Pelo contrário. Desistindo de alargar o território português ao norte pela Galiza, voltou a sua atenção para o sul. O Alentejo converteu-se no principal centro de operações bélicas do intrépido e infatigável monarca. Então a guerra entre a Cruz e o Corão foi sem tréguas: as correrias pelo território inimigo sucediam-se umas às outras com êxito vário. As fortalezas fronteiras eram tomadas e retomadas por mais de uma vez; mas, em todo o caso, a pátria portuguesa ia-se alargando à custa dos domínios muçulmanos, que recuavam sempre, minados, além disso, pelas discórdias internas, que facilitavam os audaciosos planos do intrépido monarca português.

jdact

Pelo rumo, que as conquistas tomaram, pode afoutamente dizer-se que o Alto Alentejo foi a parte desta província, que entrou em último lugar nos domínios da Coroa portuguesa. E como incluído nela o território do actual distrito de Portalegre, que ficou como que esquecido por força das circunstâncias no meio das conquistas, que se iam operando em torno, sendo por isso o derradeiro abandonado pelos árabes. Ou porque, nas suas frequentes entradas pelas terras sarracenas, D. Afonso Henriques nunca fizesse passagem por estes sítios, ou porque, ermos e abandonados, não contivessem lugares fortificados, que lhe chamassem a atenção para o ataque, o certo é que a história é silenciosa a seu respeito, não fazendo menção de facto algum memorável, aí praticado. Nem as fronteiras estavam, nem podiam estar definitivamente demarcadas nesse tempo. Neste sentido escreve A. Herculano:
  • «O fixar precisamente os territórios e povoações possuídos no Alentejo por cristãos ou sarracenos, durante os últimos anos do governo de Afonso Henriques e os primeiros do de seu filho é impossível. À falta de monumentos juntam-se as mudanças contínuas que deviam resultar de uma guerra assoladora, quase nunca interrompida».
O que parece fora de dúvida é que, nos fins do século XII, o Alto Alentejo se achava despovoado, ermo e coberto de ruínas, em consequência das contínuas correrias, que nele se faziam tanto da parte dos cristãos, como dos árabes. Por isso, segundo refere o mesmo escritor, sem dúvida o mais autorizado no assunto, «a nenhuma das povoações, que aí hoje subsistem, como Avis, Portalegre, Crato, Vila Viçosa, Borba, Estremoz, etc., se pode fazer remontar a origem além do século XIII».
Apesar disso, parece que já anteriormente contava o moderno distrito de Portalegre um castelo, o de Terron perto de Nisa, segundo se supõe, e um mosteiro ou perceptoria, o de Alpalhão. Do que então se pensava seriamente, e foi este o maior título de glória de Sancho I, era em povoá-lo por intermédio quer de colónias estrangeiras, quer dos templários». In César Videira, Memória Histórica da Muito Notável Vila de Castelo de Vide, Edições Colibri e CIDEHUS-EU, 3ª edição 2008, ISBN 978-972-772-802-2.

NOTA:
Ruy Ventura publicou um novo e interessante trabalho no portal Fonte da Vila, http://www.fontedavila.org/, intitulado “A Vide e o seu Castelo (e outros topónimos da terra de Cristovam Pavia)”. Como o título indica, o autor reflecte sobre o topónimo "Castelo de Vide" e, ainda, sobre outras designações da vila, tais como "Aldeia", "Arçário", "Arrochela", "Poço de Aluáca", "Mascarro", etc. O texto integral pode ser lido em:
(Cristovam Pavia nasceu e morreu em Lisboa, vivendo temporadas em Castelo de Vide. Seu pai, Francisco Bugalho e seu tio Adolfo Bugalho, nasceram no Porto e faleceram em Castelo de Vide, JDACT)

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Leituras. Parte X: César Videira: Memória Histórica de Castelo de Vide. «Assim, ocorre naturalmente perguntar: quando se fundou a vila de Castelo de Vide? É coeva, anterior ou posterior à existência da monarquia portuguesa a sua fundação? Para, de algum modo, poder mais ou menos satisfatoriamente, responder a esta interrogação, que desde logo acode à mente, cumpre em primeiro lugar volver um olhar retrospectivo…»


(1848-1917)
Castelo de Vide
jdact 

A Vila Antiga.
«A natural curiosidade, que a todos domina, de explicar tudo o que nos rodeia, conduz, por via de regra, a investigações inúteis, quando vão demasiado longe as aspirações humanas, intentando devassar a origem das coisas. Mas não há resistir a esta ânsia de saber: todos se precipitam com igual ardor neste caminho escabroso e difícil. Vencê-lo é quase sempre impossível, porque as dificuldades sobrevêm a cada passo, opondo irresistíveis embaraços aos que, mais ousados que prudentes, se aventuram a estes ínvios e enredados atalhos, que não raro afastam em vez de aproximar da meta desejada. O cansaço e o desalento vêm, alfim, como resultado infalível de tão temerários cometimentos.

Sem embargo, a lição, tantíssimas vezes repetida, mostra-se improficua: não aproveita a ninguém. O espírito, insatisfeito sempre e ávido de luz, avança de contínuo, entregando-se a novas aventura. Apesar de conhecedor desta verdade inegável, aqui estou eu, desejando explicar a origem de Castelo de Vide, envolvido em iguais dificuldades.

jdact

Em superá-las não acredito certamente; mas da tentativa de o conseguir também não desisto. Vou na esteira dos que se abalançam a empresas idênticas. O exemplo é contagioso. Na impossibilidade, pois, de caminhar à luz clara do Sol da história, tactearei à claridade indecisa e vaga da noite do passado o caminho da verdade, até que a cerração das trevas se faça completa, tolhendo-me de todo o passo.

Assim, ocorre naturalmente perguntar: quando se fundou a vila de Castelo de Vide? É coeva, anterior ou posterior à existência da monarquia portuguesa a sua fundação? Para, de algum modo, poder mais ou menos satisfatoriamente, responder a esta interrogação, que desde logo acode à mente, cumpre em primeiro lugar volver um olhar retrospectivo sobre as diferentes camadas sociais, que pisaram o solo da Península Ibérica, e o estado em que ela se encontrava ao tempo em que o reino de Portugal se desmembrou da monarquia leonesa, convertendo-se em nacionalidade autónoma e independente, para tornar compreensível a resposta.


jdact

Muito pela rama o farei, porque não cabem desenvolvimentos largos em tão comezinho trabalho, ainda que eu pudesse dar-lhos.
Parece que, em migrações sucessivas e originárias da Ásia, suposto berço da humanidade, vieram para a Península, em primeiro lugar, os iberos, e depois os celtas, cujo encontro, na parte central dela, produziu os povos mistos, que se chamaram celtiberos. Foram estes, segundo se crê, os primitivos habitantes da Península, onde vieram encontrá-los, mais tarde, outros povos, assim europeus, como africanos, atraídos pela fama da fertilidade do seu solo e riqueza de suas minas, depois de descoberta por audazes navegadores, que abicaram às praias desconhecidas deste ponto do globo. Pouco mais ou menos, guardadas as diferenças dos tempos, o que sucedeu connosco a respeito da Índia. A Espanha foi, nos tempos antigos, o campo aberto à exploração dos povos colonizadores, ou dos que, arrastados por simples lucros passageiros, demandavam as praias peninsulares em náuticas aventuras.
Entre as nações mais adiantadas, que, por este modo, puseram pé em território ibérico, contam-se os fenícios, gregos, cartagineses e romanos». In César Videira, Memória Histórica da Muito Notável Vila de Castelo de Vide, Edições Colibri e CIDEHUS-EU, 3ª edição 2008, ISBN 978-972-772-802-2.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Castelo de Vide: A Biblioteca Municipal Laranjo Coelho e a Associação dos Amigos do Estudo (1866)

A História da Leitura Pública em Castelo de Vide está, nas suas origens intimamente associada à fundação há mais de cento e quarenta anos (1866), da Associação dos Amigos do Estudo, por Alexandre Sequeira, Frederico Laranjo, António Farinha Pereira e César Videira. Constituiu a primeira concretização da «ideia» de uma «livraria» (ou biblioteca) pública. Quatro anos depois (1870) a Associação toma a designação de Grémio de Ilustração Popular, sob o impulso de Frederico Laranjo, de José António Serrano e de César Videira.
A biblioteca cresce e passa a dispor de leitura domiciliária. Dissolvido o Grémio, em 1903 foi o espólio existente entregue à Câmara Municipal. A partir de então, passou a competir à autarquia a continuação do trabalho iniciado pelo associativismo local. A biblioteca associativa transformou-se em Municipal e começam, então, as suas vicissitudes.
Instalada nos Paços do Concelho durante alguma tempo, foi votada ao abandono. Mais tarde (1908) reforçada com um legado de 3 147 volumes feito pelo prof. Dr. José António Serrano foi posta a funcionar. Pouco tempo depois, mais uma vez a Biblioteca Municipal é esquecida, até que Raposo Repenicado é incumbido da sua reorganização ( 1938 ), numa altura em que regista cerca de 11 000 volumes. Pela primeira vez se elabora um ficheiro, um catálogo e um regulamento. Funcionava então nas duas salas do rés-do-chão, viradas para a Carreira de Cima no edifício dos Paços do Concelho. A morte do responsável, Adolfo Marmelo, e um ataque de parasitas, levou de novo ao seu encerramento e os livros foram colocados em depósito numa sala voltada para a Praça D. Pedro V. Várias comissões, vários projectos, nos anos setenta, a nada de prático conduziram. A lacuna foi preenchida em parte, pela Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian.
Em 1982, a Câmara Municipal retirou de novo os livros das «trevas». A Biblioteca Municipal ocupa as duas salas do rés-do-chão dos Paços do Concelho, viradas para a Praça D. Pedro V. Mas menos de dez anos volvidos volta à situação precária e é instalada provisoriamente e sem condições, mais uma vez, na Rua Almeida Sarzedas.
A actual Biblioteca Municipal, à qual foi atribuído o nome de P.M. Laranjo Coelho, está instalada em edifício próprio, legado por este ilustre castelovidense para esse fim à Câmara Municipal.
A Biblioteca Municipal Laranjo Coelho está distribuída por cinco pisos, sendo constituída por um conjunto articulado de espaços funcionais. O Átrio/Recepção - É o Ponto de partida para a descoberta da Biblioteca, um espaço de acolhimento e orientação dos utilizadores. Nele se situa o balcão de atendimento central onde o utilizador pode ser esclarecido sobre o funcionamento da Biblioteca, fazer a sua inscrição e entrega das obras requisitadas para leitura domiciliária.
O átrio é também o espaço onde poderá informar-se sobre as actividades culturais desenvolvidas pela autarquia em geral, e pela Biblioteca, em particular. Aí estarão disponíveis ainda pequenas exposições e painéis informativos de acontecimentos, temas, personalidades e/ou temas bibliográficos que funcionarão como propostas ou sugestões para os utilizadores da Biblioteca.
No átrio estarão expostas e poderão ser adquiridas todas as publicações municipais.
Cortesia CMCastelo de Vide