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sábado, 15 de novembro de 2014

A Afronta a António Nobre. César de Frias. «Exerceu sugestão, disse. Direi melhor, exerce, pois o facto dessa sugestão ainda hoje se constata dia a dia nos livros que vão aparecendo. Sem grande arrojo poderia dizer mesmo,-exercerá, atendendo a que no Só há um manancial inesgotável de poesia…»

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(…) Contudo, e em inexpugnável oposição aos entraves levantados injustamente à sua expansão, e às pedradas, não muitas, valha a verdade, dum ou outro zoilo, que, de quando em longe, zunem desarmoniosamente na ambiência carinhosa que o circunda, o interesse pelo livro mantêm-se sempre forte, palpitante e cálido, como se constata. E porquê? Qual a causa desta violenta e estranha atracção pelo ? Que procura nele essa corrente de leitores, dia a dia maior e mais ávida? Decerto aspirar o mágico hálito, ora acre, ora doce, do mistério e da tristeza, que dos seus versos dimana, como se no facetado maravilhoso daquelas estrofes se encontrasse espelhado, retratado com espantosa nitidez e semelhança o fundo revolvido e chagado das suas almas, ainda teimosas, apesar do quotidiano e brutal embate da realidade que as rodeia e de contínuo as rasga com as garras aduncas, em vestirem-se da clâmide branca e ihamada de oiro do Sonho. É como se aquelas perturbadas almas, que se aglutinam na multidão caudalosa dos seus leitores, pressentissem e adivinhassem quási, ao lerem essa autobiografia sombria e convulsa, serem elas mesmas pobres irmãs da alma de Anto, tristes como ela, irmãs pelo sangue negro e tóxico da dolorosidade que as entumece, pela complexidade, cheia de antagonismos, das ambições que lá dentro redemoinham, pela submissão, quási aprazível, quási voluptuosa, ao cilício da dúvida que as flagela, pelo peso da descrença que as abate e roja no pó cinzento e frio do tédio. Irmãs, por um lado, incomparavelmente mais felizes, pois, desprovidas do sentir mago, da intuição feiticeira dos Artistas, sentem e sofrem, ao invés deles, apenas a agrura dos seus destinos, num pequeno quinhão, restrito às suas personalidades vulgares, embora, por outro lado, se devam achar um tanto mais desgraçadas, porque, sentindo e sofrendo, elas, almas rasas, sem o condão excelso de, na voz divina, de oiro e cristal, do génio, dizerem alto, uivarem, rezarem, cantarem as sensações do seu martírio e os sofrimentos da sua tragédia ingente, rudes, mudas, emparedadas, não podem alcançar a compensação que aos excepcionais, pela majestosa beleza que impregna os seus desabafos postos em Arte, acode a aliviar-lhes o fadário de viverem num mundo inferior e contrário à sua natureza melindrosa.
Se o culto pelo , expresso numa permanente e intensa leitura e desdobrando o seu fogo de Vesta em espíritos mais ou menos artistas, embora apenas receptivos, assimiladores, pois, quanto a mim, para admirar sinceramente qualquer obra de arte é de absoluta e primacial necessidade ser-se de algum modo também um pouco artista, no que me ponho de inteiro acordo com uma opinião, ainda mais concreta sobre o assunto, de Faguet, o mestre-crítico, le lecteur de poetes est un initié…, é tão considerável, que em breve espaço de tempo lhe rarefaz no mercado as edições sucessivas e grossas e origina um jogo diabólico de cifras sobre os poucos exemplares que ainda aparecem, como acabo de dizer, não deve igualmente deixar de ser apontada, como não menor nem menos robusta, antes pelo contrário, a sugestão que ele exerceu, já sobre os poetas contemporâneos do autor, já, e maiormente, sobre os das nova e novíssima gerações. Acusam, bem acentuado, o seu ascendente, todos os que após ele vieram ao mundo, neste retalho da terra ocidental, com a dolorosa e estranha sina de vibrarem suas almas acima das almas do vulgo, como monges e levitas mais ou menos inspirados dessa religião de sempre, ou, de quando menos, de enquanto os Homens permanecerem humanos, a Poesia.
Exerceu sugestão, disse. Direi melhor, exerce, pois o facto dessa sugestão ainda hoje se constata dia a dia nos livros que vão aparecendo. Sem grande arrojo poderia dizer mesmo,-exercerá, atendendo a que no há um manancial inesgotável de poesia, de pensamento poético, a que, não só é lícito alguém recorrer como fonte inspiradora, mas até é de recomendar que assim seja, pelo carácter nacional, português, que da maior parte daquelas estrofes transpira. Assim se terá sempre um elemento poderoso de salutar reacção contra as influências estrangeiras, que a moda versátil nos sopra, e ao peso das quais as virtudes rácicas se derrancam e estiolam na literatura que fazemos». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

Cortesia de L. Central/JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

A Afronta a António Nobre. César de Frias. «… o sucesso da obra de António Nobre, ao presente por completo esgotada e sem grandes esperanças de ser em breve reeditada de novo, por incompreensível recusa da família do Poeta…»

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(…)
Ao Violão
«Manhã de Junho. O céu é rubro. A lua, tonta
de somno, vae tombando… O sol no azul desponta
apagam-se de todo os astros: pyrilampos
que scintillam do céu nos azulados campos.
Dos olivaes do monte o rouxinol diz missa
à natureza que o ouve, extactica e submissa.
Os passaros gentis, vindos á luz este anno,
andam em bando, aos mil, n'um labutar insano,
a alluir, a desfazer com o biquito e as azas,
os ninhos virginaes, as suas aéreas casas
a luz do sol, desperta a aldeia socegada:
os carros da lavoira alongam-se, na estrada.
D’um misero casal, á soleira da porta,
uma velhinha magra e doente, quasi morta,
fia na sua roca o linho das estrigas.
Muito ao longe no monte, algumas raparigas
andam á lenha. Sim; já canta a cotovia:
é preciso cuidar da refeição do dia…
Vêm-se ao collo das mães, pequenos, a gritar,
despenteados, sem graça, immundos, por lavar.
E vê-se, além, passando, a multidão cristã
que vae para a capella ouvir a missa aldeã.

E eu, mal caiu no oceano a derradeira estrella,
abri a larga, antiga, hierática janella,
deixei que o ar lavasse os meus pulmões e vim
postar-me, doce amada!, ao pé do teu jardim.
Dormes ainda, eu sei: a tua alma habita,
Nesse Paiz, além da abobada infinita…
Mas sei que tu, de mãos cruzadas sobre o peito,
estás, alli, n’um branco e pequenino leito.
Assim não ouves, não, uma canção secreta
que eu vibro, baixo e baixo, em meu violão de poeta.

Acorda, meu Amor! Levanta-te, creança!
Desprende ao vento a longa e emmaranhada trança.
Ajudo-te a fazer, (por que isso me compete),
a tua delicada e simplice toilette.
Só te verá o mar, esse discreto velho…
O lago do jardim será o teu espelho.
E, escuta!, banhar-te-has, n’um cálice de rosa:
para o teu corpo, flor!, é uma tina espaçosa!...
Hei-de enxugar-te o corpo, á luz dos meus desejos,
e cobrir te-hei, depois, com um lençol de beijos!
Vamos! Acorda, amor! Levanta-te do ninho!
Descerra o meigo olhar; veste o roupão de arminho,
e vem comigo, vem, por esses campos fora:
espera-nos o almoço a que preside a Aurora!
Ah, quanto é bello vêr a natureza era festa!
Que harmonias sem fim, nos ramos da floresta!
Como é viril e grande a voz que sae da Terra,
e vae de praia em praia, e vae de serra em serra!
As rolas passam, longe... e não sei que ave canta:
que muzica divina e explendida garganta!
Mais uma vez: acorda! As doces cotovias
clamam por ti do ceu e mandam-te os Bons Dias.
[…]
António Nobre

O já hoje se inscreve no número das obras clássicas da literatura portuguesa e a notoriedade que disfruta, justa e calorosa, garante bem que será lido e amado enquanto se falar a nossa língua. Já no presente as Antologias arquivam trechos seus, criteriosamente escolhidos como paradigmas de beleza poética, na suavidade e equilíbrio do ritmo e no surto alto da inspiração, que o desprende da chateza dos versificadores vulgares e o arremessa para as regiões da violenta emoção, a única, ao certo, em que se aprovisionam de ar suficiente e vital os pulmões dos grandes Poetas e Artistas, e longe da qual eles asfixiam e abrem cavernas. Fora disto, muito acima deste culto semi-oficial, o que se apresenta como mais importante, como mais impressionante, pelo seu significado de espontaneidade, é a corrente de leitores, livres da menor coacção, cada vez engrossando mais e mais e erguendo em uníssono coro as suas vibrantes confianças do encantamento sentido, num contágio de indignação que não abranda de vitalidade por mais anos que passem e outros livros também de valor surjam a provocar a atracção simpática do publico.
Três edições conta já o , todas excedendo, pelas suas tiragens avultadas, a magreza clássica das edições do nosso estreito mercado literário, que então em livros de versos (e isto é num país de poetas!) é duma debilidade irrisória. Pelo contraste ressaltante deste facto mais avulta ainda o sucesso da obra de António Nobre, ao presente por completo esgotada e sem grandes esperanças de ser em breve reeditada de novo, por incompreensível recusa da família do Poeta às instâncias que nesse sentido de várias partes lhe têem sido feitas. Segundo depoimento de A Águia, só do Brasil chegam frequentemente encomendas de 100, 500 e 1.000 exemplares, que, está claro, pela infeliz circunstância apontada, não podem ser satisfeitas. Assim, sobre os raros exemplaresque aparecem à venda, em liquidações de bibliotecas particulares e fundos de livraria, a especulação galopa infrene, cabriola, delira. Por exemplares das 2.ªs e 3.ªs edições surgem ofertas gradas, de cinquenta escudos e mais. Quanto aos da edição princeps, os poucos felizes que hoje os possuem, aferrolham-nos ciosamente, em ímpetos de bibliófilos avaros e loucos». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

Cortesia de L. Central/JDACT

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

César de Frias. A Afronta a António Nobre. «Tem esta poesia a nota interessante, por nova, de denunciar o título dum livro “Alicerces”, que não consta do “Plano das obras de António Nobr”, publicado pelo visconde de Villa-Moura no seu notável livro “António Nobre (seu génio e sua obra)” o único trabalho de vulto inteligentemente urdido, que até a data alguém deu a lume…»

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(Continuação)

«É esta a contribuição que posso deixar ao coleccionador que amanhã surja a enfeixar as composições poéticas do ciclo inicial do Poeta, a sua primeira colheita de frutos de Beleza, de Graça e de Sonho, doirados e saborosos para quem os vê e lhes saboreia apenas o inebriante sumo da polpa, nem sequer adivinhando quanta dor dilacerou, triturou, rasgou primeiro as entranhas maternais do espírito criador que atirou para a luz solar, e em forma tão generosamente comunicativa, essa colheita magnífica. Pequena contribuição, sim. Mas, reconhecendo a sua modéstia, não a considero, todavia, importuna. Faço transcrição fiel, respeitando rúbricas e ortografia:

O Eclipse
(24 de Setembro de 1884)
N'aquella tarde eu contemplava, ancioso,
a lua das marés:
ia ver um phenomeno curioso,
pela primeira vez.

Desde as sete horas que eu me achava prompto,
pois vinha no jornal
que se daria, ás sete e meia em ponto,
o eclypse total.

Na praia, Miss! áquella hora havia
enorme sensação:
enthusiasmada, a gente discutia
com o óculo na mão.

E como, é certo, com a vista núa,
tam fraca e tam subtil,
tu não podias observar a lua,
Astrónomo gentil.

Um moço poeta, rouxinol das praias,
um oculo offereceu
a ti, meu doce Ptolomeu de saias,
Geometra do céu!

Assestaste-o, mas nada: uma imprevista
mancha aos teus olhos sáe,
pois que estava graduado pela vista
do teu velhinho pae.

Da praia, entanto, na deserta areia,
caia o luar a flux,
e nos céus fulgurava a lua cheia,
cheia de tanta luz.

Que tu, imaginando ver da aurora,
o lúcido arrebol,
disseste : ‘Estou capaz de abrir, agora,
O meu chapéu de sol… ‘

Única phrase que tombou, creança,
do róseo lábio teu,
porque depois, - que súbita mudança!
Tornou-se escuro o ceu…

E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
sumia-se no ar,
como se um monstro a fosse devorando,
na sombra… devagar…

Á luz da lua succedeu a treva,
treva de horror sem fim,
côr dos teus olhos, deliciosa Eva!
meu pallido jasmim!

E ao ver-me só nas trevas, de repente,
clamei por ti, clamei…
E interrogando a multidão, a gente,
em vão! Não te encontrei!

Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
e as bruxas do Sabbat,
que os eclypses da lua são presagios,
sinaes de coiza má!

Por isso o Mal com sua garra adunca
me separou de ti,
pois que tu nunca mais me viste, nunca!
E eu nunca mais te vi.

E, hoje, nas trevas sepulchraes e calmas,
eu vivo, por meu mal:
é que também se deu de nossas almas
o eclypse total!

Do livro, no prélo: ‘Alicerces’. António Nobre.

Tem esta poesia a nota interessante, por nova, de denunciar o título dum livro Alicerces, que não consta do Plano das obras de António Nobre, publicado pelo visconde de Villa-Moura no seu notável livro António Nobre (seu génio e sua obra) o único trabalho de vulto inteligentemente urdido, que até a data alguém deu a lume sobre a figura do Poeta, porque não se detêm nele a catalogar poesias, na ânsia comezinha e burocrática de lhe abrir assento de baptismo nesta ou naquela escola literária, mas sim, armada a sua observação com a melhor e a mais subtil das lupas, que o seu próprio temperamento de Artista lhe forneceu - na quase plena identidade de duas maneiras de ser psíquicas, a de si mesmo e a de Anto, desceu ao íntimo deste, a sondar-lhe fibra por fibra a alma enorme e ondeada de crises supra-terrenas e infernais. Com exactidão, obstinou-se em descobrir primeiro o génio do Poeta e em demonstrar depois que a sua obra ali embebe profundamente as raízes, seguindo assim processo contrário ao usado pelo vulgo dos tratadores de coisas literárias, com óculos críticos encavalitados no nariz, foscos de erudição, a atestar-lhes à légua- a miopia, isto é, a impotência para lobrigarem algo além do papel e dos caracteres nele exarados.
A poesia que segue não a datou o Poeta, nem sei ao certo a data do periódico que a inseriu, pois o fragmento que possuo abrange apenas os versos. Contudo, à margem, alguém escreveu a lápis 1888, que julgo indicar o ano em que saiu o impresso». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

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Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

César de Frias. A Afronta a António Nobre. «… quis, contudo, um benéfico lance do acaso que me viessem cair entre as mãos uns recortes de jornais antigos com versos da sua primeira fase, já documentando exuberantemente a riqueza do seu temperamento lírico e, sobretudo, interessantes pela naturalidade, pela frescura da maneira…»


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(Continuação)

«Por isso nunca hão-de faltar sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet e sumiu-se logo no sepulcro. Este corajoso mea culpa chancela de verdadeiro o que afirmei, pois. Acompanha-o uma impressionante gravura António Nobre no caixão, nunca reproduzida, creio, em qualquer dos trabalhos até hoje publicados sobre o Poeta. Apresenta um aspecto muito diferente daquele que todas as outras suas conhecidas fotografias nos dão. Mais velho, o cabelo mais escasso, o bigode crescido e farto caindo ao abandono sobre a boca, a barba também envolvendo-lhe cerradamente o queixo, tais como ele não usou, estas divergências fisionómicas, em relação aos retratos vulgares, tornam-no irreconhecível à primeira vista. Mas, se lhe fixarmos os olhos, apesar de cerrados, é caso estranho!, logo o reconhecemos e identificamos.
São os seus olhos, não há dúvida! Às suas pupilas magas, largas e expressivas, cobrem-nas ciosamente as pálpebras, mas a gente, não sei porquê, adivinha-as, vê-as, negras, brilhantes, profundas, misteriosas, carregadas de sonho, voltadas decerto para o oceano da eternidade, como navegador, à proa do seu barco, que foi, no dizer de Raul Brandão.
Destacando-se na alvura da camisa, do colarinho e da gravata e emergindo de entre tufos de hervagem e flores, parece até que a sua cabeça de dolorido ostenta já na barba e no bigode bastos fios de prata, a mascararem com uma velhice prematura os seus trinta e dois anos de plena vida. Fora a Morte, talvez, que, sentindo-se mais velha do que ele, - oh! Muito mais velha! - para dalgum modo atenuar a diferença entre a idade própria e a do seu noivo, assim procurou aproximá-lo mais de si, envelhecendo-o, num assomo violento de ciúme…
De António Nobre, poucos ou nenhuns inéditos, no sentido rigoroso do termo, existirão hoje, visto A Águia, da Renascença Portuguesa, do Porto, num carinhoso preito de admiração, se ter dado já por diversas vezes à louvável tarefa de publicá-los, chegando mesmo, além de editar o , a fazer do n.º 10 da 1.ª série, de Julho de 1911, como que um opúsculo especial em sua memória. Trouxe aí a lume muitas poesias nunca anteriormente dadas à estampa umas, outras que o tinham sido mas não no nem nas Despedidas e, por isso, quase intangíveis para o prazer espiritual de muitos dos devotos do Poeta, soterradas como eram em páginas de jornais e revistas efémeras, e outras ainda que a mão de Anto, subitamente enfadada, numa dessas rajadas de tédio que tantas vezes enegreciam o firmamento claro do seu estro, afastara de si, a meio da realização, e para sempre ficaram incompletas, mutiladas na sua beleza. Capitaneou essas poesias um desenho de António Carneiro, soberbo pela interpretação psicológica dos seus traços, em que o lápis bruxo do artista-pintor nos deixa adivinhar o mundo complexo de pensamentos e sensações que tumultuava no íntimo do Poeta. Seguiram também esse retrato três curiosas reproduções fotográficas e o fac-simile dum autógrafo de Nobre. É este número da excelente revista portuense, sem dúvida, um valioso e imprescindível subsídio para o estudo completo do Poeta que se faça algum dia. Mais tarde, ainda ela voltou, em vários números da 2.ª série, a inserir novas poesias de António Nobre, também exiladas dos seus dois únicos livros, e que, futuramente, como é de justiça, se encontrarem vontade piedosa e amiga a coligi-las num volume, reavivando o antigo propósito, logo tomado quando da impressão das Despedidas, e primitivamente cometido a Justino Montalvão, creio, com outras se arregimentarão de modo a formar o texto dos Primeiros versos, livro anunciado mas nunca vindo a lume, atirados de prestes os versos que o compunham para a penumbra empoeirada dos papéis íntimos e avulsos, não sei eu e não sabe ninguém ainda hoje ao peso de que razoáveis motivos.
Assim, se me não é concedida a honra de valorizar estas páginas com quaisquer produções de Nobre absolutamente inéditas, quis, contudo, um benéfico lance do acaso que me viessem cair entre as mãos uns recortes de jornais antigos com versos da sua primeira fase, já documentando exuberantemente a riqueza do seu temperamento lírico e, sobretudo, interessantes pela naturalidade, pela frescura da maneira, então ainda bafejada por um espírito que trazia o sol doirado da mocidade alegre a bater-lhe em cheio, centelhando-o de excelsa graça, de fina bonomia, e mal deixando pressentir a aproximação sombria do pessimismo, que pouco mais tarde havia de começar a persegui-lo pela vida fora, braço dado com a doença, em conúbio trágico, para um apadrinhamento sinistro e mortal.
Como nenhuma das poesias que seguem faça parte dos livros do Poeta ou das exumações de A Águia realizadas até o presente, nem mesmo as tenha eu visto citadas por algum dos muitos escritores que, episodicamente ou longamente, têm versado a individualidade de António Nobre, concluí estarem elas em absoluto esquecidas, e, deste modo, já que um feliz acaso mas desvendava e punha sob os olhos, me competia divulgá-las aqui». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

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Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

sábado, 6 de outubro de 2012

César de Frias. A Afronta a António Nobre. Parte IX. «A sua maneira de conversar prendia, impressionava, penetrava. A voz lenta, grave, um pouco velada, com umas leves intenções de ironia, deixava cair as palavras serenamente, e poucas vezes as suas mãos pálidas acompanhavam com um gesto o que dizia»

O Poeta do SÓ

«Eu não conhecia António Nobre. Uma noite, ao entrar em casa da família dum amigo seu, disseram-me:
 - Sabe? - Vem hoje cá o António Nobre. A notícia não me alvoroçou. Interessava-me pouco o poeta, cujos versos não compreendia. António Nobre apareceu e então comecei a perceber o domínio que exercia em todos que se aproximavam da sua estranha personalidade. E exprimo-me desta forma absoluta, por que vi, naquela noite, o encanto invadir, sem excepção, as pessoas que o rodeavam. António Nobre era nesta época, 1898, um homem de figura delicada, rosto pálido, expressivo, completamente rapado, o que mais deixava admirar a finura extrema das suas feições, especialmente a boca, tão correcta, de linhas tão suaves, que ficaria bem em rosto de mulher. A fronte ampla, começava a tornar-se ainda maior pelo rarear do cabelo, e naquela fisionomia um pouco fatigada e doentia, os olhos abriam-se enormes, escuríssimos, profundos, admiravelmente belos.
O poeta estava vestido negligentemente, calçava umas botas deselegantes e sólidas. Achei-o despretensioso, como indiferente ao efeito que a sua presença produzia. Eu tinha ouvido algumas vezes acusá-lo de vaidoso, mas não me deu essa impressão a sua altitude. Pareceu- me que nele a ideia do próprio valor, era uma convicção e não uma vaidade.
Aceitava o facto simplesmente, conscienciosamente, e referia-se a isso com toda a naturalidade, como a coisa que não merecesse admiração. Pelo menos foi isto que julguei ver. A sua maneira de conversar prendia, impressionava, penetrava. A voz lenta, grave, um pouco velada, com umas leves intenções de ironia, deixava cair as palavras serenamente, e poucas vezes as suas mãos pálidas acompanhavam com um gesto o que dizia.
E, ainda melhor do que este testemunho, encontro no 1º volume das Memorias de Raul Brandão, o grande prosador de agora, um irmão gémeo de Dostoiewski, nascido sob o céu português, estas páginas de evocação do poeta, formidáveis de sinceridade, num bater de peito, contrito e comovente, que espanta.

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18 de Março de 1900
Faz hoje anos que morreu António Nobre. Em pequeno ia com Eduardo Caminha (ou Eduardo Coimbra, o malogrado poeta dos Dispersos, morto aos 18 anos) enterrar os seus versos no jardim solitário do Palácio, e pedia, com os olhos límpidos e sôfregos, uma Bíblia para repousar a cabeça quando o levassem no caixão… António Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e um ar de ternura e desdém. Fugiam dele antes de publicar o ; os poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o . Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior. Viveu sempre isolado… Entrou na morte como tinha vivido, só…
Digamo-lo, digamo-lo... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não lhe puderam perdoar a impertinência, o desdém, o génio. Era um ser diferente. Não agradava a ninguém. Só as mulheres o amaram. Era um Poeta. Desconheceu a vida prática. Tinha a consciência do seu valor, e uma superioridade que se não podia aturar. Estávamos todos mortos por nos desfazermos desse ser aparte, desse eterno cônsul sem consulado, desse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia sombra. Mas debalde o arredámos: houve uma coisa nova que passou no mundo e que ficou no mundo, que nos ficou na alma…
Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade, a afectação e o desdém infantil de António Nobre. Foi para a cova completar trinta e três anos num dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta insolente como um príncipe e adorável como uma criança. Quantos estavam ali à beira do túmulo? Meia dúzia escassa, o Frei, o Justino, o Eduardo de Sousa, eu, e quem mais? quantos mais? Os jornais deram a sua morte em duas rápidas linhas. Respirou-se.
Hoje é um dos poetas portugueses com mais admiradores. É um poeta de simpatia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não misturou, como nós todos, o sonho com a vida prática. Ao contrário, raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais: suprimiu a vida. Correu o globo e só a si próprio se encontrou. Viu o mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E poentes, árvores, estrelas ou pedras, entraram-lhe no coração como espadas. Nenhum outro exprimiu duma forma tão sua o universo. Que universo, dirás? O meu? o teu? Não, o que ele descobriu, cismando como um navegador, à proa do seu barco… Por isso nunca hão-de faltar sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet e sumiu-se logo no sepulcro». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

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Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

domingo, 23 de setembro de 2012

César de Frias. A Afronta a António Nobre. Parte VIII. «Pois não o contradiz com eloquência o facto do seu isolamento em Paris, isolamento de monge, e, sobretudo, o caracter nacional que se obstinou em vincar no Só…»



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O Poeta do SÓ
«A 11 de Setembro de 1891, quase nove anos antes, vira ele partir desse modo violento para a Cidade Santa um dos seus fantasmas tutelares. Se não fosse, pois, o episódio da tísica, iríamos hoje encontrar António Nobre incorporado na teoria dos nossos grandes suicidas, como irmão de Antero, Camilo, Soares dos Reis, Trindade Coelho, Manuel Laranjeira, todos esses, que, sentindo suas almas de eleição com as largas asas prisioneiras na estreita gaiola da vida, só viram uma solução, quebrarem-lhe as barreiras e arremessarem-se para o Infinito.

Uma criação de Deus, mas incompleta;
Águia, encerrando um coração de pomba,
Cedro que dava folhas de violeta!

Nestes três versos da poesia Ca(ro) Da(ta) Ver(mibus) parece Anto definir-se, com uma assombrosa clarividência. Mas este e outros conceitos que no abundam, cheios de altivez e de convicção no próprio valor, e até coerentes com as doutrinas que, a despeito das tendências democraticamente niveladoras já então eclodindo com vigor, prenhavam a atmosfera mental da época, doutrinas de forte crença na acção dos super-homens, tendo Carlyle, Emerson e Nietzsche por apóstolos-pontífices, este e outros conceitos, dizia, serviram de certo modo aos detractores de Nobre para o apodarem de vaidoso, exibitivo e ávido de notoriedade rápida.
A incompreensão dos Artistas pelo comum das gentes, às vezes, como neste caso, reforçada pela inveja dos que já pertencem a uma esfera superior, é reincidente no velho erro de julgar aqueles à sua imagem. Não busca elevar-se, nivelar-se com eles nos seus momentos de genial intuição, meter-se na zona da áurea claridade que lhes dimana da alma e do cérebro.
Em vez disso, e embora aproveite e muito da sua acção, urde-lhes de rastos e ferozmente as maiores armadilhas, pretende aluir pela base o ‘Sinai’ onde eles se erguem na inspiração que topeta o céu, força por inquinar-lhes a fonte de Juvência onde se alimentam de ideal, na ânsia bastarda de os ver, quando derrubados, iguais a si, pigmeus e míseros, integrados na massa amorfa. Quando menos, comete o desacato de traduzi-los para figuras banais e isentas de prestígio.
Ora, porque se há-de julgar um produto artificial e rebuscado a excentridade de António Nobre, e não um fruto espontâneo da sua especial estrutura íntima, impossível de arrancar da árvore humana donde brotara, sem a mutilar?
Para mim, a chamada naturalidade, feita de simpleza charra, das maiorias, é que seria nos marcados na fronte pelo fatídico sinal dos raros um preciosismo monstruoso, um aborto condenável e falso, por estranho aos seus organismos de excepção. Devemos tomar o mundo tal como é: vário, desigual, matizado de contrastes, não apedrejando os que fogem ao figurino previsto e à fórmula corriqueira.
Aliás, toda a mocidade talentosa é atreita a ímpetos exibicionistas, perdidos mais tarde por completo, e mais acentuados nuns ou mais ténues noutros, conforme os temperamentos. Nem Antero, cujas ambições literárias foram sempre tíbias, não publicando as obras senão a vivas instâncias dos amigos, e, para mais, se tornou no vulto de íntegra e majestosa beleza moral que todos admiramos, nem ele foi escapo a esses ímpetos moços. Dizem os seus biógrafos que em Coimbra bastante cultivou a excentridade.
Mas, focando sob este prisma António Nobre, e aparte a porção fugitiva que dessa pecha geral à mocidade lhe caberia, que outros motivos se deparam para à sua singularidade ser atribuída a índole dum arranjo, duma intenção, dum postiço? Pois não o contradiz com eloquência o facto do seu isolamento em Paris, isolamento de monge, e, sobretudo, o caracter nacional que se obstinou em vincar no , apesar da sua elaboração ter decorrido quase toda longe de Portugal e entre o tumulto de civilizações intensas e absorventes, em promiscuidade com novas e arrevezadas estesias?
Enquanto ele, num ambiente estrangeiro, não se estrangeirava e ficava fiel ao espírito da sua grei, outros, e tantos, escritores portugueses, sem porem sequer um pé fora da raia, apenas por snobismo, cuidavam de entornar nos seus livros ideias estranhas, na avidez dum sucesso retumbante, em cabotinas estilizações da paisagem e da fauna humana alheias, deixando as próprias em afrontoso repúdio.
Em reforço deste argumento, colho em os Serões de Março de 1909, dum pequeno artigo intitulado “António Nobre” e assinado pelo pseudónimo ‘Lia’, os seguintes dizeres testemunhais:
  • 'Há dias estive a ler, ao acaso, versos de António Nobre, nas Despedidas, livro melancólico, publicado já depois da morte do autor. Isto fez-me recordar algumas horas da vida desse poeta, que passou pelo mundo rapidamente, deixando em muitos espíritos a inolvidável sugestão do seu doloroso talento. Essas horas, insignificantes para ele, e de que, certamente nenhuma lembrança lhe ficou, fixaram-se-me na memória, pois foram as únicas em que tive ocasião de vê-lo, de ouvi-lo conversar, de apreciar o seu espirito suavemente sombrio’.
In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

continua
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

sexta-feira, 11 de maio de 2012

César de Frias. A Afronta a António Nobre. Parte VII. «Em Coimbra, os lentes reprovaram-no dois anos e os condiscípulos regozijaram-se sem rebuço com estes seus desastres nos estudos oficiais. Teve de desertar e ir fazer o curso a Paris, E foi sempre assim, enquanto em vida, por toda a parte onde passou. Queriam ajustá-lo à craveira vulgar, Excedia-a?»


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O Poeta do SÓ
«A ciência trazia então como escopo despir a vida de todos os altos atributos que a poesia e a religião lhe haviam emprestado. Ficava um ermo a existência. O homem reduzia-se à proporção do bípede vulgar, descendente do símio. Murchavam ao seu hálito os hortos do sonho. Secavam-se as fontes e mirravam-se os pomos da idealidade, e não mais, portanto, as almas insatisfeitas teriam onde mitigar suas fomes e sedes.
E, então, a de Anto, que pela sua condição de “excepcional”, mais sôfregas e ardentes sentia essa fome e essa sede de ideal, como poderia subsistir doravante? Se os seus pulmões se não tivessem tão cedo, ou mesmo nunca, desfeito em sangue, é possível, lógico mesmo, que a sua “maneira” tivesse evoluído, afastando-se dos extremismos subjectivistas, fatais no primeiro ciclo de todos os Artistas, ascendendo a uma objectividade mais serena e desentranhando, assim, do seu estro potente e magnífico mais dois ou três volumes de belos poemetos. Teria deste modo deixado completo o seu lindo poema “O Desejado”, tão imbuído de sentido pátrio. Mas isso não bastaria para o acorrentar, resignadamente, à vida coeva, chan e baça. A imperfeição das coisas e dos seres postos à sua beira, num contacto forçado e quotidiano, imperfeição inconvertível ao influxo da sua vontade, imperfeição tornada orgânica e fixa, e que, para mais, não só lhe afrontava a sensibilidade delicada, como até lhe penetrava o espírito, contagiando-o da sua fealdade, manchando-o, apoucando-o, havia sem dúvida de lhe desenrolar o cruel dilema: ou se integrava na vida mesquinha, amesquinhando-se, é bem de ver, ou seria impiedosamente triturado na sua bárbara engrenagem. E não será de presumir antes a sua intransigência de que a sua rendição? Acrescente-se a estes motivos de desgosto pela existência ainda uma outra condição, também fatal na maioria dos verdadeiros Artistas. O aparecimento de antimonias, umas vezes entre a sua saúde e a sua ânsia de correr aventuras, esta forte, aquela débil, outras vezes, as mais, entre o espírito suave e cheio de requintes que lhes abala o peito e a sociedade em que o seu destino os põe a viver. E começa então, feroz, despedaçadoramente, o pleito entre os contendores, pleito que finda sempre pela derrota sangrenta dos Artistas, que na sua especial natureza de ser encontram, não um auxiliar, mas sim um inimigo mais a corroer-lhes o aço das suas cotas de armas, pouco a pouco rendendo os inermes e exaustos à truculência do inimigo externo. Esteve António Nobre sujeito a esta condição, todos o sabem. Paradoxalmente, mesmo os da sua roda, literatos como ele, que se sentiam atrair irresistivelmente pela originalidade do seu talento, não deixavam de acidular com despeito e inveja a sua admiração.
Em Coimbra, os lentes reprovaram-no dois anos e os condiscípulos regozijaram-se sem rebuço com estes seus desastres nos estudos oficiais.
Teve de desertar e ir fazer o curso a Paris, E foi sempre assim, enquanto em vida, por toda a parte onde passou. Queriam ajustá-lo à craveira vulgar, Excedia-a? Apedrejavam-no. Faziam-lhe pagar caro o prestígio do seu estro, o encanto que de si emanava, o poder pessoal de que impregnava todos à volta.
Por isso, ainda os que mais ou menos com ele tinham afinidades, não hesitaram em bandear-se com o vulgo, para a vingativa conjura. Sabendo-o ávido de companhias reverentes, afastaram-se dele, fizeram-lhe em torno o vácuo e o silêncio, no intento criminoso de o matarem à míngua desse sagrado pão que era indispensável à sua alma a simpatia. E conseguiram-no.
Couraçava-o ferreamente o orgulho, mas a violência dos ataques excedia a fortaleza da couraça. Num dado momento sentiu-se perdido, derrotado, sem um arrimo sequer, louco
Sebastião batalhando entre a chusma de infiéis, apenas seguido do seu agoirento aio, o tédio.
Nem uma das suas quimeras soubera persistir em acompanhá-lo até a morte, denodadamente. Transidas de cobardia, deixaram-no, a distância bastante da linha de batalha. E quase o viram cair, trespassado, exangue, sem soltarem piedosamente um grito, um ai, um soluço. Até o Amor, o condestável dos Poetas, se rendeu bem cedo. Culpa de Anto? Talvez. Quis demais.
Debruçou sempre a sua alma nos olhos das mulheres com a mira de ver o céu, quando não é essa a paisagem, mas sim a da volúpia, para onde essas janelas encantadas olham “A Purinha”, essa miragem maravilhosamente linda, exprime bem o seu sonho romântico e errado de buscar anjos na terra, seres sobrenaturais com belezas célicas e virtudes de milagre. Por isso, o Amor, não lhe podendo ofertar o impossível, como a amizade, e como tudo o mais, o abandonou também. No ardor do combate, animou-o apenas o ritmo forte do coração dos simples, os pegureiros e pescadores da sua terra, em que, tal como no coração dos búzios, vago e distante, ressoa o marulhar das ondas largas, ele escutava a grita audaz e épica da raça lusíada de outrora.
Caiu por fim. O seu Alcácer-Quibir foi num leito de doença. A lançada que lhe trespassou o flanco, arremessou-lha a tísica. Reatando e repetindo: esta foi mera comparsa na tragédia.
Coube-lhe, por acaso, dizer a frase final. Desconsolado, traído, só, mesmo que a doença se lhe não tivesse enamorado dos pulmões, não morreria de velho. Mais dia, menos dia, roída a sua alma pela nevrose do talento, por essa outra incurável e galopante

Tysica de alma…

chegaria a hora turva em que o seu braço se ergueria à altura do peito ou da fronte, empunhando o revólver libertador, quebrando os grilhões que o jungiam ao mundo de misérias, descerrando-lhe em frente a Jerusalém eterna, onde habitava a sua feiticeira noiva, de sorriso imutável e de misterioso encanto». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.



(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

César de Frias. A Afronta a António Nobre. Parte VI. «Solícita, não despega do seu leito dia e noite. Ninguém, por mais só que se julgue, sofre do seu abandono. Ronda, ronda sempre em redor de nós, em passos furtivos, iguais, imperturbáveis. Insensível às nossas lisonjas, na intenção de desarmá-la, sorri-se com bonomia do nosso infantil estratagema e não se suborna por coisa alguma do mundo»

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O Poeta do "SÓ"
«Filho legítimo do consórcio dum temperamento doente com uma época de decadência, “O Só” tem, portanto, na sua parte restrita, individual, subjectiva, a maior, o valor duma minuciosa auto-biografia, e na sua parte objectiva, geral, humana, o dum símbolo, cristalizando nas suas estrofes as queixas do mal-estar não só da nacionalidade, como do universo, ou, pelo menos, dos povos gastos da civilização europeia mediterrânea, cujas energias exaustivamente se aplicaram durante séculos, em esforços talvez superiores às suas faculdades.
A Morte tornou-se, portanto, o motivo central da sua inspiração. Viu que para ela a gente caminha a cada passo dado na vida. No torvelinho de incertezas em que a consciência do homem se debate, só ela se divisa como certa, como inegável, como isenta dos desequilíbrios que em tudo o mais se constatam. Cogita a ciência em desarmá-la, estala os crânios no interior dos laboratórios no intento de lhe opor uma defesa indestrutível, e, nessa cogitação profunda, nada resolvendo, mais dela se aproxima, definhando ou caindo nas fauces da loucura, sua filha. Procuram-se alegrias, prazeres, horas brandas, e tudo isso apenas com o fito de nos esquecermos dela, de nos iludirmos, julgando que ela nos perdeu a pista. O artifício é vão. A máscara que lhe pomos mal a cobre, e os nossos olhos pávidos não cessam de vê-la, ora longe, a seguir-nos, silenciosa, ora perto, deitada na nossa cama, sentada à mesa na nossa frente, rindo escarninhamente no olhar e nas gargalhadas da mulher amada.

O seu hálito transe-nos. Pelos crepúsculos, aninha-se nos recantos da nossa saleta, coalhados de sombra, e, de quando em quando, numa lúgubre carícia, avança para nós o seu enorme vulto de carne tecida da própria sombra, lança-nos os braços em volta do pescoço é beija-nos num beijo gélido, que nos sacode o corpo num arrepio de passamento. É a mais constante enfermeira de todos os enfermos.
Solícita, não despega do seu leito dia e noite. Ninguém, por mais só que se julgue, sofre do seu abandono. Ronda, ronda sempre em redor de nós, em passos furtivos, iguais, imperturbáveis. Insensível às nossas lisonjas, na intenção de desarmá-la, sorri-se com bonomia do nosso infantil estratagema e não se suborna por coisa alguma do mundo. Se a insultamos, raivosos de nos sabermos impotentes para fugir ao seu jugo, sorri-se ainda, ainda e sempre, certa da sua presa, zombando da nossa raiva inútil, ocultando-se um pouco às vezes, para logo de novo e mais perto nos surgir, rondando, rondando, solene, enorme, feiticeira, hipnótica, dominadora, imperial, divina, cheia do encanto do seu mistério, o maior de todos os mistérios, que tanto nos aterra, para melhor nos seduzir.
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Foi assim que Anto vislumbrou a Morte.
Elegeu-a para sua noiva. Vestiu-lhe o colo das jóias mais preciosas do seu lirismo opulento. Prostrou-se-lhe aos pés na mais incondicional das venerações. Rezou-lhe as jaculatórias mais rendidas. Teceu-lhe os epitalâmios mais ardentes e nupciais. E ninguém, de certo, nenhum poeta dos modernos ou dos antigos tempos, soube dirigir-lhe as frases de possessiva ternura que Anto entoou à sua beira. E, por isso, comovida, enternecida, quiçá pela vez primeira na sua existência de desapiedada c álgida, a Morte escutou-o sem sobranceria, sorriu-lhe com doçura, chamou-o a si amorosamente, abriu-lhe de par em par as portas do seu palácio de mistério e sonho, deitou-o aconchegadamente no seu tálamo negro de mil vezes possuída e, contudo, sempre virgem e sempre casta.
Ficou-nos desse amor desvairado, dessa paixão sem freio, a mais formosa e sentida colectânea de epístolas passionais que a nossa literatura possui:
  • o “Só”.
Ao enformá-la, dela irradiou o Poeta as poesias mais brandas, realizadas nos armistícios das suas dores, doces confissões enamoradas perante uma mulher, suaves desabafos de pequenos afectos, que de modo algum chegaram a constituir traições àquele absorvente cuidado pela sua Maior-Desejada, a Morte. Ali, no “Só”, procurando imprimir-lhe um tom de unidade, enfeixou, pois, os mais altos gritos do seu desespero, do tédio que o torturou enquanto teve de esperar no mundo o dia das suas voluptuosas bodas, da sua ansiedade sôfrega por ir descansar a cabeça no regaço misterioso da sua estranha Bem-Amada. Lê a gente o “Só” e tem a ilusão de que passeia num fúnebre jardim da florações gigantescas e exóticas, em que um sopro ignoto e músico, de dedos subtis, desfere as liras das folhas e das pétalas e faz esvoaçar no espaço o sussurro harmonioso, mas grave e acabrunhante, dum ‘De profundis’.

Depois de longa peregrinação pelo mundo, parte dela buscando a saúde que lhe desertava velozmente do peito, peregrinação de que ficaram muitos marcos nas datas dos seus versos, a 18 de Março de 1900, em Carreiros (Foz do Douro), com trinta e três anos incompletos, levou-o a tísica, disse a medicina. Só ela? Não acredito. Assim como não acredito que, sem essa circunstância da sua doença, António Nobre viesse a realizar uma obra totalmente diferente da que deixou ao nosso culto, isto é, uma obra mais optimista, mais consolada e consoladora, mais ciosa e amante da vida. Embalde me citarão certos trechos das ‘Despedidas’, seu livro póstumo, e desse volume inédito dos ‘Primeiros versos’, assim como o seu plano de obras, razoavelmente longo, encontrado entre os seus papeis particulares, e que atinge meia dúzia de títulos, ou ainda passagens da sua correspondência para amigos, tendo fé na cura e em dias melhores, embalde me citarão tudo isso a abonar a presunção da sua existência literária poder ter tomado outro rumo mais claro e desassombrado de amargura, se viesse a prolongar a vida.

jdact

Não foi apenas a doença que o matou, repito. Ela foi somente o detalhe, a forma, o instrumento. Mais do que ela, matou-o o meio, matou-o o ambiente da época em que nasceu e dentro da qual o destino, só por engano, o pusera. A síntese das suas queixas podia bem ser igual à dum outro inconsolável, Musset, cujo grito maior foi: “Je suis venu trop tard dans un monde trop vieux!”
Matou-o a sua sensibilidade de grande Artista, de extraordinário Poeta. Não podia acomodar a grandeza do seu espírito na estreiteza do mundo. Sentia-se asfixiado, encarcerado. Como todas as inteligências do tempo, rudemente açoitadas por um vento de negativismo, e a este embate abrindo brecha nos alicerces, a sua também sofreu o choque, e disso só resultou amargura, abatimento moral, astenia da vontade. Não repudiou por inteiro as suas crenças, mas não conseguiu manter o espírito impermeável à endosmose tóxica e destruidora». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte V. «A directriz acentuada dos espíritos era exactamente para o ‘ir de mal a pior’ dessa decadência das sociedades. E mentiu-lhe o seu sentir profético? Dê corajosamente a resposta algum de nós, que, vivendo neste pandemónio actual, não seja por completo cego de entendimento…»

Cortesia de livrariacentral

O Poeta do SÓ
«A seguir, Camões, o grande épico da Raça,

Camões: ó lua do mar bravo!
Vem-me ajudar…

Depois, Garret, o delicado heleno que andou de joelhos a beijar a terra portuguesa,

O' Garrett adorado das mulheres,
……………………………………..
Que falta fazes á Lisboa amena!
Anda vêr Portugal ! parece louco...
Que pátria grande! Como está pequena!

Ombro com este, Antero, o Santo, a caminho do céu e duvidando da sua existência, com o cilício da dúvida a sangrar-lhe o espírito sem um momento de descanso.

Quero
Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero

Aspirava religiosamente. E pedia ao sol de Junho assim:

Sol de Junho queima as minhas estantes
Poupa-me a Biblia, Anthero... e pouco mais!

Finalmente, de tropel, com os seus mortos, seus pais, sua ama, seus amigos, todos os familiares da sua infância e da sua juventude, levados no tufão que tudo leva, Job e as demais figuras da Bíblia, dolorosas, arrepeladas, cheias de ira e de sublimidade, e, de mistura com elas, a raça lusa, a grei de outrora, a que andara no mar largo em meio de tempestades, a descobrir novos mundos e a atrigueirar a pele no incêndio de mil batalhas, o povo de santos e de heróis, a alta marinhagem da nau da Pátria, de quando ela singrara em horas divinas, sobre as ondas altas, de alto capitaneando as outras raças e jugulando os ímpetos hostis da Natureza.


Cortesia de livrariacentral

Num ambiente político nacional sórdido e desnorteado, com o seu quê de desmanchar de feira, contrastando violentamente com esse passado de prestígio e de elevação; num momento social espiralado de interrogações, em que já começavam de fermentar as lutas temerosas que nos angustiam hoje; numa época de demolição das velhas crenças e dos velhos ideais e de ensaio de novos sistemas filosóficos, mal nascidos, logo moribundos; num período de assalto feroz a tudo que a tradição fortemente enraizada na alma humana ungira de fé, sonho e espiritualidade; enfim, num ambiente tenebroso, num momento rugidor e revolucionário, numa época irrequieta, num período de transição dum estado de coisas, que se dizia mau, para um outro, que, envolto ainda na poeirada do que ruía, não se descortinava melhor nem mais belo; qual a saúde imperturbável e mansa que poderiam gozar os espíritos que medravam nessa convulsa e decadente era de há trinta e tantos anos, em que António Nobre desabrochou o seu espírito fino e melindroso? A mesma que nós, os de hoje, com esses trinta e tantos anos passados, podemos gozar, uma saúde precária, débil, cortada de dolorosidades e desânimos suicidantes, pois cada ano que sobre esse tão próximo ontem tem corrido não tem feito mais do que trazer novos e terríveis problemas aos nossos cérebros, novos e sangrentos dramas aos nossos corações.

Têm-se acogulado nos horizontes mais nuvens negras de tragédia, e o ar, cheio das emanações pútridas do cadáver da velha ética, que dia a dia mais se pulveriza, aos pontapés da turba truculenta, já fede, asfixia, intoxica. Vejam-se os costumes, o congestionamento das cidades, o êxodo dos campos, o referver das ambições, a sede do ganho, o luxo sem freio, o alastramento dos hospitais e das cadeias, uma torrencial literatura feita quase só com taras e anomalias. E, no meio disto, quem ousará, pois, escancarar a boca num riso aberto, vibrante e triunfal, num canto argênteo e apoteótico? Quem, além das crianças, cuja ignorância da vida as imuniza do desgosto pelo mundo actual?

Cortesia de sabedomessias

Quem, de entre os adultos, senão os ébrios e os loucos?
Assim:
  • com um meio tão crispado e incerto a envolvê-lo; com aqueles elementos de cultura, a Bíblia, Shakespeare, Camões, Garrett, Antero, como alimentos predilectos do seu espírito;
  • com o seu enorme poder de evocação, exercendo-se, ora sobre a ridente e despreocupada quadra da infância, ora sobre a virilidade esplendente da sua raça;
  • e, para mais, com o seu organismo fraco de doente do peito, juntando a tortura física à tortura psíquica originada nos males do mundo;
  • a poesia de António Nobre não poderia resultar diferente da que ele nos deu, - triste, elegíaca, febril, ladainhante, supersticiosa, sombria, desesperada, macabra, mas, acima de tudo e como melhor importa, radicalmente portuguesa, profundamente sincera, magnificamente lírica e bela.
Se exagero parece haver por vezes nos seus lamentos, saídos duma concepção unilateral e pessimista da vida, é que o dom da profecia, peculiar aos grandes Artistas, vibrava vigorosamente nele: sendo desolante o aspecto do mundo do seu tempo, o Poeta não via sinal de mutação à sua roda, não via que um movimento de reacção operasse a aleluia daquela sexta-feira de paixão. Pelo contrário. A directriz acentuada dos espíritos era exactamente para o ‘ir de mal a pior’ dessa decadência das sociedades. E mentiu-lhe o seu sentir profético? Dê corajosamente a resposta algum de nós, que, vivendo neste pandemónio actual, não seja por completo cego de entendimento… (11)». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

Continua
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2011

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte IV. «Para mais, conspirando a favor dum logro, era esta a promessa ridente que à entrada de todos os caminhos, pelas mesmas palavras e em letras de palmo e meio pintadas nas mesmas álacres cores pelas tabuletas, acenava ao viandante recém-vindo. Fosse lá alguém saber qual dizia a verdade! …»


Cortesia de wikipedia 

O Poeta do SÓ
«Nascido no Porto, aos 16 de Agosto de 1867, António Nobre incrusta os seus dezasseis anos, idade genericamente desabrochante das energias pensantes e sensoriais do homem, e, no caso particular do Poeta, idade que se ajusta à data de publicação dos seus primeiros versos, num ambiente heterogéneo, tumultuoso, cortado de múltiplas e desencontradas exegeses filosóficas e estéticas.

Ia então por todo o mundo culto, irradiando dos empórios mentais e artísticos, um babélico “bra-á-á” de mil ritos diferentes, que atordoava os cérebros, arrepelava os nervos, elevava as sensibilidades às mais altas e esgotantes tensões. Tantos eram os Rabis, e tão aparentemente sábias e inspiradas as suas catequeses, e tão vistosos e louçãos os seus para mentos verbais, que a uma consciência moça e débil, ainda em formação, e, portanto, fácil presa de enganadoras sugestões, não se podia deparar como tarefa branda e leve o pronunciamento por esta ou por aquela seita, arrebanhando-se empós um ou outro pastor, batendo com os joelhos nas lajes dum mais próximo ou mais longínquo templo. E, assim, com mil veredas sulcando em sua frente os horizontes, quem resolvesse encetar os passos numa, ao acaso, decerto bem pálida e escassa luz de fé levaria a alumiar-lhos, visto as sebes de rosas das certezas e as paliçadas de espinhos das dúvidas, que ladeavam todas essas veredas filosóficas e estéticas, em nenhuma se apresentarem mais olorosas e polícromas ou mais acutilantes e hirsutas do que noutra, afirmando ou desmentindo ser a escolhida a que levava direitinho à Terra da Promissão da Arte.


Cortesia de wikipedia

Para mais, conspirando a favor dum logro, era esta a promessa ridente que à entrada de todos os caminhos, pelas mesmas palavras e em letras de palmo e meio pintadas nas mesmas álacres cores pelas tabuletas, acenava ao viandante recém-vindo. Fosse lá alguém saber qual dizia a verdade! …

Estavam, pois, convertidos em campos de feira os rincões do Pensamento e da Arte. As gentes, aos enxames, erravam de tenda para A Afronta a António Nobre tenda, provando, mercando, incaracterísticas, sem paladar certo. De quando em quando, os tendeiros, na exaltação ciumenta de seus elixires e panaceias, urravam entre si um dialecto bem pouco literário e digno das suas linhagens olímpicas. Chegaram por vezes a vias de facto, e como o barulho e a desordem atraíram em todo o sempre melhor do que falas e gestos mansos, a nuvem forasteira era cada vez mais espessa em redor dos gritantes mercadores.

Estava ali, talvez, o gérmen do que hoje se chama, o reclamo à americana…

Simbolismo, parnasianismo, reacções clássica e romântica, positivismo, satanismo, pessimismo, neo-idealismo, novos ímpetos da escola realista e outros fenómenos não menos de espantar, ia por ali uma confusão doida, poeirenta, cegante. E, claro está, que no horto da poesia, habitualmente remansoso, a barafunda não era menor. Nada escapara ao flagelo.

Menino e moço, abandonado por seu destino nesta encruzilhada, como nos velhos contos de fadas, e sentindo a sua alma palpitar e abrir as asas na ânsia irreprimível de atingir as mansões do Sonho, onde encontrasse doçura e perfeição a compensarem-no das misérias da vida terrena e vulgar que os seus olhos largos e reveladores iam já descortinando em volta, que resolução tomou António Nobre? Que vereda das mil que se lhe ofereciam o cativou mais? E em qual, por fim, decidido ou vacilante, abriu a marcha?

Em nenhuma. O seu orgulho enorme:

Orgulho
insupportavel tal o meu,…


Cortesia de wikipedia 

Peça saliente, peça-mestra do seu organismo moral, não lhe permitia seguir na esteira de alguém por qualquer desses caminhos, alguém que não visse de certeza ser maior do que ele próprio, alguém que o não soubesse enfeitiçar pela mágica força dum prestígio sobre-humano.

Não havendo ali pastor algum com os excelsos predicados, não se arrebanhou. Deixou partir nas várias direcções, para ali, para além, as longas caravanas dos outros poetas, e ficou-se, no meio da encruzilhada triste, orgulhoso e só. Então, palpando, adivinhando um drama dentro de si, concentrou-se, volveu os largos olhos da sua inteligência e da sua sensibilidade para o próprio interior. Nesse ensimesmamento, não mais descansou enquanto, de entre os meandros nebulosos do mundo da sua alma, ainda na confusão dos dias do génesis, não conseguiu aperceber bem e arrancar esse drama, inteiro, ingente e convulso, para o pôr sob a bátega forte e iluminadora do seu génio poético.

Embora solitário, ermo de viventes companhias, alguém, contudo, o ia às noites, horas mortas, acarinhar. Era uma ronda de sombras, de sombras que a sua simpatia iluminava santificadoramente, e que, à sua voz de devoto e místico chamamento, acorriam a inspirá-lo, tutelando sua obstinada pesquisa:

Sou médio, evoco-os, noite em meio,
Vós não acreditaes, eu sei-o…
Deixai-o não acreditar.

Mas, que sombras seriam essas que o visitavam, noite velha? De que fantasmas a sua bruxa evocação fazia desenhar no ar caliginoso os vultos diáfanos? À' frente, vindo de muito longe, no tempo e no espaço, Shakespeare, o rival dos deuses, o portentoso criador de almas, cujas referências são bastas na obra de Anto, como:

Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
Da ambição! Ó Reis Leais da loucura! Ó Hamlets
Da minha vingança! Ó Ophelias do perdão..

Nos “Males de Anto” e ainda no final da mesma poesia

Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
É um grande livro que elle traz sempre comsigo
E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
E lê, lê, chama-me «Carlota, anda ouvir!
Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT