Mostrar mensagens com a etiqueta Carreira das Índias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carreira das Índias. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

João de Barros: «Décadas da Ásia». Parte II. «Poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição»

Cortesia de wsikipédia

João de Barros, historiador da gesta portuguesa na Índia, é uma figura conhecida de muita gente … pelo menos de nome. Mas poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra de Barros, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição.

Hoje, a única edição das «Décadas» acessível ao público é o fac-símile incompleto editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Décadas da Asia
(Décadas da Ásia de João de Barros. Texto apresentado por T. F. Earle, ed. em CD-ROM. Lisboa: CNCDP/Oxford: Centre for the Study of Portuguese Discoveries, 1999)


Cortesia de carreiradaindia

«Década I,  Livro IX

Capítulo Primeiro. Em que se descreve toda a costa marítima do Oriente corn as distâncias que há entre as mais notáveis cidades e povoações per modo de roteiro, segundo os navegantes.

Pera declaração da terra Malabar, que foi primeira da Índia que Dom Vasco da Gama trihou, na entrada que fez em Calecute. Cidade metrópolí dela, fizemos em soma relação da provincia a que os antíguos propriamente chamaram Índia dentro do Gange, e os naturais moradores Indostão; e depois, por causa do que D. Francisco fez em Quíloa e Mombaça (segundo neste livro precedente fica), tratámos um pouco daquela terra Zanguebar onde elas estão situadas que é parte da terra de África a que os geógrafos chamaram Etiópia sobre Egipto.

Ao presente, porque com a entrada dele, D. Francisco de Almeida, na Índia, os mares orientais desta terra Ásia, começaram a ser lavrados dos com nossas naus e sentir sobre si o grave peso de sua potência, e os moradores da terra firme e do grã número das ilhas, filhas daquele Oceano, sendo sáfaro do nome cristão, submeteram seu intendimento em obséquio de Cristo per doutrina nossa, e todolos que sentiram e ouviram nossas armas, abaixaram seu pescoço ao jugo delas per amor e temor, convém, pera se entender o discurso destas obras, fazermos mais particular relação que a passada, declarando as cidades e principais povoações e portos da costa marítima desta parte oriental isto per modo de itinerário marítimo; ou, por falarmos conforme aos navegantes, será segundo eles usam na maneira de suas derrotas. Porque, per modo de graduação como usamos em as távoas da nossa Geografia, lá se verá mais a olho verificada esta descrição, pois (como dissemos) aqui não serve mais que pera dar razão da história e não pera situação de lugares. Verdade é que dos lugares mais notáveis vai de uns a outros a sua distância pela altura que os nossos pilotos tomaram; mas os lugares do meio, é pela estimativa de singraduras, segundo a ordem da navegação deles, pois a matéria é dela.

Cortesia de trasosmontes
E começando em universal, a terra de Asia é a maior parte das três em que os geógrafos dividiram todo o Universo, e aparta-se da Europa per o rio Tánais, a que agora os naturais dela chamam Dom, e per o Mar Negro, onde se ele vem meter, continuando ao de Grécia pelo estreito de Constantinopla; e da África aparta-se per outro rio opósito a ele, (o qual pela grã cópia de suas águas sempre reteve o antíguo nome de Nilo que tem) e per da linha que se pode com o intendimento lançar deste Nilo pela cidade Cairo, metrópoli de todo Egipto, ao porto de Suez, que está no último seo do Mar Roxo, onde antiguamente foi a cidade dos Héroas - a qual linha haverá ditância de três jornadas de camelo, que podem ser ao mais vinte quatro léguas. Esta parte da Ásia, como é a maior em terra que as outras, assi contém muitas e várias nações de gente, uns que seguem a lei de Cristo, outros a seita de Mahamede, e os mais adoram o demónio na figura de seus ídolos, e outros que são do povo judaico; porque não há aí parte da terra onde esta cega gente se não ache, vaga, sem natureza ou assento, fazendo penitência sem se arrepender de sua contumacia.

E ainda estas quatro nações em crença, naquelas partes, são tam várias cada uma per si, que. falando propriamente. poucos são puros na observância do nome que cada um professa; com as quais nações os nossos, depois que entraram na Índia. começaram comunicar e contender per doutrina. comércio e armas.

( … )

Posto o que passemos ao Oriente dela, às Ilhas dos Léquios e dos Japões e à grande província de Meácó, que ainda por sua grandeza não sabemos se é ilha, se terra firme, continua a outra costa da China, as quais partes já passam por antípodas do merediano de Lisboa. Da qual costa, não sabida dos navegantes, damos demonstração, e de todo o interior desta grande província da China em as távoas da nossa Geografia, tiradas de um livro de Cosmografia, dos chins, impresso per eles, com toda a situação da terra e modo de itinerário, que nos foi de lá trazido e interpretado per um chi que pera isso houvemos.
 
Cortesia de amazonco
E tornado à primeira parte ocidental desta repartição, leixando o interior dos dous estreitos do Mar Roxo e Párseo pera seu tempo, da garganta deste Roxo, que está em altura de doze graus e dous terços, até a cidade Adem, cabeça daquele reino, haverá quorenta léguas, e dela ao Cabo de Fartaque, que está em catorze graus e meio, serão cem léguas. Entre os quais estremos ficam estas povoações: Abiã, Ar, Canacão, Brum, Argel, Xael, cidade cabeça do reino, Herite, a cidade Caxém, que está sete léguas ante de chegar ao cabo Fartaque; e, na volta dele, outro tanto espaço, está a cidade Fartaque, cabeça do reino, assi chamado de que o cabo tomou o nome e a gente fataquis. E daqui té Curiá Muriá, duas povoações onde se perdeu Vicente Sodré haverá setenta léguas; e fica neste meio a cidade Dofar, frol donde há o melhor e mais encenso de toda esta Arábia, e, adiante vinte duas léguas, Norbate. De Curiá Muriá té o Cabo Rossalgate, que está em vinte dous graus e meio, e será de costa cento e vinte léguas, toda é terra estérele e deserta. Neste cabo começa o reino de Ormuz, e dele té o outro Cabo de Muçandão haverá oitenta e sete léguas de costa. em que jazem estes 1ugares do mesmo reino: Calaiate. Curiate, Mascate, Soar. Calajá. Orfacão, Doba e Lima, que fica oito léguas ante de chegar ao Cabo Muçandão, a que Ptolomeu chama Asaboro, situado per ele em vinte três graus e meio, e per nós em vinte seis, no qual acaba a primeira nossa divisão. E a toda a terra que se compreende entre estes dous termos, os arábios lhe chamam Hiámane, e nós Arábia Félix, a mais fértìl e povoada parte de toda Arâbia.

Atravessando deste Cabo.Muçandão ao de cima, a ele opósito, chamado Jasque, com que a boca do estreito fica feita, entramos na segunda divisão, que é mui pequena e pouco povoada, porque deste Cabo Jasque até o ilustre Rio Indo são duzentas 1éguas, nas quais estão estas povoações: Guadel, Calará, Calamete e Diúl, situado na primeira foz do Indo, da parte do Ponente. A qual costa é pouco povoada, por o mais dela ser aparcelada e de perigosa navegação e a terra per dentro quási deserto, chamada dos geógrafos Carmánia; e os párseos contam esta parte na região a que eles chamam Heraque Ajão, na qual se contém os reinos de Macrão e Guadel, que cai sobre o cabo assi chamado.

Cortesia de freguesiasantiagodelitem 
Haverá cento e cinquenta léguas na terceira parte da nossa repartição (não entrando per dentro da enseada de Jaquete, por ser mui penetrante na terra), contando per esta maneira: da Foz de Diúl até a Ponta de Jaquete, trinta e oito léguas; e deste Jaquete, que é dos principais templos daquela gentilidade com uma nobre povoação, té a nossa cidade Dio, do reino Guzarate, cinquenta léguas; na qual distância estão estes lugares: Cutiana, Mangalor, Cheruar, Patão, Corinar; e de Dio, situado em vinte graus e meio, té a cidade Cambaia, que está em vinte dous graus, haverá cinquenta e três léguas em que se contém estes lugares: Mudrefabá, Mohá, Talajá, Gundim, Goga, cidade que está ante de Cambaia doze léguas, dentro dos quais estremos – desta cidade Cambaia e Jaquete - se compreende parte do reino Guzarate, com a terra montuosa dos povos resbutos.

A quarta parte desta nossa divisão começa na cidade Cambaia e acaba no ilustre Cabo Comori, na qual distância por costa haverá duzentas e noventa léguas, pouco mais ou menos, em que se compreende quási toda a frol da Índia a mais trilhada de nós. A qual podemos dividir em três partes com dous notáveis rios que a atravessam do Ponente a Levante: o primeiro divide o reino Decão (a que corruptamente os nossos chamam Daquem) do reino Guzarate, que lhe fica ao Norte; o segundo aparta este reino Decão do reino Canará, que fica ao Sul dele. E ainda parece que, como a natureza fez esta divisão pelo interior do sertão, assi acerca dos que habitam o marítimo de toda esta costa, per outros rios mui pequenos que nascem nas costas destes dous notáveis, fazem a mesma demarcação do Guzarate, Decão e Canará. E assi os pequenos como os grandes, todos vertem da grande serra chamada Gate, que, como atrás vimos, corre ao longo da costa, sempre a vista do mar; peró tem esta diferença, que os grandes nescem no Gate da banda do Oriente, e porque das suas fontes ao mar onde eles vão sair, que é na enseada de Bengala, há grande distância levando consigo o grande número de outros rios, passam não somente per estes reinos acima nomeados que eles dividem, mas ainda per outros que não nomeamos, que por serem no interior da terra não servem ao presente.

( … )

A terceira demarcação, que divide a província Canará do Decão, acaba no Cabo Comori, começando do rio Aligá, em que haverá cem léguas, per esta maneira: de Aligá té outro rio chamado Cangerecorá, que está cinco léguas ao Norte do Monte de Eli, cabo notável nesta costa, haverá quorenta e seis léguas. No qual marítimo jazem estas povoações: Ancolá, Egorapã, Mergeu, a cidade Onor, cabeça do reino. Baticalá, Bendor, Bracelor, Bacanor, Careara, Carnate, Mangalor, Mangueirão, Cumbatá e Cangerecorá, per que corre um do deste nome que é estremo e demarcação, como se verá abaixo. As quais povoações todas são da província Canará, súbditas a el-Rei Bisnagá, que, sendo tam poderoso em terra que partecipa de dous mares deste Ponente e do outro de Levante, que jaz do Cabo Comori pera dentro, entra somente aqui com este pequeno marítimo. E como do Gate pera o mar, ao Ponente do Decão, toda aquela faixa se chama Concão. [...]

Cortesia de arquivohistoricomadeira
Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

sábado, 4 de dezembro de 2010

João de Barros: «Décadas da Ásia». «Poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição»

Cortesia de trasosmontes

João de Barros, historiador da gesta portuguesa na Índia, é uma figura conhecida de muita gente … pelo menos de nome. Mas poucos sabem que as «Décadas», além de serem um hino às glórias nacionais, contêm importantes aspectos estéticos. Dá-se pouca atenção ao lado artístico da obra de Barros, por uma razão muito familiar a todos que estudam a literatura portuguesa de quinhentos: a falta de uma boa edição.

Hoje, a única edição das «Décadas» acessível ao público é o fac-símile incompleto editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Décadas da Asia
(Décadas da Ásia de João de Barros. Texto apresentado por T. F. Earle, ed. em CD-ROM. Lisboa: CNCDP/Oxford: Centre for the Study of Portuguese Discoveries, 1999)

Década I, Livro VIII

Capítulo Primeiro.
Do modo que se navegavam as especearias té virem a estas partes da Europa, ante que descobríssemos e conquistássemos a Índia per este nosso mar Oceano; e das embaixadas que os mouros e príncipes daquelas partes mandaram ao Soldão do Cairo, pedindo-lhe ajuda contra nós.

Cortesia de livrariaultramarina 
Como toda esta nossa Ásia vai fundada sobre navegações, por causa das armadas que ordinariamente em cada um ano se fazem pera a conquista e comércio dela, e as cousas que pertencem a sua milícia imos relatando, segundo a ordem dos tempos, convém, pera melhor intendimento da história, darmos a geral relação do modo que se naquelas partes de Ásia navegava a especiaria com todalas outras orientais riquezas, té virem a esta nossa Europa, ante que abríssemos o caminho que lhe demos pera este nosso Mar Oceano, peró que em o tratado do Comércio copiosamente o escrevemos.

E também é necessário que, quando falarmos nesta navegação e comércio da Índia, não se há de entender que estas duas cousas estão limitadas em aquelas duas regiões, a que os antíguos chamaram Índia dentro do Gange, e Índia além do Gange. Porque as nossas navegações e conquista daquela parte, a que propriamente chamamos Ásia, não se contém somente na terra firme, que começa em o Mar Roxo, onde se ela aparta da África, e acaba na oriental plaga, a que ora chamamos a Costa da China, mas ainda compreendem aquelas tantas mil ilhas, a esta terra de Ásia adjacentes, tam grandes em terra e tantas em número, que, sendo juntas em um corpo, podiam constituir outra parte do Mundo, maior do que é esta nossa Europa. Por cuja causa em a nossa Geografia, destas e doutras ilhas descobertas fazemos a quarta parte em que se o orbe da terra pode dividir, porque muitas estão tam distantes da costa, que lhe não pertencem por adjacência ou vezinhança.

Cortesia de dhm
Per todas as quais partes, ao tempo que descobrimos a Índia, assi os gentios como os mouros andavam comutando e trocando as mercadorias por outras (segundo a natureza dispôs suas sementes e fructos, e deu indústria aos homens, em a mecânica de suas obras). As que jaziam além da cidade de Malaca, situada na Áurea Quersoneso (nome que os geógrafos deram àquela terra), assi como cravo das Ilhas de Maluco, noz e massa de Banda, sândalo de Timor, cânfora de Bornéu, ouro e prata do Líquio; com todalas riquezas e espécies aromáticas, cheiros e polícias da China, Jaua e Sião e doutras partes e ilhas a esta terra adjacentes, todas, no tempo de suas monções, concorriam àquela riquíssima Malaca, como a um empório e feira universal do Oriente. Onde os moradores destoutras partes, a ela ocidentais, que se contém até o estreito do Mar Roxo, as iam buscar a troco das que levavam, fazendo comutação de as por outras, sem entre eles haver uso de moeda.
Porque, ainda que ali houvesse muita cópia de ouro de Samatra e do Líquio, em que na Índia se ganhava mais que a quarta parte, era tanto maior o ganho das outras, que ficava o ouro em tam vil estimação, que ninguém o queria levar.

E como Malaca era um centro onde concorriam todos os navegantes que andavam nesta permutação, assi os da cidade de Calecute, situada na Costa de Malabar, e os da cidade de Cambaia, situada na enseada que tomou o nome dela, e os da cidade Ormuz, posta na Ilha Geru, dentro na garganta do Mar Pérsico, como os da cidade Adem, edificada de fora das portas do Mar Roxo, todos com a riqueza deste comércio tinham feito a estas cidades mui ilustres e celebradas feiras. Porque não somente traziam a elas o que navegavam de Malaca, mas ainda os rubis e lacre de Pegu, a roupa de Bengala, aljôfar de Calecaré, diamantes de Narsinga, canela e rubis de Ceilão. pimenta e gengivre e outros mil géneros de espécias aromáticas, assi da Costa Malabar, como doutras partes onde a natureza depositou seus tesouros.

Cortesia de afroasiabras
E as que desta parte da Índia se ajuntavam em Ormuz, leixando ali, a troco doutras, as que serviram pera as partes da Turquia e da nossa Europa, eram navegadas per este Mar Pérsico té a povoação de Batsorá, que está nas correntes do Rio Eufrates, a qual ora é a cidade célebre com o favor que lhe deram os nossos capitães de Ormuz. No qual lugar eram repartidas em cáfilas, as pera Arménia e Trapesonda e Tartária, que jaz sobre o Mar Maior, outras pera as cidades Alepo e Damasco, té chegarem ao porto de Barute, que é no Mar Mediterrâneo, onde as vendiam a venezeanos, genoeses e catelães, que naquele tempo eram senhores deste trato.
A outra especearia que entrava per o Mar Roxo, fazendo suas escalas per os portos dele, chegava ao Toro ou a Suez, situados no último seo deste mar, e daqui, em cáfilas, per caminho de três dias, era levada à cidade do Cairo, e di, per o Nilo abaixo, a Alexandria, onde as nações que acima dissemos a carregavam pera estas partes da Cristandade, como ainda agora em alguma maneira fazem.
E per qualquer destes dous estreitos que esta especearia entrava nas terras de Arábia, quando vinha à saída, era per os portos do Estado do Soldão do Cairo. Cuja potência, ante de ser metida na Coroa da Casa Otomana dos Turcos, começava no fim do reino de Tunes, em aquele cabo a que ora os mareantes de Levante chamam Ras-Ausem e Ptolomeu - Bóreo Promontório -, e acabava em a enseada chamada per eles o Golfão de Laraza, por razão de a povoação deste nome que ali está; a qual, segundo a situação dela, parece ser a vila a que Ptolomeu chama Serrepolis, na qual distância de costa pode haver trezentas e sessenta léguas, que contém em si muitos e mui célebres portos. E per dentro do sertão se estendia per o Nilo acima, à região Tebaida, a que os naturais ora chamam Caida, té chegar à antiquíssima cidade Ptolomaida, cujo nome ora é Hicina, que acerca daqueles bárbaros quere dizer esquecimento; e dali vinha beber ao Mar Roxo. Passando o qual, entrava na terra de Arábia, vindo a vezinhar com o Xarife Baracate, senhor da Casa de Meca, atravessando os bárbaros daquele deserto, té dar consigo em a cidade chamada Bir, que jaz nas correntes de Eufrates, e tornando fazer outro curso contra o Ocidente, acabava em o Golfão de Lanza, que dissemos.

Cortesia de alvarohfernandes
No qual circuito de terra se compreendia grã parte da Arábia Deserta, toda a Petrea, Judea e muita da Síria, com todo Egipto a que chamam Metser de Mitsraim, nome per que os hebreus e arábios nomeam a região de Egipto, por esta cidade Cairo ser a cabeça dele, dando o nome do todo à parte.
E ao tempo da nossa entrada na índia, era senhor deste grande estado Canaçau, a que alguns dos nossos chamam Cansor, o qual se intitulava com este apelido Algauri, de que se ele muito gloriava, por lhe ser posto por causa de a grã vitória que houve de um rei da Pérsia, junto de a alagoa chamada Algaor, que faz o Rio Eufrates, entre Enz e Bagadade, donde lhe deram por apelido Algauri.

Neste mesmo tempo, reinava em Turquia, Celim, décimo da geração otomana, e era senhor de Meca o Xarife Baracate, entre os mouros mui celebrado em nome, não tanto por seus feitos, quanto por o grande discurso de tempo que viveu neste estado. E era senhor de Adem Xeque Hamede, o qual vezinhava com este outro Xarife por parte da terra chamada Jazem, que é dentro das portas do Estreito, defronte da Ilha Camarão. E era Rei de Ormuz Ceifadim, deste nome o segundo, e do reino de Guzarate, Machamude, o primeiro deste nome.
Assi estes Reis e Príncipes, como os mercadores per cujas mãos corria o comércio da especearia e orientais riquezas, vendo que com nossa entrada na Índia, per espaço tam breve como eram cinco anos, tínhamos tomado posse da navegação daqueles mares, e eles perdido o comércio de que eram senhores havia tantos tempos, e sobretudo éramos ua bofetada na sua Casa de Meca, pois já começávamos chegar às portas do Mar Roxo, tolhendo os seus romeiros, eram todas estas cousas a eles tam grã dor e tristeza, que não somente àqueles a que tínhamos ofendido, mas a todos em geral era o nosso nome tam avorrecido, que cada um em seu modo procurava de o destruir.

Cortesia de freguesiasantiagodelitem 
E como a gente a que isso mais tocava eram os mouros que viviam no reino de Calecute, ordenaram de enviar a embaixada ao grã Soldão do Cairo, como a pessoa que podia resistir a este comum dano, fazendo com o Samori, Rei da terra, que lhe enviasse um presente com outra tal embaixada, notificando-lhe os grandes males e danos que de nós tinha recebido, por defender os mercadores do Cairo residentes na sua cidade Calecute. Tomando por conclusão de seu requerimento, que lhe mandasse a grossa armada com gente e armas pera nos lançar da Índia, que ele a proveria de dinheiro e mantimentos, como lá fosse.

Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

domingo, 11 de julho de 2010

Lopo Soares de Albergaria: Como Governador da Índia pouco fez, além de no exercício do cargo lhe ser imputado a descoberta das ilhas de Ceilão e ter «merecido» o cargo depois de muito intrigar na Corte contra o «Leão dos Mares», Afonso de Albuquerque

(1460-O ano da morte é desconhecida)
Cortesia de Livro de Lisuarte de Abreu
Lopo Soares de Albergaria nasceu provavelmente, em 1460. Foi nomeado por D. Manuel I, em 1515, governador da Índia, sucedendo a Afonso de Albuquerque. Não conseguiu dar continuidade ao trabalho do «Terribil», tendo tido vários insucessos militares. Após três anos de governo na Índia, voltou a Portugal, deixando o cargo para Diogo Lopes de Sequeira, mas não sem antes fundar uma fortaleza em Colombo, Ceilão (actual Sri Lanka). Morreu em data desconhecida. Viveu, por algum tempo, em Vale de Cambra, no lugar da Portela de Vila Chã, no Solar de Refojos.

«Militar e político (séculos XV e XVI). A 22 de Abril de 1504, capitaneou a Armada que partiu para a Índia, onde derrotou os muçulmanos, em Calecute. Regressou a Portugal logo no ano seguinte, para rumar novamente para a Índia, depois de ter sido nomeado governador desse território, sucedendo a Afonso de Albuquerque em 1515. Dois anos depois, investiu contra os turcos no Mar Vermelho, sofendo retumbante derrota. Em 1518, criou uma fortaleza em Ceilão, sendo este identificado como o factor mais significativo da sua governação. A sua permanência no Oriente durou, contudo, pouco tempo, pois regressou a Portugal em 1519, depois de ter desagradado a portugueses e a indianos. Os descontentamentos terão começado mal chegou à Índia, devido às intrigas que lançou sobre Afonso de Albuquerque, inclusive junto da Corte. Reza a história que era um homem honesto. Em Portugal, retirou-se para a sua quinta de Torres Vedras». In História de Portugal, Dicionário de Personalidades, (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004.

Cortesia de wikipédia
«Lopo Soares de Albergaria foi figura controversa. Como Governador da Índia pouco fez, além de no exercício do cargo lhe ser imputado a descoberta das ilhas de Ceilão e ter "merecido" o cargo depois de muito intrigar na Corte contra o Leão dos Mares, Afonso de Albuquerque (que nunca conseguiu o titulo de Vizo Rey!). Na Índia o seu governo desagradou a todos. A sua expedição ao Mar Vermelho em 1517 (a sua armada sai de Lisboa em 1515) redundou num monumental fracasso. O seu governo dura apenas três anos, ao fim dos quais é substituído por Diogo Lopes. de regresso instala-se na Corte, onde é alvo de muitas desconsiderações, sobretudo por parte da rainha. Dispensando qualquer tipo de honras a que tinha direito, bandeia-se para Torres Vedras, onde se acolhe junto das filhas. O rei D. Manuel I intima-o a apresentar-se no Paço, em Lisboa, para prestar contas de acontecimentos havidos em Goa. O fidalgo recusou responder ás injunções do rei. D. Manuel insiste e intima-o a apresentar-se de imediato... Lopo Soares de Albergaria responde-lhe - pedindo que o dispensasse de tal mercê e "pois se era por questão de demandas com Fernão d'Alcaçova não se queria defender delas e se dava por condenado, para o que respondia sua fazenda; se mesmo fosse necessário o ser executado, em Torres Vedras havia picota para toda a execução e ele cá estava de pé quedo; e se sua Alteza o chamava para lhe fazer mercê e bem contente estava com o que tinha, porque Deus o trouxera para junto de suas filhas. El Rei D. Manuel I dispensou-se de insistir na sua demanda». In Aqueduto Livre, José António Albergaria.
(Os pecados de Bastião Pires)
Cortesia de infopédia/José Gomes Martins/História de Portugal/JDACT