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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Aurélio de Oliveira. Cartas de Etiópia. «Relaçam do caminho que fez o padre Antonio Fernandes da Companhia de Jesu, que anda em Ethiopa na coversam das almas, víndo com huma embaixada a El Rey de Portugal e a Sua Santidade por mandado do Emperador de Ethiopia no anno de 613»

Cortesia de livrariaai

NOTA: De acordo com o texto original

«E assi como Ëstes iuntos foram santos E fundados Em zelo do acrescentamento da Sancta Fee Catholica que os favoreceo Deus Nosso Senhor como nesta Historia se vera E os Portuguezes com a Esmola que de Dio se lhe mandava cada anno se foram remedeando, posto que apertadamente, porque dos mil pardaos que S.M. lhes dá grande parte se gasta Em despezas das roupas Em que vão Empregados, E nas peitas que se dam aos Turcos E direitos e tortos que lhes tomam nas Alfandegas de Suaqhem E Macuá e amuitos annos se perdeo todo o emprego com naufrágios E prezas que os Turcos de Maghá nas naos Em que Elle hia. E como os filhos E descendentes dos Portuguezes foram crescendo tanto que a Esmola que no principio se repartia somente por cento ou cento e sincoenta pessoas, se repartia já em nossos tempos por mil E, mil e dozentas sendo assi que não se reparte se não pellos cazados e viuvos não chegava a cada hua mais que hua teada quando muito E, as mais vezes, mea ou hum quarto della E ainda a esta pouquidade tinham os Abexins grandes envejas.

Cortesia de wikipedia

Enquanto floreceo a Santa Fee E no Emperador Soltan Çagued o amor com os Padres que lha insinavam E pregavam, repartio Elle largamente terras para as Rezidencias Em que Estavamos repartidos por varios Reinos; as quaes chegaram a ser dez ou onze. Destas terras davamos nós muitas aos Portuguezes, principalmente as viuvas E aos mais pobres E com Ellas se remediavão. Tambem Ras Cella Christos irmão do Emperador Soltan Çagued avocou a si muitos dos Portugueses para se servir delles nas guerras em que sempre se ocupou E deu lhes boas terras favorecendo-os quanto pode E com estas ajudas E com a Esmola que lhes hia de Dio E suas industrias Ë trabalhos viviam, estes años atraz os Portuguezes se não em muita abundancia ao menos sem muitas necessidades. E como o brio e primor os obrigava a se tratarem e trajarem o melhor que podessem os mais delles na Corte e Arrayal apareciam ordinariamente avantajados a muitos dos Abexins mais ricos. Porem, despois que começou a persiguiçam contra nossa Santa Fee Catholica, adeante se escrevera o muito que padecem de necessidades temporaes, injurias e affrontas.

Informação do caminho que se pode fazer de EthioPia pera Mombaça pollo Rio Brava (1613-1615)
Relaçam do caminho que fez o padre Antonio Fernandes da Companhia de Jesu, que anda em Ethiopa na coversam das almas, víndo com huma embaixada a El Rey de Portugal e a Sua Santidade por mandado do Emperador de Ethiopia no anno de 613.
O Emperador de Ethiopia Seltan Cogede,-que oje vive, desejando a reduçam daquele Imperio a Santa Igreja Romana e bem temporal de seu Estado, tratou de abrir caminho pólo Reyno de Merêa à Costa de Melinde, por onde pudesse ter trato com os portuguezes. Para isto ordenou huma embaixada em que mandava a Fecheresi, homem principal Abexim, e Volda Cristos, seu cunhado, em companhia do padre Antonio Fernandes. Partiram a 25 de Março de 613, de Colehâ, que he residencia dos padres da Companhia, no Reyno de Goyama, para Umbremâ, aonde o Visorey Cela Cristos esperava o padre e dando-le 7 Galas por guias, e dous Xatês, que he outra naçam de gentios Salteadores cuia terra jaz alem dos Galas, despediu o padre que, pondo-se a caminho, dahy a sinco dias chegou a Bezer, no Reino de Bisamô, terra de Cangas». In Aurélio de Oliveira, Cartas de Etiópia, Câmara Municipal de Vila Verde, edição Livraria AI, 1999, ISBN 972-571-446-6.

Cortesia da CM de Vila Verde/JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Aurélio de Oliveira. Cartas de Etiópia. «A este respeito, vendo as muitas necessidades que padeciam, escreveram por vezes a S.M. que lhes acudisse mandandolhes navios Em que pudessem vir para a India, aonde podiam povoar Ceilam ou qualquer outra terra E ajudar na Conquista como muito bons soldados que os mais delles sam»

Cortesia de livrariaai

NOTA: De acordo com o texto original
«No tempo d'el Rey Malac Çagued deu elle aos Portuguezes as terras ou serras de Namira Em que sam fronteiras aos Agaos, quaüo ou sinco legoas da fonte do Nilo. Estas terras posto que montuozas Eram assaz ferteis. E, nellas estiveram os nossos bem accommodados posto que em continuos assaltos: E foram grandissimas as vitorias que aqui alcançaram aos Agaos Especialmente sendo Capitão Jorge Nogueira que foj hum dos mais Esforçados E bem affortunados que houve em Ethiopia. Porém, despois que a custa de muito sangue seu que derramaram, foram aqui os Portuguezes Estendendo estas terras de sua Comedia. Foj logo tal a inveja dos Abexins que lhas fizeram tirar E apresentaram-nos En Danbia ao pee dos montes do Daneas, terras entan bravias E cheas de mato E espinhos.

Romperam-nas os Portuguezes E cultivaram-nas com muito trabalho, mas não lhes duraram muito. Logo houve muitos que as apeteceram, (e) os fezeram arrancar daquelle lugar.


Cortesia de livrariaai e aii.it

Deixo de contar outras muitas partes para que foram mudados. E o peor de tudo he que para se assinarem estas terras e Comedias manda o Emperador que apareçam os soldados com suas armas E se faça resenha do bando no qual contando aos soldados que podem tomar armas E servir na guerra, para estes somente manda dar terras E ficam muitos velhos, muitas mínimas E minimos orfãos E muitas viuvas aos quaes se não dá nada. Os Portuguezes Então como bons Christãos sam forçados a repartir com toda esta multidam de gente das terras que se dam so para a gente de guerra; E, ficam todos muito faltos.

A este respeito, vendo as muitas necessidades que padeciam, escreveram por vezes a S.M. que lhes acudisse mandandolhes navios Em que pudessem vir para a India, aonde podiam povoar Ceilam ou qualquer outra terra E ajudar na Conquista como muito bons soldados que os mais delles sam.

Não deffiriram a Esta petiçam posto que muita iusta, o Serenissimo Rej de Portugal havendo consideração a quem Em tam remotas partes Estendera E conservarva a Naçam Portugueza e fazia com tanto intento de Sua divina providencia. E por ventura Eram os da Reduçam do Imperio Abexim a Nosa Santa Fee catholica que por este meio pretendia levar ao Cabo. E posto que de tam bons vassalllos se pudiam inda Esperar grandes serviços, quizeram os Reis de Portugal privarse delles antes ajuntaram novas despezas de Sua Real fazenda asinando para estes filhos dos Portuguezes d'Ethiopia cada anno mil pardaos de mamudes nos rendimentos da Alfandega de Dio, acudindo desta maneira a suas necessidades E ordenando que fossem da India mandados Religiozos da Nossa Companhia que os fosse conservando na Santa Fee E juntamente a fossem pregando aos Abexins prometendo-se daquella pequena faísca hum incendio tan grande que alumiasse com a luz da Fee E abrazasse com o fogo do amor de Deos aquelle tan Estendido E errado imperio Abexim». In Aurélio de Oliveira, Cartas de Etiópia, Câmara Municipal de Vila Verde, edição Livraria AI, 1999, ISBN 972-571-446-6.

Cortesia da CM de Vila Verde/JDACT

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Aurélio de Oliveira. Cartas de Etiópia. «He verdade que naquelles principios os nossos deram a isto algua occasiãm pollas violencias de que muitos uzavam fazendo menos cazo dos Abexins E chegando alguns a lhes tomar Suas próprias molheres»

Cortesia de livrariaai

NOTA: De acordo com o texto original

Informação de como viveram os portugueses e seus descendentes na Etiópia (1657)
Como viverão em Ethiopia os Portugueses que lá passaram e seus descendentes
«Pareceo-me necessario dar esta noticia porque os Historiadores que escrevem as couzas desta terra fallam nesta materia com muita variedade, da qual pode nascer confusam. E, primeiramente, he certissimo que nenhumas Companhias de gente Portugueza Entraram no imperio Abexim mays que os 400tos soldados que acompanharam a D. Christovam da Gama E libertaram aos Abexins do jugo mahometano quando Granha lhes tinha posto. Antes de D. Christovão E sua gente somente tinha entrado Affonso De Paiva e apoz Elle que la viveo E morreo desde o ano de 1491 em que entrou ate o de 1522 no qual achando la o Padre Francisco Alvares E entrou este Padre con D. Rodrigo de Lima Embaixador d'El Rej D. Manoel com doze ou treze homens que o acompanhavam e os quaes todos voltaram com Elle no anno de 26 tirando dous como o conta o Padre Francisco Alvares no seu livro. No anno de 1555 entrou o Padre Mestre Gonçalo Roiz com o irmão Fulgenceo Freire de nossa Companhia que logo voltarão no seguinte ano de 56 E no de 57 Entrou o Bispo que despois ficou Patriarcha, D. Andre de Ouviedo, E com elle seus sinco Companheiros de nossa Companhia E juntamente 7ou 8 Portuguezes que por Sirviço de Deus o quizeram accompanhar. Isto digo para que se saiba o pouco fundamento com que se Escreveo Em Valença que Entraram neste império humas companhias de Letrados legistas outras de Iudeos Portuguezes e as muitas patranhas que sobre isto se fingiram com pouco temor de Deos E menos respeito ao decoro devido à Naçam portugueza.

Cortesia de olavilnius

Os portuguezes que ficaram Em Ethiopia da Companhia de D. Christovam que seriam ate 170, Emquanto viveo o Emperador Gladios foram delle tratados E aposentados com muita liberalidade Em terras largas Em que lhes athirou suas comedias. E ahi viviam em abstança conforme a terra tendo quazi todos mulas, cavallos e muitos criados que os acompanhavam na paz e na guerra e assi conta Diogo do Couto na Decada 7ª a 56. Quando Entrou Em Ehtiopia o B.D. Andre de Oviedo, que então Era Bispo somente porque vivia na India o Patriarcha de D. ]oão Nunez Barreto a quem lhe succedeo na dignidade Patriarchal. Nesta Entrada digo que foy no anno de 1557. Todos Portuguezes o receberam e agazalharam no caminho e o acompanharam ate a Corte ou Arrayal do Emperador todos muito lustrozamente vestidos, Encavalgados E acompanhados de muitos criados.

Porem, como diz o mesmo Diogo do Couto E consta pello que attaz escrevemos, no tempo do Emperador Adamas Çagued foram os Portuguezes muito desfavorecidos E muitos delles persiguidos do mesmo Emperador E assi foram caindo Em mizerias e falta do necessario. Durou pouco Adamas Çagued. Entrou no Imperio Seu filho Malu Çagued que reinou 33 annos. Este tratou melhor aos Portuguezes, mas não tanto que chegasse a liberalidade que com elles uzou o Emperador Gladios. E o certo que he que os Abexins geralmente mostraram sempre muita pouca feiçam aos Portuguezes assi por serem Estrangeiros como por invejas que sempre tiveram a Seu Esforço.

Cortesia de expressodasilhassapocv

He verdade que naquelles principios os nossos deram a isto algua occasiãm pollas violencias de que muitos uzavam fazendo menos cazo dos Abexins E chegando alguns a lhes tomar Suas próprias molheres. Contudo a principal rezão da pouca vontade que lhes tinham foj sempre terem os nossos por Errados na Fee, julgando os seus erros por verdades E as nossas verdades por Erros E Heregias. O que lhes dava muito nos olhos Era verem que os nossos não se circuncidavam E comiam lebre e Coelho E assi os chamaram sempre incircumcisos E Hereges Nestorianos.

He costume de Ethiopia, como acima disse no primeiro livro, tirar o Emperador muitas vezes as terras aos Senhores Capitais E Soldados a que as tem dadas. Este Costume exerceram os Emperadores muitas vezes com os Portuguezes E seus filhos que 1á viviam de maneira que ordinariamente lhe davão pera sua comedia algumas terras fronteiras aos mais fortes inimigos do Império aonde nunca tivessem Em paz E andassem perpectuamente com a lança na mão. E assi as terras que lhes athiraram foram humas no Reino de Boaro, nos confins do Reino Adel, cujos mouros foram sempre os que maior guerra fizeram aos Abexins». In Aurélio de Oliveira, Cartas de Etiópia, Câmara Municipal de Vila Verde, edição Livraria AI, 1999, ISBN 972-571-446-6.

Cortesia da CM de Vila Verde/JDACT